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Roteiro_de_Filme_ou_Novela-->A PAIXÃO DE UM ESPÍRITA 2 -- 02/03/2005 - 06:47 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER
















PLÍNIO: UM ESPÍRITA AUTÊNTICO








918. Por que sinais se pode reconhecer no homem o progresso real que deve elevar o seu Espírito na hierarquia espírita?
— O Espírito prova a sua elevação quando todos os atos da sua vida corpórea constituem a prática da lei de Deus e quando compreende por antecipação a vida espiritual.
KARDEC, Allan — O Livro dos Espíritos. Trad. de José Herculano Pires. 1.a ed., Capivari, EME, 1996, p. 340.


















ÍNDICE


1. Todos progridem .............................
2. Fragmentos epistolares ......................
3. Encontro insólito ...........................
4. A mensagem furtada ..........................
5. Entrementes, no etéreo ......................
6. Cleto é chamado .............................
7. A portas fechadas ...........................
8. A comunicação por inteiro ...................
9. Ovídio ameaça retornar ......................
10. Os planos frustrados de Plínio ..............
11. Importantes decisões mediúnicas .............
12. Ari se instrui ..............................
13. Um grande susto .............................
14. De ceca em meca .............................
15. As decepções de Plínio ......................
16. Ari se habilita a auxiliar de socorrista ....
17. Plínio vai para o outro lado ................



Resumo da 1.a Parte

Plínio e Margarida têm três filhos: Anacleto, Ovídio e Ari.
Anacleto, perseguido pela polícia por suspeita de estar envolvido no tráfico de drogas, abandona o lar, indo tentar a vida em outra localidade.
Ovídio, que auxiliava o irmão no tráfico, sendo ainda dependente do vício é recolhido num instituto de correção de menores infratores.
Ari, o mais novo, morre de overdose e é recolhido numa colônia no plano espiritual, onde é internado para tratamento de afecções no perispírito.
Plínio perde o emprego e Margarida perde o juízo e, após muitas peripécias, eles se encontram num beco sem saída, pois o Espiritismo não lhes parece trazer uma solução adequada para seus problemas.
Passados dez meses...




1. TODOS PROGRIDEM

Um relato que abrange vários anos não pode privilegiar o roteiro de sucessos item por item. Claro está que houve, nos dez meses seguintes, muitos eventos importantes, muitas descobertas significativas, muitos percalços esclarecedores, arrufos, querelas, desentendimentos, como também se deram reconciliações preciosas, para a evidenciação de que os diversos integrantes de nossa comunidade dramática aprendiam a conviver.
Resumiremos, pois, para informar que Plínio e Margarida foram preenchendo os vazios dos cômodos, com móveis e utensílios novos, havendo dado certo o pequeno negócio que os três sócios encetaram. Até um carro de segunda mão, em excelente estado, veio estacionar em sua garagem.
No centro espírita, Plínio foi desenvolvendo a mediunidade, tendo deixado de escrever nomes famosos na atribuição da autoria dos textos. Aliás, muitas vezes, omitia a informação correta que lhe era fornecida pelo mensageiro, sempre que constatava que as lições poderiam servir a mais de uma família. Mas não se constrangia quando lhe pediam para escrever comunicações de suprema consideração e conforto.
Notável foi sua percepção de como fazer para captar com precisão os sentimentos e as idéias que lhe ditavam, de modo que não demorou para exprimir-se em linguagem coloquial ou formal, conforme exigiam os temas, de acordo com os gêneros. Inclusive, dava passividade bastante razoável para manifestações poéticas de caráter popular. Foi quando começou a ler os textos espíritas de feição mais literária, porque aspirava a escrever livros de contos ou mesmo romances. Nisto, porém, não punha muito empenho. Era simplesmente uma aspiração íntima, reflexo, com certeza, daquela mensagem a respeito dos herdeiros mediúnicos do Chico Xavier.
Moacir e Silvinho conferiram ao sócio mais velho todas as responsabilidades das decisões mais dificultosas, mas foram inovando no campo da eletrônica, instalando diversos aparelhos computadorizados, para se implementarem programas mais completos de contabilidade, no interesse de ampliação da área de atendimento, sem a contratação de muitos funcionários. Mesmo assim, a firma acabou precisando de mais cinco pessoas, tanto foi o prestígio comercial alcançado no campo da terceirização de serviços.
Bem mais tarde, vamos adiantar, os mesmos recursos foram levados ao centro espírita, de molde a facultar ao médium Plínio que dedilhasse o teclado para a escrita direta na tela do vídeo dos textos que recebia em particular. Dali para a impressora e desta para as mãos dos dirigentes da entidade era uma questão de minutos, de sorte que o controle da qualidade do serviço mediúnico não permitia desvios de conduta doutrinária. Quando as idéias avançavam em rota de colisão contra os ensinamentos de Kardec, Plínio analisava atento as recomendações dos mais experientes e dava sumiço nas composições menos confiáveis, selecionando e deletando definitivamente as ameaças ao bom desenvolvimento das tarefas espíritas daquele profícuo grupo de socorristas encarnados.
A história dessa harmonia interna entre os diferentes departamentos do centro também não aconteceu sem idas e vindas, sem contrariedades e sem ferimentos sérios no amor-próprio dos que se envolviam nas discussões, quando Plínio ainda estava imbuído de que o seu trabalho merecia a assistência superior dos guias espirituais da entidade terrena. Enquanto não se compenetrou de que os amigos do etéreo desejavam o progresso de todos os pupilos, através da conquista pessoal do conhecimento doutrinário, não admitiu estar sendo testado quanto ao teor das comunicações. Um dia, recebeu um texto completamente avesso a um ponto essencial de O Livro dos Espíritos, acrescentando nova lei ao decálogo mosaico e interpretação diversa aos princípios emanados diretamente dos mentores do codificador, de sorte que teve de convir que estava abrindo o coração de forma aleatória. Reconheceu que isso seria perigoso, se desse total credibilidade às informações. Foi assim que se pôs à disposição para os comentários dos colegas de mesa mediúnica e favoreceu as críticas dos espíritos que quisessem colaborar com os esclarecimentos necessários ao conhecimento da verdade. Continuou sonhando com os livros de contos e os romances mas colocou-os muito mais remotos na linha do porvir.
Margarida recuperou-se da debilidade mental, apesar de, no começo, voltar a apresentar algumas ligeiras crises, em especial por pensar muito nos dois filhos distantes. Ari não mais se manifestou no centro, mas a mãe adquirira cabal confiança em que fora perdoada de possíveis falhas na criação e educação do rapazelho, de modo que fixou a idéia de que, pelas informações espíritas, iria demorar para o filho reaver, se é que alguma vez tivera, o equilíbrio existencial.
Não colocava as coisas nesses termos mas caminhava celeremente para superior entendimento da lei de ação e reação, tanto que ajudava as pessoas no centro, nunca menos de duas horas a cada dia, havendo épocas de dedicação exclusiva.
O lar tornou-se para ela o refúgio das pressões sociais. O aparelho de televisão não se recuperou, o rádio não se apresentou de volta e até as reproduções fonográficas se resumiram às músicas selecionadas que se ouviam nos momentos de espera das atividades públicas, na casa de atendimento espiritual.
Tendo concentrado o interesse no empenho da colaboração fraternal, reduziu drasticamente as funções de cozinheira. Limpava os cômodos sem o antigo elã, apenas para manter o ambiente livre dos germes e da poeira. Com isso, podia manter o marido e a si mesma com o peso do tempo das vacas magras, sem nenhum esforço ou preocupação. Não corria, porém, o risco de cair de novo nas garras da anemia, porque Plínio estava atento para que a alimentação elegesse as vitaminas e proteínas como o prato mais saudável.
Um belo dia, mantiveram a seguinte conversa:
— Querida, se eu fosse buscar uma pizza...
— Nem pensar. Qualquer refeição que possa ser interpretada como de regozijo eu não aceito, não sem antes reunirmos de novo toda a família.
A reprodução acima pode passar aos leitores a falsa idéia de que ambos não se falavam muito. Não é verdade. Os diálogos eram freqüentes e substanciosos quanto às descrições de tudo o que ocorria na comunidade espírita. Enquanto Margarida dava ao marido as notícias dos eventos sociais, este a mantinha informada de todas as manifestações mediúnicas.
Referimo-nos a recaídas de ânimo. Isto aconteceu até que receberam a primeira carta de Anacleto.
Vamos saber, em lugar de ler a missiva, o que deu impulso à comunicação.
Cleto, durante algum tempo, percorreu várias sedes da igreja, repetindo o discurso de integração nos ideais religiosos da instituição. Sempre acrescentava um tópico ou outro que facultasse estremecimentos sentimentais. Um belo dia, no auge da descrição das desgraças da família, impôs-se a referência à perda de Ari, demonstrando, pelos dispositivos da argumentação, que o pequeno era prestativo e se esforçava por realizar tudo o que o mais velho pedia. Nesse diapasão, partiu para a atribuição da culpa do consumo das drogas a si mesmo, sem atenuantes de vulto, esquecido de revelar que o pai era um ausente e que a mãe queria o menino a realizar os serviços domésticos, faltando apenas colocar-lhe roupas de mulher. Referiu ao fato de Ovídio ter sido preso e à necessidade de ele mesmo escafeder-se, abrindo ao mais novo as portas ao vício sem freios.
Nessa altura do testemunho, como pedia o roteiro, deveria entregar-se às lágrimas compungidas do arrependimento. Entretanto, naquela oportunidade, feriu uma corda real de seu coração, impregnando-se a mente com a figura do irmão, como se estivesse presente no auditório, a olhá-lo, à espera da voz de comando para as atividades do tráfico. Bateu-lhe a saudade de frente, onda inesperada de emoções que o elevou acima do fundo arenoso, pondo-o a flutuar sem achar pé na narrativa que trazia decorada. Afogou-se quase no pranto vertido e precisou ser amparado pelos obreiros e pastores, que não desconfiaram da autenticidade do desempenho.
O povo se condoeu pelo sofrimento evidenciado e, naquele dia, obteve o índice mais alto de convencimento de que a conversão se dera por obra e graça de Jesus, sob as preces e rogos da congregação. Ovídio, no entanto, percebeu que Cleto estava verdadeiramente derreado, desenvolvendo ele mesmo um sentimento misto de saudade e de ternura pelo falecido.
Durante toda a semana, debateram os irmãos a respeito da novidade e chegaram à conclusão de que os pais, muito mais do que eles, deviam estar sofrendo com a perda do filho, atribuindo aos mais velhos a responsabilidade pelos acontecimentos funestos. Foi o que deu coragem a Cleto de escrever, pedindo-lhes que compreendessem o quanto os dois estavam magoados com os efeitos de sua ganância pelo tráfico e pelo vício. Não definiu, porém, qual era a sua função na igreja, mas deixou claro que estavam sob o amparo de Deus, sob o resguardo do egrégio corpo eclesiástico responsável pelas pregações da palavra sagrada do Senhor.
— De onde terá vindo esse egrégio? — perguntou Margarida a Plínio.
— Da mesma fonte que estimulou as palavras sentidas do arrependimento e do pedido de perdão. Não importa que tendência protestante esteja por detrás deles. Eu acho que, se estão afastados das drogas, devemos agradecer a Deus e aos espíritos amigos, porque, sem eles, com certeza, estariam com o irmão na erraticidade.
— Você acha que devemos responder, dizendo que Ari se manifestou no centro?
— Tudo o que for verdade deve ser dito. Se eles vão ou não acreditar, é outra história. O que está me dando medo é ficar mandando a correspondência em nome de Cleto ou de Vidinho. Vamos escrever para o endereço do remetente, do mesmo jeito que Cleto fez, ou seja, para o pastor Moisés.
Foi assim que começou a troca de cartas que redundaria num abraço de reconciliação, ao cabo daqueles dez meses a que nos referimos.



2. FRAGMENTOS EPISTOLARES

Em resposta à primeira missiva dos filhos, Plínio ditou e Margarida escreveu, entre outras coisas, o que segue:
“Sabemos que vocês não vão acreditar, mas a verdade é que Ari veio conversar com a gente, no centro espírita, dizendo que se arrependeu de ter tomado a droga que o desencarnou. Deus seja louvado!, porque, depois que ele se manifestou, nós pudemos reatar os laços do matrimônio e sua mãe, que estava morando com a tia Hortênsia, pôde voltar para casa perfeitamente curada.”
Eis um trecho da carta de Cleto, recebida dois meses depois:
“Eu e Ovidinho discutimos muito a respeito de poderem os que morrem voltar a conversar com os vivos e chegamos à conclusão de que isso é impossível, primeiro, porque Deus leva para o seu reino todos os que o fazem por merecer pelo esforço de realizar as obras do Senhor; segundo, porque os que não fazem nada que Jesus pediu, caem nas garras dos demônios, sendo arrastados para as profundezas infernais. Quem é que veio em nome do nosso irmão? Se fosse um padre católico quem respondesse, ia dizer que, se foi para o bem dos vivos, com certeza era um anjo ou arcanjo, como no caso relatado na Bíblia, quando se conta que José foi visitado em sonho pelo Anjo Gabriel. Nós não respondemos assim, porque não acreditamos que Deus precise das criaturas para realizar a sua obra. Quando disse que chorei muito porque me vi diante do Arizinho, no templo, foi por inspiração divina, que me envolveu em seu halo de amor, dando-me a bem-aventurança da revelação de que não me faltaria jamais. Foi a confirmação de minha fé na verdade do Cristo, nosso Senhor. Bendito seja Deus! Bendito seja o Espírito Santo! Bendito seja o Cristo Jesus! Quanto às palavras que vocês ouviram no centro, pensamos que tenham vindo da pessoa que falou, iludida com o desejo de transpor os limites da matéria, ansiosa por ser a intérprete da vontade de Deus. Pode ter sido muito pior, se foi enganada pelo diabo, o qual costuma freqüentar esses antros de necromancia. Mas não queremos ofender a sua crença, porque acreditamos que vocês estão sendo sinceros. Um dia, virão até nós e irão reconhecer toda a verdade. Em tempo: Ovidinho está estudando e logo vai terminar o primeiro grau.”
Plínio não havia dito nada a respeito de estar recebendo ditados mediúnicos com informações precisas a respeito de pessoas desconhecidas. Precisou, então, de toda prudência para os filhos não o acusarem de tratar diretamente com as forças demoníacas. Para isso, socorreu-se de Margarida, concordando ambos em que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Por isso, as explicações dos fenômenos ganharam aspectos mais doutrinários, pela reprodução adequada de alguns textos de Kardec. Fiquemos num trecho sem citações diretas:
“Se Deus tivesse criado seres destinados à maldade e, portanto, desde logo enviados aos sofrimentos eternos, não mereceria os atributos de infinita bondade e misericórdia que lhe reconhecemos. Sendo assim, não podemos acreditar na existência dos demônios, os quais, para nós, não passam de espíritos infelizes, pouco adiantados, de baixa categoria, que se regozijam ainda em fazer o mal. Ora, o espírito que trouxe a identidade do Ari não ofendeu ninguém. Pediu desculpas e rogou pelas preces dos pais, para que pudesse ser mais feliz, já que estava agoniado por causa do consumo suicida das drogas. Se fosse um ser maligno, teria causado apenas maiores desgraças. Ao contrário, ficamos confortados e serenos, do mesmo modo que vocês nos tranqüilizaram quando nos mandaram notícias tão auspiciosas, tão belas, porque nós achamos que vocês estão bem longe do tráfico e dos vícios. Por favor, Cleto, escreva a respeito e não se preocupe demais com o nosso interesse em servir à causa espírita.”
Eis os termos em que os filhos comentaram as apreciações anteriores:
“Vocês estão transformando as moradas do Pai em outros tantos mundos parecidos com este em que vivemos. Do jeito que colocam a existência depois da morte, é como se não valesse a pena ter feito de tudo para cumprir os desígnios do Senhor. As pessoas vivem, depois morrem, renascem, vão para o cemitério e vão criando dezenas de novos corpos, de forma a causar o maior problema na hora da ressurreição, ao final dos tempos, para o juízo final. Quem é que herdará a terra? O que é mais incompreensível é que os espíritas dizem que umas vezes nascem como homens, outras, como mulheres, faltando apenas confirmar que um dia foram cães, macacos, árvores ou montanhas. Aliás, um dos pastores convertidos do Espiritismo para a nossa Igreja nos disse que essa idéia é corrente entre os adeptos dessa religião. Nós queremos que nos perdoem a insistência, mas é que gostaríamos que nós fôssemos todos juntos habitar no reino do Senhor, porque estamos cada vez mais cônscios de que lhes devemos a glória da eterna felicidade, uma vez que nos deram a oportunidade da vida. Que as bênçãos de Deus abram para as suas mentes as portas da compreensão, da mesma forma que nos favoreceram os sentimentos do mais puro afeto!”
Plínio, pela referência ao pastor, deduziu que os filhos estavam sendo orientados de maneira específica para as refutações aos cânones doutrinários do Espiritismo. Escreveu a missiva seguinte quase sem consultar a esposa, reservando a esta a parte final, para que dissesse o que bem entendesse. Eis um excerto de cada um:
“Notei, queridos filhos, que o teor de sua argumentação privilegiou certa postura azeda, áspera, inconveniente, em relação aos irmãos de nossa fé. Não vou responder aos seus dizeres, mas quero saber com que corpo vocês pensam que vão passar a eternidade, depois daquilo que vocês chamaram de juízo final. Será, vejam bem, que as moléculas que estão na composição de suas carnes já não pertenceram a outros indivíduos ou criaturas vivas? Meditem sobre isso.”
“Como mãe, não creio que vocês iriam admitir outro destino para nós, prevendo que uns vão para o céu e outros para o inferno. Pela tese espírita, todos nos reuniremos, sempre e inexoravelmente, no reino de Deus, porque teremos quantas oportunidades forem precisas para aprendermos a ser perfeitos. Uma só vida não lhes parece insuficiente para um crescimento santificado pelas virtudes fundamentadas nas prescrições das leis universais?”
A correspondência de Cleto foi quase um bilhete:
“Eu confessei que estou recebendo ajuda de um companheiro entendido em Espiritismo. Duvido que vocês tenham alguém ao seu lado que debandou da nossa congregação. Mas tenho de admitir que me sinto orgulhoso ao ver que meus pais estão preocupados com os assuntos da vida e da morte. Acho que é meio caminho andado para receberem as dádivas do Senhor.”
O elogio comoveu o casal, de modo que, na carta seguinte, ponderaram:
“Nós temos lido com muita atenção o livro de Kardec O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trata-se de uma obra que desperta para a necessidade de se fazer o bem, de se manter o pensamento elevado e os sentimentos sob controle da razão, ao mesmo tempo que explica os pontos da moral evangélica. Refletimos sobre tudo o que vocês escreveram até agora e percebemos que estão empenhados em aprender como ganhar o seu lugar no paraíso. Talvez — vejam bem que se trata de uma hipótese — talvez vocês estejam desejosos de subir dentro da hierarquia religiosa, para o que estão esforçando-se em apresentar as razões bíblicas fundamentadas em dogmas de fé que não aceitam discussão. O Espiritismo não deseja magoar as pessoas; apenas quer vê-las progredir. Para isso, é imprescindível que tomem consciência de que todos somos filhos de Deus, o qual distribui igualmente o seu amor infinito por todas as criaturas. Sendo assim, a nossa doutrina não estabelece pontos que não possam ser apreciados, discutidos e postos sob o crivo da razão. Isto quer dizer que o Espiritismo não admite qualquer dogma. A bem da verdade, este desenvolvimento nós redigimos depois de conversar com um amigo do centro espírita acostumado a realizar conferências, o Doutor Ariovaldo, cujos conhecimentos são sempre um estímulo para os estudos e instruções da comunidade.”



3. ENCONTRO INSÓLITO

A correspondência foi interrompida por Anacleto, porque percebeu que não desejava ceder aos argumentos dos pais e viu, com clareza, que estes também não dariam o braço a torcer. O principal, que era a descrição de suas vidas, estava revelado.
Um belo dia, ou melhor, uma noite, sem prévio aviso, os irmãos vieram visitar os pais, encontrando-os, por indicação de Dona Antonieta, no centro espírita.
Ovidinho e Cleto tiveram excelente desculpa para conhecerem o ambiente freqüentado pelos pais, não sem solicitarem a proteção de Deus, para que fossem afastados os demônios.
Era noite de palestra de Ariovaldo, de modo que foi possível a Plínio conduzir os filhos até a parte dos fundos, onde Margarida ajudava na preparação do lanche a ser distribuído aos sem-teto dos arredores.
Margarida não derramou lágrima nenhuma, mas abraçou ambos os filhos, falando-lhes com ternura da saudade que a vinha maltratando.
Foi Ovidinho quem abriu o jogo:
— Mãe, preciso que você saiba que me arrependi por tanto sofrimento que lhes causei. Quando me pego pensando nos palavrões que disse, sinto um nó tremendo na garganta...
— Vidinho, essas águas não movem moinho, porque já passaram. Agora você está outro, estudando, trabalhando, ajudando o Cleto e a sua igreja...
Foi a vez de Cleto:
— Ele está fazendo o melhor que pode, mas ainda está procurando certas companhias muito ruins. Os pastores já me disseram que ele não deve ir aos bailes da perversão...
Plínio interveio:
— Mas ele está na idade. Se não fizer isso agora, nunca mais.
Cleto explicou:
— Eu não sou contra. Apenas acho que está correndo sérios riscos, porque a droga corre solta e ele já deve ter cedido algumas vezes...
Ovídio observou:
— Por que não vamos conversar em casa? Acho que aqui o ambiente não é apropriado...
Na verdade, Plínio e Margarida estavam aflitos, com as pessoas incomodadas pelas declarações que anunciavam iminente conflito, contudo, não foram embora, uma vez que Plínio fazia questão de apresentar os moços aos companheiros mais chegados.
Não conseguiu arrastá-los ao salão da conferência, mas alcançou que visitassem o prédio, mostrando-lhes a sala de costura, a biblioteca, algumas salas de reuniões, vazias no momento, a despensa, ao lado da cozinha, a secretaria e os livros contábeis, o depósito onde se guardavam os volumes a serem expostos nas feiras, para a venda ao público, e a pequena tipografia, para a impressão do boletim mensal, com os artigos dos próprios diretores, a prestação de contas e as notícias de praxe das programações fixas e ocasionais. Sobretudo, queria tornar evidente que as pessoas trabalhavam com muita alegria, constituindo aquela sociedade uma verdadeira família, onde todos se dedicavam ao próximo.
Quando encerrou a exposição, Ariovaldo fez questão de abraçar ambos os jovens, perguntando, sem peias na língua:
— Vocês abandonaram as drogas e o tráfico, definitivamente? Eu pergunto isso porque nós mantemos um serviço de assistência e de esclarecimento a viciados e suas famílias, com pessoal especializado, podendo, se preciso, encaminhar aqueles em pior estado para clínicas de desintoxicação. Pena que não deu tempo de salvar o seu irmão Ari, que se encontra bem numa colônia no plano da espiritualidade, conforme os nossos guias nos têm informado.
Cleto sentiu o aguilhão das provocações e redargüiu:
— Doutor Ariovaldo, nós sabemos que o Senhor está a par de nossa confissão como membros de uma igreja que não admite o relacionamento entre vivos e mortos. Por isso, estranho que esteja falando nesses termos conosco. Para não ser acintoso, eu lhe peço que deixe essa discussão pendente.
Ariovaldo não quis dar-se por vencido por aqueles jovenzinhos atrevidos e se dispôs a enfrentá-los:
— Sei que vocês não irão recusar um presente que espero venha a ser útil, ainda que para lhes fornecer material contra que investir em suas pregações.
Ato contínuo, pegou na estante um exemplar de O Livro dos Espíritos e outro de O Livro dos Médiuns e deu um para cada um, anotando:
— Vocês não precisam acreditar em nada do que está escrito. Nós mesmos partimos do princípio de que crer sem raciocinar não é o caminho para a verdade. Por isso, quando não entendemos certas passagens, levamos os problemas aos nossos grupos de estudos, onde discutimos até que a luz se faça.
Enquanto Ovídio se deixava empolgar pela simpatia e pela coragem do médico, Cleto punha-se de orelhas em pé, para a percepção de como satanás trabalha para captar os incautos que se julgam protegidos por seres de outra dimensão. Insistia em pensar que era assim que se criavam as ilusões e se construíam os monstros mitológicos. Nenhum dos dois, porém, disse mais nada além de simples agradecimentos.
Plínio e Margarida tinham os corações apertados, porque sabiam do poder de resposta dos filhos. Se ficassem irados, iriam causar problemas. Mas, como não notassem nenhuma rebeldia à flor da pele, muito se admiraram por aquele desconhecido controle emocional.
Retirando-se Ariovaldo, vieram Silvinho e Moacir para as apresentações. Estes fizeram questão de demonstrar que o escritório do trio ia de vento em popa, graças à atuação emérita do presidente da sociedade. E se despediram, porque estava na hora da distribuição da comida e dos agasalhos.
Foi de Silvinho o convite:
— Vocês não querem ir com a gente?
Plínio falou por todos:
— Nós gostaríamos, mas faz tanto tempo que não nos vemos...
— É justo. Fica para outra hora — reconheceu Moacir.
Cleto não quis ficar por baixo:
— Na nossa igreja, fazemos mutirões de ajuda aos marginais, duas vezes por semana, distribuindo comida, cestas básicas, roupas e brinquedos. A humanidade está precisando de pessoas que pratiquem o amor que Jesus ensinou.
Ao passarem pelo corredor que levava ao auditório, Ovídio interessou-se pelo quadro de avisos, enquanto os demais foram conhecer o salão das conferências. Foi assim que o rapaz pôde constatar que Plínio omitira o fato de estar trabalhando muito ativamente junto às entidades espirituais, porque estavam ali duas mensagens assinadas, com a clara indicação dos médiuns. Numa delas, lia-se o nome do pai. Sorrateiramente, como se estivesse a pregar alfinetes, sem que ninguém percebesse, furtou a folha, guardando-a no bolso do paletó.
— Temos de voltar ainda hoje — informou Cleto.
— Vocês precisam dar uma passadinha em casa, para ver como é que estamos pondo tudo em ordem. Vocês sabiam que eu vendi quase tudo?
— Você mencionou numa das cartas.
— Espero que não fiquem espantados. Vamos até lá, a mãe faz um cafezinho e depois vocês vão embora. Estão de carro?
— Com chofer e segurança, porque o Bispo Moisés fez questão que tudo desse certo.
Margarida logo deduziu:
— Se eles contarem para onde vocês vieram, o bispo não vai reclamar?
— Depende do que a gente disser.
Plínio desejou fazer a interpretação:
— Entendi. Vocês vão dizer que tudo o que viram está errado e vão poder discutir com os outros...
Cleto foi mais longe:
— Nós vamos dizer que viemos convidar nossos pais para ingressarem em nossa igreja e que eles quiseram demonstrar que a verdade se encontra no centro espírita.
— Mas isso não está certo!...
— Claro que está, ou vocês aceitam ir amanhã a um de nossos templos? Vão dizer que não. E por quê? Porque acham que a verdade está com o Espiritismo. Não é óbvio?
O restante da viagem deu-se em silêncio, até que os dois carros pararam na frente da residência da família. Enquanto Plínio manobrava, Margarida foi entrando com os filhos. Em seguida, o marido foi convidar os dois acompanhantes para entrarem, mas estes gentilmente recusaram o convite, afirmando que tinham ido tomar um lanche no bar, enquanto esperavam perto do centro.
Assim que Plínio chegou de fora, Ovídio disparou:
— Que coisa, hein, pai! Você deu sumiço em quase tudo.
— E o dinheiro apurado entreguei ao sujeito que você mandou aqui para fazer a tatuagem. Esqueceu?
— Mas eu empreguei aquela quantia bem melhor. Se não fosse isso, hoje eu estava ainda atrás das grades.
Margarida queria mostrar as novidades:
— Vejam que nós pintamos, nós mesmos, todos os cômodos, enquanto o seu pai não montava o escritório. A sala está vazia mas está limpa, pronta para receber os móveis, assim que o dinheiro der. O nosso quarto está completo, até com alguma roupa nos armários.
Cleto se interessou pelas notícias:
— Quer dizer que o pai deu cabo de tudo, mesmo?
— Algumas coisas foi o Ari quem vendeu. Aquela foi a droga que o levou de nós — informou a mãe.
Ovídio quis saber do dormitório dos meninos:
— Quero ver como está o nosso quarto.
Plínio passou o braço por sobre os ombros do garoto e o conduziu até lá:
— Depois que a polícia levou toda a droga que encontrou...
Não prosseguiu. A dependência encontrava-se totalmente vazia, com uma porta nova nos fundos.
Deu a impressão a Ovídio que o pai lhe fazia uma cobrança. Não teve dúvida em esclarecer:
— A bobeira foi minha. Deixei de manhã; à noite, veio a batida. Nem Cleto nem Ari sabiam de nada. A mãe sempre limpava o quarto e, naquele dia, estava tudo em ordem. Pensei que não tinha importância.
Foi Cleto quem interrompeu as confissões:
— Que porta é aquela?
O pai foi até lá, abriu-a e mostrou um novo banheiro:
— Transformamos o quarto em suite. Vocês estão verdadeiros homens. Se vierem visitar a gente, vão ser recebidos com as regalias de hóspedes. Se quiserem voltar a morar aqui...
Cleto foi pondo um fim na conversa:
— Vai ser muito difícil, porque a polícia está atrás de nós, principalmente do carinha que atacou o delega. Mas onde estamos está muito bom. Vocês sabem que o Vidinho mora no templo? Ia ficar uma semana, está lá faz quase um ano.
— O que é que viram nele?
— Presta todo tipo de serviço, desde comprar coisas até distribuir panfletos, levar convites, escrever cartas, receber pessoas que desejam conversar com os pastores e bispos etc. Por isso é que estão de olho nele, quando vai aos bailes, às festinhas de embalo...
Ovídio protestou:
— Você tem futuro, porque fala com desembaraço e o povo gosta do seu tipo. Pai, sabe o que acontece nos dias em que ele dá o seu testemunho? As cestas se enchem muito mais de contribuições. Isso é fundamental.
Cleto não gostou da revelação:
— As pessoas dão porque querem. Não é o que acontece no centro espírita?
Chamado à discussão, Plínio livrou-se logo:
— Na casa espírita, ninguém paga o dízimo, nem por livre iniciativa.
Cleto viu um rico filão:
— E de onde vem o dinheiro? Cai do céu?
— Mais ou menos. Você recebeu um boletim. Leia com cuidado para saber de onde vem o ativo. Verá que o principal é de uma pequena verba do governo. As contribuições dos sócios são pequenas e cada um dá quanto quer. Muitas vezes, precisamos fazer campanhas, porque a venda de livros não é grande Mas tudo isso está escrito. Leia. Você vai ver que não temos grandes ambições.
— E quem paga os diretores e funcionários?
— Os diretores e todo o pessoal que ali trabalha são voluntários.
— Ninguém recebe nada por fora? Não há desvios de verbas?
— Talvez isso possa acontecer em alguma instituição mal informada quanto às recompensas e castigos do carma. Em nosso centro, Moacir e Silvinho trazem tudo muito bem contabilizado.
— E o caixa dois?
— Não existe nenhuma contabilidade fora dos estritos mandamentos da moral cristã nem das leis humanas.
— Por isso é que vocês são tão pobres...
— Quanto às riquezas da matéria, estou de acordo. É que fazemos questão das riquezas do céu, aquela que a ferrugem não corrói... Complete!
— Os ladrões não roubam...
— Foi você quem disse. Mas, se você pensa que vou perguntar a respeito das finanças de sua igreja, está muito enganado. Para nós, cada um deve cuidar e muito bem de seu próprio progresso. Basta que Deus seja por todos os seus filhos.
Tendo escapado das denúncias do irmão, Cleto se enroscou nas virtudes do pai. Mas não se deu por achado:
— Se é para citar, você deve ter lido a passagem daqueles que receberam em dobro os talentos que aplicaram. Existe também os que semearam em bom terreno, tendo colhido trinta e mesmo cem por um. É nas Escrituras Sagradas que haurimos os dons, as bênçãos e o amor de Jesus, do Espírito Santo e do Pai.
Plínio não quis ir adiante, contente pelo rumo dado pelo filho aos pensamentos, rechaçando tacitamente o tráfico e os entorpecentes. Por isso, apenas agradeceu mentalmente, enfatizando o término da oração:
— Graças a Deus! Amém, Jesus!



