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Artigos-->Os Olimpianos e o Preço do Sucesso -- 20/08/2017 - 14:22 (BRASIL EUGENIO DA ROCHA BRITO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


OS OLIMPIANOS E O PREÇO DO SUCESSO

Brasil Eugênio da Rocha Brito



Em seu ótimo livro “A cultura de massas no século XX”, Edgar Morin nos introduz o conceito de olimpianos. Seriam eles os esportistas, os artistas do cinema, TV, teatros, concertos, os personagens da política internacional, as famílias reais e as dos governantes de grandes nações e demais pessoas que se tornam muito conhecidos/comentados por enormes parcelas das populações mundiais ou das assim chamadas partes do mundo. Tais personagens se tornam aqueles pelos quais a massa tem avidez para saber de como se vestem, como residem, quais seus amores (confessáveis ou não), suas opiniões, seus hábitos enfim. Na atualidade, Príncipe William, sua esposa Kate, Brad Pitt, Angelina Jolie, Julia Roberts, Matt Damon, Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, Roger Federer, Usain Bolt, Juiz Sérgio Moro, Roberto Carlos, formam entre os guindados a esta condição especial de olimpianos. Há os mais variados sentimentos e conjuntos de expectativas entre aqueles que alimentam (e dele se alimentam...) tal mito dos olimpianos. Desenfreada idolatria, mal disfarçada inveja e outros componentes nele se aglutinam. É comum se ouvirem sobre eles comentários do tipo “Não merecem ganhar o quanto ganham, só para chutar uma bola (ou dar uns cacarejos em público), etc., enquanto, do outro lado, um professor tem um trabalho árduo, dignificante, estuda tantos anos para ganhar cerca de 100, 200, 500 ou 1.000 vezes menos”.

Importante é notar, como E. Morin insiste em destacar, que somente é olimpiano, somente é paradigma invejável/invejada, a pessoa bem sucedida, sempre sob o brilho do sucesso, com “status” de ser ultra prestigiado, uma personagem viva, da qual a massa, ao acompanhar suas proezas, pode consumir as fofocas, os novos amores, os divórcios, os acidentes sofridos, os envolvimentos com tóxicos, as passagens compulsórias por distritos policiais, etc. Na sociedade moderna, desde aproximadamente o início do século XX, com o surgimento das mídias que enormemente ampliaram a difusão de notícias, acelerando também a velocidade com a qual tais fatos novos desde então podem tão rapidamente chegar àqueles interessados em recebê-los, foi então que surgiu esta casta dos olimpianos. Gozando de uma especialíssima posição na sociedade a partir dessa época, Morin nos lembra que realmente tal posição não lhes garante um gozo de privilégios, mas sim eles se situam numa condição que oscila perigosamente entre o polo dos seres idolatrados e o polo dos fortes candidatos a se tornarem indivíduos julgados negativamente, muito possivelmente passando a serem detestados, execrados até com furor. Assim, curiosamente, o olimpiano, para os consumidores de seu mito, é também um potencial indivíduo marginal. Basta que uma não suficientemente comprovada falha de um olimpiano ganhe foros de espetacular noticia e a derrocada acontece. Por exemplo, se uma brecha ocorrer em sua privacidade, se for o caso de alguma ocorrência fortuita que o envolva revelar algo que a massa considera atitude atentatória às normas e regras sociais que seus admiradores têm como verdades estabelecidas, isto bastará para a turma “cair de pau” sobre os robertos carlos, as angelinas jolies & cia ltda.

Importante será examinar o fato relativo a como, no decorrer dos tempos, a sociedade do mundo ocidental altera seus critérios de aceitação, valorização, possível rejeição de certas categorias profissionais, fato este que vem implicar mesmo na possibilidade ou não de alguém pertencente a determinada classe social vir a poder gozar de uma ascensão social passando a se integrar num patamar social acima daquele que os de sua profissão antes, quase que obrigatoriamente, tinham que se incluir. Sem citar nomes, por razões mais que óbvias, comentarei uma ocorrência havida na passagem dos anos 50 para os 60 do passado século, revestido de certo grau de dramaticidade. Foi quando um festejado astro do futebol brasileiro veio a se casar com uma jovem da sociedade, contra a vontade da família da noiva. Ao que se sabe, os familiares dela se estribavam apenas no preconceito voltado à figura dos profissionais desse esporte para se oporem à união do casal. Quase certamente, coloco eu como minha opinião pessoal, se o noivo fosse, por exemplo, um tenista (e não um futebolista), a família da noiva não teria qualquer oposição a tal casamento. Pelo visto, o estigma de “marginal” pode assim se deslocar, mesmo deixar de existir para uma classe de profissionais, coisa que veio a acontecer, já poucos anos depois do caso aqui citado, para com os futebolistas profissionais deste país. Entretanto, há que se reconhecer que ainda existem nas sociedades uma valorização diferenciada principalmente considerando “menos aceitáveis” certas classes de profissionais, tais como artistas empregados em certos setores. De um modo geral esses vêm a ser enxergados como “não possuindo uma aura de responsabilidade/seriedade”. Dentro dessa ordem de ideias, atentemos para o fato de como na área da música erudita são sempre facilmente guindados às condições de olimpianos os pianistas, violinistas, cantores, maestros, tais como Plácido Domingo, Martha Argerich, Joshua Bell, Maestro Simon Rattle.

