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Roteiro_de_Filme_ou_Novela-->A PAIXÃO DE UM ESPIRITA 1 -- 02/03/2005 - 06:42 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER
















A PAIXÃO DE UM ESPÍRITA



1.a Parte





Espírita — Que tem relação com o Espiritismo, partidário do Espiritismo, aquele que crê nas manifestações dos Espíritos: um bom, um mau espírita; a Doutrina Espírita.
Espiritismo — Doutrina fundada sobre a crença na existência dos Espíritos e das suas manifestações.
KARDEC, Allan — O Livro dos Médiuns. Trad. de José Herculano Pires. 1.a ed., Capivari, EME, 1996, p. 401.












ÍNDICE

Pedindo permissão ...........................
1. Uma hora dificultosa ........................
2. Simões ......................................
3. Os bons companheiros ........................
4. A polícia entra em cena .....................
5. Como não poderia deixar de ser ..............
6. Anacleto ....................................
7. Começam os tempos de angústia ...............
8. A palestra ..................................
9. Adeus emprego ...............................
10. Tristes acontecimentos ......................
11. Margarida ...................................
12. Um passar de olhos na vida de Cleto .........
13. Liberdade às avessas ........................
14. Tempo de espera .............................
15. Atendimento fraternal .......................
16. A solidariedade continua ....................
17. A vida aos pedacinhos .......................
18. Trabalho efetivo ............................
19. Ovídio foge da prisão .......................
20. Ari .........................................
21. Uma noite magnífica .........................
22. O Bispo Moisés ..............................
23. Fiapos de conversas .........................



PEDINDO PERMISSÃO

Obrigam-se os que comparecem a este posto de trabalho a estudar, desenvolver e adequar os conhecimentos da doutrina espírita ao sistema de vida das pessoas, para que tenham a possibilidade de ascender aos páramos da bem-aventurança.
Nem sempre trazem o sinete da perfeição, porque muito distantes se encontram de realizar a própria concepção espírita divulgada por Allan Kardec. Se estão matriculados, porém, em instituição de ensino beneficiada pela assistência de espíritos mais evoluídos, tendem a se inscrever entre os autores categorizados, não tanto pela ciência que portam, mas porque não transmitem notícia alguma em descompasso com os valores evangélicos.
Ora, todos os que aqui compareceram se disseram apaniguados pela proteção benéfica da entidade denominada de Escolinha de Evangelização, ainda que muitos fossem trazidos na condição de convidados, para efeito de exemplificação de assuntos relativos à fragilidade humana e espiritual, o que originou mensagens seguidas de comentários dos guardiães. Outros, por modéstia e por conhecerem os arcanos de sua consciência, se disseram inferiores, comprovando, contudo, pelo teor dos textos, que estavam no limite superior da escala agasalhada pela instituição, bem próximos, portanto, de receberem alvará para subir ao patamar evolutivo seguinte.
Nenhum desses é o nosso caso. Como todos, viemos em grupo, no intuito de demonstrar o que aprendemos, para facultar aos leitores outra manifestação sobre que meditar. Se temos o direito de exercer a mediunidade, temos o dever de ser úteis, sem descurar, evidentemente, o estilo, para acrescentar prazer e não aborrecimento às quase sempre ásperas lições, porque visam a corrigir defeitos, sem a contrafação do elogio e das recompensas psíquicas.
Não vamos ser acerbos a ponto de vergastar a quem se atreve a caminhar conosco, através destas páginas de puro verbalismo, uma vez que as ações de que somos capazes sempre haverão de condensar-se nestes pensamentos e nestes sentimentos. Por isso, a promessa imperiosa de privilegiar os mais inteligentes e os mais cultos, que se transformarão, pelo própria natureza didática dos escritos, em multiplicadores da doutrina, já que se apresentam com acervo extraído do que a literatura espírita tem de melhor.
Se não alcançarmos, não diremos interessar os mais doutos, mas pôr claro o objetivo evangélico para os mais entusiastas, tanto pior para o editor que se aventurar a nos dar a lume.
Por isso, iniciamos solicitando que nos permitam apresentar-nos perante o público terreno, aspirando sua compreensão e seu carinho, que se evidenciarão no duplo aspecto da simpatia natural de quem acata a transmissão como produzida por irmãos desencarnados e da prece dirigida aos seres superiores, para que ajudem na consecução das tarefas que se desencadearão.
Quanto aos recursos literários, quanto ao cabedal de conhecimentos, quanto aos aspectos morais e evangélicos, reavivamos a palavra do Codificador, quando nos avisava de que apenas um estudo profundo das mensagens é que dará condições de se saber se há mérito nelas.
Sendo assim, após esta breve abertura, seja qual for o prisma através do qual se encarem as leis cósmicas, devem os críticos ter em conta que sempre existe a intenção de elucidar, de debater, de apreciar, de valorizar, de estimular. Por outro lado, não importa que a obra tenha cunho fictício no que toca à apresentação das personagens e das situações, pois o que vale é a transposição que se quer plausível para o universo existencial dos que se encontram desejosos de aprender, com o intento, como aludimos, de ensinar, segundo a própria filosofia pedagógica de Kardec.
Fiquem em paz, abençoados pelo Senhor!



1. UMA HORA DIFICULTOSA

O amigo protetor desejava evitar que Plínio caísse em tentação e envidava esforços para que desconfiasse de que, apesar de simples, a transferência de valores da empresa para sua conta particular iria causar-lhe transtornos no futuro.
Plínio lutara por mais de vinte anos para obter a confiança dos patrões, alcançando um posto de prestígio mas de parca remuneração, segundo suas altas ambições.
“Fujo para o Nordeste, mudo de nome, faço operação plástica, abandono a família que está a devorar-me pelos pés, vou viver à larga, casas na cidade e na praia...”
Lembrava-se de um desenho animado em que a personagem repetia: “Mulheres, iates, mulheres, mansões, mulheres...”
Passava-lhe pela memória a figura graúda e mórbida da esposa e dos três filhos devoradores de salários.
“Aos quarenta e sete, é uma ótima oportunidade para fazer vida nova. Não vou cair nas amarrações do casamento e da paternidade. Tenho a experiência que aos vinte significou a derrota para o trabalho de toda a vida.”
Saldanha, no outro plano, insistia nas recordações, a ver se induzia o pupilo à ternura dos primeiros tempos, que se esqueciam pelo peso das responsabilidades não compartilhadas, agora que os filhos saíam da adolescência, sem qualificações profissionais, viciados, preguiçosos e prepotentes. Gostavam da vida regalada das drogas e suprimiam quanto encontrassem de valor em casa, para o escambo criminoso das esquinas, das praças e das ruas, já à luz do dia, que os bandidos não temem a repressão policial e mandam em seu pedaço.
Ao invés de encaminhar os pensamentos para os tempos mais venturosos, Plínio desandava pelas vielas tortuosas da impotência, pondo em desespero o benemérito protetor, antepassado não tão distante que não se visse em débitos antigos, pela falta de cuidados com a educação do afilhado.
“Transfiro o dinheiro para a minha conta, vôo para uma capital do Sul, retiro o dinheiro numa agência de grande porte, abro conta em banco cuja sede seja no Nordeste...”
Pensava que o seus documentos iriam denunciá-lo, porque o sigilo bancário não abarca a simples constatação da existência de conta.
“Se fizer tudo bem rapidamente, tenho tempo, no final de semana, de chegar a Recife... E meu nome? E os números da identidade e do cadastro da pessoa física?...”
Saldanha induzia-o a pensar nos problemas a serem enfrentados. E sussurrava, utilizando o mesmo canal de transmissão que um obsessor empregaria, que, mais tarde, organizado melhor o plano, poderia obter sucesso mais seguro, porque não adiantava passar dois ou três anos na boa vida para ser preso e recambiado a São Paulo, aviltado, sem perspectivas de restauração dos liames familiares que, mesmo precários, lhe garantiam uma comida quente, um leito asséptico e um fim de semana solto nas amizades do clube.
Plínio engavetou a má intenção e pôs-se a imaginar como seria flautear pelas areias cálidas das perfumosas praias que tinha conhecido há dezoito anos, quando levou a mulher, Margarida, em viagem recreativa patrocinada por concurso que vencera na firma.
Volveu os pensamentos para a sorte que um dia o brindara com a viagem de sonhos e se viu, durante aqueles quatro dias, correndo, meio balofo, aos vinte e nove, puxando a já relutante balzaquiana de trinta e um, que não queria molhar-se para não prejudicar...
Nesse ponto, ficou sem saber a que se referir, porque não entendia, positivamente, a maneira de ser e de pensar das mulheres. Sempre tivera por elas um desprezo polido ou um respeito de comiseração, conforme suspeitava no momento das reflexões, sem dar, evidentemente, tais denominações aos fugidios sentimentos, que não se deixavam amarrar ao conjunto de seu saber difuso.
Ia por aí a divagação do funcionário, quando o empregador surgiu no fundo do salão, mesas vazias, colegas almoçando, ele apenas diante do computador ligado à rede telefônica.



2. SIMÕES

— Com que, então, o meu fiel escudeiro está a lustrar a minha armadura?!...
Plínio não gostava dessas tiradas do patrão. Mas sorria amarelo, enigmático, a boca fechada. E respondia, sem inspiração:
— Estou de regime. Preciso perder mais de vinte quilos e, se for almoçar em casa, não vou conseguir.
— É o diabo quando a mulher não colabora. A minha era um palito e se sentia muito bem enchendo a mesa, como se cumprisse a obrigação. Mas foi bom você ter lembrado que precisa perder peso. Eu não faço regime mas malho na academia. É duro manter-me apenas com dez além do limite.
Plínio, enquanto ouvia, ia pensando que o patrão sempre se colocava um ou muitos degraus acima. Estranhou apenas que não dissesse que estava mais de trinta quilos além do peso. Mas acrescentou:
— Trago duas ou três frutas e um iogurte...
— Não vá passar fome, porque a companhia precisa que tenha boa saúde para produzir. Por falar nisso, quanto tempo falta para se aposentar?
— Um pouco mais de dez anos.
— Eu penduro as chuteiras no ano que vem. Por isso, estamos pensando em quem irá ocupar as vagas que vão abrir-se. Pelo que imagino, o Palhares assume o meu lugar, o Coelho, o dele e você passa a chefe do departamento.
Plínio ouvia com olhos que se esbugalhavam. Não se conteve:
— Será mesmo verdade?... O Senhor é tão jovem...
— Plínio, meu amigo, você não precisa disso. Depois de quarenta e dois anos no lesco-lesco, mereço ir passear pelas praias do Nordeste e conhecer alguns países da Europa, ainda mais agora como viúvo.
O empregado lembrava-se do passamento da esposa do patrão que ocorrera há mais de sete anos. A declaração soava falso. Estaria mentindo quanto ao resto?
— O Senhor está pensando em novo matrimônio?!...
— Vira essa boca para lá! Deus me livre e guarde e os anjos digam amém. Mas, se você subir, quem vai deixar no seu lugar?
— Não se preocupe. Eu treino o Moacir, que está na firma há mais de cinco anos.
— Você não acha o Moacir muito lerdo?
— Fico na supervisão. Se falhar, assumo e passo a bola para o Silvinho.
— Eu o autorizo a instruir um dos dois, desde já.
— Muito obrigado, Doutor Simões!
— Virei doutor, agora? Simões, homem, Simões!...
No etéreo, Saldanha se congratulava com Pedro Otávio:
— Teve você excelente expediente para impedir os intentos criminosos do meu afilhado.
— Pode crer que Simões conversou com o seu protegido, sem a minha participação. O que fiz foi acompanhá-lo de volta ao trabalho, instando para que pensasse a respeito da aposentadoria. Mas devo dizer que ele não tem vontade nenhuma de parar, principalmente depois que a esposa faleceu, porque se sente muito só, sem os filhos, que apenas de raro em raro o visitam. O seu entretenimento são os negócios. Se não fosse o dono da empresa, talvez pudesse ser afastado compulsoriamente, haja vista que oficialmente aposentado ele já está há cinco anos, recebendo quireras do Instituto de Previdência.
— Quer dizer que não pretende mesmo sair?
— Se isso for bom para ele, vou instigá-lo. No mínimo, ele está precisando ser mais caritativo. Se bem soube ler-lhe os pensamentos, está com a intenção de manter o Plínio no lugar, porque nem desconfia das intenções de desfalque. O que deseja com o treinamento do outro funcionário é pô-lo em condições de ser guindado à chefia do próprio instrutor.
— Preciso consultar os apontamentos psíquicos do Plínio, para prever a extensão do estrago mental que essa “injustiça” irá provocar. Pelo que imagino, se nada ocorrer que o faça ver a vida como realização cármica, irá programar mais seriamente a transposição para sua conta dos valores que o estão tentando.
— Vibremos pelos dois.
Se Plínio tivesse aguçado o dom da escuta mediúnica, teria percebido que alguém elevava uma prece em seu favor. De qualquer modo, estava imerso em profunda alegria, sentindo-se reconhecido pelos vinte anos dedicados à empresa. Por uns tempos, deixaria de lado a idéia da falcatrua contra o erário do patrão.



3. OS BONS COMPANHEIROS

Ao retornarem os funcionários para o turno da tarde, Moacir e Silvinho chegaram conversando e animados. Dizia o primeiro:
— Não é verdade que todas as pessoas não dizem o que pensam, não se revelam, não se ajustam às regras morais superiores. Pelo menos, algumas que conheço fazem jus ao título de honestas e verdadeiras.
Correspondia o segundo:
— Desde que você me levou ao centro espírita, tenho reparado melhor no procedimento das pessoas e posso assegurar que conheço bem poucas que são como você está dizendo. Não perdem oportunidade de se aproveitar das fraquezas dos outros, para benefício próprio.
Esse rabinho de prosa foi tudo que Plínio ouviu, suspeitando, no íntimo, que também aqueles dois não se enquadravam entre os mais puros.
“Em todo caso”, pensou, “posso colocá-los à prova, sugerindo que procedam de forma errada, atraindo-os para alguma armadilha. Mas tenho de informar ao Silvinho que deverá sentar-se ao meu lado, porque foi ele o predileto do Simões. Por mim, chamava o mais lerdo.”
Ato contínuo, chamou Silvinho:
— Você aí do benefício próprio, venha comigo, por favor.
Silvinho e Moacir trocaram olhares interrogativos, no entanto, não atinaram a que vinha a inusitada convocação.
— Pronto, Senhor!
— Venha comigo!
Percorreram de volta o corredor central do salão, até o hall de entrada, conduzindo Plínio o subordinado até um banco lateral, onde se acomodaram.
Parecia a Silvinho que algo muito grave estava para ser-lhe revelado e logo foi antecipando:
— Seu Plínio, o Senhor está me deixando assustado!
— A notícia é boa. O Simões vai aposentar-se e quer que alguém ocupe o meu cargo, porque me ofereceu o de diretor. Eu escolhi você, por causa de seu empenho em aprender. Em pouco mais de dois anos, você já é meu braço direito.
Silvinho, entretanto, não demonstrava alegria. Ao contrário, até um mau fisionomista teria visto que o cenho se lhe carregava e a cabeça descaía. Era tão flagrante a transformação que Plínio observou:
— Que está acontecendo, rapaz? Não ficou feliz com a promessa de melhor salário e de progresso na carreira?
— Vendo por esse modo, só tenho de agradecer ao Senhor a preferência pela minha pessoa.
— Que outro modo há para ver?
— Acho que meu colega Moacir merece mais do que eu.
— Bobagem! Ele vai muito devagar. Você tem três anos a menos na empresa e faz coisas em que ele passa batido. Eu bem que falei para o patrão que o Moacir podia sentir-se injustiçado mas ele me garantiu que punha todas as coisas no lugar.
— Quer dizer que o chefe já se definiu por mim?
— Praticamente. Deixou-me à vontade para decidir.
Saldanha sacudia a cabeça em franca desaprovação. Não gostava das mentiras que Plínio ia salpicando na vida. Desde longa data, vinha frustrando o pupilo, instigando os demais à descoberta da verdade. Mas o homem não aprendia com a vergonha e os carões.
Silvinho aproveitou a deixa para enfatizar:
— Posso ser absolutamente sincero com o Senhor?
— Claro!
— Eu concordo que Moacir tem alguma dificuldade. Mas é firme como uma rocha. Depois que aprende, não se esquece mais e sempre aplica corretamente o princípio assimilado.
— Veja você, Silvinho, uma coisa. Se eu estivesse conversando com ele, não iria ouvir palavras ditas com tanta precisão, com tanta certeza. Mas entendo o seu coleguismo, porque vocês estão se dando muito bem.
— Se o Senhor eleger o meu amigo, garanto a retaguarda e passo a vigiar o serviço dele, até que conheça tudo. Veja que o Senhor ganha duplamente, porque não serei apenas eu quem irá se inteirar das atribuições de seu cargo.
— Quero ver se entendi. Corrija-me, se estiver errado. Você foi levado a um centro espírita pelo Moacir, conforme ouvi os dois conversando. Certo?
— Correto!
— Aí você está se sentindo preso a ele, como se devesse algo de muito valor.
— Com certeza!
— Eu ouvi você dizer (como é mesmo?) que a maioria se aproveita da fraqueza dos outros para seu próprio bem...
— O Senhor tem excelente memória!
— Agora você quer manter a sua posição, ou seja, quer ficar entre os melhores, aqueles que agem com lealdade, sem hipocrisia...
Não foi difícil a Silvinho compreender o tom irônico do discurso. Mas não fez menção de se importar, insistindo:
— Eu não recuso a sua oferta, que acho muito generosa e me envaidece. Mas não posso deixar Moacir na berlinda, mesmo porque eu sou solteiro e ele é pai de família, precisando muito mais do que eu melhorar o salário.
Plínio fez um gesto que alegrou Saldanha, embora visse muito bem que havia, no fundo do coração do protegido, a corroer-lhe a benfeitoria, a primitiva intenção de manter o seu substituto sob controle. Plínio abraçou o subalterno, dizendo-lhe ao ouvido:
— É de amigos assim que a humanidade está necessitada.
— Aprendi com Jesus, lendo O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.
A referência clara ao livro doutrinário, porém, não repercutiu na mente do chefe como gostariam Silvinho e Saldanha.
Voltando ao escritório, Moacir foi convidado a juntar-se ao grupo, tendo ficado imensamente emocionado com a proposta que Plínio lhe fez, mais ainda quando soube, por boca deste, que tinha sido Silvinho quem insistira para que o escolhido fosse ele.



4. A POLÍCIA ENTRA EM CENA

Preparamos os espíritos dos amigos leitores para a eventualidade de algum dos pimpolhos causar problemas na área policial. De fato, naquela mesma tarde, antes do término do expediente, foi Plínio chamado pela esposa, que corresse a ajudar o Ovídio, preso em flagrante delito de roubo.
— A que Delegacia foi recolhido?
— Você vai precisar procurar.
— Quem foi que avisou você?
— Foi o Cleto.
— Põe ele no telefone!
— Saiu.
Plínio ficou sem saber o que fazer. Não queria espalhar no ambiente de trabalho que o filho era um marginal, embora desconfiasse de que todos soubessem. Tomou a decisão de ficar na sua.
“Não vai demorar e a própria polícia virá atrás de mim. O Ovídio vai pedir socorro e alguém virá me avisar. Afinal, ele é de menor. Quinze anos, no mês passado. Se estiver com o documento na carteira, vão acreditar.”
Moacir, porém, que estava trabalhando junto, não pôde deixar de perceber que o chefe tinha problemas. Perguntou:
— Alguma coisa séria, Seu Plínio?
— Nada que você possa...
Ia dar uma resposta grosseira mas, de repente, se lembrou de que Moacir era espírita.
“Essa gente tem parte com o diabo. E se ele tiver sido avisado (como é mesmo?) por inspiração ou algo assim? Não é certo que no centro espírita eles conversam com os seres do outro mundo? Vou maneirar.”

O narrador tem a obrigação de esclarecer que o tempo de leitura é bem mais longo do que aquele em que se deu o pensamento da personagem. Aliás, devem os leitores perdoar a transcrição das idéias e sentimentos, os quais deveriam inserir-se mecanicamente no diálogo ou na descrição psicológica. Como, entretanto, nada estamos querendo deixar para a imaginação, porque reproduzimos um caso real, isso irá onerar sobremodo a redação. Paciência! Vamos ter de enfrentar algumas soluções de continuidade no texto que, no final, vão constituir-se em adendos úteis, para que se dê compreensão integral da estória.
Outro aspecto a ser ressaltado é a assertiva de se tratar de um caso real. Se tais personagens forem buscadas dentre os encarnados, vão os investigadores frustrar-se, pois trabalharão inutilmente. Sendo assim, nos anais da polícia não há registro algum de que um tal de Ovídio, filho de Plínio e de Margarida, com tantos anos de idade, foi detido em flagrante delito, quando, em companhia de mais dois menores, encostava uma faca na barriga de um transeunte, em tal rua, em tal bairro, sendo a vítima um delegado de polícia, que, imediatamente, providenciou o cerco aos rapazes e sua captura. Quando nos referimos ao fato da realidade, estamos realizando apanhado de casos que ocorrem na sociedade humana, de resto muito comuns, infelizmente, para transpô-los para a nossa organização ficcional.

— Moacir, se eu contar que tenho um filho viciado em cocaína, estarei dizendo alguma novidade para você?
Antes de responder, tendo feito um gesto para Plínio esperar, Moacir foi até a mesa de Silvinho, deram um dedinho de prosa e logo voltaram os dois, acomodando-se um de cada lado.
Foi só então que Moacir respondeu:
— Nós sabemos, querido amigo, que os seus três filhos estão presos ao vício.
Plínio sobressaltou-se:
— Que é isso? Uma invasão de minha vida particular?
Silvinho repousou a mão no antebraço do outro e pediu-lhe:
— Calma, Seu Plínio. Não há nenhum mistério nisso. Sabemos do que se passa com seus filhos porque Dona Margarida nos foi procurar e nos contou tudo.
— Quando foi isso?
Foi Silvinho quem esclareceu:
— Na semana passada. Ela soube que o centro dá assistência às famílias com tais elementos em fase de viciação e nos procurou. A bem da verdade, ela pediu que nós não contássemos nada, porque ela mesma ia falar. Foi então que nós dissemos que somente revelasse ao Senhor as providências que tomou, depois de a gente se informar, com segurança, onde atuam os rapazes, quem fornece as drogas, quanto compram, em que estado estão, se pertencem a alguma quadrilha e tudo o mais que o pessoal tem capacidade de saber com o auxílio da polícia.
— E deu tempo para saber tudo isso?
Moacir emendou o que Silvinho vinha dizendo:
— Não deu. Mas podemos garantir que o mais velho, o Anacleto, é o que se apresenta pior. Quanto ao Ovídio, motivo de sua conversa ao telefone — desculpe-me por ter prestado atenção — é o que preocupa mais, porque está metido com uma gangue da pesada.
— É esse que está preso.
— Já suspeitávamos que isso ia ocorrer a qualquer momento. E Dona Margarida ligou avisando...
— Vocês têm algum meio de saber onde ele pode estar?
Coube a Silvinho informar:
— Normalmente, o delegado, assim que lavra o boletim de ocorrência, faz encarcerar o menor, até que acabe o efeito da droga, para ser transferido para algum centro especializado. Como Ovídio não deve estar fichado, se não houver ninguém forçando a barra para ele ficar detido, o que acontece muitas vezes, quando a vítima não quer formalizar a queixa, confiando na polícia, pode acontecer de o Senhor vir a ser chamado para se inteirar do que está sucedendo, responsabilizando-se pelo jovem.
Plínio calou-se, a meditar a respeito do que tinha ouvido. A sua tendência era a de não atender à convocação. Nesse sentido, demonstrando certa abalo, sem exageros, informou, em voz baixa, não sem antes passar os olhos pelo escritório a ver se mais alguém se interessava pela conversa dos três:
— Não pensem que sou um mau pai, irresponsável. Esses meus filhos cresceram livremente, com todas as regalias. Posso ser acusado de ausente, porque não acompanhei estes cinco ou seis últimos anos do crescimento deles. Pus tudo nas mãos de Margarida. Mas também não posso afirmar que ela seja culpada de nada. Eles é que têm maus instintos. São respondões e não aceitam...
Moacir se condoeu com a descrição íntima e não permitiu que Plínio fosse adiante:
— Chefe, o Senhor não precisa contar nada para nós. A sua história é banal. Quando a gente reúne os pais de adolescentes em débito com a sociedade, por causa de crimes provocados pelos tóxicos, estamos muito mais interessados em entender como estão os jovens e qual é o relacionamento com a família, buscando nortear as atitudes dos pais pelo amor que deve ter existido um dia, para que tais criaturas fossem concebidas.
— E se eu disser que é esse o meu maior problema?
Silvinho não quis ouvir a declaração de que Plínio não gostava dos filhos ou coisa semelhante e interceptou-lhe a palavra:
— Perdoe-me, Seu Plínio, mas eu acho que nós devemos deixar o resto para depois que livrarmos o seu filho. Permita-nos que, em silêncio, façamos uma prece para os seus protetores, para que ajudem a vocês todos neste transe de dor.
Ato contínuo, Moacir e Silvinho retornaram a seus postos e devotaram-se, cada qual de per si, a contatar o plano espiritual.
Por mais estranho possa parecer, Saldanha esfregava as mãos, em sinal de profundo contentamento.



