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Ensaios-->On achève bien les hommes -- 19/06/2019 - 23:28 (Pedro Carlos de Mello) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

On achève bien les hommes

 

            Curioso, comprei o livro A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu, de Dany-Robert Dufour. Queria ver como esse filósofo ateu comprovaria a existência de Deus e quais os argumentos que ele utilizaria. Conseguiria ele o seu intento? Se ele atingisse o seu objetivo, na prática ele seria um convertido, um ex-ateu. Provada a existência de Deus pelo autor, caberia a ele acreditar em Deus e, por conseguinte, deixaria de ser ateu. Eu, descrente, coloquei pouca fé no que o título do livro se propunha.

            Bastou-me a leitura das primeiras linhas para ver que o título não se encaixava, era inapropriado. Para começar, o autor fazia uma citação de Jean Rostand, do livro Pensamentos de um biólogo: “Está no destino do homem inventar deuses cada vez mais plausíveis nos quais acreditará cada vez menos.”

            Na primeira página, na “Introdução”, o autor faz um alerta: “Para evitar qualquer mal-entendido, previno desde logo que me penso como um ateu, se não militante, pelo menos convicto. E se reconheço de bom grado que os caminhos de Deus são impenetráveis, é bom que se saiba que até hoje não senti nenhum sinal prenunciador de uma possível e próxima conversão. Feitas estas ressalvas, espero, com a possível clareza, afirmo, no entanto, que não podemos sem grande prejuízo ignorar a questão de Deus.”

            Nas páginas seguintes, ainda na “Introdução”, após algumas considerações, o autor afirma “De minha parte, situo em outra parte o lugar onde busco provar a existência de Deus. No meu entender, é, antes de mais nada, nessa ínfima parte do universo que convém provar sua necessidade: na cabeça dos homens. De todos os homens. Pois incluo nesta proposição o ateu: ele teve necessariamente de se deparar com a questão de Deus para responder negativamente a ela”.

            Bem, pensei, então se trata de provar a existência de Deus na cabeça dos homens, o que, vamos convir, seria a mesma coisa que provar a inexistência de Deus. Novamente o título do livro me incomodou, era um título enganoso. Será que foi essa a intenção do autor? Só então recorri ao título original do livro. Em francês: On achève bien les hommes.

            Antes de continuar, devo esclarecer que não é meu objetivo tratar aqui da tese do autor. Aqueles que quiserem andar nesse sentido terão que seguir os passos do escritor lendo o seu livro, o que, indubitavelmente, recomendo. É especialmente instigante o desenvolvimento do conceito da neotenia, teoria que “entende o homem como um ser de nascimento prematuro, incapaz de alcançar seu desenvolvimento germinal completo e, no entanto, capaz ao mesmo tempo de se reproduzir e de transmitir suas características de juvenilidade, normalmente transitórias nos outros animais. Ao contrário dos outros animais, esse animal não acabado deve, portanto, finalizar-se fora da esfera da primeira natureza [o vivente], numa segunda natureza [o falante] geralmente chamada cultura”.

            Pois bem, o que estou me propondo a escrever é sobre essa pequena investigação que fiz em decorrência da disparidade existente entre o título original e o adotado pelo tradutor brasileiro, que, obviamente, não fez uma tradução, mas sim optou por outro título, no meu entender inadequado, como já mencionado.

            O fato de eu estar estudando francês foi um atrativo especial. Eu sabia que “On” é um pronome sujeito da língua francesa que, dependendo do caso, pode ser usado de três maneiras: as pessoas de modo geral (En France, on roule à droite – Na França, dirige-se à direita), uma pessoa indefinida (On me l’a déjà dit – Já me contaram) e nós (Qu’est-ce qu’on fait? – Que fazemos?), mas sempre com o verbo conjugado na 3ª pessoa do singular. No último caso, para fins práticos, eu diria que é semelhante ao que a gente faz na língua portuguesa (Viram? Utilizei a expressão “a gente”). Às vezes a gente diz “a gente vai ao cinema”, outras vezes dizemos “nós vamos ao cinema”.

            Eu não sabia o significado de “achève”. Já trato disso. As demais palavras do título são de fácil e direta tradução: bien = bem; les = os e hommes = homens (no sentido de seres humanos, abrangendo, portanto, homens e mulheres).

