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Infanto_Juvenil-->Os Filhos da Sombra -- 29/12/2002 - 17:22 (Carlos Rogério Lima da Mota) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Eu tinha oito anos de idade quando fui para as ruas pela primeira vez. Cuidava de carros em frente a uma pizzaria, das cinco da tarde às cinco da madrugada, e todo o dinheiro conquistado, usava para comprar medicamentos para minha mãe, que mofava naquela cadeira de rodas, por causa de sua terrível doença, que prefiro não dizer.

Ela e eu éramos sós neste mundo, morávamos em uma favela, quer dizer, na ponta de um morro; um simples sopro seria capaz de nos jogar buraco abaixo.

Minha mãe adoeceu de repente, era linda, não que ainda não fosse, mas era muito mais... Lembro-me até hoje, por onde passava, chamava a atenção dos homens, causava inveja nas mulheres, encantava as crianças.

Doméstica, pulava de galho em galho, fazendo faxina e mais faxina, para que eu tivesse algo para comer.

Meu pai, bem, não conheci, mas diziam ser muito bonito, exuberante; pena que não quis me ter como filho! Talvez eu fosse feio demais para ser nomeado seu herdeiro!

Depois que minha mãe perdeu os movimentos da perna, fui obrigado a ir para as ruas e arranjar dinheiro para comprar seus remédios, nossa comida, ainda que sofresse com as ironias dos adultos.

Mas sempre havia aquele que tinha pena de mim e, além de me pagar para cuidar de seu carro, me dava um lanche, que sempre repartia com aqueles que se viam na mesma situação que a minha.

Certa noite, mais ou menos às onze horas, vi um senhor de uns sessenta anos, grande barba, meio curvado, fechando a porta de uma loja... Parecia ser um vigia!

Inocentemente, ele foi pela rua contando o salário como se não houvesse perigo algum. Contava cada nota como se fosse a última. Concentrado, não percebeu que do outro lado da calçada, Marcos, meu melhor amigo, aparentando estar fora de si por causa da fome que lhe roia, caminhava em sua direção. Desatento, o senhor continuava a contagem; quando Marcos se aproximou, empurrou-lhe ao chão, tomando-lhe as notas.

Não houve tempo para reação!

Por trás do carro, vi toda a cena e, naquele momento, era a única testemunha do ocorrido. Depois de Marcos desaparecer na escuridão, aproximei-me do senhor, que caído ao chão, após muito gritar, chorava, chorava feito criança...

Tentei confortá-lo, mas foi em vão. Dizia aos quatro ventos que o dinheiro roubado seria usado para comprar comida à mulher e aos 03 filhos.

Sentindo na pele toda a dor do coitado, afastei-me, sem dizer que Marcos era meu amigo. Meu amigo verdadeiro, aquele que, quando eu adoecia, cuidava de carros e o dinheiro que conseguia me era doado para comprar os remédios de minha mãe.

Minha consciência pesava: dizer ao senhor que eu sabia quem era o assaltante para que ele fosse à polícia e resgatasse, pelo menos, parte do dinheiro, ainda que traindo meu melhor amigo, meu fiel companheiro; ou ficar mudo, como se não soubesse de nada e deixar o velho, esposa e filhos passar fome o mês inteiro?

Ajudei-o a se levantar, olhei para os lados à procura da figura de Marcos, voltei meus olhos, de súbito, à face do homem... Seus olhos lacrimejavam sem cessar. A imagem de sua família subordinada à fome me comoveu, assim, uma lágrima quente, ainda que solitária, rasgou meu rosto, num sinal claro de que meu coração estava também em pranto.

Assim que se recompôs, lá fora ele, sem olhar para trás, na esperança de conseguir de novo o dinheiro roubado.

Apesar de comovido e de saber que o ato praticado por Marcos era crime, não consegui entregá-lo, afinal, era meu melhor amigo, aquele que jamais me abandonara...

Perdi a vontade de trabalhar e fui a pé para casa. Enquanto caminhava, olhava as estrelas, o céu negro, a lua enorme que me abraçava... Então chorei, chorei como nunca!

Só em pensar que aquele senhor e sua família sofreriam, como sofrem minha mãe e eu, tive vontade de voltar, contar-lhe sobre minha momentânea covardia, entregar o assaltante; entretanto, os laços de amizade entre Marcos e eu eram muito fortes, não coisa de amigo, mas de irmão... Infelizmente!

E lá fui eu, caminhando naquela escuridão, levando sobre os ombros o maior pecado de todos: A CUMPLICIDADE!

* E-mail do autor: carlos@bezenet.com.br


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