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Artigos-->Ter certeza é não estar vendo -- 26/12/2016 - 23:10 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Ter certeza é não estar vendo
João Ferreira
Porto, 26 de dezembro de 2016-12-26

“Ter certeza é não estar vendo”
Alberto Caeiro [Fernando Pessoa]

Em minhas férias na cidade do Porto tenho tido oportunidade de visitar livrarias, bibliotecas e sentar numa esplanada enquanto tomo um café ou bebo uma água para reler autores de minha predileção. Fernando Pessoa me fez sentar hoje, frente à estação de S. Bento, na descida para a rua das Flores, e me levou a iniciar a leitura de um livro que eu acabara de comprar na velha Livraria Lello e Irmão ou Livraria Chardron.
Richard Zenith organizou um volume a que pôs o nome de “Como Viver [ou não] em 777 frases de Fernando Pessoa”. É um livro que recolhe dos vários heterônimos de Fernando Pessoa, pensamentos, frases e reflexões que merecem toda a atenção. De um modo geral, frases paradoxais, pensamentos profundos, dignos de serem pensados, refletidos e explorados em seus sentidos amplos e profundos. Frases que surpreendem a todos aqueles que vivem o quotidiano e mais se envolvem com o sentido primário das palavras e com a sensação real do que nos encanta. Eis algumas frases que anotei. Primeira: “Sentir é pensar sem ideias; e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias”. Segunda: “O sentimento abre as portas da prisão em que o pensamento fecha a alma”. Outra: “Interpretar é não saber explicar. Explicar é não ter compreendido. Explicar é descrer.”. Outra: “A essência de haver um problema é não haver uma solução”(Bernardo Soares). Outra: “A fé é o instante da ação”(Bernardo Soares). Outra: “Vence quem pensa só o preciso para vencer”(Bernardo Soares). Outra: “A ignorância é a verdadeira inocência (“ignorance is true innocence”. “O maior pensador é o maior debochado”. Outra: “O homem não sabe mais que os outros animais. Sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós, não”. Outra: “Abdica e sê rei de ti mesmo” (Ricardo Reis). Outra: “Suave é viver só”. Outra: “Cura de ser quem és”(Ricardo Reis). Outra: “Buscar, querer, amar...tudo isto diz perder, chorar, sofrer vez após vez.” Outra: “Ser livre não é não ter disciplina, é não precisar de disciplina – ser rítmico e superior.”
Ao passarmos por todas estas e outras reflexões de Fernando Pessoa, quer as encaremos como pensamentos de cunho pagão, de cunho naturalista, de cunho filosófico, ou outro, sentimos quase a necessidade de uma reflexão, de um comentário ou de um debate em cima da afirmação. A razão disso é que as reflexões apresentadas por Fernando Pessoa saem da linha banal que a maior parte usa para pensar. É bom lembrar que muitas vezes as frases devem ser vistas dentro da linha de um sistema de pensamento, ou então pelo seu lado paradoxal, e por isso mesmo merecem uma explicação sistêmica e contextual.
Entre as 777 frases selecionadas por Richard Zenith, houve uma em que mais me fixei: “Ter certeza é não estar vendo”. Como comentário, seria oportuni dizer, em primeiro lugar que, nesse pensamento, Fernando Pessoa nos alerta indiretamente sobre a facilidade com que as pessoas dissertam sobre a “certeza”. Não é fácil ter certezas, parece dizer-nos. Para tê-las haveríamos de dominar os objetos e os mundos sobre os quais versa nossa análise ou se debruça nosso pensamento, guiados pela lucidez e livres das sombras da dúvida. Falando de certezas, há que ter na mente que a fenomenologia de nosso conhecimento obedece a limitações que passam pelos sentidos e pelas faculdades cognitivas. Quando Fernando Pessoa nos diz que “ter certeza é não estar vendo” está nos ensinando que há muita coisa que nos escapa à análise, ao conhecimento. Há muita coisa ou muito aspectos que “não vemos”. Facilitar a proclamação de nossas certezas é de alguma forma proclamar nossa própria ignorância. Para “ver” há que “ter a vista limpa”, ser paciente, reconhecer os limites, refletir sobre a distância entre o que se nos depara e o caminho que ainda teremos de percorrer para nos aproximarmos mais do ponto x, ou da essência do objeto e da questão que demandamos. Na nossa frente está um caminho a percorrer e “o caminho sempre é maior que o caminhão”, como dizem os brasileiros. As coisas têm vários ângulos para serem examinadas e pensadas. O lado exterior, ou exotérico e o lado interior, de dentro, encoberto ou esotérico. Com calma, teremos que percorrer nossos caminhos, com humildade, e saber de antemão que há que vigiar nossas “certezas” e nossa “ignorância”. A ambição humana razoável está em “abrir caminhos”, em “abrir portas”. A partir de uma “via” ou de um sinal de entrada, a iniciação está feita. As certezas serão construídas devagarinho até ao átrio da Verdade que é nosso porto ideal, “o encoberto” que deveras demandamos.

Porto, 26 de dezembro de 2016
João Ferreira
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