Cerca de 50 anos atrás uma festejada cantora de óperas, a grega Maria Callas, foi uma olimpiana por excelência, exemplo maior de como a massa acompanha, de modo interessadíssimo, tudo de positivo e negativo que ocorre para com um olimpiano. Pessoa que aliava a condição de excelência como cantora de óperas a uma vida em que publicamente cometia transgressões várias às regras, normas que a própria sociedade estabelece e reconhece como sempre válidas, foi uma tal olimpiana que, inclusive, a massa passou a ter especial carinho por ela, que apenas vinha a receber, quando cometeu sérios deslizes, no mais das vezes, tão apenas a adjetivação de “excêntrica”, talvez sendo assim abonada pelo fato de ter surgido e se deslocar nesse mundo da arte considerada maior, séria, erudita. Algo que de certo modo até é muito surpreendente vem a ser o de se considerar como, até passagem da década de 80 para a de 90, era tacitamente aceito que se classificasse a homossexualidade, não apenas como um “desvio de conduta”, bem como um assunto muito conveniente para ser objeto de tratamento com um humor que muito se servia da depreciação dos praticantes, fosse em letras de músicas, em programas de TV, em filmes brasileiros, mexicanos, franceses, etc., ao mesmo tempo que, para a área dos compositores de música erudita, grandes literatos ou pensadores, mesmo para renomados compositores da Broadway, festejados atores do cinema mundial, sobre todos estes até existia um talvez estudado silêncio sobre serem ou não homossexuais. Assim, de um lado as gozações em letras tipo “Maria sapatão”, personagens criadas na TV como “Capitão Gay” e muitos outros, enquanto Oscar Wilde, Charles Coburn, Rimbaud, Cole Porter e muitas mais criaturas confessadamente homossexuais não sofriam nenhum tipo de comentário ácido, restritivo, numa época em que a sociedade ocidental era muito mais inclinada para a homofobia do que veio a se tornar desde os fins do século passado.

Já que atrás dissemos que Edgar Morin bem situou o fato de apenas poderem se valer da condição de olimpianos as pessoas vivas, ao olimpiano falecido caberia, ou se tornar uma personagem lendária, digna de vir, por exemplo, fazer parte de um “Hall da fama”, referente a suas atividades quando vivo. Ou então, se ocorressem circunstâncias de conotações negativas ligadas às condições de seu falecimento, ou serem revelados fatos antes desconhecidos, considerados como pesadamente desabonadores dessa pessoa, quase certamente, pelo menos por um certo período de tempo, viria a receber uma tal execração, tão ou mais intensa que a glorificação de que em vida pode gozar. Em alguns destes casos, tal repercussão negativa se torna tão enérgica, sem dúvida porquanto irrompem as forças de inveja e ira, tal qual vingança do indivíduo irrealizado/frustrado voltada contra aqueles que serão enxergados como tendo tido os bafejos da sorte que nunca sopraram a favor destes revoltados...

Deste modo, não há como desconsiderar que o preço pago para ser olimpiano é muito alto. Alguns pagam/pagaram altos tributos em vida por tal condição, pelo que muitos são os olimpianos que, com elevada razão, se queixam de “não terem direito a uma autêntica vida privada”, pois que tudo que fazem passa a ser de domínio público. Pessoalmente já tive ocasião de ler declarações de, por exemplo, membros de famílias reais europeias que procuraram se ligar matrimonialmente a pessoas não pertencentes a círculos das hierarquias reais, pesando em tal opção muito o interesse em virem a poder se subtrair às inconveniências que existiriam se tomassem a opção de formarem um casal de figuras de realezas.

Quanto a aspectos disso que atrás vim a comentar, valeria dizer algo sobre de como o texto original deste meu artigo ficou por tantos anos como que enfurnado numa gaveta por eu ter tido uma resolução da qual, de modo algum, me arrependo. Na verdade, eu comecei a escrever tal texto, de um modo sensivelmente diferente de como ele hoje foi reescrito, talvez cerca de um mês após o falecimento de Elis Regina. Possivelmente no dia que se seguiu ao passamento dela, a gentil e muito competente amiga Ana Maria Sachetto, ao tempo Editora de Artes de “A Tribuna”, me telefonou perguntando se eu aceitaria escrever um artigo a respeito da cantora como comentário ao infausto acontecimento com ela ocorrido. Após eu haver feito algumas colocações um tanto jocosas, considerando eu que há momentos em que, sem desrespeito, com a devida noção da dosagem de se pretender tornar menos pesarosa uma ocorrência como tal e, com vistas ao grau de amizade e respeito que me ligaram/me ligam à Ana Maria, eu poderia assim agir, muito lhe agradeci o seu convite e dele declinei pelas razões que adiante exporei. A parte que classifiquei como jocosa consistiu no seguinte.