4. A MENSAGEM FURTADA

Ovídio estava curioso para conhecer a página que apanhara no centro. No entanto, esperou estar sozinho para não receber a censura de Cleto. Por isso, somente quando se viu trancado no quarto é que pegou a folha, onde leu:

Graças a Deus, estou de volta! Muito obrigado, meus filhinhos, por darem ouvidos a este velho amigo, respeitando a minha mensagem anterior. Quanto aos nomes, não dêem importância a eles, mas prestem bastante atenção aos dizeres.
Hoje vou contar-lhes uma história verdadeira, dos meus tempos de juventude. Certo dia, estando a sós com Jesus, perguntei-lhe:
— Rabi, se o Pai nos recebesse em seu reino de glória, que palavras destinaria a nós?
O Nazareno, lançando sobre mim aquele olhar complacente que reservava aos discípulos ignorantes, respondeu:
— Diria, simplesmente: “Sede bem-vindos, queridos filhos, à bem-aventurança!”
— Não diria nada mais?
— Que mais poderia dizer: “Eu vos perdôo!”? Não está implícito, na festiva recepção, que todos os pecados estão perdoados?
— Ele não nos abençoaria?
— Que maior bênção existe além de nos agasalhar em seu seio de amor?
— Não perguntaria nada sobre nossos sentimentos?
— Que poderá existir no Universo que Deus não saiba?
Naquele dia, entendi que Jesus sabia muito mais do que estava ensinando ao povo, nas parábolas, e aos discípulos, reservadamente.

Ao final do texto, um simples nome: João; e uma indicação: Médium: Plínio.
Ovídio repetiu a leitura mais duas vezes. Seu maior desejo foi sair correndo atrás do irmão, porque lhe parecia que a mensagem continha uma profecia.
Foi assim que, no dia seguinte, debateu o tema com Anacleto:
— Eu acho que fiz uma coisa que você vai reprovar...
— Não posso reprovar nada que a sua consciência já não tenha apontado como errado, senão você não estaria falando comigo assim. Mas vá dizendo logo o que foi.
Ovídio percebeu que lhe despertara o interesse.
— Ontem, tirei do quadro de avisos do centro espírita uma folha escrita por nosso pai.
— E daí?...
— Daí, nada! É que eu acho que ele não disse tudo o que se passa lá dentro.
— Você vai ou não vai me mostrar o escrito?
Plínio deu-lhe o papel meio amarrotado, que foi lido incontinênti. Cleto, à medida que tomava conhecimento dos dizeres, passou de um riso franco a um ar de extrema seriedade.
— Que é que você acha disso? — foi logo Ovídio querendo saber.
— Ridículo e absolutamente preocupante.
— Não entendi...
— Eu explico. Este nome que está aqui embaixo só pode referir-se ao Apóstolo e Evangelista João. E aí está a graça. Será que alguém é tão ingênuo que se julgue capacitado a receber avisos enviados de dentro do Reino do Senhor? Pois o Espiritismo acha que sim. Como é que eu sei? Não precisei ler muito o livro que recebi, aquele que trata dos espíritos, para encontrar lá...
Cleto abriu a pasta, retirou o volume e procurou o ponto, indicando ao irmão:
— Veja aqui, logo nos Prolegômenos, “São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, O Espírito de Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg etc. etc.” Se o nosso pai leu este livro, reparou logo no primeiro nome citado. Só faltou escrever São João, porque a referência ao apóstolo se contém na mensagem.
— E o que tem isso de engraçado?
— Eu acho que o demônio encontrou um servidor ignorante e está pondo para quebrar em cima da ingenuidade do velho. O mais interessante é que essa folha você disse que retirou do quadro de avisos. Sendo assim, todo mundo deve estar sendo logrado numa só jogada. E ainda acham que estão recebendo espíritos puros, santificados e glorificados...
— Não me deu vontade nenhuma de rir.
— Vidinho, você não está achando ridículo, porque acreditou que seria possível que o nosso pai merecesse tamanha honra. Sendo assim, foi logo vendo que o velho está sendo abençoado.
— Abençoado não sei se está. Veja a data. Faz uma semana que o texto foi escrito.
— Certo. E qual a conseqüência que você tira disso?
— Ele foi avisado que a gente ia visitá-lo. Veja como é que Deus recebe os dois: — Sejam bem-vindos, queridos filhos, à bem-aventurança.
— Você quer dizer que Jesus e João somos nós dois e que o Pai é o nosso pai?
— Essa é a idéia.
— Interessante. Não vou dizer que não. Mas será que o demônio não podia soprar a mesma coisa, fazendo-se passar por João?
— Aí você me pegou. Bem podia ser ele. Por que, então, os espíritas não viram que estavam sendo enganados?
— Quem está nas mãos do maligno quase sempre nem sabe disso, principalmente se estão achando que estão felizes. Um dia, chega a desgraça dos vícios, dos crimes, dos desastres financeiros, das doenças, dos acidentes, da morte na família, e eles descobrem qual era a verdadeira intenção do diabo. É aí que correm para as igrejas, pedindo ajuda, querendo amarrar os espíritos infernais.
Ovídio abanava a cabeça não concordando com algo, mas não sabia expor direito a sua intuição. Finalmente, apenas para dizer alguma coisa, observou:
— Sem contar o fato de que a história ninguém comprova, o que há de errado naquilo que está escrito? Deus...
— Para começar, usaram do santo nome do Senhor, o qual deveria você mesmo resguardar, como está escrito na Bíblia. Depois, é importante saber que tudo o que os mortos falam pode ser inventado por qualquer um. Eu não acho que o nosso pai fez isso. Acho que passaram a perna nele. Sendo assim, ele foi iludido e todo aquele povo que acreditou na mensagem apócrifa (significa: de mentira).
— Cleto, você quer dizer que o demônio é capaz de ditar uma página cheia de verdades, cheia de pensamentos positivos, para levar os homens a pecar?
— Exatamente isso. Sendo assim, ninguém pode aceitar nada que venha de uma pessoa de carne e osso, na pressuposição de que as coisas estejam sendo controladas por Jesus. Tudo tem de vir do Senhor, que se revela aos corações dos homens arrependidos, conforme tantos testemunhos que são dados no templo.
Ovídio estava meio aturdido com o discurso do irmão, não tendo mais nada para opor, acreditando vagamente que deveria oferecer resistência às assertivas de que Jesus viria aos homens e João Evangelista, não. Calou-se, fazendo questão de receber de volta o papel que o irmão ameaçava destruir.
— Cleto, eu cometi um ato desonesto. Preciso devolver ao pai. Vou pôr no correio, com um pedido de desculpa.
— Não seja bobo, Vidinho! Nesta hora, ele já colocou outra folha no quadro. Essa bobagem aí foi impressa.
Por um esforço de memória, Ovídio visualizou o quadro de avisos, recordando-se de um lembrete logo abaixo da folha:
— É verdade. Estava escrito que havia cópias das mensagens na secretaria.
Mesmo assim, logo depois do almoço, escreveu a Plínio, explicando o sucedido e pedindo permissão para permanecer com um xerox que providenciara.



5. ENTREMENTES, NO ETÉREO

A recuperação de Ari estava sendo bastante lenta, mas de acordo com o roteiro socorrista do hospital que o agasalhava.
Tivera o jovem diversos diálogos com o orientador, com a finalidade de se pôr completamente a par de onde estava, do que sofria e do tratamento mais adequado para levá-lo a um estado de consciência superior.
À época da visita dos irmãos aos pais, capacitara-se a perceber sua história pretérita anterior à derradeira encarnação, de modo que foi capaz de observar suas próprias reações perante os acontecimentos de duas passagens terrenas e as conseqüências funestas das crises de rebeldia.
Entretanto, não punha muito sentido no fato de estar merecendo especial atenção, justamente depois de haver comprometido os votos de realizações proveitosas na Terra, à vista do suicídio involuntário, por meio de excessos facilmente previsíveis, levando em conta que estava dotado de suficiente inteligência para saber que aquela dose de drogas causaria a morte.
Esse tópico o levou a inquirir do amigo uma série de elementos. Começou por perguntar sobre a novidade da ajuda:
— Doutor Edgar, por favor, esclareça-me quanto ao fato de estar fazendo jus a tanta consideração.
— De maneira geral, Jesus recomenda que sejam atendidas as solicitações de cura, desde que haja verdadeira fé e sincero arrependimento.
— Quando foi que demonstrei essa fé que salva e esse remorso que reverte as condições dolorosas da existência?
— Primeiro, não há necessidade de que se expressem os sentimentos por meio das palavras. O que importa é o que o indivíduo pensa e como vê os próprios atos. Você, ainda imerso na carne, inconsciente para o sensório mas desperto para a percepção da tremenda falha, pôs, figuradamente, as mãos na cabeça, em sinal de desespero, comprovando que renegava o gozo material que buscara nas drogas. Recorda-se disso?
— Vagamente, porque são muito nebulosas as recordações em que me encontrava sob o efeito da alucinação. Aliás, como é que posso compreender o fato de ter tido a noção do erro, sem a correspondente lembrança extracorpórea?
— Boa pergunta. Não sei se estou apto a dar explicações científicas. No entanto, é preciso saber que há íntima correlação entre perispírito e corpo físico, enquanto existe vida. O cabedal de memória se registra em áreas do cérebro dos encarnados, nas fibras nervosas do corpo espiritual e, o que é o mais importante, vai constituindo a soma existencial do próprio espírito. Está muito complicado para você?
— Bastante. Se existem três setores de impregnação da realidade vivida, em que se distinguem entre si?
— No corpo físico, fixam-se os roteiros que dão sustentação fluídica à vida. Por isso, a pessoa não tem de prestar atenção nos processos do parassimpático, ou seja, na vida orgânica ou vegetativa. Você já pensou se precisasse deliberar conscientemente para cada contração dos diversos sistemas, como o linfático, o límbico, o sangüíneo etc.? Um toque involuntário em algo quente faz o cérebro reagir quase de imediato, na defesa dos tecidos atingidos. Até aqui tudo bem?
— Acontece que a gente armazena no cérebro inúmeras informações adquiridas pelos raciocínios e não só as extraídas através dos cinco sentidos. São essas reminiscências que passam para o perispírito? Não fica nada preso ao cérebro material?
— Alguma vez você se dedicou a refletir sobre esse sistema tríplice de memória?
— Deveria recordar-me agora de tê-lo feito?
— Analise a sua última frase. Poderia dizer que a construção dela foi assimilada na sua pouco mais de uma década de vida?
— Eu já entendi que estou reavendo as condições intelectuais de algumas vidas anteriores em que me atrelei ao saber acadêmico e jornalístico. Então, devo deduzir que aqueles ganhos através dos raciocínios se dispõem de modo definitivo no perispírito?
— Quase isso. Na verdade, muitos conhecimentos se perdem com a deterioração do cérebro. Imaginemos que você tivesse lido centenas de livros. Todos os parágrafos ficaram impressos em sua mente, isto é, na soma do cérebro, do perispírito e do espírito. Por processos psíquicos avançados, com ou sem ajuda de produtos químicos ou de processos físicos, sempre há, enquanto o sujeito está encarnado, a possibilidade de fazê-lo regredir à época das leituras, de forma que, em estado hipnótico, quase todas as pessoas têm o poder de reproduzir, linha a linha, tudo o que leram.
— Para mim isso é novidade quase absoluta, embora suspeitasse de que para uns existe maior facilidade que para outros, de acordo com os dotes mnemônicos de que estão dotados. A recordação completa não constava de minhas excogitações. Mas não me venha dizer que o perispírito não poderá passar pelo mesmo procedimento de reconstituição completa dos eventos carnais...
— O espírito comanda o fluxo das recordações úteis do ponto de vista do mundo em que se situa na atualidade. Dessa forma, preserva na memória do perispírito todos os elementos catalogados para futura aplicação, quando do regresso à carne. Caso notável é o dos interesses sentimentais, porque todos os agravos e desagravos são mantidos incólumes, para o ressarcimento dos débitos, em tempo hábil. Outros fatores são resumidos em forma de habilidades, de sorte que, quando reencarnados, os espíritos readquirem os conhecimentos cada vez com maior facilidade e destreza, como se pode exemplificar com as crianças superdotadas ou precoces, que aprendem sem esforço.
— Não é uma questão de constituição do cérebro, no qual os neurônios e os outros elementos físicos e químicos se ajustam para uma realização diferenciada?
— Aí entra o mérito dos seres mais evoluídos, que recebem o apanágio de uma família geneticamente favorável, para a herança dos bens que ele mesmo acumulou.
— Essa observação, mutatis mutandis, serve para todo o mundo.
— Certamente. Mas falta explicar a parte reservada ao espírito, quanto ao que lhe interessa recordar. Aqui é que sinto maior dificuldade, porque o desenvolvimento ou evolução das entidades vai tornando cada vez mais complexos os sistemas inerentes a esse fulcro sagrado da criação. Pela rama, porém, posso assegurar que, sem sombra de dúvida, as virtudes são o maior bem resguardado no âmago dos seres, sem nenhuma necessidade de rememoração dos entreveros, das injustiças sofridas ou praticadas, dos males vivenciados, dos desastres e das desgraças. Para que o indivíduo ganhe a condição de passar para uma esfera menos densa materialmente, mais apurada quanto aos fluidos cósmicos, quintessenciada moralmente, é preciso que possua em si os fatores da felicidade, os quais se toldariam pelas lembranças dos sofrimentos. Sobem um degrau na escada evolutiva mas seu esforço lhes credita a compreensão de que estes vales de expiações e de provas são absolutamente necessários para a depuração. A lembrança de que Deus é misericordioso e cuida de todas as criaturas com o mesmo zelo e amor completará o quadro da memória do espírito. Se você quiser acrescentar mais alguma coisa, esteja à vontade.
Ari estava extasiado com o campo dos conhecimentos que se abria à sua inteligência. Sopesou as informações que o amigo Edgar forneceu, para constatar que nem tudo se fixara em sua memória perispirítica. Foi quando percebeu que a memória do corpo físico não estava fazendo falta.
Edgar sorriu com as reflexões do pupilo, deixando-o embasbacado com a possibilidade da comunicação através do pensamento. Precisou enxugar algumas lágrimas fluídicas, tanta foi a emoção de se ver mais distante daquela pessoa tosca e retardada da última peregrinação terrena.



6. CLETO É CHAMADO

O Bispo Moisés, tendo notado que Anacleto desempenhava com real responsabilidade a função doutrinária através dos testemunhos, conhecendo que o jovem percorrera a maioria dos templos, aperfeiçoando o roteiro de sua participação, sem acrescentar nada que pudesse ser acoimado de inverdade, a não ser certa cristalização das emoções pelos gestos dramáticos obrigatórios, quis saber como é que reagiria o discípulo em condições bem mais sérias. Por isso, sondou-o para ver se lhe havia crescido a ambição de servir a Igreja.
— Anacleto, você vai ter de deixar o seu emprego, se quiser dedicar-se à pregação da palavra do Senhor. Quer correr o risco de perder o coração de sua amada?
— Querido Bispo, Aurélia está destinada a ser minha esposa. Timóteo, praticamente, já abençoou a nossa união, passando-me a tarefa de gerenciar, na qualidade de ajudante, a rede de farmácias. Faz um mês que estou aprendendo com ele tudo o que se refere às compras, vendas e margens de lucro, inclusive quanto aos funcionários.
— Vejo que você conquistou a confiança do homem. Parabéns! Isto quer dizer que o sacrifício que vou pedir-lhe cresce em importância. Indo direto ao assunto: quero vê-lo pastor, à frente do público, levando a interpretação bíblica a bom termo, segundo os princípios que a nossa religião considera os mais adequados para captar e manter a fidelidade das pessoas que nos procuram.
— Bispo Moisés, venho estudando o desempenho dos pastores e tenho alguns sermões...
— Não use jamais essa palavra. Você vai ter de aprender que certas expressões estão interditas, porque lembram os padres católicos.
— Perdão, achei que entre nós não houvesse restrições. Vou me lembrar sempre disso.
— Não se preocupe, porque temos um plano para os novatos, que recebem instruções minuciosas à medida que vão se juntando ao grupo dos expositores. Normalmente, eu lhe pediria para estagiar como voluntário, com a remuneração básica, no auxílio dos cultos, como servente ou obreiro. Mas, como vi que você alcança alto índice de simpatia, convencendo as pessoas de que sua palavra é honesta, é convicta, brota do fundo da alma, apresentando muita facilidade em expor os pensamentos, logo imaginei que a sua juventude irá dar o toque de emoção e de sublimidade capaz de cativar o auditório. Seria, por isso mesmo, um desperdício de tempo obrigá-lo a permanecer na retaguarda, conforme anteriormente lhe propus, auxiliando na composição das palestras bíblicas. Vamos impô-lo à comunidade como um fenômeno de precocidade, declarando explicitamente que você foi chamado pelo Senhor, o que é verdadeiro, se considerarmos a perspectiva de sucesso. Se falhar, se não se der bem, se tremer na base, se virmos que o saco está furado, saberemos que Deus não lhe imprimiu nem no coração nem na mente a aptidão ou a vocação (perdoe-me o termo condenado) para o ministério religioso.
— Qual é o plano, Senhor?
— Você vai acompanhar um dos pastores, à sua escolha e que o aceitar, e vai treinar, durante dois meses, uma exposição básica cujo tema você mesmo elegerá dentre os da lista oficial e segundo a sua própria organização. Em sendo aprovado pelo monitor, irá pregar em recinto fechado para um grupo seleto de bispos, pastores e obreiros, que emitirão pareceres fundamentados sobre a sua performance. Quando vier a ser aprovado, o que não aconteceu nunca na primeira apresentação dos candidatos, irá participar de um culto, em dia de semana pouco freqüentado, na periferia.

As instruções demonstrariam a Cleto os cuidados rigorosos em relação à escolha e preparo dos oficiantes. Lembrou-se de que os padres católicos eram peneirados desde crianças em seminários rígidos quanto à disciplina, tendo ouvido falar que nem todos que se ordenavam eram destinados às igrejas seculares, sendo aproveitados em funções internas da instituição. Essa reflexão fez com que assumisse postura de submissão e de admiração ao Bispo Moisés, porque sabia, com certeza íntima, que não decepcionaria a confiança nele depositada.
Não se dedicou, porém, a investigar quantos haviam sido convidados e haviam fracassado, embora nem todos os que se postavam diante do público merecessem a sua própria aprovação, sempre notando imperfeições que jurava não haveria de cometer quando chegasse a sua vez. Por outro lado, punha-se atento quanto aos principais, aqueles que falavam nos templos maiores, para platéias mais numerosas, inclusive com transmissão televisiva ao vivo, em constante desafio à memória e ao equilíbrio emocional. Estando diante de um aparelho de televisão, não via quais recursos poderiam ser utilizados, caso houvesse algum deslize de monta na exposição do tema, por isso, na primeira oportunidade, perguntou ao Pastor Honorato, o seu eleito, um dos mais antigos, sobre quem se dizia que recusara um bispado, quais os dispositivos de segurança para o sucesso das apresentações através do vídeo.
— Caríssimo irmãozinho, nem sempre as coisas correm de maneira perfeita. Houve um caso famoso de uma autoridade que maltratou uma imagem de gesso e que recebeu uma avalanche de críticas dos nossos superiores, sem contar a perseguição jurídica e religiosa dos que, maliciosamente, se sentiram ofendidos. A gente vai aprendendo com os erros, as hesitações, as falhas. Mas eu devo contar-lhe que nos servimos do ponto eletrônico. Você sabe o que é isso?
— Sei. É um transmissor que um ajudante opera, de modo que o pregador, com um pequeno fone escondido, pode receber todas as informações necessárias para safar-se dos apuros. Vi isso na televisão e num filme que critica os falsos sacerdotes.
— Tome cuidado quando falar a respeito de suas atividades fora. Isso tira de você o ar de ungido pelo Senhor, tornando a sua figura por demais familiar. Mantenha uma aura de reverência e seriedade, mesmo quando estiver entre nós. Comigo não se policie, para que eu possa orientá-lo.
— Tenho a certeza de que vamos nos dar muito bem, Pastor.
— Basta que você se compenetre de que deseja participar de nosso sucesso. Não se esqueça de que a bancada dos evangélicos cresce em âmbito nacional e já representa um peso ponderabilíssimo para as decisões dos plenários legislativos, sem contar que estamos a pique de eleger governadores, tendo eleito muitos prefeitos. Se você vem para a conquista de posição social, acreditando que o dinheiro jorrará em sua conta bancária, saiba também que existe uma ideologia universal que tem como base a palavra do Senhor. Evite ser hipócrita o mais que puder, anulando qualquer pensamento menos saudável. Só assim merecerá o apoio dos mais antigos e se verá projetado no seio da comunidade, para o efeito das conquistas dos valores que lhe darão os fundamentos para uma vida plena de felicidade.
Intimamente, Cleto se congratulou com a escolha de Honorato, que punha as cartas na mesa, sem cobrar, todavia, qualquer declaração de propósitos. Advertia mas não exigia, pondo o moço à vontade para as meditações sobre os caminhos que percorrera desde que se iniciara no tráfico de drogas até chegar a esse ponto de futuro bastante promissor. Sabia que Timóteo abriria mão da ajuda do genro em favor do pastoreio das almas. Tinha de convencer Aurélia a constituir família dentro de alguns meses, porque raros eram os pastores solteiros.



7. A PORTAS FECHADAS

Numa pacífica reunião mediúnica, Plínio apanhou mais um ditado com a assinatura de João. Naquela noite, só ele se dispôs a escrever, enquanto os outros médiuns davam comunicações orais. Todas elas trouxeram o cunho da seriedade, com muitas recomendações de vigilância e de oração, sempre enfatizando a necessidade dos estudos e do amor a Deus e ao próximo.
Um dos beneméritos guias da instituição, após declinar o seu nome, fez referência à visita de uma entidade de grande importância para o Cristianismo, que desejava realizar considerações de caráter pessoal e filosófico. Como, entretanto, nenhum dos manifestantes correspondeu à descrição, todos volveram a atenção para a página escrita por Plínio, antegozando o deleite de um texto de superior magnitude.
Ariovaldo foi quem estimulou o amigo a efetuar a leitura:
— Vamos lá, companheiro! Só falta você para completarmos esta maravilhosa sessão, onde espíritos de notável envergadura moral trouxeram os seus contributos especialíssimos para darmos rumo à vida, sob a luz do Espiritismo.
Foi quando se notou que o argüido estava pálido e ofegante, quase impossibilitado de falar. Estendeu o braço, indicando que precisava tomar da água fluidificada da jarra. À vista de tão grave reação, acrescentaram todos muito mais interesse à curiosidade estimulada pelo espírito protetor que se pronunciara.
Plínio, temeroso e hesitante, fez um preâmbulo prudente, como a requerer compreensão e indulgência pelas idéias que lhe foram ditadas:
— Vocês hão de ter paciência para comigo, por favor! Atribuam o que escrevi à entidade espiritual e não a mim mesmo, que apenas servi de instrumento.
O nosso amigo das censuras estava presente e logo fez questão de estabelecer um parâmetro metodológico para a recepção da mensagem:
— Tenho sido do contra em relação aos textos que se referem à vida de Jesus, pela reprodução de diálogos impossíveis de se comprovarem. A publicação no quadro de avisos e a distribuição das cópias não mereceu a minha aprovação. Contudo, como fui voto vencido, assenti, se estão lembrados, considerando a hipótese de um simples conto de caráter ficcional, do tipo dos muitos que o Irmão X, através da ágil pena do Chico Xavier, nos proporcionou.
Silvinho, muito mais preocupado em encerrar a reunião, não quis deixar o amigo estender-se por muito mais tempo:
— Vamos ouvir a leitura do texto. Depois a gente discute e decide sobre o que será melhor para todos.
Moacir apoiou suas palavras:
— Acho que todos tivemos um dia cansativo, porque trabalhamos para ganhar o nosso pão. Acabemos logo com isto.
Os demais presentes concordaram, de modo que o do contra teve de calar-se.
Plínio, com as mãos trêmulas e a voz embargada, deu início à leitura:

“Meus filhinhos, Deus é amor, como afirmei repetidamente durante toda a minha vida. Por isso, sempre insisti, até bem velhinho, que todos deveriam amar uns aos outros, deixando os problemas da vida para que Jesus lhes providenciasse as soluções. Tanto pensei nessas revelações particulares e coletivas, porque as igrejas estavam desviando-se da pregação do Cristo, que deliberei escrever o Apocalipse. Se alguém não sabe, apocalipse é uma palavra grega que significa revelação.
No entanto, se escrevesse, com o meu próprio nome, uma carta universal aos responsáveis pelas administrações das igrejas e aos sectários e fiéis, não obteria a repercussão que desejava para endireitar o que estava torto. Sendo assim, escrevi como que inspirado por Jesus, do mesmo modo que o meu médium está apanhando este ditado. Só que eu não recebi nada mediunicamente, porque Jesus estava vivo, uma vez que se salvara da morte na cruz.”

O do contra, cujo nome já é hora de declinar: Severo Amâncio Fortes, bateu na mesa, chamando a atenção para si:
— Meus irmãos, vocês vão me desculpar, mas não creio que devamos ouvir o resto do que o nosso ingênuo e obsidiado amigo Plínio registrou. Agora ele ou o espírito extrapolou os limites da paciência e da consideração que devemos ter pelos sofredores e infelizes. Se a malignidade deve ser um ponto a ser esclarecido, porque todos iremos evoluir sob o manto protetor de Jesus e as bênçãos de Deus, tanta ignorância não pode obter os favores de nossa atenção. Essa tese de que Jesus se livrou do extremo sacrifício da vida pela salvação dos homens está correndo mundo em forma de livros e de filmes. É hora de pôr um basta nessa onda que afronta a luz desse espírito de escol a quem se atribui a administração do planeta e contra quem ninguém pode levantar suspeita de fraude, de mistificação, de engodo, de mentira. Se me permitirem, vou retirar-me, já que expus com toda clareza, de modo absolutamente franco, tudo quanto penso, sem me deixar envolver por sentimentalismo obtuso ou por emoções perturbadoras de minha lucidez doutrinária. Se vocês tiverem a cabeça no lugar, vão impedir que essa mensagem espúria saia desta sala, obrigando os guias do centro a referendarem a informação de que visitava a nossa humilde casa um espírito de grande expressividade para o ideal cristão. Vão permitir-me realizar a prece de encerramento...
Ariovaldo, contudo, estranhou o jorro verborrágico do confrade e impediu-o de tomar as rédeas da reunião:
— Sinto que o nosso Severo está, deveras, convicto de tudo quanto disse. É muito importante para o grupo que haja alguém assim atento, sempre pronto a defender a pureza doutrinária kardequiana e, mais ainda, os sagrados escritos evangélicos. Não acho, todavia, que esteja certo em obstar que a turma tome conhecimento integral da mensagem, porque pode conter pontos polêmicos com o fito de nos despertar para a verdade, predispondo-nos à análise e à crítica, segundo a metodologia proposta por Kardec, para classificar as manifestações mediúnicas. Devo lembrar o irmão de que o Codificador agasalhou textos assinados por Santo Agostinho, por São Luís, pelo Espírito de Verdade e até pelo próprio Nazareno, conforme lemos na Revista Espírita. Se estamos diante de um problema sério, vamos tomar uma atitude adulta, refletindo maduramente sobre as idéias e pensamentos consignados, para concluirmos pela exclusão de parte ou pela anulação do todo. Para isso é que estamos reunidos, ou seja, para obtermos uma orientação segura sobre os mais diferentes tópicos do conhecimento e da verdade. Por outro lado, o seu impulso, caríssimo Severo, é de todo respeitável mas não condiz com o sentimento democrático que deve imperar no seio da comunidade espírita, onde todos devem opinar a respeito de tudo, se não for para esclarecer o grupo, pelo menos para facultar aos mais experientes a oportunidade de explanarem com sabedoria a respeito dos temas em descompasso com os ensinos da doutrina. Como também deixei o meu ponto de vista, tenho a obrigação de abrir o debate, para que todos os médiuns presentes disponham do mesmo tempo e da mesma atenção que nós dois merecemos. Quem quer fazer uso da palavra?
Moacir logo levantou a mão e foi designado para falar:
— Volto, com toda a simplicidade, ao meu parecer anterior. Qualquer discussão a respeito desse ponto relativo à morte ou não do Salvador na infamante cruz irá custar-nos horas exaustivas e já estamos suficientemente cansados, inclusive para julgar com imparcialidade a celeuma levantada. Voto pelo encerramento da sessão, através do término da leitura, para que todos nós tenhamos noção dos assuntos tratados, os quais, no mínimo, atiçaram a turma para a capacidade demonstrada pelo meu patrão e amigo, Plínio, em sufragar as comunicações imputadas a João Evangelista. Tenho dito.
Silvinho quis ser ouvido e logo lhe foi dada a vez:
— Concordo com Moacir mas não discordo de Severo e muito menos enfrento a lógica de Ariovaldo. Muito pelo contrário...
A turma percebeu a facécia e sorriu, como prevendo que os ânimos não se exaltariam mais.
Silvinho prosseguiu:
— Será justo aceitar qualquer escrito? Vou além: será justo desconhecer o esforço do confrade que se dispôs a incorporar um irmão, ainda que venha com o intuito de causar mal-estar e dissidência entre nós? Penso que não, respondendo a ambas as questões. Nem está certo aceitar qualquer coisa, nem é digno de espíritas que fazem jus a essa designação menosprezar o trabalho mediúnico. Sugiro, pois, que Plínio faça cópias integrais do texto, numere-as e distribua entre os que estão hoje aqui, desde que se prontifiquem a estudar a mensagem e a resguardar os segredos dela até que a deliberação final seja tomada a portas fechadas. Neste caso, rogo ao irmão Severo que não se furte a colaborar conosco, uma vez que as suas luzes, se ausentes, nos deixarão envoltos em nossa penumbra, em nossas sombras.
O último orador acompanhou as derradeiras palavras com um sorriso amável, tanto que Severo se levantou e veio dar-lhe a mão, correspondendo aos anseios de paz de que as suas ponderações estavam plenas.
Coube a Ariovaldo conduzir a votação:
— Quem concorda com a proposta de Silvinho permaneça como está.
Era a fórmula de decisão mais rápida, a qual tinha o condão de amenizar os rancores pela alegria que sempre despertava. Ouviram-se comentários abonadores e satisfeitos, de modo que o grupo pôde dissolver-se, depois que Ariovaldo solicitou a Severo que fechasse a reunião, com a prece que anteriormente prometera.



