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Roteiro_de_Filme_ou_Novela-->ADONIAS E ADÃO -- 02/03/2005 - 07:31 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

WLADIMIR OLIVIER

















Adonias e Adão



























Edição da CASA DO MÉDIUM

Rua Cinco de Julho, 1184
Indaiatuba — SP



ÍNDICE

Referência universal ......................................
1. O serviçal do Senhor ......................................
2. O convite .................................................
3. Com a família .............................................
4. Como se fosse um sonho ....................................
5. Como se fosse realidade ...................................
6. Preso em casa .............................................
7. Na rua ....................................................
8. Tempo de espera ...........................................
9. A entrevista ..............................................
10. O exame ...................................................
11. A internação ..............................................
12. Os estudos ................................................
13. Templo e hospital .........................................
14. No ambulatório ............................................
15. Tomando pé da realidade ...................................
16. Forte desejo de sair ......................................
17. Ergue-se uma ponta do véu .................................
18. De volta à Igreja .........................................
19. No necrotério .............................................
20. A rebeldia esquecida ......................................
Epílogo ...................................................



REFERÊNCIA UNIVERSAL

Assistimos, presentemente, na Terra, ao declínio dos recursos naturais, por força da má aplicação dos infinitos dotes de inteligência do bicho-homem, que deseja progredir sem sacrifícios, porque visa a dar-se total bem-estar, ainda que o futuro das gerações se ponha em perigo.
No entanto, se formos interrogar um a um, iremos observar que bem poucos têm consciência dos males que praticam contra a vida, eximindo-se cada qual de responsabilidade, afirmando que é fruto e decorrência das estruturas mentais que herdou, mesmo que seus sentimentos religiosos lhe desenhem claramente a necessidade de amar incondicionalmente a todos os seres humanos, na condição de irmãos em Deus.
Nesse empurra-empurra universal, todos sofrem as conseqüências, se não diretamente, ao menos em relação aos descendentes, que vão arrebanhando em seu organismo quantidade cada vez mais expressiva de material estranho, para os quais, cada vez menos, seus recursos imunológicos estão sendo mobilizados de maneira adequada. Se é bem verdade que a história da humanidade registra épocas de pestes, se milhões e milhões de pessoas pereceram vitimadas por ondas de graves moléstias, nos dias que correm não são menos graves outros distúrbios sociais, caracterizando verdadeiras crises de envolvimento afetivo, tendo em vista que os seres humanos estão cada vez mais interessados em sistemas de segurança particulares, descrentes das pessoas encarregadas do poder público.
Claro está que a nossa análise parte de uma visão próxima da realidade em que estão mergulhados nossos prováveis leitores, já que não iremos censurar certos centros mais adiantados, onde as pessoas são capazes de avaliar com maior justeza o que se passa no planeta.
Esta primeira incursão mediúnica servirá para delinearmos nosso nível de preocupação, vamos dizer assim, material, dado que os espíritos, primeiro, precisam considerar a necessidade de dar amparo aos seres viventes, para que possam criar mecanismos evolutivos no âmbito da moralidade superior; depois, temos de preservar o ambiente terrestre para muitos de nós em vias de reencarnarem-se, a maioria por necessidades cármicas comuns, outros para ministrarem aos parceiros de humanidade as noções claras de que os prejuízos crescentes tenderão a fechar as portas às multidões carentes de perpassarem por novas vidas de provações.
Esta última consideração nos levaria a oferecer um quadro muito negro do futuro, se não nos restasse o consolo da doutrina espírita, a qual nos permite visualizar outras realidades mais felizes, em mundos espirituais mais adiantados. Mas quem está empregando mal a sua inteligência, abismando-se nos despenhadeiros dos vícios e dos erros de interpretação dos objetivos do Pai quanto à criação deste universo, deve reservar uns instantes para esta leitura, que, esperamos, possa ser de alerta para que se evitem inúteis e improfícuos arrependimentos.



1. O SERVIÇAL DO SENHOR

Temente a Deus, Adonias não tinha, desde a infância, demarcada outra vocação a não ser a de servir ao Criador, para quem dedicava todos os momentos da vida.
Servia bem e em proveito das almas dos semelhantes?
Isso é o que veremos no decorrer da narrativa.
Adonias, pois, vestiu a toga dos ministros eclesiásticos, para dizer que estava com os encardidos andrajos dos monges peregrinos, e, quando foi chamado de volta ao convento, desobedeceu, dizendo que servia ao Senhor e não aos homens.
Terminou expulso da ordem mas nem deu por isso, porque preso não poderia ir em época em que a Igreja não tinha força de estado. Então, desejou criar uma seita própria, sem filosofia escrita, sem roteiro definido, com o poder da convocação aos deveres cristãos, pois memorizara os preceitos enunciados por Jesus, sendo capaz de recitar todos os sermões e parábolas, a qualquer hora do dia ou da noite em que se deparasse com algum magote de pessoas dispostas a perder um pouco de tempo, na maior parte das vezes coagidas pela permanência em filas ou locais de aglomeração, como em estádios esportivos ou desfiles militares, por exemplo.
Adonias não era velho no instante em que o surpreendemos para dar início aos acontecimentos que o envolveram.
Numa bela tarde de verão, na praia, vendo que a modorra das primeiras horas após o almoço fazia espairecer o povo, subiu num banco e, alçando as mãos aos céus, enquanto suas longas batas se insuflavam ao vento tépido dando-lhe ares de santo, começou a arengar, conclamando aos atos de fé e de caridosa contribuição pelos miseráveis:
— Eu não peço nada para mim. Para mim basta a generosa dádiva de Deus que é a minha vida. Eu peço para os filhos da desgraça, as crianças que ficaram sem pais ou sem mães atirados pelos marginais ou estraçalhados na via pública pelas carretas e pelos automóveis. Eu peço pelos velhos cujos filhos foram embora em busca de aventuras criminosas, sem nenhuma consideração pelos que os puseram no mundo e agora passam fome. Não me entreguem nada, mas procurem nas sacolas de suas consciências uns trocados, para poderem dar em qualquer igreja ou instituição de benemerência, como tantas existentes na cidade.
Eis como chamava a atenção, prosseguindo sem mencionar texto nenhum até que alguém o desafiasse por pertencer a alguma religião que se visse atingida pela voz libertária do pregador:
— Como é que você explica que os católicos têm tantos bens, enquanto as pessoas morrem de fome nas portas das igrejas?
A sotaina denunciava o antigo vínculo, mas Adonias não se apertava:
— Os nossos irmãos sacerdotes do clero secular, que são os responsáveis pelas arrecadações no seio das comunidades cristãs, deveriam responder à sua pergunta, meu caro compatrício. Quanto a mim, não estou vendo nenhum deles neste palco iluminado pelo divino sol do verão, a ouvir estas palavras de boa vontade e de amor. Se você, que me pergunta como se me desafiasse, tem conhecimento dessas famílias que padecem fome às soleiras dos templos católicos, deve saber de muitas outras que morrem à míngua junto a outras instituições religiosas...
Esse o tom geral das querelas que estabelecia porque não desejava deixar ninguém sem resposta, dando o troco à altura das provocações, buscando evitar que seus sermões se tornassem motivo de riso e de chacota. Sabia que as suas palavras eram mágicas e que a potência de seus pulmões era suficiente para se fazer ouvir até a décima fileira de pessoas.
Uma ocasião, ao passar pelo centro de uma praça, viu um desses mequetrefes que vendem saúde em forma de produtos naturais a engodar os trouxas, chamando a atenção do público por meio de um aparelho de som, alto-falante suficiente o bastante para produzir um ruído mais ou menos indistinto, misturado com o respirar ofegante do orador, com certeza para impressionar aos ouvintes. Mas não gostou do artifício, muito embora se tenha deixado seduzir pela possibilidade de alcançar um povo em mais larga escala, como os pastores e sacerdotes nos púlpitos e palcos.
Foi assim que a sementinha começou a germinar, porque sabia que as arrecadações eram muito fortes em quaisquer templos em que se falasse em nome do Senhor.



2. O CONVITE

Vagava há alguns anos observando a vida crescendo e perdendo-se nas ruas da cidade. Fixava seus pontos de vista em favor de empreender a salvação da humanidade, em nome de Deus, e rezava por horas a fio, às vezes, noite adentro até o raiar do dia.
Mas Adonias era lúcido, sabendo gravar na memória todos os fatos que reputava de interesse. Se conversava com uma pessoa, e isso ele fazia apenas durante as discussões públicas, porque nem aos familiares dava trela para arengas improdutivas, essa figura permanecia presa nos neurônios permanentemente.
Foi por isso que aquele mesmo sujeito que o interrogou a respeito dos pobres à porta das igrejas católicas, quando se apresentou de novo para novas questões, Adonias imediatamente despertou a recordação de todas as circunstâncias da vez anterior.
Desta feita, o sujeito ficou calado, anotando num papel não tão imperceptivelmente que o orador não houvesse percebido a atitude disfarçada. Mas calou-se também, desejoso de ver até onde poderia ir aquela atividade inusitada.
Falava a respeito de seu tema favorito, ou seja, a respeito da pobreza e do sofrimento, mescla de miséria humana a atingir boa parcela da sociedade:
— Quando Jesus curava e pedia para o povo manter sua fé no Senhor, era porque tinha a certeza de que muitos dos presentes seriam capazes de aprender suas lições, caso contrário qual seria a vantagem de pregar no deserto? Houve um momento em que duvidou de sua pregação, mas, iluminado pelas forças supremas do universo, soube resgatar a presença das boas sementes que se despejavam num terreno fértil e resguardado. Se vocês estão pensando que Jesus teve uma inspiração para efetuar a parábola das sementes e dos terrenos, vocês aí estarão completamente enganados. Jesus estava refletindo a respeito de como era penoso ir de povo em povo, proclamando a necessidade do bem e do amor, da caridade, sobretudo, do desprendimento dos bens mundanos e do perdão aos inimigos. Ele buscava que os seus ouvintes fossem capazes de praticar tudo quanto lhes ensinava, mas duvidava de que muitos o fizessem, porque conhecia o coração das pessoas, seus interesses mesquinhos e sua visão deturpada da vida e do mundo. Quando se recolheu, um dia, após repetir pela milésima vez que a boa semente quando cai sobre as pedras é queimada pelo sol, aí percebeu que nem os seus mais caros discípulos tinham tido a noção exata de suas palavras e precisou reproduzir os ensinamentos de maneira mais clara, a ponto de elucidar um fator de risco para quanta gente se dispõe a nivelar todos do público por cima, pois se viu forçado a explicar à parte, minuciosamente, o que cada trecho de sua augusta parábola estava a significar.
Foi quando o sujeitinho, respeitosamente, levantou a mão, solicitando permissão para perguntar. Adonias o que mais queria era aquilo mesmo, porque despertava o interesse dos que estavam presentes apenas com seu físico, porque o espírito pairava longe, embalado pela miragem histórica de um Cristo formoso e puro, a ter sob os pés, montanha abaixo, a multidão dos judeus e dos estrangeiros, alguns levando consigo armas e uniformes das milícias romanas.
Sendo assim, fez questão de que o povo todo se voltasse para a figura que desejava manifestar-se:
— Vejo que existe um amigo que pretende argüir-me a respeito do que estou falando. Vá em frente e diga tudo o que esteja pensando e que esteja sentindo. Ponha o coração em suas palavras, mas seja absolutamente claro e honesto, porque de perguntas maliciosas eu não sei livrar-me como Jesus fazia em relação aos fariseus e aos doutores da lei.
Apontava para a personagem, de modo que todos puderam voltar para aquele ponto no meio da multidão, havendo alguns que se apartaram da figura indigitada, para evidenciarem a quem estava sendo dirigido o dedo em riste do pregador. Mas a pessoa não se apurou e se pronunciou, talvez com ânimo renovado pela atitude amiga do que estava sobre a mesa de praia afastada das demais com a adrede intenção de ficar no centro da aglomeração:
— Meu bom homem, as suas palavras são a mais clara demonstração de sua boa vontade e de sua inteligência. Em primeiro lugar, para que fiquem cientes as pessoas aqui reunidas, nós não nos conhecemos e só trocamos algumas observações outro dia, numa belíssima tarde de sol. Se alguém pensar que estamos combinados, vai enganar-se. Mas eu devo dizer que Jesus era uma pessoa acima de qualquer suspeita, de forma que supor que ele pudesse ter problemas pessoais é um desplante. Jesus era o filho querido de Deus, Deus ele mesmo, a segunda pessoa da Divina Trindade, que se completa com o Espírito Santo. Sendo assim, eu não concordo e acho que muitos aqui não haverão de concordar quando você diz que Jesus estava preocupado com problemas pessoais. Jesus não podia passar por sofrimentos desse tipo. Se amargou a taça de fel até as fezes, foi porque os males da humanidade que iria destruí-lo eram maiores que o poderio de suas palavras. Veja que estou concordando com o fato de que muitas de suas palavras caíram nos espinheiros e não foram adiante. Também acho que as suas e as minhas não terão repercussão alguma na mente e no coração das pessoas que nos cercam, entretanto, quero reforçar o ponto principal de sua expressão pública, qual seja, a necessidade de que todo o mundo contribua para o bem comum. Mas eu não vou concluir o que vim dizer sem pedir-lhe permissão para realizar um convite a toda a gente e a você mesmo, meu bom amigo.
Adonias, pela amostra do dia anterior, não poderia ter suposto que o homem seria capaz de colocar seu ponto de vista com tamanha desenvoltura. Sendo assim, enquanto o outro falava, ia analisando as palavras, os gestos e a roupa do oponente virtual e logo deduziu que se tratava de algum pastor evangélico dessas seitas protestantes emergentes, dessas que captam o mais possível de pessoas, para delas extraírem tudo que possam conseguir, com a promessa da devolução, decuplicadas por Deus, de todas as oferendas e doações. Dessa forma, quando o outro lhe solicitou permissão para o convite, ele estava preparado para prosseguir em sua peroração:
— A sua educação, meu amigo, está a me indicar uma pessoa voltada a fazer o bem. No entanto, tenho muito medo de que a sua contribuição evangélica e moral, quando atribui a Jesus todas aquelas qualidades, as quais eu não nego, se restrinja a um peditório desenfreado, enaltecendo a figura excelsa para a comoção do público reunido em seu templo particular, onde o dinheiro jorra para a grandiosidade material de sua igreja, como o pessoal da Igreja Católica vem ostentando desde há muitos séculos uma riqueza que faz mossa, que comete a mais horrorosa provocação das sensibilidades voltadas para aqueles que estão a ponto de praticar todas as loucuras contra as leis de Deus, somente porque precisam sobreviver e dar de comer aos filhos. Se o seu convite, meu caro, for para nos levar até uma assembléia armada com o propósito de verificar quanto somos capazes de doar para efeito de sermos recompensados futuramente, esqueça, porque eu não pretendo dispor da boa vontade de ninguém para me acusar mais tarde de estar mancomunado com uma pessoa que me vem seguindo, provavelmente para distribuir panfletos, como se eu mesmo estivesse explorando a boa-fé dos meus ouvintes. Mas eu não vou recusar-me a atender ao seu pedido. Deixei o meu aviso para quem tem ouvidos de ouvir. Se alguém quiser ver para crer, que aceite ir aonde você quer levar esta gente.
A bem da verdade, havia umas vinte e poucas pessoas. O debate, talvez por isso mesmo, ganhava aspectos surrealistas, como se dois tremendos apóstolos do Cristo estivessem a debater as verdades eucarísticas, segundo os ensinos que se poderiam deduzir como corolários das verdades simples que Jesus dispunha perante o povo constituído de milhares de pessoas.
O que havia sido incitado a declinar de que convite se tratava, calou-se e fez um gesto expressivo, informando ao orador que não iria prestar a informação que anunciara. Mas não faz menção de se retirar, talvez com a esperança de que alguém lhe pedisse para voltar atrás desta última deliberação. Como ninguém se manifestou, Adonias prosseguiu em sua palestra, a ver se mais alguém pudesse oferecer-lhe condições de expor algum tema de interesse particular. Mas a sua expectativa se frustrou como a do outro, de modo que resolveu encerrar o sermão, incentivando o povo a ter compaixão pelos semelhantes.
Assim que o povo se dispersou, o homem se apresentou a Adonias:
— Meu nome é Adão, nome que talvez esteja muito próximo do seu, que eu sei que é Adonias. Você me interpretou mal e bem ao mesmo tempo. Na verdade, eu ia convidar a todos para irem à minha igreja, mas resolvi não fazê-lo, porque seria estupidez minha aproveitar-me de seu trabalho evangélico de maneira sub-reptícia e falaciosa. Uso de um vocabulário que eu tenho certeza que você compreende, porque sei que é culto e conheço sua origem familiar e sua interrupção sacerdotal. Mas é com muito prazer que vou convidá-lo para ir à minha casa, para conversarmos exaustivamente a respeito da obra de Jesus, da sua peregrinação e dos meus objetivos, porque eu acho que a nossa reunião não irá ofender os princípios que você vem defendendo, podendo entender por que eu o quero junto a mim, em nome, veja bem, não de Deus nem de Jesus, em nome daqueles entezinhos que você vem defendendo sem ter a oportunidade de lhes limpar as feridas nem de lhes colocar o Evangelho nas mãos.
Adonias não soube o que responder mas apanhou o cartão que o outro lhe estendeu, onde leu o nome da instituição (Igreja Cristã da Misericórdia Divina), o endereço e até os horários em que poderia comparecer para a conversa, abrindo-se a possibilidade para o mês inteiro. Então Adonias enfatizou:
— A sua atitude foi ponderada e ética. Reconheço. Mas se você pretende me arrastar consigo para uma nova congregação aparente de bondade e de misericórdia, mas que se construiu para a defesa de seu patrimônio, então estará jogando más sementes em terreno muitíssimo fértil, isso eu lhe posso garantir.
— A semente não estará escondida mas à mostra. Você irá decidir sobre a qualidade dela. Entretanto, não vou cansá-lo com a minha pessoa. Vou dar-lhe tempo para pensar e decidir, mesmo porque eu acho que você está querendo visitar os seus pais no subúrbio, que a sua batina está necessitando de um trato de água e sabão.
Foi assim que se deu o primeiro real encontro entre Adão e Adonias. Que nos perdoem os leitores, mas o novo encontro vai ter de esperar por novos acontecimentos e explicações.