Quando faleceram Orlando Silva, Cartola, Waldir Azevedo e talvez alguém mais que me escape à lembrança, sempre recebi de Ana Maria o honroso convite para, sobre eles e a ocorrência, escrever um texto. Ora, como aqueles dias eram os do meritório sucesso da personagem Odorico Paraguaçu na TV Globo, eu consegui alguns risos de Ana Maria ao iniciar minha resposta a seu convite, dizendo algo como “Ana Maria, muito me honra o fato de você me considerar, já desde algum tempo, um epitafista juramentado, porém ocorre que...” e continuei minha fala comentando, aí já abandonando o tom jocoso, explicando que, em razão de eu não ter por Elis Regina um entusiasmo ao nível daquele com que a brindavam tantos apreciadores de nossa música popular e mesmo tantos críticos de renome, não poderia eu produzir de modo oportuno um tal artigo, nesta especialíssima ocasião. Ana Maria bem compreendeu e aceitou minha argumentação. Entretanto, algo que nem eu, ou talvez ninguém, poderia prever, foi o que aconteceu nos dias imediatamente seguintes ao falecimento de Elis, fatos que me trouxeram muita tristeza e mesmo revolta. Assisti, em especial em reportagens na TV, comentários e depoimentos que procuraram dar ênfase a um possível “lado escuro” da pessoa Elis Regina. Conseguiram mesmo arrastar gente correta, mas de profunda ingenuidade, para engrossar o grupo de pessoas que desandaram a fazer tais restrições a possíveis mudanças em seu comportamento, nos seus últimos anos de vida. Como atrás já revelei, foi então que me dispus a escrever o texto original deste artigo, hoje sendo reformulado para, inclusive, se situar num contexto destes dias do novo século. Tal texto original o redigi até um certo trecho, sem a precípua preocupação de convenientemente vir a completá-lo, dar-lhe o necessário fecho. Nestes dias em que, em razão de encorajamentos de amigos e de familiares, me resolvi voltar a produzir textos, fui remexer em meus guardados desde fins da década de 1970, tendo encontrado cerca de uns 6 a 8 textos, ou totalmente acabados, ou com a falta dos fechos, tão necessários e tão mais difíceis de serem por nós aceitos como bem ou razoavelmente encaixados no todo do correspondente texto. Assim, encontrei “O soldado Tanaka”, “Concretamente falando”, “Cara a cara”, “Nas asas da Panair”, “Eu curtidor me confesso”, este “ Os olimpianos e o preço do sucesso”, “ O sanitarista e a natureza” (tal sendo um texto que expõe uma tese sobre assunto especial do saneamento básico, área na qual, como engenheiro, trabalhei por cerca de 33 anos).

Voltando a falar de Elis, agora aqui posso dizer de como tantas vezes tive vontade de aplaudi-la de pé, em especial em algumas de suas participações em festivais, quando cantando “Arrastão”, “O Cantador”, “Jogo de Roda”. Também confessando de quanto ela me aborrecia por algumas de suas atitudes, em especial em entrevistas. Dela, por outro lado saboreava as magníficas interpretações em “Dois pra cá, dois pra lá”, em “Atrás da porta” e algumas outras canções de João Bosco/Aldir Blanc e me irritava com sua emissão de voz logo ao início de “Fascinação”, em trechos de “Alô, alô marciano” e algumas poucas outras peças de seu repertório. Insisto que, ao deixar de redigir um texto à ocasião de sua despedida desta vida terrena, julgo ter agido de maneira acertada. Hoje, tantos anos já passados, nesta ocasião em que retomo tal assunto e me disponho a fazer um depoimento escrito, creio vir a ser sobremaneira importante ser afirmado que, aquela atitude minha de quase 40 anos atrás não terá sido, de modo algum, ditada por desamor, mas sim duplamente por respeito humano e necessidade de guardar coerência, a qual deve autenticar, chancelar as atitudes de quem supremamente preza a ética. Na verdade, muito mais do que eu ou qualquer apreciador de música popular brasileira possa ter como “sua particular verdade”, ressalta para mim o fato de que você, Elis é e sempre será valorizada como personalidade de maiúscula importância na chamada MPB, ainda se fazendo presente perante nós através de registros de suas interpretações em LPs, CDs e tantos outros engenhos que, após sua partida, se tornaram a nós disponíveis. É tão confortante podermos agradecer àquela então olimpiana cantora, hoje em merecidíssima dimensão mitológica, lhe enviando esta saudação: Muito obrigado, Pimentinha.

 


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