8. A COMUNICAÇÃO POR INTEIRO

A paz com que se encerrou a sessão não punha Plínio completamente tranqüilo. Pensou em comentar com Margarida o teor do texto mas se viu impedido pela condição imposta pelos amigos de se aguardar a liberação da mensagem.
No dia seguinte, abriu o escritório mais cedo do que de costume e acomodou-se diante do computador, para a datilografia das páginas manuscritas. Pediu e obteve a presença do espírito que lhe ditou a página, fez uma prece aos seus protetores, agradeceu ao Pai todo bem que estava desfrutando naquele momento da vida e pôs-se a trabalhar.
Eis como o texto teve seqüência:

Penso que não poderei livrar-me da necessidade de estender-me, em outra oportunidade, a respeito desse surpreendente enigma, embora possa adiantar que os que se dedicaram a narrar-lhe a vida sugeriram que a descida da cruz poderia ter ocorrido com ele ainda vivo, porque, em seguida, se descreve o encontro do túmulo aberto e vazio, como ainda se contam alguns feitos em que o Mestre comparece para dar testemunho de si mesmo.
Meus filhinhos queridos, o que me trouxe atormentado durante muito tempo foi o fato de que desobedeci às ordens de meu Rabi, crendo necessário redigir um texto de impacto moral e religioso, para o que cometi uma apropriação indébita, cujas conseqüências têm surtido efeitos deletérios até hoje, vinte séculos depois. É que, simplesmente, copiei trechos inteiros de diversos autores dos livros sagrados do Velho Testamento, compondo um quadro sinistro de previsões tremendas, destacando a fome, a peste, a guerra e a morte como os flagelos de que a humanidade não se livraria, até se extinguir por meio de uma hecatombe inexorável provocada pela Besta que situei nos infernos.
Para comprovar o trabalho de transcrição, basta cotejar muitas das passagens do Apocalipse com trechos de Daniel, de Ezequiel, do Êxodo, do Gênese, de Números, de Reis, de Jeremias, de Isaías, dos Salmos, dos Provérbios, de Zacarias, do Levítico e dos demais evangelistas. E vejam que não citei a todos.
Jesus, quando tomou contato com a obra, não se conteve e veio censurar-me asperamente, proibindo-me, terminantemente, de realizar qualquer outro comunicado em seu nome, porque, disse-me ele: “O povo ignorante vai deixar-se impregnar pelo terror e cada geração irá suspeitar de ser aquela a experimentar os horrores dos castigos do Pai.” E perguntou-me, pondo-me alvoroçado: “Esse seu texto não está em conflito declarado com a minha amorosa pregação? Você, queridíssimo amigo, não acha que a felicidade deverá alcançar todas as nações um dia, apesar das maldades da hora presente?” Para me aguçar ainda mais a percepção dos males que poderiam provir de minha tosca e primitiva exposição dos efeitos desastrosos dos pecados humanos, afirmou, sereno e compassivo: “Quando você tiver uma oportunidade, deverá confessar o intento de dominar os corações e as mentes através do medo.” Eu, que estava no fundo do poço, mesmo assim, argumentei: “Senhor, estou proibido de fazê-lo.” Jesus sorriu e declarou: “O futuro lhe demonstrará a verdade de minhas palavras.”
Como havia perpetrado outra inconveniência anterior, passei a preocupar-me, daquele instante até a hora de minha morte, apenas com o momento presente.
A revelação daquele outro caso, nesta casa de oração e auxílio fraterno, irá produzir mal-estar sobremodo angustioso para os que se esforçaram por entender a natureza divina do Espiritismo. Mas não posso perder esta oportunidade de referir-me à minha precipitação que, embora bem intencionada, não teve o respaldo da comprovação de nenhum outro escritor evangélico, tendo os estudiosos de se louvar tão-somente no meu testemunho, para o prenúncio que depositei na palavra do Messias, qual seja, o de que enviaria um Consolador, que denominei de Espírito de Verdade, para dar prosseguimento à construção de sua igreja. Mas esse informe terminou por sedimentar a doutrina espírita, porque a promessa ganhou foros de autenticidade, quando se aplicou ao nascente sistema filosófico de integral compreensão da existência.
Prometo estar à disposição dos irmãozinhos para quaisquer informações e comentários que desejarem endereçar-me. Não vou, perdoem-me, coroar hoje estas manifestações que estou empreendendo, não só porque o meu instrumento está conturbando-se, como a seqüência do ditado demandaria tempo mais amplo.
Amem-se uns aos outros com o mesmo elã do seu amor ao Pai. Graças a Deus!”

Quando Plínio datilografou a última frase, suava em bicas. Via e ouvia Severo a verrumar contra ele as piores observações, pela inobservância do preceito básico de somente atender os espíritos que desejassem dar comunicações de conforto, em harmonia com os preceitos das virtudes e da moral cristã e espírita.
Pensava, macambúzio:
“Estas idéias são muito mais bombásticas do que aquelas que me impeliam a desfalcar os cofres da empresa. Aquela intenção egoísta, pelo menos, causava apenas problemas materiais aos meus semelhantes. Este texto está eivado de subjetivas acusações, porque, historicamente, pinta quantos agiram em função dos pensamentos expressos por São João como alienados da realidade ou, o que é muito pior, usufrutuários das negras previsões. Em suma, está Severo absolutamente correto em restringir o conhecimento do inteiro teor da mensagem apenas a mim, na qualidade de médium. Se não der cabo dos originais e da transcrição, por minha conta e risco, vou ter de me aconselhar com Ariovaldo, no mínimo para que se prepare e me oriente para o chumbo grosso que os demais se sentirão na obrigação de atirar sobre obra, autor e intermediário.”
Quando não havia ninguém por perto, imprimiu uma cópia apenas e fechou o arquivo do computador com uma senha, para que nenhum penetra pudesse desvendar o seu segredo mediúnico, guardando o manuscrito numa repartição secreta da carteira.

Na primeira oportunidade em que se viu com o amigo no centro, puxou conversa para sentir qual fora a repercussão da indiscrição do mensageiro a respeito de o Cristo não ter morrido na cruz:
— Doutor, pelo amor de Deus, me ajude! Quando me trazem ditados pessoais, próprios para acalmar as pessoas tristes e acabrunhadas com as desgraças que ocorrem em suas vidas, não hesito em escrevê-las, designando, até com certa precisão, os nomes dos destinatários e dos desencarnados. Que devo fazer quando estiver sendo assediado por algum ente que se faz passar por espírito de luz?
— Caro Plínio, você tem feito o que nós temos recomendado. Não lhe dissemos para não colocar obstáculo nenhum, porque a crítica deverá ser posterior ao evento mediúnico?
— O que me preocupa é quanto à seriedade das informações. Não me consta que nenhum médium tenha dado comunicação que retire Jesus vivo do madeiro em que o pregaram.
— Com certeza, se alguém registrou esse acontecimento por influência espiritual, deve ter sido obstada quanto à publicação, como faremos nós, à vista das incongruências e demais fatos desconexos que se escreverem. Você efetuou a cópia que lhe pedimos?
— Pus no computador, mas os temas me pareceram tão absurdos que fiz apenas uma reprodução, que lhe trouxe, respeitosamente, mas com muito medo, porque acho que devo ter sido um marionete nas mãos de algum obsessor muito poderoso.
— Como é que você sentiu no momento do trabalho?
— Foi como se pairasse nas nuvens. Nessas horas, não sinto o peso do corpo nem qualquer preocupação que me desvie a atenção das frases que se compõem uma a uma. Já experimentei, algumas vezes, vibrações desagradáveis pela aproximação de espíritos que se revelaram inferiores, imperfeitos. Mas essas vezes em que o espírito João se apresentou foram da mais absoluta serenidade intelectual, como se tudo o que estivesse manifestando recebesse o alvará dos guias e benfeitores.
— Devo insistir, então, num ponto importante: jamais dê vazão a qualquer mensagem desse gênero estando em casa ou, como você tem feito, isolado, no centro, perante o computador. Deixe-me ver o texto, por favor.
Plínio tirou da pasta a folha em letras bem miúdas e, com o coração apertadinho, observou Ariovaldo durante a leitura, imprimindo à fisionomia as mais graves transformações.
Ao final da leitura, pediu o médico ao médium que se concentrasse e ambos oraram confrangidos um pai-nosso, que outra prece não seriam capazes de criar para a situação.



9. OVÍDIO AMEAÇA RETORNAR

Conforme prometeu a Cleto, Ovídio, que tinha de cor o inteiro teor do texto furtado, pôs a folha num envelope, redigiu uma carta e enviou aos pais.
Ei-la, na íntegra:

“Meu Querido Pai e minha Querida Mãe:
Vocês já devem ter visto a folha que tirei do quadro de avisos. Desculpem-me. Li com atenção o texto, onde percebi que Jesus dava a Deus os atributos da perfeição. Quero que vocês me perdoem de tudo, inclusive dos palavrões de quando me visitaram lá no inferno.
Estou cansado desta vida aqui. Gostaria de voltar para casa. Vocês me recebem? Se a resposta for sim, preparem o meu quarto e digam quando é que vou poder voltar.
Um beijo arrependido, deste seu filho...”

Margarida não pôde conter as lágrimas, contudo, Plínio foi mais cauteloso:
— Querida, o Vidinho deve estar com idéias. Você está lembrada de que Cleto disse que o menino é uma espécie de faz-tudo no templo? Aqui ele era um faz-nada...
— Nos últimos anos, porque, de pequeno, era um amor, o mais carinhoso dos três.
— Apesar de você preferir o nosso Arizinho...
— Por ser o caçula.
— Isso não vem ao caso. Eu vou escrever, pedindo para ele esperar, até a gente pôr o quarto em ordem. Mas o mais importante é saber se o delegado está disposto a deixá-lo solto.
— É verdade. Tudo indica que a ordem de prisão está valendo ainda.
A menção da polícia abalou um pouco a mulher, que, involuntariamente, começou a passar um pano sobre os móveis da cozinha, a retirar um pó que não se via. Plínio percebeu a ameaça da recaída:
— Margarida, eu vou pedir para o Vidinho ficar com o irmão. Acho preferível. Eu não ouvi ninguém falar nada, mas acho que, se ele aparecer por aqui, alguém vai dedo-durá-lo a troco de favores.
— Amanhã, a gente vai correndo conversar com o juiz, pedir que perdoe o rapaz.
Plínio sentiu que a idéia era totalmente inconveniente, mas concordou:
— Isso mesmo.
Antes que fossem deitar, leram um trecho de O Evangelho Segundo o Espiritismo, que era como Plínio achava que iria acalmar a esposa.

Na manhã seguinte, Margarida levantou mais animada, esquecida dos temores da véspera, insistindo num ponto:
— Querido, escreva logo, antes que o Vidinho chegue.
— Com certeza. Mas eu bolei um plano para ver se a polícia ainda está de olho nele.
Naquela manhã, as cópias da mensagem proibida foram impressas e, de noite, distribuídas. No dia seguinte, Ovídio recebeu a missiva paterna, formulada nos seguintes termos:

“Querido Filho:
Nós queremos que você venha para casa o quanto antes. Todavia, é preciso saber se os investigadores não estão de campana, para pegarem você. Por outro lado, deve agradecer muito aos pastores que têm cuidado de você, porque, se não fossem eles, nós achamos que estaria ainda no mundo das drogas. Qual é a opinião deles quanto a voltar para casa? Mande a resposta assim que conversar com Cleto e com eles. Se preferir, telefone. Enquanto isso, nós vamos comprar os móveis do quarto. Você quer alguma coisa em especial?
Um beijo carinhoso da mamãe e um abraço apertado...”

Ao ler a carta, o rapazelho percebeu que estava totalmente perdoado, porque, junto, encontrou a mesma cópia do texto que devolvera. Pensou:
“Ou muito me engano ou eles estão com medo que eu volte ao tráfico. Está certo que achem isso mesmo. Se perguntar ao Cleto, vai dizer que todos os meus amigos estão envolvidos, numa ou noutra quadrilha. Aqui, pelo menos, tenho colegas da igreja e da escola que nunca experimentaram nada. Alguns nem sabem o que seja bebida alcoólica. Embora alguns pastores e ajudantes fumem, estão proibidos de se mostrarem em público com um cigarro na mão. Também o delegado que ofendi deve estar querendo pôr as mãos em mim. Nisso os velhos têm razão. Agora, conversar com o Bispo Moisés e agradecer a hospedagem, nem pensar, porque eles não vão me deixar ir embora.”
Ovídio ainda se preocupou em caracterizar os serviços que prestava à comunidade e se viu importante. Aliviou, assim, a ânsia de retornar para casa, adquirindo uma serenidade que até então não havia tido. É que sentiu, nas palavras da carta, uma atenção por ele que ia além da simples posse sentimental que os pais têm em relação aos filhos. Sentiu amor, como se o papel estivesse impregnado de vibrações sutis. Se estivesse ligado com os superiores do etéreo, saberia que vinha sendo amparado fluidicamente.
À noite, Cleto estava compondo o texto de seu pastoreio, quando o irmão apareceu e foi logo convidando-o:
— Meu caro, vamos sair. O pessoal vai visitar uns pontos de mendicância. Vamos praticar a benemerência, que eu acho que isso está faltando a nós. Afinal, você disse ao pai que nós também ajudamos os miseráveis.
Cleto estava cansando-se de tanto burilar as frases. Não queria fazer feio. Não obstante, Ovídio acertara num ponto fraco de seus sentimentos, porque tinha sentido certa dor-de-cotovelo quanto aos planos da caridade evangélica dos espíritas. Mas reconheceu:
— Você tem razão. A gente não tem de ficar apenas falando. Se não dermos demonstração ao povo de que temos bom coração e de que o dinheiro que arrecadamos serve para melhorar as condições de vida das pessoas que vivem debaixo dos viadutos, vão falar mal de nós.
— Cleto, você está muito preocupado com os outros. O bem, a gente deve fazer sem alarde. Foi assim que o Cristo ensinou.
— O que ele disse, eu sei. Mas a verdade é que os apóstolos não esconderam as curas, os milagres, as parábolas e outros feitos grandiosos do Messias. Fazer, a gente tem de fazer. Isto é óbvio. Mas temos de fazer render, para podermos continuar fazendo. Você sabe muito bem que o nosso jornal publica todas as nossas saídas noturnas, muitas vezes com fotografias. Eu vi, na televisão, que todas as religiões distribuem muita coisa. Ora, se eu vi, é porque mostraram. Então, todos estão preocupados com o que os outros pensam, até lá no centro espírita, onde aquele amigo de papai nos falou a respeito, para justificar o lema do Espiritismo: fora da caridade não há salvação.

No etéreo, Pedro Otávio se regozijava com o fato de conduzir os irmãos para junto dos mendigos e dos favelados.



10. OS PLANOS FRUSTRADOS DE PLÍNIO

Na sua concepção mais simples, o projeto do pai era saber se o delegado havia perdoado o agressor e fugitivo. Para tanto, precisava ouvi-lo de viva voz, dando-lhe, ao mesmo tempo, oportunidade de agir.
Conversou com Hortênsia a respeito, mas esta recusou-se a ceder o filho para a realização do plano.
Plínio insistiu:
— Ele não vai correr nenhum risco. Se os investigadores forem prendê-lo em casa, ele tem os documentos para provar que não se trata do Ovídio.
— Você está ficando louco. Vamos supor que o delegado imagine que o seu filho está com vocês. Se estiver com raiva, vai invadir de novo a sua casa e vai prender quem lá estiver. Até provar que o alho não é cebola, o meu menino pode levar uns cascudos...
— Eu não penso assim. Se ele entrar sem mandado de prisão, depois que eu tiver conversado com ele, vai saber que terá o pessoal dos direitos civis entrando com recursos muito sérios contra o poder constituído.
— Faça como você quiser, mas com o meu filho não conte.
Percebendo que Hortênsia não se dispunha a cooperar, procurou, na Mocidade Espírita do centro, alguém que se dispusesse a ir com ele à delegacia. Encontrou um velho conhecido do filho, mas esse foi Plínio mesmo quem não quis:
— Bem sei que você está tentando recuperar-se das drogas. Vai que é reconhecido por alguém e não irá sair de lá.
Como ninguém mais se ofereceu, Plínio entendeu que deveria agir sem levar ninguém para se fazer passar por Ovídio.
Numa tarde chuvosa, enfrentou o trânsito do bairro e aportou diante da delegacia. Entrou e solicitou uma audiência com o delegado, nomeando aquele que fora ameaçado. Não estava.
— Precisa ser ele? — perguntou o soldado junto ao balcão.
— Só pode ser ele.
— Pediu transferência. Está trabalhando no interior.
Ao saber o nome da cidade, Plínio sentiu um frio perpassar-lhe pela espinha.
Voltou correndo para casa e, imediatamente, ligou para ver se conversava com um dos filhos. Ambos estavam recolhidos aos seus dormitórios. Pediu, então, para falar com Cleto.
Depois de algum tempo, deu-se o seguinte diálogo:
— Alô! Pai? Que aconteceu?
— Conosco não aconteceu nada. Fiquei sabendo que o delegado do Ovídio está trabalhando justamente na cidade em que vocês estão.
— Eu já sabia.
— Como?
— Não posso explicar agora, mas vou escrever. Mas não se preocupe, porque o Bispo Moisés garantiu que tinha tudo sob controle. Posso pedir-lhe um favor?
— Diga.
— Vá ao instituto correcional e veja se consegue saber em que pé está o processo do Vidinho. Estou com medo de que ele tenha sido acusado de alguma coisa mais grave.
— Que coisa mais grave?
— Parece que os assassinos dos dois que morreram durante a fuga disseram que foi o mano quem praticou os crimes.
— Você tem certeza disso?
— Não sei em que pé as coisas estão, mas é bom ir verificar. O Senhor vai?
— Eu vou mas não escreva, porque a sua mãe não pode ficar sabendo de nada disso. Escute: não seria melhor que vocês voltassem para cá?
— Para cair nas garras dos lobos? Muito obrigado. Eu lhe pedi para ir saber como está o processo, para saber como proceder daí para a frente. Se quisessem prender o pivete, o delegado já teria providenciado, porque ele sabe tudo sobre nós.
— Santo Deus!
— Fique frio! O diabo está sendo pintado bem mais feio do que é.
A conversa seguiria mais uns instantes, porém, Plínio não conseguiu demover o filho de sua decisão de permanecer onde estavam.
Naquela mesma tarde, correu a conversar com a insípida assistente social, com quem trocara as rudes palavras do tempo em que Ovídio estava preso.
— Vim conversar com a psicóloga responsável pelo processo do jovem Ovídio Saldanha.
O atendente procurou no arquivo, retirou uma pasta, abriu-a no último despacho e leu para o ansiado pai:
— O seu filho está sendo procurado, porque matou dois. Se o Senhor sabe onde ele está, vai ter de dizer.
— Vou dizer para a autoridade. Agora eu quero falar com a psicóloga.
— Não está, no momento. Serve conversar com uma pessoa da administração?
— Serve.
O atendente indicou uma porta no fundo do corredor. Lá foi Plínio meio trôpego, mas sem se esquecer de orar pelos seus protetores espirituais. Bem no fundo da consciência, declarou, temeroso:
“Vocês ficam discutindo através da minha mediunidade problemas que apenas estão gerando insegurança no grupo do centro. Deviam dedicar o seu tempo, prevenindo-me desses graves assuntos que interessam à minha família. Quanta gente vem ditar cartinhas de conforto e de respeitoso aviso aos parentes vivos. Por que é que não me trouxeram as notícias dos fatos que podem prejudicar o meu filho?”
Não teve tempo, contudo, de ir mais longe nas considerações, porque, estranhamente, foi logo recebido no gabinete da senhora presidente da instituição. Feitas as apresentações, ela tomou a iniciativa das informações:
— Eu não acredito que foi o seu filho quem matou os menores. Mas uns quinze combinaram acusar o moço. Depois de a polícia investigar, chegamos à conclusão de que Ovídio, que não teve o apoio da psicóloga, diga-se de passagem, tendo em vista as declarações de seus amigos, aqueles que o ajudaram na fuga, os quais estão albergados conosco, sumiu da área em que esteve detido, sem passar pela zona em que se deram os assassinatos. Sendo assim, estou preparando um dossiê que será remetido ao juiz, solicitando que o denunciado fique livre das acusações, embora estejamos torcendo para que ele se entregue, porque deve cumprir a sentença que o condenou a ficar recluso até a maioridade. Se o Senhor tiver confiança em nossa instituição, diga onde podemos encontrá-lo ou, o que seria bem melhor, peça a ele que se apresente.
Plínio estava zonzo com tantas informações, jogadas sobre ele em catadupas de palavrório. Percebeu, todavia, que deveria agradecer à boa vontade da funcionária que o atendera, ao discernimento dos que investigaram o caso e aos colegas do rapaz, que não tiveram medo de falar a verdade. Os olhos marejaram e as mãos tremeram. De relance, perpassou-lhe pela mente que fora injusto para com os protetores, os quais, se tivessem informado a respeito do que estava acontecendo, poderiam trazer desassossego e desequilíbrio, inclusive em relação ao trabalho mediúnico.
Em lugar de se prontificar a responder, estendeu aquele momento de emoção, para poder retratar-se com os benfeitores, elevando uma prece de agradecimento ao Pai.
Tanta foi a dor que demonstrou que a presidente o socorreu com um copo de água, que ele bebeu com muito gosto, rogando intimamente fosse fluidificada.
Insistiu a severa mulher:
— O que vai ser? Temos de ir buscar o moço em sua casa ou ele virá de livre e espontânea vontade?
— A Senhora tem de compreender que o coração de um pai fica muito pequenino quando lhe dizem que o filho matou alguém. Eu vim pensando muito nisso, embora soubesse que ele está inocente, porque fiquei sabendo como foi que ele fugiu. Contaram à Senhora que ele me pediu o último dinheiro que eu tinha, dizendo que precisava fazer uma tatuagem? Pois empregou as minhas economias com o aluguel dos serviços do grupo que o transportou para fora da cidade. Por isso, ele está longe daqui...
— Mas o Senhor sabe muito bem onde.
— Sei mas seria trair meu filho se lhe contasse onde ele está.
— Não tenho outro recurso senão informar ao meritíssimo que deve intimá-lo.
— A Senhora foi tão gentil em me receber e em livrar meu filho das acusações. Se eu lhe disser que ele está trabalhando com os pastores de um templo de culto protestante, longe da vida de crimes, posso contar com a sua comiseração?
— Quando é que ele vai completar os dezoito?
— Daqui a um ano e meio.
— O Senhor disse que ele não está com a família. Podemos mandar alguém para comprovar?
— Com certeza. O quarto dele está vazio, depois que vendi tudo que pertencia a ele e ao que morreu.
A narrativa do desastre que vitimou o mais novo amenizou a carranca da administradora. Sentiu que o pai tinha outros motivos para sofrer. Então, Plínio fez render a loucura de Margarida e o desaparecimento de Cleto. Mostrou-se em recuperação financeira e espiritual, fazendo questão de explicitar alguns de seus trabalhos junto à comunidade espírita. Chegou a perguntar se a interlocutora tinha fé religiosa.
— Acredito em Deus mas não freqüento nenhuma igreja.
Em suma, para encerrar o episódio, Plínio alcançou que o relatório seguisse sem ênfase ao fato de Ovídio permanecer foragido. Quem compulsasse o processo, depois de pronto, não saberia que o fugitivo não tinha sido recapturado. Automaticamente, Ovídio deveria considerar-se livre de qualquer perseguição policial.

Saldanha, no etéreo, não esfregava as mãos com a mesma certeza.