5. COMO NÃO PODERIA DEIXAR DE SER

Não sabiam as personagens mas os leitores estão a par de que a pessoa assaltada era um delegado de polícia e isso faz muita diferença.
Trazidos os três malandrinhos à carceragem, foram colocados à mercê dos adultos, pintainhos inexpertos perante galos rinhentos ávidos por bicar a carne fresca e tenra dos engazopados da sorte. Pior ainda quando se ouviu dos policiais a recomendação de que deveriam conhecer de que couro se extrai a correia.
Plínio ficara na mesma, porque a conversa com os dois espíritas não lhe adiantou nenhuma providência prática, embora servisse para lhe estimular a idéia de que a esposa saíra em procura do remédio para os vícios dos filhos.
Esperou o término do expediente sem realizar nenhum serviço, na expectativa de receber algum telefonema ou a visita dos investigadores.
“Não é possível que os detetives não saibam onde moram os rapazes e onde trabalham os pais. Deve ter sido a primeira coisa que o Ovídio deve ter suplicado. O infeliz deve estar precisando trocar as calças, porque não é brinquedo se ver às voltas com a repressão policial.”
Era o tempo em que a televisão mostrava os agentes da lei agindo contra a marginalidade, aplicando os cassetetes com a máxima competência. Algum tempo antes, houve tremenda carnificina dentro de um presídio, quando mais de cem encarcerados tombaram sem vida, e Plínio tivera oportunidade de ver as fotos nos jornais e as cenas na televisão, com os corpos em diversas fileiras, desnudos e feridos.
Irresistivelmente, juntou ao grupo o filho menor e pôs-se de joelhos perante o Senhor, a rogar pela salvação dele. Claro está que tudo se passava no âmbito da mente mas, se tivesse dobrado as pernas, teria alcançado o mesmo efeito, já que Saldanha suspendeu o regozijo e correu a ver se evitava males maiores ao pequeno criminoso.

O narrador deve pedir vênia aos leitores para outros parênteses, tendo em vista a necessidade de elucidar que o local em que se reuniam os delinqüentes na cadeia estava sob o domínio de certas entidades malignas, espíritos de má catadura, obsessores e demais caterva sem qualificação espiritual. Se Kardec se desse ao trabalho de classificá-los em sua escala, iria incluí-los entre os da última ou, no máximo, penúltima categoria.
A conseqüência disso é que Saldanha não alcançaria o seu objetivo, repudiado que se viu desde logo pelos túrgidos humores emanados daquela turbamulta de seres imperfeitos.
“Para adentrar esse nefando e putrefato ambiente, preciso vir na companhia de plêiade de entidades preparadas para enfrentar as forças conjuntas de tantos vampiros.”
Enquanto o tímido protetor se dirigia à colônia que o vinha agasalhando, um grupo de espíritos bondosos envidava esforços no sentido de, a distância, interessar os mais perversos num plano de fuga, desviando-lhes a atenção dos recém-chegados, dando-lhes a confiança de que os rapazelhos estavam na mão e não tinham como escapar da ação libidinosa.

Na hora da saída, Silvinho se propôs a acompanhar o superior, predispondo-se com boa vontade a percorrer as diversas delegacias ao derredor do bairro em que moravam, a partir das informações que Margarida pudesse oferecer.
Foi assim que, com o ânimo derreado, Plínio conduziu seu veículo através do intenso trânsito, levando mais de hora até arribar em casa, onde encontrou o tumulto instalado.
De fato, havia cinco viaturas policiais estacionadas à sua porta, soldados portando metralhadoras, a multidão mantida longe.
Para passar pelos guardas, precisou identificar-se como dono da casa e pai do malfeitor. Silvinho passou reconhecido pelos sentinelas.
Lá dentro, o maior fuzuê de móveis e objetos, tudo arremessado ao chão durante a pesquisa de pente fino para o encontro de drogas e de armas.
Margarida correu para perto do marido, demonstrando desespero, mas sem gritar:
— Plínio, veja o que o Ovídio aprontou para nós! Eles acharam maconha, cocaína e três lâminas de aço escondidas debaixo do colchão dele. E agora estão revirando tudo.
Não deu tempo para o pai se lamuriar e já apareciam mais objetos proibidos: uma arma de fogo municiada e várias trouxinhas de craque.
O tenente encarregado das buscas foi logo interrogando:
— O Senhor é o pai do indiciado?
— Sim.
— Onde esteve até agora?
— Trabalhando na firma do Doutor Simões, onde passei o dia.
Silvinho apresentou-se como testemunha:
— Tenente Conrado, lembra-se de mim?
— Como vai, Sílvio? Que faz aqui?
— Trabalho com este senhor e vim junto para ajudar no que for possível.
Mas o tenente estava para pouca conversa:
— Como é mesmo o seu nome?
— Plínio.
— Para facilitar as coisas, vá mostrando onde estão os bagulhos e a muamba.
— Eu não estou sabendo de nada.
— Vai me dizer que não tem conhecimento das atividades de seus filhos...
— Não, Senhor. Eu sei que eles estão viciados. O que não sabia era que estavam desse jeito.
— O que achamos aqui caracteriza tráfico de drogas e, se ninguém tem porte de arma, então estão enquadrados em mais esse tipo de crime.
— Eu nunca vi esses objetos. Isso é coisa deles.
— Quantos anos tem o mais velho?
— Dezessete.
— Todos de menor. Eu já devia saber...
Plínio desejou conhecer a extensão do crime:
— Que foi que o Ovídio fez para merecer toda esta gente aqui em casa?
— Vai me dizer que o Senhor não sabe...
— Estamos chegando agora do trabalho. Fui avisado pela minha mulher que ele foi preso tentando assaltar uma pessoa.
— Tentando assaltar, não! Depois de ter assaltado o delegado. E veja que estavam os três armados, sendo que foi seu filho quem encostou o punhal na autoridade.

Para os leitores que vêem televisão, é cediça a narrativa do que ocorre em situações dessa espécie. De resto, poucos escritores serão tão versáteis na exposição de tais acontecimentos que suplantem os vídeos dessas reportagens in loco. Vamos poupá-los, pois, indo diretamente ao desfecho, qual seja, o de que Plínio foi intimado a acompanhar os policiais, levando consigo Margarida e Silvinho, que seguiram no carro da família, para o encontro com o delegado que providenciou o enquadramento dos meliantes, perante as declarações da vítima e dos investigadores que efetuaram a prisão em flagrante delito.
Enquanto isso, Moacir, alertado por Silvinho telefonicamente, providenciava socorro jurídico junto aos causídicos do movimento de defesa dos direitos dos cidadãos, especialmente dos menores de idade.
Após várias horas de espera, de idas e vindas, de discussões e petições, orais e escritas, lograram os advogados transferir os infratores para um centro de recuperação de delinqüentes juvenis, de onde não sairiam tão cedo.



6. ANACLETO

Tivéssemos mais traquejo na elaboração da estrutura dramática do romance, não escreveríamos este capítulo, porque estamos correndo o risco de antecipar vários aspectos importantes da trama, sem conectá-los com o fundamental para nós, ou seja, a teoria espírita. De qualquer modo, vamos enfrentar a dificuldade, sem mais tardanças.

Anacleto, como ficou dito na voz dos companheiros Moacir e Silvinho, era o que mais preocupava quanto ao envolvimento com os vícios. Se pensarmos um pouco mais seriamente, verificaremos que o fato de Ovídio ter sido apanhado demonstrou que não tinha a mesma capacidade de disfarce do que ficou livre.
Na verdade, a inspiração do assalto foi toda do mais velho, pois era quem mantinha relações de comércio com os fornecedores e quem organizava a venda em diversos pontos do bairro, mantendo-se à frente de mais de vinte pequenos pombos-correio, raia miúda mais dependente da droga do que positivamente negociante.
Anacleto mantinha a turma sob rigorosa vigilância, sem permitir qualquer desvio de féria ou de produto. Pagava prontamente, sempre em espécie, nunca em dinheiro, fazendo-se cheio de sutileza quanto a reter os serviçais, porque escolhia a droga segundo via o poder de atuação de cada um, oferecendo maconha a uns, cocaína a outros, craque para a maioria. Para os que se iniciavam, proporcionava cola de sapateiro e algum psicotrópico estimulante menos drástico, a ver se conseguiam discernir os comandos, obedecendo às ordens que lhes dava.
Ele mesmo não consumia demasiado, procurando manter-se lúcido para a eventualidade das fugas. Era ladino da esperteza dos malandros mais experientes e só se dava às picadas quando sabidamente estava protegido pelos seguranças oficiais dos bailes suburbanos, onde a polícia não vai, porque a multidão exige força de repressão incompatível com a colheita de produtos e marginais.
Nunca, porém, precisara desaparecer, porque a polícia não havia estendido os tentáculos para o seu grupo. Naquela oportunidade, dera azar porque o irmão escolhera mal a vítima e agora deveria utilizar-se de um dos três planos que imaginara para a circunstância adversa.
Procurou, pois, sair da cidade imediatamente, após verificar que havia um traficante que ia buscar um carregamento no interior do Estado. Levava dinheiro suficiente para passar alguns meses instalado em alguma pensão modesta, tempo suficiente para se inteirar do tráfico da cidade e propor-se como auxiliar, para o que deveria oferecer a contrapartida de sua coragem e de seus conhecimentos.
Para tanto, possuía documento de identidade falso, em que a idade o colocava no rol dos maiores, de sorte que poderia, inclusive, empregar-se, para dar aparência honesta à sua permanência na nova localidade. Para não facilitar o trabalho da polícia, buscou uma cidade de médio porte, onde passaria despercebido, caso seu retrato fosse divulgado.
Essa era outra providência de que se gabava, porque a foto do documento incluía o disfarce da cabeleira curta e loira, quando era moreno e prendia o cabelo na forma de rabo-de-cavalo. Vira em diversos filmes que precisava complementar a transformação pela colocação de lentes de contacto que combinassem com a cor do cabelo, mas isso iria ter de deixar para mais tarde, porque os seus haveres eram pequenos.
O filho mais velho de Plínio sabia, também, que vários criminosos chegaram a submeter-se a operações plásticas no rosto, mudando-se para outro país ou continente, integrando-se em bandos organizados para tal finalidade. Mas, para o nosso Cleto, tal perspectiva se enquadrava na área da fantasia e da possibilidade.

Vamos encontrá-lo dois dias após, conversando com garotos à porta de um instituto de educação, solicitando informações:
— Tem alguém aqui que já experimentou?
— Qual é, meu? Onde está o microfone?
— Vocês estão pensando que sou repórter? Essa é boa. Estou é precisando de uma dose, que estou começando a desandar.
Cleto não escondia nunca os efeitos nocivos da droga mas buscava deixar evidente que era capaz de se manter sadio, controlando as quantidades.
Os pequenos, crendo-se sabidos, logo soltaram a língua:
— Se é maconha o que você quer...
— Qualquer coisa serve.
— Craque é na antiga estação. Não é difícil de achar. Os caras trabalham à luz do dia.
— Pode ser maconha mesmo.
— Nesse caso, é só esperar um pouco que logo eles passam para ver quem quer.
— Falou! Vocês foram legais. Vou me lembrar disso.

Cedemos à tentação do diálogo para alertar que o Cleto tinha meios de convencimento bastante técnicos. Se se dedicasse aos estudos, conseguiria, com certeza, um diploma universitário. Do jeito que levava a vida, não passara da sexta série primária, sempre prometendo entrar no Curso Supletivo, à noite, o que faria positivamente se visse que iria faturar mais trabalhando do lado de dentro da escola.

Não foi difícil, portanto, enturmar-se com os traficantes locais, não sem contar as peripécias da turma do irmão, para justificar a procura de outra praça. Com o fito de demonstrar boa vontade, comprou uma boa quantidade, que logo embalou convenientemente, dispondo-se a trabalhar nos pontos que lhe designassem.
Forneceram-lhe um companheiro e, em três tempos, deu conta do recado, mantendo-se absolutamente sóbrio, afastando-se até do cigarro e das bebidas. Precisava conquistar a confiança dos chefes da gangue para poder atuar mais livremente, até formar a sua própria. Fazia-o, porém, sem muito entusiasmo, profissionalmente, como a cevar o rio para futuras pescarias. Tinha a certeza, contudo, de que dificilmente voltaria para casa, não tanto pela autoridade dos pais, mas porque o delegado não sossegaria antes de pôr-lhe a mão no cangote.
Na pensão, em lugar de se mostrar reservado, fez alarde de que procurava emprego, acabando por receber uma oferta de um dos companheiros de quarto, por ter sido aberta uma vaga de balconista na farmácia em que trabalhava. Está visto que Anacleto construíra uma imagem saudável, mantendo-se limpo e asseado, trajando roupas de griffe, sem ostentação, trazendo-lhe o corte de cabelo certa luz aos olhos, a provocar a simpatia dos inquilinos. Digamo-lo francamente: era um belo rapaz. Pena que começamos a descrição dele pelos aspectos menos felizes da sociopatia e da marginalidade.



7. COMEÇAM OS TEMPOS DE ANGÚSTIA

As tribulações pessoais de Plínio principiaram logo no dia seguinte às declarações que precisou realizar no distrito policial. Tendo deitado tarde da noite, não conciliou o sono senão depois das três da madrugada, imaginando quanta maldade se poderia fazer contra um jovem de quinze anos. Não estranhou que Cleto não voltasse e que Ari, o caçula, se trancasse no quarto, não deixando a mãe entrar.
Naquele primeiro dia, não foi trabalhar, tendo ligado para Moacir, que tomasse o seu lugar e fizesse o possível para dar andamento às providências funcionais.
Ao meio-dia, bateu à porta do mais novo:
— Ari, saia já que precisamos conversar.
O rapazote de treze anos era o mais malcriado dos três, com a língua solta e o pensamento rápido. Atendeu de pronto, abrindo a porta ao primeiro chamado, mostrando olhos inchados e seguindo o pai até a cozinha.
Margarida punha na mesa as sobras do dia anterior, ela mesma incapacitada para os serviços rotineiros. Esperando, talvez, alguma censura do marido, não comentara nada a respeito dos acontecimentos da véspera.
Plínio apontou uma cadeira para o filho e outra para Margarida. Esperou que se sentassem e começou:
— Não temos como esconder que a nossa família está se esfarelando. Não posso condenar ninguém, porque seria preciso começar comigo mesmo. Tenho a certeza de que você — falava com a esposa — não sabia da existência das armas nem das drogas. Mas o mesmo não posso dizer de você — e apontava o dedo para o filho. — Fale alguma coisa em sua defesa.
Ari não esperava reação tão comportada do pai, sempre alheio a tudo, imerso nos programas da televisão durante cada segundo que permanecia em casa. Lembrava-se de que o pai redobrava as horas extras de trabalho e desaparecia de casa nos finais de semana, quando ele mesmo estava lá para comprovar. Em todo caso, a sua preocupação atual não lhe permitia ficar analisando o procedimento paterno. Achou que falar a verdade completa seria um exagero e mentir, um perigo. Optou por meias verdades:
— Eu sabia que Ovidinho e Cleto traziam essas coisas para casa.
— Por que você não contou nada para nós?
— Para apanhar deles?!...
— Podia ter falado em segredo. Você sabe muito bem. Não queira vir com essa por cima de mim. Que pensa que vai acontecer agora com você?
— Os meganhas vão ficar de olho para me pegarem.
— Quer dizer que você vai ter de parar com o tráfico?
Como Plínio gostaria de que o filho o desmentisse! Entretanto, precisou ouvir uma confissão que não queria:
— Eu só vendia o que os outros me obrigavam.
— Você só vende? Não fuma? Não se pica? Não cheira?
— Eu não ia ficar de bobeira no meio da turma...
Falou preparadinho para sair correndo, com medo de uma agressão do pai. Mas não foi tão esperto que não recebesse um tapa no braço desferido por Margarida. A mãe segurava apertado um lenço úmido na mão esquerda, todavia, precisava demonstrar que tinham de agir com energia.
Foi o bastante para que Ari se aproveitasse do momento de fraqueza emocional da mãe, disparando porta afora, deixando o pai sem saber o que fazer. Em outros tempos, talvez Plínio ficasse furioso por se ver frustrado quanto à intenção de convencer o filho a manter um diálogo esclarecedor. Agora, não queria perder a boa vontade da mulher:
— Margarida, por favor, me deixe tomar conta da situação. Eu sei que você está envergonhada, tanto que procurou ajuda no centro espírita. Não posso dizer que eu tenha gostado de não ter contado nada...
A esposa não estava para amenidades:
— É esse seu jeito molenga que pôs a perder as crianças. Se tivesse sido enérgico, na hora certa, as coisas não tinham tomado esse rumo. Agora vem com conversinha fiada para boi dormir. Veja se acorda, homem de Deus! Os nossos filhos estão perdidos. Você acha que Ovidinho vai sair do Abrigo de Menores disposto a beijar as nossas mãos? Ele vai voltar revoltado, isso sim, porque vão bater nele, vão fazer misérias... Onde se viu ameaçar de morte um delegado!...
Plínio ouvia mudo, não se importando com nada que a mulher lhe dissesse, porquanto a consciência lhe apontava para acontecimentos morais de que ela não suspeitava. Acordara duas horas antes de levantar e ficara sonhando com o desfalque e com a fuga. Insistia nessa quimérica viagem para outra realidade e se desligava dos problemas familiares, como se tudo que estava ocorrendo não lhe dissesse respeito. Alheava-se do contexto da vida para divagar, cada vez mais seguro de que havia perdido a juventude junto à mesa de trabalho. Por isso, disse à esposa o que não conseguira falar ao filho:
— Veja o que vai acontecer com o Cleto. Não vai poder regressar para casa, porque a polícia põe a mão nele assim que mostrar o nariz. O Ovidinho vai ficar mofando entre rufiões da mesma laia, aprendendo tudo que não presta, se é que não está ensinando. O Ari, assim que procurar o primeiro fornecedor ou acender o cachimbo de craque, vai ser recolhido, porque os investigadores estão de olho nele. Você, querida, vai ter de voltar ao centro espírita e vai ficar enchendo a paciência daquele pessoal, rogando para que intervenham em favor do Ovidinho. E vai procurar a diretora da escola, para saber se Ari tem freqüentado as aulas...
— Isso tudo eu já fiz. Você é que está por fora. O Ovidinho ficou sem ir às aulas no último semestre. Hoje eu ia levar o fedelho à força, porque ela me garantiu que ele não perdeu o ano ainda.
— Mas, como, se ele não sabe nada?!...
— Aulas de reforço que estão obrigando os professores a dar. Mas isso já não importa mais. Do jeito que ele saiu daqui, vai desaparecer como o Cleto.
— Não vai. Eu acho que está com muito medo e deve querer dar a idéia de que não tem nada com as atividades dos irmãos.
— Vai ser muito difícil os colegas dele se mancarem. Como é que vão segurar a língua mediante as ameaças ou a malícia dos investigadores?
— Entre eles impera a lei do silêncio. Se um falar, todos caem. E o que fala tem de sumir do mapa, porque vai se ver com os outros.
— Que Deus o ouça!
— Não ponha Deus na conversa! Ele não...
— Não diga não para o Senhor!
A reação era nova e Plínio ficou assustado com a firmeza de Margarida. Resolveu sair de fina:
— Eu vou com você ao centro espírita para me entender com o Moacir e o Sílvio.
— Esses dois são cafés pequenos. Lá tem advogados e médicos para orientar as pessoas ignorantes como a gente.

Chegamos ao ponto em que pretendíamos colocar as personagens. Vamos deixar para o próximo capítulo as informações relativas aos problemas técnicos, pedindo escusas por voltarmos a elaborar mais um trecho da narrativa sem demonstrar as reações dos protetores e obsessores dentro do plano espiritual. Saldanha, evidentemente, corria de um lado para o outro, preocupado em minimizar as conseqüências dos atos, crente, porém, de que a misericórdia e a sabedoria de Deus são infinitas.



