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Contos-->6. O HOMEM SEM MEMÓRIA -- 20/03/2003 - 06:48 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Era a conta de se passarem uns poucos dias e logo a história se apagava completamente na cabeça do infeliz Rosalvo.

“Que terei feito em minhas vidas anteriores para merecer tão duro castigo?”, perguntava aflito e logo lhe vinha a resposta novidadeira porque esquecida: “Como é que vou relembrar algo tão distante se os fatos atuais...”

Nem terminava o pensamento, interessado em resolver o drama do almoço ou do jantar, pois quase sempre se distraía e deixava passar a hora, esquecido de que aquela sensação de falta se constituía simplesmente no chamado natural da fome.

Tão perversa era a sua doença que necessitava da ajuda da dedicadíssima irmã para cumprir os compromissos mais importantes, como buscar a mínima quantia que o governo lhe destinava mensalmente, para acompanhar as palestras no centro espírita, para realizar as obrigações do voto e das declarações de renda, possuidor que era de um imóvel que herdou dos pais, e para outras inadiáveis providências sociais.

Um dia lhe faltou a irmã, levada desta vida por um desses azares modernos de atropelamento na via pública.

Para Rosalvo, além do alvoroço de dois dias desarvorado e perdido, tudo se encaixou às maravilhas, quando a família lhe destinou verba para receber em casa a ajuda de honesta empregadinha, indicada pela própria presidente da casa espírita.

Afora o fato de que Roberta não dormia no emprego, o mais daria ensejo para que a vizinhança ousasse lançar sobre o rapagão de trinta e cinco anos os olhos ávidos das novidades de estrondo. Mais do que isso, como não se pudesse comprovar nada de odioso, a malícia criou cenas imaginárias e a voz do povo ecoou pelas esquinas brumosas da luxúria contumaz e imprópria.

Dois meses foram suficientes para manchar a reputação que se mantivera ilibada tantos anos pela presença incorruptível da irmã. A pobre necessitada, ainda que de cor parda, ou por isso mesmo, se viu o alvo da maledicência, porque nem todos partilhavam da mesma fé espírita, sentindo-se como que no direito de julgar que os espíritos que fervilhavam nos terreiros tivessem ido habitar a casa de Rosalvo.

Roberta era bastante esperta para compreender que aquele emprego seria para muitos anos, tanto que a lista de tarefas que a falecida havia deixado copiada e xerocada pelas gavetas e bolsos do esquecidão lhe vinha servindo de guia para não se perder na orientação de cada jornada.

Antes que os ouvidos do centro espírita tivessem a infelicidade de escutar as mentiras, correu Roberta a contar à própria presidente o que se passava, relatando-lhe tudo quanto pensara a respeito de não perder aquela “boca rica”. Não foi essa a expressão que utilizou, mas foi assim que entendeu a sagaz senhora.

— Vamos fazer o seguinte, propôs ela. — A gente vai revezar durante um bom tempo todos os membros da diretoria em visitas ao amigo. Iremos sempre aos pares e aos trios. Assim, eu acho que vamos calar a boca maldita dos que tiram proveito da ingenuidade dos pobres.

Por mais de seis meses, a procissão não teve fim. Aquietaram-se os rumores e Rosalvo, que não manteve nenhuma recordação dos eventos funestos, não atinava mais com a razão da leva dos compatrícios que lhe traziam as melhores palavras de agradecimento por antigos e esquecidos feitos e conselhos.

Quando as línguas serenavam, apareceu Roberta de barriga, já com cerca de cinco meses de gravidez. Aí não houve mais motivo para a corrente amiga e se concluiu que estavam acobertando o que todos desconfiavam.

A mocinha, menor de idade, já se sabe, protestou inocência e acusou o padrasto. Este sofreu o maior vexame e teve de se retirar de casa, que os irmãos da esposa estavam dispostos a lavar a honra da sobrinha, ainda mais porque o homem era folgado e não contribuía em nada para as despesas.

A senhora presidente do centro não conseguiu outra confissão da protegida, muito embora desconfiasse de que o verdadeiro pai da criança fosse o próprio Rosalvo, cujas palavras compunham frases tão vazias como a sua memória. Mas o pobre desmiolado tomou uma deliberação surpreendente:

— Vou casar-me com Roberta, se ela me quiser para marido. Assim a criança irá ter um nome.

O coitado não tinha certeza de nada e pretendia desfazer o malfeito, caso houvesse realmente um.

Mas, como a pessoa que lhe ouviu a idéia era aquela mesma presidente do centro espírita, logo os familiares ficaram sabendo que havia um risco de permanente assunção de duvidosa responsabilidade. Sugeriu ela que se fizesse um exame de sangue do feto, entretanto não foi atendida, tendo sido mais prático encaminhar Rosalvo para clínica mais ou menos especializada, espécie de depósito de doentes mentais.

Por contaminação irreprimível, foi o nosso herói devidamente esquecido, não tendo mais recebido a visita de ninguém.

Nós mesmos o perdemos de vista e ficamos sem saber o que lhe aconteceu nestes derradeiros vinte anos. O que de melhor nos ficou da melodramática experiência foi a conclusão de que, se a memória nos provoca recordações felizes de épocas que não voltam mais ou lembranças muito tristes de acontecimentos infaustos, é verdadeiramente ruim para os que se dão ao desplante de viver de saudade. De qualquer modo, bem pior é ficar completamente desmemoriado.

Comentários

nMHZxqZGyNImBV  - 21/11/2011

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