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Artigos-->PERFIL: FATIMA PARAGUASSU -- 03/09/2013 - 08:00 (Paccelli José Maracci Zahler) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Por Paccelli José Maracci Zahler

Aparecida Teixeira de FÁTIMA PARAGUSSÚ, acadêmica, historiadora, pesquisadora, escritora, poetisa, cantora, compositora, musicista, folclorista, dicionarista, em suma, multitalentosa, natural de Santa Cruz de Goiás, GO.

RCC: A senhora teve uma infância difícil, marcada pela pobreza. Quando foi seu primeiro contato com os livros?

Fátima: Aos seis anos de idade, quando aprendi, com meu irmão, ler e escrever.

RCC: Como era a sua vida na Rua de Baixo, em Santa Cruz de Goiás?

Fátima: Era só alegria! A não ser, quando passava boiada; morríamos de medo do estouro! Ou à noite quando era necessário sair e passar frente ao Beco da Venda Grande: local de desova dos ¹[1]banguês.
Éramos seis irmãos (três homens, três mulheres); eu era a caçula das mulheres e Antonio, o caçula geral.Tínhamos tarefas diárias: ajudar mamãe fazer farinha, polvilho; buscar lenha para o fogão caipira e água da ²biquinha para beber; cuidar dos afazeres domésticos e levar comida para os peões que ajudavam papai a limpar a roça de arroz...Tudo isso depois da escola.
Com onze anos, eu já ensinava os meus colegas de classe e ia à fazenda de Noêmia - mais ou menos um km; a pé- três vezes por semana, ensinar sua filha a ler e escrever.
Com sete anos de idade fui para escola e também aprendi a cozinhar. Subia em uma cadeira, não alcançava as panelas no fogão. Era movimentada a minha casa! Um fazendeiro deixava ovos caipiras, empalhados; frango, queijo para mamãe vender. Tínhamos uma boa freguesia! Aos sábados, areávamos as panelas com bucha feita de palha de milho esgarçada com garfo e areia fina; trocávamos os forros da prateleira. Ficava lindo! Tudo brilhando! Varríamos o terreiro da rua (assim chamávamos a frente da casa). Os vizinhos também varriam os seus; longo trecho, limpo e acolhedor, emendado. Depois do trabalho, as brincadeiras de roda, pique - pega, finca, baliza...; aos domingos, boneca de pano e cozinhadinha.
Não me lembro das dificuldades. O que permeia minha memória é a música Moendo Café, de Poly E Seu Conjunto; És Tu, Balalaica – folclore alemão; Poeira e tantas outras, tocadas na imponente radiola, acomodada em uma mesa, o único móvel de nossa sala de estar. Lembro o som do carro de boi: ralentava o canto para deixar em casa, jacás e jacás de mandioca para fazer farinha e polvilho. Lembro - me com emoção o guizo dos cavalos da cavalhada, no quintal da pensão da Donana. Minha casa ficava ao fundo desta pensão. Ali se preparavam para apresentarem. De repente ouvia a valsa Quinze Encontros, dobrados, canções executadas pela Banda Lira Oito de Dezembro, anunciando a festa que acontecia na rua de cima.
Nosso primeiro fogão a gás, vermelho, para combinar com a geladeira. A primeira televisão, preto e branco. Chuviscava tanto! Imagem horrível! Para fazer de conta colocávamos plástico colorido.
Aos 16 anos, terminei o ginásio; não tinha idade para fazer magistério em Catalão. Minhas irmãs foram; eu fiquei. Queria estudar, ganhar o meu dinheiro; fugir da torração de farinha que acabava com os olhos pelo excesso de fumaça. Passei a ministrar aulas em dois turnos, na minha casa. Atendia alunos do grupo escolar e do ginásio municipal. De manha, alunos que estudavam no período vespertino; à tarde, do matutino. Passavam umas quatro horas estudando – reforço escolar- Mamãe preparava beiju casado, tapioca ou mexido feito com a sobra do almoço para a turma lanchar. Era uma festa! Tornou-se meu ganho, até eu passar no concurso dos correios, aos 18 anos.