            Vamos ao dicionário (Palavra-chave, da WMF Martins Fontes) para ver o que significa “achève”. Trata-se do verbo “achever”. Literalmente é “acabar”, mas com três sentidos: 1) finalizar o que está começado (achever um travail – acabar com um trabalho); 2) dar o último golpe que leva à morte (achever un animal blessé – dar o tiro de misericórdia num animal ferido) e 3) terminar de arrasar, de desencorajar ( cette mauvaise nouvelle l’a achevé – esta novidade ruim acabou com ele/ela).

            Traduções possíveis para “On achève bien les hommes”: 1) A gente acaba bem os homens; 2) Nós acabamos bem com os homens; 3) Acabemos (bem) com os homens, dando um tiro de misericórdia neles; 4) A gente está acabando (bem) com os homens; 5) Acabam-se bem os homens e 6) Outras variantes, com os verbos terminar, liquidar, atirar e com os pronomes nós ou eles. Pensei que talvez o título do livro pudesse ser uma expressão idiomática francesa, mas não encontrei registro dessa possibilidade no dicionário de expressões que tenho. Não fiquei satisfeito. Não sei que sentido o autor quis utilizar para o seu livro e nem que sentido faria sentido ao tema do livro. Talvez o tradutor tenha tido as mesmas dúvidas que eu e por isso optou por dar outro título ao livro (a exemplo daquele indivíduo que, não sabendo se sexta-feira era com “s” ou com “x”, transferiu a reunião para sábado).

            Repassei a questão para a minha professora de francês, que também ficou em dúvida sobre qual o sentido que o autor queria dar ao título do livro, acrescentando, porém, que o verbo “achever” também tinha o sentido de modelar, de formar, de melhorar (usando o sentido literal do verbo: dar acabamento)

           

            Mas, e o que tem a Internet a dizer sobre isso? Primeiramente fui ao Google Tradutor. Digitei “On achève bien les hommes” e a tradução em português veio como “They shoot homens”. O que o Google Tradutor não sabia traduzir para o português, ele tentou traduzir para o inglês. E o que significa “shoot”, em inglês? Significa atirar, abater a tiros, caçar. Há correlação com “dar o tiro de misericórdia num animal ferido”, um dos sentidos do verbo “achever” francês. Continuo insatisfeito. Vamos em frente.

      Digito o título do livro em francês no Google: mais de sete milhões de resultados. Em alguns dos primeiros sites pesquisados, encontro, basicamente, a divulgação do livro pela editora, livrarias e imprensa. Aqui, de pronto, dois detalhes: 1) A tradução do Google para o título do livro novamente registra “They shoot homens”, mas também aparece no site da “Amazon França” “Ambos os homens é completada”. A palavra “ambos” está fora de contexto, mas “completada” é compatível com um dos sentidos de “achever”; 2) O livro publicado em francês tem um subtítulo: “De quelques conséquences actuelles  et futures de la mort de Dieu”, ou, em português, “Algumas conseqüências atuais e futuras da morte de Deus”. Com isso, pelo menos uma das minhas dúvidas se acaba: o título do livro em português realmente é enganoso. O tradutor (ou o revisor, ou a editora) omitiu o subtítulo do livro, que fala em “morte de Deus”, que seria incompatível com o título, que registra “a existência de Deus”. Claro que os antagonistas dirão que “morte” somente atinge quem existe; logo, Deus, ainda que não exista hoje, segundo quem acredita em sua morte, antes então, existiu. Esquecem-se eles (ou não sabem) que a expressão “morte de Deus” foi primeiramente utilizada por Nietzsche, no sentido figurado de que antes existia a crença em Deus e que agora essa crença deixou de existir, morreu, isto é, “na cabeça dos homens”, no mesmo sentido que o autor do nosso livro em questão emprega.

            Embora tenha encontrado muitos pontos interessantes em minha pesquisa (registrando que esta se limitou a algumas dezenas de sites, muito longe, obviamente, dos mais de sete milhões de resultados mencionados) vou ater-me aos que considerei principais.