3. COM A FAMÍLIA

Adonias reparou que deveras estava precisando da ajuda da mãe, que a batina estava engordurada, demonstrando que se encostara em lugares pouco asseados para repousar.
Olhou as horas no alto da torre e constatou que poderia tomar o trem para o subúrbio, pois não era hora de lotar. Na verdade, não gostava de viajar na hora do regresso do trabalho, porque as pessoas exalavam um fétido cheiro de suor, o que não lhe agradava, em absoluto. Contudo, quando não podia fazer diferente e entrava em carros apertadíssimos, conseguia bloquear a sensação nauseabunda, apenas pressionando as fossas nasais, disfarçadamente, para não ofender as pessoas.
Por outro lado, ele mesmo não se considerava limpo a ponto de espalhar um aroma muito bom ao derredor, tanto que, muitas vezes, percebia que muita gente, podendo, se afastava dele, o que também o levava a preferir os horários menos tumultuados.
Entrou no carro com uma leva de pessoas, mas todas se acomodaram nos bancos. Ao seu lado, não se sentou ninguém e ele ficou a relembrar um acidente que sofrera pouco antes de abandonar a Igreja, forte batida na cabeça, razão mais do que suficiente para ter sofrido a lesão nos nervos olfativos. De resto, passou a ouvir e a ver mal e a quase não sentir a quentura dos líquidos ferventes, fugindo dos fogões após algumas queimaduras sofridas sem que tivesse percebido.
“O Doutor Queirós foi muito claro quando me explicou que o meu estado de coma por mais de vinte e quatro horas estava a indicar a possibilidade das rupturas internas dos nervos do sistema central e que haveria seqüelas, devendo agradecer aos céus por não haver ficado paraplégico, que duas das vértebras haviam sido afetadas.”
Atinou que pensava como se conversasse consigo mesmo e suspeitou de que algumas palavras haviam escapado em voz alta. Mas os vizinhos não olhavam para ele com maior curiosidade do que habitualmente, tão estranha era aquela maneira antiga de se vestir o sacerdote.
“O tal do Adão é que estava enfatiotado com gravata e tudo. Acho que continuo a ter razão em pensar que as pessoas buscam agradar, para conseguirem o máximo de proveito da boa vontade alheia. Se os padres se enfeitam com o mais variado sistema de cores e brilhos, mantendo os paramentos vistosos para impressionarem e passarem a idéia de autoridade e poder, também descobriram que, para se aproximarem das pessoas mais simples, têm de retirar a batina, vestir-se com ternos, ficar em mangas de camisa, trajar calças de jeans, como os caubóis, ou até deixar os cabelos crescer ou raspar completamente a cabeça, conforme a tendência da moda. Eu, por mim, mantenho a tradição até sem que nada me obrigue a isso...”
Iria por aí não se despertasse para o convite do outro:
“Será que terei coragem de realizar uma tentativa de aproximação de outra filosofia?...”
O mais foi puro devaneio, sonho ou ilusão, em que se via em palco iluminado, perante assembléia vestida modestamente mas com asseio, pessoas sem vaidade mas cônscias de que precisavam estar bonitas para se apresentarem ao Senhor, dentro do templo, pessoas que cantavam hinos, que seguiam os dizeres dos pastores, respondendo e louvando a Deus, deixando suas espórtulas nas bacias que ostentavam sempre algumas notas mais graúdas. E ele, que falava que era preciso poupar para dias de forte penúria em que grassaria a mais terrível miséria, porque o povo fugia da lavoura, que havia gente armada a defender a terra dos patrões, que o movimento dos sem-terra havia acabado pela reforma agrária levada a cabo pelo penúltimo governo, mas que os sinos da igreja haviam mudado totalmente a sua batida...
Acordou com a sacudidela mais forte do trem parando na última estação. Era onde descia, por isso não se preocupara em adormecer.
Não deu importância ao sonho, que lhe parecia um produto de suas preocupações, e caminhou resoluto para a casa da mãe, onde também viviam seu pai e duas irmãs solteiras.
Dona Genoveva sempre recepcionava o filho em festa. Recebia-o a qualquer hora do dia ou da noite, que ele era inconstante, e providenciava a melhor refeição, tendo o cuidado de manter a despensa e a geladeira bem providas.
Também as irmãs eram muito amorosas, muito embora com elas ele não trocasse palavra alguma. Marta e Maria eram mais novas, mas haviam passado um pouco da juventude sonhadora, mantendo, contudo, fortes esperanças de se encontrarem com seus príncipes encantados. Quando Adonias chegava, corriam a preparar-lhe o banho e já aprestavam as tesouras e navalhas, porque sempre voltava com a barba e o cabelo desgrenhados e compridos.
O pai, Fernando, era um senhor de certa idade, mais velho de aparência do que de idade, curvado por uma dor nas costas, produto, dizia ele muito amargurado, do fato de o filho tê-lo decepcionado tanto ao se afastar da ordem. Sempre ficava a repetir que dera duro na vida para tornar Adonias um padre, único filho varão, que ele destinara à Igreja e a Deus, e que se desviara dos altos objetivos do sacerdócio para viver ao deus-dará das ruas e praças, mais para maltrapilho e pedinte do que para servo do Senhor. Quando Adonias voltava para casa, o pai sempre dava um jeito de sumir, arrastando-se para a casa de uns amigos ou para o asilo de velhos e de cegos do bairro. Na igreja não ia refugiar-se das vistas do filho, desde que o pároco lhe havia especulado a respeito. Era mais fácil entrar num recinto de outra fé religiosa, quedando num banco do fundo, sem definida atenção, amorfo e silencioso.
Naquela tarde, Dona Genoveva estava especialmente radiante, porque tinha novidades para contar. E a novidade era que a filha casada estava grávida pela terceira vez e que logo lhe daria mais um neto, prometendo-lhe, o que contou muito a medo ao filho, que, se o rebento fosse macho, lhe daria o nome de Adonias e se empenharia para que seguisse a vocação religiosa do tio.
Adonias, recebeu a notícia no corredor, antes de entrar no banheiro, onde tomou um demorado banho de chuveiro, fazendo questão de ensaboar os cabelos várias vezes, desconfiado de que era portador de piolhos.
Quarenta e cinco minutos depois, saiu embrulhado no seu roupão, sempre dependurado atrás da porta, encaminhando-se para o seu quartinho no quintal, edícula separada do corpo do edifício, onde podia ficar isolado, entrando e saindo à vontade pelo corredor externo, sem acordar o pessoal.
No pequeno cômodo, uma cama, um armário de duas portas, uma pequena mesa debaixo de uma estante dependurada na parede, cheia de livros. No gaveteiro do armário, as peças brancas, meias e lenços. Poucas, mas limpas e remendadas. Numa das gavetas, camisetas brancas. Não havia camisas. No forro do armário, dependuradas, três batinas brancas e uma negra, bem passadas e um pouco armadas de goma, que ele amarfanhava quando vestia ao cair na estrada. Em casa, punha uma das três indefectíveis calças pretas, lustrosas já em determinados pontos, que não se substituíam porque qualquer peça nova ele devolvia a Dona Genoveva, indicando-lhe que guardasse para o Seu Fernando.
Numa das portas do armário, na parte interna, um espelho grande. No fundo de uma prateleira, águas de cheiro e loções. Não permitia a existência de mais nada, devolvendo qualquer novidade posta ali fosse pela mãe, fosse pelas irmãs. Havia um pente grande, cuja parte mais grossa ostentava umas falhas produzidas por seus cabelos embaraçados.
Mas o seu retrato de corpo nu mostrava-lhe que seu esqueleto era bem dotado de ossos, enquanto o rosto se escaveirava, pele apenas sobre uma musculatura translúcida, tanto que o sistema circulatório podia ser examinado sem esforço.
Ficou a observar a quixotesca figura, fixando longamente a vista nas costelas proeminentes, observando o arfar da respiração, admirando-se da criação divina, que o mantinha vivo e ativo com tão pouco.
Enquanto ia pondo a roupa caseira, ia recitando um rosário de preces variadas, sem repetição, pedindo por todo o mundo, elevando alguns pensamentos extraídos dos cânticos em homenagem ao Criador. Foi quando observou mais atentamente a roupa de cama e percebeu que Dona Genoveva havia renovado a fronha e os lençóis. Seu primeiro impulso, como sempre, foi o de arrancar as peças novas, mas, pela primeira vez, susteve o gesto inopinado e se deixou perder em pensamentos a respeito da mãe:
“Tenho tanto orado ao Senhor agradecendo-lhe a existência que ele me proporcionou; tenho mesmo pedido pela saúde e pela felicidade de minha mãe, mas nunca fiz o mesmo a ela em relação à vida que me deu e aos cuidados com que me traz protegido da maldade humana, enquanto estou debaixo deste teto. Sei que ela se esforça por me ver contente, mas minha sabedoria é soberana e desrespeitosa, sempre acreditando que as mães têm obrigações em relação aos filhos que colocam no mundo, precisando trabalhar pela felicidade e bem-estar deles, como se o amor se resumisse em atos exteriores de agrado e de...”
Paralisou a frase para sondar uma intuição que vinha rondando seu espírito desde algum tempo, quando passou diante de um hospital e maternidade. Lembrava-se de haver ficado por uns tempos recluso após o sério acidente que sofreu, quando despertou para o fato de que ali também vinham ao mundo inúmeras criaturinhas de Deus.
Súbito, viu-se na pele de Nero a retalhar o ventre de Agripina, a mãe, para descobrir, em sua loucura, como é que um organismo tão igual a tantos outros, pudera recebê-lo, um deus, em suas entranhas. Se pudesse, Adonias, iria permanecer durante nove meses extático, a recapitular momento a momento, todas as transformações que passou durante todo o período de gestação. No seu embaralhado pensamento, suspeitava de que conseguiria receber muitos impactos externos, vida de pouca consciência, rememoração que poderia explicar sua vocação religiosa, pelas palavras que os pais deveriam ter trocado a respeito de sua destinação ao sacerdócio.
“Eis que a notícia de mais um sobrinho está realizando um excelente trabalho de referência mental!”
De novo, porém, empacou em suas pesquisas mnemônicas, tendo a nítida impressão de que fora colocado homem feito dentro do ventre materno. Sacudiu a cabeça, desejoso de repudiar o fato de uma criação anterior, porque lhe parecia que sua memória iria fundir-se com o imenso poder de sua fantasia, nos últimos tempos incentivada pela modorra de tantas horas inativas. Quando estava no seminário e, depois, em sua vida conventual, as obrigações eram tantas, os trabalhos tão cerrados, que se mantinha mentalmente ocupado o tempo todo, mal dando as horas de sonolência para uma restauração física e intelectual completa.
A cama estava arrumada de maneira muito simples. Os lençóis descobriu que eram outros somente pelo aspecto da novidade, pois não reconheceu neles os antigos. A fronha era lisa e de tecido sedoso, esta, sim, caracteristicamente uma peça que nunca havia visto. Mas sua memória era boa também para este tipo de recordação de modo que foi capaz de avaliar que a última lavagem deveria ter dado aspecto de pano de chão à antiga. Unindo os pensamentos todos, agradeceu mentalmente à mãe, esforçando-se por voltar a fazê-lo pessoalmente.
Quando adentrou a sala, cedo ainda para o jantar, estavam lá Maria e Marta com os petrechos para o tratamento dos cabelos e da barba.
Elas gostavam de lidar com a aparência do irmão, cada vez mais parecido com a imagem de Jesus, pela iconografia católica mais afeita a demonstrar-lhe seu coração de sofredor e suas feridas nas mãos. Aliás, Dona Genoveva mantinha uma gravura do Sagrado Coração de Jesus bem no meio da parede de fundo da sala.
Naquela tarde, Adonias fez questão de afagar os cabelos das irmãs, como a demonstrar-lhes um afeto que sua ausência jamais confirmara antes. Assim sendo, pigarreou e ousou dizer algumas palavras, com certa dificuldade para controlar o volume da voz, sempre tonitruante para abafar os ruídos dos automóveis e demais veículos que sempre cismavam de passar por onde o pregador se punha a realizar os sermões:
— Mamãe, muito obrigado por cuidar de mim e de meu conforto. Saiba que lhe sou imensamente reconhecido por tudo quanto fez em meu favor desde sempre.
Dona Genoveva não sabia se abraçava ou não o filho, mas este abriu-lhe os braços e a recebeu contra seu peito magérrimo, sentindo-lhe a fofura das carnes e das banhas das costas. Separaram-se logo e a mãe foi atrás das panelas na cozinha, calada, disfarçando toda a sua emoção.
Então, Adonias falou com as irmãs:
— Vocês devem verificar se tenho lêndeas e piolhos, por favor.
Sentou-se na poltrona e fez a cabeça descair para trás, conforme o hábito.
Maria foi atrás de um pente fino e Marta começou a vasculhar as raízes dos cabelos, logo achando o que procurava:
— Sua cabeça não está perdida, mas existem lêndeas, sim. Vamos ter de dar um tratamento sério.
Nesse momento, voltava Maria com o pente:
— Quer dizer que o nosso irmão está piolhento...
Adonias olhou-a com olhos muito agudos, buscando entender o verbo inusitado. Logo esboçou um sorriso, pensando em que ser ele não era, mas estava piolhento...
Aí disse a elas:
— Hoje vocês vão fazer algo novo: vão cortar todos os fios, desde o couro cabeludo. Quero ficar careca. Assim, deixo de estar à mercê desses parasitos.
Seria um desafio acima de nossas forças de autores espirituais a longa discussão que se seguiu, sem proveito para o desenvolvimento da ação, porque, apesar de estarem em maioria, os votos das irmãs não contaram naquela ditadura da opinião do mais forte. O derradeiro argumento de Adonias foi peremptório:
— Peço dinheiro para Dona Genoveva e vou ao barbeiro!
Meia hora depois, uma cabeça completamente alva recebia o mesmo tratamento do rosto escanhoado, que não era um bálsamo caríssimo a causar um rebuliço financeiro na mente de nenhum apóstolo-tesoureiro, mas que ardeu bastante, porque algumas microscópicas feridas se abriram pelos cortes da gilete e pelas incursões dos insetos.
Enquanto os cachos iam caindo no chão, Adonias ia refletindo na reação de Adão ao vê-lo completamente outro, adentrando a sua Igreja Cristã da Misericórdia Divina:
“Se ele estiver pensando em me arrastar para a pregação engajada a um sistema de arrecadação de dinheiro, porque a minha presença iria lembrar ao povo a suavidade de Jesus, quero saber se um sujeito totalmente à moda dos pastores, irá convencê-lo a me manter junto a si para o chamamento evangélico.”
A bem da verdade, teve muitos outros pensamentos relativos à forma externa e ao íntimo, correlacionando as intuições a um prisma que acabou declarando preconceituoso, porque aplicava a um desconhecido antigas reflexões a respeito da ganância dos responsáveis pelas igrejas e pelos cultos. Mas o cruzar das idéias nos dificultaria uma demonstração mais longa, bastando-nos o fato da explicação.
Dona Genoveva voltava para avisar que a comida estava quase pronta e perguntar a respeito dos aperitivos, quando deu com aquela estranhíssima personalidade desprovida de moldura. Foi um choque, mas a reação foi boa e salutar:
— Esse corte à Ronaldinho, pelo menos, é muito mais fresco e lhe dá ares de limpeza e de cuidados consigo mesmo.
Mas Adonias, que não gostava de brincadeiras, resolveu dar um cunho mórbido ao humor que se lembrou de atacar:
— Contanto que a polícia não pense que está diante de um fugitivo da cadeia e me execute, tudo bem...
Mais tarde, diante do espelho, avaliou a devastação que promovera em sua figura ínclita de santo da mais elevada estirpe e se pôs a rir, aparvalhado, como a descobrir um novo indivíduo debaixo da luz trêmula de seu quartinho.
Lembrou-se de que Marta lastimara a perda e que Maria a confortara, prometendo que a cabeleira iria crescer normalmente. Em seu modo de ver, as duas esforçavam-se, diante dele, a representar um quadro de valor evangélico. Mas Jesus iria permanecer nas sombras de sua inteligência mobilizada pela curiosidade do reencontro com Adão.
Antes de pegar no sono, ainda teve tempo para uma reflexão filosófica que considerou ponderabilíssima:
“Acho que estou ficando cansado de viver sob minha conta e risco. Quanto é melhor estar entre pessoas que nos amam, para quem salvar a humanidade significa apenas deixar os seus contentes!...”



