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Artigos-->Pós-Verdade/Para aquém da Verdade/Para além da Verdade -- 23/11/2016 - 02:22 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Pós-Verdade/ Para aquém da Verdade / Para além da Verdade
João Ferreira
22 de novembro de 2016

Eu acredito que a simples veiculação da palavra "Post Truth" traduzida em Língua Portuguesa como "Pós-Verdade" e tornada notória por ter sido declarada a palavra oficial de 2016 não é inteiramente convincente em meios críticos e esclarecidos que não se curvam necessariamente aos ditames da cultura de massa. Na prática, a sociedade, em suas várias estruturas, está sendo aliciada e bombardeada por um sensacionalismo linguístico. Embora a palavra não seja uma inteira novidade por ter sido criada já em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, a mídia trata-a como tal por ter sido oficializada no Oxford illustrated Dictionary da Universidade de Oxford, na Inglaterra, como a palavra símbolo do ano 2016. As redes sociais sempre mobilizadas para as batalhas do bem e do mal, tomaram conta dela e é graças a elas que a palavra persiste e sobrevive. Em rigor, trata-se de uma palavra insignificante que não diz o que seria necessário dizer para exprimir o estado de espírito ou as tendências políticas e morais que lhe atribuem. Primeiramente seria injusto jogar essa palavra mal construída na origem (Post Truth), como se viesse suceder à verdade, mágica rainha destronada. Não acredito que se pense nisso. Mas a maneira de agir e de referenciar da mídia dá-nos essa impressão. É como se estivéssemos na fase seguinte.Quer dizer. Antes, havia a verdade. Agora há a pós-verdade... Que falácia! Pobre humanidade que engole com tanta facilidade os engodos a que a sujeitam. Não. A verdade não morreu e o reinado da pós-verdade é apenas uma falácia ilógica e uma mentira social. Trata-se de um conceito útil para um tipo de sociedade que se guia por uma cultura de massa. Felizmente, a sociedade tem estratos vários e dentro dela ainda continua acesa a luz da razão, as bases científicas voltadas para a vida e para a natureza. Dentro de seu corpo vivo a sociedade mantém núcleos de inteligência e de razão guiados por juízos analíticos e sintéticos e por uma cultura filosófica, e teórica que buscam para ela uma sustentação de base. São os cientistas, os críticos, os teóricos, os políticos, os jornalistas, muitos escritores, muitos hermeneutas. Gente que continua trabalhando no reino da verdade científica, crítica, humana e social.
A verdade é não apenas uma herança filosófica da humanidade.Uma herança que no Ocidente nos vem dos gregos e dos latinos. Ela é não necessariamente "o encontro com o todo" daquilo que ignoramos. Não é um encontro definitivo. E sim uma busca incessante do que procuramos no mundo. A verdade é um encontro com alguma coisa do muito que procuramos. Os gregos nos emprestaram a palavra adequada para traduzir esta ideia. Deram-nos o termo "alétheia", com o significado de descobrimento do que estava oculto. Alétheia deriva de "a" (alfa com sentido de privação)+lambanu (verbo "lambánu" que significa encobrir). "Alétheia" é o processo de busca que nos mostra o momento da descoberta de algo que ainda não sabíamos nem comnhecíamos. Por sua vez, ainda, a palavra verdade, em língua portuguesa, veio diretamente de "veritas", vocábulo latino. Verdade entre os romanos é a busca da objetividade. Verdadeiro é aquilo que existe de fato, aquilo que podemos comprovar como existente.
Feitos estes preâmbulos diríamos que o conceito de Pós-Verdade é uma ficção de caráter mais virtual do que real que não corresponde ao mundo em que vivemos.
Por estes dias, Laura Coutinho em "Whats up" dizia que "A escolha de "pós-verdade" (mais no sentido de oposição à verdade e não tanto de posterioridade) como vocábulo do ano 2016 pelo Oxford Dictionaries só confirma uma sensação crescente: a verdade, em tempos de redes sociais, está fora de moda. Boataria e desonestidade correm soltas e ninguém se importa muito com checagem e veracidade."