            Tudo indica que a expressão tenha se originado inicialmente do livro They shoot horses, don’t they?, do escritor americano Horace McCoy, escrito em 1935 e, posteriormente, da adaptação feita para o cinema, com o mesmo título, em 1969, por Sydney Pollack, com Jane Fonda e Michael Sarrazin. Na França, tanto o livro como o filme levaram o título de On achéve bien les chevaux. Na Espanha, o livro foi titulado Acaso no matan a los caballos? e o filme, Danzad, danzad, malditos. No Brasil, o livro foi lançado pela Editora Globo em 1947, com o título de Mas não se mata cavalo?, seguido de várias edições com o mesmo título por diversas editoras, sendo a penúltima em 2007, porém com o título Mas não se matam cavalos? pela L&PM Editora e a última, em 2012, com o título de A noite dos desesperados, pela Sá Editora, que deve ter-se valido do título que o filme ganhou no Brasil: A noite dos desesperados. Em Portugal, o filme recebeu o título de Os cavalos também se abatem (Creio que este título está incorreto e que deveria ser “Os cavalos também são abatidos”. Na forma em que se encontra, parece que os cavalos se abatem uns aos outros). Encomendei o livro Mas não se matam cavalos, de Horace McCoy, da L&PM e o filme A noite dos desesperados, de Sydney Pollack. Vi o filme e li o livro, sendo que o filme é bastante fiel ao livro, embora o espectador e o leitor tomam conhecimento de alguns acontecimentos da história em momentos diferentes.

            Eis o que a L&PM escreveu na contracapa do livro:

            “Uma pungente novela sobre o desespero”

            “A depressão econômica da década de 1930 nos Estados Unidos fez as pessoas tomarem medidas drásticas para sobreviver. Popularizaram-se no país as maratonas de dança – competições públicas em que casais dançavam por dias a fio, desafiando os limites dos seus corpos diante de uma platéia animada, na tentativa de ser a última dupla remanescente. Em um período de fome e desespero, parecia uma maneira simples de ganhar um dinheirinho. Mas tais concursos escondiam uma agressividade e uma violência social usualmente não associadas aos salões de dança.”

            “Em Mas não se matam cavalos? (1935), Horace McCoy (1897-1955) apresenta Robert Syverten e Gloria Beatty, duas pessoas sem perspectiva alguma, que decidem participar de uma maratona de dança achando que, assim, granjearão alguma oportunidade de trabalho em Hollywood. Quando de sua publicação, a novela foi considerada experimental devido à maneira como é utilizado o recurso de flashback. Em 1969, o livro foi adaptado para o cinema por Sydney Pollack, com Jane Fonda no papel de Gloria. Tanto o livro quanto o filme chocaram o público ao mostrar o mundo como um lugar em que aqueles sem dinheiro ou status social lutam como podem pela sobrevivência – tendo à frente apenas a certeza da morte.”

            “Um livro pungente, impossível de largar.”

            Já a embalagem do DVD divulga o seguinte texto:

            “Um sórdido retrato de tempos difíceis, uma alegoria existencialista (Variety Staff – Variety)”

            “Esta é uma história cruel e selvagem que tem lugar entre os participantes de uma maratona de dança durante a Grande Depressão americana. Rocky (Gig Young) é o detestável mestre de cerimônias de um concurso que oferece 1.500 dólares ao vencedor. Uma peq           uena fortuna para essa dura época em que a falta de emprego e a péssima economia atingem a população. Principalmente aos participantes que estão à beira do desespero. Entre eles estão: Gloria (Jane Fonda) uma mulher infeliz e deprimida que faz dupla com Robert (Michael Sarrazin) um aproveitador [não vi elementos no filme para o personagem receber esta classificação]; Ruby (Bonnie Bedelia) uma garota do campo que está grávida e seu marido James (Bruce Dern); um marinheiro (Red Buttons) e uma atriz aspirante (Susannah York). Na medida em que o concurso se estende ao segundo mês, a raiva, a suspeita, dúvidas e insegurança atingem todos participantes, inclusive o cruel e manipulador Rocky, levando todos a um chocante final.”

            No livro, o leitor é informado já no início sobre a morte de Glória que pediu ao seu parceiro para matá-la. Enquanto transcorre o julgamento de Robert, ele vai contando sua história, a maratona de dança e como tudo terminou. No filme, só sabemos isso no final.

            Mas, afinal, onde entram os cavalos nessa história? No filme, as cenas iniciais mostram um cavalo trotando e um menino correndo no campo e, mais atrás, um homem mais velho. O cavalo cai sob olhos dos dois, quebrando uma perna. O velho prontamente sacrifica o animal com uma espingarda, diante da tristeza do menino. Intercaladas a essas cenas vão sendo comunicadas as regras da maratona de dança. Ao final do filme, não sem antes presenciarmos toda a sorte de situações diretas e indiretas que nos levam a comparar a sorte desses seres humanos participantes da maratona a animais feridos, Gloria, no cume do seu desespero, entrega um revólver a Robert, situação em que se dá o seguinte diálogo, iniciado por Glória:

            “– Vou pular fora desse carrossel. Estou tão cansada dessa coisa toda.