8. A PALESTRA

Margarida era amiga de malhar o ferro enquanto quente. Naquela mesma noite, conduziu o marido ao centro espírita, favorecida pela promessa num momento em que desejava ele impressioná-la.
— Nós vamos assim, sem convite e sem aviso?
— Hoje é dia de reunião pública. Se você pensa em que alguém vai reparar em nós, esqueça. Eu mesma conheço bem poucos.
— Quer dizer que você tem ido e não me disse nada?
— Fui duas vezes. Você ficava fazendo serão e eu ia com a Antonieta.
Antonieta era a vizinha que chamara a atenção de Margarida para os hábitos pouco saudáveis dos meninos.
Quando chegaram, a sessão havia começado há pouco, de modo que foram obstados junto à porta, enquanto, no auditório, o apresentador fazia a prece de abertura.
Não havia lugar para se sentarem e os dois ficaram no corredor da direita. Do outro lado, em toda a extensão, a parede estava ocupada.
Num rústico quadro-negro, ao fundo do palco, lia-se o tema da noite: A responsabilidade paterna à vista das leis universais. Lia-se também um nome: Ariovaldo.
Feita a apresentação do orador, subiu ao palco um senhor de meia idade, calvo, vestindo calça social e camisa de manga curta, fechada no colarinho.
Vamos dar a palavra a ele:
— Quem me conhece sabe que não pratico a mediunidade e que me esforço muito para produzir algumas idéias capazes de mexer com a inteligência e os sentimentos do público. Por isso, gosto de me sentir em casa e sempre pergunto coisas para que vocês me respondam. Por exemplo, quem aqui tem filhos?
Quase todos os adultos levantaram a mão.
— Muito bem. Vejo que não vou falar para um pessoal desinteressado. Outra questão: alguém conhece o costume dos animais terrestres de marcar o seu território?
Muitos ergueram os braços.
— Eu explico. Quando os machos se tornam capazes de procriar, procuram uma fêmea ou mais, dependendo da espécie, para constituir um grupo familiar. Muitas vezes, como eu me lembro de ter visto no filme Bâmbi, de Walt Disney, precisam até brigar com outros machos para conquistar a preferência das fêmeas. Quando se dão bem, marcam a região de seu domínio, quase sempre fazendo xixi em alguns pontos, porque é através do olfato que os animais vão respeitar aquela área ou, pelo menos, vão saber que estão invadindo um território reservado. Aí, vêm os filhotes e o pai defende a ninhada instintivamente. É a sua responsabilidade. Alguém duvida de que ele esteja agindo de acordo com uma lei universal?
Nesse ponto, ninguém levantou a mão. Plínio observou atentamente a ver se as fisionomias demonstravam satisfação ou tédio. Surpreendeu-se com o ar de aprovação da grande maioria.
“Esse daí deve ter seu fã-clube. Se eu levantar a mão duvidando, aposto que ele vai jogar os assistentes contra mim. Mas o que posso dizer em contrário? Parece que o que ele está dizendo é lógico, é coerente.”
Ariovaldo, depois da ligeira pausa, continuou:
— Quando se trata de seres irracionais, parece que todos concordamos que todas as ações são mecânicas, ainda quando os pais devoram os filhos alheios ou os próprios, como ocorre, por exemplo, quando existe excesso de indivíduos no bando, ameaçando o equilíbrio. Vejam bem que essa não é a regra geral, porque sabemos que, entre os ratos, a população cresce e se espraia, vivendo juntos em número quase infinito, quem sabe para fazer frente aos inimigos de outras espécies. Esses mesmos ratos, presos em gaiolas, em grande quantidade, atacam uns aos outros, mesmo quando alimentados com fartura. Alguém duvida que estejam agindo segundo as leis da natureza?
De novo, fez-se silêncio na platéia, contudo, desta feita, Plínio estava embebido nas informações, buscando entender aonde bateriam aquelas considerações.
Prosseguiu o orador:
— O que pareceu mais correto para vocês: a atitude de defender as crias ou o ato de devorar os excedentes?
Agora Ariovaldo não deu tempo ao povo que refletisse:
— Aplicando-se o modo moral de examinar os problemas dos relacionamentos, maneira própria dos homens e mulheres, seres racionais, posso afirmar por vocês que o certo seria sempre a defesa da prole. Contudo, vejam bem, cuidado com o que vou dizer em seguida: muitos pais existem entre os humanos que abandonam os filhos, esquecidos do princípio universal de proteção que trazem embutido em sua natureza. E por que fazem isso? Eis um problema muito sério que não pretendo esmiuçar, porque não vim com a intenção de ofender ou magoar ninguém. Aliás, peço perdão se aqui entre nós algum pai ou mãe se enquadra nessa categoria. O que desejo, verdadeiramente, é demonstrar que existe a necessidade, quase diria orgânica, de se protegerem as crianças, porque não têm meios de discernir, de compreender, de entender tudo o que a sociedade vem criando em termos de complexidade ambiental, para o mais perfeito equilíbrio, com vistas a dar segurança e tranqüilidade, para que todos que demarcaram o seu território, ou seja, constituíram o seu lar, construíram a sua residência, possam ter garantida sua soberania no exercício do que a lei chama de pátrio poder. Existe alguém aqui que desejaria saber como é que tais idéias se enquadram na doutrina espírita? Pois eu vou tentar demonstrar, embora a simples leitura de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, o nosso Codificador e Mestre, possa fornecer todas as respostas. É que, antes de nascermos, existimos no plano espiritual. Ali forjamos, com a ajuda de orientadores mais experientes, o corpo ideal para cumprirmos as obrigações cármicas, segundo os débitos que trazemos do passado, quer de outras encarnações, quer de passagens pelo Umbral. Preciso fazer referência ao fato de que o Espiritismo se baseia, entre outras coisas, na evidência da necessidade de várias existências carnais, para o indivíduo progredir, aperfeiçoando-se para poder habitar outras esferas mais evoluídas?
Plínio estava fascinado, não tanto pelas idéias, mas pela facilidade com que o expositor discorria. Notou, porém, que a pergunta era mero artifício para poder tomar um bom gole de água e respirar, readquirindo a disposição para seguir avante.
— Vejo que ninguém deseja contestar. Isso é maravilhoso. É sinal de que o primeiro passo está dado na direção de Jesus. Estou falando sério, porque não é hora de brincar. Quando as pessoas são sinceras e dizem tudo o que sentem de verdade, sem se preocuparem com a opinião alheia, também adquirem a força moral de ouvir e, como sabemos, benditos são os que ouvem e os que vêem, porque sabem utilizar os seus sentidos. Mas agora vou precisar ir um pouco além. Devo referir-me ao caso menos evidente de que os familiares se reúnem com duas finalidades. A primeira é a de se amarem, quando já se amavam no plano espiritual, dando seqüência a vidas proveitosas e felizes, trabalhando em prol uns dos outros. A segunda é a de se amarem, quando nunca antes se deram bem, em qualquer plano, uns exigindo dos outros o resgate de débitos, por desavenças e outros problemas existentes em seu relacionamento. — Ué! — vão vocês exclamar — as duas coisas se resumem numa só, isto é, a finalidade é sempre a de se amarem os que se unem por laços de sangue! Não explica o Espiritismo que todos evoluem no interesse de alcançar as regiões quintessenciadas, onde residem os espíritos de luz, os anjos e arcanjos, os querubins e serafins, com o perdão dos sacerdotes presentes, por eu usar palavras religiosas?!... Pois, então, como progredir, se uns seguram os outros pelas dívidas que não se saldam?!... Não é absolutamente sensato admitir que os santos, ou seja, as pessoas virtuosas, cumpriram todos os artigos das leis morais e espirituais?!...
Nesse ponto, Ariovaldo fez uma pausa muito mais prolongada e encarou as pessoas, fazendo questão de endereçar o olhar para dentro dos olhos dos demais, como a lhes vasculhar as almas. Plínio percebeu o gesto impositivo do orador e disfarçou, volvendo a cabeça para o lado, como a observar as reações do público. No fundo do coração, revolvia a impressão de que errara, esquecendo-se desses aspectos transcendentais na educação que deveria ter dado aos filhos.
Quando Ariovaldo voltou a falar, foi ainda mais instigante:
— Eu acredito que muitos aqui estão imaginando, como eu mesmo imaginava ao ouvir estas conversas espíritas, que o objetivo dos irmãos que se postam perante tanta gente é o mesmo dos padres que, do alto do púlpito, ficam falando em pecados, provocando sentimentos de culpa nos fiéis, exigindo reparações por meio do confessionário e da penitência, obrigando a assistirem às missas e aos cultos et cetera. Entendam nesse et cetera o compromisso da espórtula ou do dízimo e o credo nos dogmas e na infalibilidade do Papa e, por extensão, da Igreja. Aqui, em nosso ambiente, desejamos fazer crescer o amor entre as pessoas, por isso damos esclarecimentos e oferecemos ajuda. Se alguém sair preocupado porque não vem cumprindo cabalmente as determinações contidas nos Evangelhos, leiam O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e discutam com os familiares os princípios morais que lá são explicados. Se lhes faltar entendimento, se algo ficar obscuro, se se sentirem canhestros, obtusos, incultos, porque fugiram da escola muito cedo... Estou sendo injusto, porque nem todos têm condição de cursar sequer a escola primária, porque precisam colaborar com o orçamento doméstico desde muito pequenos. Não quero perder o fio da meada, mas vou aproveitar para dizer que, muitas vezes, a necessidade de uma ocupação profissional afasta os menores dos vícios e essa é outra responsabilidade dos pais. De qualquer modo, retornando à vaca fria, ainda está na hora de colher alguns frutos da árvore da sabedoria e nós estamos em condições de emprestar a escada, o cesto e demais apetrechos, aos que nos procurarem às sextas-feiras, quando temos reuniões de pais cujos filhos estão dando trabalho.
Se Plínio tivesse prestado atenção à prece final, nós a reproduziríamos. Todavia, estava confuso com a análise de sua própria maneira de ser, tão justas tinham sido as palavras do orador, como se tivesse preparado a palestra somente para ele e para Margarida.

Um dedinho de prosa com os leitores. Prometemos, ao final do capítulo anterior, examinar os problemas em seus aspectos técnicos. Deu para entender que o fizemos? Deu também para inferir que suprimimos as citações comprobatórias da doutrina, por duas ponderáveis razões: porque queríamos encurtar o capítulo e porque gostaríamos de ver os leitores pesquisando nos livros que possuem?



9. ADEUS EMPREGO

Simões não teve paciência de esperar até o ano seguinte. Na mesma semana em que prometera o cargo da diretoria ao Plínio, simplesmente, abandonou a vida: infarto do miocárdio, sem mais nem menos.
Pedro Otávio foi apanhado de surpresa e mal teve uma hora para preparar a recepção do espírito do protegido, na companhia da esposa deste, a qual veio de longe, precisando deixar um substituto a cuidar dos enfermos sob sua responsabilidade.
Gostaríamos de oferecer descrição completa do desligamento carnal, desde o último suspiro até o despertar no etéreo. Mas tais relatos são muito comuns e o trespasse de Simões não fugiu às regras. Tendo feito o bem na vida, tendo ajudado muitas pessoas, não se tendo interessado em manter-se usurário, foi considerado pelo povo que o recebeu alma benemérita, como sói acontecer entre os mortais a quantas pessoas batem as botas.
Pedro Otávio recordou-se da íntima intenção de Simões, que pretendia prosseguir trabalhando, e fez-lhe uma censura que não foi ouvida:
“Mentiroso. Disse que malhava na academia mas havia bem sete anos que não fazia nenhum esforço desportivo... Está aí a conseqüência! De qualquer modo, algum superior meu devia ter-me avisado de que o coração estava a pique de arrebentar.”
Ponderou o protetor que esse aspecto do socorrismo ativo precisava ser aperfeiçoado, caso viesse a ser solicitado para acompanhar algum outro parceiro mortal. Lembrou-se da tristeza da solidão e do estresse das ausências da companheira e dos filhos, achou natural que Simões não fosse divertir-se no Nordeste e concluiu, satisfeito, que a passagem terrena lhe havia sido de bom proveito.
No plano material é que as coisas não caminharam exatamente como o dono da empresa havia previsto. Morto o presidente, enterrado o corpo, os filhos assumiram a direção da empresa e, evangélicos rigorosos, pesquisaram as tendências religiosas dos membros da diretoria, afastando quantos não se alistassem entre os seus correligionários. O rigor da observação doutrinária estendeu-se a todos os cargos de chefia dos diversos departamentos, de modo que Plínio e mais cinco tiveram carta de exoneração, dentro das leis, ou seja, com o devido aviso-prévio, recolhimento do fundo de garantia por tempo de serviço, respectiva multa por dispensa sem justa causa, décimo terceiro proporcional e férias.
Nem Silvinho nem Moacir, evidentemente, poderiam ser convidados para as funções a que aspiravam e ficaram até agradecidos por terem sido mantidos empregados, lamentando muitíssimo que, antes dos cinqüenta anos de idade, aos vinte e pouco de contribuição para o instituto de previdência, com sérios problemas familiares, Plínio se visse no olho da rua, sem perspectiva de nova colocação.
Entretanto, o dinheiro que cairia nas mãos do nosso herói estimulou-o a pensar em algo como uma microempresa ou um escritório de assessoria na sua área profissional. Iria pensar a respeito. Iria pensar também em dar aquele desfalque na firma, para o que teria ainda quase trinta dias. Mas tal intento morreu no nascedouro, porquanto apareceu um sujeito carregando uma bíblia, o qual deveria treinar para assumir a sua função.
“Esse cara vai ter de amargar uns erros, porque o que fizeram comigo não se faz nem a um cão.”
Prometeu e cumpriu. Não contava, porém, com a boa vontade de Moacir e de Silvinho, os quais não permitiram que o novo empregado falhasse, mesmo porque, dentro da contabilidade, existe um setor delicadíssimo, o de pessoal, que precisa receber os salários, sem atraso e sem perdas.
Palhares e Coelho foram preservados em seus postos, porque freqüentavam a mesma igreja dos recém-chegados, o que fez Plínio imaginar que, de longa data, haviam previsto a possibilidade do desemprego.
“Acho que fui pego de calças na mão. Imbecil! Não poderia ter suspeitado que isso pudesse acontecer? Se é verdade que existe um espírito ou anjo da guarda, por que não me preveniu e não me obrigou a procurar um templo protestante? Não! Fui logo cair nas garras dos espíritas. Parece obra do demônio, tanto que Margarida se enroscou na rede primeiro. Ainda bem que Ovidinho está comendo e se vestindo por conta do Governo e Cleto foi procurar sua própria vida...”
Estarreceu-se com a direção que estava imprimindo às cogitações. Atrapalhou-se todo, vendo, emocionalmente, que misturava os sentimentos de ódio, de rancor, de mágoa, de frustração. Percebeu que toda a sua vida se desmoronava com esses dois abalos. Recordou-se da palestra no centro espírita e deu um peteleco na orelha da figura do Ariovaldo que bailava à sua frente, dedo em riste, chamando-o de irresponsável, de desleixado, de fraco, de viciado...
Descambou o pensamento para esse importante aspecto de seus problemas e deixou escorrer não mais do que duas lágrimas pelas faces, uma de cada lado do rosto. Eram poucas mas desceram queimando a pele, sulcando fundo, atingindo o coração e abalando o ideal. Quando secaram, era ele outro homem.

No plano dos espíritos, Saldanha pôs a mão nos bolsos, porque lhe formigava o desejo de esfregá-las. Não queria, porém, manifestar nenhum sentimento de euforia, porque, da outra feita, se viu às voltas com uma peregrinação insana.
Estando seguro de que Plínio não planejava nenhuma atitude menos racional, foi conversar com Pedro Otávio, com quem pretendia entender-se a respeito dos sucessos em cadeia que terminaram por atingir um dos elos finais da corrente. Foi com a idéia de que o outro também não sabia as razões desse enredamento cármico. Encontrou-o exatamente desse jeito, ainda aturdido com o evento fúnebre. Conversaram telepaticamente e saíram juntos para convencerem Plínio a mudar o rumo de suas propostas de vida. Chegaram justamente no momento em que ele se via um novo ser, pronto para um recomeço.



10. TRISTES ACONTECIMENTOS

Houve um momento em que Plínio se sentiu à solta, chegando a considerar-se, até certo ponto, feliz, uma vez que atinou com o fato de que não tinha de enfrentar mais o cativeiro das longas horas do trabalho de cada dia. Imaginou-se, durante os últimos vinte e tantos anos, tão liberto de compromissos como agora e desejou pintar um passado menos tenebroso, como se não se tivesse casado e muito menos procriado. Já dissemos que ter de tomar conta apenas do Ari, o mais novo, lhe pareceu uma dádiva do destino.
Mas a realidade tem o mau hábito de criar barreiras às pretensões da fantasia, de modo que chegou o instante de ter de sair de casa para visitar o filho recluso.
Ovidinho os recebeu indiferente, como se não existissem. Fingido, foi logo dizendo:
— Vejam o que vocês fizeram comigo! Se tivessem cuidado melhor de minha educação, não estaria curtindo esta cana. Não me venham dizer que vou sair logo, porque sei que o juizado vai me manter até completar dezoito. O delega não vai deixar por menos. Então, se me arrumarem dinheiro, eu posso comprar os inspetores, que vão me deixar sossegado.
A mãe, retorcendo as mãos, quis saber se ele estava apanhando:
— Essas marcas no rosto...
— Isso aqui foi no dia que me pegaram. Apanhei da polícia e dos presos. Escapei por pouco. Logo vieram me buscar e me jogaram neste depósito. Aqui os pequenos apanham dos grandes e estes entram na dança nas mãos e nos porretes dos funcionários.
Por respeito aos leitores, não reproduzimos exatamente os dizeres que os pais ouviram, porquanto tudo se encontrava tremendamente mesclado de palavrões e de referências malcriadas às partes pudendas. Se resolvêssemos colocar reticências, encheríamos diversas páginas de linhas pontilhadas, sem sermos originais, que esse recurso gráfico foi utilizado antes.
Margarida tinha outras questões:
— Ouvi dizer que a comida não é ruim, que vocês têm roupa limpa para vestir e pôr na cama, que existem médicos e remédios, que até dentistas cuidam de seus dentes...
— Pode parar! Tudo pode ser do melhor ou do pior, se é que vocês estão me entendendo. Não posso ficar falando estas coisas muito alto, porque, se descobrem, eles me disciplinam...
Plínio estranhou:
— Disciplinam? Como assim?...
— É um modo gozado de falar que a gente leva umas borrachadas que não deixam muitas marcas mas que doem pra cachorro, por mais de uma semana. Vocês não ouviram falar de que há rebeliões e fugas? Por que será?
Plínio não estava acreditando no filho e logo foi respondendo:
— Porque os pivetes são mesmo perigosos, têm vários homicídios cada um, assaltos à mão armada, estupros, além de mandarem ver nas drogas de toda espécie.
Ovidinho não queria seguir o pai por esse caminho. Apenas inquiriu:
— Quanto vocês vão me deixar?
Margarida foi quem tentou esclarecer:
— Você sabe que seu pai foi mandado embora?
O filho não quis ouvir mais nada. Concluiu que não iria levantar fundos e se mandou, sem despedidas ou acenos. Deu as costas e, sem prestar atenção aos apelos da mãe e às ordens do pai, retirou-se, com ares de profunda indignação.
Quando chegaram aborrecidos ao lar, deram pela falta do liqüidificador.
No ato, Plínio equacionou o problema:
— Margarida, o Ari está vendendo as nossas coisas.
— Nunca aconteceu antes.
— Vamos olhar nos armários. Quem sabe tenha sido mesmo a primeira vez.
As gavetas foram sendo abertas uma a uma. Todas apontavam para o desaparecimento de algum objeto. Até o pequeno cofre das moedas tinha sumido. As poucas jóias de ouro também. O terno, as camisas, as calças, as meias e demais peças de roupa não se encontraram. A mala havia ido com Cleto mas as valises não estavam no lugar. Salvou-se a televisão.
Margarida era uma desolação só. No entanto, Ari não havia tocado nos pertences de uso dela. Contentara-se com os brincos, os colares, os anéis, as pulseiras, os broches e demais badulaques e bijuterias.
Plínio tinha um lugar secreto no fundo falso do guarda-roupa onde guardava o dinheiro mais graúdo para as despesas do supermercado e da quitanda. Nada achou ali. Foi o que lhe deu o maior desespero e a convicção de que teria de manter sob proteção bancária a quantia que iria receber de indenização.
O casal conversou exasperado durante mais de duas horas. Dessa longa conversação, extraímos o seguinte trecho:
— Margarida, explique-me, por favor, por que é que ele não nos furtou antes.
— É porque não tinha precisão. Parece que agora começou com as drogas mais caras...
— Não tem lógica. Prefiro pensar que a fonte em que ele bebia secou.
— Como assim?
— O Cleto, Margarida! O Cleto!
— Quer dizer que o mais velho cuidava dos outros dois? Com que interesse?
— Era o chefe. Os outros serviam. Um foi preso, idiota, assaltando uma autoridade. O menor ficou ao desamparo, porque a gente não dá dinheiro para os vícios. Você dá?
— Que dinheiro, se você leva sempre tudo muito bem controlado?!... Se eu trabalhasse e ganhasse o meu...
A observação caiu como um corisco no meio dos dois. Ambos se recordaram das palavras do Ariovaldo, exaltando o trabalho como modo de afastar os jovens das drogas.
À noitinha, ouviram um ruído no quarto. Parecia um gemido distante, de alguém abafando fortes dores. Correram e encontraram Ari contorcendo-se, com as mãos sobre o ventre, suando em bicas. A janela aberta demonstrava que tinha entrado por lá. Mas não havia tempo para reprimendas. Precisavam correr com o beócio, para dizer o menos, para o pronto-socorro mais próximo, de atendimento gratuito, naturalmente, que o Plínio tinha os documentos em ordem, merecedor que era do zelo do serviço público de saúde.
No dia seguinte, assistido do etéreo por Pedro Otávio, Plínio foi em busca de uma funerária para as providências do enterro do corpo do filho, cujo espírito estava sob os cuidados de Saldanha e equipe de socorristas.



11. MARGARIDA

Dois anos mais velha que o esposo, Margarida não era aquela figura balofa que a nossa intromissão nos pensamentos dele nos obrigou a transcrever. Era gorda, sim, mas também era saudável, porque levava sozinha as tarefas domésticas, mantendo o lar asseado, limpo e, o que é mais digno de nota, absolutamente arrumado.
Se Plínio estava acima do peso ideal, lutando por perder muitos quilos, era porque a mulher cozinhava com primores de perfeição. Entretanto, desde uns três meses antes, mais ou menos à época em que compareceu ao centro espírita pela primeira vez, havia iniciado rigorosa dieta alimentar, tendo emagrecido de dez a doze quilos.
As coisas não estavam correndo de modo a favorecer a mais completa integração dela nas teses doutrinárias, porque se via o tempo todo enleada pelos mórbidos pensamentos relativos aos desvios de conduta dos filhos. Nesse aspecto, Plínio até que não estava muito longe da verdadeira expressão psíquica da esposa. Ficava ela a imaginar como seria possível reverter as condições desfavoráveis e mais ainda se dedicava ao asseio, limpeza e organização da casa.
Quanto às fantasias do Plínio, não tomara conhecimento, julgando que o seu homem estivesse extremamente apegado ao conforto do aparelho de televisão, do carro velho, que mantinha lustroso e operando satisfatoriamente, do guarda-roupa e da camiseira em dia, bem como da mesa bem posta, dentro dos rigores dos horários.
Em suma, na fatídica semana, embaraçou-se com a presença daquele ser estranho, a vagar fastasmagórico de um cômodo a outro, em momentos completamente inusitados. Conhecia a vontade do marido de sair, de bater papo com os companheiros de bar, de se espairecer pelos estádios de futebol e de petiscar salgadinhos durante os jornais televisivos. Não lhe entrava pelos hábitos a necessidade de ter mais alguém a compartilhar os seus domínios.
Quanto aos filhos, desde bem pequenos, ia dividindo a responsabilidade da educação com os da rua, porque não os queria a arruinar o seu mister de afadigada dona do lar. Era tão mais fácil deixá-los à vontade, tanto que demorou para matriculá-los na escola, fazendo-o pelo empenho agressivo do marido. O mais novo e agora defunto desejou fazer de criado, ensinando-lhe os serviços mais simples, sem sucesso, contudo, que a liberalidade quanto aos outros foi um dos principais motivos que levaram Ari a se rebelar.
Resolvemos adentrar no mundo intelectual da personagem, de forma a estruturar com mais economia a análise que levou a efeito desde que a Dona Antonieta lhe evidenciou o problema das drogas. Se fôssemos reproduzir-lhe os trâmites lógicos dos raciocínios, precisaríamos de vários capítulos, sem proveito para os inteligentes leitores, que são bem capazes de inferir que Margarida despertava para a vida que elegera desde quando se conhecera como gente.
A morte do filho, portanto, caiu-lhe como uma chuva de prata sobre a cabeça, em que pese a atração que se possa ter pela coruscante luminosidade da peça festiva dos folguedos juninos. Foi a maravilhosa sensação de descoberta do ego, com o martírio de haver sido abrasada naquela incandescência dolorosa. Quem esteve a presenciar um vulcão em atividade, conhece a força da natureza, a beleza do espetáculo e a desgraça da população atingida pelas lavas e pelas cinzas.
Lembrava-se da extrema simplicidade do caixão e da escassíssima comitiva que acompanhou o féretro. Mandara Plínio buscar Ovidinho, porém, tivera de amargar a resposta deste, que fez pouco caso da imprudência de quem se deixara abater por uma overdose de cocaína. Desconfiou de que o filho do meio, afinal, manifestara, com muita clareza, a repulsa que sempre tivera em relação ao caçula. Não foram poucas as recordações de malfeitos contra o mais novo, especialmente no período em que o trouxera agarrado às suas saias.
Viu-se a derramar lágrimas pelo mais velho desaparecido, não sabendo o que fazer para enviar-lhe a notícia do desastre familiar. Se ele estivesse em casa, com certeza teria obstado Ari de fazer o que fez, porque o teria orientado quanto ao consumo da droga.
Margarida não percebia o descaminho das lucubrações, tanto que estava pondo a vida do que se perdera nas mãos do que desaparecera.
Quanto a Saldanha, acompanhava com vivo interesse o desenvolvimento da crise emocional, sem saber exatamente como interferir para que a mulher não cometesse algum deslize psíquico, no sentido de atentar contra a própria vida, porque, de repente, constatava que tinha vivido um vazio, quando acreditava manipular a sorte, realizando o seu ideal de esposa e de mãe, conforme os preceitos do materialismo social que dá ênfase à posse e não ao desfrute, no interesse das realizações familiares, nos campos da criação, educação e felicidade moral dos consangüíneos.
Estranhava Saldanha que Margarida não incluísse o marido como co-autor da obra que desandara. Fez com que pegasse o retrato de casamento para instigar-lhe as recordações mais amenas dos tempos de felicidade, no entanto, teve o desprazer de vê-la passar o dedo pelo talhe de sua própria imagem, a indicar que algo muito precioso se perdera naquele enlace.
No segundo dia após o enterro, quando Plínio voltou da rua trazendo a papelada que lhe daria direito ao auxílio funeral, encontrou as louças usadas na pia, a cama desfeita, a descarga do banheiro não acionada, uma roupa fétida no balde, a mulher ausente.
“Onde terá ido a energúmena? Tem agido de modo diferente, o que é perfeitamente compreensível, porque o luto do Ari está ainda muito pesado. Mas deixar a casa neste estado deplorável é mau sinal...”
Por dever de narrador, devemos informar que o mau sinal não se caracterizou direito, tendo Pedro Otávio, que assumira provisoriamente a vigilância etérea dele, suspeitado de que Plínio não considerara a hipótese da loucura.