11. IMPORTANTES DECISÕES MEDIÚNICAS

Plínio nem se apercebeu que chegara o dia em que a turma deveria reunir-se a portas fechadas, para apreciação do texto que distribuíra. De repente, se viu sentado junto à mesa, reunidos todos os médiuns e doutrinadores da última sessão, mais uma companheira que havia faltado, Liberata, a qual, por sua avançada idade, não primava já pela freqüência nem, por isso mesmo, havia tomado conhecimento da mensagem ou sentido certo frêmito de expectativa nos semblantes.
Ariovaldo fez as leituras ocasionais de dois livros doutrinários, solicitou que os médiuns se concentrassem, pensando em Jesus e nos beneméritos guias do centro, realizou a prece de abertura e evocou a presença de alguma entidade que desejasse apresentar-se, para dar início aos trabalhos, não se esquecendo de ressaltar que os serviços a serem prestados naquela noite deveriam resumir-se o mais possível, para que se desse tempo aos debates.
A diligente médium dos cabelos de neve solicitou permissão para incorporar um amigo da espiritualidade, falando com clareza e ponderação:
— Meus irmãos, graças a Deus! Estou disponível para acompanhar esta importante reunião, onde serão discutidos temas da maior relevância para o desenvolvimento mediúnico dos tarefeiros do Senhor. Vocês devem ter percebido que este que lhes fala é o Irmão Juvenal, seu velho conhecido de tantas memoráveis jornadas de amparo aos infelizes que recorrem às luzes dos encarnados para se situarem no etéreo, com uma vontade inquebrantável de se melhorarem, crescendo em virtudes, com o fito de ampliar a faixa de atuação, para que o bem que venham a fazer abranja um círculo cada vez mais amplo de necessitados. Respeitando, entretanto, o desejo de todos, vim para lhes dizer que apenas eu me manifestarei, para notificar que o ambiente está coalhado de entidades interessadas nos pontos de vista que se analisarão, segundo o parecer de cada encarnado que estudou a temática proposta pelo espírito que assinou como João a mensagem que incentivou tantas pesquisas e fomentou tanta preocupação. De seu discernimento, concluirão os convidados do plano espiritual quais as melhores diretrizes a serem impressas às comunicações escritas, ditas psicografadas, para seu preparo junto ao educandário que os agasalha na colônia. Por isso, requeiro, em nome de todos, que os expositores se lembrem de Jesus falando ao povo e aos doutores da lei, com o coração na mão e a inteligência produzindo as melhores expressões para o entendimento dos raciocínios e das conclusões. Fiquem com Deus, sob o amparo cada qual de seu anjo de guarda, porque se espera que a sessão seja produtiva e esclarecedora. Assim seja!
Ariovaldo ainda aguardou alguns minutos até definir que não haveria mais nenhuma incorporação mediúnica. Então, abriu os debates:
— Espero que todos tenham lido, mais ainda, estudado e decifrado todas as intenções do texto que o nosso irmãozinho Plínio escreveu diante de todos nós, na última semana. Sei que ele fez o possível para tornar esta reunião plausível do ponto de vista doutrinário, tanto que me procurou, expondo-me as suas dúvidas quanto a cumprir a determinação do grupo que o obrigava a transcrever a mensagem na íntegra. Recomendei-lhe cautela quanto a manter o sigilo do tema apenas dentro da abrangência do povo aqui reunido, mas não o estimulei no sentido de que suprimisse nenhum trecho, porque era preciso, segundo meu ponto de vista, conhecer exatamente o que esse espírito e autor tinha em mente ao lhe oferecer um texto cuja interpretação pode causar a maior discordância entre nós, caso nos atenhamos a fixar uma diretriz inflexível para o nosso modo de estabelecer os critérios, em coerência com os princípios expostos por Kardec. Eu mesmo considerei cada expressão, cada frase, cada parágrafo, conseguindo assentar um prisma para a crítica do ato mediúnico e sua resultante textual. Mas vou dar a primazia da abertura das discussões ao nosso irmão Severo, o do contra, conforme ele mesmo se considera.
Severo não aguardou que a palavra lhe fosse formalmente passada, emendando a frase do orientador com a sua primeira observação:
— Gostaria que me considerassem, daqui para a frente, como o a favor, porque todas as minhas participações se deram e se darão no sentido de respeitar a doutrina que nos permitiu este agrupamento de pessoas para a efetivação de um ato de grande importância para as nossas vidas de espíritas convictos. Vou ao ponto. Li, com muito interesse, a mensagem em questão e posso afirmar que, sem sombra de dúvida, merece muitos encômios, pelo rigor com que trata os textos produzidos por João Evangelista. Claro está que, como ele mesmo promete, vou ficar ansioso para conhecer um pouco mais a respeito da sobrevida do Cristo ao suplício da cruz. No que respeita às transcrições do Velho Testamento, fui averiguar e obtive a revelação de que muitos trechos reproduzem passagens dos autores apontados. Para mim, o fato fez diminuir em muito os méritos das predições (quase diria maldições) contidas no Apocalipse. A advertência quanto à mudança proposta para a personalidade do Messias, que era pura doçura nos relatos evangélicos, passando a expressar-se como o deus dos exércitos das Antigas Escrituras, desejoso de punir e esquecido de perdoar, também me pareceu absolutamente procedente. No que concerne ao envio do Consolador, do Espírito de Verdade, que nós do Espiritismo vinculamos à história religiosa da humanidade com o nome de Terceira Revelação, atribuindo a passagem evangélica à nossa doutrina, por força de inúmeras citações mediúnicas, inclusive endereçadas a Kardec, devo confessar que me vi surpreso quanto a ter sido exposta apenas em João, nada havendo semelhante em Lucas, em Mateus, em Marcos nem nos Atos dos Apóstolos. Aliás, seria muito justo que, no Apocalipse, houvesse a reprodução desse informe tão precioso, mas lá não achei nada disso. Ao contrário, em lugar de Jesus nos prometer outro Consolador, faz-nos ver que a Besta está preparada para assumir o controle do mundo, em época futura e não determinada. Aí, eu me lembrei de um dos critérios mais importantes de Kardec para fixar as diretrizes doutrinárias, qual seja, o da coincidência universal dos preceitos, porque o codificador só aceitava os pensamentos filosóficos dos fundamentos espíritas se recebesse comunicações de mesmo teor ou assemelhadas de muitas origens, porque se correspondia com o mundo todo. Sendo assim, salvo melhor juízo, considero a mensagem transmitida ao nosso amigo Plínio como perfeitamente cabível, dentro dos parcos conhecimentos evangélicos que possuo. A partir daí, no entanto, não concluam, por favor, que eu opte pela divulgação do texto. Continuo, como mencionou o Doutor Ariovaldo, inflexível, porque considero que a doutrina espírita não tem nada a ganhar com polêmicas mensagens, cujo maior mérito se encontra na possibilidade de estar historicamente correta, sem, contudo, oferecer outra prova qualquer que não seja a das prerrogativas do saber raciocinar em função das próprias informações que registra. Lamentavelmente, tenho de respeitar o fato de que, naquela noite da semana passada, o ambiente estava em paz, eu mesmo tendo dado passividade a duas manifestações maravilhosas quanto à moralidade e à teoria espírita. Lamento, não pelo fato em si, mas porque me coage a aguardar novos desenvolvimentos, pela curiosidade que me despertou quanto a oferecer essa entidade outros conhecimentos sobre que não tive ensejo de me dedicar. Lamento ainda mais porque não vou votar pela abertura desta sessão ao público em geral, estimulando a curiosidade mórbida das pessoas que não vêem com bons olhos os trabalhos a portas fechadas, como se o que se passa dentro destas quatro paredes se inspire nas entidades menos evoluídas. Agradeço o discernimento do nosso orientador e amigo, Ariovaldo, por me deixar falar à vontade, talvez se surpreendendo com o que eu disse a favor do texto. Se me permitirem, vou procurar ouvir o que cada um tem para dizer e não vou mais colocar qualquer obstáculo, caso a decisão eleja um ponto de vista diferente do meu. Apenas, como Pilatos, vou lavar as minhas mãos quanto à responsabilidade das distorções educacionais que a publicação do texto promoveria. Afinal de contas, permitam-me o gracejo, por mais que Pilatos tenha ensaboado o sangue que enxergava impregnado em sua pele, tendo Jesus descido da cruz ainda vivo, não havia muito para expiar.
O efeito da brincadeira não atingiu o objetivo de amenizar a seriedade das considerações. Ariovaldo estava cada vez mais admirado da sagacidade e da inteligência do amigo e levou um bom tempo para refazer-se da incrível avalancha de conceitos. Finalmente, avaliou que outras poderiam ser as opiniões das pessoas presentes e ofereceu a palavra a quem se apresentasse.
Olívia, uma das cinco do corpo feminino de médiuns presentes à reunião anterior, desejou oferecer a sua contribuição. Ariovaldo introduziu-a:
— Com a palavra a nossa querida irmãzinha, Olívia. Aliás, se elas não se manifestarem, iremos ter os conceitos apenas da ala masculina; e nós não queremos que pensem que somos chauvinistas.
— Muito obrigada. Devo avisar que falo em nome de todas, porque nos reunimos e chegamos a algumas conclusões, quase todas coincidentes com as idéias de Severo. Antes que pensem que demos conhecimento da mensagem a outras pessoas, previno que tomamos o máximo de cuidado e nenhuma cópia caiu em mãos estranhas. Tivemos em mira definir os pontos de coincidência entre o texto do Apocalipse e os das fontes citadas. Não sei se vocês sabem, mas encontramos uma edição da Bíblia que apresenta anotações muito valiosas quanto às referências repetidas, de modo que bastou olhar para o rodapé para saber de onde provinham os textos originais. Antes de eu prosseguir, o grupo das mulheres decidiu inquirir do amigo Plínio se ele conhece esta edição que está aqui comigo.
Ao mesmo tempo, Olívia mostrava um grosso volume, abrindo-o ao acaso, apontando os rodapés aleatoriamente, lendo um ou outro rapidamente, para a constatação do que afirmara.
Plínio prestou atenção e esclareceu em seguida:
— A Bíblia que possuo contém esse mesmo aparato. Se não me engano, esse sistema recebe o nome de chave de concordâncias. Quanto a saber que muitos trechos do Apocalipse derivaram dos outros livros do Velho Testamento, no entanto, não fazia idéia de que a coisa era tão séria.
A moça prosseguiu:
— Mesmo que soubesse, dificilmente iria citar tantos autores, a menos que tenha acrescentado alguns após consulta, quando datilografou o texto...
Correu Plínio a afiançar o contrário:
— Se vocês quiserem ver, tenho comigo o original escrito na presença de vocês.
— Não vai ser preciso, porque o mais importante é conhecer a verdade; e a verdade se encontra na confissão do apóstolo (se é que foi ele mesmo quem se apresentou) de haver transcrito muitas passagens. Se me permitirem, posso reproduzir uma.
Ariovaldo consultou o auditório e anuiu:
— Você terá o direito de uma citação apenas, porque, penso eu, todos nós fizemos o mesmo cotejo e chegamos ao mesmo resultado.
— Então, vou reproduzir, primeiro, um texto de Daniel. Para não ficar monótono, peço à Judite que execute as leituras, conforme eu for solicitando. Certo?
Meio impaciente, Ariovaldo acenou que estava bem. Olívia deu as diretrizes da citação:
— A Bíblia Sagrada, Antigo e Novo Testamento, que utilizamos foi traduzida por João Ferreira de Almeida e publicada no Rio de Janeiro pela Sociedade Bíblica do Brasil, em cinqüenta e nove. Não consta o número da edição. À página oitocentos e setenta e seis do Antigo Testamento, em O Livro de Daniel, capítulo sétimo, versículo treze, lê-se, conforme Judite irá demonstrar:
— “Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do homem, e dirigiu-se ao Ancião de dias, e o fizeram chegar até ele.”
— Agora, do mesmo livro, à página oitocentos e oitenta, capítulo décimo, versículos cinco e seis:
— “[...] levantei os olhos, e olhei, e eis um homem vestido de linho, cujos ombros estavam cingidos de ouro puro de Ufaz; o seu corpo era como o berilo, o seu rosto como um relâmpago, os seus olhos como tochas de fogo, os seus braços e os seus pés brilhavam como bronze polido, e a voz das suas palavras como o estrondo de muita gente.”
— Voltando à página oitocentos e setenta e seis, capítulo sétimo, versículo nono:
— “Continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e o Ancião de dias se assentou; sua veste era branca como a neve, e os cabelos da cabeça como a pura lã; o seu trono era chamas de fogo, cujas rodas eram fogo ardente.”
— Reparem agora como se encontram as mesmas idéias e quase as mesmas palavras no Apocalipse, à página duzentos e noventa e dois do Novo Testamento, capítulo primeiro, versículos treze a quinze. Por favor, Judite.
— “[...] e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares, e cingido à altura do peito com uma cinta de ouro. A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz como a voz de muitas águas.”
Prosseguiu Olívia:
— Pode parecer que houve um resumo mas, na verdade, a reprodução não poderia eleger os textos todos ou João poderia ser acusado, simplesmente, de plágio. Nós não achamos isso. Julgamos que, naquela época, as palavras sagradas poderiam representar, para o espírito dos leitores e dos ouvintes, a autoridade de que se revestia o autor, que falava em nome de Jesus. O que não se concebe é que o Cristo se desse a conhecer ao apóstolo de forma tão exata e igual à descrição antiga. Por outro lado, muitos outros trechos se encaixam perfeitamente, de forma que se justifica plenamente a mensagem que o nosso parceiro recebeu. Se eu tiver um tempinho mais, gostaria de expor um recurso utilizado nesse mesmo sentido, o qual nos pareceu, no mínimo, perverso, para uma obra provinda do Nazareno.
Ariovaldo perguntou:
— Alguma outra companheira irá fazer uso da palavra?
Ana Beatriz manifestou-se:
— Eu posso fazer as vezes da Olívia, porque nós todas sabemos sobre o que ela irá discorrer.
Ariovaldo percebeu que não escaparia tão cedo, de modo que deixou a decisão para as mulheres:
— Façam como acharem melhor, mas sejam breves, por favor.
Olívia antecipou-se:
— Fale você, Ana, para demonstrar que todas estamos interessadas no tema.
Ato contínuo, Ana expôs o assunto:
— Descobrimos que o fecho do Apocalipse desfere sobre a humanidade uma ameaça terrível. Depois vimos que até a notícia do flagelo foi extraída do Velho Testamento. Judite, por favor, leia o que se encontra à página trezentos e nove do Novo Testamento, versículos dezoito e dezenove do capítulo dezenove.
— “Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; e se alguém tirar qualquer cousa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa, e das cousas que se acham escritas neste livro.”
Ana prosseguiu:
— O grupo feminino tremeu de medo com a profecia, mas, levando em conta que o próprio autor da funesta previsão foi quem veio para acrescentar e diminuir, como lembrou Severo, não vimos como Plínio deva ser atingido pela maldição. Acreditamos na justiça de Jesus. Querem ver de onde proveio esse trecho? Judite, por favor, reproduza Deuteronômio, capítulo quarto, versículo segundo, página cento e noventa e seis, e, em seguida, do mesmo livro, capítulo doze, versículo trinta e dois, página duzentos e sete.
— “Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando.” “Tudo o que eu te ordeno, observarás; nada lhe acrescentarás nem diminuirás.”
Ariovaldo rejubilava-se com a eficiência demonstrada pelos parceiros de mesa mediúnica. Percebeu que estampavam no semblante não mais o receio da abertura, mas a satisfação de se verem úteis e reconhecidos. Foi assim que fez questão de mencionar o seu pensamento a respeito:
— Vejo que todos nós nos deixamos envolver pelo estudo da mensagem. Não quero dizer que esteja o texto correto nem que tenha provindo do augusto nome que o assinou. Acho que isso não interessa muito, porque o princípio em evidência foi o de realizar um trabalho de busca, de pesquisa, de exegese bíblica, no sentido de fazer com que prevaleça a verdade. Não vamos mudar os nossos pontos de vista anteriores quanto a ser sagrada e universal a carta da revelação endereçada às sete igrejas asiáticas. Vamos, sim, colocar as idéias no lugar e passar a refletir sobre a existência, sobre a vida, sobre a encarnação e sobre a morte, de acordo com os paradigmas fornecidos pelos espíritos de luz a Kardec. Não vamos desprezar a maneira antiga de angariar prosélitos para os cultos nem de prendê-los através de fulminantes razões religiosas. Penso que as informações da mensagem ditada ao irmão Plínio estejam suficientemente discutidas. Águas passadas não movem moinho. Vou pedir aos que ainda não se manifestaram que comentem a proposta do Severo, quanto a não dar ao prelo, ou melhor, quanto a não divulgar o texto. Que tal você, Moacir?
O designado imediatamente assumiu a palavra:
— Quero dirigir-me por um caminho paralelo, sem tocar nos pontos principais da mensagem em si. A minha preocupação se situava noutro setor. Eu pensava que, se os estudos e pesquisas fossem continuar, o trabalho mediúnico a que estamos acostumados iria perder em ênfase, ficando muitos irmãozinhos sem atendimento. Até ia fazer esse reparo para o meu amigo Plínio, ou seja, que não desse vazão aos textos desse naipe, porque não via muita importância nas discussões decorrentes. Dois fatos, porém, estão me obrigando a mudar de opinião. Em primeiro lugar, o interesse, digo mais, o empenho da turma, inclusive da parte das senhoras e moçoilas, em decifrar o que de verdade possa existir nas informações que, convenhamos, desafiam os conhecimentos tradicionais, para não dizer milenares, de um texto considerado de fundamental importância para o cristianismo. Está parecendo que houve um como rejuvenescimento de espíritos, uma regressão aos bancos escolares, quando a gente chegou ao centro e se pôs, com muita desconfiança, a estudar a mediunidade nos cursos iniciais. Vendo por esse prisma (desculpem-me se me atrapalho), está sendo muito útil estimular a inteligência da maioria e a sabedoria de alguns, como no caso do amigo Severo e do Doutor Ariovaldo. Mas, se fosse só isso, ainda assim iria solicitar que Plínio evitasse tais ditados polêmicos. Outro fator, contudo, se interpôs entre a minha intuição primeira e as observações posteriores. Foram as palavras com que o espírito Juvenal, nosso emérito guia, abriu esta sessão de maneira tão clara e insofismável, atentando-se ao fato de que a veneranda irmã que serviu de intermediária desconhecia por completo o objetivo da reunião. Se ele não informasse sobre a presença de inúmeros companheiros desencarnados interessados no desenvolvimento dos debates, até eu poderia acreditar que estávamos gerando uma tarefa sem repercussão, porque, como Severo fez questão de frisar, também sou de opinião que o grande público não deve ser incitado aos mesmos assuntos, dado que a temática necessita de pessoas mais doutas, mais eruditas, mais sábias, para que possa vir a ser esgotada em todos os seus aspectos. Creio que estas minhas idéias encontrem ressonância na alma dos parceiros, para que firmem posição de absoluta imparcialidade quanto a não aconselhar a divulgação dos escritos, em cujos méritos, reafirmo, não desejo penetrar.
Ariovaldo ficou intrigado e expôs a sua dúvida:
— Quer dizer, Moacir, que você não aceita que o texto tenha sido produzido por um espírito de luz, da categoria de João Evangelista?
As faces de Moacir adquiriram um tom fortemente avermelhado, tanto que fez um gesto involuntário com as pontas dos lábios, mas se definiu:
— Quem somos nós para receber avisos de tamanha magnitude? Como não temos recursos para aprimorar as teses espíritas, quer me parecer que, embora verossímeis, as mensagens são tendenciosas, no sentido, evidentemente, de nos trazer cativos a certos princípios bastante diferentes daqueles que nos sustentaram até aqui. Não é verdade que eu disse que modifiquei a minha diretriz de pensamentos? Pois admito que o exercício mental a que nos conduziu o autor (seja ele quem tenha sido) pode vir a ser útil para a nossa formação espírita. No entanto, eu me sentiria bem mais seguro se as coisas voltassem ao normal. Vocês não pensam como eu?
Agitou-se a pequena assembléia. Entretanto, Ariovaldo, preocupado em dar oportunidade a todos e observando que, se cada um levasse o mesmo tempo, a reunião ainda duraria umas duas horas, pediu silêncio e se dirigiu diretamente a Silvinho:
— Você e Moacir são unha e carne. Você concorda com ele? Vocês estudaram juntos? Tem alguma coisa a mais para acrescentar?
Silvinho percebeu a agitação do orientador e fez questão de acalmá-lo:
— Falo apenas por mim. Moacir tem as idéias dele e eu tenho as minhas. Não obstante, não vou fazê-los perder mais tempo com considerações argutas e específicas. Penso que os temas tiveram tratamento adequado. Concordo com que seja muito cedo para levar ao pessoal de fora os arremessos, os atrevimentos, as novidades que se encontram consignadas nestes textos, os quais, no mínimo, são surpreendentes, porque não vejo, no meu querido Plínio, nenhum interesse em nos trazer tais problemas. Por isso, acho que devemos aguardar novas manifestações da mesma entidade, permanecendo atentos para as críticas e comentários de nossos guias e guardiães, uma vez que nenhum ofereceu resistência contra este tipo de serviço mediúnico. Seguindo nesta linha de raciocínio, proponho que, na próxima reunião, alguém venha com algumas perguntas preparadas, para dar azo a que as respostas do plano espiritual nos encaminhem para o que for melhor para todo o mundo. Se tomarmos as deliberações que prescrevi, certamente estaremos valorizando sobremodo o trabalho dos médiuns, abrindo, inclusive, a perspectiva para que o mesmo espírito se utilize de outro membro efetivo de nosso corpo mediúnico, para que não fique tudo sobre as costas só de um.
Ariovaldo criou uma suspeita no âmago da alma e a expôs de imediato:
— Não há dúvida de que todos os que se pronunciaram o fizeram com desembaraço e muita fluência. Como são médiuns, estarão sendo amparados, inspirados, ou não foram vocês mesmos que criaram as suas falas, apenas reproduzindo oralmente o que os espíritos lhes ditaram? Na verdade, gostaria de crer em que tudo o que expuseram seja fruto de seus cérebros privilegiados, porque muito me honrariam com a sua amizade e companheirismo.
Severo não deixou que Ariovaldo prosseguisse:
— Diga-o você mesmo, prezadíssimo confrade, que está tão entusiasmado com as realizações alheias que não é capaz de avaliar o mérito de sua própria oratória.
Instado, Ariovaldo revelou a sua opinião:
— Eu acho que a influência das personagens da esfera espiritual se faz sentir no formalismo com que todos se expressaram, por respeito ao fato de saberem que estamos sendo visitados por gente muito gabaritada. No entanto, se nos dermos conta de que tais irmãos evoluídos se aproximaram de nós em virtude das decisões que pautarão certos procedimentos deles, conforme nos informou Juvenal, estamos agindo corretamente, segundo nosso próprio discernimento, sem interferências estranhas. Pelo menos eu sinto assim.
Foi Olívia quem aparteou:
— Quer dizer que existe uma sutil contradição em seus sentimentos, isto é, sem ofensa, você está achando que o seu jeito de ser prevalece quando fala e o nosso se expõe à orientação dos irmãos benfeitores...
Se Olívia não fizesse um gesto conciliador, como se desse umas palmadas no amigo, talvez não se entendesse que estava brincando. Mas todos, pelo sorriso maroto que aflorou em sua fisionomia, perceberam que a tentativa da parceira era a de tornar a sessão menos tensa, assegurando o bom humor que caracterizava o relacionamento do grupo.
Não se atrapalhou Ariovaldo e enviou um careta alegre à colega, retomando as rédeas, segundo o tema:
— Vocês acham que devemos acatar o parecer geral dos que se apresentaram, ou seja, que fiquemos na expectativa de novas mensagens, sem dar ao público conhecimento do que nos trouxe tão atarefados? Levantem a mão os que aceitam esta tese.
Houve unanimidade, todos concordando com a proposta coincidente dos três que deram sugestões. Ariovaldo voltou a consultar a turma:
— Quanto a elaborar um questionário, vocês estão de acordo? Quem estiver levante a mão.
Houve apenas um voto a favor, o do dono da idéia, Silvinho. Ariovaldo aduziu:
— Pela minha experiência, fica-me claro que o povo quer que você redija as perguntas.
Um franco sorriso de aprovação demonstrou que havia o grupo superado os momentos mais difíceis. A partir daquele instante, cada qual sabia que estava integrado num ambiente de acatamento das noções espíritas que vinham assimilando. Ariovaldo não se esqueceu de Plínio e ofereceu-lhe um tempinho para que demonstrasse quais impressões estava levando da sessão:
— Fale você, ó magno causador do rebuliço, meu irmão querido, Plínio.
Plínio olhou demoradamente para cada rosto voltado para si, fez um gesto característico de quem abraça amorosamente a cada um e resumiu o que sentia numa única expressão:
— Muito obrigado!
Mas Ariovaldo, depois que percebeu que as reações de afeto serenaram, chamou-o a cooperar um pouco mais:
— Desta você não se safa tão facilmente. Queira, por favor, dizer a prece de encerramento.



12. ARI SE INSTRUI

— Edgar, por favor, esclareça-me quanto a uma dúvida que me vem amarrando ao mundo da fantasia.
Ari não precisou elaborar a frase para ser compreendido. Então, vamos ter de nos entender, para darmos seguimento ao narrado, caso contrário, todo o deslanchar de aprendizado do rapaz vai quedar no campo da erraticidade. Que outro sistema adotaríamos que não o do diálogo entre os encarnados?
— Você quer saber se vai ficar preso ao leito por muito tempo. Devo dizer-lhe que pode levantar-se a qualquer instante, bastando que...
Imediatamente, Ari pôs-se de pé, apoiando-se num móvel, espécie de consolo, sobre que repousavam alguns frascos e petrechos, cuja descrição demandaria esforço considerável se quiséssemos dar pálida idéia do que se tratava. Eram, de qualquer modo, elementos de que os médicos e enfermeiros lançavam mão para o tratamento energético e vibratório, fluídico, diríamos melhor, do paciente.
— Sinto uma tontura como se me faltasse o ar.
— É natural, porque você não tem completo domínio dos movimentos do corpo semimaterial que lhe dá sustentação nesta atmosfera. Vamos recriar a forma humana que melhor lhe convenha para nos relacionarmos...
— Quer dizer que o meu pensamento me impediu de realizar os contornos de uma figura que se assemelhasse à sua? Posso ver-me no espelho?
— Pode, sim, se conseguir.
— Como assim?
— O seu esquema corpóreo não está definido. Você me vê como lhe apareço, porque tenho domínio sobre a minha figura. Desejo dar-lhe a segurança de um ser sábio e poderoso no campo da medicina. Desse modo, visto-me com este jaleco porque lhe lembra a roupa habitual dos médicos encarnados, conforme a sua própria recordação. Para você se enxergar no espelho, haverá de construir uma imagem reconhecível, seja do rapaz que viveu na última encarnação, seja do homem da penúltima. Recomendo-lhe que adote a que lhe possa dar maior tranqüilidade, uma vez que ambas trarão reminiscências penosas, o que eu gostaria, se puder, de impedir.
— Quer dizer que o melhor é não me ver no espelho?...
— Com certeza. Mais tarde, você irá adquirir certos conhecimentos, a respeito das conseqüências dos eventos de que participou, próprios para extrair lições que lhe darão os fundamentos sobre que assentar a vontade. Nesse momento, alcançará a estabilidade emocional para refrear os impulsos advindos de meras sugestões exteriores.
— Devo deduzir, caríssimo instrutor, que, se eu for, por exemplo, visitar os meus pais, à vista dos objetos e das pessoas, irei sofrer o baque emotivo correspondente às acusações da consciência, pela percepção da perda da oportunidade de crescimento espiritual?
— Bem posto, querido amigo. Apenas quero alertá-lo quanto à distância que vai entre os conceitos meramente filosóficos sobre a realidade e o empuxo...
— Posso concluir, a ver se estou capacitando-me a acompanhar os seus raciocínios?
— Perfeitamente.
— Preciso tomar ciência de que o ensino que estou recebendo é intelectualizado, de maneira que se encontra sob bloqueio a parte de minha personalidade que denominaria de sentimental, emocional, sensível aos desarranjos provocados pelos apontamentos das frustrações. Uma coisa é realizar as experiências dos cálculos das fórmulas, para o aprendizado da Química. Outra é o manuseio dos ingredientes, na quantificação passível das reações em estudo. Uma coisa é saber que as forças da energia elétrica se deixam controlar segundo sua potência, em função dos capacitores que a conduzem. Outra é estabelecer na prática a quantidade dela que os isolantes com que se trabalha são suficientes para contê-la.
— Gostaria de lhe assegurar que você está utilizando-se de conceitos absorvidos na penúltima encarnação. Será essa a aparência que irá dar ao seu perispírito?
— Preciso de algum aspecto exterior, para poder andar pela colônia?
— Todos nos mantemos com uma figura que transmita aos demais a segura informação do nosso adiantamento. Se você, por exemplo, adotar a aparência de um jovenzinho de dez anos, irá ser tratado como tal pela maioria, pelo menos até que seja colocado em xeque pelo professor da classe que o receber como aluno. Neste caso, é sempre preferível adotar semblante e estatura correspondentes ao desenvolvimento mental, que está longe de pertencer àquela faixa etária. Que tal uma idade de vinte e poucos anos?
— Com o mesmo arcabouço da derradeira passagem terrena? Será possível?
— Com os elementos contidos em sua memória, você será capaz de, a partir dos traços com que emergiu no etéreo há pouco mais de um ano, elaborar envelhecimento correspondente a mais doze ou quinze anos, sem esforço de monta, apenas concentrando o pensamento na linhagem familiar que detém na memória. Vamos tentar?
— Não posso fazê-lo sozinho?
— No máximo, iria definir uma similitude. Se me der a liberdade de auxiliá-lo, vou impor ao seu operar as características genéticas do extinto arcabouço físico, porque já possuo o poder de assimilar os roteiros delineados desde os ancestrais de cada progenitor, segundo o ADN de que você foi portador.
Ari estava muito mais interessado em sentir-se dentro de um corpo com certa cristalização material do que em absorver a novíssima informação sobre o ácido desoxirribonucléico. Por isso, deixou de lado a nomenclatura que não lhe repercutia nos arcanos da memória e insistiu no trabalho de transformação perispiritual.
Aos poucos, percebeu que a imagem das mãos e dos pés bem como o volume do corpo, que mantivera sob a impressão da altura correspondente à época do desenlace, ia modificando-se, adquirindo formato maior e mais esguio. Nenhuma sensação de agrado ou desagrado lhe deu qualquer noção de que providenciava as alterações planejadas. Quando tocou o rosto, sentiu na pele dos dedos o raspar dos pêlos duros de uma barba de dois dias, recordação antiga que se integrava perfeitamente no saber atual. A pergunta era inevitável:
— Doutor Edgar, se eu quisesse recuperar uma aparência de mulher de encarnação mais antiga, sentiria o toque de acordo com a constituição masculina atual ou recuperaria também o aparato mental feminil?
— Você, particularmente, não tem condições de fazê-lo. Se tivesse, iria estar tão adiantado nesse setor dos conhecimentos físicos e morais (integrados como um único elemento intelectual e sensual) que não notaria nenhuma diferença e não sentiria qualquer prazer ou desprazer, conforme a mesma reação que teve ao se desenvolver para uma estatura que, na derradeira vida, não foi atingida. Mas a sua pergunta demandará explicações bem mais profundas, do ponto de vista filosófico ou existencial, para as quais irá ter de preparar-se em cursos que nunca freqüentou, apesar de possuir inteligência desenvolta e agudo sentido de observação. São, porém, ingredientes da personalidade adquiridos em situações morais específicas dos seres humanos. Sendo assim, terá de extrair inúmeros preconceitos agregados à sua maneira de ser, esses, sim, a oferecer-lhe motivo para algum sofrimento, porque você não poderá trabalhar apenas com hipóteses. Antes, terá de envolver-se consigo mesmo, para o que lhe daremos adequada sustentação fluídica, para que possa suportar as pressões da própria organização de sua consciência em formação.
Edgar só não prosseguiu porque Ari estava empolgado com o corpo que lhe fora atribuído pelo mentor, não sem deixar escorrer duas lágrimas, como a lamentar a perda de um ente muito querido.