4. COMO SE FOSSE UM SONHO

Adonias recolhera-se havia duas horas, quando foi acordado pela mãe. A velha senhora queria falar:
— Desculpe-me, meu filho, mas eu preciso confessar-me.
Adonias estava acostumado com essas interrupções noturnas. Embora não tivesse os paramentos devidos, pôs-se sentado no leito, fez Dona Genoveva ajoelhar-se aos seus pés, encostou o ouvido nos lábios dela e pronunciou algumas palavras mais ou menos formais, para dar aspecto sagrado ao ato íntimo:
— Que Deus me perdoe, se eu estiver pecando contra os mandamentos da Santa Madre Igreja, porque fui desvestido das ordens e fui impedido pela Santa Sé de praticar o sacerdócio. Contudo, em nome de Jesus, a pedido de minha mãe, aqui recolhida em prece, vou dar prosseguimento a este ato, solicitando ao Senhor que nos ampare e nos ilumine, enviando-nos os nossos anjos da guarda, que saberão afastar os demônios que iriam fazer-nos cair em tentação. Que eles leiam em nossos corações toda a pureza de nossa fé cristã e de nossa eterna esperança de salvação no reino do Senhor. Dona Genoveva, faz tempo que a senhora não se confessa?
— Uma semana, padre.
— O que a senhora fez que violou as leis de Deus nestes últimos dias?
— Pouca coisa, senhor, mas o suficiente para me arrepender do que fiz, precisando vir pedir o perdão de Deus, porque eu o ofendi, maltratando as pessoas de minha casa e pensando mal a respeito das vizinhas e de alguns parentes.
— Deseja contar por que se voltou contra seu marido e seus filhos?
— Seu pai, padre, está sempre falando mal do senhor, dizendo que se sente muito infeliz por haver abandonado a religião e, mais ainda, por estar perdido no mundo, feito louco, porque ele sabe que o filho fica fazendo pregações pelas praças, como se fosse um pastor sem rebanho, a acusar os outros pastores de desleixo no trabalho, porque ele sempre me diz que cada pessoa está sob a proteção de um pároco, de um distrito religioso, de uma diocese. Eu sempre peço a ele que fique em casa e converse com você, mas ele se recusa e vai embora. Ontem, quando você ia chegando, ele pegou o chapéu e ia saindo. Eu corri e fechei a porta para detê-lo, mas ele ficou furioso comigo e, sem falar nada, me arredou de sua frente, demonstrando uma força que eu não pensava que ele tinha, e ganhou a rua pelos fundos. Enquanto você entrava pela porta da sala, ele saía pelo jardim. Hoje, quando viu que você veio dormir, ele entrou, amaldiçoando a hora em que fez a promessa de dá-lo a Deus como um pastor de suas ovelhas.
— O que a senhora diz a ele? Fala que ele é isso e aquilo, ou somente fica com o coração cheio de fel e de agonia?
— Eu só falo para ele que Deus, um dia, vai recolher todos os seus filhos que se amaram como Jesus nos amou a todos e que, se ele continuar com tanto ódio no coração, não vai conseguir ocupar um lugar ao lado do Filho de Deus nem ao seu lado, porque eu sei que você não faz nada de errado, que você ama todas as pessoas, que você não prega a rebelião contra os ricos, mas que apenas pede a todo o mundo que reparta o que tem, conforme a Maria e a Marta me contaram, porque elas foram ouvir você pregar três ou quatro vezes e ficaram muito impressionadas com tanta palavra em louvor a Deus, como nunca têm ouvido nos púlpitos das igrejas do bairro.
— Mãe, eu não compreendo qual é o seu pecado. De que a senhora tem medo de se ver em apuros perante o julgamento de Jesus? De que a sua consciência a acusa?
— Eu acho que não devia censurar tanto o seu pai, porque ele é um homem muito bom, ajuda muitas pessoas e nem de você ele fala mal; apenas fica resmungando que nada do que aconteceu devia ter acontecido, como se Deus não tivesse suficiente força para manter você no caminho que ele colocou. Eu acho que, desse jeito, em lugar de promover o bem, eu ajudo mais ainda o velho a se afundar em sua mágoa. Que devo fazer? Devo pedir a ele que se entenda com você ou pedir a você que vá até ele? E se vocês brigarem? Deus me livre de causar tanto transtorno!
— Mãe, a senhora verdadeiramente se arrepende de pensar assim ou está confessando um pecado que sabe que não irá vencer?
— Eu acho que as minhas idéias e os meus sentimentos só irão sossegar quando vocês se reconciliarem. Para isso, estou com medo que Fernando só vai aceitar você de volta se regressar à Igreja e restabelecer os seus vínculos religiosos.
— A senhora está com medo de que Deus seja injusto e não saiba ver quem pratica o bem e queira somente a felicidade dos outros? É isso?
— Essa acusação ao Senhor já me passou pela cabeça, mas eu fico estremecida com essas idéias e não quero que meu coração participe dessas reações. Quando isso acontece, eu rezo muito, vários terços em seguida, e vou acender algumas velas junto ao quadro do Coração de Jesus. Depois, eu corro a me confessar, mas a minha cabeça fica confusa e eu não sei o que pensar direito, tanto que, às vezes, tenho até medo de comungar.
Adonias fez um gesto, pedindo silêncio e se concentrou em preces, rogando ao seu anjo da guarda que o inspirasse, no sentido de dar à mãe toda a tranqüilidade do mundo. Após alguns minutos, falou:
— Mãe, Dona Genoveva, o Seu Fernando, meu pai, está passando por momentos de muito sofrimento, porque sempre é muito difícil de compreender uma desilusão tão forte, quanto a perda de um filho, porque, para ele, eu só existia enquanto cumpria a promessa que ele havia feito. Eu acho, a senhora me desculpe, que ele não pode querer a salvação eterna só porque um filho seu não correspondeu à sua expectativa. Se dependesse de mim, eu voltava para a Igreja, renovava os meus votos e me instalava num convento, somente com o intuito de lavar a alma do velho e deixá-la branquinha para entrar no céu. Mas a verdade é que eu tenho a minha vida para viver e eu acho que tenho feito tudo o que posso para levar um pouco de luz à mente das pessoas que fazem deste mundo um antro do vício, dos crimes, de perversidade etc. Como a senhora disse, eu não acuso ninguém, mas não deixo de apontar os erros, exatamente como Jesus fez com todo o poderio de sua inteligência divina, porque soube compreender os homens de seu tempo, tanto que tinha a certeza de que seria traído e crucificado. Eu não fui capaz de arregimentar ninguém para me seguir, porque as pessoas que se interessaram em ficar comigo apenas queriam furtar as carteiras dos meus ouvintes, enquanto prestavam atenção em mim. Mas essa é história que este momento não comporta. De qualquer jeito, eu acho que a senhora não praticou pecado nenhum. Aliás, se insistir em achar que está sendo injusta em relação ao Senhor, aí é que estará errando em um preceito fundamental: o da fé em que o Pai irá dar a cada filho a melhor oportunidade de reparação de todos os males. Por último, a senhora veio pedir a um excomungado que a perdoasse. Desse jeito está ofendendo os mandamentos da Santa Madre Igreja, que não lhe permite agasalhar uma pessoa no meu estado. Sendo assim, se a sua consciência a censurar, não hesite em procurar um padre verdadeiro para lhe contar tudo o que se passou nesta noite. Reze agora o ato de contrição e depois cumpra a penitência de um padre-nosso e três ave-marias em intenção às almas do purgatório, acendendo uma vela nova junto ao quadro da sala.
Adonias aguardou a mãe terminar a oração, benzeu-a como um padre revestido de poderes e pediu-lhe que o deixasse sozinho, porque:
— [...] preciso meditar a respeito de um convite que recebi para comparecer a um templo de outra religião. Mas não diga nada a ninguém, pois eu não sei se vou ou não aceitar permanecer trabalhando com o pastor Adão.
A mãe saiu lacrimosa, levando no coração uma paz nova, cheia de admiração pela lucidez com que o filho soube conduzir as ânsias de sua alma perturbada pelas reações de duas das pessoas que lhe eram mais caras no mundo.
Enquanto isso, Adonias começou a suspeitar da identidade do homem que chamou de Adão:
“Eu não conheço a tal de Igreja Cristã da Misericórdia Divina, como é que vou logo afirmando que o tal é um pastor?”
Não dando maior importância à visita noturna da mãe, embora lhe houvesse ficado a intuição de que algo novo havia naquela confissão, embarafustou os raciocínios para dentro de si mesmo, a fim de surpreender em que exatamente estava extraviando dentro dos parâmetros ideais de um pensamento absolutamente lógico.
“Afinal de contas, quem sou eu para julgar meu pai?...”
A pergunta ficaria borboleteando por mais algum tempo no forro, até que ele apagou a luz, virou de lado e adormeceu de novo.