            – Que coisa?

            – Da vida. E não me venha com sermões cheios de luz.

            – Não ia.

            ...

            – Me ajude. Por favor, por favor.

            – Diga quando (Com o revólver apontado para a cabeça de Glória).

            – Estou pronta.

            – Agora?

            – Agora.”

            O tiro é dado e Glória começa a cair em câmara lenta e a continuidade da queda de seu corpo se dá em um campo florido (numa clara analogia ao campo em que o cavalo é abatido nas cenas iniciais do filme)

            Quando a polícia chega e prende Robert, o policial que o conduz à viatura lhe pergunta:

            “– Por que fez isso rapaz?

            – Ela me pediu.

            – Como é obediente. Essa foi a única razão, rapaz?

            – Sacrificam cavalos, não sacrificam? (They shoot horses, don’t they?).”

            Falei primeiramente de como as coisas acontecem no filme, porque vi primeiro o filme e depois li o livro. Mas, obviamente, também no livro, as referências aos cavalos são postas. Extraio alguns trechos para mostrar isso:

            “– A moçada só tem alguns minutos antes de se retirar para um merecido descanso – Rocky anunciou ao microfone. – E enquanto eles estiverem fora da pista, senhoras e senhores, os pintores farão um círculo oval na pista para o dérbi desta noite. Dérbi hoje à noite, senhoras e senhores: não se esqueçam do dérbi. É a coisa mais emocionante que já viram... Tudo bem, moçada, faltam dois minutos para o descanso... Um pouco mais de velocidade, moçada... Mostrem aos presentes como vocês são fortes... Vocês da platéia também, mostrem a essa moçada que podem contar com o apoio de vocês...”

            “– Senhoras e senhores – Rocky disse ao microfone –, antes de começarmos o sensacional dérbi, gostaria de chamar sua atenção para as regras. Devido ao número de participantes, o dérbi será feito em duas seções: quarenta pares na primeira e quarenta na segunda. O segundo dérbi será feito logo depois do primeiro, e as entradas serão decididas por sorteio dos números deste chapéu. Vamos fazer os dérbis em duas seções durante uma semana, e o casal que fizer o menor número de voltas será eliminado. Depois da primeira semana haverá apenas um dérbi. A moçada vai correr em volta da pista por quinze minutos, os rapazes vão correr com os calcanhares e nas pontas dos pés, as moças vão trotar ou correr, como preferirem. Não há um prêmio para o vencedor, mas se alguém da platéia quiser dar um prêmio em dinheiro para animar a moçada, tenho certeza de que eles vão gostar. Todos podem ver as camas no meio da pista, as enfermeiras e os treinadores de pé segurando pedaços de laranjas, toalhas molhadas, sais aromáticos e um médico de plantão para ver que nenhum desses jovens continuem a correr se não estiver em boas condições físicas.”

            “Glória e eu deixamos que os cavalos de corrida dessem o ritmo. Não fizemos nenhum esforço para ficar na frente. Nosso esquema era chegar a um ritmo estável e mantê-lo.”

            Bem, dérbi é uma palavra de origem inglesa, em referência a Lord Derby, que deu início à corrida de cavalos chamada Derby de Epson, em 1780. Vemos, então, quão bem empregada está a palavra dérbi. Inserir corridas entre os participantes, em meio a uma maratona de dança, para extenuar ainda mais os casais, eliminando os mais vagarosos, parece até uma situação mais dura do que as próprias corridas de cavalos.

            A exemplo do filme, embora seja um pouco repetitivo, transcrevo a seguir a narração que Horace McCoy, na voz de Robert, dá no final de sua história. Diferentemente do filme, somente aqui, fica a referência explícita ao sacrifício de cavalos, como veremos:

            “Glória estava remexendo na bolsa. Quando tirou a mão de dentro, vi que estava segurando uma arma pequena. Não tinha visto a arma antes, mas não fiquei surpreso. Não fiquei nada surpreso.

            – Pegue – ela disse, entregando a arma para mim.

            – Não quero. Guarde isso – eu disse.– Vamos, vamos voltar lá para dentro. Estou com frio...

             – Pegue e ajude a Deus – ela disse, pressionando a arma em minha mão. – Atire em mim. É o único jeito de me salvar deste sofrimento.