13. UM GRANDE SUSTO

Estava Ovídio distribuindo alimentos aos mendigos da praça. Passava da meia-noite. Os obreiros e os pastores, com os repórteres da igreja, tinham partido. Cleto ficara para trás, porque havia dois sacos de pães e alguns mais de roupas para distribuir. Com eles, o motorista do Bispo Moisés, o mesmo segurança que acompanhara os irmãos à casa dos pais e o Pastor Honorato. Eram cinco e o pessoal a atender inumerável, famílias inteiras de sem-teto, muitos homens caídos, bêbados, jovens sob efeito de craque e maconha, crianças a chorar, sob os impropérios dos insones.
Enquanto Ovídio e Honorato iam passando agasalhos e sanduíches, Cleto preenchia fichas e mais fichas, com os nomes dos miseráveis, na tentativa de identificá-los, segundo o registro que consultaria no dia seguinte na sede do templo, a fim de caracterizar quantos eram novos e quantos não tinham dado atenção aos apelos anteriores da busca da palavra do Senhor.
O guarda se mantinha pronto para entrar em ação, caso algum abusado investisse contra os missionários. O motorista não ficava ao volante, mas vigiando de longe a perua, que mantinha com a trava do câmbio acionada, zelando pelas chaves escondidas.
A zona era de muito perigo, principalmente porque estavam os necessitados invadindo a região do comércio, o que, como era sabido dos bons samaritanos, propiciava emprego a muitos malfeitores encarregados de afastar à força os que se atrevessem na área que reputavam oficialmente e por direito das taxas e impostos pagos de seu domínio.
Outro risco era o das ações dos traficantes enganados por consumidores inadimplentes, os quais não hesitavam em atirar nos devedores e em quem os pudesse reconhecer.
Finalmente, podiam ocorrer batidas policiais, pela desconfiança de que marginais estivessem escondidos entre os párias da mendicância, em especial quando se davam rebeliões nas cadeias, com fugas de presos.
De repente, diversas viaturas policiais surgiram de vários pontos da praça, faróis que se acenderam de súbito, despejando enorme contingente fortemente armado. O povo parecia acostumado com a brutalidade uniformizada e não deu mostras de temer os abusos. Não houve um só que não fosse intimado a mostrar os documentos. Efetuaram-se diversas detenções, justamente dos que não portavam identificação. Esses foram simplesmente arremessados no camburão, com ameaças e palavrões. Houve um que recebeu saraivada de golpes, porque possuía um canivete cuja folha retrátil saltava para fora do cabo a um simples toque no botão. Armas de fogo não foram achadas e a operação não durou mais do que trinta minutos.
Os cinco homens da igreja foram reunidos e forçados a acompanhar os policiais à delegacia. Norma do novo delegado.
No caminho, Honorato, através de seu telefone celular, alertou o pessoal da sede, dando-lhes as coordenadas da ação. A resposta veio de imediato:
— Não se preocupem. Mandaremos a força advocatícia, com o apoio logístico do Bispo Moisés.
Brincavam, naturalmente, cônscios de que nada havia para temer. Entretanto, assim que o grupo chegou ao distrito, foram os cinco recebidos na porta pelo delegado que se transferira há pouco, aquele mesmo do entrevero com Ovídio, Doutor João da Silva Medeiros, que já está passando da hora de apresentar aos leitores.
Anacleto sentiu um leve puxão na camisa. Era Ovídio a demonstrar quem era a figura.
“Vamos ter uma cena”, refletiu o jovem candidato a pastor.
Mas a recepção da autoridade foi surpreendentemente conciliadora:
— Vejo que o meu amiguinho Ovídio, finalmente, deu o ar da graça. Você deve ser o irmão dele, Anacleto Saldanha, pois não?
— Muito prazer, Doutor...
O delegado declinou o nome e convidou os dois a entrarem em seu gabinete. Contudo, Honorato, que estava a par do que acontecera, buscou interceder pelos rapazes:
— Doutor Medeiros, por favor, não me deixe de fora. Afinal de contas, sou o responsável eclesiástico, por assim dizer, dos irmãos Saldanha.
— Sei quem o Senhor é, Pastor Honorato. Fique sossegado que reconheço o poderio de sua igreja e que não vou abusar do meu direito de retirar de circulação dois cidadãos contra quem existe mandado de prisão. Em todo caso, entre também, para que, mais tarde, ninguém me acuse de excesso de autoridade.
Enquanto os quatro se acomodavam no recinto fechado, o segurança como que passou em revista a turma designada para os trabalhos noturnos, tendo tido a satisfação de cumprimentar três amigos dos tempos em que pertencera à corporação. Suas relações eram cordatas, tendo havido várias prestações de mútuos serviços, o que permitia ao empregado do pastor entender-se a respeito dos interesses do delegado quanto a reter os dois irmãos. Foi assim que ficou sabendo, muito discretamente, que o aparato militar contra os pedintes e caterva encobria o real objetivo de capturar os protegidos da igreja.
Munido do mesmo celular, o ex-policial encareceu a necessidade de se tomarem providências urgentes, relatando o que ouvira diretamente ao Bispo Moisés.
Enquanto o socorro não chegava, Medeiros pressionava Ovídio de forma muito delicada:
— Tenho obtido informações a seu respeito, meu jovem. Sei que está morando no local de trabalho, que tem freqüentado a escola, que tem ido a alguns bailes da pesada, que tem consumido drogas...
Ovídio desejou interromper o delegado mas Cleto, sentado ao lado, segurou-lhe a mão, pressionando-a significativamente.
João percebeu o gesto e sorriu. Depois ofereceu a palavra a Ovídio:
— Se estou dizendo alguma coisa que contrarie os fatos, conteste à vontade.
— Tudo bem. O Senhor pode prosseguir.
— Claro que posso. E vou. Sei que tem adquirido bebida alcoólica e cigarros e que tem levado para dentro do templo. Imagino que leve também maconha, craque e cocaína, mas isto eu não posso comprovar.
Dessa vez, Honorato não se conteve:
— Doutor João, o Senhor está comprometendo os pastores e quantas mais pessoas de bem são abençoadas por Jesus, em nome de Deus, sem que possa justificar a sua acusação, conforme o Senhor mesmo afirma estar imaginando.
O delegado recostou-se na cadeira de alto espaldar, fê-la girar na direção do pastor e se pronunciou, impregnando a voz de absoluta seriedade:
— Meu amigo e prezado Pastor, não se abespinhe, que não vou formalizar nenhum boletim de ocorrência, mesmo porque a nossa conversa é reservada. Com certeza, o Senhor está a par de que esse seu amiguinho me encostou uma lâmina na barriga, obrigando-me a entregar-lhe carteira, documentos, o relógio e até o paletó. Só não me levou a arma porque o inepto não percebeu que havia uma no coldre do cinto que fiz girar para trás. Se quisesse abatê-lo, poderia ter feito pelas costas, que os dois meliantes que o acompanhavam nem armados estavam. Agora, não me venha com histórias de Jesus Cristo nem de Deus. Vamos ficar por aqui mesmo, numa boa, porque não pretendo mandar de volta o menino para o reformatório, vamos dizer assim. Quanto ao mais velho, salvo o fato de ter providenciado o desaparecimento das prateleiras da drogaria de certos produtos de tarjas vermelha e preta, com que finalidade desconheço, não tem feito outra coisa além de seduzir a filha do dono e enganar os trouxas com a história de que se reformou, de que não mais pratica o tráfico, porque Jesus lhe apareceu e lhe deu alvará para ser perfeito.
Anacleto percebeu que algo soava muito falso na pregação do delegado. Por isso, não se estimulou a oferecer defesa, encarando as informações como produto da experiência de quem já lidou muito com a criminalidade e seus adeptos.
“Esse sujeito está plantando verde para colher maduro”, concluiu. Mesmo assim, para dar a impressão de que se ofendera, levantou a mão, como um aluno disciplinado a solicitar ao mestre permissão para falar.
O delegado não foi muito cordato desta vez:
— Se for para dizer que estou mentindo, é melhor calar-se, porque não é remota a hipótese de que posso lançar mão dos recursos de investigação que o governo proporciona. Em todo caso, diga o que seja para se defender.
— Desculpe-me, Doutor, mas Vossa Excelência está enganado. Não me admira o fato de saber como é que me apresentei aos crentes de nossas dioceses, porque foram atos públicos e nós não pedimos documentos às pessoas que nos procuram. Lamento que não o tenha reconhecido nalgum dos cultos de que participei. No entanto, se o Senhor quiser, tenho diversos vídeos integrais de minhas confissões e posso oferecer-lhe para acompanhar os documentos com que formulará as acusações contra mim. Se tiver de me apresentar perante o tribunal dos homens, estou às suas ordens ou de qualquer juiz investido de autoridade. Se, mais ainda, for condenado, embora injustamente do meu ponto de vista, porque me considero redimido, livre dos meus pecados, esforçando-me por compreender os desígnios de Deus para comigo, oferecendo aos pobres, nas praças e debaixo dos viadutos, de onde fomos bruscamente subtraídos ainda há pouco, a comida e a roupa que eles não têm, ainda assim me resigno a aceitar a sentença. Não veja, porém, nestas minhas expressões, nenhum desrespeito à sua autoridade policial nem à sua condição de filho de Deus, meu irmão e parceiro, nesta caminhada rumo ao Reino. Quanto ao meu mano Ovídio, recebeu o Bispo Moisés a palavra de honra do Senhor Delegado de que somente o recolheria, se ele se apresentasse ao crime de novo e lá onde o Senhor se encontrava. A sua transferência para esta região, quero crer, não afetará o seu voto de manter-se...
Não pôde prosseguir, porque a reunião foi interrompida. Era o guarda anunciando a chegada do Bispo Moisés e de dois advogados.
— Acomodem-se, por favor! — Era o Doutor Medeiros a oferecer as poltronas que os rapazes deixaram vagas, indo eles ocupar as duas cadeiras que vieram da outra sala.
Moisés foi diretamente ao ponto:
— Sei que o Senhor, meu amigo, não pleiteou à toa sua transferência para esta cidade. Veio com o intuito de se aproximar destes jovens. Nem a diligência desta noite teve nada mais em mira do que esta reunião, modo muito criativo de equacionar um problema que precisamos resolver. Há duas modalidades de solução. Vou tentar a primeira. Ovídio, por favor, peça perdão à autoridade que você ofendeu.
Pego de surpresa, o rapazelho titubeou e precisou de alguns segundos para se refazer do choque. Mas os pensamentos se desembaraçaram com rapidez, de sorte que lhe voltou a presença de espírito que os longos pronunciamentos haviam proporcionado. Tentou organizar algo com concatenação, mas a premência da imposição do bispo fez com que improvisasse:
— Doutor Medeiros, queira aceitar o meu pedido de desculpas. Devo dizer que o tempo que passei preso apenas aumentou o meu desejo de vingança. Mas a liberdade me fez ver que o Senhor estava com a razão e eu pude me arrepender de todos os meus crimes e vícios. O Senhor sabe muito bem os horrores que vivem as crianças e adolescentes nas mãos dos depravados. Aquela parte de noite que passei na delegacia, eu acho, foi o bastante para me fazer reconhecer o quanto fui injusto para com meus pais. Mais tarde, ferido no meu orgulho, precisei de todas as forças de minha inteligência para me manter inteiro dentro daquele covil... Naquela época, não faz tanto tempo assim, eu falava palavrões e me calava, fazendo-me misterioso. Correu que eu havia ferido gravemente um delegado. Deixei que acreditassem nisso. Era melhor para minha segurança. Mas voltar para lá, eu lhe peço, por amor de Deus, eu não quero, principalmente depois que conheci tanta gente de bem, tantos homens de Jesus; agora que sei o que é oferecer tudo o que se possui para tornar a vida dos outros um pouco mais digna. Não sei o que o Senhor quer exatamente de mim. Mas sei o que preciso dar-lhe para poder merecer a bênção de Deus. Bispo Moisés, muito obrigado por este momento em que pude dizer tudo o que venho armazenando em minha mente e em meu coração nos últimos dias, desde quando fiquei sabendo que o Senhor Delegado estava trabalhando na cidade. Podia ter fugido, mas estou preso à Igreja, ao meu irmão, aos pastores e aos bons amigos que fizeram da minha vida algo de valor. Se preciso dizer que nunca mais vou me drogar, eu digo, porque existem coisas no mundo de muito maior importância para um jovem fazer.
Ovídio tinha outras idéias que poderia desenvolver. Julgou, todavia, que tinha ido muito além do que precisava para demonstrar que não era tolo, que fugira uma vez e fugiria outras tantas quantas se visse detido.
O delegado tinha mais um ponto a observar:
— Eu não posso dizer que fiquei contente por me ver assaltado por um pivete de quinze anos. Mas não aceito a acusação de que pedi transferência para satisfazer meus desejos de vingança. O que me trouxe foi a idéia de ter sido enganado, quando o Senhor Bispo lá esteve a se entender comigo. Só depois é que fui comunicado de que Ovídio matou dois menores durante a fuga.
Ovídio quis protestar mas Moisés fez-lhe um sinal para que deixasse o barco correr. Medeiros prosseguiu:
— Vim para reparar um erro muito grave, porque me julguei pessoalmente envolvido. Contudo, há menos de uma semana, em contato com as autoridades responsáveis pela apuração dos crimes, fiquei sabendo que o meu desafeto não teve nenhuma participação nas mortes. Disseram-me, também, que se aproveitou da sedição dos menores para pôr em andamento um inteligente plano, o qual incluiu o achaque ao próprio pai, que lhe deu todo o dinheiro que levantara, pensando que iria ser utilizado para uma tatuagem intimidadora. Todos estão a par disso?
Ninguém deu demonstração de que se interessava pela narrativa. Medeiros, então, desejou pôr um ponto final no que chamou de qüiproquó:
— Eu poderia ter ido atrás dos dois, para nos entendermos. Como, porém, seria recebido? Era a minha incógnita. Trouxe-os aqui, na esperança de promover justamente este distúrbio para despertar a comunidade religiosa para o meu conflito entre cumprir o dever e fechar os olhos. Aceito a ação dos pastores e do Senhor Bispo e não ponho em dúvida que Ovídio e Anacleto estejam falando a verdade. Peço, porém, aos responsáveis por eles, ou melhor, pelo Ovídio, porque a Anacleto já não se podem imputar os crimes cometidos durante a menoridade, uma vez que, sagazmente, permitam-me lembrá-lo, desejou enganar-me, oferecendo teipes que não significam mais absolutamente nada. Vão em paz; mas não pensem que conquistaram a minha simpatia. No máximo, digo-o com franqueza, me comprovaram que são muito espertos e inteligentes. Se crêem realmente em Deus, como afirmam, irão criar juízo e nunca mais cairão nas malhas da lei.
As derradeiras palavras não impediram que Honorato estendesse a mão para demonstrar que agradecia o gesto generoso e magnânimo. Os dois advogados também se despediram protocolarmente. Anacleto hesitou em oferecer a mão, mas Medeiros tomou a iniciativa. Quando chegou a vez de Ovídio, o delegado pôde observar que o garoto tinha os olhos úmidos e disfarçava as emoções. Puxou-o para si e o abraçou, sussurrando-lhe ao ouvido, sem que ninguém mais ouvisse:
— Sou eu que devo pedir-lhe que me perdoe! Lembre-se de mim em suas orações.
Aturdido, o moço não soube o que responder. Recebeu sobre o ombro o braço do irmão e se retiraram, ficando para trás apenas Moisés, que solicitou que todos se fossem, ficando apenas o motorista e o segurança.
Fechada a porta do gabinete, Moisés tomou a iniciativa:
— Falei em duas saídas. Estou contente de que a primeira tenha sido satisfatória. Mas não posso deixar de ouvi-lo quanto à segunda. Com quanto devo contribuir para as obras sociais em que o Senhor está envolvido, porque não ignoro que tem freqüentado um centro espírita muito carente, onde tem posto boa parte de seu ordenado?...
Medeiros observou atento todas as nuanças fisionômicas do pastor, sendo incapaz, no entanto, de penetrar no âmago dos sentimentos do outro. Mas considerou a proposta honesta, porque lhe havia dado a oportunidade de uma decisão consciente, tendo em vista o destino do dinheiro. Resolveu, todavia, rejeitar a oferta, por mais substanciosa pudesse ser, não tendo como justificá-la perante as discrepâncias doutrinárias das duas instituições. Respondeu, simplesmente:
— Compreendo que Anacleto e Ovídio signifiquem muito para a sua igreja, porque são conquistas valiosas, como pude avaliar através de suas lúcidas exposições. Mas não vou me aproveitar desta oportunidade para cumprimentar com chapéu alheio. Caso, um dia, se fundirem as diretrizes doutrinárias das duas tendências filosóficas e religiosas, as trocas de favores se sedimentarão no princípio da caridade. O Senhor deve ter percebido que tenho problemas sérios na formação dos profissionais da repressão ao crime. Procure ajudar-me educando o povo nas leis de Deus, fazendo com que as famílias se reúnam em torno do bem e do amor. Eu me sentirei reconfortado, se o meu amigo Moisés retirar a proposta. Obrigado.
O acordo foi selado com um longo aperto de mão, reiterando o bispo que o delegado poderia contar com ele para o que fosse.



14. DE CECA EM MECA

Plínio recebeu, por telefone, a notícia de tudo quanto se passou com os filhos. Julgou-se em débito para com o Doutor João, ficando altamente estimulado a ir visitá-lo, para agradecer o irrestrito perdão ao agressor.
“Esse homem deve ser uma pessoa íntegra. Disseram que é espírita. Sendo assim, temos pontos de contato muito íntimos, em nome de Kardec. Será que possui mediunidade?”
A partir dessa hipótese, começou a engendrar um plano que incluía os amigos do etéreo, desejoso de ver sua correspondência entregue diretamente, numa sessão, por meio de pessoa que desconhecesse por completo os fatos e os nomes.
“Seria o máximo da comprovação de que os espíritos existem e atuam segundo os princípios consignados nas obras.”
No entanto, a desejada visita sofreu uma contrariedade, porque imaginou que Cleto iria querer conduzi-lo ao templo, fazendo-o ouvir as pregações, talvez ditas pelo próprio aprendiz de pastor, em convite que poderia estender-se ao atendimento noturno dos miseráveis, conforme tinha ele começado a narrativa das aventuras policialescas.
“Eu vou, se insistir, porque preciso deixar de ouvir os pastores nos programas da televisão. Preciso sentir a vibração do povo reunido em preces e cânticos, na unção da palavra inspirada na Bíblia, segundo os procedimentos mentais de quem tem a fé sem análise, confiando em que Deus tenha dito realmente tudo o que foi a ele atribuído.”
Lembrou-se de que fazia muito pouco tempo que adquirira o novo aparelho, a pedido de Margarida, inferiorizada perante as amigas que acompanhavam as novelas, cansada dos livros romanceados dos autores espíritas, incapaz de estudos mais sérios e rigorosos dos textos básicos da doutrina. Foi assim que pôde Plínio avaliar o poderio de certas seitas, capazes de manter longos programas no ar, o que não encontrava no campo de divulgação do Espiritismo.
Estava, pois, interessando-se por ir ver os filhos, quando recebeu, no escritório, a visita de dois antigos colegas de firma, o Coelho e o Palhares, com notícias mais do que extravagantes.
Após os cumprimentos formais e ressabiados dos antigos funcionários, Palhares observou:
— Vejo que vocês estão se dando muito bem. Computadores de última geração. Impressoras, idem. Devem ter um movimento razoável!
Plínio se antecipou a Moacir e Silvinho:
— Temos muito de agradecer a Deus, com certeza, pois suas bênçãos de amor são diárias.
Coelho referendou:
— É visível que o trabalho de vocês está merecendo o amparo da Divina Providência. Deus os ajude!
Plínio, no entanto, estava curioso com a inusitada visita:
— A que devemos a honra?
Na qualidade de superior, Palhares informou:
— Tivemos um sério problema na empresa. Vou direto ao ponto. O protegido do patrão que assumiu o seu posto deu o maior desfalque nos cofres e desapareceu.
Plínio pensou: “Está veraneando no Nordeste.”
O outro prosseguia:
— Contratamos uma firma especializada em auditorias, a qual esclareceu todo o procedimento desonesto do sujeito, que acabou sendo localizado no Caribe. Ainda estamos lutando para reaver o dinheiro e extraditar o bandido. Isto posto, vou dizer o que nos trouxe aqui. Queremos que vocês administrem os nossos serviços de contabilidade.
Os três sócios entenderam-se com um simples olhar. Foi Plínio quem inquiriu:
— Vocês querem desfazer completamente o departamento, inclusive despedindo os empregados?
Desta vez foi Coelho quem esclareceu:
— Se for preciso, segundo o parecer dos novos responsáveis. Se julgarem mais cômodo manter o pessoal trabalhando na empresa, tudo bem. O que desejamos, na verdade, é ter a segurança de que as contas fiquem intactas, sem qualquer possibilidade de transferências de valores sem o aval da diretoria.
Plínio sentia uma enorme comichão de contar que sofrera a tentação dos desvios dos fundos. Conteve-se, entretanto, considerando perigoso que suspeitassem de que havia facilitado a indébita apropriação. Considerou, simplesmente:
— Vamos fazer o seguinte: Moacir, Silvinho e eu iremos realizar um levantamento da papelada (faturas, balancetes, haver e dever do caixa etc.) Discutiremos, entre nós, qual a solução mais viável para que a empresa se assegure de que tudo está sob controle. Depois chegaremos nós todos a um acordo.
Foi Palhares quem perguntou sobre datas, prazos e importâncias. Silvinho demonstrou, pela tabela de preços e pela agenda dos serviços, que nada seria cobrado além do normal dos escritórios do ramo. A única exigência era a formulação de contrato de prestação de serviços que deveria ser aprovado pela diretoria.
Desse modo, os sócios puderam voltar ao antigo prédio, de onde haviam sido despedidos sem glória, para a oportunidade da reconciliação.
Enquanto iam realizando as preliminares, conversaram sobre o que poderia levar uma pessoa religiosa a falcatruar. Foi quando Plínio, muito a medo, lhes confessou aquelas íntimas necessidades de desvario material, quando estava completamente deprimido pelas condições de sua inferioridade em todos os setores da vida.
Silvinho concluiu:
— Mas você superou a crise.
— Fui superado por ela, porque os acontecimentos se precipitaram, como se os meus guias, velando por mim, desencadeassem as desgraças de quase dois anos atrás. Não estou dizendo que são eles os responsáveis pela morte do meu Arizinho. Mas os acontecimentos se encadearam para o infeliz desfecho, não me permitindo sequer uma reação de desespero, porque precisei cuidar de Margarida e da casa, para restabelecer os ideais da juventude, agora sobre as bases da doutrina espírita. E a quem devo tudo isto? A vocês, naturalmente.

Foram dois meses de preocupações profissionais, sem que, no centro, ninguém recebesse nenhuma mensagem assinada pelo espírito João Evangelista.
Houve tempo, portanto, para que Plínio e Margarida mobiliassem o quarto dos filhos, porque consideravam que estariam eles seguros lá depois dos entendimentos com as autoridades.
Não obstante, Margarida insistiu para que fossem dar um abraço no Doutor João. Queria ter certeza da disposição moral do delegado.
Plínio ponderou:
— E se o Cleto nos arrastar para o templo? Não teremos de engolir as nossas convicções para não sermos sem educação?
— Para ver de novo os meus filhos e conhecer a minha futura nora, faço qualquer sacrifício quanto às convicções religiosas. Como é que você está se sentindo entre os crentes da empresa? Acho que, entre os nossos filhos, sempre deveremos estar muito bem.

