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Crônicas-->35. O PILOTO E A AEROMOÇA -- 14/10/2002 - 07:19 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Na carlinga, sentia-me dono da existência, com o poder de vida e de morte, pensamento a que não dava trela, para não me engrandecer de forma bastante prejudicial aos que se punham debaixo do meu comando. Por isso, levava o manche com precisão, conduzindo a aeronave de forma a mais condizente com todas as normas internacionais da navegação aérea.

Tempo houve em que precisei esquecer de mim mesmo, para lembrar-me da família, porque, com mais de vinte anos de profissão, me encantei com a jovialidade de recém-chegada à equipagem. Adentrou em meu coração da mesma forma que conquistaria a afeição de qualquer cinqüentão, desacostumado com as carícias sutis do contato macio e aveludado de uma voz quente junto ao ouvido.

Reagi de modo inesperado, deixando-me envolver pela fugacidade da paixão. Era meu primeiro vôo em rota de colisão afetiva. Mas não tomei a iniciativa da aproximação carnal. Pus-me no meu lugar e tentei sublimar pela fantasia os renascentes ardores juvenis.

Durante mais de quatro meses, revoei naquele céu estrelado, recusando-me a planar com o piloto automático. Sabia que, se deixasse a natureza dominar a minha pobre condição humana, iria perder altura, arriscando-me a pouso forçado, em região totalmente desconhecida.

Sinto-me desfalecer, quando pinto o quadro da falência imaginária. E me reconheço muito fraco, quando relembro que venceu a hesitação, ao me aprestar para pôr os sentimentos à mostra para a querida esposa, mãe de meus quatro filhos.

Ocorre que não me afinei ainda com as pressões que se exercem sobre a mentalidade inadvertida, como se, a qualquer momento, pudesse resvalar para a infidelidade, pondo em risco a segurança do itinerário planejado de comum acordo com os controladores da torre de comando.

Onde se encontra minha esposa? Em segundas núpcias, que a felicidade não depende dos que partem para o mundo dos mortos. Penso que ainda sinta saudade de mim, apenas para confortar-me. Em meus sonhos, a frustração do amor inconcluso me conduz para os momentos dos felizes e efêmeros contatos com a jovem dentro do impecável uniforme da companhia. Revejo-a sempre maquiada e bela, adornada com aqueles brincos de asas de ouro, discretos e adequados.

E me vem a pergunta que não consigo sopitar:

— Que teria acontecido para minha existência terrena e etérea, se tivesse cedido à tentação?



Eis o drama que consegui definir junto aos companheiros, para deles receber a sagrada colaboração, com vistas à efetiva solução do meu problema pseudo-sentimental, pseudo-material.

Alguns simplesmente enxugaram algumas lágrimas. Outros limitaram-se a abraçar-me. Houve uma companheira que me beijou as faces, saindo para isolar-se da turma. Ninguém me trouxe o conforto do exemplo que eu solicitava. No entanto, o meu passado não me condenava, embora me angustiasse perante a falta de clarividência íntima.

O mestre fez-me um sinal, parecendo dizer que eu deveria esperar pelo refazimento das emoções dos colegas. Acredito que ele mesmo tivesse sido atingido por recordações de diversas passagens pessoais de mesmo cunho.

A reação de todos me fez desenvolver a idéia de que o amor sublime não existe no campo material, porque o influxo das tendências atávicas se exerce inexoravelmente. Quando o indivíduo se presume apto a suplantar o desejo, cria dentro da alma um fogo que vai consumi-lo até mesmo após o despertar da consciência na erraticidade.

Não queria consultar as lembranças da fadinha com suas asas de ouro. Tinha medo de que poderia deparar-me com a mesma frustração, com os mesmos temores, com a mesma desesperança. No entanto, atraía-me a curiosidade mórbida pela possibilidade de haver representado algo mais do que um chefe de equipe para ela. Teria levado consigo vida afora a recordação daquele cinqüentão desajeitado?

Era a questão seguinte para o colegiado estudantil. Aí as participações se acenderam e as discussões brindaram-me com inúmeras saídas, durante várias reuniões. Todas elas partiam do princípio de que a realidade deveria prevalecer, umas elegendo a minha condição como primordial, outras favorecendo a privacidade dos sentimentos alheios, muitas conduzindo-me para os arquivos escolares, a maioria instigando-me para a consulta aos mentores e dirigentes da colônia, no sentido de obter permissão para convocar o espírito da moça.

Ponderei que seria melhor examinar a fórmula exterior e social aplicada por aquela criatura à própria existência na Terra. Imaginei-a casada e feliz, com os filhos e netos, dado o tempo que havia escoado desde a minha passagem para cá.

Nem precisei pedir alvará para tal visita. O próprio Mário me trouxe a recomendação dos maiorais, para que eu fosse levado à presença dela, com a condição de ser acompanhado por toda a turma.

Encontrei-a com os traços ainda belos e com a organização corpórea saudável, entretanto, não me arrepiei nem refiz a comoção dos primeiros encontros. Tratava-se de uma outra pessoa, sem o brilho, sem os atrativos, sem a compostura hierática da deusa dos ares.

Voltei murcho. Aliás, todos voltamos arrastando os pés, como se nos pesasse a marcha obrigatória por via terrestre, já que ninguém se atreveu a sentar-se na cadeira do comandante.

Mário estipulou uma condição para a minha mensagem:

— Você só poderá redigir esse significativo episódio de sua existência depois de elucidar-se definitivamente quanto à razão de ter a crise durado tanto tempo.

Hoje, obtive a condescendência do mestre e pude retratar-me de corpo inteiro.

Fiquem nas graças do Senhor!

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