5. COMO SE FOSSE REALIDADE

Adonias logo adormeceu e sonhou. Estranhamente, no entanto, manteve, durante todas as façanhas que realizou imerso em sua consciência, um liame espiritual de lucidez que lhe permitiu regular o quanto ia aprofundando-se na fantasia e o quanto ia exercendo de domínio sobre os acontecimentos oníricos.
A primeira sensação que teve foi a de Jesus descendo aos infernos após o desenlace na cruz. Ele era Jesus, mas não com a imagem de homem, pessoa dulcíssima a perlustrar os campos, os desertos e os mares, como que volitando ao invés de decalcar no solo as pegadas de seu peso material. Ali, a sutileza de seu corpo imaterial era muito maior. Era como que uma fonte de vibração energética, que transparecia ao derredor como um clarão de forte luminosidade. Era uma figura que se caracterizava como a de uma pessoa com forma humana, mas que se projetava para o mundo externo como uma irradiação. Ele tinha a sensação de que seu crânio estava despojado de tudo o que pudesse representar um invólucro, uma carapaça. Era mais do que a sensação de estar despojado dos cabelos e da barba. Era como se estivesse fazendo emanar de si a forma que estava delineada no âmago do ser.
Adonias sentia-se dentro e fora de si. Era capaz de ver e de avaliar tudo ao seu redor, numa esfera perfeita de conhecimento, ao mesmo tempo que ia observando e anotando todas as transformações que ocorriam em seu corpo novíssimo de energia. Sentia-se perfeitamente bem e controlava todas as reações “físicas” e “mentais”, segundo a necessidade de intensificar a sua participação no mundo do contato corpóreo, como também nos eflúvios melífluos dos pensamentos que se correspondiam com as entidades com que ia deparando-se em sua caminhada.
E foi adentrando um longo túnel iluminado com reflexos vermelhos que nasciam de um ponto indefinido ao fundo. Enquanto se delineava um caminho, ele ia seguindo rapidamente, flutuando, sempre em frente. Ao deparar-se com despenhadeiros, deixava-se descair sem apoio, sustentado por invisíveis cordames que manobrava através da força de sua vontade e determinação, vindo a repousar no fundo, fosse de que natureza fosse o solo: árido, magmático, rochoso, líqüido, ígneo, enregelado.
Subitamente, encontrou-se com o fantasma de seu pai. Não era um homem vivo. Era uma aparência de gente, uma fugidia imagem que não se estabilizava à vista, como se os olhos do filho tivessem adquirido a propriedade de fazer transparecer na fisionomia do outro todas as reações íntimas promovidas pelas emoções e também pelas reflexões eminentemente intelectuais.
Em lugar de pedir perdão ao pai, Adonias limitou-se a interrogá-lo com o olhar, adaptando o seu costume de pouco falar com as pessoas à visão de sonâmbulo, que se mantinha coerentemente em sintonia com a personalidade real.
Fernando foi quem falou:
— Meu filho, a sua presença neste ambiente de profunda agonia vem trazer-me um bem-estar que há muito tempo eu estava precisando. Você não sabe quanta dor este meu velho coração tem sofrido. Eu estou preso às minhas ânsias de mortal desejoso da salvação prometida por Jesus mas me envolvi em ódios que macularam todo o bem que hei feito na crosta. Voltei-me contra o Criador porque não deu certo a minha promessa em relação a você manter-se fiel à Santa Madre Igreja. Agora estou sentindo-me melhor, porque você veio visitar-me, mas, pelo amor de Deus, não gere maior desespero em minha alma aceitando o convite do homem que se apresentou com o nome de Adão, mas que eu tenho visto por aqui, acicatando os infelizes com seu tridente em brasa. A tal da Igreja Cristã da Misericórdia Divina é um embuste, simplesmente, para abocanhar o dinheiro e as almas dos incautos; o dinheiro, para o conforto material; as almas, para o desprezo eterno das fraquezas humanas neste antro de terror.
Adonias fez o pai calar-se, porque observava que nem todas as palavras que emitia se acompanhavam de reflexos de verdade e de honestidade. O que admirava o padre era o fato de não poder orientar-se com perfeição na tradução dos sentimentos e intenções do pai. Sabia que havia mentiras; não sabia definir-lhes o caráter, a extensão nem a...
Estando a examinar a sua dificuldade, desapareceu de sua frente a figura paterna. Aí Adonias se afligiu deveras. Parecia-lhe que se preocupara consigo mesmo, egoisticamente, deixando aquela pessoa de seu sangue com o mesmo cabedal de sofrimentos de antes. Reflexionou que o pouco de alívio que lhe concedera nada significava perante a assustadora presença da eternidade infernal.
Quis fazer valer o seu domínio da situação mas o máximo que conseguiu foi perceber que se agitava sobre o leito, voltando de imediato à condição em que se achava dentro do sonho. Foi quando notou que havia o perigo de se queimar nas brasas das paredes, de onde escorria um líqüido que reconheceu como metal fundido. Lembrou-se claramente de que evitava tocar nos objetos aquecidos, com medo de não sentir o calor e se queimar. Ali se dava o contrário: queria tocar para ver se sentia as agruras dos condenados; entretanto, era capaz de apanhar com as mãos em concha o filete que escorria, mas não percebia nenhuma sensação desagradável. Lembrou-se dos tempos de seminarista, quando a só fantasia de ser arremessado em tais profundezas já o alagava em suores, como se a resposta física correspondesse a uma reação psíquica contra os males que o arremessariam naquela região.
Nesse momento, claramente sentiu ao seu lado uma figura que reconheceu em tudo e por tudo absolutamente idêntica a si mesmo. Um reflexo num espelho não traria mais perfeita concordância. Assim que pôde restaurar-se da surpresa, deu-se o reconhecimento do outro, que se apresentou apenas telepaticamente, dizendo-se que era o Adão lá de cima.
— Como é que o senhor foi acusado por meu pai como sendo um dos piores seres demoníacos deste lugar horroroso e é capaz de se mostrar a mim em trajes angelicais?
— O meu amigo, Padre Adonias, não percebeu, enquanto seu pai falava, que ele transmudava de aspecto?
— Que sabe o senhor a respeito de tudo quanto tratei reservadamente com aquela pessoa que eu deveria amar com mais intensidade e que deixei escapar neste mundo dos miseráveis criminosos mais culpáveis e mais merecedores da sacratíssima vingança de Deus?
— Eu sou apenas uma criação de seu cérebro conturbado pela infestação de variadíssima gama de emoções, muitas conflitantes, outras produzidas por sua condição de espírito errante pela face da Terra, depois que deixou o sacerdócio, sem deixar o hábito. Por exemplo, eu sei perfeitamente que sua intenção é de me surpreender com uma roupa comum, sem o aparato da bata religiosa, se possível de terno e gravata, com essa cabeça luzidia e esse rosto absolutamente glabro. Se me permitir, vou retirar-me, porque apenas senti o desejo de vir dizer-lhe que muitas vezes o diabo não é tão feio quanto o pintam...
E sumiu.
Adonias rejeitava a necessidade de acordar e insistiu no sonho, desejoso de se encontrar com aqueles seres vitimados pela sociedade corroída pela maldade, aquelas famílias executadas pelo tráfico organizado do vício, aquelas crianças cujas vidas se ceifaram nos incêndios criminosos das favelas e dos cortiços e assim por diante, que o seu interesse foi fixando-se na descoberta das razões que o levavam a supor que tais criaturas estivessem merecendo o castigo daquelas regiões. Foi assim que se elevou paulatinamente, querendo encontrar um local mais ameno, onde pudesse observar as almas depurando-se de alguns pecados veniais, para serem recolhidas ao céu pelos anjos do Senhor. No entanto, por mais que se esforçasse, já não conseguia comandar o fluxo psíquico, até que, ao passar a mão pela face, estranhou que estivesse lisa a pele, dando com a ponta dos dedos na dureza dos ossos maxilares e malares.
Acordou. No relógio, os ponteiros denunciavam que a manhã já dealbara e que a aurora de dedos cor-de-rosa se aprestava para as abluções.



6. PRESO EM CASA

Adonias deixou-se enfeitiçar pelo sonho, cuja lembrança se mantinha vívida em sua memória. Tendo analisado todo o entrecho do drama que ali se desenhara, concluiu que a mente estivera trabalhando mais ou menos à revelia, buscando soluções independentemente de seu raciocinar sempre lógico e conclusivo.
“Preciso tomar pé da realidade”, ficava a repetir, fechado no pequeno dormitório, a passar as mãos pela face, notando o crescimento milimétrico dos pêlos.
“Não vou arrepender-me de cortar os cabelos nem vou lamentar a falta da barba, mas fazer isso levado pelo intuito de burlar as expectativas de uma pessoa que nem conheço e que já veio habitar em minha consciência, isso está sendo demais. Vou esperar até que ocorra algum fato muito importante que justifique a minha saída desta cela. Condeno-me eu à reclusão por crime de lesa...”
Não sabia o que havia lesado e ali ficava pensativo, na iminência de sair para surpreender o pai entrando ou saindo de casa, com medo de que não soubesse o que dizer-lhe, ele que tantas palavras tinha para a sociedade dos homens, pregando a união da pátria em torno dos ideais cristãos, condenando os atos de violência e os crimes contra a vida e o patrimônio.
“Não fosse por minha base cultural e religiosa, iria suspeitar de que vivo como os piolhos de minha cabeça. Se a sociedade dos homens agisse como eu fiz, iria mandar-me para o monturo das coisas inúteis, parasito que sempre vivi do trabalho alheio, sugando o sangue de meus pais o tempo todo, sem lhes corresponder efetivamente...”
Suspendia os pensamentos para que a agressão não se desse de maneira direta, ficando apenas a sugestão do mau aproveitamento dos dias vividos, muito embora, até o desligamento da Igreja, todos fossem unânimes em festejá-lo como sacerdote de imensos recursos, a provocar no seio da comunidade frêmitos de gozo moral no vislumbre do paraíso.
“Mas eu não devo arrepender-me por me afastar das regras eclesiásticas e por censurar a atitude geral do clero de fomentar a rebelião dos pobres contra os ricos, ao mesmo tempo que amealha tão imensa riqueza para si mesmo. Não me arrependo de haver cortado os cabelos. Não vou arrepender-me jamais por intentar atrair uns discípulos com minha pregação ao ar livre...”
Adonias tinha alguns livros abertos à sua frente, espalhados pela cama e até pelo chão. Lia um trecho aqui, outro acolá. Prestava atenção nos dizeres. Buscava compreender cada palavra. Tentava não refletir a respeito dos seus problemas íntimos, achando que, se o fizesse muito cerradamente, teria de sair correndo em busca do Adão, que lhe abria uma porta, a primeira depois da excomunhão.
“Acho que descobri, finalmente, por que estou tão envolvido com essa personagem misteriosa. É que me vejo de novo a me integrar numa congregação, conforme os anseios mais antigos. Hesito, sim, mas é que preciso adquirir a certeza de que isso irá ser um benefício para minha vida. Quando penso nos trabalhos manuais do seminário e, mais ainda, do convento, sinto falta do que fazer. Será que Adão me oferecerá algum meio de me distrair, diferentemente deste afastamento de tudo. Bendita a hora do banho, que me leva a sair da minha cela...”
Ao cabo de quinze dias, quando a barba já aparecia no retrato do espelho e os cabelos despontavam, escurecendo um pouco a calvície forjada, Adonias resolveu que estava na hora de abandonar o tugúrio familiar. Lembrou-se de relance de que ficara naquele vaivém indefinido para se encontrar com Fernando, mas chacoalhou a idéia pela recordação de que julgara o pai com suficiente saúde para procrastinar ainda uma vez o encontro de ajustamento de contas.
Mas não iria sair de batina, nem branca, imaculada, nem negra, soturna. A calça seria preta. Não tinha dúvida. Os sapatos lustrosos, que as irmãs haviam polido desde sempre, substituíram as carcomidas sandálias de couro cru. Estranhou o uso das meias ainda em estado de novas, há muito esquecidas no fundo da gaveta, mas, caso não as pusesse, os pés reclamariam ainda mais do aperto do calçado.
“Esparramei os dedos, achatei as solas dos pés, vinquei os calcanhares de profundas ranhuras e ainda exijo de mim mesmo a comodidade de cura acostumado à boa vida de paróquia abonada. Que sofra um pouquinho aquele que não sentiu os ardores do inferno, onde adentrei com ares de Jesus Ressurrecto, que outra imagem não tenho para realizar a comparação da fulgurante presença com que inundei de luz a profundeza das trevas abissais. Se não tivesse sido um sonho, eu bem que poderia julgar que, depois de morto, irei reaver os meus direitos cassados pela Santa Madre Igreja. Que Deus me perdoe!”
— Mãe, eu gostaria de usar uma das camisas de sair do pai, uma gravata discreta e um paletó escuro. Vou buscar uma vida nova e quero apresentar-me às pessoas que não me conhecem como uma pessoa normal. Sei que vou fantasiar-me, segundo o meu e o seu ponto de vista, mas a fantasia será a mesma da maioria dos homens de minha idade. O que lhe prometo, querida progenitorazinha, é não me deixar envolver jamais pelos valores materialistas dos homens, nesta época ainda mais incentivados por toda a parte pelos meios de comunicação de massa.
Dona Genoveva, realmente, não estava afeita a tanta explicação. Nem precisava delas, que o filho parecia estar recuperando o juízo social, porque ela reconhecia nele o bom senso dos justos e dos bons. Sendo assim, passou-lhe tudo que lhe pediu, acrescentando à lista um chapéu de feltro comum, desses com aba, fita e laço, que o marido havia guardado desde muitos anos, porque agora, na velhice, ou andava de cabeça descoberta ou preferia uma boina surrada ou um moderno boné com dizeres de propaganda.
— Com essa cabeça pelada, o sol vai promover uma queimadura certa.
— Bem pensado, mãe; mas eu vou colocar esse chapéu lá fora, que não quero passar diante do espelho com reflexos de burguês, ainda mais que carrego estas notas que a senhora me emprestou...
Quando saiu, após ter tomado um lanche reforçado, percebeu que caminhava um pouco mais pesado, que adquirira alguma carne suplementar.
Dona Genoveva é que caiu em convulsivo pranto porque lhe parecia que era o marido que se afastava lentamente. Reduzia a figura de ambas as pessoas amadas a um cabide coberto de roupas, mas, no íntimo, sabia que o mundo ainda deveria girar bastante até que a felicidade voltasse atrás, para a época em que ela, o marido e as três meninas iam domingueiramente cumprir as obrigações religiosas, com o orgulho de haver gerado o oficiante.