12. UM PASSAR DE OLHOS NA VIDA DE CLETO

Enquanto Plínio e Margarida se envolviam com terríveis problemas, Anacleto assumia o posto na farmácia. Aceitou o emprego interessado na possibilidade de manipular os medicamentos, tendo acesso aos remédios de tarja negra, os que não se vendem, sem que se retenham as receitas.
“Se for o caso, havendo clientela certa e confiável, surrupio os comprimidos ou substituo por outros menos poderosos.”
No começo, deu chá de sumiço junto aos da pesada. Queria entrar e sair da pensão em horas que não despertassem suspeitas. Ao mesmo tempo, foi ganhando a confiança dos demais vendedores, tanto que se propôs a cruzar as noites na vigília do atendimento de emergência.
Não tinha acesso ao caixa mas não demorou a captar as simpatias gerais, oferecendo-se para o aprendizado das aplicações intravenosas, musculares e subcutâneas. Fez de conta que nunca manejara uma seringa e deu a entender que tinha um pouco de receio das agulhas. Em seus primeiros desempenhos com a clientela, foi acompanhado pelos mais antigos, os quais lhe deram as notas mais elevadas que um neófito conseguiria, apoiando os elogios com recomendações técnicas e explicações anatômicas. Logo, portanto, era requisitado pela eficácia das picadas, sem dor e sem seqüelas, principalmente porque sempre acompanhava a execução com palavras de advertência para as sensações que os produtos causariam.
Para quem vendia no mercado proibido das esquinas, a porta aberta significava facilitação total. Sendo assim, Anacleto saía-se muito bem em todas as tarefas, ao passo que ia tomando ciência dos hábitos do estabelecimento, do poder de cada empregado e das atividades concernentes aos donos. De modo particular, requereu do farmacêutico responsável que o orientasse na leitura das bulas, tendo recebido grosso volume emprestado, onde se liam as propriedades dos elementos químicos, em função do tratamento das moléstias.
Para surpresa própria e íntima alegria, verificou que assimilava os conhecimentos com extrema facilidade, imaginando que o fato ocorria porque era o que verdadeiramente desejava na vida.
Sói acontecer que os proprietários de estabelecimentos comerciais são pessoas adultas, com família constituída, muitas vezes com filhas casadoiras, à procura de seu par ideal. Não se deu de modo diferente naquela rede de farmácias, de sorte que Aurélia, tendo um dia visitado as dependências comerciais do progenitor, se engraçou pelo rapaz, endereçando-lhe significativos olhares.
Timóteo, o pai da moçoila, tomara-se de amizade pelo subalterno, contudo, não estimulou namoro nenhum, sem que definisse qual era a tendência religiosa do recém-chegado.
Ao contrário de Plínio, Cleto logo percebeu que havia ao lado da caixa registradora uma bíblia freqüentemente compulsada. Tendo juntado a beleza e a prosperidade da rapariga à prática protestante da família dela, foi atrás do mesmo templo, onde se entendeu com o pastor, tendo adquirido um livro sagrado, que passou a ler com mais poderosa inspiração do que o glossário dos remédios, de modo que, quando se fez a pesquisa, lá estava ele dando seu testemunho de fé nos cultos diurnos da igreja.
Em malfadado dia, recebeu as tristes notícias de casa, em resposta à correspondência que se lembrou de enviar a antigo colega, porque lhe coçara no coração o desejo de demonstrar aos pais que não estava de todo mal na cidade que o agasalhara.
Não pôde, todavia, obter respostas concludentes sobre as dúvidas que o sucinto relato lhe provocou.
“Se Ari morreu de overdose, deve ter caído nas mãos de algum explorador que não viu senão o lucro no comércio da droga. O mano deve ter reunido um bom dinheiro com a possível venda do resultado dos furtos caseiros, deixando tudo no bolso do traficante. Bem que o moleque vinha tentando levar as coisas de casa, o cretino! Se eu pudesse voltar, ia atrás dos criminosos. Nem para o tráfico essas pessoas têm talento! Se cevassem o rio, como costuma dizer meu pai...”
A recordação da figura paterna lembrou-lhe o desemprego dele.
“Se eu ficar sabendo que estão passando necessidade, remeto algum dinheiro, porque estou em débito para com eles. Como diz o pastor, a gente deve honrar pai e mãe...”
Nesse ponto, não soube interpretar a frase que lera na carta do amigo: “A sua mãe está de miolo mole, sempre na rua, com o seu pai correndo atrás dela.” Mas punha o bestunto para funcionar:
“Eu perdi um irmão. Ela perdeu um filho. Como viu tudo acontecer na sua frente, deve ter ficado perturbada, ainda mais que os dois restantes também estão fora. Aliás, se eu pegar o Ovidinho, vou dar umas porradas nele, porque tudo aconteceu quando foi esfregar a faca na barriga do policial...”
Esse estágio de revolta e tristeza se manteria por mais uma temporada, até o dia em que, já com namoro firme, deixou Aurélia apanhar na carteira a carta reveladora de algumas das situações esquisitas de sua vida anterior.
Não houve arrufos nem querelas. Mas Timóteo exigiu que o rapaz se explicasse, não acreditando nos indícios de que traficava e de que estava sendo procurado pela justiça.
Cleto faltou ao trabalho nos dois dias subseqüentes, solicitando que relevassem a ausência e, numa reunião da congregação religiosa, sabendo o patrão presente, deu testemunho de si mesmo e do Senhor, assumindo a vida pregressa, sem esconder quase nada:
— Irmãos, peço o perdão de Deus porque sou um grande pecador. Trafiquei, organizei quadrilhas de menores para furtos e assaltos, freqüentei locais de prostituição, consumi drogas e fugi de minha cidade por causa de perseguição policial. Tenho um irmão detido por ameaçar a vida de uma autoridade e, recentemente, perdi outro, por ingerir cocaína em quantidade demasiada. Mas não posso condenar meus pais, que sempre foram muito bons e severos. O meu instinto é que era muito mau. E continuaria sendo, se não recebesse a assistência de Deus, pelas palavras e conselhos do nosso pastor e amigo, e se não fosse amparado por uma criatura temente ao Senhor, o irmão Timóteo, que me empregou e me vem dando o agasalho afetivo que só se dá aos filhos. Se não me quiserem mais na Igreja, aceitarei a vossa decisão. Mas se me acolherem como a um irmão arrependido, filho pródigo, ovelha que se desgarrou mas que se recolheu ao aprisco, ficarei eternamente empenhado e prometo, solenemente, que não cairei jamais nas tentações do demônio. Aleluia! Aleluia!
Quem vasculhar o discurso, vai encontrar expressões que absolutamente não eram do vocabulário regular do capadócio. Mas o que fizera ele durante aqueles últimos dias? Procurara um discurso pronto, adaptara à sua situação, substituíra alguns termos segundo as sugestões do dicionário e omitira o interesse por Aurélia, a adulteração dos documentos de identidade e o novo colorido da cabeleira. Como explicou a Timóteo o nome diferente na missiva?
— Era o meu nome de guerra, para que a polícia não me identificasse.
A partir daquela sessão religiosa, passaria por um estágio probatório de vários meses, até que Aurélia demandou da família uma avaliação conclusiva da personalidade do pretendente. Não iremos, contudo, avançar ainda mais nos relatos das venturas e desventuras de Anacleto, para não perdermos a oportunidade da narrativa dos acontecimentos que envolveram, por aquela época, as demais personagens.
Cabe-nos ainda apenas simples referência ao fato de que os protetores espirituais da família de Timóteo incentivavam um desempenho cada vez mais honesto do jovem, imaginando, com certeza, que disso dependeria a felicidade de Aurélia.



13. LIBERDADE ÀS AVESSAS

Plínio, enquanto Cleto progredia a seu modo, tinha todo o tempo do mundo para as suas realizações. Nem Margarida perturbava mais, zumbi a cumprir as tarefas caseiras automaticamente, com a idéia fixa no filho que partira em definitivo para o etéreo.
Certa ocasião, Plínio desejou explorar o tema do destino das almas após o desenlace, a ver se dava ânimo à esposa:
— Querida, você tem-se martirizado demais desde que Ari se foi. Você mesma me levou ao centro espírita e não está suportando o fato de que as pessoas têm que passar por sofrimentos por causa do que fizeram em outras vidas. Como é mesmo o nome daquele que falou?
— Ariovaldo.
— Isso mesmo. Pois ele (você se esqueceu?) disse que a melhor maneira de a gente superar os problemas era fazendo tudo ao nosso alcance pelo bem das pessoas. Ele disse que a oração serve para dar tranqüilidade para quem a gente pede e para nós mesmos que rogamos. Você tem rezado?
— Tenho.
— E por que tanto sofrimento? A gente nem está conversando mais... Será que você não está sendo muito orgulhosa, pensando que está carregando o mundo nas costas? E eu?...
Margarida olhou com tanta tristeza para o marido que este se calou. Então, ela fulminou-o:
— Onde está a felicidade que você me prometeu antes do casamento?
Plínio ergueu os braços como a suplicar ao céu que lhe desse inspiração mas capitulou mediante a consciência de que a realidade era o oposto do mar de rosas que descrevera à noiva. Teve força apenas para concordar:
— Você tem razão. De repente, não temos nada semelhante ao mínimo da alegria que sempre desejamos.
Não obstante, Margarida deu sinais de desequilíbrio:
— Sabe o que me está fazendo muita falta? O liqüidificador...
Antes que atinasse o marido com o desaso da proposição, Margarida sumiu de sua vista.
Mais tarde, Plínio atendeu à porta uns policiais que traziam a esposa de regresso ao lar. Ela estava impassível e dócil e logo foi entrando, deixando o marido às voltas com as explicações que lhe eram exigidas. Dizia um dos guardas:
— Sua mulher foi detida numa loja, quando saía com um aparelho elétrico que retirou do mostruário.
— Santo Deus! Seu guarda, ela não está regulando.
— Isso é evidente, Senhor. Só que ela deu muito trabalho para soltar o aparelho, dizendo que era aquele que o filho tinha levado embora. O Senhor tem de vigiar a mulher, para que ela não saia por aí fazendo tolices. Se não fosse o doutor delegado conhecê-la, ela ia ficar no distrito.
Plínio não sabia o que dizer. Acabou por perguntar:
— Qual foi a loja e de quanto foi o prejuízo?
O policial deu as informações pedidas e se retirou.
Quando Plínio entrou, deu com a mulher descascando todas as frutas da geladeira. Ficou claro que ela iria demonstrar a falta que fazia o liqüidificador.
De imediato, Plínio apanhou os documentos, foi até a loja citada, identificou-se, pediu desculpas ao gerente e às balconistas que passaram pelo drama com Margarida, abriu um crediário e retirou um aparelho para levar à esposa.
De volta, Margarida não estava. No fogão, borbulhava um resto de calda grossa de açúcar, com os pedaços de frutas incrustados no fundo negro da panela, da qual se desprendia um fumo espesso que já enchia toda a cozinha.
O coitado imaginou que a mulher teria voltado à loja, culpando-se pelo fato de não ter dito nada quanto a ir comprar o que ela tanto desejava. Mas as suas pesquisas foram vãs.
Tarde da noite, Moacir e Silvinho trouxeram Margarida, esclarecendo o que se passara. Tinha chegado ao escritório em que trabalhavam, perguntando pelo marido. Não houve quem a convencesse de que lá não se encontrava, despedido que fora. Parecia não atinar com o sentido das palavras. Mas não fez escândalo, propondo-se a esperar no saguão a hora da saída. De fato, quando todos debandaram, deram com ela sentadinha no banco lateral, completamente alheia às pessoas. Moacir e Silvinho interessaram-se pelo estado emocional da pobre mulher e propuseram-se a trazê-la para casa. No entanto, Margarida, dando mostras de reconhecer os dois, impôs uma condição para acompanhá-los, qual seja, a de que a levassem ao centro espírita, porque desejava muito conversar com o filho morto. Evidentemente, frustrou-se tal tentativa, ainda porque os trabalhos do dia não eram mediúnicos. Coube a Ariovaldo ficar com ela, tentando explicar-lhe as razões que Deus teria para fabricar-lhe a sorte horrível de sua vida. Quando Moacir e Silvinho regressaram de suas tarefas, precisaram fazer-lhe companhia, até que o prédio se esvaziasse, que foi quando se resignou a retornar a casa.
Por seu turno, Plínio contou os sucessos da tarde e rogou aos amigos que aceitassem o seu pedido de desculpas. Punha-se nas mãos deles para qualquer recomendação útil. Entretanto, nada disseram que ele não tivesse pensado, insistindo os dois que procurasse levar a esposa a serviço médico especializado em doenças mentais. Se fosse preciso, segundo o parecer clínico, que a internasse em algum sanatório público, onde estaria mais segura, recebendo os medicamentos e as atenções que seu estado exigia.
Plínio quis saber se o centro não oferecia nenhum atendimento nessa área.
Foi Moacir quem esclareceu:
— Leve-a amanhã à noite, que tem um médico de plantão. Ele vai poder orientar melhor.
O infeliz agradeceu o espírito de solidariedade dos amigos, prometendo que iria pensar a respeito do que haviam conversado. Estando muito cansados, saíram logo, mesmo porque Margarida não se dignou coar café, não tendo sequer voltado para se despedir.
Quando Plínio foi procurá-la, encontrou-a a acionar o liqüidificador vazio, ameaçando, perigosamente, enfiar a mão no interior do copo. Só não o fez porque, segundo Saldanha pôde comprovar, tivera muito medo de ter de renascer em outra encarnação sem os dedos ou a mão, o que lhe dava aos olhos uma direção de infinito.
No dia seguinte, logo cedo, Plínio colocou a mulher no carro e saiu atrás de alguma instituição que a abrigasse. Mas não o fez sem muitas lágrimas e forte tremor nas mãos.



14. TEMPO DE ESPERA

Logo no primeiro posto de saúde, Plínio encontrou a boa vontade de um médico de clínica geral, que diagnosticou forte anemia, decorrente, como supunha, de muito precária alimentação.
— Dona Margarida vem fazendo regime, Senhor?
— Tenho notado que nos últimos tempos ela não vem comendo nem mesmo da comida que prepara para a família. Depois do falecimento de nosso filho menor, nem prepara mais as refeições. Comer, nestes últimos dias, não tenho visto.
— Vou dar-lhe uma receita e um pedido para diversos exames. O Senhor tem recursos para ir a laboratório particular?
— Se não estivesse desempregado ou se tivesse recebido o que me devem, eu teria. Do jeito que as coisas andam, tenho de procurar o auxílio oficial.
Enquanto Plínio expunha as suas dores financeiras, o facultativo preencheu rapidamente uma folha do receituário, grifando alguns medicamentos que eram, conforme reiterou, imprescindíveis. Os que assinalou com X poderiam ser encontrados de graça ali mesmo. Em folha impressa, designou os exames que deveriam ser realizados nos próximos quinze dias. Num memorando próprio do centro clínico, requereu que se marcasse consulta com o psiquiatra.
Durante o tempo todo, Margarida permaneceu sentada sobre a maca do consultório, a olhar, na parede, uma figura de médico a tratar de um paciente, colocando-lhe a mão sobre a cabeça.
Ao saírem, Plínio verificou que somente três dos oito remédios foram obtidos no posto, embora dois outros estivessem indicados com X. Quanto à marcação da consulta, somente para dali a três meses. Plínio chorou as pitangas mas apenas conseguiu irritar a atendente.
O pobre marido adquirira forte receio de conversar com a mulher, desde a conversa da felicidade conjugal não realizada, entretanto, tomou coragem e perguntou:
— Margarida, por favor, me ajude. Que você acha que devemos fazer para conseguir os remédios?
— Para que existem as farmácias?
— E se forem muito caros?
— Você não compra.
— E daí?
— Você vai ao centro espírita e pede.
Plínio refletiu que as respostas tinham coerência e que mais doido deveria estar ele mesmo, porque fizera umas questões de fácil resolução.
Na farmácia, descobriram que, dos cinco remédios ainda em falta, apenas dois tinham condições de comprar.
Em casa, a indiferença de Margarida contribuiu para que tomasse os remédios sem protestos. No entanto, Plínio precisou determinar as doses e esconder os frascos porque, pela esposa, o envenenamento seria certo.
Um dos remédios era para abrir o apetite, de modo que Plínio fez o que pôde para pôr na mesa um almoço de boa nutrição, embora o arroz estivesse empapado e o feijão, empedrado. Em todo caso, conforme recomendou o médico, fritou um bife e fez uma salada de alface com rodelas de tomate e de cebola, lembrando-se de que eram todos alimentos que agradavam o paladar da mulher.
Preventivamente, colocou comida em apenas um prato e ofereceu-se para ministrá-la às colheradas. Margarida recusou-se peremptoriamente, sendo taxativa:
— Enquanto o Cleto, o Ovidinho e o Ari não se sentarem junto comigo, eu não vou comer!
E não comeu, por mais que Plínio insistisse com todos os argumentos disponíveis. Falou que o Cleto estava almoçando em algum restaurante, que Ovidinho recebia as refeições no centro de reabilitação de menores e que Ari, por estar no campo santo, não precisava mais comer. Nada surtiu efeito.
— Se eu lhe disser que Ari está aqui junto de nós, em espírito, esperando que a mãe recupere a saúde, você não pode dizer o contrário, porque sabe que o Espiritismo ensina que os seres que morrem voltam para ajudar os vivos.
— Voltam para ajudar ou voltam para perseguir.
— Você acha que Ari iria estar aqui para prejudicar a gente?
— Ele está aqui.
— Então?...
— Ele está aqui e não quer se sentar para comer.
— Você está vendo o menino?
— Eu sei que ele está aqui.
— E por que não quer comer?
— Ele está dizendo que eu fui a culpada de ter morrido e também de estar sofrendo.
— Por que ele está dizendo isso?
— Porque eu não quis dar para ele as coisas que ele levou embora e depois fiquei cobrando dele.
— Você está ouvindo tudo isso de verdade ou está imaginando coisas?
— Quem conhece a doutrina espírita sabe do que eu estou falando.
Plínio não conhecia nada, a não ser o que ouvira na palestra de Ariovaldo. Mas suspeitou de que, nesse ponto, a mulher não estava raciocinando direito. Em todo caso, fez um prodígio intelectual e saiu-se com esta:
— Você acha que deve colaborar com a ruindade dele, fazendo justamente aquilo que ele quer que você faça para se prejudicar? Se ele não quer que a mãe coma, é porque deseja ver você doente, internada no hospital ou enterrada no cemitério. Se você quer ajudar o espírito dele, como eu quero, deve ficar forte e lúcida, para ir ao centro espírita ouvir da própria voz dele o que tem a nos dizer, seja para o bem, seja para o mal.
O discurso foi bastante longo, alcançando parte do objetivo. Margarida perguntou:
— Quando é que a gente vai ao centro espírita?
— Esta noite mesmo.
— Então, eu vou me preparar.
— Antes, coma umas colheradas.
— Não vai dar tempo.
— Claro que vai. O centro abre às sete da noite. São duas horas.
— Vou colocar o meu chapéu e já vou esperar você no carro.
Plínio, coitado, não estava entendendo nada, porque Margarida não tinha chapéu nenhum. Como estivesse faminto, comeu um pouco do prato intocado pela esposa e foi à sala ver televisão. Para seu desespero, ao acionar o botão, ouviu um estalido, viu uma fumaça subir por detrás do aparelho e sentiu um forte cheiro de queimado.
“Será que é alguma travessura do Ari?”
Nisto ouviu a buzina do próprio carro. Margarida o chamava. Assim que a viu, percebeu que ela, não possuindo chapéu, estava com um boné do Cleto na cabeça, com a aba voltada para trás, conforme era hábito do filho. O rosto estava empoado, os lábios carminados e as pálpebras coloridas. Mas o trabalho fora um desastre, dando a ela um aspecto triste e caduco. Num picadeiro, talvez fizesse sucesso. Em qualquer lugar, chamaria a atenção.
— Você sabe se há alguma atividade no centro agora à tarde?
— A casa do Pai nunca pode fechar as portas.
“Comparar uma casa de alvenaria comum aos templos católicos demonstra que está fraca da cabeça. Mas vamos até lá. Se estiver fechado, aguardamos no carro.”
Com extraordinária paciência, propôs-se Plínio a não contrariar a esposa, confiando em que os remédios, uma hora ou outra, fariam efeito. Com a desculpa de ir buscar os documentos e as chaves, bem como que precisava fechar a casa, entrou, rapidamente cortou um pão, pôs o bife no meio, colocou dentro de uma embalagem de supermercado e saiu, para não dar oportunidade a que Margarida se fosse sozinha. Achava que a convenceria a comer.
Chegando ao centro espírita, encontraram a porta aberta. Atendia-se à tarde às senhoras gestantes e outras mulheres carentes, desejosas de aprender algumas prendas domésticas, para poderem levar as cestas básicas da comiseração pública e algumas noções, do mesmo modo básicas, da doutrina.
No etéreo, Saldanha esfalfava-se para conduzir, fora do horário habitual, uma das principais figuras da benemerência daquela instituição: Dona Antonieta.



15. ATENDIMENTO FRATERNAL

Assim que entraram, logo foram encontrando pessoas conhecidas, sabedoras dos males por que passava a família. Sendo assim, bastaram umas poucas palavras para que se entendesse que Margarida estava precisando de auxílio.
Teria Saldanha logrado despertar a atenção de Dona Antonieta? Vamos ficar sem saber, porque deu na veneta de Margarida que necessitava conversar com a vizinha. Foi o suficiente para que ligassem para a casa dela e a chamassem, não tendo demorado mais do que quinze minutos para chegar.
Assim que entrou, Plínio foi ao seu encontro, com palavras de evidente pedido de alívio de sua carga:
— Bendita seja, boa amiga! Margarida está em crise de fraqueza, delirando, não falando coisa com coisa. Veja se a Senhora consegue fazer com que coma um pouquinho, porque o médico disse que ela está sofrendo de profunda anemia.
— Calma, Seu Plínio! Vamos ver como é que ela está e vamos providenciar que restabeleça a razão. O Senhor reparou nas roupas dela?
— Como assim?
— Estão enormes. A mulher emagreceu horrores.
Plínio prestou atenção no aspecto físico da esposa, surpreendendo-se com as metamorfoses que se operaram, como se, de repente, ela tivesse envelhecido dez anos. Vários sulcos profundos vincavam-lhe o rosto e, no pescoço, uma pele macilenta, entrelaçada de rugas, denunciava a perda do conteúdo que a vinha mantendo lisa.
O coração do homem fez-se pequenininho. Sem saber por que, saiu da sala e pôs-se a andar pelos corredores e pátios, encontrando aberta a porta da saída, em cujo degrau se sentou, cabeça entre os joelhos, a rogar, sem saber que o fazia, pela misericórdia divina.
Nessas horas, parece que a mente humana prega umas peças incompreensíveis, de forma que, como atoleimado, insistia em repetir, no pensamento, a frase do desenho: “Mulheres, iates, mulheres, mansões, mulheres, dinheiro, mulheres...”
Lá dentro, Margarida abraçou-se demoradamente com a amiga, derramando muitas lágrimas, como a pedir perdão aos seres superiores por haver falhado no cumprimento da missão.
Antonieta deixou-a extravasar os sentimentos, em silêncio, enxugando ela mesma lágrimas de comiseração pela dor da outra. Assim que foi possível, passou-lhe um lenço úmido pelo rosto, limpando os excessos de maquilagem, restaurando a cor primitiva, esquálida pele que ganhou um pouco de rubor pelo esfregão.
Sem dizerem nada, caminharam até a cozinha da instituição. Margarida foi acomodada junto à mesa, diante de um prato de sopa. Incentivou-a Antonieta, enchendo um prato para si mesma:
— Você vai me acompanhar neste caldo quente. Depois a gente conversa a respeito de tudo o que está acontecendo a você, ao seu marido e aos meninos.
Margarida, graças a Deus!, aceitou tomar tantas colheradas quanta via a companheira ingerir, de sorte que, se Antonieta não estava com fome, se obrigou, de qualquer modo, a comer.
Saldanha exultava, sabendo que, sem que o físico esteja bom, a mente não raciocina direito e o espírito fica estagnado, a marcar passo, sem possibilidade de progresso.
Quando Antonieta percebeu que aquilo era o máximo que conseguiria, pediu que fossem buscar o marido, para que se entendessem.
— Seu Plínio, o Senhor aceita também um prato de sopa?
Tirou ele do bolso o embrulho com o sanduíche:
— Eu trouxe este lanche porque pensei que a gente ia ficar esperando abrir o centro. Se a Senhora me permitir, eu vou aceitar um pratinho, porque estou com fome.
Trouxeram o caldeirão, encheram um prato, deram-lhe uma colher e ele pôs-se a sorver o caldo, como se praticasse um ritual sagrado, alimentando muito mais o espírito com a tranqüilidade da mulher do que o corpo com a comida. Não teve pejo em pegar a carne do bife e colocar no meio do prato, comendo-a aos nacos, cortando-a com a faca que lhe emprestaram, ao mesmo tempo que partia o pão e ensopava os pedaços que ia levando à boca. Para cada movimento que fazia, tinha uma palavra íntima de agradecimento ao Pai, como se estivesse comungando da fraternidade universal, através daqueles simples elementos. Sentia perpassar-lhe pelo corpo um frêmito de paz, tanto se derreara naquelas últimas semanas pelos trágicos eventos de que fora vítima.
Terminada a ligeira refeição, acompanhada com interesse por todos os presentes, como se estivessem compreendendo o que ocorria ao infeliz, Antonieta perguntou:
— Margarida, explique para a gente o que você veio fazer aqui. Na outra noite, você queria conversar com o jovem Ari. E agora?
A inquirida não atinou com o sentido da questão e respondeu:
— Você não ficou sabendo que eu conversei longamente com ele?
— Sobre que vocês falaram?
— Ele me contou que está num lugar maravilhoso, cheio de amigos, que largou o vício e que se encontrou com o meu avô, que está cuidando dele com muito carinho.
— Muito bem! Muito bem!
A pobre mulher olhava insistentemente para o Plínio, querendo saber o que de verdade havia naquilo. Plínio entendeu:
— Nós viemos buscar dois remédios que ficaram faltando na lista que recebemos do doutor, no posto de saúde. São estes dois.
Antonieta examinou os nomes, levantou-se, foi à farmácia e, pouco depois, voltou com os frascos:
— Por sorte, nós temos e vamos dar-lhes. Eu sei que estão passando por momentos muito difíceis, mas, assim que puderem, restituam em espécie, para recompormos o estoque. A gente é pobre e trabalha com a boa vontade do povo. Esses remédios não são dos mais baratos...
— Foi por isso que eu não pude comprar. Mas, logo que receber o dinheiro do Fundo, trago de volta.
Antonieta sabia que o vizinho fora mandado embora de um bom emprego e que deveria ter alguma reserva. Foi por isso que estranhou o pedido e instou na restituição.
Plínio complementou as explicações:
— Eu sinto muita vergonha em dizer, mas o nosso Ari levou as nossas economias para comprar a droga com que se envenenou. A Senhora me perdoe a franqueza...
— Fique tranqüilo, vizinho, que a vida reserva muitas surpresas para todos nós. A gente pensa que vai indo muito bem e, quando menos espera, recebe uma descarga elétrica no temporal das desgraças...
Não concluiu a frase das palestras proferidas nas reuniões do centro. Julgou-a exagerada naquela circunstância, pomposa e absolutamente incoerente com o real sofrimento do casal, que rogava pela benemerência alheia, mesmo porque a sua própria existência carnal fora pontilhada apenas de momentos de muita felicidade, não sabendo exatamente o que significava a dor da perda de um filho, de um irmão ou de um pai. Passou-lhe pela mente que os avós morreram, mas estavam velhinhos e partiram sem traumas morais de monta.
Pode parecer aos leitores amigos que estejamos estendendo o nosso assunto porque temos poucos episódios a acrescentar ao prato de comida restaurador dos ânimos. Avaliem o quanto de páginas vêm por aí e saibam que estamos demorando-nos na descrição dos acontecimentos daquela tarde, primeiro, porque deu tempo para que cada personagem refletisse com vagar a respeito de cada pequenino gesto ou idéia e, segundo, porque têm sido tão melancólicos os capítulos que temos a obrigação de dar um pouco de conforto emocional aos que acompanham a história. Não foi uma boa idéia?
Enquanto os três aguardavam que alguém tomasse a iniciativa de voltar para casa, os remédios que Margarida tomou foram fazendo seu efeito, de sorte que chegou o momento de ela repousar a cabeça sobre os braços postos sobre a mesa, entregando-se a um sono pesado.
Não havia acomodação apropriada, de modo que, com a ajuda de algumas mulheres, Margarida foi posta no banco traseiro do carro e levada embora pelo marido. Com algum esforço, este a conduziu ao leito, sentindo, junto ao seu, o corpo debilitado da esposa. Não estava, como ele mesmo constatava, exatamente magra. Mas o exagero de gordura tinha diminuído bastante, conforme ele tinha notado em relação aos furos do próprio cinto que ameaçavam terminar.
Enquanto a carregava, perpassaram-lhe diversas lembranças pela mente, cujo resultado foi levá-lo a pôr-se diante do aparelho de televisão queimado, onde desfilaram muitos quadros obscurecidos de sua vida.