RCC: Sua mãe foi alfabetizada na idade adulta, pois trabalhava lavando e passando roupa e fazendo polvilho e farinha de mandioca para ajudar no sustento da família. Partiu dela o incentivo para estudar?

Fátima: Sim. Aprendeu pela TV (Telecurso). Já em voga o Ensino a Distância. Assistia às aulas e fazia as tarefas até aprender. Tinha sabedoria e participava de nossa vida em tempo integral. Quando ficamos sabendo que estudava de madrugada, já estava lendo e escrevendo. Fez tudo em surdina. Certo dia nos chamou para uma surpresa; leu uma carta que acabara de receber. Ficamos encantados com ela!

RCC: Seu pai era agricultor, encanador e músico. Foi ele quem despertou seu interesse pela música?

Fátima: Em parte, sim. A família dele era de músicos. Mesmo não os conhecendo, ouvia falar muito deles. Gostava de ver a banda local tocar; imaginava, como podia, alguém olhar aquelas bolinhas e transformar em musica! O papai gostava de ouvir música e isso lembro bem.

RCC: A senhora fez parte da primeira turma do Curso Ginasial de Santa Cruz de Goiás. O que isso significou?

Fátima: Realização do sonho de estudar. Foi a partir daí que as portas começaram a se abrir. Oito alunos formados, dançando valsa! Tenho, até hoje, o dicionário que ganhamos do padrinho da turma. Tivemos ótimos professores e foram eles quem me incentivaram a ensinar. Diziam que eu tinha o perfil de professora. Quando terminei o ginasial, novamente a frustração de não continuar os estudos.

RCC: A senhora concluiu o Curso Ginasial no período em que ele equivalia ao Magistério e habilitava os formando a ministrar aulas?

Fátima: Sim. Só que fiz contabilidade. Queria ser contadora e advogada.

RCC: Quando a senhora começou a trabalhar na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos?

Fátima: Não lembro o ano. Sei que trabalhei 4 anos.

RCC: Chegou a trabalhar na agência de Pires do Rio, GO, para fazer o Segundo Grau?

Fátima: Trabalhava nos correios de Santa Cruz. Ia para aula em Pires do Rio em uma Kombi, chamada Cacilda. Pagava mensalmente o transporte.

RCC: A conclusão do Segundo Grau foi em Goiânia, GO?

Fátima: Sim.

RCC: O que a motivou largar os Correios e montar um salão de beleza?

Fátima: Não deu certo nos correios. O salão me deixava mais livre para viajar.

RCC: Naquele período a senhora já estudava música?

Fátima: Comecei a tocar violão vendo outras pessoas tocarem; repetia os movimentos e aprendia os ritmos. As primeiras noções de partitura foi pelo Instituto Universal Brasileiro, quando trabalhava nos correios em Santa Cruz, aproveitava para estudar a distância; não tinha professor presencial. Quando saí dos correios e montei salão de beleza, em Goiânia, comecei a estudar música, de fato.

RCC: A senhora fez vestibular para Relações Públicas, porém, graduou-se em História. Essa guinada se deu pelo fato de Santa Cruz de Goiás ter sido uma das primeiras povoações do Estado?

Fátima: Não só por ter sido uma das primeiras povoações, mas por ser a minha Terra Natal. A mola mestra para a mudança de rumo foi compreender as várias Histórias que Santa Cruz de Goiás carrega.

RCC: Como foi a sua experiência na política?

Fátima: Aprendi muito, porém, era “pequena em política”. Não sabia como tudo se dava nos bastidores. A sigla partidária é quem decide as ações. À época eu sofri com isso; acreditava que conseguiria mudar algumas situações. Infelizmente, não consegui.. Fui a primeira mulher vereadora e presidente da Câmara. Bem votada! Hoje, tento devolver com trabalho, a confiança em mim depositada.

RCC: A senhora liderou o movimento que resultou na eleição de Santa Cruz de Goiás como uma das Sete Maravilhas do Estado de Goiás. Como foi que isso aconteceu?

Fátima: Recebi o telefonema de um amigo falando do concurso. De imediato disse que deveríamos inscrever Santa Cruz pela sua História; por outros atrativos iam aparecer muitos concorrentes. Assim, fizemos. Ligamos, passamos emails; fizemos uma campanha acirrada mostrando como votar, como indicar. As redes sociais ajudaram muito. Sugerimos visita ao site www.santacruzdegoias.net para quem não conhecia a cidade. Visitamos os postos de venda do jornal O Popular para confrontar as pessoas que ali frequentavam e pedir votos.