7. NA RUA

Ao sair à rua, Adonias sentiu uma estranha e diferente sensação. Não é que estivesse com algum mal-estar, mas lhe pareceu que a falta de exercícios ao ar livre nos últimos dias lhe causava um descompasso entre seu poderio sensório e as impressões que ia recebendo do exterior. Pensou em suas deficiências gerais quanto à audição, à visão, ao tato e ao olfato, lembrou-se de que a comida não lhe parecia tão saborosa, tanto que a quantidade diminuíra drasticamente o que gerara aquele corpo magricela, e agora havia esse conjunto de percepções deficitárias do meio ambiente.
Olhava atentamente para tudo, mas o fundo mal se delineava, as montanhas apenas se avolumavam sem contornos definidos, as pessoas passavam de um lado para outro como sombras, os vultos dos veículos assomavam ao longe, acometiam através do leito carroçável e passavam quase completamente silenciosos.
“Preciso tomar cuidado, porque estou quase cego e surdo. Talvez seja o excesso de luminosidade. Tenho de entrar numa loja, para tomar fôlego e acostumar a vista com as coisas banais, considerando que em casa não deixei de ler linha alguma de qualquer dos livros.”
Ajeitou os óculos bifocais para enxergar os dedos e as unhas e não notou diferença alguma. Estavam lá todos os indícios de uma vitalidade que palpitava nas veias. Os pelinhos se deixavam observar e até a película retirada pelas irmãs demonstrava os cuidados a que se dera.
“Cego, deveras não estou. Então, devo estar com pressão baixa ou algum distúrbio neurológico mais sério. Quem sabe mesmo a minha contusão na cabeça não esteja degenerando-se em tumor...”
Mediu em toda a extensão as conseqüências dessa possibilidade letal mas não se afetou com a idéia do encerramento das atividades vitais.
Nesse momento, encontrou uma porta aberta e entrou. Era um açougue, com nacos de carne dependurados, outras peças sobre o balcão e mais uma série de produtos dentro da transparência dos vidros da geladeira. Pensou em sentir um enregelamento característico e um odor mais forte de sangue putrefato, mas não percebeu nada disso. No entanto, a visão acentuava nitidamente as cores vermelhas das carnes e o branco leitoso das banhas.
Como estivesse bem trajado, embora não reconhecesse o pessoal que atendia, ouviu o seu nome claramente:
— Padre Adonias, quanta honra em tê-lo de novo em nosso humilde comércio. Como tem passado Vossa Senhoria?
As palavras e a forma de tratamento, inequivocamente, lhe soaram como de algum lusitano. Olhou bem para o rosto bigodudo do outro lado do balcão frigorífico, percebeu-lhe as cãs e o sorriso alvo e saudável e foi capaz de se lembrar de um nome:
— Senhor Homero. Sabe que por pouco deixo de reconhecê-lo? O senhor me perdoe, mas eu entrei porque precisei sair um pouco do sol.
Sem lhe perguntar nada, o homem desapareceu por instantes e logo voltou com seu avental maculado de vermelho e um copo de água cristalina e gaseificada.
— Beba, que logo o senhor irá sentir-se melhor.
De fato, sentado na cadeira que lhe trouxeram e havendo colocado a cabeça entre as pernas, em pouco tempo já se sentia recuperado. Contudo, algo lhe pedia, no fundo do coração, que deixasse aquele lugar.
Adonias, contrariando o velho costume de pôr tudo em panos limpos, dessa feita assentiu na intuição e despediu-se, sem estender a mão ao outro, mas lembrando-se de benzê-lo com um sinal da cruz, que foi recebido em recolhimento, de cabeça baixa. Quando Homero ergueu os olhos, já não viu mais o ex-padre.
De novo na calçada, Adonias pôde perceber que havia melhorado bastante, embora as casas mais próximas não se fixassem direito em sua coloração original. Ao contrário, apresentavam-se, não enfumaçadas ou disformes, mas era como que a sua vista pudesse dar-lhes uma transparência que punha para fora dos edifícios uma luz de cores suaves que perturbava o olhar. Recordou-se de que um glaucoma poderia estar instalando-se, porque era como lhe haviam descrito os efeitos dessa moléstia. Todavia, o fato não penalizava a caminhada, de forma que não desistiu de avançar na direção da via férrea.
No meio do caminho, lembrou-se de que havia algumas notas a mais em sua carteira e desejou um conforto que nunca mais havia gozado desde que pronunciara o voto da pobreza. Estendeu o braço e requisitou um táxi.
O veículo parou, o motorista abriu por dentro a porta traseira, dando passagem ao senhor de terno e gravata, que nada denunciava como sacerdote. Mas ouviu que lhe diziam:
— Para onde, Monsenhor?
— Eu o conheço, meu filho?
— Claro, Padre Adonias, o senhor me estimulou a sair de uma vida de crimes.
— Quando e onde, por favor?
— É verdade. O senhor não tem como saber. Eu freqüentava o seu confessionário e ouvia os seus sermões. Isso já faz bastante tempo. Arrumei uma condição favorável. Deixei de beber e de me drogar. A família me recebeu de volta e me deu dinheiro para me vestir convenientemente. Além disso, eu me empreguei numa empresa de táxis e hoje possuo a minha própria viatura. Nunca tive oportunidade de lhe agradecer, mas fiquei sabendo do seu acidente e de nunca mais aparecer na igreja. Soube que o excomungaram. É pena, porque o senhor, para mim, foi um santo. No confessionário, falei do senhor para o pároco que o substituiu, mas ele me pediu que o esquecesse, porque o senhor tinha sido condenado. Mas faço questão de levá-lo para onde quiser, como oferta da casa.
Adonias teve o coração disparado e todo o seu aparato sensório lhe pareceu volver a funcionar como quando em plena saúde. Estava com o endereço escrito num papel, que passou ao motorista, o qual fez questão de pegar-lhe a mão, levando-as aos lábios.
— Deus o abençoe, meu filho! Vou rezar por você, embora as minhas preces não tenham o mesmo valor de antigamente. Agora vamos embora, que eu quero chegar cedo nesse endereço.
— Posso pisar?
— Não, querido...
— Valério.
— Não, Valério, vá bem devagar, porque eu tenho de colocar umas idéias no lugar.
Era o recado para o outro calar-se. Inteligente, o motorista passou um zíper nos lábios e só voltou a dizer alguma coisa na hora de se recusar a receber o dinheiro que Adonias lhe estendia.
— Muito obrigado, meu filho. Vá com Deus!
Esperou que o carro desaparecesse no trânsito do centro velho da cidade, para só então examinar detidamente o aspecto do prédio de três andares que tinha diante de si.
Lá estava, em letras coloridas, o registro completo do nome da entidade: Igreja Cristã da Misericórdia Divina.
Ao invés de adentrar pela porta aberta, muito a medo, atravessou a rua de maneira segura pela faixa de pedestres e foi sentar-se num banco de balcão do bar bem em frente, de onde pudesse avaliar o movimento de entrada e saída do edifício. Puseram-lhe um copo e uma garrafa de refrigerante, que ele pagou sem tocar na bebida. E lá ficou durante um tempo que não se interessou em medir, absorto pela grande movimentação de pessoas que transitavam, muitas entrando no recinto do templo e outras de lá se retirando, ninguém que pudesse notar em trajes miseráveis ou, ao menos, surrados. O que o intrigava, sobremodo, era o fato de estar tendo a capacidade de ver e de ouvir com extremos de precisão, tanto que notava até as cores das roupas e as conversas entrecortadas dos passageiros dos ônibus que cruzavam pela sua frente.
“Vejo que preciso urgentemente fazer uma consulta médica.”
Tal foi a derradeira reflexão que fez antes de atravessar de volta a rua e entrar pelo portal de vidro da casa de atendimento religioso.



8. TEMPO DE ESPERA

Adonias pensava dar no salão principal. Ao invés disso, encontrou-se num vestíbulo de uns quarenta metros quadrados, com muitos bancos e pessoas neles instaladas, como ainda, junto à parede fronteira, um balcão com duas recepcionistas uniformizadas de azul, espécie de tailleur de aeromoça.
Dirigiu-se para lá mas precisou aguardar que atendessem três pessoas, tendo ouvido uns fiapos de conversas:
— A senhora deve esperar junto ao elevador da esquerda. O seu nome será chamado logo.
— Quanto tempo vai levar?
— Não mais que quinze a vinte minutos.
— O senhor deve descer doze andares. Lá lhe darão todas as informações relativas à sua situação.
Adonias achou muito estranho que o edifício tivesse sido construído no fundo da terra. Estranhara que tinha quatro andares, incluindo o térreo, porque essas seitas economizavam no aparato material. No entanto, tudo ali era de primeira e agora vinha aquela informação surpreendente do número dos andares subterrâneos.
— Pois não, senhor!
— O meu nome é Adonias. Vim para ver o Senhor Adão.
— Doutor Adão. Um momentinho que vou consultar o arquivo no computador.
A jovem digitou algo e, imediatamente, na tela do monitor ao lado, surgiu um texto, que Adonias não conseguiu ler, porque não deu para ajustar o foco dos óculos.
— O Doutor Adão está avisando que o reverendo deve aguardar no consultório dele.
— Ele está à minha espera?
— Não, Padre Adonias. Ele pediu para que a gente o chamasse assim que o senhor chegasse. Nesta hora, ele deve estar operando no hospital.
— Por favor, serei indiscreto se perguntar em qual ramo cirúrgico se integra a especialidade do médico?
— O Doutor Adão é conhecido esteta de correção dos defeitos da face.
— Cirurgião plástico.
— Se é que se pode chamar assim a uma pessoa que se dedica particularmente a integrar as pessoas à sociedade quando apresentam defeitos congênitos ou quando sofrem acidentes que deformam o rosto. Mas ele lhe dará todas as informações que o senhor requisitar. Enquanto o senhor vai até o consultório, vou ligar para ele.
— Será que vai achá-lo?
— Não se preocupe. A telefonia celular acha sempre as pessoas.
Foi quando Adonias reparou num jovenzinho aparatado como serviçal do templo, ao seu lado, à espera das ordens da recepcionista.
— Leve o Padre Adonias ao consultório do Doutor Adão.
— Por aqui, senhor.
Dirigiram-se na direção contrária em que haviam seguido as duas pessoas atendidas antes, até uma porta lateral que abria para um amplo corredor, cujo fim a vista turbada do padre não conseguiu distinguir. Mas não caminharam muito, até que pararam diante de um elevador automático. O rapazelho fez que Adonias entrasse e ele mesmo acionou o botão do terceiro andar. Adonias examinou o quadro de botões mas ali só se assinalavam os andares superiores. Desse modo, a viagem foi curta.
Novamente se abria outro corredor extenso e de novo Adonias não enxergou o fim dele. Passaram perante umas quinze portas, onde se registravam os nomes dos ocupantes das salas e suas habilitações médicas, até que chegaram àquela em que estava o nome do Dr. Adão, com o respeitável anúncio: Correção cirúrgica facial.
Havia uma ante-sala com estofados, u’a mesinha de centro com revistas e um relógio na parede. Pela janela jorrava a forte luz do sol, filtrada através de um cortinado de tule azul claro, com flores amarelas e folhagens verdes, levemente esvoaçante. A Adonias pareceu ter a visão de um campo florido projetado num fundo celestial.
Viu-se sozinho. Sentou-se. Apanhou uma revista. Leu o título do artigo de capa: A laparoscopia como sistema de tratamento das infecções. O título da revista era estranho: Medicina Universal.
Fez um esforço de memória e chegou a um resultado curioso:
“Se bem me lembro, no hospital me fizeram passar por um exame laparoscópico. Mas o procedimento não era terapêutico. Era apenas uma exploração do estômago e da cavidade abdominal, que se transmitia para uma tela, onde os médicos podiam ver se estava tudo em ordem ou diagnosticar os problemas.”
A reflexão levou-o a procurar o artigo e logo encontrou a resposta que buscava. Tratava-se de um sistema de investigação dotado de recursos apropriados para a aplicação in loco de certas ondas e vibrações, com possibilidade de fechamento de úlceras, através de um método similar ao dos raios laser, através de fibras óticas de cerâmica.
Isso foi tudo que ele conseguiu assimilar, dando-se por satisfeito por entender algo muito difícil para quem não tem formação específica, mas, ao mesmo tempo, sentiu uma espécie de frustração íntima, porque lhe pareceu que as ciências se desenvolviam às custas das dores e sofrimentos. Abençoou mentalmente as pessoas que se dedicavam a sanar os males dos semelhantes, lembrou-se de Jesus a curar sem nenhum aparato médico e felicitou-se por haver sempre estimulado os jovens mais inteligentes a que se dedicassem a algo mais sério na vida do que os gozos e prazeres sensórios, primos irmãos dos vícios e dos crimes.
“Preciso estar atento para este tipo de raciocínio conjugado com os meus instintos e anseios de vida, senão tudo o que pensar vai estar fundamentalmente vinculado às pregações morais e religiosas, enquanto certos vislumbres diferenciados das palavras de Jesus, pela atualização necessária aos parâmetros do pensamento hodierno, irão perder-se no desarrazoado de minhas quiméricas deduções...”
Suspendeu a linha de raciocínios, achando tudo muito estranho. Tentou reproduzir a seqüência dos pensamentos e não conseguiu. Aí ia tirando como conclusão que estava ficando louco, quando o Doutor Adão entrou sorridente, estendendo os braços para levá-lo para si.