16. A SOLIDARIEDADE CONTINUA

Nem adianta reproduzir aqui o cineminha mnemônico do nosso herói. Quem é que, em tendo mais de trinta ou quarenta, não se deteve já para relembrar os fatos mais penosos e os mais felizes, tudo fazendo para reviver as emoções prazerosas ou descobrir as relações de causa e efeito entre os episódios desagradáveis? Quem não gostaria de volver atrás para gozar de novo as delícias dos momentos felizes ou para desfazer os transes dolorosos que deixaram seqüelas de culpa ou rastros de tragédia?
Pois o êxtase sentimental de Plínio durou cerca de quarenta minutos, ao término dos quais cerrou os olhos e adormeceu.
Queria Saldanha que o pupilo buscasse explicações para os diferentes problemas na tese espírita. Não conseguiu porque Plínio estava por demais preso à voluntariedade das pessoas, para compreender que partilhara com a farinha, os ovos e a manteiga para o bolo das tristezas. Imaginava que Simões não tivera tempo para protegê-lo, partindo para o cemitério antecipadamente. O mesmo quanto a Ari. No que respeita ao encarcerado e ao fugitivo, perguntava-se qual a sua participação nos acontecimentos desastrosos, se vinha trabalhando feito um condenado para manter a casa fornida de alimentos e de agasalhos. Fora pelo seu trabalho que a residência pertencia ao patrimônio familiar e mais o carro e todos os objetos, que dívida nenhuma havia para saldar, exceção do liqüidificador, para cujo financiamento precisara da escritura definitiva da casa, porque o emprego se esfumaçara e a carteira de trabalho assinalava a data da demissão. Não era o momento mais oportuno mas pegou no sono vendo as mulheres indo embora, o dinheiro criando asas, as mansões ruindo e os iates, no fundo do oceano.
Duas horas depois, ao redor das seis e meia, tocaram a campainha.
Eram Antonieta, Moacir, Silvinho e, fato extraordinário, Ariovaldo.
— Vamos entrando, por favor.
Deu um sorriso especial à vizinha, demorados abraços em Moacir e Silvinho, apertou significativamente a mão do palestrante, dizendo-lhes:
— Vão sentando que eu vou ver se Margarida está acordada para passar um cafezinho.
Antonieta antecipou-se:
— Se o Senhor me permitir, vou ver como é que ela está. Quanto ao café, não vai ser necessário, pois estamos indo ao centro. Viemos ver se vocês querem ir junto.
Sem esperar resposta, como se conhecesse a anatomia do prédio, foi entrando, indo diretamente para o quarto do casal.
Enquanto isso, Ariovaldo se apresentava:
— Não sei se o Senhor...
— Diga você, senão vou ficar inibido.
— Que seja. Você está sabendo que sou médico?
Plínio, que deveria sabê-lo, porque foi como se fez a apresentação dele antes da conferência, ficou desconcertado pela tentativa de mostrar-se íntimo.
— Pois bem, ontem aconselhei que sua esposa consultasse um facultativo. Antonieta disse que isso já ocorreu...
— Sim.
— Certamente, deverão ser realizados certos exames.
— Se quiser, eu lhe trago a lista.
— Não vai ser preciso. O importante é que, estando ela anêmica, é preciso impedir que se instale um processo infeccioso contra o qual o organismo não será capaz de apresentar defesa. Por isso, é importante providenciar os remédios, que sejam ministrados de acordo com a posologia recomendada e que as refeições sejam nutritivas, porque os complexos vitamínicos e de sais minerais não serão suficientes para colocarem a sua esposa perfeitamente sã. Eu não estou preocupado, ainda, com os aspectos psicológicos, mas o estado de desnutrição causa delírios que podem perfeitamente contribuir para a ilusão de que muitas coisas que aconteceram no passado ou com outras pessoas fiquem registradas como fatos atuais. Por exemplo, ela pode pensar que se alimentou, sem ter levado nada à boca. O contrário também é possível, ou seja, comer duas vezes no período de uma hora, julgando estar com fome. Em suma, cada caso é um caso. Você...
Silvinho complementou:
— Plínio...
— Você, Plínio, prosseguiu o médico em seu estilo de expositor, me perdoe a aula e este sentido de obrigação de fazer tudo certinho, bem como o atropelo das palavras ditas como quem vai livrar o pai da forca. No entanto, é preciso organizar a vida, para dar ao tratamento da saúde da esposa a prioridade que requer. Por outro lado, insistem estes seus devotados amigos e colegas que você tem de freqüentar as reuniões em que se cuida dos vícios, porque eles têm medo de que os seus dois mais velhos sigam na esteira do que transgrediu as leis físicas, alijando-se da própria vida, suicídio involuntário, uma das mais graves ofensas contra as leis de Deus. Desculpe-me de novo pelo tom didático com que estou falando ao Senhor, mas veja em minhas expressões o desejo mais digno de respeitá-lo e de levá-lo a conviver conosco, readquirindo a alegria natural de quem tem sucesso em suas empresas. Está de volta a nossa Antonieta. Deve estar interessada em nos dizer algo.
— Em verdade, eu quero declarar que Margarida dorme a sono solto. Dada a importância da presença do Seu Plínio na reunião do centro, se estiver de acordo, eu fico tomando conta dela e o Senhor vai com os outros. Se me permitir, vou dar um trato na cozinha, porque as comidas estão à disposição dos insetos.
Plínio não estava acostumado com tanta mordomia. Sentiu o rosto avermelhar mas não teve tempo para tartamudear qualquer agradecimento. Pediu um tempinho para se arrumar e, dez minutos depois, apresentou-se penteado e de camisa limpa, com a indefectível gravata do escritório.
Não vamos perder tempo contando tudo o que acontece nesse tipo de encontro de pessoas estressadas, pela ânsia de superação dos graves dramas de suas vidas. Plínio não se sentiu à vontade, a todo momento buscando o apoio invisível da esposa, a quem entregava a palavra nessas situações públicas. O momento mais angustiante se deu quando precisou demonstrar o quanto estava sofrendo pelos profundos desgastes em tantos aspectos de sua vida. Nesse ponto, foi auxiliado pelos amigos, que se encarregaram de descrever as crises mais fortes do destino.
A comiseração pela dor das perdas se acentuou, quando o grupo foi capaz de perceber a estreita amizade que unia os três contabilistas, tendo Moacir e Silvinho permanecido um de cada lado de Plínio, durante toda a sessão.
Todo o segmento da reunião em que se tratou das tragédias da nossa personagem não levou mais do que quinze, no máximo, dezessete minutos. Todavia, para o coitado, ficou a impressão de que mais da metade das duas horas do encontro foi dedicada a ele. Sendo assim, não levou para casa muitas das informações que lhe transmitiram, precisando os dois amigos insistirem para que compreendesse que precisava, urgentemente, tirar o Ovídio da reclusão e trazer de volta o mais velho.
— Vai ser difícil...
Desta feita foi Moacir quem se manifestou:
— Conte conosco para o que der e vier. Se for preciso, acionamos o nosso departamento jurídico, ou seja, os nossos dois companheiros advogados, que saberão o que providenciar junto aos órgãos de defesa dos direitos dos menores. Temos também como localizar o Anacleto, acionando justamente as pessoas que estiveram na reunião, cujos parentes drogados podem estender uma rede para colheita de informações. Penso que não seria impossível.
Quando Plínio entrou em casa, sentiu logo um cheiro apetitoso proveniente da cozinha. Lá encontrou as louças lavadas e guardadas, o chão limpo e a comida no fogão.
Antonieta foi logo expondo:
— Fiz o que pude mas tem muito mais para fazer. É preciso cuidar da roupa, do banheiro e do pó da casa toda. Sem asseio, vai ser muito complicado para a saúde de Margarida.
— Como está ela?
— Dorme ainda. Nem percebeu que o Senhor saiu. Mas está muito tarde e tenho de ir cuidar da minha casa. Amanhã, a gente decide qual vai ser o melhor para vocês. Boa noite, Seu Plínio!
— Muito obrigado, Dona Antonieta! Deus lhe pague! Deus lhe pague!
Saldanha queria que o infeliz deduzisse que a doutrina espírita fundamentava o procedimento de toda aquela gente. Não logrou êxito. O máximo que Plínio inferiu foi que deveria aplicar-se com mais energia para fazer com que a mulher voltasse a trazer a casa um brinco.



17. A VIDA AOS PEDACINHOS

Na manhã seguinte, entrou em cena a cunhada, Dona Hortênsia, chamada por Antonieta, pelo receio desta de que Plínio não desse conta das tarefas de enfermeiro, de cozinheiro, de faxineiro e de provedor.
Chegou e já foi reclamando de tudo:
— Esse pamonha está com histórias. Como é que foi perder o emprego? Vagabundeava, sem dúvida, porque não tem iniciativa para nada que não seja ir daqui até o bar, até o futebol e que sei eu de mais antros do vício e da perdição. Não é à toa que deixou o Arizinho morrer, Ovidinho agredir o policial e o Cleto desaparecer. Agora vai matar a mulher, porque, polenta mole, não consegue fazer nada que preste.
Enquanto falava, ia arrumando as malas da irmã com os pertences dela, sem autorização nem reclamação do cunhado. João, o marido de Hortênsia, apenas servia para carregar para o carro os embrulhos e pacotes, acomodando-os em silêncio.
A mulherzinha acordou a irmã e fez questão de perguntar sobre os remédios:
— O que é que você está tomando que o médico receitou?
Margarida, coitada, não sabendo onde estava e confundindo as pessoas, caiu de joelhos a implorar perdão:
— Mãe, eu fui culpada de tudo! Perdoe-me, pelo amor de Deus, porque estou em falta com a minha família. Não cumpri as minhas obrigações e agora tenho de procurar o Ari no centro...
A menção ao centro levou Hortênsia a concluir que fora o marido quem transgredira os princípios canônicos do Catolicismo, de que ela era fervorosa e fiel seguidora. Tanto bastou para desancá-lo:
— Se você, palerma, está pensando que vai dar vez aos demônios para tomarem posse de minha irmã, está muito enganado. Não apareça em minha casa. Mais tarde, se ela quiser voltar, quando estiver boa, isso é com ela. Por enquanto, vou assumir a responsabilidade de cuidar da saúde dela. Veja que nem me reconheceu...
Plínio quis explicar o seu papel mas, a um gesto do concunhado, preferiu permanecer calado. Evidentemente, Hortênsia estava preparada para refutar qualquer argumento, porque não podia aceitar nenhum resquício de culpa por parte da irmã quanto aos acontecimentos que pulverizaram a família. Então, o contabilista colocou em confronto o haver e o dever, aguardando que houvesse equilíbrio nas contas de quem se propunha a auxiliá-lo, mesmo que nada houvesse requisitado.
— Responda você quais os remédios e as doses.
Plínio esclareceu que eram necessários tais ou quais procedimentos, entregou os papéis do posto de saúde, deixou claro que precisavam ser realizados os exames assinalados e que havia uma consulta marcada. Fez tudo muito meticulosa e automaticamente, como a entregar o posto ao substituto, como no escritório.
Enquanto o casal acomodava a mudança no carro, Margarida foi à cozinha, pegou uma jarra, encheu de água e foi despejar sobre o aparelho de televisão. Plínio correu e chegou a tempo de evitar o banho:
— Que é que você está fazendo?
— Estou regando a plantinha.
— Que planta coisa nenhuma. Faz tempo que o vaso foi parar no quintal.
Jogada a água, Plínio devolveu a jarra à mulher, justificando:
— Para flores inexistentes, a água não importa que esteja em estado gasoso.
“Então foi assim que a televisão pifou! Santo Deus! E eu querendo botar a culpa no defuntinho. Perdão, meu filho!”
A ocasião, porém, não favorecia grandes lucubrações filosóficas ou doutrinárias, de modo que, de forma mais prática, pôs-se ele a deslocar o pesado aparelho que repousava sobre uma cômoda, para levantar o tapete, a fim de examinar os estragos no assoalho. Acertou na mosca: lá estavam formando-se algumas placas malcheirosas de mofo.
Meia hora depois, estava sozinho, livre para correr atrás da documentação que lhe daria o direito de receber o salário de fome dos desempregados.

Dois dias depois, foi visitar o preso. Lembrara-se de que pedira seus objetos pessoais, roupas, antigos brinquedos, livros, cadernos e tudo que pudesse transformar em dinheiro (o que ele não dissera), para os fins que tinha em mira. Entretanto, Plínio fora prevenido na reunião que nada que os internos pedissem deveriam receber, porque o comércio aviltava os produtos para a aquisição dispendiosa dos psicotrópicos e demais estupefacientes. Levou apenas, para não chegar de mãos vazias, um pacote de bolachas e outras guloseimas, pensando em adoçar os lábios do respondão.
Foi um desastre o encontro. Assim que tomou conhecimento de que a mãe não estava, Ovidinho percebeu que não alcançaria manipular o pai. Pegou o pacote, em meio a muitos palavrões, e sumiu da vista da atônita criatura que lhe dera origem.
Plínio procurou imediatamente o setor administrativo, desejando conversar com alguém com responsabilidade. Depois de mais de duas horas de espera, foi recebido por uma psicóloga, que anotou, nas fichas do recluso, todas as queixas que o pai fez questão de registrar. Só depois disso é que esclareceu:
— O seu filho, Seu Plínio, é dos mais rebeldes; por isso, está no pavilhão dos que são considerados perigosos. Isso é muito ruim para ele, porque os outros são mais experientes, mais desonestos, mais viciados, mais criminosos, e não dão chance nenhuma a que os novatos prevaleçam. Inclusive, agem através de brutalidade, sem nenhuma consideração pelos que demonstram fraqueza. Quando os jovens são mais acessíveis...
O pai resolveu engrossar o caldo:
— Estou vendo que a Senhora não está querendo obrigar o meu filho a me aceitar. Vem com essas histórias que eu não posso resolver. Até parece que não só o meu filho mas todos são irrecuperáveis. Eu não quero saber de mais nada. Quero que a Senhora (veja bem, estou sendo delicado e estou pedindo por favor), que a Senhora me diga o que é que eu devo fazer para levar o meu filho embora daqui.
A psicóloga, talvez por ter recebido ameaças muito piores, dignou-se a folhear o processo, fingindo que não sabia os termos em que se solidificava a permanência do garoto no isolamento social. Depois de certo tempo, tendo demonstrado interesse pelo caso e avaliado que Plínio se acalmara, mostrou o despacho do juiz, crente de que o homem não saberia ler o que estava escrito. Mas Plínio calcou o dedo sobre o papel, impedindo que a funcionária puxasse o calhamaço, tendo lido, para surpresa sua, que o supracitado e qualificado indivíduo deveria permanecer sob a guarda dos poderes públicos até o encerramento do processo de número tal, que corria sob tal vara.
— O Senhor entendeu? O seu filho, para sair, precisa de outra ordem do juiz.
Demonstrando insatisfação com a atitude do pleiteante, a mulher abandonou-o sozinho, sem até logo, sem aperto de mão, sem sorriso convencional, sem sequer um olhar compassivo de boa sorte.

Plínio não facilitava as coisas para si mesmo. Em lugar de enfrentar os problemas, ficava a imaginar que superaria todos os obstáculos dedicando-se aos aspectos formais da doutrina espírita, como no caso do Ovídio, que julgava, nos refolhos da consciência, que viera para pôr à prova a sua paciência, no intuito de mutuamente resgatarem os seus débitos. Sendo assim, raciocinava que era melhor que ele ficasse aqueles três anos no reformatório, para, depois, sair com a responsabilidade dos maiores de idade.
Não via nele, com olhos humanitários, a entidade espiritual revestida por densidade corpórea. Também não via o filho como um ser de carne e osso necessitado de esclarecimento e apoio. Não correlacionava as obrigações paternas com os deveres filiais, passando a distância do preceito basilar do honrai o vosso pai e a vossa mãe, do decálogo mosaico. Mal-e-mal se recordava de ter sido um dia agasalhado pelos progenitores.
Mas essas idéias, como intuições, foram criando raízes em seu coração, de modo que a morte do Ari, em momento de profunda depressão, fez com que ansiasse por encontrar-se com os amigos do centro espírita.
De passagem, devemos referir-nos ao fato de, por duas ou três vezes, ter saído para reunir-se aos habitués dos bares da redondeza, não os achando dispostos a conversar seriamente sobre tema algum. Ao derredor de uma garrafa de cerveja e de uns salgadinhos, queriam saber da escalação deste ou daquele jogador de sua preferência, como ainda disputavam o significado de algum acontecimento violento ou sobre a ruptura dos padrões vigentes por algum ocupante de cargo nos escalões do governo. Quando muito, davam-lhe pêsames tardios pelo passamento do filho ou demonstravam conhecer a paranóia que assoberbara a mente de Margarida. Adentravam, imediatamente, de forma resoluta, nos processos costumeiros de alienação do momento, com a manifesta intenção de fugirem das pressões profissionais ou familiares. Queriam apenas distração, buscando certo prazer em se perturbarem através do álcool e do fumo.
Houve um momento em que Plínio pareceu persuadir-se desse roteiro dos perdulários do tempo, perguntando ao grupo:
— Quando, até uns meses atrás, eu vinha participar do chopinho, vocês me achavam este chato de galochas que pareço hoje?
Um deles, mais chumbado pela bebida, observou:
— Você não é chato mas, como aquele ministro, está chato, porque traz o peso da desgraça para o nosso meio. Se bebesse até cair, talvez não nos obrigasse a nada. Mas fazendo perguntas desse tipo, só atrapalha a nossa felicidade. Eu brindo a isso.
Plínio, na hora, não entendeu que o outro pudesse ter razão. Mas, como também não tivesse o que responder, pediu desculpas e voltou para casa, sem ter sequer tocado num copo de cerveja, mesmo porque o dinheiro estava muito curto e mal daria para uma única garrafa.

Uma hora depois, cruzava os batentes da porta de entrada do centro espírita, sem saber exatamente o que havia ido fazer ali.
Foi recebido com festas por Ariovaldo, que desejava muito saber como estava Margarida.
— A irmã levou-a embora e me proibiu de ir vê-la. Faz uma semana que estou sem notícias. Quando ligo para lá, a empregada diz que está tudo bem e mais nada.
— Se precisar da gente, estamos às ordens.
— Hoje é dia de palestra?
— Hoje as reuniões são reservadas e não públicas. Não sei se os doutrinadores aceitarão a sua presença. Em todo caso, vamos ver se Moacir já chegou e eu deixo você com ele. Certo?...
— Está bem.
De fato, Moacir estava recolhido a uma das salas, sentado à mesa de reuniões, perante uma pilha de livros, lendo um deles. Assim que deu com o ex-chefe, abriu um imenso sorriso e levantou-se para abraçá-lo:
— Seu Plínio, foi muito bom que tivesse vindo espontaneamente. Eu e Silvinho precisamos muito conversar com o Senhor, mas não aqui. O Senhor pretende assistir à função desta noite?
— Para falar a verdade, eu não sei bem o que quero. Acho que preciso conversar seriamente com alguém sobre os acontecimentos que me envolveram nestes últimos tempos, porque estou me sentindo aéreo como nunca antes. Mas se for estorvar, fico no corredor...
— Se não tiver medo da presença dos espíritos, eu o convido para assistir à doutrinação, que vamos começar dentro de dez minutos. Apenas, não poderá ficar ocupando um lugar na mesa. Vai ter de se sentar na fileira junto à parede. Algum problema?
— Nenhum.
Ato contínuo, buscou uma cadeira, não sem antes receber um livro das mãos do amigo, com a recomendação de que lesse um trecho qualquer. Por sorte, tinha levado os óculos de leitura, de modo que pôde acomodar-se com o volume aberto ao acaso. Era um exemplar de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.
Deu com o seguinte trecho:
“Quando a morte vem ceifar em vossas famílias, levando sem consideração os jovens em lugar dos velhos, dizeis freqüentemente: ‘Deus não é justo, pois sacrifica o que está forte e com o futuro pela frente, para conservar os que já viveram longos anos, carregados de decepções; leva os que são úteis e deixa os que não servem para nada mais; fere um coração de mãe, privando-o da inocente criatura que era toda a sua alegria’.”
Foi-lhe difícil decifrar todo o conteúdo de tão pequeno excerto, pois as lágrimas escorriam insopitáveis. Mas não sentiu vergonha ou receio de ser mal interpretado. Dava simplesmente vazão aos sentimentos que se despertaram pela recordação dos filhos e da esposa.
“Um dia, eu quis abandonar tudo, trocando uma vida sem cor pelas luminosas praias do Nordeste. Hoje, daria o que me cobrassem, a minha alma talvez, para ter de volta Margarida, Anacleto, Ovídio e Ari. E todas as preocupações de pai...”
Mas não houve mais tempo nem para o pranto nem para os remorsos, uma vez que sua atenção se voltou para os trabalhos mediúnicos.
Quem já compareceu a uma sessão de doutrinação, sabe que, após as preces de abertura, lêem-se dois ou três tópicos de alguns livros selecionados, enquanto as luzes são amainadas e o som é desligado. Em seguida, o orientador encarnado solicita dos guias espirituais que tragam alguns irmãos do etéreo necessitados de informações ou conselhos. Assim que um dos médiuns dá passividade, põe-se o espírito a comunicar-se através dele, respondendo às perguntas que lhe são endereçadas pelo responsável pelos esclarecimentos. É assim que os dramas das entidades são referidos, prescrevendo o doutrinador, que é o nome que se dá ao dirigente da reunião, este ou aquele procedimento moralizado pelas normas extraídas das recomendações evangélicas de Jesus. Quando desconhece o espírito o fato de que se encontra em plano diferente ao dos terrenos, se demonstra a ele, com delicadeza e tato, que precisa compenetrar-se do mundo em que ingressou.
Plínio perguntava intimamente qual o nome e qual a história de cada um, porque lhe parecia que tratar episodicamente de pacientes ocasionais era passível de engodo ou de ilusão da parte dos médiuns. Contudo, não obteve nenhuma informação precisa, como nome de família, localidade da moradia, época do desenlace vital e outros dados que revelassem a verdadeira identidade do manifestante. Guardou, no entanto, as dúvidas que lhe brotaram para futuro questionar junto aos amigos. Não queria, por outro lado, perder a oportunidade de contatar qualquer parente ou conhecido que freqüentasse as regiões umbráticas, tendo-se concentrado a ver se vinha alguém a seu chamado. Não veio, ou melhor, se veio, ele não soube reconhecer. Talvez um que disse ter falecido há pouco tempo por uma síncope cardíaca pudesse ser o Simões, mas não deu nenhuma pista de que fosse ele mesmo.
“Quem sabe um desses que estão escrevendo me traga as notícias que estou pedindo.”
Frustrou-se mais uma vez, porque nenhum dos médiuns escreventes ou psicógrafos, conforme foram designados na hora, tinham captado nenhuma mensagem dirigida particularmente a alguma pessoa.
A principal conseqüência da noitada foi que Plínio, gentilmente, se escusou quanto a conversar com os dois amigos, voltando para o lar despojado de alguns preconceitos religiosos.

