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Crônicas-->33. A TEIA -- 12/10/2002 - 07:43 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Ardiloso, montava as armadilhas em que pegava os incautos. Fazia-o por princípio, ou seja, gostava de aprisionar os infelizes para considerar-me superior a eles. Era a minha mais forte tendência psíquica e isso me custou algumas dezenas de anos afastado de qualquer ser no mundo dos desencarnados.

Mas não quero adiantar-me. Preciso, antes de chegar aqui, contar a proeza que me marcou perante a sociedade humana de forma indelével.

Tantas aprontei sem conseqüência que, um mau dia, tive a oportunidade de executar cabal demonstração de minha habilidade. Foi por ocasião de uma festa nacional em que as atividades cessam quase por completo.

Achei que poderia dar um golpe definitivo para a minha independência econômica. De posse da chave da firma onde trabalhava, esgueirei-me pela madrugada e entrei no prédio, ficando à vontade para perpetrar as mudanças de escrituração que implicariam em desvio financeiro para determinada conta bancária que havia aberto com nome falso.

Não quero engrandecer-me com o crime, porém, necessito dizer que as contas da falcatrua só foram descobertas no final do ano, quando já havia recolhido o fruto, pobre fruto, da apropriação indébita.

O problema foi levantado sem, contudo, ser solucionado. Buscou-se inutilmente quem poderia estar por trás da falcatrua e tudo terminou sendo abafado pela diretoria, cada um desconfiando dos demais, ninguém pensando em mim.

A urdidura tinha sido tão inteligente que a firma se desfez por falência, acabando por se despedirem os funcionários, sem se ressarcir a nenhum dos prejuízos salariais e morais. Como todos, entrei na Justiça do Trabalho com representação contra os donos, exigindo os meus direitos.

Já se vê que a minha vida deu uma guinada muito forte para a área dos benefícios materiais. Imaginei-me dono de uma loja em ponto de grande movimento, requeri empréstimo protocolar num banco oficial e apliquei a soma das importâncias no negócio, favorecendo o que hoje se conhece como “lavagem de dinheiro”.

Dei emprego a quinze pessoas e introduzi-me na sociedade dos empreendedores. Os lucros, evidentemente, superaram as minhas expectativas, de sorte que pude prestar contas ao fisco, sem forjar notas fiscais e sem burlar a contabilidade, da qual me encarregava com particular denodo. Tudo fiz como se a realidade estivesse sendo retratada de modo perfeito e coerente.

Foram dezoito anos de gozos inenarráveis até que me deparei inválido numa cadeira de rodas. Não foi o destino; foi o abuso da natureza, como se meu poder estendesse ali também a minha teia. Estava lúcido mas impedido de me mexer.

A medicina deu o veredicto fatal da impossibilidade de reversão do quadro. Disseram-me que havia os encantadores, os adivinhos, os magos, os feiticeiros, os que tinham pacto com os demônios. Achei que poderia obter o benefício da cura, sem pagar com a minha alma, muito menos com a fortuna que guardara.

Evidentemente, depois de ser empurrado de terreiro em terreiro, sem resquício de cura, terminei nas mãos de um curandeiro espírita, desses que incorporam médicos e realizam verdadeiros milagres. Para mim, não houve milagre, entretanto, me vi às voltas com um grupo de médiuns que davam sustentação ao trabalho de cura, os quais reservavam para os que não obtinham saúde o agasalho das preces e do interesse pela prática amorável do bem. Em suma, de repente, empurrado pelo enfermeiro, estava freqüentando uma casa espírita, ouvindo palestras, participando de um círculo de estudos das obras de Kardec, com a curiosidade aguçada para as teses da existência após a morte.

Não havia como não se chocarem no meu íntimo as coordenadas antigas com as novas. Tal descrição, porém, vou eximir-me de fazer. Para encerrar o episódio na carne, vou referir-me ao voto que fiz de devolver à humanidade tudo quanto dela havia roubado. Na prática, desfiz-me das propriedades de forma inteligente, quer dizer, abri o capital e transformei as firmas em sociedades anônimas, distribuindo as ações que me couberam entre os empregados, realizando vendas cujos resultados pecuniários destinei à casa espírita. Enfim, abri mão do processo em vias de conclusão e absolvi legalmente os antigos patrões, ou melhor, seus herdeiros, já que a maioria já pertencia ao mundo dos espíritos.

Morri e “reouve o uso” dos membros paralisados, passando a sofrer a desdita do medo, não das pessoas por mim prejudicadas, mas do fator preponderante de minha personalidade, isto é, precisei levar avante a análise dos últimos anos de vida, para sentir se não fora por malícia que executara todas as obras de benemerência. Tão ardiloso sempre fora que necessitava enfim esclarecer o quanto de pureza moral figurava em cada moeda distribuída.

Ainda estou nesse exercício, porém, sinto-me bem mais leve, a ponto de realizar a composição, colocando-me no centro da teia tecida com muito amor e boa vontade.

Armando (apelido que estou prestes a abandonar. Graças a Deus!).

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