            ‘Ela está certa’, disse comigo ‘É o único jeito de salvá-la desse sofrimento.’ Quando eu era criança passava as férias na fazenda de meu avô em Arkansas. Certo dia estava perto do defumadouro, vendo a minha avó fazer sabão numa grande panela de ferro, quando meu avô atravessou o jardim, muito agitado. ‘A Nellie quebrou a perna’, meu avô disse. Minha avó e eu subimos a escada para o jardim onde meu avô estava arando. A Nellie estava no chão gemendo, ainda presa ao arado. Ficamos ali olhando para ela, só olhando para ela. Meu avô voltou com a arma que tinha usado em Chickamauga Ridge. ‘Ela pisou num buraco’, ele disse acariciando a cabeça de Nellie. Minha avó me virou para o outro lado. Comecei a chorar. Ouvi um tiro. Ainda escuto esse tiro. Corri até ela, me joguei no chão, abraçando o pescoço dela. Eu amava aquela égua. Eu odiei meu avô. Me levantei e fui até ele, bati nas pernas dele com meus punhos... Mais tarde, naquele dia, ele me explicou que também amava Nellie, mas que teve que atirar nela. ‘Era a coisa mais bondosa a fazer’, ele disse. ‘Ela não ia ficar boa. Era o único jeito de salvá-la do sofrimento...

            Eu estava com a arma na mão.

            – Tudo bem – eu disse a Glória. – Diga quando.

            – Estou pronta.

            – Onde?

            – Aqui mesmo. Do lado da cabeça.

            O píer pulou quando uma onda grande se quebrou.

            – Agora?

            – Agora.

            Atirei nela.

            O píer se mexeu de novo e a água fez um barulho de engolir algo quando voltou para o oceano.

            Joguei a arma no mar.

           

            Um policial estava sentado atrás comigo enquanto o outro dirigia. Estávamos indo bem depressa e a sirene tocava. Era o mesmo tipo de sirene que usaram na maratona de dança quando queriam nos acordar.

            – Por que você a matou? – perguntou o policial no banco de trás.

            – Ela me pediu – eu disse.

            – Escutou isso, Ben?

            – Que filho-da-puta mais prestativo!  – disse Ben, por cima do ombro.

            – É seu único motivo? – perguntou o policial do banco de trás.

            – Mas não se matam cavalos? – eu disse.”

            O livro integra a lista dos 1001 livros para ler antes de morrer, de Peter Boxall (Editor geral). Em trecho da resenha, Andrew Pepper, professor assistente de inglês e literatura americana na Queen’s University de Belfast, escreveu:

            “A maratona de dança também é usada para comentar a exploração inerente a certas formas populares de entretenimento, bem como a desvalorização da vida pelo capitalismo. Ao contrário da banalidade açucarada da maioria dos filmes hollywoodianos, ela é imprevisível, dolorosa, violenta e niilista. Os participantes são commodities, ‘cavalos’ que podem ser sacrificados tão logo deixem de ser úteis ou produtivos. Essa é a essência da crítica social de McCoy, uma crítica que, aos moldes da própria maratona, não leva a lugar nenhum.”

                       

            Isto posto, parece não restar dúvidas que o sentido que os franceses deram ao traduzir “They shoot horses, don’t they?” para “On achève bien les chevaux” não é outro que não o de “dar o tiro de misericórdia nos cavalos feridos, para deixarem de sofrer”.

            No entanto, os franceses passaram a usar a expressão nas mais variadas situações. Assim são os livros, peças de teatro, filmes, artigos, cujos títulos são On achève bien les grecs – Chroniques de l’euro 2015, On achève bien les écoliers, On achève bien nos vieux, On achève bien les jeunes, On achève bien les livres, On achève bien les anges, On achève bien les chauffeurs de taxi, “On achève bien les disc-jockeys, On achève bien les tonneaux, On achève bien l’info, On achève bien les investissements étrangers, On achève bien le ministère e outros, além, é claro, do nosso On achève bien les hommes, referindo-se, respectivamente, aos gregos, aos estudantes, aos velhos, aos jovens, aos livros, aos anjos, aos motoristas de táxi, aos DJs, aos barris de vinho, à informação, aos investimentos estrangeiros, ao ministério e aos homens.