Gostaríamos de relatar o dia-a-dia de Plínio, a partir do momento em que se compenetrou de que estava realmente sozinho, ainda não totalmente afeito à idéia de que tinha protetores e obsessores do lado espiritual. Em todo caso, queria crer em que tudo o que presenciara na noite da reunião mediúnica condizia com a verdade, mesmo quando o médium imiscuía seus pensamentos e emoções aos comunicados recebidos do mundo transcendental.
Os matizes dos revoluteios psíquicos vão ser referidos pelas ações, de modo que devem os leitores estar atentos para os significados morais de cada procedimento. Por exemplo, no dia seguinte, levantou-se cedo, pôs-se diante do aparelho de televisão, matutando para quem poderia vendê-lo e por quanto. Percorreu a vista pela sala e foi avaliando qual o capital que levantaria com a venda de todas as peças. Foi aos dois quartos, entrou na cozinha, vasculhou o quintal e, chegando à garagem, pôs-se a imaginar sem o carro:
“Terei de ir de um lado a outro a pé ou de condução. As compras faz tempo que não preciso transportar nele. O trabalho acabou. Se tiver necessidade de voltar a dirigir um desses, será porque estarei com novo emprego. O melhor vai ser causar-me esse problema. Verei como me viro.”
Foi assim que alienou o veículo, seguindo-se os poucos aparelhos eletrodomésticos e eletrônicos, os móveis e demais petrechos, esvaziando os cômodos, passando nos cobres inclusive os velhos tapetes e as cortinas. Só não vendeu uma das camas de solteiro, a mesa da cozinha e as respectivas cadeiras, o fogão, a geladeira e o liqüidificador. Quanto a este, fez questão de, com o dinheiro apurado, quitar o carnê, porque não se admitia endividado. Conservou também um guarda-roupa, mas vendeu a máquina de lavar e até o ferro elétrico. Muitos trastes e roupas de pequeno valor pediu aos do centro espírita que viessem recolher.
Esvaziou a casa porque, assim pensava, não tinha precisão de oferecer a ninguém mais o bem-estar material que fora a sua luta da vida inteira.

No próximo final de semana, quando foi procurado pelos dois colegas de trabalho, deu-lhes a impressão do mais absoluto domínio sobre todos os seus pertences. Sabia onde cada coisa estava, porque reservara um local para cada coisa. Quando lhe pediram uma folha de papel para anotações, não tinha.
Foi Silvinho quem estranhou:
— Chefe, o Senhor está nos extremos da penúria!
— Não é verdade. Vou tornar-me, se for preciso, o maior pão-duro da paróquia, mas não vou mais correr atrás de dinheiro. Se for preciso, passo adiante a casa e vou morar nalgum albergue.
Moacir não conteve o riso, contagiando os outros dois, que passaram a rir sem saber exatamente por quê.
— Pois, quanto a mim, caríssimo Senhor Plínio Saldanha, não acredito em nada disso, porque eu sei que você não irá recusar a nossa oferta.
Silvinho acrescentou:
— É verdade, viemos como Satanás para a tentação da glória terrena. Ou seja, viemos para um convite, conforme Moacir vai expor.
Plínio antecipou-se:
— Posso adivinhar?
Os dois acederam por meio de gestos.
— Pois bem, vocês estão com medo de serem despedidos, porque devem estar treinando alguns membros efetivos da igreja evangélica no trato dos bens financeiros...
Saldanha, no plano espiritual, analisava a desenvoltura da expressão do afilhado e sorria, percebendo que havia bom humor e sagacidade nas observações. Pensava ele:
“Mas este é um bom sinal! Quer dizer que os sentimentos já não se norteiam pelos problemas individuais. Plínio está preocupando-se com o próximo. É um recomeço muito promissor...”
Não lhes parece claro que a conversa terminou em acerto, quanto à abertura de um escritório contábil em sociedade? Foi isso mesmo que tiveram para comemorar, precisando Silvinho ir ao empório mais próximo buscar meia dúzia de latas de cerveja não alcoólica, que beberam sem estar gelada.
Emocionou-se Plínio com o fato de ter sido designado como ocupante do principal cargo, mantendo-se a antiga hierarquia. O problema mais premente era a falta de recursos, mas, enquanto dessem encaminhamento à papelada, todos teriam recebido os valores que lhes eram devidos, Plínio mais prontamente e os outros dois um pouco mais tarde, porque deveriam ajustar-se às exigências financeiras dos patrões.

Demorou para Ovídio receber o pai durante as visitas a que este não faltava. Um belo dia, em lugar de mandar o repetido recado de que fosse tratar da própria vida, ei-lo que vem em pessoa para conversar.
— Meu filho, obrigado por me receber!
Era atitude com que o mequetrefe não contava, todavia, não se perturbou:
— Estou precisando de um favor muito importante.
Plínio pôs-se prevenido quanto às drogas mas interessou-se, tendo em vista que as palavras não se faziam acompanhar de impropérios:
— Pode dizer sem medo de ouvir nenhum sermão.
— Preciso fazer uma tatuagem.
— E daí? Você já fez tanta coisa...
— Você está começando um sermão...
— Desculpe. É que, para se tatuar, não sei por que está pedindo permissão.
— Que permissão, que nada! Eu não quero contrair AIDS...
— E as picadas nunca lhe preocuparam?...
— Fiz exame de sangue. Aliás, todos os da minha ala fizeram, e o meu resultado deu negativo.
— Graças a Deus!
— Acontece que muitos que estão comigo contraíram a doença.
— A direção, sabendo quem é portador do vírus, vai separá-los, com certeza.
— É o que dizem para as verbas em que estão de olho. Mas a verdade é que vai ficar todo mundo junto mesmo.
— Vou pôr o advogado em cima do caso.
— Já tem mais de vinte. Ou você pensa que só eu tenho pai?
— E para que a tatuagem, agora?
— Aí é que está. Eu tenho ficado na minha. Não abro a boca mas sou obrigado a olhar feio para muita gente. O pessoal, apesar de mais velho, me respeita, porque pensam que eu espetei o delega. E eu não sou tonto de desmentir ninguém. A fama é de que não devem mexer comigo. Também não dou bandeira. Mas, como você pode imaginar, muitos saem e outros entram. Se um desses novos vier se engraçar comigo, vou ter de meter-lhe uma lâmina no bucho.
— Não faça nunca isso, pelo amor de Deus!
— Você não sabe o inferno que é isto aqui. Sem a tatuagem para impor respeito na hora, posso ser apagado por um metido a besta qualquer.
— E o que você quer de mim?
— Vou mandar um cara com uma lista de material. Você pode comprar ou dar o dinheiro. Vou mandar alguém de confiança e você vai ver, depois, a tatuagem, para saber que não comprei droga nenhuma.
— Vocês não têm esse material?...
— E como é que você acha que muitos estão com AIDS?
No mesmo dia, Plínio morreu com uma quantia superior à que julgara suficiente, mas não quis saber de procurar os melhores preços. Pelo menos para isso serviu o dinheiro que tinha arrecadado.



18. TRABALHO EFETIVO

Da mesma forma que recebeu com muita alegria a notícia de que poderia ser útil à comunidade, profissionalmente, Plínio também foi convidado a participar dos trabalhos do centro espírita, na condição de colaborador junto ao Departamento de Assistência Social. Trocando em miúdos, davam-lhe tarefas de operário, qualquer que fosse a necessidade do momento. Foi assim que começou por empilhar livros para a pulverização de inseticida na biblioteca. Em outra oportunidade, vestiram-no com um macacão desajeitado e deram-lhe uma brocha para a pintura de algumas paredes. Na cozinha, foram ensinando-lhe a cortar, descascar, picar e tirar caroços e sementes, mas impediram-no de temperar. Junto aos departamentos da contabilidade e da tesouraria, apenas deu palpites, porque os dois amigos tomavam conta de tudo. Iria demorar para ser chamado aos estudos na qualidade de membro efetivo de alguma turma, mas também por lá acabou passando, apesar de não ser muito bom para a leitura e interpretação dos textos.
Chegamos aonde queríamos, ou seja, informar que os livros da codificação não avançavam à sua frente. Quando muito, O Evangelho Segundo o Espiritismo ia sendo lido um pouco em casa, um pouco com o grupo, mas não de forma sistemática. O Livro dos Médiuns iria ficar a menos de um quarto. O Livro dos Espíritos chegará ao fim um pouco antes do desfecho da narrativa. O Céu e o Inferno Segundo o Espiritismo foi o que mais de perto lhe falou à sensibilidade, principalmente quanto aos depoimentos e mensagens mediúnicas. A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo resumiram-se às pesquisas a respeito das passagens dos evangelhos para entendimento das explicações doutrinárias. E só.
Essas dificuldades era natural darem aos dirigentes das sessões mediúnicas a idéia de que poderia haver inata tendência para a captação das vibrações provindas do campo espiritual. Colocado, porém, em turma de desenvolvimento da mediunidade psicofônica, embatucou, porque se preocupava demasiado com o desempenho alheio, sempre curioso de constatar a veracidade dos acontecimentos referidos pelos espíritos.
Em conversa franca com Ariovaldo, Plínio desembuchou:
— Doutor, estou muito mais para a materialidade do que para a espiritualidade. Sei que devo progredir, caso contrário, ao desencarnar, vou passar longa temporada no Umbral, conforme tenho ouvido os palestrantes dizerem. Se não for importante o serviço braçal que tenho prestado, vou sofrer até entender o objetivo do segundo ensinamento, ou seja, o de que devemos instruir-nos.
Ariovaldo admirava-se de que o interlocutor se manifestasse com tanta precisão, fluência e clareza, enquanto se dizia incapaz de algo mais sério no âmbito dos estudos. Não desejando desdizer o amigo, contornou o problema:
— Vejo que você entendeu perfeitamente a necessidade do conhecimento superior dos fenômenos materiais e espirituais, segundo as explicações de Kardec. Isso está mais que evidente. Se não se trata de puro receio de equivocar-se, ou melhor, se não for um bloqueio mental provocado por íntimas desconfianças de que existe muita falsidade nas atividades do centro, quer no campo da assistência aos carentes, quer no da doutrinação dos espíritos inferiores, o seu problema se resolverá a qualquer momento, quando obtiver sucesso no contatar o plano espiritual. Pode parecer absurdo o que vou dizer, mas sugiro que se ofereça para a escrita mediúnica.
— Tenho lido o que os outros escrevem e não acho que vou sequer fazer algo parecido.
— Não lhe peço para que escreva. Peço para que tente. Tudo o que lhe brotar no pensamento, seja o que for, escreva.
— Mas eu tenho ouvido freqüentemente que o principal é o cuidado com a intenção dos maldosos...
— Isso você vai ter de confiar aos mais experientes. Se eles disserem que a sua mensagem se trata de tentativa de enganar, de perverter, vai dar ensejo a algumas boas discussões.
— Será que vamos conseguir classificar o grau de adiantamento do espírito, como está em O Céu e o Inferno?
— Talvez essa não seja a parte mais importante. Mas você deve concordar comigo que a sua primeira reação foi a de aceitar tacitamente que a mensagem não foi de sua lavra. Não é isso sinal de que concebe a possibilidade do trabalho?
Na próxima reunião, advertido por Ariovaldo, o dirigente da sessão admitiu Plínio na condição de escrevente, destinando-lhe uma mesa à parte, melhor iluminada, onde se dispôs a receber as notícias dos amigos trazidos pelos guias do centro.
A primeira página que escreveu veio com o selo da assinatura do Mestre Evaristo, personagem desconhecida, que Plínio atribuiu a um nome de rua, porque jamais lidara com alguém que assim se chamasse. Dizia:
“Graças a Deus! Aqui estou com a incumbência de informar que estou muito bem. Graças a Deus! Vocês podem dizer aos meus familiares que devem parar de chorar? Eles estão me perturbando a recuperação do abalo da morte. Quando as pessoas sofrem na Terra, os espíritos sofrem no espaço. Tenham piedade de mim, por favor! Um abraço amigo, em nome de Jesus! — Mestre Evaristo.”
Plínio escreveu o texto m0uito depressa, não querendo pensar sobre as idéias que lhe surgiam aos borbotões, para não dar uma seqüência sua. Mas impressionou-se deveras com a solicitação de levar aos familiares aquela notícia auspiciosa e aquela recomendação bastante lógica e coerente com os ensinos que vinha recebendo. Sendo assim, empolgou-se com o trabalho realizado, bloqueando outras possíveis manifestações.
Em dado momento da reunião, o orientador, vendo-o com a pena em suspenso, chamou-lhe a atenção:
— Seu Plínio, continue escrevendo, por favor!
Imediatamente, pôs-se a redigir outra mensagem que teve o seguinte teor:
“Graças a Deus! O irmãozinho que está pegando o meu ditado deve esforçar-se mais para prestar atenção aos pensamentos que lhe estão sendo transmitidos pelos que desejam escrever. Lembre-se do Chico Xavier. Se ele não se dedicasse a transcrever o que lhe vinha à mente ou à mão, quantos livros ficariam para sempre desconhecidos dos encarnados. Agora que está velho, está na hora de outros médiuns buscarem desenvolver-se, para dar prosseguimento à obra dos espíritos comandados por Emmanuel. Pense muito nisso, querido confrade. Que as bênçãos de Jesus nos cubram de paz e bem-aventurança! — João Evangelista.”
Plínio quase não escreveu o nome sagrado que se atribuía a entidade. Mas, lembrando-se do que lhe dissera Ariovaldo, atreveu-se a registrá-lo, na esperança de que os companheiros soubessem como resolver o problema.
Ao término da sessão, após a prece de encerramento, Plínio foi convidado a ler as duas páginas. Tremeu bastante mas conseguiu ir até o fim do primeiro texto.
Foi um alvoroço. Discutiram-se a autenticidade do nome e a verossimilhança das informações. Ninguém conhecia o tal de Evaristo mas deram crédito ao conteúdo, mesmo porque, muito recentemente, justo aquele tópico do choro a prejudicar os mortos fora motivo de uma conferência. Depois de muitas idas e vindas, resolveram que a mensagem deveria ocupar um lugarzinho no quadro de avisos, quem sabe a despertar a parentela de alguém com aquele nome. Ninguém se apresentando, pelo menos a parte doutrinária não havia sido transgredida.
Se havia Plínio tremido antes, ao ser solicitado para a leitura da segunda mensagem, empalideceu. Mas teve suficiente sangue-frio para solicitar o testemunho do orientador para o fato de que fora ele quem o incitara a voltar a escrever. Aí leu o texto, omitindo o nome do mensageiro. Não pôde negar que havia um nome, mas exigiu:
— Só digo quem escreveu depois que me disserem se o texto presta.
Houve tumulto, educado, silencioso, polido e sentencioso, mas os corações se apertaram com temores de obsessor à vista.
O orientador, percebendo o movimento desusado entre os colegas, impôs certa ordem aos raciocínios, conforme imaginou quais seriam as objeções e as qualidades reconhecidas no texto:
— Ninguém nega que o grande médium mineiro, o nosso Francisco Cândido Xavier, esteja velho... Ninguém nega que o serviço prestado por ele ao Espiritismo foi de grande relevância... Ninguém nega que tal serviço merece prosseguir para benefício da humanidade... Ninguém nega que existe um pensamento norteador da mensagem, dando-lhe contextura quanto aos raciocínios... Ninguém nega que a linguagem não cede à vulgaridade, embora também não se apresente literária, talvez por ser a peça excessivamente curta... Ninguém nega que a chamada de atenção do médium corresponde exatamente ao fato de eu lhe haver pedido para dar passividade... Ninguém nega que o espírito que se comunicou não hesitou em utilizar-se do nome sacratíssimo do Senhor, demonstrando que não teve medo de ofendê-lo...
À medida que o instrutor ia desfiando as razões, o povo ao derredor da mesa ia acalmando-se, orientando os próprios pensamentos pelas razões aventadas.
— Alguém deseja acrescentar mais alguma coisa?
Um dos presentes, lembrando-se da condição de novato de Plínio, foi taxativo:
— Acho que todos nós concordamos que o texto, apesar de curto, está suficientemente bem redigido e que podemos dizer, sem reservas, que presta. Eu mesmo, contudo, não vejo nada de excepcional no conteúdo e me resguardo quanto à sugestão declarada de que o nosso amigo escrevente venha a ser o tal substituto do Chico. Particularmente, eu acho que haverá muitos, porque a sua riqueza medianímica vai ser difícil de ser encontrada num só médium.
Aí, se houvesse tempo, iriam ficar debatendo por mais de hora. Mas, olhando para o relógio, o dirigente da sessão pediu que Plínio declinasse o nome do mensageiro, criando-se forte expectativa.
— Antes de lhes dizer qual o nome que me ditaram, devo revelar que estas são as minhas primeiras peças consideradas mediúnicas e que seria extrema pretensão da minha parte imaginar e muito menos informar por escrito que sou eu aquele que irá ocupar o lugar do mais perfeito médium conhecido. Quanto ao nome, eu não queria escrever, sendo o primeiro a rejeitá-lo, a não ser que me digam o contrário. Trata-se de João Evangelista.
Silêncio absoluto. Saldanha e demais espíritos presentes divertiam-se com as reações de cautela dos encarnados. Todavia, coube ao doutrinador encerrar o assunto:
— Vamos fazer de conta que tenha sido a grande personalidade do discípulo mais amado por Jesus quem tenha comparecido para nos oferecer esses conhecimentos. O que cada um deve trazer pronto para a próxima semana, como dever de casa, é se a preocupação com o trabalho mediúnico estaria nas cogitações de espírito de tamanha luz. Quanto a você, Plínio, não se entusiasme muito e aguarde com paciência o desfecho de nossas meditações.
Aquela iria ser uma semana de muita ansiedade para o nosso herói.



19. OVÍDIO FOGE DA PRISÃO

O que existe de mais natural dentro das instituições cujo objetivo é o de resguardar a sociedade de elementos perigosos é o pensamento de que a liberdade deve ser alcançada de qualquer jeito. Em outras palavras, sempre as pessoas, seja qual for a circunstância, desejam algo melhor ou, se possuem tudo o que poderiam querer, buscam preservar o que têm, providenciando para que as condições de regalia ou de felicidade perdurem.
Ovídio não comandou mas apoiou todo o movimento de revolta dos enclausurados. Houve determinado momento em que precisou ameaçar um funcionário de morte. Não hesitou e arrastou-o pelos cabelos por um longo corredor.
Deveríamos relatar as cenas de violência? Fica a pergunta aos mais sensíveis, porque repugna a nós fazê-lo. Julgamos inútil a descrição dos acessos de cólera, porque o resultado mais habitual é o da destruição dos objetos, dos móveis, dos prédios. Muitas vezes, nem raiva existe mas cálculo, como no caso de se incendiarem várias salas importantes da diretoria ou as oficinas de aprendizagem e trabalho, para que os que cuidam da segurança corram para a defesa de um setor, deixando outros menos protegidos. Se houver surpresa, como é do conhecimento de todos, será possível abrir diversas frentes, para que o máximo possível de detentos possa escapulir.
O que houve a lamentar nessa sedição foi a morte de dois menores às mãos de inimigos internos por vingança. Apenas para consignar, devemos dizer que um dos assassinados havia sido marcado para morrer; o outro foi um dos executores que encontrou a indigitada vítima prevenida.
Durante o tumulto, Ovídio assistiu a todas essas cenas dantescas, ou não haveria razão para nos referirmos a elas. Fique o registro para futuras apreciações morais.
Pois bem, uma vez na rua, imediatamente contatou os meliantes que lhe dariam cobertura do lado de fora, retirando-se das imediações dos prédios por meio de um carro roubado. Se Plínio buscasse a prometida tatuagem, iria decepcionar-se, porque o dinheiro serviu para subsidiar a fuga.
Ora, um dos comparsas era aquele mesmo da correspondência do Cleto, o qual forneceu o endereço e arrumou a mesma carona para conduzir Ovídio até o irmão.
Era a época em que Anacleto precisou dar testemunho do Cristo, mais precisamente, dois dias depois, de forma que o encontro deles se deu em clima tenso.
— Que veio você fazer atrás de mim?
— Não vou morar debaixo de sua saia. Mas vou querer dinheiro para ir para outra região.
— Você sabe que é culpado de eu estar aqui?
— Você não vai me acusar de ter matado o Ari, vai? Ou que foi por minha causa que a mãe ficou maluca? Se disser que o pai perdeu o emprego...
— O que eu quero saber, Vidinho, é se o dinheiro vai servir para comprar os baseados do seu vício.
— Primeiro, preciso cuidar de mim mesmo. Depois, vou pensar em como posso sobreviver.
— Se você está disposto a ficar uns dias escondido, eu arrumo uma pensão de confiança, ponho você num emprego...
— Se for para ganhar a miséria que pagam aos boys, nem pensar...
— Eu tenho um plano. Se você quiser ouvir, muito bem. Eu esqueço tudo o que você fez e abro as portas para um dinheiro cada vez mais fácil.
Ovídio, à menção da segurança financeira, fez com que o irmão expusesse detalhadamente o que havia bolado, para que o outro não deixasse a casa cair.
— Você não notou, Vidinho, nada diferente em mim?
— Tudo está diferente: o cabelo, a roupa... Não tem tomado sol?
— Você vai ter de se disfarçar. Como está careca, vai precisar ficar escondido por uns tempos, até o cabelo crescer. Enquanto isso, vou providenciar os seus documentos e vou ver se uns óculos de bacana ou de intelectual modificam a sua cara. E vai ter de comer bastante para ganhar mais corpo, que eu pretendo aumentar a sua idade. Eu quero saber se você tem mandado ver.
— Você vai acreditar no que eu disser ou qualquer coisa vai servir para me dizer que não é verdade?
— Quando você me obedecia, tudo não andava nos trinques?
— Durante todo o tempo que eu fiquei lá, puxei fumaça só três vezes.
Neste ponto, ofendeu os pais ausentes com palavras de baixo calão, dizendo que o único dinheiro que conseguiu foi com muita malícia.
— Isso é muito bom. É sinal de que você vai agüentar ficar sem, por mais algum tempo. Mas, se quiser comemorar a saída, eu acho que vai botar tudo a perder.
— Você está no comando, chefe.
Só então Anacleto adquiriu confiança para contar muita coisa do que fizera até aquela data, concluindo:
— Quando chegar a hora, você vai dar testemunho na igreja, modificando algumas partes da história, conforme nós iremos combinar.
— Qual é a jogada, afinal? Ficar trabalhando como vendedor? Isso não é o que pretendo para mim. Eu acho que você está de olho na herança do patrão...
— Também, mas existe muito mais do que isso na parada. Confie em mim.
Naquela noite, Ovídio dormiu clandestino nos fundos da farmácia, sob a vigilância do irmão. No dia seguinte, procuraram uma sauna e, enquanto Ovídio passava por uma limpeza completa de pele, inclusive cuidando das unhas das mãos e dos pés, Anacleto foi comprar-lhe roupas sociais e uma mala, para lhe dar o aspecto de viajante. Mais tarde, com os óculos sobre o nariz, foram ao templo e solicitaram dos pastores agasalho por algumas noites, até que se ajeitasse nalguma pensão.
— Não vai ser de graça, querido. Vamos pedir que nos ajude no que for necessário.
À vista do sinal de positivo de Cleto, Ovídio teve de ceder, imaginando como é que iria sair daquela gelada.
Saldanha acompanhou toda a aventura do agora mais novo membro da família do pupilo, não tendo ficado nem um pouco satisfeito com o desempenho dele durante a fuga nem com as vibrações de desagrado que faziam prejulgar forte tendência para a traição. Achava que o mais velho estava expondo-se a sérios riscos de perder a estabilidade que vinha mantendo às custas de muita sagacidade e inteligência. Por isso, redobrou as solicitações de esclarecimentos aos protetores, para que pudesse auxiliar os jovens a desvencilharem-se dos vícios e da malandragem.