RCC: Poderia comentar sobre o seu trabalho na promoção das culturas populares?

Fátima: Esse olhar para as culturas populares surgiu da convivência e participação em conferências, fóruns e, principalmente, por presenciar atores exibidos em telões de seminários, congressos; sendo, apenas, objeto de estudo de doutores, mestres..., e nunca convidados a participarem dos eventos que eram exibidos. Jamais falaram por eles mesmos. A minha defesa é por políticas públicas com recorte para esse segmento; empoderamento e valoração de uma cultura legitima. Hoje, estou mediadora suplente do Colegiado Nacional de Culturas Populares do CNPC.

RCC: O que vem a ser a Escola do Sintipismo da qual a senhora é seguidora?

Fátima: Fernando Oliveira, pai do poema sintipo, composto, de um titulo, mais duas quadras e um verso para arrematar, que deve rimar com o titulo, além de um verso solto no centro, sem rima, mas em concordância com o tema. As duas quadras devem rimar: a primeira em decrescendo e a segunda em crescendo, e os versos rimados devem ter a mesma energia fônica, de preferência com rimas ricas.

Meu primeiro sintipo “Azul e Vermelho” em homenagem a Guajará Mirim/RO, fronteira com Bolívia, quando fui jurada do Festival Bumba Meu Boi - azul do boi Malhadinho e vermelho do Boi Flor do Campo - Azul e Vermelho inundaram a cidade,; além, das “voadeiras” que transitavam no rio Mamoré levando e trazendo pessoas da Bolívia.

AZUL E VERMELHO

O bailar das águas umedece a fronteira,
Emociona mesmo quem não queira.
A aragem refrescante do rio,
O glamour das voadeiras... arrepio.

As folhas dançam... pululam serenamente.
Lágrimas, alegoria, estandarte, toada,
Sol, lua, estrela, noite... madrugada.
O destino seu rumo segue, em remoinhos,
Pássaros em revoadas, procuram seus ninhos.

A imagem da cidade refletida no espelho

.RCC: Como é o seu trabalho de assistência espiritual em hospitais?

Fátima: Um trabalho desenvolvido anos a fio no HC junto a duas ex-alunas de violão ( enfermeira e fonoaudióloga do hospital) Cantávamos pelos corredores, nos quartos, UTI... Tínhamos um coral da Hemodiálise, toda quarta-feira à noite. Todos os segmentos religiosos trabalham: Dois dias da semana para católicos, dois para evangélicos e dois para espíritas. Uma vez ao ano reúnem-se para confraternização.
Os assistentes espirituais são capacitados para atender o doente sem impor dogmas.

RCC: Como foi a emoção de tornar-se membro fundador da Academia de Letras do Brasil, Seccional Distrito Federal?

Fátima: Não acreditei! Quando recebi o convite da escritora e humanista Vânia Diniz, perguntei a ela: ‘Por que eu? O que eu fiz para merecer tudo isso?´. Imortalizar-me! Ao discursar durante a posse, não me esqueci de reverenciar os mestres das culturas populares. Meu Patrono, Mário de Andrade, cantou comigo naquele momento!

RCC: Quais os projetos para 2013 da Seccional Santa Cruz de Goiás da Academia de Letras do Brasil, presidida pela senhora?

Fátima: Estamos organizando o Ponto de Leitura Viva e Reviva Santa Cruz que fica na sede da Associação dos Amigos de Santa Cruz. São projetos correlatos Por enquanto estamos, junto ao Departamento Municipal de Cultura, implantando o Sistema Municipal de Cultura e seus complementos. Essa é a prioridade para esse ano. Ação que favorecerá a Academia.

[1] Redes usadas para transportar defuntos da zona rural para sepultamento na cidade
² Mina de água natural; servia água potável à população. Situada em uma fazenda dentro da cidade.

(Publicado na Revista Cerrado Cultural, www.revistacerradocultural.blogspot.com), edição de setembro de 2013.
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