            Os próprios franceses reclamam da utilização descuidada da expressão, como observamos no site “lesmediasmerendentmalade.fr” ou, traduzindo, “os meios de comunicação me deixam doente”. Sob o título geral de “A patologia da mídia” e o título específico “On n’achève pás les sots”, algo como “A gente não consegue acabar com os tolos”, o autor escreveu:

            “On achève bien les chevaux é o título em francês de um filme célebre de Sydney Pollack de 1969 adaptado do romance homônimo de Horace McCoy (em inglês filme e romance têm por título They shoot the horses, don’t they?). A imprensa preguiçosa adora fazer malabarismos com esse título, particularmente o Courrier International. Três exemplos entre uma dezena: ‘No Iraque, on achève bien les athlètes’; ‘On achève bien les gorilles des montagnes’ e  ‘On achève bien les petits équipes’. Portanto, o sentido desta expressão não é aquele que lhes dão alguns sots achevés (tolos bem acabados) e sem inspiração: ele não é nem aquele de ‘certas pessoas têm uma técnica eficaz para acabar com os cavalos, dando-lhes o tiro de misericórdia, nem aquele, mais amplo, de ‘certas pessoas têm uma técnica temível de matar, exterminar, ou erradicar. O sentido, totalmente outro, é precisamente este: se abatemos um cavalo ferido que sofre, então por que, por pena, não abateríamos também um ser humano desgostoso da vida que nos estende um revólver e que nos pede que lhe mate? Descobrimos esta expressão amarga e desiludida da boca de Robert Syverten em resposta ao policial que lhe interroga sobre o assassinato que ele veio a cometer.

            Os títulos do Courrier International não são em geral uma tradução literal dos títulos originais, eles são adaptados ao gosto francês. Assim, ‘On achève bien les gorilles des montagnes’ corresponde no Newsweek, de onde o artigo foi retirado, a um artigo intitulado Gorilla Warfare (algo como ‘Guerra do gorila’). Em outras palavras, o título original não é ‘They shoot mountains gorillas, don’t they?’

            William Safire, em artigo de 26.01.1997, do New York Times, conta que o político francês Alain Juppé, ao ouvir a pergunta de Roger Cohen do The New York Times “se suas confissões pessoais publicadas recentemente em livro (Entre nós) poderiam piorar sua imagem”, deu uma curiosa resposta: “Talvez. On achève bien les chevaux” (em ingles “They shoot horses, don’t they?”).

            O articulista faz uma análise, então, da resposta de Juppé: “Qual é a origem e significado dessa frase, expressa por Juppé em francês? Ele traz ao conhecimento ou lembrança dos seus leitores a história contada por Horace McCoy no seu livro They shoot horses, don’t they?. E acrescenta que, “assim como James M. Cain, outro romancista duríssimo do período, McCoy era popular na França; sua editora, Randon House, resenhou que McCoy foi ‘saudado pelos críticos da França como estando no mesmo nível de Hemingway e Steinbeck.(...) O significado, tanto na França como na América, é claro: ‘Às vezes você tem que ser cruel para ser gentil’. Mas considerando a possibilidade de que seu livro possa piorar a situação, o uso da frase pelo Premier Juppé é ambíguo; isso poderia significar ‘Então eu talvez dê um tiro no próprio pé’ ou ‘ Com essa revelação pessoal, eu poderia estar dando fim à minha carreira e saindo de minha miséria’.”

            Escreveu ainda William Safire: “Sua inspiração veio da frase original do duríssimo McCoy, que morreu em 1955? Os dicionários de citações Bartlett e Oxford cita-o como fonte. Os franceses usam muito os cavalos em provérbios: “Il n’est si bon cheval qui ne bronche”, que significa ‘O melhor cavalo pode tropeçar’, “Il est aisé d’aller à pied quand on tient son cheval par la bride’, que seria, literalmente, ‘é fácil ir a pé quando se tem o cavalo pelas rédeas’, significando que ‘é fácil  descer de uma alta posição, quando essa posição pode ser retomada à vontade’. Mas nosso adágio de miséria-amor-despacho não pode ser encontrado entre provérbios franceses. Até que seja refutado, é o verdadeiro McCoy.”

            A expressão está também em uma canção francesa de Laure Milan:

            “Je t’ai donné tout mon amour

            Sans penser que tu pourrais um jour

            A bout portant, tirer dans mon dos

            Mais on achéve bien les chevaux.”

            A compositora diz ter dado a alguém todo o seu amor e que, assim como podemos abater os cavalos feridos, que são inocentes, ela também pode fazer a mesma coisa com ele, dando-lhe um tiro à queima-roupa pelas costas.

