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Artigos-->A entrevista mediúnica de Severino Francisco -- 20/04/2017 - 23:17 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

A ENTREVISTA MEDIÚNICA DE SEVERINO FRANCISCO
um meio de criar uma nova forma da arte de contar

João Ferreira
Brasília 19 de abril de 2017
I

A crônica é um dos gêneros mais explorados e mais ricos da literatura brasileira desde os tempos do romantismo, com grande incidência na literatura contemporânea. Pela evolução dada à crônica, sobretudo a partir do folhetim no século XIX, a crônica ganhou espaço, liberdade de concepção e gênero específico mais próximo do jornalismo. Mais do que tudo, na crônica passou a ter prioridade a imaginação, a capacidade estilística e a criatividade.Machado de Assis cultivou-a com mestria. Igualmente José de Alencar, João do Rio, Antônio de Alcântara Machado e depois Fernando Sabino, Rubem Braga, Sérgio Porto, Affonso Romano Santana e muitos outros. Alguns críticos, como Afrânio Coutinho, tentaram esmiuçar tendências e definir a estrutura da crônica brasileira, distinguindo crônica narrativa, crônica metafísica, crônica poema-em-prosa, crônica-comentário, crônica-informação e até crônica- reportagem. No âmago da estilística da crônica, a relação entre crônica e linguagem, crônica e estilo, crônica e literatura, crônica e filosofia, merecem seus destaques também.

II
Ao falar da entrevista mediúnica como nova forma na arte de narrar, quero referir-me hoje, em especial, às crônicas publicadas na coluna "Crônica da Cidade" do Correio Braziliense, por Severino Francisco, que tem utilizado por vezes a "entrevista mediúnica" para tornar mais atraente e mais consistente a sua forma de narrar.

III

Severino Francisco é um brilhante jornalista e também professor universitário, autor do livro "Música - da poeira à eletricidade" lançado no Sebinho da Comercial 406 Norte de Brasília em 2013. Em 1979 entrevistou Umberto Eco (1932-2016), então professor titular da cadeira de semiótica na Universidade de Bolonha, Itália, que proferiu, em 31 de agosto de 1979, importante conferência no Auditório suspenso da Reitoria da Universidade de Brasília subordinada ao título de "A semiótica e o sistema dos signos", nesse tempo, uma das temáticas de sua preferência e especialidade. Muito ligado à Universidade de Brasília, onde estudou, Severino Francisco publicou, em 22 de fevereiro de1981, o artigo "Deus e o diabo soltos eternamente", matéria referente ao Professor helenista Eudoro de Sousa.
IV
A crônica de Severino Francisco tem seu momento alto na criação e reinvenção da "entrevista mediúnica".
Notável pela variedade da matéria, pelo lado humorístico, criativo e abrangente, importa dizer que ela se inspira ora em eventos e realidades candangas ora nas realidades nacionais brasileiras.
No que toca à sua criatividade, o que fica mais em destaque é a capacidade que o autor tem de trazer matérias clássicas, teoricamente antigas, e até discursos, falas e ideias de escritores já falecidos conseguindo torná-los atuais tanto pela verdade dos conceitos quanto pela adaptação e criatividade dialógica pelo processo da "entrevista mediúnica" carregando a narrativa de sentido ético, para fazer sentir ao leitor, com verdade e ironia, os desmandos, as contradições, os escândalos e as corrupções de governantes e políticos do Brasil atual.
Só para exemplificar diríamos que uma das crônicas mais exemplares que exibem a "entrevista mediúnica" é a que foi publicada no dia 3 de março de 2017 com o título de "Bezerra mediúnico", uma referência ao pensamento do sambista Bezerra da Silva. É uma crônica que se comporta como se alguém estivesse entrevistando uma pessoa ao vivo. Severino Francisco pede a Bezerra, já falecido, que lhe descreva o malandro moderno de colarinho branco, que lhe explique porque tanto ladrão no país, que lhe diga algo sobre a culpabilidade do povo neste hábito da roubalheira geral - sobre este povo "que tem ladrão no Congresso, na quitanda e na padaria". O cronista pede a Bezerra lhe diga como desratizar o Brasil, ironiza a ridícula previdência social para o trabalhador de baixa renda, e termina por expressar a descrença de que político poderá resolver a crise: "para os políticos tirarem meu país dessa baderna só quando o morcego doar sangue e Saci cruzar as pernas"... Ainda na campo das entrevistas mediúnicas é imperdível a crônica da cidade intitulada "O verbo roubar" publicada no dia 19 de abril de 2017, no auge das revelações delatórias da Empresa Odebrecht. A entrevista é feita "neste momento dramático da república". O entrevistado é o "ilustre padre António Vieira(1608-1697), autor de Os Sermões. A crônica é de uma lucidez incrível. Utilizando muitos dos conteúdos do sermão O Bom Ladrão de Antônio Vieira, o autor da crônica, utiliza conceitos que vão de "roubar" até às situações críticas da modernidade política brasileira. E a primeira pergunta mediúnica é: "Como o senhor definiria o ato de roubar?", ao que o ilustre jesuíta responde: "O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco faz piratas; o roubar com muito, os Alexandres, os imperadores". - Por que essa escala? -"Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos;os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados; estes furtam e enforcam. Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul ou ditador por ter roubado uma província! Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só". Sobre a responsabilidade dos príncipes, Vieira responde: "Isaías dizia sobre os príncipes em Jerusalém: são companheiros dos ladrões[...] porque lhes dão os postos e os poderes...Como complemento das entrevistas mediúnicas, Severino Francisco consegue uma ficção fina e direta para descrever e fustigar a "barbárie reinante" da atual república brasileira, entre insignificantes representantes políticos do atual Brasil, em catarse e purgação. Servindo-se de sua cultura humanística na crônica "Assaltaram o Aurelião" de 16 de março de 2017, cita Ezra Pound que diz "que a corrupção começa pela corrupção das palavras" e em sequência fala do desespero dos políticos diante da delação Odebrecht e da tentação de estes quererem legislar sobre causa própria, se auto-anistiando. O cronista mostra como a tentativa de quererem anistiar os próprios delitos corresponde a quererem anistiar o sentimento dos fatos. Dessa crônica, na curva da narrativa, uma sentença final instrui o leitor de que "antes da corrupção das palavras está a corrupção da mente". A destacar que na entrevista mediúnica, o diálogo é a forma mágica que torna as ideias, as doutrinas e os contextos não apenas verossímeis mas potencialmente aptos a retratar com ironia as distorções de nossos políticos e os sem sentidos sociais.
Ainda, muito crítico, Severino Francisco é capaz de tratar com ironia, servindo-se da metáfora da pizza, dos indícios de corrupção da Câmara Legislativa do Distrito Federal("Crônica da cidade", 30 de março de 2017). Atento aos conceitos modernos da "Pós-verdade", nosso cronista orientou a ficção de sua narrativa de 4 de abril de 2017 intitulada "Luzes de Masi" para se referir aos conceitos do sociólogo italiano Domenico Masi, divulgados no caderno "Diversão e arte" que nos mostram algumas indagações agudas e lúcidas do italiano quando nos fala do atual "vácuo intelectual que nos impede de distinguir o que é verdade do que é falso", o que é belo do que é ruim, o que é bom do que é hipocrisia, o que é de esquerda e o que é de direita.
Severino Francisco carreia para sua crônica uma mentalidade aberta e uma arte avançada que proporciona atitude crítica, diálogo com o leitor e cultura ética - valores que a cidadania brasileira contemporânea busca como dádiva maior.
João Ferreira
Brasília 20 de abril de 2017

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