20. ARI

Já é hora de nos ocuparmos do espírito de Ari, que permaneceu durante alguns meses sob tratamento fluídico, em nosocômio de uma das muitas colônias espirituais.
Chegou em estado lastimável, tendo perdido a oportunidade de crescimento através do resgate dos débitos que contraíra, em épocas anteriores, em relação às pessoas da família. Como se integrara na carne completamente, o que ocorre aos perispíritos por volta dos sete anos de idade do corpo físico, teve um período de educação amorável que deixou de aproveitar.
Estas reflexões apenas se deram no âmbito dos responsáveis pela subjugação dele às diretrizes do carma, uma vez que a tomada de consciência da situação moral haveria de custar-lhe muitos anos de sofrimentos e frustrações, na recitação do miserere compungido de quem percebe, enfim, que poderia ter feito muito mais.
Chegou Ari como se não tivesse desencarnado. Em todo caso, foi possível aos socorristas manterem-no alheio aos contundentes efeitos das drogas no organismo perecível, porque, desde que imergiu nos sonhos e fantasias da alienação psicotrópica, passou a julgar a realidade como o produto das sensações de poder ou de domínio sobre a organização espiritual. Em termos mais simples, conservaram-no com a perturbação que trouxera da vida, para poderem exercer uma linha de cuidados com o objetivo de lhe assegurar, paulatinamente, que estava sendo merecedor da atenção de seres cuja qualidade moral não era difícil de conceber.
Se tivesse arribado no Umbral sem assistência e se os seus mais diretos adversários não estivessem encarnados, cairia, indefectivelmente, nas garras de espíritos maldosos, os chamados obsessores, cujo comportamento está ainda muito longe das prescrições evangélicas, porque retêm apenas ódio nos corações. Sob esse aspecto, até que a morte o desobrigou de novas realizações contrárias às leis de evolução, de amor e de trabalho, principalmente.
Margarida, que trazia o coração enlutado, crente de que causara os principais problemas que culminaram na morte do filho, adotou o sistema de pedir por ele durante todo o tempo em que se mantinha em vigília. Procedia como autômato, desligada do mundo, mas sem rancor, sem falsa piedade de si mesma, sem acerbas acusações contra os desmandos finais do filho querido. O enfraquecimento orgânico fora contornado a tempo, de modo que, quando Ari acordou no leito hospitalar, Margarida também despertava para a necessidade de compreender os mecanismos do carma, tanto que, um dia após a fuga de Ovídio, Plínio encontrou-a entre os freqüentadores do centro espírita.
Interessa-nos, no momento, porém, seguir um pouco adiante com Ari, para depois volver ao plano terreno.
— Quem se julga no direito de me prender aqui? — foi logo perguntando ao homem vestido de branco ao seu lado.
— Você não está preso. Precisou ser internado por causa de uma dose excessiva de drogas. Você está lembrado disso?
— Quanto tempo faz desde que isso aconteceu?
— Vários meses, ou melhor, quase um ano.
— E como é que estou me sentindo forte? Eu não devia estar um trapinho?
Realmente, durante aquele tempo, foram feitos muitos esforços no sentido de dar ao corpo espiritual a aparência de quando o menino estava saudável. Por outro lado, o socorrista responsável por assisti-lo em sua recuperação estava preparado para desencadear a metamorfose das recordações da última peregrinação terrena, amparando-o, caso se visse de novo sob as feições anteriores ao encarne.
— Onde você pensa que está?
— Num hospital de desintoxicação do governo. Quando vou poder sair daqui?
— Você poderá sair quando for capaz de raciocinar com clareza a respeito de tudo o que tem feito.
— Só tenho feito o que acho o melhor para mim.
— Essa conclusão é bem plausível.
Interrompemos o diálogo porque julgamos oportuno esclarecer que o pensamento de Ari correspondia ao de um ser adulto. O que trouxera de infantilidade ao etéreo residia no campo das emoções. De fato, mesmo quando vivo, o seu raciocínio se pautava por uma lógica quase irrepreensível. Para não gerar confusão, devemos firmar o ponto em que errara: nas premissas, ou seja, nos fundamentos sobre os quais elaborava os raciocínios e extraía as conclusões. A partir do momento que elegera as drogas como a saída para o prazer e para a contingência da vida, todos os seus atos se deram no sentido de efetivar aquela conquista. Pensamos que não será muito difícil de entender que, no etéreo, os princípios mentais, vamos assim dizer, diferem bastante daqueles do comum dos mortais.
— Meus pais têm vindo visitar-me? E meus irmãos?
— Quais são as suas lembranças quanto a cada um deles?
— Quanto a meu pai, sei que perdeu o emprego. Ovidinho estava preso. Cleto desapareceu. Minha mãe endoidou.
A derradeira informação não poderia ter sido arquivada enquanto vivo. Foi-lhe fornecida em estado sonambúlico, nas várias ocasiões em que Margarida, enquanto dormia, veio ter com ele.
— Seu pai está em vias de formar um escritório de contabilidade. Seus irmãos estão juntos numa cidade do interior e trabalham para viver. Sua mãe está quase recuperada dos destrambelhos mentais. E você, como é que se sente?
— Posso falar a verdade?
— Mentir é que não pode.
— Acho que vou precisar de uma dose...
— Você tem sido conservado em estado letárgico por sedativos leves, para que os médicos possam induzi-lo a recuperar a lucidez mental. Quer dormir novamente?
Ari não esperava tanta condescendência mas não foi capaz de preservar a mente aberta ao diálogo. Os remédios que lhe deram aqueles minutos de clarividência esgotavam o seu poder, de forma que a vontade indômita do adolescente rebelde iria chegar à superfície das ações dentro em breve. Foi assim que perdeu o sentido da existência, mergulhando fundo nas reminiscências da derradeira romagem carnal.
Em lugar de lhe aplicar o costumeiro tratamento de repouso forçado, o amigo com quem conversara resolveu dar-lhe uma descarga de caráter energético, suficiente para mantê-lo sob a impressão de que estava justamente no lugar em que se imaginava, com as pessoas que julgasse presentes, como se a ilusão fosse a realidade. Veremos logo mais a que visavam os cuidadosos socorristas, que desejavam livrá-lo da sobrecarga dos vícios, compenetrados de que o suicídio involuntário se dera por ignorância, por força da impregnação à personalidade de péssimos valores mundanos.



21. UMA NOITE MAGNÍFICA

Antecipamos o encontro no centro espírita entre Plínio e Margarida. Na verdade, precisamos dizer que cada qual foi até lá com sua própria ansiedade: Plínio, meio desesperado por não obter nenhuma notícia do filho fujão, cheio de desconfianças de que havia sido eliminado e incinerado num dos incêndios da rebelião; Margarida, meio esperançosa, em busca de sadio contato com o espírito do filho morto.
Quando Plínio chegou, lá estava a esposa levada pela irmã. Dona Hortênsia cedera aos instantes pedidos da doentinha, atribuindo-lhe o tenaz exercício da vontade ao fato de estar sob os efeitos dos excitantes químicos, uma vez que ao médico pareceu que a paciente precisava vencer as barreiras da melancolia, forma poética de mencionar a depressão neurotizante.
Saldanha, que interpretava bem as ondas de vibração emitidas desde a profundeza do espírito, não se deixava enganar pelas desculpas da pobre religiosa, sabendo que havia um desejo natural de comprovação da existência dos espíritos e de sua possibilidade de comunicação com os vivos. Se se comprovasse, iria ter no que pensar, em trabalho intelectual pouco comum; se não se comprovasse, poderia converter a demente (aí mais que nunca) para o Catolicismo. Hortênsia, contudo, não corria nenhum risco, porque presumia que, qualquer fosse o resultado da reunião, sempre poderia atribuir as manifestações às forças infernais, resolvendo qualquer problema de consciência no confessionário.
As duas estavam sentadas na segunda fileira, à orla da mesa em que se desfeririam os trabalhos mediúnicos. Foram admitidas por intercessão de Ariovaldo, é claro, pois julgava ele que o estado emocional de Margarida suportaria a provação de um contato infeliz com o espírito do filho.
Plínio, sem que dessem pela sua presença, sentou-se três fileiras atrás, pondo-se a observar a figura da esposa, deixando-se impressionar por sua incrível modificação. Bem tratada, vestia-se com roupa nova, justa, deixando as formas trazerem ao marido as reminiscências de vinte e tantos anos. Recuperara a matrona os encantos da juventude, despertando o esposo para os feitiços que sobre ele exercera nos tempos do noivado e das primícias conjugais.
Copiosas lágrimas começaram a brotar dos sentimentos confusos que dominaram a psique de quem se supunha solteirão ou, mesmo, viúvo. Contudo, sem saber se poderia manter uma conversa lúcida com ela, Plínio quedou imobilizado por longo tempo. À medida que as pessoas foram chegando, teve de reaver o domínio sobre si mesmo, instado que foi a cumprimentar os amigos, até que Hortênsia acabou por descobri-lo naquela angústia.
Através de gestos, perguntou à cunhada se poderia aproximar-se. Recebeu como resposta um sorriso aberto que jamais poderia imaginar lhe fosse enviado pela prepotente figura. Além do sorriso, a mão acenava num venha até aqui irresistível.
Tímido, Plínio contornou os renques de cadeiras e foi sentar-se ao lado da esposa. Chegou estendendo a mão mas recebeu um abraço carinhoso, em que não faltaram sussurros do mais puro afeto:
— Querido, quanta saudade! Quanta saudade!
Ao que correspondia:
— Que bom que você está melhor! Graças a Deus! Jesus nos abençoou e os irmãos da espiritualidade atenderam as minhas preces.
Nos tempos da penúria do relacionamento, Margarida teria, com certeza, se saído com alguma observação em que entraria a figura do médico e a contribuição dos remédios. Agora, agarrando-se fortemente ao homem que lhe dera a aliança, repetia:
— Amém, Jesus! Amém, Jesus!...
Hortênsia espantava-se com a energia expandida pelas vibrações sentimentais do casal. Queria pensar em algo como saudade provocada pela necessidade de o homem tomar conta da casa. Mas não se atrevia a duvidar da verdadeira onda de tórrida paixão que faiscava daquele encontro físico. O máximo que conseguiu desaprovar foi o fato de tanto transbordamento se dar na presença de congregação reunida com finalidades espirituais. Não obstante, pôs a mão sobre os braços do Plínio, que se cruzavam nas costas de Margarida, como a apoiar a manifestação emocional.
Quando se afastaram para poderem olhar-se nos olhos, perceberam que as lágrimas embaciavam a visão e o outro parecia envolto por halo de misteriosa luz. Demorou para voltarem a si do deslumbramento que a redescoberta do companheirismo proporcionou.
Quando Hortênsia pretendeu dizer algo pertinente, intrometeu-se entre eles o Ariovaldo, cônscio de que o casal havia transposto a pior fase da crise conjugal. Com Ariovaldo, vieram Moacir e Silvinho, aplaudindo, sem alarido, o amplexo que haviam testemunhado com imensa alegria.
Sem esperar nenhuma palavra da irmã, Margarida virou-se para ela e lhe deu, desfeito em pranto, um abraço quase tão longo quanto o anterior. Enquanto isso, o marido era reconfortado pelos amigos.
Como se atrasara na compreensão da melhora da saúde mental da mulher, logo chegava a hora de se abrir a sessão. Convidado a assumir um lugar junto aos médiuns, Plínio cortesmente enjeitou, julgando-se perturbado para as atividades de intermediação entre os planos. Passou-lhe pela lembrança que deveria receber conselhos quanto às mensagens e aos nomes atribuídos aos autores, contudo, esse episódio sofreu ponderável redução quanto à importância e ao interesse.
De mãos dadas permaneceriam durante toda a reunião, ora o marido afagando-lhe a rugosa pele, ora premendo suavemente, como a indicar venturosas lembranças; seja a mulher sentindo a rudeza da palma em apertão temeroso de recaída, seja recebendo no dorso a doçura de um beijo maravilhado.
É que, a certa altura, se ouviu, através da voz de um dos médiuns, a notícia de que estava presente um jovem que se iludia quanto à condição existencial, julgando-se vivo, confessando-se viciado e declarando que surrupiara os objetos da residência paterna para aquisição de drogas.
— Qual é o seu nome, meu filho?
— Ari.
Para o casal, o momento foi de grave expectativa, ficando cada qual suspenso pelas revelações que se fariam; ela, quase indisposta pela desconfiança de que receberia sérias acusações; ele, pela necessidade que previa de requerer aos beneméritos da espiritualidade que se atenuassem o mais possível as penas e sofrimentos do menino.
Vamos deslocar o foco narrativo para o plano espiritual e testemunhar como é que Ari foi conduzido a reconhecer-se em outra esfera.
Para ele, o ambiente continuava sendo o de uma sala ampla e limpa, com a cama em que estava deitado, duas cadeiras junto a ela, onde estavam os seus pais e um médico de pé, ao lado, com quem mantinha conversação.
— Você reconhece alguma pessoa presente?
— Reconheço, sim.
— Gostaria de dizer quem são?
— Meu pai e minha mãe.
— Quais são os nomes deles?
— Plínio e Margarida.
— Você está achando alguma mudança neles?
— Estão bem diferentes. Emagreceram muito e trazem no rosto as marcas de grandes sofrimentos.
— A que você atribui esses sofrimentos?
— Eu acho que estão assim porque meu pai perdeu o emprego e meus irmãos estão longe de casa.
— Será que eles não estão tristes por sua causa também?
— Certamente. Eu dei a eles motivo para ficarem com raiva de mim.
— Você acha que, só porque você vendeu alguns objetos que subtraiu de casa, iria provocar tanta dor?
— Não foi por isso. Foi porque comprei a droga e eles devem ter ficado sabendo, porque me trouxeram para este hospital e alguém deve ter falado que sou viciado.
— Não quer conversar com eles?
— Se for para me xingarem, é melhor não.
— E se você prometer que nunca mais vai cheirar cocaína ou fumar craque?
— Isso eu não posso prometer.
— Por que não?
— Porque eles iam saber que era mentira.
— Mas faz tanto tempo que você está longe das drogas...
— Você falou mas eu não acreditei. Agora, vendo os meus pais nesse estado, pode bem ser que já se passou um ano ou mais.
— Volto a perguntar: não quer falar com eles?
— Não vou prometer nada mas posso pedir que me desculpem os transtornos que causei.
— Que transtornos?
Nesta altura, Ari já não estava convicto de suas condições mentais. Tudo ao derredor começava a girar. Imediatamente, o protetor lhe pôs as mão sobre a cabeça, dando-lhe mais uns instantes de lucidez. Foi quando perguntou:
— Por que é que eles estão assim quietos? Por que não se aproximam e não dizem nada?
— Quer ouvir o que eles têm para dizer?
— Claro!
— Ouça a sua mãe.
Tal como no plano da realidade, a Margarida que o filho enxergava manteve-se no lugar. Entretanto, foi possível ao enfermo ouvir claramente:
— Querido, você está sendo muito bem tratado. Por que é que insiste em manter tanto rancor contra a gente?
Surpreendido com a censura, Ari declarou:
— Eu só posso agradecer a vocês dois o fato de me haverem posto no mundo. Não sinto nenhum ódio em meu coração.
Súbito, as figuras do pai e da mãe começaram a adquirir novos contornos, como se a transmutação oferecesse novas informações ao rapazelho.
— Que é que está acontecendo com eles?
— Estão revelando a você uma nova identidade.
— Mas são meus inimigos, aqueles que enfrentei e que me prometeram perdoar tudo o que eu fiz contra eles...
— E eles cumpriram. Você está lembrado do que eles lhe disseram?
— Falaram para confiar neles que iam me levar para a casa deles.
— E não levaram?
— Claro que não!
— Claro que sim! Basta que você saiba ver neles o seu pai e a sua mãe.
Ato contínuo, a vista de Ari se habituou com a aura dos dois ali sentados e pôde observar que se modelavam pelas figuras anteriores.
— Que poder é esse que eles têm?
— Eles não têm poder nenhum. Você é que está vendo-os como eram antigamente.
— Como é possível isso?
— Aqui onde você está, os espíritos são capazes de muitas coisas que as pessoas encarnadas não são.
Milhares de pensamentos ecoaram cérebro adentro da miseranda criatura. Havia recebido a informação de que estava morto, sem dúvida, mas de tal forma sutil que precisou de um bom tempo apalpando-se para desconfiar que vestia um envoltório corporal maleável, bastante diferente do que deixara para trás.
De repente, uma série de acontecimentos muito fortes perpassaram pela sua mente, como se estivesse sendo perseguido na escuridão. Voltavam certas lembranças tremendas de malfeitos antigos. Desejou fugir de onde estava, mas teve suficiente discernimento para saber que a mãe fizera uma pergunta fundamental. Realmente, estava sendo muito bem tratado, para não incentivar reações de ira, de ódio, de vingança.
Adormeceu sob o influxo das enérgicas vibrações que o bom amigo lhe propiciou e sob o cântico longínquo de vozes que entoavam uma prece de agradecimento ao Senhor.
Se tivesse podido perceber o que estava ocorrendo, veria uma forte concentração de fluidos benéficos sendo captados pelos espíritos das pessoas encarnadas com freqüência vibratória compatível com as necessidades do assistido. Se tivesse conhecimentos superiores, saberia, também, que a aparelhagem de que se utilizavam tinha a função de filtrar as emanações energéticas de caráter puramente espiritual, destinando boa parte para a manutenção do estado letárgico da entidade atendida e o restante para a reposição dos elementos fluídicos despendidos pelo médium que transmitira aos mortais as informações que lhe foram possíveis captar do plano da espiritualidade.
Evidentemente, o longo diálogo entre Ari e seu protetor não se projetou no seio da comunidade espírita. O que Plínio e os demais puderam saber foi que o filho fora conduzido à reunião, que chegara rebelde mas contido por forças desconhecidas, que tomou conhecimento de sérios problemas de relacionamento com certos obsessores, havendo o dirigente da sessão sugerido que Ari é quem era o agressor, que percebeu a presença dos pais, a quem pediu perdão, que o tratamento dos vícios, mesmo no etéreo, seria demorado e que, finalmente, aceitou o fato de estar noutra morada do Senhor, respeitando a autoridade do benemérito guia.
Margarida permaneceu extasiada. A demonstração de que Ari comparecera e pedira perdão, aliviando-a de terrível carga de culpa, tinha sido por demais evidente para não crer em que tudo se passara exatamente como fora referido pela conversa entre a entidade incorporada e o doutrinador.
Ao se acenderem as luzes mais fortes, viram o casal absolutamente consolado: Plínio com o braço à volta dos ombros da esposa; esta com a cabeça repousada no peito dele.
Hortênsia, coitada, pairava nas nuvens, não tendo sequer recursos para opor à manifestação mediúnica.
Entretanto, Ariovaldo tinha novidades:
— Irmãos, hoje tivemos o testemunho inegável de que os bons espíritos estão atendendo nesta casa, providenciando para que as pessoas saiam daqui esperançosas quanto a realizar um futuro proveitoso para suas encarnações de dor e de expiação. Na última reunião de que o nosso Plínio participou, recebeu aquela mensagem da entidade que se denominou de Evaristo. Colocamos cópia no quadro do corredor e, pasmem, recebemos não menos de três pessoas com parentes falecidos cujo nome era justamente aquele. Sendo assim, antes de concluirmos se, efetivamente, a comunicação se deu com integral verossimilhança, vai ser preciso, se assim vocês julgarem oportuno, averiguar quem está faltando com a verdade, porque, dificilmente, um nome tão esquisito quanto Evaristo tenha tanta divulgação. O que é estranho é que as três pessoas afirmaram que os seus parentes eram professores e gostavam quando eram chamados pelo título de mestre. Em todo caso, se não acharem importante pesquisar a respeito, ao menos essas três famílias terão sobre o que meditar.
À vista do silêncio geral, acrescentou:
— Alguém quer tentar resumir suas conclusões a respeito do nome venerável de João, o Evangelista?
Aquele mesmo companheiro que se opusera quanto ao teor do texto, voltou a se manifestar:
— Mantenho o que disse outro dia, ou seja, que o conteúdo é de somenos importância, o que me leva a inferir que o nome venerável do apóstolo talvez tenha sido dado por alguma entidade com a intenção de fazer respeitada a mensagem. E parece que conseguiu em parte, porque muitos de nós ficaram impressionados com a possibilidade de tão insigne visitante. Contra essas incursões pela ingenuidade dos espíritas neófitos, Kardec escreveu candentes páginas de advertência. Querem que eu leia algumas?
Era evidente que o moço estava preparado com cerrada argumentação, de modo que Ariovaldo, após consultar com os olhos e com as mãos os demais, respondeu:
— Não vai ser preciso. Basta que você comente a respeito da necessidade ou não de algum médium prosseguir o trabalho do nosso esplêndido Chico.
— Certamente, caberá aos espíritos que sempre cuidaram de afastar do nosso grande médium os perversos desejosos de induzi-lo à obsessão, porque não existe criatura mais bondosa e serviçal que o Chico Xavier, a quem rendo as minhas homenagens do fundo do coração, como dizia, caberá àqueles espíritos, Emmanuel à frente, avaliar se não ditaram já todas as suas páginas de muito amor, de muito conhecimento, de muita sabedoria, de muita beleza, dentro da doutrina que mantiveram sob ponto de vista bastante próximo da perspectiva kardeciana...
Ariovaldo pressentiu um longo discurso, o que achava absolutamente fora de propósito. Além do mais, não atribuía ao comentarista a cultura sobre que estava pretendendo basear os pensamentos. Por isso, interrompeu o amigo:
— Vejo que você se preocupou deveras com os problemas despertados pelos curtos textos do Plínio. Não gostaria de desenvolver essa tese, que me parece valiosa, para uma palestra? Se continuar expondo as suas idéias, daqui a pouco aparecerá algum ponto polêmico que ensejará discussão e estamos além das vinte e duas horas. Você me perdoa se lhe pedir para fazer a prece de agradecimento e encerramento?
O outro, serenamente, como um vencedor grego dos jogos olímpicos, aceitou os louros do reconhecimento do mérito, com humildade, intimamente estimulado para enfrentar um público maior, começando a projetar um roteiro mais completo, e recitou, solícito, a oração final.
Plínio, que se constituíra no centro das questões, não deu atenção a nada do que se dissera, entretido com a inquietação que se avolumava no âmago de sua alma:
“Margarida está curada. Mas terá cabeça para suportar a notícia do desaparecimento do Ovidinho? Preciso dar um jeito de ficar sozinho mais uns dias, até que possa dar-lhe uma certeza. Será que Hortênsia está preparada para levá-la de volta? E como é que vou contar-lhe o que se passou no instituto correcional?”
Estavam saindo, depois de receberem efusivos abraços e respeitosos cumprimentos dos que presenciaram a honra que haviam obtido dos amigos da espiritualidade, quando Margarida informou:
— Vou ao banheiro.
Foi assim que Hortênsia foi comunicada de que havia mais um drama tremendo a ser superado. Concordou, é claro, com os temores do cunhado e admitiu conduzir a irmã de volta. Mas ponderou:
— Como é que vamos fazer para convencê-la?
Nesse momento, João, que ficara fora com a desculpa de que deveria vigiar o automóvel, aproximou-se. Plínio, que não o havia visto antes, logo o incluiu no projeto:
— Vocês nos levam e eu mostro como foi que deixei depenado o quarto. Prometo comprar uma cama de casal...
Nessa altura, Margarida retornou, declarando:
— Hoje vou reassumir a minha condição de dona da casa. Amanhã, a gente vai visitar o Ovidinho e depois vamos tentar encontrar o Cleto.
A viagem de automóvel era curta e foi toda ocupada com a descrição da presença de Ari por Hortênsia ao marido. Os termos técnicos eram fornecidos por Plínio, enquanto Margarida permaneceu a enxugar silenciosas lágrimas de renovada fé em que o espírito de Ari estava resguardado das trevas e dos sofrimentos mais pungentes. Quando buscava imaginar quais seriam os tratamentos a serem ministrados ao rapaz, chegaram.
O pequeno jardim já não existia, porque Plínio havia cimentado o canteiro. A garagem estava vazia. Plínio acendeu a luz de fora, abriu a porta e deu com um papel dobrado no chão, sem destinatário e sem remetente. Acesa a luz da sala, enquanto Margarida constatava que não havia quadros, relógio, televisão, mesa, cadeiras, tapete e cortinado, Plínio dedicou-se à leitura da única linha do bilhete:
O Ovidinho está com o Cleto. Eles estão bem.