            Encontramos a utilização da frase novamente no Le Courrier International, em um artigo que fala do descaso da administração pública para com os professores: “Après tout, on achève bien les chevaux. Porquoi pas les professeurs de français?”, isto é: Damos o tiro de misericórdia nos cavalos. Por que não nos professores de francês?

            Raza Abazid, fundadora da Syrie Moderne Démocratique Laïque faz uso da expressão no título de seu artigo, de 27 de setembro de 2016, sobre Aleppo, a cidade síria destroçada por conflitos bélicos, “On achève bien Alep...”:

            “À l’heure où l’on abat les enfants comme l’on achève les chevaux pour qu’il ne souffre pas longtemps de leurs blessures, je me demande jusqu’où aller l’indifférence.” (Quando as crianças são abatidas como se abatem os cavalos para que eles não sofram por muito tempo de seus ferimentos, eu me pergunto até que ponto pode chegar a indiferença?).

            Encontrei, ainda, no “Le Parisien SensAgent Dictionnaire”, no verbete que falava do filme “On achève bien les chevaux” a seguinte menção: “La traduction française du titre anglais original [They shoot horses, d’ont they?] est littérale: l’adverbe ‘bien’ est à prendre au sens comparatif (également) ou interrogatif, et non qualitatif (correctement)”. Algo como: A tradução francesa do título original em inglês é literal: o advérbio ‘bem’ no seu sentido comparativo (igualmente, também) ou interrogativo, e não qualitativo (corretamente, bem).

            Este sentido da palavra “bien” (bem) tinha me escapado inicialmente. Agora faz mais sentido a tradução francesa para o título do livro e do filme, guardando também coerência com as traduções portuguesa e espanhola (estas apenas para o livro). Façamos um exercício de tradução literal, observando que, mesmo a tradução literal do verbo “achever” comporta variantes, como atirar, matar, sacrificar, acabar, abater, dar o tiro de misericórdia:

a)    do inglês para o português: “Eles atiram em cavalos, não atiram?”

b)    do francês para o português: “A gente também atira em cavalos.”

c)    do espanhol para o português: “Por acaso não matam os cavalos?”

            Mas estes conceitos se aplicam também ao título original do livro A existência de Deus comprovada por um filósofo ateuOn achève bien les hommes”, simplesmente substituindo a palavra “chevaux” (cavalos) por “hommes” (homens)? “Eles atiram em homens, não atiram?”, “A gente também atira em homens” e “Por acaso não matam os homens?”. Ou o título está com um sentido alternativo utilizado pelos franceses, a exemplo dos expostos neste texto?

            Bem, entendendo não ser possível que, na continuidade da leitura do livro A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu, não aflorasse explicitamente o motivo pelo qual o autor deu o título ao livro (o original, em francês, não o brasileiro), segui em frente. Quase ao final do livro (nas páginas 324 e seguintes), a revelação. Para um mínimo entendimento, devo fazer uma transcrição um pouco mais longa:

