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Crônicas-->37. PERIGO IMINENTE -- 16/10/2002 - 07:00 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Aos poucos, fui despertando para a compreensão de que nem tudo o que se passa no campo da intuição representa real prevenção dos espíritos, relativamente aos fatos que envolvem os encarnados. Pode perfeitamente ocorrer que nós mesmos transfiramos medos e até suposições para o âmbito das revelações subjetivas, passando ou a criar séria expectativa ou a exigir que tudo decorra dentro dos parâmetros mentalmente estabelecidos, para colocarmo-nos a cavaleiro sobre o destino.

Entregue aos devaneios da previsão inoperante dos acontecimentos, gastei alguns anos significativos de minha vida, sempre advertida carinhosamente por mamãe:

— Lídia, controle essa sua fantasia. Não queira transformar meros sonhos em triste e opressa realidade. Contente-se com o que você vai conquistando através de esforço e de trabalho, porque as coisas não caem do céu, de repente.

Eu era jovem e não punha tento na verdade contida na advertência materna. Continuava supondo que era possível prever o futuro, a partir de impressões decalcadas em acontecimentos conhecidos. Cheguei a imaginar desastres terríveis, sempre envolvendo parentes e amigos, de sorte que qualquer viagem ou simples ida de casa para o trabalho logo avultava como algo trágico e definitivo.

Está claro que não dizia a ninguém tudo quanto conjeturava. No máximo, arriscava palpites de noivados e casamentos felizes ou prêmios de loteria. Quando se tratava de adivinhar o sexo dos fetos, não julgava que fosse verdadeiramente um processo de previsão, o que jamais me levou a falar nada a respeito.

Um dia, previ desagradável situação de assalto na via pública envolvendo meu irmão mais velho. Havia dito a ele que não saísse aquela noite, que havia o perigo iminente de algum ladrão abordá-lo. Disse até que atacavam em duplas e ele foi roubado por dois marginais armados.

Quando nos refizemos do susto e da raiva, lembrei-lhe o que lhe havia dito e tive de ouvir a observação mais corriqueira em casos que tais:

— Foi você quem atraiu os assaltantes com a sua mania de chamar a desgraça.

Naquele dia, chorei muito e prometi a mim mesma nunca mais falar nada que não fosse absolutamente positivo.

De fato, encerrei a minha carreira de pitonisa, sem, contudo, refrear os impulsos íntimos que me levavam a desconfiar de que tais ou quais coisas iriam suceder. Nunca mais, contudo, consegui acertar nenhuma previsão, a não ser fatos muito evidentes, como as intempéries e as melhorias do clima.

Aqui chegando, transferi-me para a condição de insufladora de idéias e suspeitas. Enquanto corria aérea e mentecapta, sem destino, pelos rincões obscurecidos da consciência, ainda atrapalhada pela estupidez de morte inadvertida debaixo de composição de trem urbano, vislumbrava outras ocorrências, ou melhor, a possibilidade de outras ocorrências e buscava as pessoas que corriam maiores riscos, tentando avisá-las da tragédia próxima.

Tantas fiz que acabei sensibilizando um grupo de socorristas, já que sofria muito por não alcançar avisar um único mortal por meio intuitivo. Era bem intencionada, no mínimo, embora totalmente ignorante dos meios de pôr em prática uma ação beneficente no plano da espiritualidade.

Matriculada nesta turma, ainda procurava entender como é que mesmo os daqui não conseguiam divisar o futuro como resultante de fatores vitais. Muitos sabiam quais as dificuldades de saúde de seus protegidos, mas faziam questão de demonstrar que eram médicos a seu modo, capazes de diagnosticar a formação das moléstias pela condição geral da saúde dos indivíduos. Ninguém havia que dissesse quem sairia vencedor neste ou naquele páreo, nesta ou naquela eleição, embora devessem acertar muito mais do que os encarnados, porque exploravam o conhecimento da força dos animais e do desejo das pessoas. Prêmios da loteria, ninguém encontrei que tentasse adivinhar. Aliás, sinto-me forçada a revelar que muitos ficam ao lado das bolinhas dos sorteios, para ver se conseguem influir no peso, na velocidade ou no movimento delas. É óbvio que, entre eles, existem muitas disputas, porque seus “pupilos” encarnados não possuem os mesmos bilhetes.

Um dia, levei à classe o último problema que restava insolúvel em minha mente:

— Vocês podem dizer-me se as forças superiores, os espíritos de eleição, os que vigiam mais do alto os acontecimentos e a necessidade real dos espíritos encarnados, à vista de haver quase sempre afortunados que levam somas muito elevadas, não desviam a sorte para tais criaturas?

Depois de algum debate, desinteressada a maioria pela proposição, houve um companheiro que pôs uma pedra pesada e definitiva na minha esperança maliciosa de haver achado brecha na muralha dos conhecimentos prévios:

— Não se esqueça, Lídia, que a sorte ou o azar podem ter a aparência que lhes emprestamos, podendo constituir-se exatamente em seu contrário, conforme a destinação que dermos aos sucessos. Se formos acatar a sua sugestão, teremos de assentir que a sua morte foi levianamente provocada por algum espírito benigno entre os protetores, com o intuito de levá-la a entender que nada na vida acontece por acaso. Não é verdade que você não se preocupou com tal aspecto de seu passamento, voltando-se para a prevenção dos fatos fortuitos que poderiam causar transtornos indevidos? Se a minha explicação surtir efeito, vai contrariar a sua tese, pois você passará a agir de forma adequada ao novo conhecimento e nada disto redundou das percepções fugidias, senão que foi o fruto de longa meditação e entranhado estudo da realidade.

Ainda agora estou imaginando se algum leitor inteligente não esteja pensando em presentear um amigo com exemplar desta obra, desencadeando outros desejos de melhoria através da reflexão sobre os temas aqui apontados.

Deus nos proteja e nos mantenha a mente aberta para a assimilação da verdade!

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