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Contos-->10. DESCONFIANÇA SANADA -- 24/03/2003 - 11:44 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Revelava o médium Claudionor belíssima tendência para as obras de largo fôlego. Sempre que apanhava ditados no centro a que servia em todas as horas de folga, ficava o texto incompleto, como a pedir continuação.

Ora, o centro não lhe permitia ocupar o tempo necessário para realizar tal espécie de trabalho e ele não tinha como prosseguir em casa sem furtar as horas destinadas à missão voluntária em prol dos atendidos, quer do campo material, quer do espiritual.

— Claudionor, por que você, em sua casa, não dá passividade aos mensageiros para permitir-lhes desenvolver melhor os textos?

A essa questão levantada freqüentemente pelos colegas, respondia:

— Aqui eu tenho a certeza de que estou sob o amparo dos guias de superior moralidade. Em casa, desconfio que a minha pobre figura poderá receber a péssima influência de obsessores.

— Mas aí você traz as mensagens para serem analisadas por nós e logo a sua dúvida ficará esclarecida.

— Você está dizendo isso porque nunca se dispôs solitariamente a favorecer a psicografia. Eu, no começo, apanhava os ditados em casa, entretanto, nunca tive verdadeiramente momentos de sossego, de tranqüilidade, sempre molestado pelos filhos, pela mulher e até pela empregada.

— Ah!

Os interlocutores interjectivavam e deixavam de argumentar por total desconhecimento da realidade doméstica do parceiro.

Nesse meio tempo, como não obtivesse resposta aos apelos mentais no sentido de se explicar a razão de não se dar continuidade aos textos nas sessões subseqüentes, Claudionor escreveu na folha sobre que depositaria a mensagem:

“Por favor, queridos irmãozinhos, dêem-me o motivo pelo qual nenhum autor se interessou em completar as comunicações de caráter narrativo. Têm razão os meus companheiros em sugerir que eu trabalhe em casa, ainda que em detrimento dos meus horários no centro?”

Hesitou em deixar a folha sobre as demais, porém, no fim, achou que, se não lhe dessem resposta alguma, seria por que as coisas deveriam ficar como estavam.

Naquele dia, passou o tempo todo preocupado com a situação, não conseguindo concentrar-se para permitir que seus pensamentos refletissem os dos espíritos.

Argüido sobre o resultado da psicografia, revelou todo o drama que estava vivendo, deixando os demais médiuns apreensivos, já que, através deles, não se registrara nenhuma resposta.

Na reunião seguinte, a folha recebeu um pequeno acréscimo:

“Por que não houve aproveitamento de nenhum dos outros médiuns para a esclarecimento da questão? Será que eles também iriam ficar preocupados, deixando de trabalhar?”

Naquela noite, foram três os médiuns que não escreveram, além de Claudionor, é claro. Todavia, houve quem desenvolvesse uma espécie de resposta às questões.

Quando da leitura do texto, todos repararam que estava muito bem redigido, com palavreado raro, nada em comum com a pobre cultura do médium. Entre outras recomendações, dizia para que todos ali reservassem semanalmente um horário em seus lares, porque bem poderia suceder de serem visitados por espíritos de superior magnitude, gente absolutamente séria desejosa de transferir para os conhecimentos dos encarnados outros elementos concernentes à existência além-túmulo. Ressaltava o mensageiro que deveriam ser tomado cuidados especiais, para que o orgulho ou a vaidade dos trabalhadores não atraíssem espíritos ainda na faixa dos obsessores maldosos.

Mas havia outros itens, dentre os quais o seguinte:

“Quem estabelece os parâmetros dos ditados são os guias do centro. Em casa, o que de melhor pode acontecer é socorrer-se o chamado anjo guardião do escrevente de amigos convocados com o fito de se criar um cinturão energético para impedir a aproximação, durante o ato mediúnico, de qualquer ser que possa interferir negativamente no ânimo do encarnado ou dos próprios escritores, aquele quando consciente e participante, estes quando indefesos pela ingênua pretensão de que estão armados de boa vontade.”

Agora eram os da espiritualidade que o estimulavam para o trabalho em casa. Claudionor, então, deixou de comparecer à palestra da noite seguinte e, no horário em que estaria auxiliando no centro, arrumou-se no quartinho dos fundos, apetrechado de papel e lápis, e se dispôs a receber as mensagens.

Após a habitual prece do início das sessões, tendo feito a leitura de uma página de uma das obras de Kardec, concentrou-se e escreveu. Escreveu bastante, quase não tendo domínio sobre o assunto, grafando mal algumas palavras, para não perder o pique.

Duas horas depois, quase sem papel, esgotou-se-lhe de repente a inspiração.

Não teve tempo para juntar o texto narrativo a uma das mais de vinte introduções que arquivara, já que a esposa, preocupada, estava a bater-lhe à porta.

Na noite seguinte, também não compareceu ao centro para a distribuição das tarefas do final de semana, tendo registrado outro ditado ainda mais extenso, agora plenamente identificado com o do dia anterior.

Só voltou à companhia dos médiuns na semana seguinte, justamente na noite reservada à sessão de psicografia. Levava um bom calhamaço, cerca de quatro contos alentados, continuação de quatro mensagens antigas. Estava exultante.

Todos demonstraram bastante interesse, havendo quem se propusesse a copiar e imprimir.

Tanto bastou para Claudionor mudar de assunto:

— Como vocês se deram com a minha falta?

Teriam eles percebido o intento do gracejo? A verdade é que lhe disseram que muita coisa deixou de ser feita, porque somente ele estava a par do andamento dos negócios, e que ninguém mais soubera tornar mais fáceis os tratamentos aos atendidos.

Quando Claudionor se deparou diante da folha em que transcreveria a mensagem mediúnica, recebeu sucinta resposta à pergunta que previamente formulara:

Pergunta: “Qual é mais importante para os irmãos da espiritualidade: que eu atenda em casa aos que precisam terminar suas obras ou que venha ao centro para trabalhar em prol dos encarnados?”

Resposta: “Só volte a escrever em casa, quando a aposentadoria lhe propiciar tempo para tudo.”

E assim se fez.

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