9. A ENTREVISTA

Estranhou Adonias a forma afetuosa e íntima com que foi recebido. Parecia que o médico estava comportando-se como um velho amigo, cuja benquerença fosse incontroversa e correspondida. Mas apertou o outro também contra o peito, sem sentir-lhe nas costas a mesma camada de gordura que sentira em Dona Genoveva. Entretanto, havia muito mais carnes do que nas suas próprias costas.
Como a ler seu pensamento, Adão lhe falou:
— O amigo pregador fala e faz o que diz. Quando prega contra a exploração dos pobres, torna evidente que nenhum ato contra eles efetua, tanto que o seu corpo está a demonstrar uma tendência extrema ao sacrifício. Aposto que o seu aperto e a sua apalpadela nas minhas costas lhe deram uma idéia bem diferente de mim, porque sou uma pessoa nutrida, apesar de não ostentar excessos. Estou certo?
A pergunta pegou o padre de surpresa, mas, estando a adotar desde há muito tempo a técnica de apenas falar a verdade, não se apurou:
— Está quase certo. Está certo quanto a eu achar que o doutor vem tratando-se muito bem, embora eu já tenha ouvido falar que o senhor trabalha bastante em prol dos necessitados, pelo menos no que tange ao restabelecimento dos que toparam com sérios problemas faciais. Quanto a mim, eu como muito bem sempre que posso; ocorre que não posso sempre, mesmo porque, até quando a comida é farta e aparentemente saborosa, meu paladar não me entusiasma a saborear com gosto os acepipes. Devo afirmar-lhe que, em outros tempos, tendo ouvido falar dos sacerdotes que se empanturram e se tratam como reis nas casas dos paroquianos mais abonados, exibindo panças respeitabilíssimas, eu mesmo, por minha conta e risco, resolvi, tacitamente, censurá-los, limitando o meu consumo de alimentos ao mínimo necessário para sobreviver, fazendo, à imitação do Cristo, jejuns de quarenta dias, faltando apenas o deserto para completar a divina imagem. Aliás, se me permitir adiantar-me mais um pouco nos aspectos de minha saúde, tenho a lhe contar que sinto profundas deficiências — intermitentes, é verdade — quanto a todos os meios sensórios de entrar em contato com o mundo material. Falando como para um leigo, sofro também da vista, do olfato, do tato (veja estas cicatrizes de queimaduras que só pude observar depois de acontecer o desastre, porque não sinto as dores) e ainda ouço mal, quase sempre. Se o senhor puder me encaminhar para alguns colegas seus, especialistas, eu ficarei agradecido. Antes que o senhor tenha a palavra, devo acrescentar que ainda hoje senti forte tontura, precisando descansar e tomar um pouco de água fresca para me restabelecer.
Passou-lhe pelo pensamento perguntar a respeito de duas coisas que estavam intrigando-o, as dimensões do prédio e o título da revista, mas resolveu esperar um momento oportuno.
Foi a vez de Adão:
— Vejo que o amigo está lendo um artigo de nossa revista Medicina Universal. É uma publicação da casa, porque achamos que todos os artigos importantes que se publicam no mundo científico merecem ser reproduzidos para os profissionais que atuam conosco. Na verdade, no nosso décimo subsolo, temos uma gráfica completa, onde editamos essa e outras revistas universais de Pedagogia, de Direito e de mais uma dúzia de ramos do conhecimento humano, segundo os vários departamentos de nossa instituição. Você não estranhou de nunca ter visto este tipo de publicação?
— Estranhei o nome, mas agora está explicado. Falta-me que o senhor esclareça por que o prédio desceu os seus andares em lugar de subir.
— Tinha a certeza de que você (permita-me o tratamento familiar) iria interrogar-me a respeito. Ocorrem dois fatos primordiais: o primeiro é que, quando da construção do edifício, a prefeitura estava limitando a altura dos prédios na região a cinco andares e nós precisávamos de dezoito; o segundo, é que necessitávamos ocupar um lugar no centro, para que a nossa congregação se espraiasse de maneira uniforme pela cidade toda. Mas acabamos descobrindo um fator muito importante: o da segurança em relação aos malfeitores, porque o nosso sistema de resguardo das pessoas e dos bens materiais se tornou extremamente favorável ao fechamento dos acessos de fora para dentro, como também de dentro para fora. E não pense que não tivemos ambas as tentativas. Apenas, foram frustradas na hora certa e por quem de direito, havendo nas prisões estaduais alguns facínoras que se deram mal conosco.
Era um dos temas prediletos de Adonias, de modo que, pensando em testar a integridade moral e religiosa do outro, provocou-o:
— Com o devido respeito, Doutor Adão, esses que o senhor qualificou de facínoras não são pobres diabos rejeitados e maltratados pela sociedade, que se viram coagidos a praticar crimes de sobrevivência, como eu chamo todo aquele que visa a restabelecer um certo equilíbrio econômico, porque lhes falta o essencial, enquanto para muitos sobeja o supérfluo?
— Eu entendo o seu ponto de vista, Padre Adonias, mas acho também que o reverendo não tem como justificar um ato de agressão tão profundo quanto o de se voltar contra pessoas e aparatos técnicos de alta sofisticação, inteiramente devotados ao bem público. Se o governo suprisse todas as deficiências sociais, ainda assim eu acredito que haveria muitas pessoas maldosas a praticar crimes horrendos, ou o senhor acha que as pessoas ricas, só porque não atacam senão através de uma legislação que as protege não mereceriam ser afastadas por um tempo do convívio social, até entenderem que a lei maior é a que considera que todos devemos amar-nos uns aos outros porque somos filhos do mesmo Pai? Eu lhe peço desculpar-me por enveredar em assunto de sua competência, mas a minha intenção em chamá-lo para esta nossa Igreja Cristã da Misericórdia Divina foi a de fazê-lo integrar-se à nossa equipe de atendimento espiritual e de incentivo ao bem, conforme a sua pregação em praça pública, conforme os relatórios que me foram apresentados pelo nosso corpo de investigadores e conforme eu mesmo pude constatar nas três vezes em que fui ouvi-lo.
Adonias fez um gesto como a solicitar um tempo para analisar as diversas idéias que lhe ocorriam, tentando estabelecer uma lista em que vigorasse um princípio de crescente prioridade e importância. Com paciência, Adão se pôs em silêncio a observar as transformações físicas e de vestuário do outro. Ele também organizou umas questões, mas reservou-as.
O padre, finalmente, definiu o que julgou imperioso perguntar:
— Sei que o senhor deve ter alta graduação na hierarquia desta comunidade, caso contrário não ocuparia um ponto tão elevado neste prédio, nem teria a deferência de tratamento respeitoso pela mocinha do balcão de informações. Sendo assim, por que me escolheu de preferência a tanta gente mais equilibrada, segundo fatores socioeconômicos e religiosos, conforme o padrão de sua entidade?
— Pensei que você me fosse questionar a respeito da natureza do atendimento que prestamos às pessoas, já que me referi a assistência espiritual e a incentivo ao bem. Mas tudo está relacionado, de modo que posso começar explicando-lhe que todos os que trabalham nesta nossa Igreja o fazem em absoluto voluntariado. Quando não têm recursos ou rendas próprias, residem na nossa ala de habitação, transitoriamente, até formarem um núcleo familiar que lhes dê a garantia do aconchego de um lar, pela equitativa distribuição das tarefas e funções inerentes à natureza gregária dos seres humanos. Você irá encontrar muitos jovens que nos prestam serviços de recados, outros que se empenham em ajudar nas tarefas menos especializadas, todos a troca de aprender algum ofício, mantidos quase todos pela instituição, sempre no intuito de reintegrá-los às próprias famílias, quando se sabe o paradeiro delas. Ora, esses jovens, como também muitos adultos retirados das ruas, você verá, precisam de acompanhamento educacional de sentido cristão, especialmente para a aquisição dos valores morais de respeito dos direitos de todos, pelo amor que Jesus teve por nós. Você irá cobrir uma ausência muito sentida do orientador antigo, o qual partiu para o além, como irá acontecer com todos nós, mais cedo ou mais tarde. O que nos levou a considerar a hipótese de chamá-lo para tarefa de tão alta responsabilidade foi o fato exatamente de não estar comprometido a não ser com seus princípios filosóficos que transpareceram em todas as ocasiões em que fomos ouvi-lo. Não estranhe de eu estar me referindo a nós; é que já reunimos o corpo diretivo da Igreja e julgamos que você perfaz todos os requisitos. Será que preciso enumerá-los?
— Por favor!
— Inicialmente, você é muitíssimo bem dotado de inteligência e possui memória excepcional, conforme tivemos ocasião de constatar ouvindo-o repetir, ipsis litteris, extensos trechos da Bíblia. Depois, jamais chegou a nosso conhecimento de que haja aceitado dinheiro, seja para o que for, muito embora guardasse uns trocados para poder viajar de trem, trocados que Dona Genoveva nunca lhe negou. Isto tem importância transcendental para nós, porque, conforme lhe disse, não obtemos nada nesta casa que não seja de proveito espiritual.
— Mas tudo tem seu preço. Como é que vocês conseguem manter os aparelhos em funcionamento e as pessoas alimentadas e vestidas?
— Esta sua pergunta esbarra num comentário que ouvi de sua boca na derradeira palestra a que compareci. Não é verdade que você investia contra as riquezas acumuladas de sua própria religião? No entanto, boa parte de sua vida confessional foi...
Adonias solicitou que Adão interrompesse a alocução, mas não interpôs nenhum raciocínio contrastante para refutar os argumentos do médico. Apenas se limitou a fazer o queixo descair até encostar no peito, ao mesmo tempo que deixava escorrer um pranto suave pelas faces.
Se tivesse erguido os olhos, teria visto que o mesmo acontecia ao médico. No entanto, quando aquele momento de concentração emocional teve fim, o outro já se recompusera.
— Doutor, o senhor sabe muito bem que a minha pregação não vem sendo contra os ricos, mas contra o mau uso dos bens, porque muita gente está na miséria, o que, indevidamente, está justificando os altos índices de criminalidade em todo o país. Aliás, devo suspeitar, pelo que leio nos noticiários das bancas de jornais e nos poucos momentos em que me ponho diante da televisão, que existe toda uma onda de violência no mundo todo, até nos países onde a tecnologia está tão avançada que se atreve a mandar pessoas a estações espaciais e em viagens interplanetárias. Acho que, se Jesus voltasse, iria volver seu divino olhar para o sofrimento monstruoso dos povos inferiores economicamente, buscando reforçar os conselhos de irmandade e de coerência com os desígnios do Pai de levar todo o rebanho para o seu reino. Desse jeito, infelizmente, por mais que nos esforcemos de forma a mais lídima e honesta possível em evitar que as pessoas cometam seus pecados mortais, o diabo irá recolhendo em magotes as infelizes almas dos que desrespeitam as leis de Deus. Se é para isto que o senhor está convocando-me, devo dizer-lhe que estou pronto para assumir a vaga que me está sendo oferecida.
— Não deseja saber mais nada?
— O doutor reparou, por certo, que a minha decisão já estava tomada antecipadamente, porque me pareceu correto reintegrar-me num corpo religioso, para exercer de forma mais coesa e conseqüente a minha pregação. De que me valeram estes últimos anos de peregrinação na rua? Com certeza, no futuro, não encontrarei ninguém que me dê com tanta emoção quanto o Seu Homero um simples copo d’água, ou me transporte com o coração agradecido pelas ruas da cidade, como o motorista a quem um dia aconselhei no recesso do confessionário. Venho pensando muito seriamente numa atividade que reúna forças que se congracem em torno de ideais comuns e hoje senti que ela existe nesta sua Igreja, a qual me parece muito mais um hospital e um orfanato, uma santa casa de...
As palavras custavam a chegar, porque Adonias não desejava oferecer definições que não correspondessem aos anseios de benemerência de quem registrou no próprio nome da instituição a palavra misericórdia. Vinha-lhe à lembrança as santas casas de misericórdia de antigamente, mas não desejava estabelecer comparação. Deixou morrer então o tema, fazendo um sinal ao médico para que prosseguisse em seu ritmo de informações, já que lhe parecia que muita coisa ainda deveria saber para bem se compenetrar de suas funções.
— Você sabe que Jesus praticou a multiplicação dos pães e dos peixes. Está nos Evangelhos. Como terá ele produzido esse verdadeiro milagre (há quem diga que não houve milagre algum), não nos importa considerar. O que é preciso ter em vista é o fato de essas multiplicações terem sido ocasionais; normalmente, compravam-se víveres com que alimentar os apóstolos e os discípulos, que abandonaram, muitas vezes, as suas profissões, com mais certeza após a morte do Mestre, quando a peregrinação em busca dos adeptos da nova religião se fez obrigatória. E como arranjavam dinheiro? Não se esqueça de que Judas Iscariotes era o tesoureiro do grupo, conforme várias passagens que você mesmo pode reproduzir.
Adonias fez um gesto para o médico prosseguir, que bem se lembrava dos trechos aludidos.
Adão continuou:
— Eu acho que o dinheiro era coletado entre o povo da mesma forma que os sacerdotes faziam. O tema do óbolo da viúva...
O gesto de Adonias demonstrava certa impaciência.
— ... e a amizade com pessoas abonadas, como José de Arimatéia, por exemplo, além de tanta gente importante que procurava Jesus, como doutores da lei, ricos fariseus que se aproveitavam das sombras da noite...
Adonias não se agüentou:
— Doutor, por gentileza, diga que a sua Igreja passa a cestinha, a bandeja, o chapéu, a sacola entre os que comparecem...
Foi Adão, desta vez, quem se impacientou:
— Sem dinheiro, é o que eu quero dizer categoricamente, ninguém faz nada no mundo. Sendo assim, não provindo das organizações criminosas e não se desviando das finalidades mais nobres estabelecidas pelo setor governamental, nós aceitamos, contabilizamos e prestamos contas públicas, mensal, semestral e anualmente, sendo todos os balancetes enviados para o Tribunal de Contas, de onde jamais voltaram sem o competente visto de aprovação. Penso que este não irá constituir-se no obstáculo que irá impedi-lo de se juntar a nós.
