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Ensaios-->MODERNOS RELACIONAMENTOS -- 04/04/2006 - 14:00 (rodrigo mendes delgado) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
MODERNOS RELACIONAMENTOS


Gostaria de tecer algumas palavras acerca dos modernos relacionamentos. Se é que se pode chamar estas situações de relacionamento.
As pessoas não namoram mais, não. Elas ficam. Mas, o que é ficar. Ficar é estar ao lado de uma pessoa, mas não ter o direito de exigir absolutamente nada dela. É beijar, mesmo que você não seja beijado. É abraçar, mesmo que você não seja abraçado. É a moderna geração tribalista. "Eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". Este é o lema da modernidade.
As pessoas ficam, sem compromissos, sem exigências descabidas, afinal ninguém é de ninguém. Simplesmente não há compromisso. Diante disso a pessoa pode ficar com quantas pessoas quiser num mesmo dia. Promiscuidade? Claro que não, MODERNIDADE. A nova onda, aliás, é o namorix. A pessoa pode ter até três namorix, que são pessoas com as quais ela fica, mas com as quais não mantém qualquer tipo de relacionamento estável. Estas pessoas apenas beijam de língua e trocam fluídos corporais, mas não namoram.
Depois que ficam algumas regras se impõem: “Foi bom pra você? Foi bom pra mim também!”, mas nada de telefonemas, ou flores, nem mesmo cartões.
Tudo isso seria facilmente aceitável ou digerível, se as pessoas aceitassem pacificamente as conseqüências de seus próprios atos. Mas isso não acontece. Depois que a festa acaba, a luz se apaga e os convidados vão embora...depois que passam os efeitos do uísque com energético ou da batidinha de morango ou de abacaxi, as pessoas despencam no abismo da solidão, do vazio que passa a preencher suas existências. Superlotam os consultórios dos psicanalistas ou alugam os pobres ouvidos do amigo mais próximo, “chorando as pitangas” e reclamando de solidão. Mas, e as regras? Ora, ficar pressupõe ausência de compromisso, de afeto, de cuidados, de atenção, de carinho e de cumplicidade. Estas são as regras, e quando uma pessoa se propõe a jogar um jogo deve seguir as regras. Afinal de contas, é apenas um namorix, nada sério.
Algumas pessoas dizem que fazer psicanálise é frescura ou coisa de gente rica. Mera ilusão. A ajuda destes profissionais nunca foi tão solicitada. Até eu estou pensando em fazer psicologia.
Há algum tempo ir ao consultório de um psicólogo era coisa de outro mundo. Mas isso foi num tempo em que as pessoas verdadeiramente se respeitavam, em que os relacionamentos eram verdadeiros, onde os casamentos eram celebrados para durar a vida toda. Você que agora está lendo este singelo ensaio: quantos casais você conhece que completou bodas de ouro, ou seja, cinqüenta anos de casamento, de enlace matrimonial, de vida conjunta, de juras de amor, de amor verdadeiro, de cumplicidade? Muito poucos acredito, ou quase nenhum. Isso é triste.
O que estamos fazendo uns aos outros? Eu respondo: nós estamos permitindo que o sistema nos monetarize, nos capitalize, nos numerifique, nos torne coisas, produtos do mercado. Vendemos nosso tempo, nossa atenção. Não temos tempo para mais nada. Nem para nós mesmos. Onde estão nossos amigos?
Os poucos que sobraram nos vêem raramente, deixam uma pequena mensagem no fotolog, ou um mero “scrap” no Orkut.
O vazio se instala, porque os valores mais importantes estão se perdendo. As pessoas não escrevem mais cartas, mandam e-mail, uma coisa digitalizada, que não tem a magia da caligrafia, dos rabiscos decorrentes das palavras erradas. As pessoas não mandam mais recadinho no papel, mandam “scraps”, que as pessoas acham que significa recado, mas que, consoante o dicionário digital Michaelis significa: “[skràp] s. pedaço, fragmento, pedacinho, resto m.; refugo m., sobras f. pl.; briga f. || v. jogar no lixo; brigar.” O que as pessoas mandam umas para as outras são pedaços, refugos de mensagem, restos. Ora, pessoas não podem viver de restos. Somos dotados de sensibilidade, precisamos do todo, da integralidade dos sentimentos, sob pena de nos sentirmos vazios.