Num sábado bem cedo, estava o casal aportando no saguão da estação rodoviária. Lá estavam Cleto e Vidinho, impando de alegria e saudade.
Depois de comovidos abraços, Cleto se manifestou favorável à viagem por ônibus:
— Foi bom que vocês não vieram de carro. Agora teremos bem menos preocupações, porque um bom motorista está à nossa disposição.
Realmente, a pequena bagagem logo foi colocada no porta-malas do carro e Plínio teve oportunidade de cumprimentar aquele mesmo chofer da viagem dos rapazes.
— Para onde, Pastor? — perguntou-lhe o motorista.
— Para a residência do delegado, Doutor João.
Plínio intrigou-se:
— Pastor? Como pastor?
Ovídio quis dar a boa nova:
— O Cleto passou pela prova com distinção e já realizou várias pregações, incitando os crentes a cumprirem a palavra de Deus.
— Vocês não me disseram nada.
Ovídio explicou:
— Vale a surpresa. Eu queria escrever para que vocês viessem assistir à primeira apresentação. Mas o Cleto, desculpe, o Pastor Anacleto me proibiu.
Cleto estava sentado no banco da frente. A mãe o agarrou e o beijou com muita emoção, enquanto recebia uns tapas nas costas aplicados afetuosamente pelo pai, que afirmava:
— Estes meus filhos vão longe, vocês vão ver.
Passado o momento de euforia, Plínio caiu na realidade:
— Vocês, tão ligados aos crentes, estão indo para um centro espírita?
Cleto corrigiu-o:
— Vamos para a casa do delegado. É diferente. Mas se nós fôssemos vê-lo no centro, pode crer, meu pai, que não seria a primeira vez. Aliás, o Vidinho freqüenta regularmente as sessões de palestras e me põe a par dos temas discutidos pelos expositores.
Plínio não conteve o assombro:
— E o que os pastores acham disso tudo?
Foi Ovídio quem respondeu:
— Eles não põem muita fé na minha conversão. Acham que estou pendendo muito mais para os espíritas do que para os protestantes. Tanto que pediram para o Cleto me controlar...
O irmão incomodou-se:
— O que eles pediram foi para que não deixasse você participar das reuniões com os espíritos, porque, enquanto a nossa igreja liberta as pessoas das possessões dos demônios, os espíritas agradam esses seres malignos, recebendo-os em seus corpos, sem perceberem os males que causam. Mas não é hora de discutirmos isso, especialmente porque todos nós sabemos que o pai faz exatamente assim. Não vamos magoar ninguém, pelo amor de Deus, que todos temos de respeitar o livre-arbítrio de cada um, conforme tenho lido exatamente nos livros espíritas de Kardec. Isto eu estou dizendo e já afirmei perante os bispos reunidos. Cada um tem o seu ponto de vista e, se a gente for tomar atitudes acintosas...
Margarida interrompeu o filho, enlaçando-o e impedindo que prosseguisse. Cleto se deixou levar pelos afagos da mãe e calou-se. Foi Plínio quem tentou desfazer o mal-estar:
— Quando as pessoas estão fazendo o bem para com os semelhantes, não podem ser acusadas de jogarem fora a vida que Deus concedeu. Naquele tempo em que vocês traficavam e se drogavam, podiam merecer a minha censura. Agora não. Agora vocês estão preocupados em progredir, em evoluir, e isto não vai provocar em mim nenhuma palavra agressiva. Jesus sabe como alcançar a todos nós. Haverá um tempo em que nos reuniremos aos pés do Senhor, porque não podemos crer que vamos passar toda a eternidade nas esferas dos sofrimentos.
Sagazmente, Ovídio observou:
— Pai, é melhor o Senhor ir por outro caminho, porque tem gente que não acredita que haja lugar para todos no Reino de Deus.
Foi quanto bastou para que todos fizessem silêncio até o carro estacionar defronte da residência do delegado.
Para desfazer o ar gélido, Plínio perguntou:
— Estamos sendo esperados?
Ovídio respondeu:
— Claro! Eu não queria correr o risco de que vocês perdessem a viagem.
Nesse meio tempo, Cleto desculpou-se, dizendo-se ocupado no templo, combinou que voltaria dentro de uma hora e levou o carro embora.
Os três foram recebidos pela empregada e conduzidos a uma sala de estar:
— O Doutor já vem! Querem um refresco, um café?...
Margarida agradeceu e a moça deixou-os.
Plínio aproveitou aquele momento com o mais novo para interrogá-lo:
— Parece que você está de bem com a pessoa que agrediu. É admirável! O Cleto não está enciumado?
Margarida interferiu:
— Imagine se uma pessoa que está se tornando tão importante vai ter esse sentimento mesquinho! Aposto que ele também tem vindo cumprimentar o homem que perdoou aquele ato da mais pura...
Não soube como caracterizar a ação do filho sem ofendê-lo. Então calou-se. Mas Ovídio não se deu por achado e afirmou:
— O pai está certo. Cleto tem estado muito nervoso. Eu não quis dizer no carro, mas ele está com medo de perder as regalias, porque não consegue me convencer a não ir ao centro. Lembram-se de que eu queria voltar para casa? Pois agora estou querendo mais do que nunca. Eu sei que vou ter dificuldades com a transferência de escola, mas, como está quase no fim do ano, assim que me livrar, vou voltar correndo, mesmo que o meu quarto não esteja preparado.
Não deu tempo para que a mãe falasse sobre a arrumação do dormitório, pois o Doutor João entrou, distribuindo sorrisos:
— Ovídio, esta é aquela senhora que mereceu de Jesus receber a saúde de volta? Como está, Dona Margarida?
Sem que pudesse obstar, Medeiros viu sua mão arrebatada pela senhora e levada a beijar, com palavras de agradecimento:
— Muito obrigada, Doutor! Deus lhe pague! Deus lhe pague! Os meus filhos lhe devem a vida!
— Ora, ora! Por favor! A Senhora está me deixando encabulado.
Plínio tomou a esposa pelos ombros, para garantir que não dobrasse os joelhos emocionada. Lágrimas espontâneas de profundo reconhecimento rolavam pelas faces da mulher, contaminando de puras vibrações os outros três.
Mas João se recompôs, acostumado com cenas desse gênero no exercício da profissão. Foi logo buscando desviar-se do centro das atenções, cumprimentando Plínio:
— Sabe que eu queria muito conhecer o Senhor, Seu Plínio? Ovidinho me mostrou a mensagem do meu xará, o Evangelista, que o Senhor psicografou. Maravilhosa mensagem! Espero que venha recebendo outras de mesma categoria. Sei que é preciso de muita coragem para escrever o nome de personagem tão ilustre e importante...
— Perdão, Doutor — interrompeu Plínio —, mas nós viemos para demonstrar a nossa gratidão e a nossa felicidade por ter o Senhor perdoado o gesto do nosso menino.
A partir daí, a conversa girou em torno dos problemas da juventude viciada, chegando até os procedimentos possíveis para que a sociedade civil suplante o mal. Falaram das atividades assistenciais dos centros espíritas e da atuação governamental. Logo o advogado percebeu que o contabilista não ia muito fundo no exame social e psíquico do problema e derivou a conversa para a mediunidade, na esperança de conhecer o processo psíquico que gerou a prestação de serviço do outro às entidades do plano espiritual.
Quanto a Margarida, embebia-se na admiração da segurança verbal e emocional do anfitrião. Por seu turno, Ovídio ia firmando o desejo de formar-se advogado.
— Se vocês quiserem nos ajudar, teremos hoje, aqui em casa, às três da tarde, uma sessão particular, com alguns amigos. Toda semana, recebemos a visita de algumas entidades espirituais que trazem conselhos oportunos e esclarecimentos das dúvidas que levantamos nas reuniões de estudos.
Plínio interessou-se:
— Eu gostaria muito, porque terei oportunidade de testar a minha faculdade em outra situação.
Margarida, contudo, opôs-se terminantemente:
— O Doutor me desculpe, mas prefiro passar algumas horas mais com meus filhos. Neste último ano, se ficamos quatro dias juntos, foi muito.
O delegado concordou:
— Foi apenas uma idéia que me ocorreu. Eu estava sendo egoísta, querendo que o espírito de João Evangelista se manifestasse. Desculpem-me.
Plínio, porém, não queria perder a oportunidade:
— Se eu encontrar quem me traga, estarei aqui na hora. Penso que, às cinco, cinco e meia, estarei livre?...
— Com certeza. Mas se chegar antes das duas e meia, nós poderemos conversar a respeito dos trabalhos.
Um chamado de buzina indicou que Cleto estava aguardando os familiares.
Desse modo, às dez e meia, estavam reunidos na sede do templo, sendo apresentados ao Pastor Honorato e ao Bispo Moisés.
Margarida apertou as mãos dos dois, sem oscular nenhuma, mas agradeceu sobremodo comovida:
— Se não tivessem sido os senhores, os meus filhos estariam perdidos. Deus lhes pague!
Plínio afagava os cabelos da esposa, temeroso de que aquelas emoções fossem demasiado fortes para a sua frágil constituição psíquica. Ela, contudo, pelo contato com as vibrações do marido, manteve-se equilibrada e dona de seus sentimentos.
Moisés conduziu a conversa para o desempenho do novel pastor, elogiando muito a desenvoltura com que expunha os temas mais complicados da Bíblia:
— O seu filho é uma jóia preciosa. Nem precisa de muito burilar para luzir entre os melhores pregadores que temos. Fala com muita convicção e podemos dizer que nestes quinze dias de pastoreio conseguiu atrair muitas ovelhas para o aprisco da igreja.
Vamos poupar os leitores dos reiterados encômios. Ao final, Moisés prognosticou:
— Se as bênçãos de Deus, em nome de Jesus, continuarem jorrando sobre o seu rebento, posso dizer que não irá demorar muito para se tornar num dos principais pastores de visitação, com nomeada certa para a lotação das sedes regionais. É preciso, para isso, que continue estudando e se preparando, como vem fazendo até aqui, para não deixar passar a juventude, que é uma de suas armas mais eficazes. Vocês têm de concordar que se trata de um jovem muito bem apessoado, atraente, bonito, absolutamente elegante, valorizando os seus sermões com a moldura magnética da mais pura empatia espiritual.
Elogiado com tanta pompa, Cleto não sabia se olhava para o bispo, se buscava a confirmação na fisionomia do preceptor Honorato ou se consignava o orgulho que os pais deveriam estar sentindo. Se tivesse observado a reação de Ovídio, talvez pudesse deduzir que havia alguém que levantava sérias dúvidas quanto ao futuro do pastorzinho.
Foi Margarida quem provocou o parecer de Moisés quanto ao mais novo:
— E o meu Vidinho, está dando muito trabalho?
Moisés contemporizou:
— Ovídio tem altos e baixos. Ele é muito independente e não aceita os conselhos dos mais avisados. Para realizar os serviços que pedimos, está sempre pronto. Mas faz questão de bater asas e de voar bem alto nos momentos de folga. Ele pensa que a gente não sabe, mas tem ido muito ao centro espírita, com a desculpa de fazer amizade com o delegado que o perdoou. Deveria saber que o perdão vem de Deus e agradecer a Jesus ter inspirado um certo amor do ofendido pelo mequetrefe que o ameaçou de morte. Vamos ver aonde as coisas vão chegar. Aliás, vocês, que são pais de um jovem tão promissor dentro da verdadeira religião de Deus, devem abandonar o centro espírita, porque não está certo pensar que alguém pode receber mensagens de João Evangelista.
Plínio olhou com extrema severidade para Ovídio, mas Moisés aliviou-o de tão grave carga, referindo-se a como obteve a informação:
— Não foi Ovídio quem delatou o pai. Tenho aqui comigo uma cópia da mensagem que foi distribuída no centro espírita. Vejam bem que não mantenho espião em tão insignificante aglomerado religioso. Pelos Correios, venho recebendo regularmente os impressos de diversas origens e a sua mensagem mereceu figurar em separata num jornal de sua congregação. Não vi nada de mais naquele texto. Aliás, tudo parece muito adequado para incentivar as pessoas a continuarem consultando os espíritos. É dessa maneira que o demônio explora a boa-fé dos inocentes e os mantém sob seu rijo controle. Se vocês dois se converterem à nossa fé, à verdadeira religião de Deus, irão facilitar enormemente o desenvolvimento de seus filhos, exemplificando, de maneira inequívoca, a força da pregação do nosso Pastor Anacleto. Peço-lhes que reflitam muito sobre o que estou falando, principalmente porque, se alguém levantar suspeita sobre a inoperância familiar do pregador, poderá causar problemas até a nós, que estamos dando-lhe cobertura e incondicional apoio.
Nem Plínio nem Margarida sabiam o que responder, tão inesperada foi a solicitação do bispo. Ficaram calados, simplesmente, imersos ambos em seus pensamentos: Margarida a se recordar de Ari, com o qual desejava continuar em contato, ainda que por informações de terceiros; Plínio a imaginar-se de volta ao emprego, entrosando-se com Coelho e com Palhares, freqüentando os cultos bíblicos em sua companhia.
O silêncio estava causando certo mal-estar, tanto que Honorato propôs:
— Vamos, caro Moisés, dar tempo ao tempo, porque as convicções não se firmam sem a intervenção de Jesus. Eu acredito que as nossas orações serão fortes para trazer o Espírito Santo à presença dos nossos irmãos e eles terão certeza de que estão sendo abençoados. Ainda vamos ter o prazer de batizá-los nas águas da fertilidade da fé.
— Deus o ouça, querido Honorato! Leve os nossos irmãos a conhecer o seu templo e depois traga-os para almoçarem comigo. Eles vão dar-me a subida honra de sua companhia. Aliás, hoje terei, em minha mesa, quinze pastores e respectivas esposas, o que vai ser muito animado.
Em vez, porém, de Cleto levar os pais a visitar o sagrado recinto em que exercia o seu ministério de amor, preferiu conduzi-los à moradia de sua paixão, Aurélia, liberando Honorato para ultimar as providências dos cultos da tarde.
A visita deveria ser muito rápida, conforme haviam planejado os namorados, porque não via Cleto muitos pontos de sintonia entre os sentimentos dos sogros. No entanto, não foi o que ocorreu, porque os mais velhos ferraram numa conversa franca a respeito dos valores da vida, uns enfatizando que os cuidados com a saúde geram condições de superior entendimento das relações com o Criador, pela felicidade corpórea (e por isso insistiam em estender sua rede de farmácias e drogarias), enquanto os outros, concordando, desejavam ainda superar as dores físicas e mentais pela proclamação de que a consciência tranqüila pode vencer todas as crises materiais (referindo-se aos sérios problemas com as drogas, os furtos e o tráfico, que redundaram na perda de um dos filhos).
Ao meio-dia, Cleto fez com que se despedissem, com grande mágoa de todos pelo inexpressivo desenvolvimento de suas teses, prometendo-se correspondência, porque os pais de Aurélia souberam testemunhar a força de vontade dos pais de Cleto, na compreensão do poder de Deus de dispor das vidas humanas, enquanto estes se entusiasmaram com o ideal religioso que visa ao progresso humano, através da doação intimorata de seu destino a Jesus.
No caminho de volta, Margarida fez questão de frisar:
— Cleto, veja se não vai perder essa garota. Ela é linda e sua formação moral e familiar é perfeita. Aposto que ela ama você de todo o coração. Não vá decepcioná-la nunca na vida.
Plínio admirou-se dos elogios mas calou-se, porque também achava que o filho só tinha a ganhar mantendo-se como membro de família proprietária de tantos bens. Mas os seus pensamentos não pendiam para o mesquinho. Antes, dispunha os raciocínios em ordem crescente de vantagens, a partir do fato de que, em seu lar, o jovem alcançara apenas destaque entre os marginais. Foi quando percebeu que as mãos estavam trêmulas, o que Ovídio notou e fez questão de referir:
— Pai, que está acontecendo? Você não está passando bem?
Correu Plínio a justificar-se:
— Tenho meditado bastante sobre os acontecimentos que envolveram vocês dois. Fico muito triste comigo mesmo, quando me recordo de que vocês se viram na necessidade de fugir de casa. Diante do acolhimento de tanta gente boa, sinto-me muito mal.
Margarida foi mais prática:
— Eu reparei que você não tomou mais do que um cafezinho e não tocou sequer numa bolachinha. Deve estar fraco, porque está apenas com o copo de leite que tomou lá em casa.
Plínio concordou com a cabeça, enquanto Ovídio lhe massageava as mãos, buscando aquecê-las. Ao chegarem ao restaurante em que almoçariam com Moisés, Plínio já estava bem.
Enquanto os pastores demonstravam enternecida simpatia pelo novato do grupo e seus progenitores, chamando-os de meu irmão e minha irmã, Ovídio desapareceu, tendo sussurrado ao ouvido do pai que ia providenciar condução para logo mais, quando voltassem à casa do delegado. A lembrança alertou Plínio para não exagerar na comida, pondo tento em não consumir carne nem em beber álcool.
Não pôde, contudo, fugir de sorver um caldo verde feito com pedaços de músculos de boi. Também teve de aceitar no prato um rotundo bife de filé mignon, do qual precisou comer um naco, por insistência de Moisés, que se situava três cadeiras apenas distante da sua e controlava o que o casal ia consumindo. Quanto às bebidas alcoólicas, estavam proibidas, uma vez que todos os pastores iriam pregar ou à tarde ou à noite. Não obstante, Moisés levantou um brinde simbólico com refrigerante, em honra ao casal que se dignara aceitar o convite do almoço, apesar de não se filiar à doutrina evangélica do filho.
Tanto bastou para que chovessem perguntas incômodas, até que os casais terminaram por deixar o trio isolado, Margarida, Plínio e Cleto, este absolutamente desolado pelo que considerou como falta de tato do bispo.
Plínio, contudo, viu-se em situação favorável para uma retirada estratégica, alegando que gostaria de visitar o templo do filho.
Às duas horas, conheceram o dormitório dos irmãos, admirando a simplicidade dos móveis, a limpeza do recinto, a pequena biblioteca com todos os livros encadernados e um belo computador, com os recursos mais modernos de reprodução de som e de imagem. Cleto fez questão de mostrar o arquivo em que guardava os sermões preparados e os em fase de elaboração.
Plínio levantou uma hipótese:
— Você tem toda a possibilidade de não se repetir jamais, mesclando uns com os outros. Já pensou nisso?
— Claro, pai! É como venho aperfeiçoando a parte que levo memorizada, porque o principal está em simples anotações das passagens bíblicas. O mais importante, contudo, reside na entonação da voz. Por isso, mantenho um arquivo de vídeos. Mas não vou mostrar nenhum por absoluta falta de tempo, pois, às três, tenho inadiável compromisso, como fiz questão de lhes informar quando vocês avisaram que viriam. Está claro que vocês vão comparecer e acompanhar o culto...
Inesperadamente, Plínio se viu livre para ir à reunião mediúnica, por uma intervenção da esposa:
— Eu vou, sim. Mas acho que o seu pai precisa ficar descansando, senão acaba sentindo-se mal de novo. Ovídio fica com ele. Qualquer coisa, é fácil de chamar por ajuda.
Margarida estava sendo sincera e veraz mas Plínio e Ovídio calaram o seu intento de sair. Sendo assim, exatamente às duas e meia, enquanto Cleto recebia os fiéis à porta do saguão principal, providenciando para que fossem bem acomodados, Plínio era recebido por João e conduzido ao escritório da residência para as prometidas explicações.
— Chamei-os reservadamente, porque desejo preveni-los quanto aos aspectos especiais da nossa reunião. Quando me mudei para cá, encontrei esta casa com um belo salão ao fundo. O interessante é que era sublocado para um grupo umbandista, o qual me pediu para manter o seu pequeno santuário intacto. Não me opus e agora eles se utilizam da antiga garagem durante a semana, entrando e saindo por uma porta independente. Aos sábados, quando não há atividade no centro, vários companheiros médiuns vêm para cá, a fim de conversarem mais livremente com os protetores, sem o compromisso da doutrinação de espíritos obsessores. É uma sessão em que as pessoas conversam com as entidades, interrogando-as sobre temas variados, sempre no sentido de esclarecimento de dúvidas surgidas nos estudos das obras de Kardec e outras. Temos tido a sorte de sermos atendidos por amigos bem gabaritados, claro que não da categoria de um João Evangelista. De qualquer modo, peço que não estranhem o ambiente fora e dentro. No jardim, vocês vão ver certas plantas místicas, como arruda, espada-de-são-jorge, mentruz etc. Lá dentro, existe um altar vedado por um cortinado meio transparente, onde poderão divisar os petrechos utilizados para homenagear os guias e santos dos cultos da Umbanda. Se quiserem, depois da reunião, poderemos visitar o lugarzinho reservado, sem qualquer risco de ofender os orixás.
Plínio desejou expor o seu desconhecimento dessa espécie de religião:
— Eu nunca estive num terreiro, por isso para mim haverá de ser novidade participar de um culto dessa espécie.
João, contudo, dissuadiu-o dessa expectativa:
— Nós faremos uma reunião mediúnica nos moldes daquelas do centro. Nesta hora, os médiuns estão concentrando-se, após as leituras habituais de alguns trechos dos livros de Kardec. A única diferença significativa é que a direção está sob a responsabilidade do plano espiritual e não de um doutrinador encarnado. Sendo assim, um dos médiuns recebe ou incorpora o espírito do principal espírito do dia, que pode ser um preto velho, um índio ou qualquer entidade com forte sotaque para a caracterização de seu nível evolutivo, como acontece com o Doutor Fritz, por exemplo, e essa personagem assume o comando, distribuindo as tarefas. No seu caso, meu caro Plínio, com certeza, vai ser encaminhado para a psicografia, para o que lhe darei papel e lápis. Eu mesmo só participo como escrevente. Não é um trabalho fácil, porque as conversas entre as pessoas e as entidades chamam a atenção para os temas e, muitas vezes, a gente perde a concentração, sem perceber que outras mensagens devem ser transcritas. Nesse caso, cabe ao orientador anotar a presença dos espíritos que desejam comunicar-se por escrito.
Ovídio estava sumamente curioso:
— Será que vai sobrar algo para eu fazer?
— Você vai prestar atenção nas conversas. Se houver alguma coisa em que possa ajudar, será avisado.
— É por causa da minha idade?
— Kardec trabalhava também com jovens de menos de quinze anos. Sendo assim, é preferível pensar que você está completamente cru, precisando desenvolver-se, o que se dará, se mantiver a concentração nas possíveis intuições que lhe passarem pela mente. Arme-se de papel e lápis e escreva, se algum tema lhe parecer estar sendo ditado do etéreo. Se estiver com medo...
— O Senhor sabe que bem pouca coisa me assusta no mundo.
— No mundo, bem entendido... E no plano sobrenatural?...
Os três riram, dando João por encerrada a introdução do médium à sessão que decorreria em seguida.
Plínio tinha diversas perguntas mas, devido ao horário, teve de sofrear os impulsos inquisidores.
Quando saíram para o quintal, o amplo jardim estava muito bem cuidado, não faltando rosas, cravos e crisântemos a chamar a atenção para a beleza natural das flores. O quarto dos fundos era bastante amplo e a longa mesa logo captou o interesse de Plínio, porque estava coberta de imaculada e alva toalha. Havia duas jarras cheias de água e diversos livros. As pessoas sentadas ao derredor mantinham-se de cabeça baixa, como a orar, deixando de notar a presença dos dois estranhos. Alguns vestiam-se de branco; a maioria, porém, trajava roupas comuns. Havia cinco homens e sete mulheres. Ao fundo, atrás do cortinado que escondia o altar, puderam observar uma vela acesa, porque bruxuleava, havendo também uma lâmpada de cor vermelha. O que era mais contundente para o modelo de centro espírita impresso na mente de Plínio era o forte odor de incenso, cuja fumaça se percebia diluída na atmosfera. Não era enjoativo mas também o médium não se agradou dele pela falta do hábito.
João indicou os lugares para o pai e o filho e sentou-se na cabeceira da mesa, longe dos dois. Após uns dois minutos de profundo silêncio, uma das pessoas se levantou, dirigiu-se até a porta, fechou-a, acendeu uma luz mais fraca, apagando as mais claras, tornando o ambiente obscurecido, porque as janelas tinham as cortinas fechadas. Mas dava para Plínio escrever, se fosse estimulado.
Aquela mesma pessoa elevou a voz e recitou a prece de abertura da sessão que se encontra entre as que Kardec registrou em O Evangelho Segundo o Espiritismo. Foi o que valeu para tranqüilizá-lo dos intentos do grupo.
Logo em seguida, a personagem em destaque modificou completamente a entonação da voz, passando a falar de forma rouquenha, quase incompreensível para os ouvidos desacostumados de Plínio. Mas entendeu ele que a entidade incorporada solicitava que os médiuns expusessem mentalmente os temas de seus interesses, de forma que pudessem obter os esclarecimentos solicitados. Quando Plínio começava a percorrer com a vista as pessoas ao derredor da mesa, foi convidado pelo orientador a escrever:
— Meu amigo, você está sendo requisitado por alguém que afirma conhecê-lo. Não perca tempo.
A partir daquele instante, Plínio se esqueceu por completo do local em que se encontrava, parecendo-lhe que flutuava, como quando entre os companheiros do centro. A mensagem começou de maneira bastante característica:
“Meus filhinhos, Deus ama a todos nós e nós devemos amar a Deus sobre todas as coisas, porque Deus é amor. E também, em nome de Jesus, devemos amar uns aos outros, sem nenhuma condição, porque a felicidade reside na doação de nossa alma à existência que nos ofereceu o Criador.”
Depois de escrever rapidamente por mais de uma hora e meia, Plínio assinou como João Evangelista, terminando a tarefa agradecido pela deferência da visita em hora e dia totalmente fora do contexto a que se habituara.
Se tivesse prestado atenção ao que ocorria entre os demais, saberia que havia bem cinco minutos que se fazia silêncio, no aguardo de que o recém-chegado terminasse a sua participação.
João foi quem tomou a iniciativa de encerrar, solicitando a todos que informassem caso não estivessem conscientes, insistindo com cada um em particular, para sentir-lhe a reação. O único que se esfalfara e que se encontrava ainda meio confuso era o que acolhera o guia. Mas recuperava-se, dando mostras de estar recebendo etéreas vibrações para restabelecimento fluídico.
Por isso, João fez questão de orar um pai-nosso, antes de efetuar a prece de encerramento; a mesma de Kardec.
Era chegada a hora das apresentações, estando todos voltados para quem escrevera com tanto desembaraço, tão velozmente e por tanto tempo. Era fato inédito naquela mesa.
João presidiu as apresentações e, em seguida, ofereceu-se para ler as mensagens:
— Além de mim e de Plínio, também Ovídio escreveu.
Este logo foi informando:
— Escrevi, sim, mas apenas tomei notas das idéias que julguei que poderiam ser discutidas ou pesquisadas. Nenhuma psicografia, se é esse o interesse dos médiuns.
Relutou Plínio quanto a entregar as várias folhas que preenchera com sua letra de escriturário:
— Não sei se os meus garranchos serão decifrados com facilidade. Não será preferível que leve para casa, transcreva e envie uma ou duas cópias para vocês?
— De jeito nenhum. Você não sai daqui sem nos dar conhecimento dessas preciosidades. Se não quer que eu leia, leia você.
Não havia como escapar, não obstante, Plínio ainda tentou um derradeiro argumento:
— As sessões do centro que freqüento são secretas, quando as mensagens trazem assinaturas de personalidades de renome. O espírito que assinou a minha página foi o de João Evangelista. Sendo assim, não gostaria de correr o risco de ser chamado disto ou daquilo, porque o meu trabalho foi febril e nem pude compreender direito tudo o que foi ditado.
— Isto todos nós vimos. A sua maneira de escrever foi febricitante, como você lembrou, mas nem por isso deve ter sido sem importância. De qualquer modo, leia para nós e, se julgarmos que o espírito veio para nos enganar, no que não acredito, pela paz e pela tranqüilidade em que decorreram os trabalhos, aí nós faremos rigoroso exame dos dizeres, quer quanto à forma, quer quanto ao conteúdo doutrinário. Antes de mais nada, quero dizer que o meu pedido foi satisfeito, porque desejei muito que o meu xará viesse manifestar-se neste humilde recinto. Vamos lá! Coragem!
Plínio não teve saída. Foi assim que, após ter lido o trecho da apresentação, comentou:
— Disseram-me que, no final da vida, o apóstolo, bem velhinho, tratava a todos como filhos muito queridos, iniciando as pregações sempre pela sua mais célebre frase, ou seja, Deus é amor. Estou dizendo isso para que não fiquem impressionados, quando descobrirem esse hábito que ficou registrado na história. Prossegue o texto: “Fiquei de falar a respeito de Jesus, quanto ao desempenho físico, porque afirmei alhures que não perecera na cruz. É assertiva que encontra respaldo em vários escritores modernos, porque muitos não compreendem como é que, em tão pouco tempo dependurado no lenho, alguém pudesse sofrer mortal síncope cardíaca. Ainda que um soldado lhe tenha perfurado um dos lados do peito, só o fez movido pela necessidade de comprovar a morte. Ora, Jesus havia vencido a morte, tendo feito ressuscitar não apenas uma pessoa. Jesus burlava a vigilância das multidões, saindo do meio delas, sem que ninguém notasse. Jesus curava, de perto e a distância, as pessoas atacadas de males tremendos, como a lepra, a hemorragia, a cegueira, inclusive, de nascença, e quantas enfermidades se desenvolviam junto à população. Como não haveria de superar o cansaço que lhe fora infligido pelos açoites, ainda que estivesse jejuando há vários dias? Não conseguiu carregar a trave da cruz, tendo sido ajudado pelo cireneu Simão, obrigado pelo soldado da guarda romana encarregada das execuções. Mas esse era um procedimento habitual, porque os algozes se frustravam quando o condenado perecia mercê dos castigos preliminares. Devo aqui levantar sério problema: o da natureza do corpo do Mestre, porque, desde aquela época, se desconfiava de que o seu domínio da matéria era tão extraordinário que seria capaz de materializar um símile de sua mesma estatura e forma, que Kardec chamou de agênere, para pôr em seu lugar, a fim de receber o suplício. Tal era a concepção de muitos, tanto que, ao aparecer aos discípulos, alguns dias após a crucificação, quiseram testemunhar-lhe as feridas, obrigando-o a demonstrar que estava ali presente, através do consumo de alimentos. Desejam os amigos conhecer a verdade? Nem eu mesmo estou absolutamente ciente dela. Tudo o que levanto são hipóteses plausíveis, segundo os recursos desse ser de escol, o exemplo mais digno de humanidade e perfeição que qualquer espírito pode apontar. Não se transfigurou no monte? Houve testemunhas. Não andou sobre as ondas? Não transformou água em vinho? Não fez tantos prodígios cuja compreensão natural nos fugia por completo e aos quais chamávamos de milagres? Hoje, sabemos que os espíritos evoluídos, e Jesus é o mais evoluído de todos, conhecem as leis que regem o Universo e sabem aplicá-las com desenvoltura a favor de seus propósitos de benignidade. A verdade é que desapareceu da sepultura. Estaria no seu projeto de vida tornar-se o mártir salvador do seu povo? Pela referência histórica, os judeus admitem o filho de José e de Maria, o descendente da linhagem de Davi, apenas como mais um dos profetas; entretanto, não aceitam o Nazareno como o filho prometido por Deus para a libertação de Israel. Sendo assim, podemos considerar que os apóstolos não alcançaram sucesso em suas pregações junto aos de sua raça. Quem brilhou foi Saulo, que mereceu de Jesus a honra de um chamamento especialíssimo, porque se zangara o Cristo com as perseguições que culminaram com a morte de Estêvão. Jesus sentiu a necessidade de espraiar a sua doutrina, sabendo que o povo hebreu não lhe herdaria as concepções, fechando todas as portas da religião, principalmente porque se haviam manchado com o sangue inocente do divino cordeiro. Da mesma forma que fizera muitos cegos enxergar, ofuscou o campo de visão do inimigo originário de Tarso, na estrada de Damasco, fazendo-o, simbolicamente, recuperar a luz, quando as lições ministradas por Ananias tiveram efeito moral. Quer dizer que Jesus possuía dois corpos, utilizando-se de um ou outro, segundo as necessidades? Não é o que estou afirmando. Como todos nós, Jesus nasceu de mulher, tendo por pai um homem de carne e osso. Desenvolveu-se segundo a sua natureza animal, adquirindo, paulatinamente, completo domínio sobre a matéria, conforme a grandiosidade de seu espírito. Quando se machucava, escorria-lhe o sangue e o sistema nervoso comunicava ao cérebro as sensações de dor. Mas, diferentemente de quase todas as criaturas, desenvolveu o poder de bloquear as reações físicas desagradáveis, conseguindo reconstituir os tecidos lacerados quase instantaneamente. Podemos afirmar que o seu aparato carnal se eivasse de fluidos etéreos, segundo uma organização espiritual própria? Seguramente, não. Quando chegou sua época de deixar a carcassa material, o chamado invólucro terreno, ele o fez como qualquer mortal, e seu corpo foi devorado pelos vermes. Resta saber se foi um agênere que se fixou no madeiro infamante. Reitero que Jesus estava ali de corpo e alma, sofrendo os horrores da mais atroz injustiça. No entanto, se me interrogarem a respeito de que tenha sido esse o sacrifício extremo que se atribui ao Salvador, devo dizer que não foi. Muito mais extenuante e dramático foi o enlace de seu divino espírito ao perispírito desta esfera, exigindo dele tremendo esforço de adaptação, acrescido de muitas outras dores morais (digamos assim, por falta de melhor expressão), quando da concepção física e do ingresso no mundo de expiação e provas, para o exercício da augusta missão. Não sei se vim muito longe nestas explicações e se consegui esclarecer um ponto polêmico que tem dividido em duas facções o próprio movimento espírita. Neste aspecto, se as convicções estiverem por demais arraigadas, se foram fixadas nas mentes por acendrado amor-próprio, se estiverem fundamentadas em pontos de vista interessados na manutenção do statu quo que vem rendendo posições de destaque, em ambos os lados, se se possui o sentimento da disputa como natural nos encarnados, então, qualquer informação que se preste, no sentido de conciliar os desafetos, será tomada como simples pusilanimidade ou excesso de ingenuidade do espírito que assina, com pompa e circunstância, um nome assaz glorioso. Todavia, se houver interesse em decifrar o mistério, sob as luzes magníficas que esplendem dos escritos da codificação, ver-se-á que este mensageiro, além de cumprir antigo compromisso com a verdade, que ajudei a desvirtuar, conforme descrevi em comunicação anterior, também aqui se apresenta com o intento de pacificar os ânimos e orientar os filiados do Espiritismo para as metas cristãs do amor universal, através do lema da caridade sem limites, dentro dos padrões excelsos da moralidade evangélica. Não me preocupa o fato de que as mensagens venham a ser menosprezadas ou anuladas pela sapiência técnica dos sábios. Penso que sempre haverá quem reflita sobre as verdadeiras diretrizes doutrinárias, endereçando os pensamentos e sentimentos para a compenetração de que a evolução é prisma inalterável de todas as concepções espíritas. Será, pois, através desse projeto de vida propenso à descoberta da verdade que os homens irão realizar o ideal fraterno da unidade universal, para facilitar o reingresso nas esferas superiores de todos os seres em condições de colher os lucros de vidas de benemerência e de trabalho solidário, em nome do Cristo, por amor ao Pai. Meus filhinhos, a paz do Senhor esteja com todos, não importando se a sua opção seja por esta ou aquela seita, por este ou aquele culto, por esta ou aquela religião. Cumpram os preceitos do bem e da virtude. O mais vocês auferirão em acréscimos de bênçãos. Graças a Deus!”
Assim que terminou a leitura, Plínio teve a atenção despertada pelo filho para o adiantado da hora. Contudo, não pôde furtar-se a ouvir muitos elogios e algumas ponderações admirativas quanto ao teor do texto.
João estava embaraçado, querendo e não querendo mostrar o texto que redigiu. Finalmente, não havendo quem lhe solicitasse a leitura, advertiu para o fato de que Plínio poderia querer levar embora a mensagem do evangelista e lhe pediu para realizar uma cópia ali em casa mesmo, porque tinha como fazê-lo.
Enquanto João levava as folhas para dentro, Plínio e Ovídio despediram-se efusivamente dos colegas espíritas, todos muitíssimo satisfeitos com o fato de terem sido honrados por texto e personalidade tão insignes.
Não foi difícil convencer João a conduzir os dois até o templo de Honorato, onde encontraram Cleto e Margarida aflitos, porque ninguém soube informar aonde é que a dupla fujona tinha ido. Foi a esposa quem reclamou:
— Eu deixei um para descansar e outro tomando conta e não encontro nenhum dos dois. Que é que eu podia pensar? Que tinham ido a algum hospital, no mínimo. Mas bem que nós vimos quem foi que trouxe vocês dois. Só podem ter ido àquela sessão espírita...
Só aí percebeu que tinha batido com a língua nos dentes, porque mantivera em segredo tal possibilidade, tendo deixado Cleto ainda mais preocupado do que estaria, se soubesse do convite. Mas o filho esteve à altura da tranqüilidade que se pode esperar de um verdadeiro pastor de almas e não fez qualquer recriminação nem ao pai nem ao irmão. Queria, sim, que a mãe descrevesse o sucesso da reunião religiosa que ele presidira.
— Mãe, diga para eles como é que você se divertiu, conforme me afirmou.
Foi o bastante para Margarida esquecer as manhas e observar com profunda alegria:
— Foi maravilhoso. Após o Pastor Honorato ter dito algumas palavras e apresentado Cleto, este fez um belíssimo sermão, convidando o povo a agir segundo o modelo do Cristo, fazendo o bem a todos e dando à Igreja condições de prosseguir auxiliando os irmãos carentes que pululam pela cidade. Falou das excursões noturnas e mostrou como é que a polícia vem maltratando os pobres, considerando todos verdadeiros marginais. Falou do desemprego e da falta de comiseração do poder público, considerando que, sem que os particulares abram as bolsas, muitas crianças irão morrer à míngua.
Nessa altura, Cleto brincou:
— Mãe, pedi para que descrevesse as suas emoções e não que reproduzisse palavra por palavra tudo o que eu disse. Até parece que você tem um gravador embutido no cérebro! Parabéns! Eu não conhecia esse seu pendor.
Margarida encareceu esse aspecto:
— Na verdade, foi como se bebesse da fonte fresquinha que jorrava de seu sermão. Gostei muito de tudo mas o que mais me deixou sensibilizada foram os cantos. Eu acho que você desafinou um pouco. Não seria bom que tivesse aulas de canto?
— E quem lhe falou que Cleto não está com professor particular?!... — foi logo informando Ovídio. — Enquanto eu estudo as matérias da oitava série, ele se dedica às artes: canto, música, oratória...
Cleto incomodou-se com o destaque que o irmão estava dando-lhe:
— O ofício de pastor exige que a pessoa não seja amadora, mas que se profissionalize, impostando a voz, sabendo captar a recepção emocional do público. Para insistir mais num aspecto do que noutro, tem de perceber a hora propícia para passar as informações bíblicas importantes e daí para a frente. E tem de conduzir o rebanho através do canto, porque os hinos litúrgicos estão cedendo a vez à música de ritmos populares, que é disso que o povo gosta e é o que traz mais gente para o culto. Bem que eu reparei na mãe sacudindo os braços ao comando do regente...
Margarida, porém, desejava demonstrar que havia observado outros fatos:
— É claro que tudo isso colabora para que o efeito no espírito dos crentes seja o mais eficiente possível. Mas a gente não pode esquecer de que o rapaz está destroçando os corações das mulheres. Eu mesma senti que as mais velhas, quando souberam que a mãe do orador estava presente, me invejaram, medindo-me de alto a baixo, como a perguntar como é que de dentro de mim tinha saído alguém com tantas qualidades.
Para Plínio, estava ótimo que a esposa se deixara envolver com tamanho entusiasmo ao evento religioso. Parecia vê-la rejuvenescer e acreditar de novo na vida. Até um dia atrás, ela não dizia três palavras sem que uma recordasse o filho morto. Agora, estava rindo plenamente satisfeita, como se Cleto lhe tivesse aberto as portas do paraíso.
“Nunca” — refletia o marido — “nunca, dentro do centro espírita, nem quando recebeu as informações de que Arizinho estava bem, ela reagiu com o coração tão aliviado. Ou muito me engano ou vou ter de receber o impacto de um pedido cabal para engrossar, com a nossa presença, as fileiras da crença protestante.”
Foi Ovídio quem provocou o desenlace fatal:
— Só falta vocês se mudarem para cá e freqüentarem a sede em que o meu querido mano está aprendendo a pastorear as ovelhas, os cordeiros, algumas cabras...
Mas Cleto não lhe permitiu ir mais longe:
— Eu ficaria deslumbrado com tal possibilidade. Mas ainda não tenho como arcar com as despesas decorrentes dessa profunda alteração de vida. Vamos esperar um pouco mais. Quem sabe, dentro de um ano ou dois, após meu matrimônio com Aurélia...
Plínio não perdeu a oportunidade de explorar o assunto:
— Você tem certeza dos sentimentos dela e dos seus? Vocês são muito jovens e o seu passado deve ter atemorizado bastante a simpática família da linda jovenzinha, apesar de toda a solicitude para conosco, hoje cedo. Não se esqueça de que existe muito dinheiro envolvido, ainda porque ela é filha única e os pais são riquíssimos. Se não cismarem de passar tudo para a Igreja, a filha vai levar para o casamento um dote dos mais sadios.
Não era o objetivo do pai, mas Cleto demonstrou que era sensível às considerações pouco elogiosas ao seu caráter:
— Seu Plínio, meu caríssimo e preclaríssimo progenitor, vejo que desconfia de minhas intenções. Não adianta fazer esse gesto fingido de desagrado. Sei que deseja desmistificar o amor que faço transparecer pela Relinha. E você tem razão, ou melhor, teria razão, se tivesse levantado a lebre há um ano atrás, quando a conheci. Mas o convívio e a ternura do coraçãozinho da menina me fizeram compreender que preciso de uma alma gêmea para poder desenvolver-me como pessoa humana. Quando era traficante, não pensava nos outros. Vocês podem imaginar o que não fiz com certas moças... Mas essas águas já passaram por debaixo da ponte. Hoje, o que tenho feito mais, no campo de meus pensamentos íntimos, é tentar livrar-me da culpa de haver proporcionado ao maninho Ari aquela dose letal. Vejam bem que estou abrindo completamente o meu coração, porque me sinto abençoado pelo perdão do Cristo, tanto que sou bem capaz de conceber que tenho imensas responsabilidades em relação ao Vidinho, assumindo, como viram, as funções de irmão mais velho e de preceptor, defendendo-o quanto posso dele mesmo e dos pastores, que não estão satisfeitos com a sua atuação, que está deixando a desejar.
Ovídio, arguto e cordato, observou:
— Meu maníssimo Cleto, você estava indo muito bem, desnudando a sua alma e demonstrando as suas falhas. Não queira desviar a atenção dos nossos pais para a minha apagada figura. Continue, por favor, a falar de você mesmo.
Este narrador não teve meios de saber se Margarida se viu apta a decifrar todos os enigmas das falas dos filhos. A verdade, porém, insofismável, é que ampliou suas vibrações de enorme contentamento, maravilhando-se com o desempenho verbal dos rapazes que nunca vira tão sutis e tão enérgicos intelectualmente.
Quanto a Plínio, deliberou que deveria deslindar alguns mistérios que permaneciam inatingíveis para sua perspicácia, num momento de surpresa e de nostálgica presença do espírito que lhe transmitira a esplêndida mensagem.
Após alguns minutos de silêncio, cada qual respeitando os eflúvios emocionais que percebiam uns nos outros, foi a vez de Cleto volver à realidade:
— Vocês pretendiam voltar hoje mesmo. Não querem passar a noite num hotel, para assistirem às funções religiosas de amanhã cedo?
Antes que Margarida optasse pela aceitação da oferta, Plínio foi incisivo:
— O plano original foi organizado...
Ovídio brincou:
— Pai, você não está falando com os empregados da empresa...
A mãe apoiou:
— É verdade, Plínio! Deixe de bobagem e diga logo que vamos passar a noite aqui!
Mas o homem não quis ceder:
— Vamos fazer o seguinte: eu vou embora, porque tenho compromissos a cumprir no centro logo cedinho. Sua mãe fica e, depois de babar mais um pouco com os filhos, volta para casa, para lamentar estar tão longe. Não será exatamente isso o que terei de enfrentar daqui por diante?
Certo tom de mágoa na voz dissuadiu a esposa do intento de se deixar seduzir pela magnífica interpretação do mais velho no palco da igreja. Percebeu que estava entronizando-o muito cedo num nicho de santo e sentiu que precisava desempenhar o seu papel de esposa, tantos favores estava devendo à lhanura do marido. Por conseguinte, encerrou a discussão:
— O pai de vocês tem toda razão. Se eu ficar, serei apenas mais uma pálida estrelinha na constelação que acompanha...
Não soube como terminar a figura, porque as caretas dos outros três indicavam para uma admiração apenas jocosa. Foi assim que decidiram voltar de ônibus, antes mesmo de efetuarem a refeição da noite.
Durante todo o trajeto da volta, cada um se deixou embalar pelas doces recordações daquele dia pleno de sucessos inesperados e prazenteiros.