— Ao contrário, Doutor Adão, será esse o elo que firmará a nossa corrente de solidariedade, porque eu não me recusarei jamais a receber assistência gratuita, já que perdi completamente o meu orgulho de pessoa que se impunha pela presença respeitosa de minhas batinas e paramentos. Se confiarem em mim, se me derem uma atribuição de caráter nobilitante, envergarei o uniforme da instituição e assumirei com plena satisfação e possível felicidade as funções de orientador dos serviços educacionais de caráter moral e religioso.
Adão conteve um íntimo impulso de abraçá-lo. Em todo o caso, desejou investir num outro setor que tocava os melindres do padre:
— O senhor acha que, pelo fato de a pessoa não ir à missa, irá parar no inferno?
Adonias olhou meio de soslaio para o médico, desconfiando da provocação. Não hesitou, porém, em responder:
— Pior do que isso, meu amigo — e agora eu é que me darei o direito de chamá-lo por você —, você há de convir que, pelo fato de ter sido expulso da congregação e, mais ainda, excomungado, eu é que deveria mais do que ninguém suspeitar de que a Igreja Católica Apostólica Romana, como também nenhuma outra, terá o direito de determinar quem vai ou quem não vai gozar as eternais delícias do paraíso ou ser atormentado para sempre nos báratros infernais.
— Que são báratros infernais?
— Você quer a definição oficial das religiões ditas cristãs ou deseja ouvir a minha interpretação dos textos sagrados?
— Só o que se contiver no seu coração.
— Pois eu acho que Deus é justo de modo soberano. E, como diz o nome de sua Igreja, é misericordioso. É bom e não iria criar nenhum ser que pudesse ser votado ao sofrimento até o final dos tempos. Como é que o senhor vê esse mesmo ponto?
— Não se aperreie por tão pouco, meu irmão. Você irá receber os nossos livros de regras, onde estão assinaladas as doutrinas que seguimos. Você irá estudá-los e só depois disso é que se habilitará ao trabalho que lhe destinamos. O que eu chamei de voluntariado deve ser entendido como anuência consciente e adesão incondicional às nossas idéias. Mas nenhuma porta está fechada, pois somos bem capazes de moldar os nossos princípios pelas noções que reconhecermos mais coerentes com a verdade, aquela que rege as leis de Deus. Posso tomar-lhe mais um pouco de seu tempo, para contar um fato interessante que ocorreu a um dos nossos colaboradores mais efetivos?
— É o senhor que tem ocupações fixas e definidas. Eu só estou aqui como a mosca...
Não soube concluir. Sempre iniciava uma frase e nunca deixava de encerrá-la. Naquele caso, contudo, não chegou a vislumbrar um inseto sem interesse imediato em explorar o ambiente. Foi Adão quem rematou:
— ... como a mosca que se vê sobre uma refeição completa coberta por uma toalha. Pois bem, o sujeito chegou arredio e estabeleceu como objetivo não se oferecer sem antes assimilar todas as instruções. Não se satisfez com as leituras que lhe apontamos. Então, sem constrangimento algum, solicitou matrícula numa das turmas mais elementares, sendo ele, embora, advogado.
— Permita-me, doutor, interrompê-lo. Não obstante a sua sugestão, não creio que o meu cabedal de conhecimentos não baste para as primeiras turmas. Sei que posso estar parecendo muito pouco humilde; mas a verdade de meus recursos o senhor conhece muito bem. O que eu desejava deixar bem esclarecido é que ficarei à disposição integral da Igreja, com uma única ressalva: que me permitam, uma vez a cada quinze dias, ir visitar a minha família.
— O seu horário ficará ao seu próprio encargo, de modo que as turmas se adaptarão a ele. Não há um rigor extremo, mas é preciso fixar algumas aulas para que todos nos programemos em função delas. Mas isso é o que há de mais fácil, você verá. Agora eu pretendo submetê-lo a uma série de testes clínicos, porque eu não acho que você sofra de distúrbios neurológicos diversos. Antes, gostaria de me desfazer da impressão de que haja um foco único de perturbação em seu cérebro...
— Uma espécie de tumor?
— Ou tumor, ou edema, ou coágulo ou simples pressão nevrálgica provocada por alguma virose intermitente, dado que você apresenta crises e depois se sente bem. Antes de examiná-lo, quero fazer uma experiência que poderá parecer-lhe tola. Mas faça conforme eu lhe pedir que depois eu lhe darei todas as explicações científicas.
— Sem termos técnicos, por favor.
— Não se preocupe. Eu quero que você pense em algumas pessoas ou fatos que possam haver causado sensível estado emocional em sua alma, como a perda de algum ente querido, o sofrimento de algum parente próximo, a confissão de alguém que realmente se haja arrependido; o que quer que o tenha levado às lágrimas. Ao pensar e sentir o coração bater de maneira diferente, faça uma prece com muita fé em que irá alcançar a ajuda divina para aliviar as pessoas referidas. Olhe, antes, para aquele quadro na parede e me faça uma descrição breve do que ali se contém.
— Vejo umas crianças brincando na rua. Ao fundo, um coreto no meio de uma praça.
— Está bem! Agora concentre-se.
Adonias não teve dificuldade em escolher as rotas e sujas figuras de crianças de cinco e seis anos que vira fumando craque debaixo de um viaduto. Em pouco tempo, perdeu-se em um emaranhado de sofrimentos, de perseguições, de enxotamentos, de fome e de doenças e se viu, de repente, perante pessoas adultas levadas em um camburão da polícia. Sabia que era possível ao Senhor intervir para mudar aqueles destinos. Então orou, cheio de fé, sabendo que as suas palavras não poderiam deixar de ser ouvidas, porque o Cristo havia prometido aos discípulos que sempre estaria com eles.
Passaram-se dez minutos. Quando Adonias voltou a si, parecia que um suave cântico angelical preenchia de sons delicados aquela atmosfera tépida e olorosa, pois uma fragrância muito doce de âmbar se fazia sentir até de modo acentuado. Olhou para o quadro e distinguiu as seis crianças que brincavam de roda, três meninos e três meninas, sendo capaz de observar, no coreto, as figuras de uns músicos e, no alto da torre da igreja, no fundo da praça, dois sinos, acima dos quais, uma cobertura em forma de pirâmide, sobre a qual se via uma cruz dourada.
Pensou estar sonhando, tanta a perfeição de seus sentidos. Mas Adão o trouxe à realidade e o fez descrever todas as suas sensações.
Depois de dizer que se lembrara dos jovenzinhos de quem se condoera e de que entregara o destino deles nas mãos de Deus, falou da prece comovida, de como sentiu de novo a realidade e perguntou a respeito dos sons, dos odores, das imagens.
Adão se apressou em explicar:
— Todos esses elementos estavam aqui mesmo. Você é que não os sentia. Então, chegou a hora de explicar o “milagre”. Quer que eu seja absolutamente didático ou posso ir de etapa em etapa, sem informações paralelas?
— O que eu não entender, eu pergunto.
— Muito bem! Você sabe que o cérebro é que permite a todos os órgãos funcionarem em harmonia. Ele é constituído de matéria orgânica...
Adonias fez um gesto para que o médico omitisse essa parte.
Adão prosseguiu:
— Cada setor do cérebro comanda uma parte do organismo. Se uma bala, por exemplo, perfurá-lo de um lado a outro, dependendo da direção do projétil, são atingidos centros de importância para a fala, para a audição e assim por diante. Mas a gente não comanda o funcionamento da massa encefálica. A gente só busca dar sentido a um roteiro de pensamentos e sentimentos, coerentemente com as preocupações e interesses gerais e do momento. Ninguém previamente faz um roteiro de quantos passos haverá de dar até atingir determinado lugar: à medida que vai caminhando, vão-se vencendo os obstáculos que se apresentam, alguns de modo corriqueiro, outros, excepcional. Aí os pensamentos se ajustam às circunstâncias sem perder de vista a meta final, o destino que havíamos estabelecido de início. Isso vale para tudo na vida, até mesmo quando a gente pretende ser médico ou sacerdote. Há quem chame a isto de vocação, de aptidão profissional, de tendência psíquica ou de consciência da realidade mental em consonância com o mundo exterior. O nome não importa; a verdade é que, por mais universalizante possa ser o nosso ideal, ainda assim temos de reger os procedimentos normais de todo organismo vivo, sentindo fome, conhecendo o medo, ultrapassando os limites dos sofrimentos etc. O cérebro, para cada um de nós, pode-se dizer, é quase todo o universo. Veja, por exemplo, a sua preocupação com os pequenos consumidores de drogas: você sabe que estão sem perspectivas de vida como realização até meramente biológica, que dirá quanto à consecução dos ideais cristãos do amor, do perdão, das virtudes, isso sem dizer que estão destinando-se ao sofrimento após a morte, porque, segundo pude deduzir de sua inferência quanto às diretrizes impressas nas criaturas pelo Criador, você acredita piamente que existe uma justiça a ser distribuída entre todos, cabendo aos que se sacrificaram pelos semelhantes uma justa parcela de felicidade. Não é isso que o traz preocupado quanto ao destino dos criminosos, sejam eles pobres ou ricos, estejam condenados ou não pela justiça dos homens, ou até sejam vistos como heróis porque se desconhecem seus atos de perversão?
Adonias pensou que a pergunta fosse meramente retórica e não respondeu. À vista da fisionomia do médico a solicitar uma explicação dos íntimos sentimentos, resolveu ser bastante sintético:
— É verdade.
— Pois bem, meu amigo, o cérebro, para efetuar todas as manobras que lhe são exigidas pela vontade do indivíduo ou pela necessidade do corpo e da mente de se ajustar às condições ambientais do momento, funciona através de um sistema de fluxo e refluxo que, para simplificar, irei chamar de mecânico, com base nas reações físico-químicas dos ingredientes que o compõem e que se regem através de um sistema elétrico, por falta de melhor palavra, dispondo-se ordenadamente cada informação que se recebe, segundo a participação do conjunto dos nervos ou dos tecidos magneticamente carregados, transferindo-se os dados de uma para outra região, conforme se queira, por exemplo, pôr à disposição da parte consciente ou se objetive guardar para uso oportuno, o que se chama de memória. Agora vou entrar no que lhe interessa mais de perto.
Adonias ia dizer que não era sem tempo, mas limitou-se a sorrir agradecido pela deferência da simplicidade das explicações. No fundo do coração, bem que gostaria que o médico expusesse tudo cientificamente, por meio dos recursos técnicos desse ramo do conhecimento, mas refletiu que era bem melhor entender pela rama a ficar absolutamente alheio às informações.
Como a ler em seu pensamento, Adão prosseguiu:
— Você já ouviu dizer que o cérebro humano e de algumas espécies de animais tem o dom da prevenção ou da intuição. O que talvez não saiba é que esse conjunto maravilhoso despende energia, sutil e melíflua, mas energia (de resto de vários tipos), o que possibilita a medição das atividades nesta ou naquela área, segundo a motivação externa. Estamos a caminho de colocar medidores no cérebro para auferir conhecimentos especiais a respeito da utilidade de cada segmento de matéria encefálica. Por exemplo, já trabalhamos com microchips, com perdão do barbarismo, para orientar os impulsos nervosos frustrados por lesões irreversíveis.
Adonias começava a desconfiar de que Adão iria demasiado longe, deixando os temas de seu interesse de lado. Com esse pensamento, resolveu pedir vez para falar:
— Caro amigo, o meu poder de raciocínio acusa para o perigo de me dispersar, caso você continue a desfilar conhecimentos de caráter muito geral. Por que você me pediu, finalmente, que pensasse numa razão emocional para que eu efetuasse uma prece sincera, cheia de fé, como você recomendou?
— Desculpe-me. Eu me entusiasmo facilmente ao falar do cérebro, que não é, veja bem, a minha especialidade. No entanto, tendo em vista a oportunidade que você me propicia de analisar um caso muito especial, eu vou desenvolvendo o assunto, ligando um pensamento ao outro, sem me ater à meta principal que é o seu esclarecimento. Então, fique sabendo que o momento doloroso da recordação das aflições foi para concentrá-lo e dar-lhe a possibilidade de criar um vínculo religioso com as entidades que você respeita e que lhe dão a segurança e até a certeza de que seus rogos serão atendidos. Aí, você criou uma espécie de euforia, que eu chamaria de doutrinária e que lhe restabeleceu a paz, normalizando todas as funções cerebrais pelo padrão mais elevado. É como os místicos entram em contato com as forças do etéreo provindas do Criador. Depois você me diz se discorda de algum ponto específico, de algum termo, de algum conceito não muito bem expresso, porque você é o dono do métier. Agora a parte crucial: ao mandar para a região do cérebro todos os neurônios em que se concentraram seus mais altos investimentos emocionais, você forçou um crescimento de atividades no setor, de forma que o seu nível de felicidade atingiu o apogeu. Nesse momento, o local em que se dava o encontro dos ingredientes causadores da depressão ficou em absoluto abandono, porque não é comum atuarem em conjunto essas duas regiões. A sua alegria contaminou os centros sensórios e fez que houvesse uma infiltração neles de elementos produtores de reações positivas ao meio ambiente. Numa pessoa normal, esse tipo de reação não carece de estímulos adicionais. No seu caso, em havendo algum óbice à normalidade das reações, o sentido da fé adquire um vigor preponderante para pô-lo em condições de usufruir os recursos orgânicos em estado de penúria. Se me permitir uma conclusão mais ou menos materialista de um dado bíblico, eis que assim se explicam os fenômenos de cura praticados por vários profetas e as célebres palavras de Jesus: A sua fé o salvou.
Adão parou para respirar e para dar tempo ao outro que refletisse. Depois de alguns minutos, concluiu:
— Nós vamos entrar agora na minha sala de consultas e vou fazer sua cabeça passar por uma tomografia computadorizada. Vamos ver o que existe aí dentro que possa estar prejudicando o meu amigo.



