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Crônicas-->38. O CONTADOR DE ANEDOTAS -- 17/10/2002 - 09:21 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

A frase que mais gostei de ouvir, durante toda a vida, foi:

— Conte outra.

Gostava de provocar a argúcia dos ouvintes, estabelecendo situações cômicas das mais variadas e sutis. E me divertia com eles, rindo mais que todos.

Não me profissionalizei, entretanto, não havia reunião em que não aparecia com alguma piada nova, com algum caso engraçado, com algum episódio hilário.

O espírito folgazão não eliminou a seriedade dos estudos do espiritismo como doutrina moral e religiosa. Dada a facilidade de exprimir-me, pediam-me sempre para expor pontos de interesse, sabendo que eu imprimiria à aula o cunho risonho das tiradas oportunas. De resto, eu o fazia incentivado pelos oradores espíritas, todos devidamente preparados para uma ou outra facécia de agrado.

Quando aqui arribei, assumi o lado sisudo da personalidade, considerando que, a partir do etéreo, não se admitiria mais o riso fácil provocado por engodos e quiproquós, que são as diretrizes básicas para o encantamento do desfecho das historietas cômicas.

Essa atitude, tomei-a ainda em vida, num desses arroubos da imaginação, criando ambientes em que nenhum deslize se admitiria, ainda que se tomassem por personagens criaturas inexistentes, colocadas em situações embaraçosas.

Por isso, quando ouvi antigo companheiro pedir para contar outra, assustei-me deveras, considerando-me em região atrasada, dado que precisaria reagir de forma grosseira, ao avesso das considerações anteriores.

Claro está que não censurei o amigo, mas não deixei de pespegar-lhe um safanão moral, revelando-lhe os raciocínios que me levaram a guardar no armário da memória todos os arremedos facetos da vida.

Não obtive um inimigo mas devo confessar que lhe causei tremendo mal-estar, precisando da intervenção de um dos guias da colônia, em época em que ainda postulávamos a matrícula. E tal intervenção se deu de forma absolutamente inesperada, pois ele me perguntou se eu não conhecia nenhum chiste envolvendo espíritos.

Precisei esforçar-me para não ofendê-lo, muito embora soubesse que iria revelar meus pensamentos em contrariedade. Atinei com a melhor saída e pedi-lhe para que me contasse alguma anedota corrente entre os irmãos da casa.

Ele esforçou-se para me fazer rir:

— Dois recém-chegados procuravam a porta do céu. Um achava que deveria haver uma grande abertura, enquanto o outro afirmava que São Pedro tinha a chave, indício claro da existência da porta. Discutiam, quando passou por ali outro novato, empurrando um carrinho de pipocas. Como não chegavam a nenhuma conclusão, levaram o problema ao outro. Este pensou um pouco e respondeu: “Foi bom que vocês me alertassem. Como é que vou estourar milho inexistente, para pessoas sem fome?” E os dois seguiram caminhando calados, certos de que não haveria nem portas nem aberturas nem São Pedro.

Definitivamente, eu me vi com inteira razão. Os do etéreo perdem a inspiração, não por não sentirem a necessidade do descanso mental que uma brincadeira sadia oferece, mas porque se situam em patamar onde as alegrias são mais espirituais, mais profundas, cheias de sentimentos e de emoções felizes.

Refleti que existem regiões onde as pessoas são exatamente as mesmas que eram na Terra, havendo total possibilidade de sentirem o mesmo, quer quanto à arrelia dos outros, quer quanto ao esquecimento das dores por alguns instantes.

Voltei-me para os encarnados e, com grande esforço de concentração, encontrei-me perante famoso palhaço na hora do desenlace. Queria saber se mantinha a mesma disposição para brincar.

Ao meu lado, aquele mesmo orientador me explicou:

— Esse daí está compenetrado de que irá deparar-se com forças muito superiores, a quem deverá prestar contas, conforme os ensinos de sua religião. Por isso, está transformando toda a alegria com que contagiou o povo em serviço prestado por amor aos semelhantes. Eu não conheço a história da vida dele, contudo, se tudo quanto fez teve o sinete da boa vontade e do viço feliz de quem promove o sorriso leal e franco, haverá de se encontrar conosco, para seguirmos evoluindo nas pegadas de Jesus.

De fato, o cômico despertou diante de nós e logo nos reverenciou, como se fôssemos os enviados de Deus para conduzi-lo ao paraíso. Devo confessar que, no primeiro momento, senti certa vontade de sorrir pela falsa impressão que lhe causamos, porém, logo me enchi de brios e me pus a orar, pedindo aos irmãos da colônia que nos dessem força para explicar ao recém-chegado o que exatamente estava à espera dele.

Ele entendeu logo e, batendo na testa, soltou uma exclamação de profundo agrado, dizendo-se obtuso, rindo a bom rir, contagiando-nos com a sua alegria dócil e prazenteira, dando-nos os braços e forçando-nos a levá-lo conosco:

— Vamos trabalhar, seus preguiçosos. Vocês não estão vendo que precisam carregar esta alma depenada?... Ou estão achando que tudo o que têm de fazer é ficar filosofando pela eternidade? Se assim for, no máximo, conseguirão fazer rir os tolos e os práticos, que vão vencer os obstáculos através do bem que irão praticando em sua caminhada ascensional.

Cotejei a minha reação de contador de anedotas amador com a atitude absolutamente profissional do outro e concluí que, até para ser engraçado, é preciso aliar a virtude à inteligência. Foi por isso que me atrevi a atender ao pedido dos colegas para descrever minha psique, apesar de considerar muito difícil a compreensão pelos encarnados de um texto sem bom exemplo de dito espirituoso.

Qualquer dia eu chego lá...

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