15. AS DECEPÇÕES DE PLÍNIO

Seja porque haja presenciado os horrores de um desastre que envolveu diversos veículos, tendo o ônibus passado rente aos corpos carbonizados de várias pessoas, seja porque tivesse mantido a impressão de que o filho mais velho estava concretizando algo no campo da religião, a verdade é que Plínio deliberou tomar a iniciativa da divulgação de suas páginas psicografadas.
Expôs a idéia à esposa, que lhe obtemperou:
— Eu não sei quase nada a respeito do que você tem escrito. Se não me mostrou as mensagens até agora, como é que vai imprimir e dar ao povo? Eu acho que você precisa esperar muito tempo mais. A sua mediunidade tem um ano. Quando você me falou a respeito de que o Chico Xavier está precisando de substituto, não pensei que fosse a sério. Em todo caso, a minha palavra não vale nada. Você precisa conversar com o Doutor Ariovaldo.
— Quer dizer que eu devo ficar marcando passo, aos cinqüenta anos de idade?
— Quer dizer que alguém com mais experiência deve dizer se você deve ou não colocar nas mãos das pessoas aquilo que você mesmo não tem condições de criticar.
— Como é que não tenho?
— Se fossem as contas dos livros de contabilidade...
Plínio não quis continuar, porque reparou que Margarida estava bem firme na sua opinião. Imaginou que ela estivesse com medo da projeção no meio espírita, de sorte a prejudicar o filho pastor.
“Ela até que pode ter razão. Vamos que o povo se agrade do livrinho que eu montar com as mensagens que recebi de tantos espíritos, principalmente daquelas do benfeitor maior, o meu caro João Evangelista, e aí o meu nome vai aparecer e o Moisés vai colocar sérios embaraços ao desenvolvimento do menino. Em todo caso, não posso fugir do compromisso que assinei com a espiritualidade, porque tudo o que me trazem do etéreo não deve servir apenas para mim e para as pessoas do centro. Por que razão João Evangelista iria falar sobre acontecimentos tão graves de seu tempo de vida, a ponto de mudar muitos dos conceitos históricos, se não fosse para que os estudiosos e os demais espíritas pudessem refletir sobre o assunto?”
Perpassou-lhe pela mente a suspeita de que pudesse estar sendo testado, que estivessem dando-lhe corda para verem até onde ele iria no desejo de se fazer o substituto do maior médium conhecido. Se tivesse aberto a inteligência para as intuições de caráter mediúnico, talvez viesse a conversar com o protetor, que estava aflito com a deliberação que se delineava extremamente perigosa.
“Vamos ver” — refletia Saldanha — “se o meu amigo aceita a hipótese de que os reais benefícios que pode prestar se circunscrevem ao âmbito da casa espírita, sem reflexos nas teses doutrinárias ou nas concepções religiosas.”
Mas as vibrações não alcançaram mais o protegido, que voava alto, águia a pairar sobre florestas e montanhas, ampliando os horizontes em busca do infinito.
Passou a noite sonhando com ditados e com edições de obras espíritas, vendo-se lido e apreciado pelas multidões, ampliando o movimento através das federações, enchendo os templos, enquanto os novos adeptos agitavam os braços, cantando e agradecendo as bênçãos de Deus, porque ninguém havia que não superasse todos os problemas. Houve um momento de delírio, quando se deparou com os mortos carbonizados, mas logo entendeu que as criaturas eram recebidas pelos missionários do Senhor, para serem conduzidas a esferas de maior felicidade, porque haviam purgado no fogo os pecados.
No dia seguinte, passou a limpo a recente mensagem, decidido a mostrá-la aos parceiros, especialmente a Ariovaldo, Moacir e Silvinho. Imprimiu várias cópias e seguiu impávido rumo à consagração.
Logo que chegou ao centro, porém, observou desusado movimento de pessoas, um entra e sai afobado, como se algo muito sério estivesse ocorrendo. Parou o primeiro que reconheceu:
— Que está acontecendo?
— Um princípio de incêndio na secretaria. Parece que deu um curto-circuito e os aparelhos todos se estragaram.
Plínio correu a ver se ajudava a salvar o que fosse possível. Tudo se perdera. O que o fogo não consumiu a água desfez. Plínio correu em busca dos disquetes em que gravara todos os escritos. Todos queimados.
Lembrou-se de que levara para o computador do escritório apenas os textos do Evangelista. As participações dos familiares e amigos dos consulentes tinham desaparecido. Uma ou outra ele conseguiria recuperar, porque fornecera cópia aos interessados. Mas a maior parte se fora.
Não quis o frustrado médium demonstrar a ninguém o seu aborrecimento particular. Deu um dedinho de prosa com Ariovaldo e se retirou, porque nada havia que pudesse fazer ali.
Voltou ao escritório e, com tristeza, observou que, no máximo, havia material para umas cinco páginas, com os tipos bem grandes.
Ao contar para Margarida o que havia acontecido, ouviu dela um conselho bastante ponderado:
— Essas coisas acontecem. Por que você não resguardou o seu tesouro menor, como fez com as peças de ouro? Você vai ter de escrever muitas comunicações, até obter material suficiente para a pretendida publicação. Pense no Chico Xavier, quase oitenta anos de mediunidade, a trabalhar ainda, doente mas lúcido, produzindo pouco, mas contente com tudo quanto fez. Para você chegar à idade dele, vai ter pela frente mais trinta e tantos anos de mediunidade. Vai poder escrever bem uns quinze ou vinte livros, se tiver juízo, porque vai precisar selecionar muito bem as mensagens, para aprender a reconhecer aquelas que podem interessar às pessoas. Você não vai falar nada?
Plínio, na verdade, acompanhou os raciocínios da esposa como se ele mesmo estivesse a compor a falação. Nem lhe passou pela mente que ela estivesse sendo inspirada e que seu sistema de defesa tivesse sofrido uma ruptura, juntando à voz da esposa as vibrações do benfeitor espiritual.
Vendo que o marido não conseguia coordenar as idéias, Margarida buscou interessá-lo noutro tema:
— Enquanto você esteve fora, lembrei-me de uma passagem de Kardec, em O Livro dos Espíritos, sobre a qual gostaria que a gente refletisse. Eu havia pensado em deixar o assunto para o dia de leitura do Evangelho, mas acho que você vai aproveitar o trecho para meditar a respeito de nossa situação, em relação aos nossos filhos.
Ela estava de posse do volume. A página merecera um marcador de sorte que, ato contínuo, executou a leitura:
— Aqui estão a pergunta de número oitocentos e noventa e dois e a resposta: “Quando os pais têm filhos que lhes causam desgostos, não são escusáveis de não terem por eles a ternura que teriam caso contrário? — Não, porque se trata de um encargo que lhes foi confiado e sua missão é a de fazer todos os esforços para os conduzir ao bem. Por outro lado, esses desgostos são quase sempre a conseqüência dos maus costumes que os pais deixaram os filhos seguir desde o berço; eles colhem, portanto, o que semearam.”
Plínio tomou o livro das mãos da esposa e leu de novo o trecho, até concatenar os pensamentos. Margarida o deixou à vontade, porque via que ele se esforçava para compreender o seu objetivo.
Demorou para ele fazer uma tímida observação:
— Vejo que você está muito preocupada com a nossa responsabilidade em relação aos crimes praticados pelos nossos filhos. Mas você não acha que eles já foram conduzidos ao bem?
Plínio apontava para a frase escrita.
— O que eu acho é que nós não fizemos todos os esforços para esse efeito.
Margarida também pôs o dedo na linha correspondente. Sem transição, acrescentou:
— Vamos ler agora outro trecho.
Retirou outro marcador e leu:
— Questão de número novecentos e oitenta e dois: “É necessário fazer profissão de fé no Espiritismo e crer nas manifestações para assegurar nossa sorte na vida futura?” Resposta: “Se assim fosse, todos os que não crêem ou não puderam esclarecer-se seriam deserdados, o que é absurdo. É o bem que assegura a sorte no futuro; ora, o bem é sempre o bem, qualquer que seja a via pela qual se conduz.” Quero que você observe que os espíritos não insistem na necessidade de a pessoa ser espírita para realizar o bem. Não é o bem que conduz os seres humanos ao reino de Deus?
De novo, Plínio precisou de mais tempo para assimilar os conceitos. Leu e releu o trecho, mas preocupava-se com o visível intento da patroa de justificar a debandada do casal para as hostes do protestantismo. Queria encontrar uma resposta ali mesmo para opor-se, até que atinou com a explicação subseqüente do Codificador. Foi um alívio. De imediato, desejou afastar o perigo que rondava as suas atividades mediúnicas:
— Minha cara, concordo com você. Está certo que os hinduístas, os maometanos, os budistas, os xintoístas, os protestantes, os católicos, os umbandistas e sei lá quantos mais profitentes de religiões existem diferentes do Espiritismo, o qual nem chega a ser uma religião na mais rigorosa acepção do vocábulo, conforme explicou o Ariovaldo outro dia, muitos deles conseguem arremeter-se escada acima até os píncaros da bem-aventurança. Mas, então, para que serve o Espiritismo? Você leu a explicação de Kardec? Pois eu leio para você: “A crença no Espiritismo ajuda o homem a se melhorar ao lhe fixar as idéias sobre determinados pontos do futuro; ela apressa o adiantamento dos indivíduos e das massas porque permite considerarmos o que seremos um dia: é, pois, um ponto de apoio, uma luz que nos guia. O Espiritismo ensina a suportar as provas com paciência e resignação, desvia o homem da prática dos atos que podem retardar-lhe a felicidade futura, e é assim que contribui para a sua felicidade. Mas nunca se disse que sem ele não se possa atingi-la.” Você quer deixar o Espiritismo. Tudo bem. Mas vai ter de ascender até Jesus bem mais devagar.
Margarida, porém, esperava pelas observações do marido e, de imediato, contrapôs, encerrando a conversa:
— Eu não disse, em momento algum, que deveríamos abandonar a doutrina dos espíritos. Eu disse e reafirmo que devemos cuidar melhor dos nossos filhos, principalmente do Cleto, porque, se firmarmos a nossa crença nos princípios espíritas, quem irá se atrasar na caminhada é ele e não nós. Um retardamento hoje não representará, dentro de uns cinco ou seis anos, quando ele for completamente dono de seu destino, nenhum tropeço para o nosso avanço espiritual.
— Você preparou esse discurso e me pegou num momento muito triste.
— Eu só lhe pedi para pensar sobre o assunto. Quando estiver disposto, a gente volta a conversar.
Realmente, Plínio não estava bem. Notou que Margarida não havia feito o almoço e suspeitou de que passara a manhã preparando-se para o debate. Na hora certa, porém, apareceu uma salada coberta de maionese, dessas que se compram em vidro, e alguns pedaços de lingüiça no meio de uma farofa, com a farinha embolotada e os ovos meio crus.
À tarde, o centro dedicava-se às tarefas da mocidade espírita. Era um momento oportuno para jogar conversa fora, porque as pessoas ficavam apenas a pajear os moços, quase sempre curtindo a macarronada domingueira. Os poucos gatos-pingados como que davam vazão à necessidade de descanso, inclusive quanto aos programas de televisão a que as famílias assistiam.
Mesmo sabendo disso, Plínio foi até lá, deixando Margarida às voltas com a louça e, coisa muito estranha, com a bíblia que ganhara de presente do Cleto.
Não estavam Silvinho nem Moacir, mas Ariovaldo encontrava-se pondo ordem ao que restara da secretaria. Com ele, outros diretores, em ferrada investigação para saber a quem se poderia atribuir a responsabilidade do incêndio.
Chamado a opinar, Plínio não pôs em dúvida o procedimento de nenhum companheiro, atribuindo o acidente ao cansaço do material embutido na parede ou ao trabalho destruidor das ratazanas.
O serviço estava no fim, de sorte que, uma hora depois, lamentando muitíssimo a perda do equipamento, mas fazendo um bom projeto para aquisição de nova e mais moderna aparelhagem, pôde Plínio mostrar aos confrades, todos a par de seus contatos mediúnicos especiais, o novo texto, resumindo a história dele, enfatizando o fato de ter sido obtido em sessão privada, subtraindo a informação de que a sala servia também para trabalhos umbandistas.
Ariovaldo e os outros guardaram as cópias, simplesmente, não demonstrando nenhum interesse pelo teor do texto. Foi o médico quem se manifestou:
— Meu caro Plínio, vamos deixar para expor os nossos pensamentos durante a reunião da próxima quarta-feira. Até lá, pense bastante a respeito deste gênero de comunicação a que você vem dando oportunidade, porque está parecendo à maioria que os temas estão muito acima de nossa capacidade de crítica, mesmo porque os problemas concernentes às mensagens apocalípticas não têm muito que ver com a doutrina espírita.
— Quer dizer que vocês discutiram a respeito, nas minhas costas?
— Não leve as coisas por esse lado. Se você estivesse presente ontem, teria participado da reunião informal em que alguém levantou a tese de que todos temos as tarefas habituais e rotineiras e não podemos ficar na dependência da orientação dos espíritos. Eles é que têm de se adequar ao nosso esquema, porque quem define os objetivos do centro são os encarnados, segundo as necessidades específicas de nossa esfera e de nossas realizações de vida, para vencermos o nosso carma.
Cabisbaixo e magoado, sem prestar atenção às palavras de apaziguamento dos parceiros, tendo mesmo a impressão de ter ouvido alguém dizer para deixarem-no ir refletir em paz sobre o que haviam deliberado, Plínio abandonou o sagrado recinto, caminhando lentamente na direção de casa.
Não sabia se deveria comunicar à esposa o recente acontecimento, contudo, não a encontrou. Foi à cozinha e sentiu que a mulher havia deixado tudo na melhor organização. Buscou algum recado, mas não achou.
“Terá ido à casa de Hortênsia? Sim, porque a Antonieta me parece carta fora do baralho, à vista dos sucessos igrejeiros do Cleto.”
Meditou sobre os sucessos igrejeiros e atinou com a possibilidade de Margarida ter ido ao culto protestante. Esse pensamento deixou-o ainda mais desolado. Resolveu, então, ir ao escritório, onde poderia desfrutar do máximo de sossego, imaginando que destino daria à sua mediunidade em xeque.
Uma vez diante da tela do computador, onde fazia os textos de João avançar e recuar, teve uma idéia salvadora:
“Vou enviar uma cópia da última mensagem para os jornais espíritas, a ver quais reações serão favoráveis e quais desfavoráveis. Se tiver sorte, encontro algum que publique, levantando uma polêmica das mais ruidosas, uma vez que jamais encontrei em nenhum periódico qualquer demonstração espiritual de personagem tão importante.”
A decisão valeu-lhe o resto da tarde de trabalho, não tanto para a redação da missiva, na qual demonstrava como elemento essencial o fato de haver trabalhado sob a vigilância dos amigos do centro, mas principalmente na busca dos nomes dos responsáveis e dos endereços das publicações. Conseguiu postar quinze cartas, que guardou em sua escrivaninha para colocar no correio no dia seguinte.
Ao se reencontrar com Margarida, foi logo dizendo:
— Estive relendo a última mensagem do Evangelista e encontrei um trecho de que você vai se agradar muito.
Tirou do bolso um exemplar e leu:
— Veja como é que o autor termina: “Meus filhinhos, a paz do Senhor esteja com todos, não importando se a sua opção seja por esta ou aquela seita, por este ou aquele culto, por esta ou aquela religião. Cumpram os preceitos do bem e da virtude. O mais vocês auferirão em acréscimos de bênçãos.” Não lhe parece estar lendo o trecho de O Livro dos Espíritos a que você aludiu?
Margarida ficou desconfiada de que o marido lhe preparara alguma armadilha. Por isso, apenas perguntou:
— O que você quer dizer com isso?
— Estou dizendo que posso dar meu braço a torcer e aceitar a sua tese de que devemos parar um pouco com o Espiritismo, para o bem do Cleto, conquanto eu ache que o Vidinho não irá concordar com essa atitude.
— Você está me escondendo alguma coisa que aconteceu no centro.
— Você é que não me disse aonde foi enquanto estive fora.
— Eu não disse porque resolvi na última hora. Será que você não foi capaz de imaginar que estive no templo, cantando e orando, pedindo que Jesus nos abençoe com o esclarecimento de sua mente, o que, você vai ter de concordar, aconteceu deveras, caso contrário não tinha dito nada do que disse?!
— Eu sabia que você podia ter ido à igreja. Só que a você eu informei que ia ao centro. Por que não me deixou um bilhete?
— Supus que chegaria antes e não lhe disse nada há pouco, porque você chegou falando até pelos cotovelos. Mas você não me respondeu...
— Não respondi ao quê?
— A respeito do que você está me escondendo. Algo muito grave deve estar acontecendo, para você mudar tão depressa de opinião.
— Você não disse que foi Jesus quem nos abençoou?
— Não brinque com as coisas sérias. Vai dizer ou vou ter de perguntar ao Moacir?
— Pergunte também ao Silvinho, porque ambos não se encontravam lá.
— Então ocorreu algum fato bem grave...
— Ariovaldo me informou que o pessoal não quer mais que eu dê passividade às mensagens do meu amigo João. Eles acham que já têm muito o que fazer para darem trela aos estudos organizados a partir dos desencarnados.
— Em outros tempos, eu diria que são uns mal-agradecidos. Agora, posso pensar em que tenham recebido inspiração dos benfeitores espirituais.
— Por que não está você afirmando que foi Jesus quem os estimulou? Não se esqueça de que a conversa com os mortos está proibida desde os tempos de Moisés e os protestantes fazem questão cerrada de anunciar que os entretenimentos entre mortos e vivos são conduzidos pelos demônios.
— Que é que você vai fazer agora?
— Já fiz.
— Como “já fiz”?
— Vou mandar uma carta, que já escrevi, para diferentes órgãos de divulgação espírita, para ver se publicam a mensagem que recebi no dia de ontem. Aliás, se você quiser ler, eis a cópia que imprimi especialmente para você. Veja que enchi de coraçõezinhos.
— Mesmo antes de tomar conhecimento do texto, acho que você está se precipitando. Em todo caso, prepare-se para algumas surpresas desagradáveis. É tudo o que eu lhe digo.
— Vejo, querida, que posso contar com você para me animar.
— Para animar, não, querido; para lhe oferecer o ombro, onde você vai curtir a dor dos desapontamentos, das desilusões, dos desenganos...
No dia seguinte, quase um autômato, Plínio levou à agência dos Correios os quinze envelopes e despachou-os, sem alegria e sem confiança. Pensava que não deveria ter sido esse o caminho mais fácil para a divulgação das confissões do santo.
Fez os cálculos e concluiu que iria levar, no mínimo, uma semana para obter a primeira resposta.
“O que vou ficar fazendo, enquanto isso? Não creio que os meus parceiros de mesa vão aceitar com muita facilidade o texto que lhes deverei fornecer ainda hoje. Em todo o caso, como alguns já estão com uma cópia...”
Trabalhou casmurro o tempo todo, tendo dado preferência a ir à empresa, para não demonstrar seu mau humor aos sócios. Deitou-lhes sobre a mesa um exemplar da mensagem para cada um e se foi, em busca de mergulhar fundo nas contas do ex-patrão.
Na verdade, alcançou seu objetivo, tanto que restabeleceu todos os critérios anteriores de fixação dos elementos contábeis, terminando por recomendar ao Palhares que mantivesse um dos funcionários à testa do departamento, dispondo-se a oferecer retaguarda técnica de alto padrão, para o caso de haver problemas na reimplantação do sistema.
Não contava, porém, com certa resistência de quem lhe propôs, inesperadamente:
— Você, meu bom amigo, conhece melhor do que ninguém os segredos da firma. Se não deseja aceitar o serviço para o seu escritório, tudo bem. Dá para compreender. E se nós restabelecêssemos o seu vínculo empregatício, readmitindo-o no antigo posto, com salário compatível ao cargo de diretor-técnico, caso em que responderia pelo correspondente fluxo dos documentos contábeis e pelo setor de pessoal de toda a empresa, responsabilizando-se pela manutenção ou dispensa dos atuais empregados e pela admissão de quantos forem necessários para dar implemento ao novo sistema?
— Não estou bem para definir uma posição agora. Posso adiar a resposta até amanhã?
— É justo que você queira conversar com os sócios. Veja bem. Estamos dando-lhe um cargo de confiança. Se você quiser reempregar os dois amigos, esteja à vontade.
— Não creio que aceitem, porque ganham dez vezes mais lá do que aqui.
— Você está sugerindo que a nossa proposta não alcança os seus ganhos atuais?
— Absolutamente, não. Tenho a certeza de que com vocês estarei melhor, mesmo porque poderei manter-me na condição de sócio da minha pequena empresa...
— Não há nenhuma restrição quanto a isso, desde que esteja no comando do departamento, dentro do horário comercial. Se você quer a minha opinião de amigo de tantos anos, aceite, tire umas férias de suas preocupações na condução do escritório e, se não der certo aqui, exponha com lealdade e clareza e retire-se, levando consigo a nossa amizade e respeito.
— Já que entramos no terreno pessoal. Diga-me o porquê de os donos terem admitido a hipótese de verem um espírita no comando de um dos setores da empresa.
— Correu um boato de que você tem um filho pastor. Parece que houve um entendimento entre as autoridades da igreja e da firma. Mais do que isso eu não saberia dizer.
Plínio voltou para o almoço, caminhando nas nuvens. A bem da verdade, pouco pensou sobre a oferta de emprego. Via-se cercado pelos bispos e pastores, como se fossem eles os demônios obsessores que acusavam de possessão dos espíritas. Em certo ponto da meditação, quase perdeu o fôlego:
“Se eu contar tudo o que se passou para a Margarida, ela vai dizer que Jesus está me convidando para entrar nas fileiras protestantes. Se não contar, por outro lado, como poderei explicar o fato de haver aceitado de volta, e com tantas regalias, o meu velho emprego? Se disser que Moisés está por trás de tudo, vai rir-se de mim ou vai confirmar o interesse dele em nos manter distantes do centro espírita, reforçando a figura do Cleto na qualidade de pastor ou de sei lá que outro cargo possa a vir ocupar na igreja. Acho que vou ter de consultar-me com meu anjo de guarda ou pedir um conselho pessoal ao apóstolo João.”
Não precisou de prece nenhuma para pôr-se em estado de receber os eflúvios etéreos do Saldanha, que lhe deixou claro, na consciência, a idéia de que a vida é dada aos espíritos para sanar os defeitos e viciações e para resgatar os débitos com os que outrora foram inimigos e que atualmente devem estar no círculo da parentela e das amizades. Mais não quis passar-lhe, a não ser a sombra de um pensamento doutrinário fundamental, ou seja, de que sem livre-arbítrio a humanidade não progrediria.
Não teve a oportunidade, contudo, de comunicar à esposa o que se passara pela manhã, porque ela havia reservado para ele umas surpresas:
— Li o texto do Evangelista. Você está disposto a ouvir a opinião de uma pessoa ignorante mas prática?
— Se você guardar as suas idéias só para você, vai me deixar zangado.
— Zangado você vai ficar se eu disser o que penso.
— Zangado por zangado, diga tudo, pelo menos terei um motivo conhecido.
— Vamos deixar as brincadeiras de lado e vamos direto ao ponto. Eu não acho que o santo iria escolher você para trazer notícia tão revolucionária, para usar um termo seguro das conseqüências do restante que tenho para dizer.
Passou pela mente do marido que Margarida havia confabulado com alguém, porque o vocabulário não era o habitual. E disse-o, interrompendo-a:
— Antes de mais nada, quem mais está a par do conteúdo da mensagem?
Pega no pulo, Margarida não titubeou:
— O meu conselho íntimo, quer dizer, Hortênsia, que representou os católicos, e Antonieta, que trouxe as idéias espíritas.
— Então, pelo menos, foi dada alguma importância ao texto!
— Não diria que ao texto mas à pessoa que o escreveu: você, meu querido.
— Eu não escrevi, porque não trazia na cabeça nenhuma dessas idéias revolucionárias. Você sabe que sou um homem de boa paz, que desejo viver sossegado, sem mexer com as pessoas, embora esteja vendo que esbarrei num vespeiro.
— Vamos dizer que não tenha sido você o autor intelectual. Em todo caso, foi quem pôs a mente a funcionar, caso contrário não teria apresentado texto algum. Eu, por exemplo, não tenho escrito nada...
— Porque não se propõe. Basta concentrar-se para que algum espírito amigo...
— Esse é o ponto. Será que esse espírito é amigo? Não me venha dizer que Jesus recomendou ao discípulo que viesse comentar a respeito do fato de ter vivido depois da crucificação. Hortênsia me assegurou que a tese poria abaixo o dogma da salvação da humanidade pelo sangue e pela paixão do Senhor. Toda a Igreja Católica iria cair de pau sobre você e mais ninguém. Antonieta me tranqüilizou, por outro lado, que a mensagem não vai encontrar quem a publique, porque os espíritas também não vão aceitar que um conceito novo e, aqui vale, revolucionário, seja colocado na ordem do dia pelo próprio indivíduo que incorporou o sublime espírito do apóstolo.
Plínio não podia esperar tanto. Tímido, desejou um esclarecimento:
— Você escreveu e decorou o que conversaram ou devo concordar com Cleto quanto a você possuir um gravador mental?
— Preste atenção que o que eu tenho para dizer é importante.
— Sou todo ouvidos, querida.
Ia dizer orelhas, mas sofreou a tempo o impulso que desvendaria o seu íntimo repúdio às intenções dos que desejavam expulsá-lo do convívio dos espíritos superiores.
— Nós três concordamos que Kardec apenas codificou as mensagens das entidades de todas as classes espíritas que lhe eram passadas pelos médiuns. Você — preste bastante atenção — deve encontrar o seu Kardec, aquela pessoa que vai reunir os textos seus e de outros médiuns, para comentar e pôr em condições de serem avaliados e incorporados, se for o caso, ao conjunto do pensamento doutrinário do Espiritismo. Você fez o que prometeu?
— O que foi que prometi?
— Você colocou as cartas no correio?
— A sorte foi lançada...
Se Margarida conhecesse a origem da expressão, diria que o nome dele, apesar de latino, não era César. Limitou-se, pois, a prognosticar:
— Sente-se, porque de pé você vai cansar de tanto esperar pelas respostas.
Ressabiado, Plínio não quis apostar no contrário. Apenas aproximou-se da mulher, afagou-lhe os cabelos que se engrinaldavam de branco, deu-lhe um beijo na testa e agradeceu-lhe com algumas ameaças de lágrimas:
— Muito obrigado, meu amor. Jamais vou me esquecer de sua preocupação para comigo.
Almoçou introspectivo, temeroso de que tivesse feito algo muito ruim para a carreira de médium, precipitando-se ao divulgar a mensagem polêmica obtida na casa do delegado.
À tarde, em lugar de tratar dos temas espíritas com os sócios, deu-lhes a conhecer a proposta da empresa e chegaram os três à conclusão de que o melhor seria aceitar o oferecimento de emprego, mantendo-se o vínculo com a sociedade. Foi Moacir quem levantou um problema:
— O Plínio, saindo, vai abrir uma lacuna, ou seja, vai sobrecarregar-nos com o preenchimento dos formulários e demais prestações de contas ao fisco, conforme ele vem fazendo junto ao computador. Proponho que a gente contrate alguém para substituí-lo quanto ao trabalho mecânico, porque os rascunhos nós teremos de fazer juntos.
Plínio teve uma idéia repentina:
— Se vocês não fizerem nenhuma objeção, trago o meu filho Ovídio, esperto o suficiente para o serviço. Basta que a gente explique tudo direitinho. Aliás, ele está querendo voltar para os pais e vai ser muito bom que encontre algo com que se entreter, como vem fazendo na ajuda que dá ao irmão e aos pastores.
Silvinho apoiou:
— Bem lembrado. Acho mesmo que vai ser melhor assim, porque pai e filho poderão ajudar-se, caso tenham um micro em casa, porque, disquete vai, disquete vem, a nossa firma só tem a ganhar com isso.
Plínio antecipou a decisão. Voltou para conversar com Margarida, que deu inteiro apoio a que o plano tivesse seguimento. Foi, em seguida, à empresa, para conversar sobre as condições do contrato. Palhares e Coelho reuniram-se a ele e tudo se acertou de forma a contentar as partes.
À noite, munido de diversas cópias da famigerada mensagem, foi ao centro, com o intuito de agradecer formalmente aos guias o restabelecimento de sua vida, porque julgava que a vinda do Ovídio, o estabelecimento na igreja do Anacleto e a assistência que se dava ao Ari no etéreo eram definitivos, como estava certo da recuperação mental da esposa.
Encontrou o povo no centro alvoroçadíssimo. Nem entrou e já as moças do grupo, Olívia à frente, pegaram-no pelo braço e o conduziram para a secretaria, onde, porta fechada e vozes abafadas, lhe expuseram o que sucedia:
Ana Beatriz foi quem iniciou:
— Como sou a que está mais calma, fui incumbida de pôr você a par dos acontecimentos. Não se sabe quem, mas todas as nossas mensagens reservadas foram copiadas e distribuídas em diferentes centros.
Plínio não conteve uma exclamação:
— Santo Deus!
E mais não disse, aguardando outras informações.
Ana prosseguiu:
— Os diretores foram chamados para uma reunião urgente na sede da União das Sociedades Espíritas. Não sabemos o que será tratado mas não deve ser nada bom para nós.
Plínio admirou-se:
— Por que vocês estão se incluindo, se fui só eu quem escreveu as mensagens?
Judite respondeu:
— Quando um médium trabalha em conjunto com outros, todos são tidos como cooperadores, como meeiros, como responsáveis. Se tivesse sido apenas um texto, talvez ninguém desse importância. Mas quatro...
Plínio estranhou:
— Como quatro? São apenas três.
Judite, porém, estava certa de suas contas:
— Existe o primeiro texto do substituto do médium Chico Xavier. O segundo é o da pergunta de João a Jesus sobre as palavras com que Deus receberia os espíritos excelsos...
Plínio reconsiderou:
— Com esse, são quatro mesmo. Mas, se bem me lembro, não se pode contar entre os reservados, porque foi distribuído e até saiu impresso como separata de jornal.
Mas Judite estava querendo caracterizar os outros dois e continuou:
— Pois o terceiro foi o do Apocalipse e dos trechos copiados do Antigo Testamento. O quarto foi o do corpo de Jesus...
Novamente, Plínio interveio:
— Este último não pode ser considerado entre os reservados, porque nem foi escrito neste centro. Aliás, vai ser bem fácil de descobrir quem foi que desencadeou o escândalo na federação...
Ana corrigiu-o:
— Na U.S.E. e não na federação.
— Pois que seja. O fato é que distribuí...
Plínio contou nos dedos:
— Uma para o Ariovaldo, outra para o Severo, mais três ontem, duas hoje, outra para minha mulher... Ao todo foram oito cópias. Além, é claro, das quinze que postei hoje cedo e aquela que ficou com o Doutor João.
Olívia, que estivera segurando-se, finalmente deslanchou:
— Meu caro amigo, não importa que você tenha feito um milhão de cópias. Aliás, você não relacionou as nossas cópias. O que interessa, porém, é a reação das pessoas. Os diretores que foram mantidos fora do nosso círculo se sentiram traídos. Vamos dizer, é apenas uma hipótese, que Margarida, inadvertidamente, tenha mostrado a mensagem a algum deles...
— Ela ou Antonieta...
— Veja que as coisas se complicam. Aí, um dos descontentes resolveu denunciar, com a desculpa de conhecer o parecer da entidade et cetera e tal...
Insistiu o abobalhado médium:
— Mas não houve tempo para isso. Afinal, foi anteontem que eu apanhei o texto e ontem é que mostrei para o povo daqui. Como é que chegou tão depressa aos outros centros e teve uma resposta a jato? Existe algo misterioso nessa história.
— O que não é misterioso foi o que ouvi e acho que você deveria saber. Prepare-se para o pior. Estão dizendo que, se você quiser continuar ajudando o centro, vai ter de se contentar com as tarefas manuais e voltar a cursar as aulas de doutrina. A mediunidade está proibida.
— Vou para outro centro.
— Se houver algum que o aceite, porque o fato está tendo ampla repercussão.
Foi só aí que Plínio atinou deveras para a preocupação das amigas. Olhou-as fixamente nos olhos, alternadamente, e agradeceu-lhes o interesse:
— Eu nunca mais vou me esquecer de nenhuma de vocês. Sinto muito que tenham sido envolvidas. Sabem que mais? Vou para casa agora mesmo. Vou conversar com minha mulher. Juntos, nós vamos decidir sobre o que vai ser melhor para todos. Antes, porém, quero que vocês saibam que isto ia acontecer de um jeito ou de outro, mais tarde, evidentemente, porque enviei quinze cópias, para quinze jornais espíritas. Se algum publicar, o escândalo vai ter repercussão muito maior. E, se não houver crítica mas elogio...
Olívia contestou:
— Se bem conheço essa gente, você vai morrer e o texto vai mofar nas prateleiras. Além do mais, palavras de elogio, meu caro, esqueça, porque, se alguém falar alguma coisa, vai ser para derrubar você do seu pedestal. Pode estar certo do que estou falando.
Algumas lágrimas brotaram dos olhos dela, contagiando os outros três. Abraçaram-se como se fora o derradeiro encontro nesta encarnação e Plínio se retirou, tão distraído que quase abalroou Severo que passava no corredor.
— Plínio, meu bom amigo, eu li a mensagem que você nos entregou ontem. Interessantíssima! Acho que o seu amigo da espiritualidade está tentando uma tarefa ingente, qual seja, a de unir os espíritas em torno de um pensamento único que acolhe Kardec e Roustaing ao mesmo tempo. Quarta-feira, vamos ter muito o que conversar com a turma.
Pareceu a Plínio que Severo acabava de chegar e desconhecia a agitação do centro. Sem condições de falar, contudo, tomou a mão do amigo, apertou-a contra o coração e saiu com a vista embaciada, sem perceber que Ariovaldo conversava do lado de fora com outros diretores. Caminhou ao longo de cinco quarteirões, quando se recordou de que fora de carro. Arrepiou caminho, já mais dono de si, pôs a chave na ignição, deu partida e, lentamente, avançou na direção de casa.