            “Hoje, no momento em que nosso destino político está essencialmente nas mãos do Mercado, vale dizer, de comerciantes e financistas sem escrúpulos, de magos duvidosos, de médicos e cientistas descontrolados, alguns dos quais se limitam em grande medida a retomar, com outros meios, as terríveis experiências de um Mengele, é essencial a abertura de um espaço político e filosófico de discussão dessas questões. Pois o fato é que existe hoje um programa de fabricação de uma ‘pós-humanidade’. Esse programa é oculto: os neotênios não devem ser assustados, não se deve, sobretudo, permitir que eles entendam que estão sendo levados a trabalhar na abolição do neotenato – vale dizer, em seu próprio desaparecimento. Mas esse programa é tão poderoso que acaba por se revelar, aqui ou ali. Assim é que Francis Fukuyama, o grande arauto do neoliberalismo, que havia proclamado depois da queda do Muro de Berlim o início do fim da História, com o advento generalizado das democracias liberais, teve de recuar e reconhecer que o triunfo do Mercado não era o último episódio da história humana, mas que um outro haveria de seguir-se: a transformação biológica da humanidade. Mas infelizmente essa tomada de consciência serviu apenas para que ele mergulhasse em um novo erro de apreciação. Fukuyama quer crer, de agora em diante, que o neoliberalismo será capaz de nos preservar dessa engrenagem fatal... embora seja exatamente isso que nos conduz diretamente a essa engrenagem! Para ele, com efeito, a democracia de mercado seria um estado perfeito se não fosse ameaçado pelo desenvolvimento de certas técnicas: ‘uma técnica poderosa o suficiente para remodelar o que somos pode perfeitamente ter conseqüências potencialmente negativas para a democracia liberal’. Evidentemente, convenhamos, se não existem mais homens, a democracia corre o risco de funcionar no vazio. Para evitar esse perigo, bastaria que ‘os países regulem politicamente o desenvolvimento e a utilização da técnica’, segundo Fukuyama. Boa intenção sabidamente irrealizável que não custa nada e permite a Fukuyama não tocar no essencial: é o Mercado que alimenta o desenvolvimento sem fim das tecnociências, as quais, não reguladas, conduzem diretamente à saída para fora da humanidade. E, no entanto, esse vínculo fica claro: como o Mercado implica o fim de toda forma de inibição simbólica (vale dizer, o fim da referência a todo valor transcendental, em proveito apenas do valor mercante), nada, se ficarmos nesta lógica, poderá impedir que o homem se liberte de toda idéia que pretenda mantê-lo em seu lugar e saia de sua condição ancestral assim que tiver condições de fazê-lo. Não é, portanto, apenas a ciência, como se costuma dizer, mas a ciência acrescida do efeito deletério do Mercado sobre os valores transcendentais que estaria em condições de permitir a realização desse programa. Ontem, o homem neotênio se completava mediante suplementos teológicos-políticos, próteses e gramáticas. Hoje, a contestação em ato desses suplementos pela lógica do Mercado nos faz temer que se inaugure uma nova época na qual a velha questão do acabamento do homem seja enfrentada de maneira inteiramente distinta: não mais mediante procedimentos simbólicos, mas por meios reais. O acabamento deveria, então, ser entendido em outro sentido: o que se encontra muito claramente numa expressão como ‘acabar com os homens’*. Volto, assim, a fazer a pergunta que já havia feito no fim de Os mistérios da trindade: existiria em nossas democracias pós-modernas, nas quais tudo pode ser dito, uma instância política para decidir se queremos ou não essa mutação? Nada poderia ser mais duvidoso.

            Ora, a ausência desse lugar pesa muito. Vemos aonde poderia conduzir a saída do neotenato: diretamente à entrada numa era de produção de indivíduos considerados superiores, tendo escapado ao engendramento. Ou de indivíduos inferiores para as tarefas subalternas. A existência, hoje em dia banalizada, de organismos geneticamente modificados deveria deixar-nos com a pulga atrás da orelha: seria possível a curto prazo fabricar, por clonagem e modificação genética, novas variantes humanas.

            * Expressão usada com duplo sentido: fazer o acabamento de e acabar com. Ela integra o título do livro na edição francesa – On achève bien les hommes... (N.da.R.T.).”

            A nota acima transcrita (no livro está ao pé da pagina 326) é da revisora técnica da tradução Marilia Amorim. Se essa nota já constasse do início do livro (o que seria algo perfeitamente concebível, já que se trata da explicação do sentido do título original do livro), eu não teria tido (e de resto, os leitores em geral) todas essas dúvidas e questionamentos aqui expostos. Mas claro, aí eu não teria lido o livro Mas não se matam cavalos, de Horace McCoy, nem visto o filme A noite dos desesperados, o que teria sido uma grande perda. Observa-se, ainda, na nota, novamente, a omissão (representada pelos três pontinhos) do subtítulo original do livro “De quelques conséquences actuelles  et futures de la mort de Dieu”, ou, em português, “Algumas conseqüências atuais e futuras da morte de Deus”, obviamente, porque contradiz o título do livro em português, conforme já comentamos.

            De qualquer forma, entendo que o autor, embora fale no constante acabamento que o homem vem recebendo em decorrência dos avanços técnico-científicos e da lógica do Mercado, transmite-nos a idéia de que esse “aperfeiçoamento” serve para descaracterizá-lo como ser humano, acabando por matá-lo (é o “tiro de misericórdia”), dando origem a um novo ser, pós-humano.

            De sorte que, o título do livro em português poderia ser algo como O acabamento do homem, ou algo similar, com nota explicativa semelhante à constante da página 326, quando o autor deixa claro o sentido da expressão utilizada; mas nunca o título enganoso e fora de propósito A existência de Deus comprovada por um filósofo ateu.

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