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Crônicas-->36. O COCO FURADO -- 15/10/2002 - 07:20 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Eu pertenci às praias do Nordeste. Isso de trepar nos coqueiros era comigo mesmo. Mas eu não venho para descrever o ofício, senão para dizer que, à noite, ficava imaginando que tinha asas e que voava, levando a minha sede a mitigar no alto das árvores. Não era um sonho dormindo, mas de olhos bem abertos, desejoso de ver os pássaros a furar os frutos, porque alguns encontrava perdidos para a safra.

Um dia, estava a derrubar quando minha vista se perturbou e desmaiei, caindo bem do alto, aterrissando já no etéreo. Não tivera muito tempo para julgar a vida como dom divino. Aos vinte e dois anos, esforçava-me para dar de comer à mulher e ao filho. E me perdia em devaneios, vendo os transatlânticos passarem, perdidos no horizonte. Acho que, se me dissessem que o paraíso deveria ser alcançado atravessando o mar, eu iria pedir para ir de navio.

Que destino esperava por mim deste lado?

Era de esperar-se que ficaria à beira-mar, no promontório mais alto, a mergulhar os pensamentos na profundeza do oceano, embalado pela brisa da tarde e pela maré que se levantava. No entanto, de tudo o que conheci em vida, ficou-me apenas o areal branco salpicado de sangue. Nem o coqueiro soube criar para enfeitar a paisagem. Quando muito, ao meu lado, companheiro solitário, um coco partido, furado, oco, vazio.

Tomei o fruto na mão e ergui-o, consultando-o a respeito da vida e da morte, qual bronco Hamlet que desconhecesse o ser e o não-ser.

Diga-se, de passagem, que não me lembrei de nenhuma prece, de nenhum culto, de nenhum santo nem de Deus. Não acusava, não me repreendia, não procurava entender. Vi minha esposa em lágrimas e de luto. Só. A partir daquele dia tive a certeza de haver morrido. Mas havia sol e luar. Não havia mar nem peixes, nem redes, nem cocos, nem anzóis, nem parceiros, nem transatlânticos. À noite, subia um mormaço que me dava estremeções de febre e eu procurava, em meio à escuridão, as árvores da vida e da morte. Sempre em vão.

Não vi mais minha companheira nem percebi meu filho crescendo. Também não me sentia só, capaz de imaginar todas as cenas das festas e dos agrados gentis da mocidade. Se me faltavam os seres de corpo e alma, tinha-os dentro do coração. Foi esse afeto que me conduziu, certa vez, por caminho iluminado artificialmente. Queria encontrar qualquer um que pudesse me indicar onde haveria cocos para derrubar. Era a minha aspiração.

E achei um palmeiral muito bonito, de árvores bem baixinhas, todas muito carregadas. Não me precipitei. Sabia de antemão que não encontraria nenhum fruto inteiro. Pensei nas milhares de almas sedentas e concluí que muitas teriam ficado sem o precioso líquido. Raciocinei mais profundamente e cheguei a resultado no mínimo surpreendente para quem não via transcendência em nada: minha sede era uma aparência de realidade, porque, se estava morto, não poderia sofrer o castigo de Tântalo.

Logrei assimilar o vocabulário desconhecido como se fosse natural em meu cérebro e, deslumbramento total, inferi que tivera outras existências carnais, provavelmente em regiões distantes daquela praia deserta da última peregrinação terrena.

Veio-me à inteligência a causa do desmaio: estava faminto, havendo deixado a última porção de farinha para a mulher. Iria saciar a fome com as dádivas da natureza. Deu no que deu.

Foi quando desejei ardentemente saber como estavam os meus, rogando aleatoriamente às forças da espiritualidade que me levassem até eles. Certo de ser atendido, recolhi-me em reflexões e predispus-me a esperar o momento oportuno da assistência.

Foi quando me apareceram dois velhos conhecidos de outras eras, gente boa, apesar de rústica, que me disseram que, para ser atendido, precisava desenvolver as virtudes essenciais da fé, da caridade e da esperança.

Perguntei-lhes se não tinham percebido que sempre agira pela fé, pela caridade e pela esperança. Disseram-me que teria de comprovar os sentimentos através de roteiro que incluía a confiança na misericórdia de Deus, o que poderia alcançar se os seguisse.

Considerei que aquele areal me havia proporcionado instantes de muito respeito pela existência. Solicitei-lhes permissão para agradecimento sentido e realizei uma espécie de hino à natureza que me agasalhara.

Partimos e pude observar que as pegadas na areia ficavam cada vez menos marcadas, até que desapareceram completamente. Estava flutuando cada vez mais alto. Mas não tive medo de cair. O fenômeno me atraía completamente a atenção e comecei a desejar que a caminhada durasse uma eternidade. Mas a recordação da esposa e do filho me acordaram para a necessidade de me apressar.

Foi como cheguei a este patamar um pouco acima da crosta. Logo me matriculei em curso de primeiras letras, fui agraciado com a lembrança de duas vidas anteriores e pude conhecer as razões que me levaram a aceitar as condições desfavoráveis para bom crescimento intelectual. Mas essas são conquistas fáceis de adivinhar.

Em tempo: sempre que me vem a vontade de matar as saudades da vida simples, crio um coco bem saboroso e delicio-me com sua água nutritiva. Em breve, terei de recepcionar minha mulher. Espero poder orientá-la para ser feliz também aqui, se possível, ao meu lado. O mais o tempo haverá de providenciar, porque Deus é pai de infinita misericórdia e amor absoluto.

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