Na história da palavra e do conceito importa dizer que em 2004 Ralph Keyes publicou o livro "Post Truth Era: Dishonesty and Deception in contemporary Life" (St Martin!s Press 2004). Trata-se de um livro sobre a Era da Pós-Verdade. Este livro resgatou para Post-Truth um sentido mais adequado ao que a sociedade sente em rigor quando os donos da comunicação vêm tecer louvores à Pós-Verdade. Ralph Keyes fala objetivamente de dois ângulos característicos da mentalidade de nosso tempo, que são a desonestidade e a decepção diante dos problemas da vida contemporânea. Segundo alguns jornalistas e comentaristas políticos, esta mania que leva os internautas para a pós-verdade significaria que a "verdade" estaria perdendo importância no debate político. Dizendo doutra maneira, a verdade passou a ter menos importância em moldar a opinião pública do que certos apelos à emoção e a crenças pessoais.
Por sua vez, o psicólogo Daniel Kahneman parece ter encontrado expressão mais correta para designar este estado de espírito que não quer submeter-se à evidência dos fatos e que prefere as meias verdades, as mentiras, as afirmações que poderiam ser verdadeiras mas que ainda não estão esclarecidas e precisam de provas para ganharem credibilidade. A este comportamento da pós-verdade, o psicólogo chamou-lhe de "cognição preguiçosa". A expressão quadra bem para "as pessoas, que hoje em dia, tendem a ignorar fatos, dados e eventos que obriguem o cérebro a esforço adicional". Na sua volatilidade mental, muitos cidadãos acham mais cômodo substituir fatos por indícios. Mas pensando bem, em rigor, a sociedade caminha para uma confusão mental ao admitir como normal o relativismo ficcional com que está sendo alfabetizada para com ele interpretar a realidade factual.
Resta observar que o referendo britânico que votou pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia, conhecida pelo nome de Brexit e a eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos deram azo a que se considerasse a palavra Pós- Verdade como a mais adequada para definir esses eventos e os tempos de Trump e do Brexit.
Não é possível disfarçar a ambiguidade ou a anfibologia ou o equívoco em que a moda nos coloca diante da busca honesta do sentido de vida no mundo e de uma busca de uma paz social. As palavras têm a limitação que têm. Para nós, falar em pós-verdade, dá-nos a impressão de uma maneira forçada pela moda, e é como se alguém quisesse nos comunicar a ideia de que estamos chegados a um estado de consciência geral em que entramos numa nova história:a história da pós-verdade. Uma "nova história" que é bem velha. Essa tendência já registrada por Ralph Keyes e Daniel Kahneman define um estado de consciência que os sensistas ingleses do século XVII já enunciaram e que os dadaístas, surrealistas e autores do pós-moderno do século XX acentuaram.Sim, há uma variedade e uma pluralidade de concepções de mundo e de vida. Mas em todas elas resta a permamente busca da verdade. A evolução humana está ainda muito atrasada em relação ao mundo espiritual. Com paciência há que caminhar. Buscando a verdade. Com racionalidade e emocionalidade juntas, sem exclusão. Não há "pós-verdade", no sentido proposto. Exatamente porque a busca da verdade ainda não foi ultrapassada pela humanidade. Mesmo que haja grupos humanos dominados pelo irracionalismo e pela impaciência de reconhecerem sua natureza humana, o bom senso não renuncia ao uso racional da inteligência na busca da verdade. Por isso mesmo, mais próprios do que o termo "Pós-verdade" seriam as expressões "aquém da verdade" e "para além da verdade" ou "em torno da verdade". Todas elas indicam que a busca continua. E tudo o que sabemos ou descobrimos, umas vezes fica "aquém da verdade", outras vezes se situa "para além da verdade" e certas questões da maneira como são colocadas se situam "em torno da verdade".
João Ferreira
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