Nós nos distanciamos do mundo e das pessoas a todo o momento. Queremos atenção, mas somos incapazes de dar esta atenção aos outros. Diz o ditado: “Não exija dos outros, aquilo que nem mesmo você conquistou ainda”.
Alguns amigos nos encontram e perguntam: “Nossa! Quanto tempo. Por onde andou este tempo todo?”. E talvez devêssemos responder: “estive nos lugares onde tu não estavas; estava do outro lado da linha telefônica para a qual tu nunca ligaste; estou do outro lado da rua, na calçada onde tu nunca mais passaste; moro no número tal da rua tal, por onde tu passas todos os dias, mas que não tem tempo de parar e me cumprimentar. Senti falta de ti, e sempre estive no último lugar no qual tu pensarias em me procurar, dentro do teu coração, esperando por um sorriso, um gesto, uma palavra amiga. Lá estive eu”.
É inacreditável como achamos tempo para trivialidades como brigar com os visinhos, julgar nossos semelhantes, cuidar indiscriminadamente da vida das outras pessoas, mas não temos tempo de cultivar uma amizade. Não temos a capacidade de perguntar às pessoas se elas estão bem, se precisam de algo, coisas simplesmente simples.
E aí, depois da distância que esfria, depaupera e fragmenta os sentimentos, achamos tempo para ir ao velório daquele que não víamos há muito tempo, mas que marcou, de um certo modo, nossas existências. Neste fatídico dia, achamos tempo para tudo, para escolher a melhor roupa, desmarcar certos compromissos, para prestar nossas últimas homenagens à um corpo sem vida, sem brilho, que não mais nos pode receber com aquele velho sorriso, ou nos alegrar com aquela velha piada, que mesmo contada muitas e muitas vezes, sempre tinha graça, não por ser engraçada, mas por ser contada de uma maneira especial por aquele amigo, que quando a contava fazia gestos, caretas e mímicas que sempre arrancavam de nós gargalhadas e mais gargalhadas. Mas agora, a única coisa que vai ficar são as marcas de algo que se foi e que nunca mais irá voltar.
É... há coisas que, se não feitas no momento adequado se vão...sem deixar rastros.
Deveríamos valorizar mais as pessoas, porque um dia elas se vão, deixando para trás um grande vazio, e o sentimento inegável de que poderíamos ter feito mais por elas, poderíamos ter nos preocupado mais com os problemas dela, sorrido mais, as abraçado mais.
Já pararam para pensar em como são os abraços da modernidade? As pessoas mal se tocam, mal se encostam. Esse o preço do individualismo, que todos os dias o sistema capitalista nos impõe, e que nós, pacificamente, como marionetes que temos sido do sistema, aceitamos.
As pessoas não deveriam alimentar ilusões umas nas outras. Quando não há sentimento verdadeiro num relacionamento, as pessoas deveriam ter a decência de dizer a verdade. Antes magoar com a verdade, que rompe as barreiras tristes da ilusão, do que acalentar com a mentira, que apenas faz aumentar ainda mais a possibilidade do vazio.
Estas são palavras de quem já viveu um relacionamento vão e sem sentido, de quem já viveu de migalhas, mas que aprendeu que migalhas não são suficientes para saciar a necessidade do verdadeiro amor.
Acredito que uma pessoa nunca deveria tocar uma alma, se não estiver disposta a romper um coração. Nunca permita que uma pessoa se apaixone por você se você não estiver disposto a fazer o mesmo.
Não nutra ilusões, porque ilusões são o caminho mais cruel para o sofrimento de uma alma.
É chegado o momento de a humanidade refletir.



Rodrigo Mendes Delgado
Advogado e escritor


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