22. O BISPO MOISÉS

Vamos deixar Plínio e Margarida entendendo-se a respeito de tudo por que passaram nos últimos tempos e volver ao Cleto, agora a tutelar Ovídio.
Vocês devem estar lembrados de que, com exceção de umas poucas notícias, o testemunho dado durante o culto religioso fora a mais legítima expressão da verdade, claro que com o fito de preservar a conquista que realizara junto à família de Timóteo, ou seja, o coração de Aurélia.
O público presente à confissão do rapaz reagiu de modo o mais simpático possível, deixando-se enlevar pela expressão que lhe pareceu sincera e honrada, tanto que muitos fizeram questão de apertar-lhe a mão, propondo-se para oportuno auxílio.
O sucesso da apresentação repercutiu no seio da comunidade eclesiástica, interessando o bispo da circunscrição quanto a deslindar algum mistério em relação ao orador.
Uma semana depois, quando adentrava o recinto da igreja, foi chamado por Ovidinho:
— O Bispo Moisés me mandou chamar você. Ele está lá nos fundos.
Cerrada a porta, encontraram-se frente a frente apenas os dois: Moisés e Anacleto. Foi do bispo a iniciativa da palavra:
— Vejo que não se enganaram quanto à sua constituição física e à beleza de seus traços. Disseram que você se deu muito bem, testemunhando a sua vida de marginal, dizendo-se arrependido e tudo o mais. Contudo, é preciso que saiba que a nossa comunidade existe em quase todos os municípios do país, sendo fácil investigar a respeito de qualquer indivíduo que deseje prevalecer junto aos pastores, obreiros e fiéis. Para defender Timóteo, já se justificava uma pesquisa rigorosa de seu passado. Mais ainda quando você se apresenta dentro do templo, trazendo emoções comoventes para a maioria das pessoas. Você sabe que esse tipo de pronunciamento arrasta os indecisos e permite que outras pessoas viciadas se predisponham a abandonar as drogas?
Moisés dava tempo para Cleto assimilar as idéias novíssimas que lhe fornecia. O moço, no entanto, caminhou célere e foi capaz de ultrapassar o missionário em seus raciocínios, respondendo:
— Tenho visto esse tipo de declaração repetir-se durante os cultos, mesmo nos programas noturnos da televisão, que mantemos ligada na farmácia, dado que eu trabalho à noite. Se o Senhor quer convidar-me para repetir, em outros locais, tudo o que eu disse, devo informar que aceito, com a condição de deixarem o meu irmão fora da jogada.
A esperteza do jovem agradou sobremodo o pastor:
— Você acertou em cheio. É de gente assim que estamos precisando. Gente rápida no pensar e séria no agir. Só vou referir um fato importante, qual seja, o de que você omitiu certas informações, as quais apuramos. Quer que as mencione?
— Para quê? Para eu reconhecer que errei?
— Absolutamente, meu caro. Ninguém aqui vai ser acusado de nada. Ao contrário, se pudermos livrar a sua barra e a de seu mano, nós o faremos, convictos de estarmos ajudando o templo a ganhar uma alma para o sacratíssimo trabalho de conduzir o rebanho ao Reino do Senhor.
Cleto pressentia nos dizeres do homem à sua frente que havia malícia e segunda intenção. Estremeceu mas criou coragem para revelar o que pensava:
— Se é tão importante que toda a verdade seja posta diante da congregação, devo afirmar que não acredito que nem os obreiros, nem os pastores, nem os bispos, desta ou de qualquer outra seita ou religião, católica, budista, espírita ou protestante, trabalhem pela salvação dos fiéis. O que fazem é se manter montados no dinheiro e no bem-bom de uma vida regalada, com todos os prazeres.
— Em outros termos, você nos considera a todos hipócritas?
— Ou vendilhões do templo, porque tudo se faz em função da arrecadação financeira.
— Você não tem medo de ser escorraçado daqui ou o seu irmão?
— Vocês sabem quem somos e o que fazemos. O Senhor acha que vamos ter medo de alguma coisa?
— Diga se estou enganado: não é verdade que o seu documento é falso, que o seu cabelo é tingido, que...
— Por que isso agora?
— Para demonstrar que você deveria temer ser preso.
— Eu não quero ser preso nem vou. Se a polícia for chamada, no que não acredito, vocês vão perder um colaborador, porque o Senhor Bispo não me chamaria aqui para me ameaçar.
— Você está me saindo melhor que a encomenda. Vou abrir o jogo. Dada a facilidade que você tem com as idéias e as palavras, dentro de algum tempo, será convidado a pregar a palavra do Senhor em algumas congregações menos importantes. Se se sair bem, no que acredito piamente, virá a ser um dos meus auxiliares diretos. Quem sabe, futuramente, dependendo do seu desempenho e da repercussão junto ao povo, poderá cuidar de algum posto no campo do desenvolvimento dos oradores, ajudando-os a confeccionar os sermões. Que você acha disso?
— Quero saber, antes de dar a minha resposta, se o Senhor concordou com a minha maneira de acusar a todos disto e daquilo. Tenho ou não tenho razão?
— Você está levantando um ponto crucial para quantos se dispõem a explicar os textos bíblicos. Como você afirma ter acompanhado as transmissões dos cultos pela televisão, deve ter observado que os pastores acusam as pessoas, de maneira muito geral, acompanhando os textos que reproduzem, de serem egoístas, falsas, orgulhosas, prepotentes etc. Não é verdade? Então, fica bastante evidente que todos nós conhecemos os pecados, como ainda nos referimos aos castigos, na vida e depois da morte. Você está me acompanhando?
— Certamente.
— Conclua, então, por favor...
— Não sei se captei a idéia mas o Senhor está sugerindo que vão enfrentar sem medo, como eu mesmo afirmei antes, qualquer conseqüência desagradável, caso estejam enganando os crentes.
— Não é bem isso. Você passou perto. O que eu desejei demonstrar é que nós somos absolutamente verdadeiros quando afirmamos os princípios bíblicos. Devo afirmar, para ser justo, que, tanto quanto você, a maioria de nós começa pensando que os pregadores não têm convicção religiosa; mais ainda: que somos completamente materialistas. Quando amarramos as mãos nas costas dos que se apresentam possuídos pelos demônios, damos a impressão de havermos forjado uma representação teatral com a finalidade de angariar lucros morais e monetários para a igreja. Muitos de nós, afoitos, já fizeram isso. Contudo, as pessoas se apresentam espontaneamente e nos pedem para livrá-las da maldade dos entes malignos. Aí, começamos a ver que existe aquela realidade. A nossa crença vai se firmando, até que, de repente, nos vemos totalmente integrados à doutrina que contém as diretrizes ideológicas, morais, filosóficas e religiosas dos nossos cânones eclesiásticos.
— Se bem entendi, se eu ficar a repetir o meu testemunho, vou acabar acreditando que vivi exatamente tudo o que inventei?
— Você terá de acrescentar os fatos que nos sonegou na primeira performance. Se for assim, não é justo estabelecer como real o desejo de continuar empregado na farmácia, até casar-se com Aurélia e compartir a herança de Timóteo? A vida é uma somatória de realizações. No final, cada pessoa tem de analisar o que fez, o quanto fez, o que deixou de fazer, para merecer partir em paz e colocar-se perante o juízo de Deus. Você acha que estou inventando isto tudo?
Para Anacleto, a verborrágica manifestação do bispo continha, no mínimo, muita coerência, apesar de não haver compreendido todos os meandros por onde transitaram os pensamentos envoltos em terminologia apurada e complexa. Foi obrigado a admitir que Moisés não gastaria boas velas com mau defunto e se sentiu ufano por tamanha condescendência e atenção:
— Quando começo?
Moisés sorriu satisfeito, não escondendo a alegria de haver convencido o jovem a cooperar com a causa.



23. FIAPOS DE CONVERSAS

Entre Margarida e Plínio:
— Querido, por que você depenou a casa?
— Eu não tinha como manter tudo em ordem, tudo arrumadinho. Então, simplifiquei as coisas para mim.
— Sabe que eu estava pensando em fazer isso mesmo?
— Não acredito. Você sempre quis móveis e utensílios. Não passava uma semana que você não comprava alguma novidade.
— Mas passou pela minha cabeça que, se a gente não tivesse tanto badulaque, podia ver o que estavam fazendo as crianças.
— Pelo menos eles não tinham tantos lugares para esconder as drogas que a polícia achou.
— Foi isso o que fez o meu marido vender tudo.
Plínio passava por fase de forte sensibilidade, tanto que as lágrimas não custaram a brotar.
— Agora vamos ter de comprar tudo de novo e não temos dinheiro. As reservas eu tenho economizado, porque não quero pedir dinheiro emprestado a ninguém.
— Puro orgulho.
— Talvez, mas, se o negócio do escritório não der certo, vamos ficar com uma mão na frente e outra atrás.

Entre Moacir, Silvinho e Plínio:
— Plínio, falo em meu nome e no do Silvinho. Você está nomeado presidente e, por isso, vai ter a responsabilidade de organizar as nossas próprias contas.
— Foi bom vocês mencionarem a contabilidade da empresa. Ocorreu-me, o que vocês também devem ter imaginado, que a clientela vai chegar pedindo para que os jeitinhos sejam dados...
Silvinho observou:
— Não creio nisso. É verdade que a idéia me passou pela cabeça, mas acontece que as pessoas sabem que nós somos espíritas. Significa que confiam em nossa honestidade e na lisura das demonstrações contábeis para o fisco.
Moacir acrescentou:
— E se alguém aparecer querendo isto e mais aquilo, simplesmente, recomendamos o escritório mais próximo. Eu acho que muitos comerciantes espíritas vão dar graças a Deus por haver quem tenha as mesmas convicções.
Foi a vez de Plínio:
— Do jeito que estamos colocando as coisas, vamos acabar criando a mesma igrejinha que nos pôs porta afora da companhia...

Entre Anacleto e Ovídio:
— Que foi que o Bispo queria com você?
— Ele me pediu para dar meu testemunho em todos os templos da cidade. Se me sair bem, vou crescer aqui dentro.
— Vai entrar na mufunfa...
— Vamos entrar, maninho, que vou querer que você me ajude na campana de tudo o que se passa aqui dentro.
— E o tráfico?
— Esqueça. A polícia tem os nossos nomes. Os ratos estão procurando o queijo. Se nos pegam, babau! Principalmente agora que completei os dezoito. É melhor aproveitar esta moita alta: o Moisés prometeu dar cobertura. Ele sabe de tudo mas não vai entregar ninguém. Quer ver que proveito pode tirar da gente.
— De você, porque de mim...
— Não ponho a mão no fogo. Ele me deu um banho e me deixou de boca aberta. Mostrou que, quando eu vou indo, ele já está de volta. O cara é demais.

Entre Ariovaldo e o contestador:
— Ariovaldo, estive pensando se não teria sido melhor não ter colocado a cópia do Evaristo aos olhos do povo.
— Você deve estar pensando o mesmo que eu. Criamos um problema sério, porque as pessoas estão perguntando quem foi o médium que apanhou um ditado tão direto. Não vai demorar e a casa vai se encher de gente curiosa, querendo saber como estão os entes queridos do outro lado, especialmente depois do caso do filho dele.
— Por isso, eu acho que não devo falar a respeito do sagrado nome do apóstolo João. E se a turma achar que foi ele mesmo quem veio incentivar o desejo, a ganância ou a presunção de que alguém possa ocupar o lugar que o Chico está ameaçando deixar vago?
— Você está sabendo que diversos médiuns estão assinando as mensagens com os nomes de Emmanuel, de André Luiz, de Scheilla, de Meimei, do Bezerra de Menezes, do Irmão X e outras entidades que usavam os serviços do médium mineiro?
— Eu li outro dia um poema assinado por Maria Dolores.
— Você, que é tão crítico, o que achou dele? Acha que é o mesmo espírito que veio comunicar-se?
— Se é o mesmo espírito ou não, é muito difícil de dizer. O que é mais fácil, como insisti no caso do Plínio, é reconhecer que existem graves problemas métricos e de composição poética.
— O que quer dizer...
— Quer dizer que os estilos não correspondem. Veja que não estou fazendo referência, por exemplo, aos poemas de Auta de Souza, viva e desencarnada, o que é possível de cotejar, como de tantas expressões da literatura que se encontram no Parnaso de Além Túmulo, a mais completa obra de poesias mediúnicas, publicada ainda nos albores das produções do Chico. Estou falando de textos de mesma procedência, ou seja, só transmitidos do etéreo.
— Conclusão: você não vai querer falar a respeito da assinatura mas dos problemas afetos ao eventual substituto do mais fértil e produtivo médium que se tem conhecimento...
— Se o meu amigo Ariovaldo me concede o direito de direcionar a palestra para um campo que não vai fomentar um vão interesse pelo médium...
— Não tenho nada contra, a não ser que muito pouca gente vai prestar atenção aos seus comentários eruditos. Aliás, preciso pedir-lhe desculpas, porque, outro dia, na reunião, desconsiderei mentalmente a sua cultura e estou vendo agora que me equivoquei. Veja se me perdoa, por favor.

Entre Timóteo e Aurélia:
— Relinha, o Bispo Moisés me revelou completamente os segredos do seu namorado.
— O Cleto foi sempre sincero comigo. Tudo que o Senhor está sabendo eu sei desde o primeiro dia.
— Quanto à cor dos cabelos...
— Nem precisava dizer. É fácil de saber que aquela cor não combina com a pele. Ele me disse que pintou para não ser encontrado pela polícia, por causa do irmão que feriu um delegado.
— Por que você não contou tudo para mim?
— Contei para a mamãe. Deixei por conta dela passar para o Senhor.
Timóteo imaginou a esposa explicando-se: “Não disse nada, mas rezei muito ao Senhor, para que as coisas fossem postas no lugar. Agora, agradeço a Deus por me haver atendido, estando tudo revelado.” Foi assim que resolveu passar adiante:
— Muito bem, você acha que ele está sendo sincero? Será que está gostando mesmo de você? Ou cheirou que, sendo filha única...
— Hoje em dia não há mais casamento com comunhão de bens.
— Você fala com tanta frieza! Será que gosta realmente do moço?
— Você não é mulher, papai, e nem desconfia como é que a gente olha para os rapazes. Tenho certeza de que, se eu abrir mão dele, as outras vão cair em cima, agora que apareceu na igreja.

Entre Moisés e o delegado:
Assim que comprovou que Anacleto era bem capaz de comover com seu testemunho de redenção, ao qual ia acrescentando palavras cada vez mais candentes de arrependimento e de compreensão dos mandamentos bíblicos, só não citando os Livros Sagrados por proibição expressa de Moisés, que argumentava que tais excertos deveriam ser reservados aos pastores, o bispo decidiu procurar o delegado ofendido.
— Doutor, tenho Ovídio nas mãos, aquele mesmo que lhe atentou contra a vida. Sei que existe um processo pendente, mas também conheço a demora da Justiça, de modo que é certo que o rapaz ficaria detido até completar a maioridade. Tenho também comigo o irmão mais velho, Anacleto.
O delegado não estranhava a presença da autoridade religiosa, visto que muitas vezes recebia apelos no sentido do relaxamento das investigações e das prisões, contudo, fez questão de conhecer o motivo do interesse do bispo:
— Não me consta que a família desses marginais tenha laços com pessoas tão importantes como Vossa Reverendíssima. Esclareça-me o ponto, por gentileza.
— Em primeiro lugar, chegou-lhe ao conhecimento, Doutor, que o irmão deles, o caçula, morreu por overdose de cocaína?
— Sim, tanto que abrimos mão de cobrir as atividades do pai.
— Esse coitado perdeu o filho, o emprego e viu a mulher endoidecer.
— Os seus informantes são bons, Eminência.
— Que foi que o Senhor apurou a respeito, Excelência?
Tratavam-se com especial urbanidade, mas Saldanha, que viera no interesse de se informar do resultado da entrevista, divertia-se com as vibrações opostas que, em ondas de desconsideração, emanavam pelo ambiente espiritual ao derredor. Se pudesse, o benfeitor faria com que terminassem com a comédia, dando-lhes a medida exata da falsidade das mesuras sociais.
— Sei que o meu agressor saiu da cidade, na trilha em que se abastece o grupelho a que pertencia. Fora da minha jurisdição, não me preocupei com o pivete. Tenho para mim, com a devida vênia, que, velho chavão, o criminoso sempre volta a visitar o local do crime.
— Posso imaginar que, se Ovídio ficar uns três anos fora, quando regressar, vai topar com o Doutor no caminho?...
— Não pelo fato de me haver atacado. O que eu quero referir é que a maldade desses adolescentes não se cura com facilidade. Ele vai voltar pior, porque já aprendeu muita coisa mais onde ficou quase um ano, a menos que o Senhor me garanta o contrário, responsabilizando-se por ele.
— Não vou chegar a tanto. Vim para solicitar de Vossa Excelência, que exerce suas atribuições com probidade e rigor, que suspenda as buscas, enquanto a igreja mantiver os dois sob controle. Se desandarem, se voltarem a delinqüir, lavo as mãos como Pilatos e entrego-os às autoridades, com a consciência tranqüila.
O delegado sentiu as vibrações de interesse do bispo muito mais fortes do que as limitadas expressões de solidariedade. Não quis, entretanto, estabelecer polêmica, ainda porque a vergonha perante os pares não se havia contaminado das risotas da comunidade, pois a ocorrência não saíra nas páginas do jornalismo sensacionalista. Guardou também a esperança de, uma hora ou outra, receber de volta aquele membro da igreja, com reclamações fundamentadas contra os atuais pupilos. Declarou, simplesmente:
— Tendo em vista a sublime intercessão de Vossa Eminência Reverendíssima, abro, sem condições, uma trégua em nossa guerra contra esses viciados.
— Enquanto estiverem comigo, pode considerá-los, Doutor, ex-viciados. Muito grato por sua compreensão e apoio. Que o Senhor Jesus o abençoe!

Entre Plínio e Ariovaldo:
— Caro Doutor, meu amigo, vim para agradecer-lhe toda a ajuda que vem prestando para o restabelecimento de Margarida.
— Se você já se compenetrou dos serviços que o centro espírita presta à sociedade, está ciente de que tudo o que fazemos é apenas o mínimo que devemos. Não agradeça. Trabalhe como você vem trabalhando, dando de seu tempo para amenizar os sofrimentos das pessoas que não cessam de nos procurar. Quanto à sua esposa, quem fez tudo pela recuperação dela foi a sua cunhada, pode crer. Cuidou dos exames, ministrou as doses corretas dos medicamentos, teve a paciência de aturá-la, ao ponto de, contrariando as convicções religiosas, trazê-la para receber as notícias que deram a vocês dois a condição de reatarem os laços esponsalícios. Por falar nisso, Dona Hortênsia não se interessou pelo Espiritismo?
— Está lendo O Livro dos Espíritos. De vez em quando, aparece lá em casa para discutir algum ponto com a irmã.
— Por que não com você?
— Depois que ficou sabendo das mensagens que venho escrevendo, está com medo de mim. É pena, porque poderia receber outras informações no campo da psicografia.
— Foi bom você ter tocado no assunto. Os diretores do centro estão preocupados com a afluência do público nos dias de doutrinação. Vocês três que têm escrito comunicações assinadas por gente conhecida estão ganhando projeção. É inegável que vêm sendo guiados por espíritos de certa categoria, os quais facilitam a filtragem dos pensamentos dos irmãos sofredores, porém, isso pode ser uma faca de dois gumes.
— Um belo dia a gente falha e a caridade da assistência vai sofrer o impacto da descrença do povo...
— Você pegou o espírito do temor que nos está enchendo o coração. Na verdade, seria melhor que vocês escolhessem entre não revelarem os nomes ou marcarem um horário à tarde, por exemplo, só para a captação dessas mensagens de conforto moral. Os riscos incidiriam mais sobre os médiuns e menos sobre o centro. Que é que você acha disso?
— Vou conversar com os outros para decidirmos em conjunto. Quanto a mim, para geral tranqüilidade e sossego, eu posso me abster de citar os nomes. Posso até parar com a mediunidade, porque me sinto muito fraco quanto aos aspectos teóricos da doutrina.
— A sua humildade, se levada em conta, vai pesar muito para que a decisão não seja o abandono da mesa evangélica. Não obstante, existe outro pessoal que deve ser ouvido: os guias do centro e os protetores dos médiuns. Vamos aguardar a manifestação deles.

Entre Saldanha e Pedro Otávio:
— O que o bom amigo Saldanha tem achado da ascensão espírita do casal que você orienta?
— Estou achando bastante devagar, porque me parece que a idade não vai permitir-lhes ganhos muito significativos na senda da instrução terrena. Falo mais especialmente quanto ao Plínio, porque tem de voltar-se para o sustento do casal, agora que a firma está iniciando. Por outro lado, temo pela hora em que os filhos vierem para o recrutamento deles.
— Você suspeita de que haverá choques de credos?
— Estou vendo que o Cleto está aguçando a mente, no sentido de tornar o seu discurso torcido e retorcido nos fundamentos bíblicos, em oposição declarada ao contato ostensivo com o nosso plano.
— Não foi Jesus quem disse que veio para separar as pessoas da família?! Vamos esforçar-nos por tornar a visão dos pais e dos filhos o mais pura possível, no entendimento das diretrizes cristãs. Você faz com que o casal abra um horário para o Evangelho no Lar. Eu me dedicarei, o quanto me permitirem os responsáveis espirituais pela organização religiosa, a levar os irmãos a observar os efeitos nocivos da miséria.

Entre Ari e seu médico:
— Como está o meu paciente hoje?
— Tenho passado muito bem, contando com o fato de que as drogas não me saem do pensamento.
— Você já superou as principais dificuldades. Agora, tem de fazer a manutenção do estado favorável à aceitação de seus familiares, mesmo quando se revela quem foram no passado e quais as vicissitudes que uns causaram aos outros. Quanto de mágoa você conseguiu eliminar, à vista das tristes recordações doutras épocas?
— Praticamente, não tenho nenhum rancor, contudo, sempre que me vêem à lembrança, sinto um desassossego que mal consigo controlar.
— Faça de conta que está em crise pela falta dos estimulantes químicos.
— É difícil!
— Mas não é impossível! Você tem momentos alegres para reviver? — Meu caro amigo, a sua presença é a minha felicidade. Não preciso, no entanto, que esteja comigo, para confiar em que, se precisar, irei tê-lo de imediato.
— Vou reformular a questão. Você deve ter consciência de que conheço muitos episódios de suas derradeiras encarnações. Por isso, elaborou a resposta em termos laudatórios. Vou me apegar às expressões pouco corriqueiras, de vocabulário até certo ponto refinado e de construções sintáticas não tendentes ao coloquial puro e simples. Você está sentindo que readquire a facilidade vernácula de alguma existência em que alcançou estudar o idioma, aplicando-a em favor de profissão ou atividade intelectual? Em outros termos, você está percebendo o quanto ultrapassou os limites impostos pela estultícia púbere da criança rebelde e viciada da derradeira passagem terrena?
— Tudo o que você me afirma, sou capaz de intuir, sem caracterizar direito. É que tenho muito medo de me haver aproveitado de faculdades mentais desenvolvidas com o objetivo de prejudicar outras pessoas.
— Pela análise de sua curta vida com o nome de Ari, não lhe fica evidente que...
O protetor não teve condições de prosseguir, porque o paciente mergulhou fundo na consciência, incapaz de reagir aos estímulos externos.



Fim da 1.a Parte




Não perca!

Na segunda parte de A Paixão de um Espírita, as personagens se moverão num plano de decisões espirituais mais agudas. Crescerão as perspectivas materiais e a defesa da vida e da liberdade dos filhos levará Plínio e Margarida a considerarem o Espiritismo sob um prisma doutrinário novo e muito mais abrangente. Novas figuras adentrarão na trama com o poder de transtornar as deliberações de um casal em litígio contra o destino. A luta pelo equilíbrio existencial prosseguirá e o desfecho será surpreendente.

O MÉDIUM

Wladimir Olivier nasceu em São Paulo, Capital, em 24.04.37. É Mestre em Letras pela Universidade de São Paulo, onde se licenciou em Letras Clássicas, tendo feito parte de seu corpo docente. É pedagogo pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras “Nossa Senhora do Patrocínio”, onde também lecionou. Aposentou-se em 89, como Diretor de Escola Pública, após haver também exercido as funções de Supervisor de Ensino.
Foi em Cabreúva, S. P., que recebeu as primeiras mensagens. Isto em 78. De lá para cá, residindo em Indaiatuba, S. P., desenvolveu sobremodo sua mediunidade, contando, neste ano de 98, com mais de oitenta obras psicografadas, entre mensagens de apoio moral, romances, contos, peças de teatro, novelas, temas doutrinários, testemunhos de dor e de amor e poesia variada.
Obras espíritas editadas:
O Aprendiz do Evangelho. Editora Mensagem de Esperança, Capivari, 96.
Do Ódio ao Amor. Editora São João, Bauru, 98.

A PAIXÃO DE UM ESPÍRITA


O amigo protetor desejava evitar que Plínio caísse em tentação e envidava esforços para que desconfiasse de que, apesar de simples, a transferência de valores da empresa para sua conta particular iria causar-lhe transtornos no futuro.
Plínio lutara por mais de vinte anos para obter a confiança dos patrões, alcançando um posto de prestígio mas de parca remuneração, segundo suas altas ambições.
“Fujo para o Nordeste, mudo de nome, faço operação plástica, abandono a família que está a devorar-me pelos pés, vou viver à larga, casas na cidade e na praia...”

Assim começa o enredo deste romance, que vai contar a paixão de um espírita, de sua luta moral, de seu envolvimento espiritual com os familiares, de seu crescimento doutrinário no seio do movimento espírita e de suas relações com a espiritualidade, onde se passa uma parte da ação.


Não perca a continuação!

Em Plínio: um Espírita Autêntico, as nossas personagens se moverão num plano de decisões espirituais mais agudas. Crescerão as perspectivas materiais e a defesa da vida e da liberdade dos filhos levará Plínio e Margarida a considerarem o Espiritismo sob um prisma doutrinário novo e muito mais abrangente. Novas figuras adentrarão na trama com o poder de transtornar as deliberações de um casal em litígio contra o destino. A luta pelo equilíbrio existencial prosseguirá e o desfecho será surpreendente.

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