16. ARI SE HABILITA A AUXILIAR DE SOCORRISTA

Depois de muito lutar para a compreensão das razões por que não tinha domínio sobre a própria vontade, Ari deduziu que estava tendo coibida a liberdade de agir, para resguardo contra si mesmo. Desde que obtivera suficiente força para aparentar a idade de vinte e poucos, conforme estão os leitores a par, buscou os bancos escolares para aprender os rudimentos das leis cósmicas, quais sejam, necessidade de realizar o bem, à medida que estivesse requerendo os mesmos direitos para si, lei de causa e efeito e seus reflexos nas encarnações, segundo os objetivos específicos determinados pelo próprio indivíduo, leis de justiça, de trabalho, de conservação, de destruição etc. Em suma, passou pelo catecismo espírita do etéreo, adquirindo a noção de responsabilidade, despojando-se dos desejos incoerentes de sintonia com a perversidade e com os vícios, recordações que se despertavam das derradeiras romagens terrenas, a forçar visões íntimas dos sentimentos impuros que o haviam levado ao ódio aos inimigos.
Por outro lado, revisou, de maneira fortemente impregnada de culpas, todas as noções morais, éticas e religiosas, que aprendera através do intelecto mas que não aplicara nas situações de vida real. Repassou os Evangelhos, na companhia de colegas de mesmo nível vibratório e com as mesmas lacunas espirituais, sendo levado pelos professores a considerar profícuo um estágio junto aos socorristas em atividade na crosta terrestre, próximo passo no sentido da percepção dos desvios da personalidade, para o que teria de fazer-se discípulo de algum protetor da própria família.
Foi assim que teve oportunidade de abraçar o velho Saldanha, cuja figura se apagara na memória do jovem e que renascia com o poder de censura que ia adquirindo e administrando.
— Vejo, meu querido sobrinho e bisneto, que você, com a graça de Deus, se recuperou dos transes provocados pelas drogas. Já esteve no Departamento de Recuperação da Memória para deslindar os fatos que o conduziram a um precoce suicídio?
— Caríssimo protetor, tenho consciência do que fiz de errado, inclusive pude observar, na tela do passado, a revivescência dos momentos que antecederam a ingestão da dose letal de cocaína e da impotência do amigo para me chamar ao reto caminho do dever do carma a que me obrigara por compromisso de reencarnação. Vi que você fez o que pôde, inclusive apelando para setores especializados da colônia. Também tenho de agradecer-lhe o desvelo dos primeiros tempos, porque, sem a sua ajuda, eu teria caído diretamente nas trevas mais profundas de minha petulante personalidade. Deus lhe pague, querido irmão!
Mas Saldanha não estava para efusivas manifestações sentimentais, inteiramente imerso nas atividades de acompanhamento dos sucessos que envolviam o pupilo Plínio, agora complicadas ainda mais com a obrigação de orientar o Ari. Por isso, destacou o trabalho, a ver até onde iam os conhecimentos do aluno:
— Está você a par da vida de seus familiares?
— Sim. Primeiro o Doutor Edgar e depois os mestres da Escolinha de Evangelização me ofereceram subsídios históricos, sem os retratos morais relativos à sucessão de ações e reações, tendo em vista a formação de suas personalidades.
— Você está me dizendo que não estudou o quadro geral; apenas contemplou alguns episódios recentes?
— Isso mesmo.
— Acho que não vamos ter tempo para digressões. Contente-se com as suas reminiscências e observe tudo o que lhe representar justa expiação ou desafio a vencer. Vou descerrar-lhe o panorama de vida de Plínio, seu pai, mas não me faça nenhuma pergunta, porque estarei atarefado com os choques que vem recebendo da sorte, uma vez que o coitado se sente desprestigiado exatamente pelas pessoas em quem mais confiava dentro do movimento espírita.
Ato contínuo, Ari se encontrou ao lado do pai, dentro do automóvel, retornando cuidadoso para o lar.
Saldanha colocou a mão sobre a cabeça de Plínio e Ari pôde ler-lhe os pensamentos eivados de profundas comoções sentimentais. Penalizou-se com a ênfase que o progenitor dava ao serviço mediúnico posto em xeque e com a anulação da idéia de substituto de Chico Xavier.
Anotou sua primeira questão:
“Plínio está demonstrando profundo orgulho ou legítimo interesse em servir à humanidade?”
Uma palavra chamou-lhe a atenção no texto memorizado:
“Por que, sem sentir qualquer tendência afetiva positiva ou negativa, não chamei Plínio de meu pai?”
Não conseguiu desvendar o mistério e, quando percebeu, Plínio chorava nos braços de Margarida.
Ari contemplou as ondas de amor que se fundiam e se evidenciavam para os seus olhos de novato, julgando que os laços que uniam os pais eram bastante fortes para mantê-los juntos até para além da vida. Anotou, então:
“Se existe a felicidade conjugal, por que os entreveros mundanos causam tanto distúrbio e desequilíbrio psíquicos? Não há, no fenômeno moral, um quê de egoísmo e de vaidade?”
Ao mesmo tempo, vinham-lhe à mente os momentos de paz no hospital do etéreo, quando a mãe, em espírito, ia visitá-lo. Algo precisava ficar anotado, para a intuição não se perder:
“Não teria sido preferível, ao invés de me mostrarem posteriormente os quadros dessas visitas, que me tivessem despertado no justo instante em que minha mãe comparecia?
Subseqüentemente, incluiu outra observação:
“Disse minha mãe e não Margarida e pude observar certo frêmito de alegria em designá-la assim. Por quê?”
Introjetou-se de novo, de sorte que, quando despertou, aliás sem resposta definitiva para a inquirição psíquica, estavam os pais discutindo acaloradamente a respeito de algumas teses espíritas. Foi quando observou que Saldanha acalmava os ânimos, enviando fluidos de muita paz em ondas de harmonia, entre as quais o rapaz pôde reconhecer a sua própria figura envolta em halo de superior luminosidade. Olhou para si mesmo, vendo que seus reflexos externos não tinham nem um pouco do brilho que a figura idealizada emitia.
Entretanto, não quis perder o andamento da conversa entre os mortais, de sorte que não fez nenhuma anotação.
Dizia Margarida:
— Eu sei que existem espíritos e que as entidades que se manifestam são as almas dos que viveram e morreram. Sei que, se fossem demônios, não dariam conselhos bons e só estimulariam o ódio, o sentimento de desforra, o desejo de vingança. Mas também existem espíritos levianos, zombeteiros, não muito maus, mas perfeitamente enquadrados entre os de baixa categoria. Eu li a escala dos espíritos de Kardec. Mas você não pode negar que o Codificador preveniu quanto aos maliciosos, os rancorosos, os ardilosos, os malfeitores, os gananciosos, os perversos, os malfazejos, os cínicos...
Se Plínio não a interrompesse, elevaria a lista a muitas dezenas de qualificações pejorativas:
— Daí a dizer que o meu amigo João Evangelista está mal intencionado vai uma distância incrível. Só porque veio retratar-se...
— Esse é o problema. Você acha certo que uma entidade de tanta luz, de tanta perfeição, discípulo muito amado do Cristo, volte para demonstrar aos mortais seus próprios erros? Você não acha que ele já deve ter superado, em dois mil anos, todos os traumas provocados por seus equívocos terrenos? Nós, que somos tão inferiores, não temos encontrado conforto em simples palavras que nos asseguram que o nosso Arizinho está bem, desenvolvendo-se através da assistência dos protetores e dos benfeitores de luz, ele mesmo adquirindo uma aura de forte brilho, porque sofreu e se depurou dos males que nos causou ao desencarnar tão jovem?
— Se Arizinho pudesse manifestar-se através de mediunidade, o que nos diria ele? Se dissesse que foi o próprio apóstolo quem trouxe as fatídicas mensagens, você se persuadiria?
— E quem está apto a repetir o que ele teria a nos dizer? Não você, meu caro, que está transtornado. O momento mediúnico tem de ser realizado em absoluta tranqüilidade...
— Esse é um preconceito. Kardec não disse isso em lugar nenhum. Aliás, esteve num teatro junto a um médium vidente, que conversou com um espírito brincalhão e que lhe transmitiu as notícias da entidade, em meio à enorme confusão da peça e dos espectadores. Você estava presente à conferência do Severo; não estava?...
— Agora está dizendo que é capaz de, perturbado como está, entrar em contato com o nosso filho? Só faltava essa. Se fizer isso, vai ter de trazer informações muito sérias e, assim mesmo, vai ser difícil de aceitar como verdadeiras, porque eu acho que você está pronto para inventar histórias.
Ari fez menção de passar algum sentimento íntimo ao Plínio, para demonstrar que estava realmente ali, todavia Saldanha interveio, pondo-o a par de que isso daria motivo para novas discussões entre os encarnados.
Plínio, por seu turno, acrescentou:
— Eu compreendo muito melhor do que você como é que se dá a transmissão entre os planos. Fiz isso várias centenas de vezes, recebendo todo tipo de seres que se expressavam por escrito. Até um analfabeto veio ditar uma cartinha muito afetuosa aos filhos. Pena que tudo se perdeu no incêndio. Agora estão querendo impedir-me de trabalhar para recuperar...
— Você já se perguntou se não houve a intervenção do seu protetor, no intuito de preservá-lo de mais aborrecimentos?
Ari despertou para um sério entrave nas comunicações e registrou:
“Não estou reconhecendo as expressões de minha mãe como próprias de seu psiquismo ou de sua desenvoltura mental. Será que ela diz as coisas num dialeto diferente daquele que capto? Explicando melhor: será que a minha capacidade de raciocínio interfere de imediato nas imprecisões vocabulares dos falantes, corrigindo as falas, no sentido de traduzi-las com mais veracidade dentro do meu universo de conhecimentos?”
Ao despertar para a realidade, verificou que amanhecia e que os espíritos dos pais se acomodavam de novo nos corpos.
“Por onde terão andado e que descobertas terão feito?”
— A essa questão eu lhe respondo já — informou-lhe Saldanha, ao seu lado. — Eles estão buscando colônias no etéreo em que predominam ex-filiados às crenças protestantes e ao movimento espírita. Se você achar oportuno, resumo as tendências dos dois, porque estão sendo cativados para ambas as realidades.
— Se me permite escolher, caro amigo, vou preferir segui-los numa próxima peregrinação.



17. PLÍNIO VAI PARA O OUTRO LADO

Vamos surpreender o nosso herói passando uma temporada nas praias do Nordeste, um ano depois dos últimos acontecimentos.
Já não traz mais aquele ar macambúzio nem as costas descaem culpadas de erros que a consciência não aponta. Está muito feliz, enquanto passeia pela orla, com intenções claras de perpetrar um ato definitivo.
Tira da cintura um recorte de jornal, foge das marolas, mas permanece sobre a areia úmida. Senta-se, acomodando-se para efetuar a leitura do texto. Dentro da alma, algo lhe diz que é a derradeira leitura de uma página relida dezenas de vezes.
Passa a repetir, quase sem olhar para o papel, porque conhece de cor as opiniões do articulista:
“Se Kardec fosse vivo, teria sobre que falar ao povo, quanto aos cuidados que os médiuns devem observar. O nosso título de Mistificador Emérito se justifica plenamente pela falta de tino, pela ausência de percepção da verdade, pela ingenuidade infantil na captação de uma peça que se desejou autêntica, mas que está pontilhada de más intenções, como se o argumentar não devesse pautar-se pela honestidade e pela racionalidade. O fato de o médium ter enviado a sua página para ser publicada entre as cartas dos leitores não diminui, ao contrário, aumenta a responsabilidade dele junto ao público espírita incapaz de discernir entre o que advém da espiritualidade superior e o que é produzido nos antros mais torpes das regiões trevosas. Falar do Cristo, de sua manifestação corpórea e espiritual, de suas divinas lições de amor e fraternidade, de sua religião filosófica ou de sua filosofia religiosa, sempre haverá de ser muitíssimo perigoso para qualquer um. Acrescentar a essa intenção de ensino universal a respeito da mais alta entidade, da mais perfeita, conforme os espíritos de luz afiançaram a Kardec, que veio ao mundo para salvar os homens e as mulheres, o nome sagrado de João Evangelista, como se fosse um rapazelho de recados, é cair na malha de engodos dos espíritos da mais baixa procedência; é instigar a maledicência contra o movimento espírita; é colocar em ridículo a própria Doutrina.”
Em lugar de enxugar as lágrimas costumeiras, Plínio sorriu, suspendeu a leitura do texto, que prosseguia por várias colunas, voltou a ordenar as folhas, leu o título do jornal: Páginas do Amor Espírita, e caminhou decidido contra a arrebentação. Foi aprofundando-se até que as ondas ameaçaram engoli-lo e soltou o papel inteiramente molhado, como se oferecesse ao oceano o produto de suas esperanças.
Passou as mãos sobre os olhos a afastar o sal que os irritava e gritou, sabendo que seria ouvido:
— Meus bons amigos, a minha vida não valeu. Vim até o ponto máximo que o meu ideal materialista imaginou como a suprema realização corpórea. Tenho dinheiro, tenho carros, tenho mansões, tenho mulheres, tenho iates, a saber: o dinheiro de minha mediunidade; os carros de minhas mensagens; as mansões dos templos que me acolhem, as mulheres de minha família: minha mãe, minha esposa, que me deu filhos, minha nora, que me deu meu querido netinho; os iates de minhas viagens pelas esferas superiores. Mas a mediunidade eu a perdi, porque não prestei atenção ao roteiro de cautela e de sabedoria que Kardec registrou em sua obra; as mensagens se reduziram a cinzas, enquanto a minha covardia e o meu orgulho me impediram de registrar outras; os templos, que deveriam ser as casas espíritas, são as sedes religiosas em que meu filho e pastor vem pregando, com extraordinária facilidade e eloqüência; as mulheres: mamãe vem me visitar em espírito para me aconselhar — graças a Deus! —; Margarida realiza a proeza de viver na corda bamba, entre os arroubos de Ovídio e o arrependimento mórbido do marido; Aurélia vive para a família e me induz a pensar em que a felicidade existe; os iates se perdem no futuro desta minha idade ainda cheia de vida, mas sem as perspectivas de atender ao roteiro que devo ter traçado antes de reencarnar. De qualquer forma, Senhor, meu Deus, e Jesus, meu mestre, e Kardec, meu professor, e João Evangelista, meu amigo, e Saldanha, meu protetor, e Ari, meu mui amado filhinho, devo agradecer ter chegado até este ponto elevado de minha existência, porque não creio que jamais, em qualquer plano ou círculo em que fixei morada, pude compreender a mim mesmo e ao universo com tamanha dignidade e tão poderoso significado.
Enquanto regressava em direção da areia, os olhos feridos pelo sol ainda alto, recordava-se de um episódio que lhe dera motivo para as mais profundas reflexões:
“Se o Doutor João não tivesse dado a Ovídio uma cópia da célebre página sobre o corpo de Jesus, Cleto não teria o que mostrar a Honorato nem este o que entregar a Moisés. Sendo assim, as cópias não teriam sido encaminhadas, via fax, à sede, nem reproduzidas para a façanha da rápida distribuição, nem me causariam o transtorno de me justificar perante a comunidade espírita. Com certeza, as minhas missivas aos jornais não mereceriam publicação nem comentários e eu estaria de bem com os amigos espíritas. Ariovaldo me daria cobertura; Ana Beatriz, Judite, Olívia e Antonieta o apoiariam; Silvinho e Moacir me abraçariam com mais energia ainda; Severo estabeleceria novo roteiro para o meu trabalho; os demais...”
De repente, ao vir dando com o solado dos pés na água rasa, borrifando divertido ao derredor, atinou com uma resposta que fazia tempo aguardava:
“Foi ela, é claro: Liberata. A velha senhora também recebeu uma cópia da mensagem das confissões do Evangelista. Aqueles cabelos brancos não poderiam suportar outras cargas de responsabilidade e ela deve ter esquecido de esconder o texto. Só pode ter sido ela.”
Abriu a mente para receber o influxo das vibrações dos companheiros do etéreo, porém, não ouviu nenhuma confirmação da suspeita.
Deu as costas para a orla marítima e passou a observar as ondas que se formavam ao longe e vinham, muito serenas, esparramar-se em borbotões de espuma junto à areia. Aquele ir-e-vir enleou-o por muitos minutos. Um diálogo se reproduziu em sua memória:
— Querida, você está me pedindo algo muito sério. Deixar de me oferecer à mediunidade por quatro ou cinco anos vai ser o mesmo que jogar fora uma habilidade que venho desenvolvendo...
— E que vem lhe causando sérios problemas...
— Mas isso há de mudar, você vai ver.
— Não vou ver, não! Você precisa dar apoio ao Cleto.
— E o Ovídio? Nestes dois meses desde que ele está de volta, não passa uma semana sem que vá ao centro duas ou três vezes. Ele acredita em mim e nos meus textos.
— Ele também vai entender que o Cleto precisa da gente. Vamos dar uma força ao mais velho. Depois, você cuida do Vidinho. O tempo é a garantia do nosso sucesso.
— Essa frase não é sua...
— E que importância tem isso? Eu digo que o tempo vai correr ao nosso favor.
— E se a gente morrer antes que o Cleto se estabeleça?
As lembranças se interrompiam aí. Logo se viu diante do mais novo, a conversarem reservadamente:
— Meu caro, a sua mãe está me forçando a abandonar por uns tempos o Espiritismo. Que você pensa disso?
— Kardec e seus amigos da espiritualidade superior afirmam que, em primeiro lugar, vem a família, para dar às pessoas a certeza de estarem agindo em conformidade com as leis cósmicas. É assim que as pessoas adquirem amigos eternos e desfazem as inquietações.
— Quer dizer que você está de acordo que eu me inscreva entre os crentes do culto protestante?
— Eu acho. Mas o que eu acho não deve ser o que você deve fazer. Eu sei, por exemplo, que você está me consultando pro forma. Na verdade, já tomou sua decisão. Mas fico muito contente que esteja preocupado comigo. Vá em frente! Mais tarde, como o tempo é o mestre da vida...
— Essa frase não é sua...
— Ela vale para eu dizer que o mundo dá voltas e você vai poder restabelecer o prisma espírita de sua tendência existencial.
Plínio meditou longamente sobre se o filho tinha dito mesmo a frase restabelecer o prisma espírita de sua tendência existencial.
“De qualquer modo”, concluiu, “neste momento, não vejo como não me alegrar por pertencer a uma igreja que apenas me dá satisfações. Dificilmente vou negar que Jesus não tenha abençoado minha vida, com uma profissão rendosa, com uma casa confortável, com filhos, nora e neto saudáveis, com muitos amigos importantes, pastores e bispos, na companhia de quem tenho me recreado e divertido. Se for de meu destino, voltarei para a seara espírita, onde vou prosseguir ajudando os pobres, distribuindo alimentos, agasalhos e remédios, de noite e de dia, como venho fazendo na congregação evangélica. Talvez, numa próxima encarnação, todos nós retornaremos para retomar a doutrina do ponto em que paramos. Isso se Jesus não nos acolher desde logo em seu reino de paz e amor, depositando nossas almas aos pés de Deus.”
Sentiu que lhe aspergiam de água a cabeça, como se estivesse recebendo o batismo no Jordão. Era Margarida, toda sorrisos, que o abraçou pelas costas, deixando perpassar-lhe pela mente a idéia de que estivesse sendo assediado por um obsessor. Mas logo se desprendeu, para correr lépida e elegante, em suas formas esbeltas, provocando-o, para que a pegasse.
Plínio hesitou um instante, mas pôs-se a perseguir a esposa, querendo alcançá-la antes que penetrasse nas trevas.
Enquanto isso, o sol expandia-se, em forte luminosidade, refletindo-se na multidão de corpos de ouro e de ébano.

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