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Contos-->13. O CATIVEIRO -- 27/03/2003 - 06:52 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Meu nome é Eulálio. Tive uma vida regrada e feliz, todavia, dono de inteligência desenvolta e de razoável cultura livresca, não participei de nenhuma corrente de caridade, muito embora, dentro dos estreitos limites de minha pequena família, nada deixava faltar à segurança e bem-estar dos meus.

Quanto a ter religião, jogava sobre a sensibilidade alheia a responsabilidade de intervir espiritualmente para favorecer o crescimento ou melhoria das condições de vida do povo em geral. Falando claramente, julgava que os sacerdotes tinham por obrigação salvar as almas, orando em apoio dos que não se portavam direito, ofendendo e desfavorecendo os semelhantes, a quem eu afirmava amar como amava a Deus.

Penso haver caracterizado o forte egoísmo e o sentido de autodefesa dos benefícios que herdei dos parentes, genéticos e materiais.

Extraordinária foi a minha passagem do mundo dos viventes para o dos mortos. Adormeci sem planos para o dia seguinte. Acordei com o marulhar da água batendo nas laterais do barco que atravessava o Estige. Ergui a cabeça e divisei na popa gentil cavalheiro a quem logo chamei de Caronte. Estava absolutamente convencido de que morrera. Estranhei que não me pedira a moeda de bronze, o óbulo, e que não estava vestido de andrajos. Em todo o caso, deixei-me levar sem perguntas, julgando que, na situação em que estava, tudo se esclareceria a bom tempo.

O dia clareava e isso também não constava de minha recordação dos mitos gregos. Em breve, encostava o barco no cais e, sem sentir, me vi sobre a plataforma. Imediatamente, olhei para o barqueiro desejoso de agradecer-lhe o serviço gratuito, mas ele me abriu um sorriso amigo, mostrando-me a moeda, logo transformando-se num velho bastante horrendo, esfarrapado e sujo, que manobrou a embarcação e desapareceu no meio das escuras brumas que cobriam o rio.

No alto de um mastro, li o nome do lugar: “Ilha dos Desencantos”. Não me repercutiu na memória essa estranha região. Andei um bom pedaço, divisando ao longe muitas pessoas que caminhavam para todos os lados, sorrindo e cumprimentando-se efusivamente. Antes que as alcançasse, passei por uma tabuleta luminosa: “Fonte das Boas Lembranças”. De fato, ali brotava um fio d’água cristalina.

Fiquei muito esperançoso de saber como iam os meus parentes mortos e sorvi alguns goles do precioso líqüido.

A minha mente pareceu iluminar-se da mesma forma que aquela atmosfera translúcida que envolvia o local. Recordei-me de toda a vida, sem mácula que me ferisse as cordas do arrependimento ou do remorso. Digo isso agora, porque foi bem diferente a minha sensação, que era de plena felicidade.

Não demorou e logo me apareceram meus pais e meus avós, todos abraçando-me e fazendo votos para o mais rapidamente possível me restabelecer da viagem.

Respondi balbuciando algumas frases que costumava dizer aos sofredores, cujo sentido exato eu percebi e me deixou a primeira noção de que algo não estava bem comigo. O que era? Era o convencionalismo social mais frívolo e desapegado de sentimentos.

Quando ia afirmar-lhes que a minha euforia pela tranqüilidade da chegada me punha em condições de concluir que estava merecendo uma reclusão esplendorosa, já haviam desaparecido, sobrando longa fila de pessoas ansiosas por cumprimentar-me. Eram tios, primos, vizinhos, colegas de escola e de escritório, fornecedores, entregadores, jornaleiros que serviram em casa, criados e demais pessoas cujo contato na Terra houvera sido longo ou curto. No final de muitos apertos de mão, de beijos nas faces, de tapinhas nas costas, ainda compareceram alguns dentre os vivos, que julguei em transe mediúnico ou em sono profundo.

Sem exceção, me dirigiram apenas palavras de louvor e de agradecimento. Mas tudo o que disseram soou tão falso quanto aquelas mesmas palavras que critiquei acima.

Assim começou meu tormento.

Quando desejava ver os familiares, lembrava-me deles e logo estavam ali, seja para uma partida de futebol, que invariavelmente terminava com a vitória do meu esquadrão, seja para o carteado fraterno e gratuito, durante o qual repetíamos os mesmos temas a respeito dos sucessos de meu modo de viver.

Partiam como haviam vindo: ao meu primeiro suspirar pela liberdade dos longos passeios pelas praias.

Foi numa dessas caminhadas solitárias que percebi que a ilha não era tão grande, tendo em vista que cheguei a contorná-la por inteiro, voltando ao ponto de partida. No horizonte, muitas outras ilhotas, talvez desabitadas, talvez agasalhando algum vagabundo do tempo como eu. Vagabundo porque não construía nada, não avançava um passo no entendimento da existência, não compreendia a razão de estar sendo atendido em meus desejos de compartilhar a felicidade com as pessoas evocadas, sem dar-lhes a satisfação de uma palavra de incentivo ou de apoio aos empreendimentos.

Nenhum daqueles possíveis vizinhos comparecia ao meu chamamento. Desejei passar-lhe a notícia de minha presença e ateei fogo a uns gravetos que reuni com o intuito de levantar uma nuvem de fumaça. Logo descortinei nas ilhas ao derredor outros sinais de vida através da mensagem sutil enviada para a atmosfera. Essa diversão me entreteve por bom tempo, mas não alcancei comunicar-me através de algum código, primeiro porque não conhecia nenhuma linguagem cifrada, segundo porque não sabia o que significavam aqueles entrecortes na continuidade do rolo aéreo de fumo.

Com o tempo, veio-me a preocupação de estar ocupando um espaço absolutamente tranqüilo, porém, retirado, verdadeiro eremitério ou cativeiro, apesar de obter a companhia de tanta gente. No entanto, todos tinham para onde ir e eu me sentia prisioneiro do bem-estar de que não abria mão.

Muito teria para contar a respeito da agonia que se apossou de mim. O importante, todavia, haverá de ser o relato puro e simples da feição que dei ao isolamento. Em lugar de evocar a presença de meus pais e irmãos, cheguei a pretender trazer para diante de mim filósofos e santos. E eles vieram em grande número, cada qual conforme os chamava. E punham-se a comentar a fragilidade da personalidade humana, os defeitos morais, a linha determinante de sua sabedoria e de sua virtude, como se conversassem sozinhos, descrentes de que a minha inteligência pudesse acompanhar-lhes a genialidade.

Um dia, estando já há um bom tempo sozinho, tentando decifrar o mistério da dor como componente da vida, fator de desencadeamento da ação de caráter positivo, atracou aquela mesma embarcação, trazendo outra criatura. Ao invés de me alegrar por receber um companheiro a quem pudesse descrever as sensações desencontradas de felicidade e incômodo psíquico, roguei ao condutor que me levasse para algum lugar em que houvesse um regime disciplinar para a aquisição dos conhecimentos mais elementares para a convivência regrada pelas leis gerais dos relacionamentos.

Caronte, como o chamei, fez-me subir no bote e conduziu-me rio acima, sem esforço, até que fui convidado a desembarcar perto de um edifício bastante amplo, de vários andares, em cuja fachada se lia: “Escolinha de Evangelização”. Isto foi há dez anos. Hoje, portanto, estou apto a desejar aos leitores melhor sorte do que a minha.

Até mais ver!

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