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Artigos-->Shangri-La -- 04/11/2018 - 09:38 (Padre Bidião) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Shangri-La

Peguei o vôo que não fizesse escala em lugar nenhum a não ser no destino final. Cansei daquele lugar inóspito e quase sem vida que estava a suprimir a reserva de oxigênio vital à sobrevivência. Os pulmões já não expandiam com o vigor de antes, onde os sonhos alimentavam a esperança numa realidade difícil.
Lá estava a pessoa que fez o papel de anfitriã a recepcionar toda uma bagagem de sonhos e desejos de décadas, cuja a única ambição era sentir a pureza do ar vindo do Monte do Himalaia. Com pouca bagagem, embarquei no veículo que em breve me levaria ao mosteiro. Esse seria meu novo endereço, onde a sutileza do silêncio proporcionaria o barulho necessário para a inspiração saudável que funcionasse como a cura a todo o processo de insanidade que por muito tempo fez-me acreditar na ausência de sentidos como única salvação. Já não sentia meus pés no chão ou mesmo a curvatura da coluna provocada pelo excesso de peso de todas as culpas e responsabilidades antes a mim, imputadas. Demorei retirar os sapatos para experimentar a sensação de caminhar com os pés firmes ao solo na companhia da perfeita solidão. Ela, entretanto recusou se aproximar do cidadão mundo, cercado por tantas oportunidades. Sentiu-se tímida e inferior, ao perceber aquela pessoa tão pragmática. Apenas no terceiro dia em Shangri-La, foi possível sentir seu cheiro e a harmonia que dela vinham. No quarto dia, ela resolveu sentir-se ao meu lado e iniciamos uma apresentação no qual ela se dizia estranha ao ver como um único ser tinha tanta bagagem. Ela se dizia bastar-se, enquanto eu não aguentava frequentar-me, pois tinha receio do vazio que poderia encontrar. Mas a solidão, essa mulher auto suficiente me assustava, e a insegurança me fazia crer na perdição da minha consciência. Não poderia perdê-la. A solidão de tudo era despojada e por isso se apresentava simples e ao mesmo tempo complexa. Foi então que percebi que quanta complexidade há na simplicidade e por isso mesmo, muitos se recusam a experimentar a própria solidão. Mas eu estava lá, em Shangri-La e não podia recuar ou mesmo recusar ao chamado dela que me faria ver quanta supremacia se pode experimentar no claustro. Enclausurei os medos e encarei o espelho da verdade que diariamente germina na minha existência. Priorizei e dei chance delas falarem alto e em bom tom que vulnerável sou e fico mais frágil se deles me refugio.

Bendita Shangri-La!
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