10. O EXAME

O consultório seria simples não fosse por uma aparelhagem eletrônica cujo comando se dava por detrás de uma parede com dois visores de vidro. Havia um discreto símbolo denunciando a presença de elementos radioativos. Completavam o mobiliário a maca de obrigação e a correspondente escadinha de três degraus, uma ampla escrivaninha, duas cadeiras de espaldar de madeira trabalhada e uma estante envidraçada que mostrava alguns livros e vários arquivos aos moldes antigos, pastas de papelão que passavam a impressão da inoperância. Numa mesa menor, girando a cadeira sobre as rodas, o médico alcançava um moderno computador, com monitor e demais petrechos.
Antes de qualquer iniciativa clínica, Adão quis que Adonias observasse a aparelhagem por detrás da parede protetora do operador da máquina de tomografia:
— Você já esteve num consultório médico com tantos recursos?
— Pelo hospital onde estive internado, um pouco antes de sair, dei um passeio pelas dependências e pude observar como a ciência médica tem evoluído nos últimos tempos. Era um hospital moderno e rico, porque a mantenedora era a própria Igreja. Por isso, essas telas e esses teclados, eu os conheci, muito embora não visse nada funcionando.
— Mais tarde, tendo uma folga em suas atribuições e em havendo um caso especial, eu vou chamá-lo para acompanhar os nossos procedimentos tecnológicos.
Quando saíram de volta ao consultório, lá já se encontrava uma enfermeira, moça jovem e elegante, devidamente trajada de branco, com uma ficha na mão que entregou ao médico.
— Obrigado, querida. Adonias, leia esta autorização, por favor, e, se estiver de acordo, assine. É uma formalidade da Igreja, para que, em caso de alguma complicação, estejamos à vontade para destinarmos os seus despojos à caridade da doação.
Adonias, ostensivamente, pegou a caneta que lhe estava sendo oferecida e, sem ler, apôs a assinatura no papel, ao mesmo tempo que afiançava:
— Sei que não chegou ainda a minha hora, porque pretendo realizar muitos benefícios nesta instituição. Não receie utilizar o cadáver o mais generosamente possível.
— Então, vamos começar. A enfermeira irá prepará-lo e dar-lhe as instruções. Enquanto isso, eu vou descrevendo como é que se realiza o exame.
Dez minutos depois, a máquina estava ligada, fotografando as intimidades do cérebro do sacerdote, ao mesmo tempo em que o médico, do outro lado da parede de resguardo, ia observando, na tela, as imagens fixas que ali desfilavam, uma a uma, enquanto tudo quedava devidamente arquivado na memória do computador.
Foram feitas quatro sessões completas, de frente, por atrás e dos lados, de forma que impossível seria a qualquer problema físico de não se revelar aos escrutínio rigoroso das ondas, vibrações e raios penetrantes do mecanismo poderoso.
Mas Adonias, ao sair da maca, titubeou, enfraquecido, como se lhe tivessem retirado as poucas energias que seu organismo acumulava. A enfermeira aprestou-se a dar-lhe um copo de um líqüido amarelado, que, positivamente, desejava apresentar um gosto parecido com o do sumo da laranja. Evidentemente, estava encorpado com algum medicamento, porque logo pareceu ao padre que melhorava.
Do outro lado da parede divisória, Adão esperava que a máquina lesse eletronicamente as imagens e pusesse às claras o diagnóstico infalível da programação rigorosa ali armazenada.
Ao apanhar o resultado, Adão não fez boa cara, mas não deixou transparecer nenhuma preocupação. Colocou os impressos numa pasta, deu com os botões que enviavam o resultado do exame para o computador central e foi ter com o paciente, para as recomendações específicas:
— Vejo que você já está bem. Sempre que alguém fica por tanto tempo dentro desse aparato desconhecido, enxergando essas luzes misteriosas, respirando sob comando alheio, tendo de prestar atenção a estranhas vozes que vêm não se sabe bem de onde, sai daí como se tivesse visto um filme de terror, em três dimensões.
Adonias percebeu que o médico estava querendo pô-lo à vontade, prevenido quanto a algo mais sério revelado pela máquina. Então, foi direto ao ponto:
— Como é, doutor, quanto tempo tenho de vida?
— Se depender de seu pequeno tumor, vamos ter de aturá-lo por mais quarenta anos.
— Graças a Deus! O senhor sabe que, se fosse para dar a minha vida em troca da salvação da alma de seja quem for, eu sequer piscaria. No entanto, saber que a gente tem de ir embora assim, sem mais nem menos, quando se está formulando um novo ideal...
Não foi capaz de prosseguir. De repente, percebeu que estava entregando suas aspirações mais profundas de bandeja para alguém que não conhecia de verdade, muito embora deixasse claro que muito tinha para oferecer.
— Fico alegre com a sua decisão em favor de nossa causa. Você jamais se arrependerá, posso garantir-lhe. No entanto, vai precisar de repouso, para que os remédios que vai tomar possam fazer o efeito almejado. Você ficará internado aqui mesmo...
— Por quanto tempo, doutor?
— Já tivemos bem uns quinze casos idênticos. Falando sinceramente, houve cinco que abandonaram o tratamento e desapareceram; cinco que ainda têm seqüelas mas que são capazes de se aplicarem ao trabalho que lhes selecionamos; e cinco ou seis que se curaram completamente e que hoje se dedicam ao que mais gostavam de fazer. Não faço, portanto, nenhum prognóstico quanto ao tempo e aos resultados.
— Algum óbito?
— Nenhum.
— Então, vou aceitar dar a vocês a satisfação de praticarem comigo a caridade que Jesus pedia a todos. Conte com a minha retribuição integral, em momento oportuno.
Pensando que havia pouco sentimento em suas palavras, Adonias juntou um gesto a elas: deu a volta na mesa e abraçou demoradamente o médico, sussurrando ao ouvido dele:
— Deus lhe pague! Deus lhe pague!



11. A INTERNAÇÃO

De repente, Adonias viu-se despedindo-se de Adão, sendo levado pelos corredores pelo cicerone juvenil, o mesmo da outra vez, encarregado de destiná-lo ao quarto individual que lhe estava reservado.
Reparou em que o jovenzinho lhe dava todas as informações a respeito de quantos andares eles iam descendo, mas, dessa vez, não conseguiu guardar muita coisa. Ouviu falar em ala dos dementes, dos lunáticos, dos psicopatas, dos esquizofrênicos, dos loucos em geral, mas não se deu conta de que perguntas poderiam esclarecê-lo melhor a respeito das atividades. Mais tarde, iria vagamente lembrar-se de que o rapazelho lhe dissera de doentes do fígado, do estômago, dos pulmões, dos intestinos. Mas tudo isso se embaralhava na memória, capaz, isso sim, de recordar que se preocupara com o fato de ter de permanecer internado, enquanto, nas ruas, as pessoas davam curso às suas vidas sem perspectivas de grandes lucros morais, para fazerem jus à eternidade ao lado do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
No quarto, observou que a mesma enfermeira era quem aguardava por ele, tendo providenciado a roupa de cama e todos os petrechos necessários à estadia dele no hospital, incluindo pijama, escova de dentes, sabonete, no banheiro privativo, e uma pilha de livros, sobre a mesinha das refeições, com a recomendação enfática de que deveria começar a ler na ordem numérica.
“Afinal de contas, o meu mal está sendo tratado e dos meus distúrbios maiores já sei cuidar através das preces ao Pai, para concentrar os elementos da fé, que haverão de compensar o refluxo nas áreas prejudicadas pelo tumor.”
Deitado no leito, guardadas as suas roupas no armário simples de um só corpo, com duas gavetas, recebeu os primeiros medicamentos, constituídos de vários comprimidos e alguns sucos, estes, sim, com sabores definidos.
Seja porque o dia tinha apresentado tantas novidades, seja porque os remédios contivessem algum ingrediente de efeito narcótico, Adonias logo adormeceu. Quando acordou, percebeu que era tarde da noite por estar muito escuro, estando as luzes apagadas, com exceção da que iluminava o corredor.
Espreguiçou-se longamente, levantou-se e foi até a porta, a ver se via alguém que pudesse informá-lo a respeito das horas. Ninguém. Não se atreveu a ir mais longe, observando, contudo, que estava num momento de perfeita lucidez orgânica. Estranhou a formulação desse tipo de pensamento muito inusitado e desejou ver se tinha o controle do ambiente. No entanto, o interruptor da parede do quarto não funcionou. O do banheiro, acendeu uma luzinha tênue, capaz de orientá-lo apenas para uso da bacia. Quis ver se a água do chuveiro estava aquecida, mas logo sentiu que estava numa temperatura inadequada para o banho, tão fria se apresentava.
Voltou ao quarto, após aliviar a bexiga, notando que a água da pia estava tépida e agradável.
“Será que vou conseguir ler? Se os livros me foram tão insistentemente recomendados por Adão, é porque, sem eles, poderei enfrentar alguns problemas.”
Contrariou, no entanto, a ordem dos números e passou os olhos pelo último da lista. A bem da verdade, interpretou as letras, mas os textos se embaralhavam incompreensivelmente, como se muitas informações carecessem de dicionário. Desgostoso, porque se considerava com capacidade intelectual de bom nível, resolveu que deveria obedecer, passando mais de duas horas, segundo um cálculo precário que fez, sentado sobre o leito, a meditar a respeito de seus votos de sacerdote, tendo partido da análise do voto de obediência, aquele que ferira mais prontamente.
Nesse devaneio, cruzou as reminiscências antigas com as lembranças atuais, a enfermeira passeando pelo quarto, e disparou o pensamento na direção do voto de castidade:
“Eis aí um ponto que nunca me preocupou. Desde que ingressei no seminário, nunca mais tive necessidades fisiológicas no campo do aparelho reprodutor. Se uma ou outra vez me ocorreram poluções noturnas, nem precisei levar o problema ao confessionário, porque tudo transcorreu normalmente, sem o adendo da tentação pelas figuras femininas criadas pela imaginação nem divisadas na memória, sem gozo material nem moral, que o meu desejo sempre foi o de vencer as marcas físicas de minha organização biológica.”
Mais ainda se surpreendeu com a linha de formulação dos pensamentos, principalmente porque, desde há muito tempo, especificamente desde o acidente, se voltara para integral auxílio ao próximo na esteira doutrinária do Cristo.
“Será que os religiosos que prestam serviço nesta Igreja Cristã têm permissão para constituir família? Será que Adão é casado?”
Imperceptivelmente, deixou descair a cabeça sobre o travesseiro e adormeceu. Ao acordar, chamado pela voz calma da enfermeira de sempre, não se recordava de haver sonhado.
— Padre Adonias, está na hora dos remédios. Primeiro, no entanto, o senhor deve ir ao banheiro, tomar um banho...
— Minha cara, por favor, como devo chamá-la?
— Como está no crachá.
Foi só aí que, fixando a vista, Adonias pôde ler o nome da moça:
— Alice. Muito bem! Esta noite a água estava gelada.
— O boy não lhe disse que, nos andares de baixo correspondentes às alas de internação, nós, como estamos sem contato com o exterior, adaptamos o dia e a noite a horários mais adequados à assistência dos pacientes?
— Ele deve ter dito, mas não prestei atenção. Se eu quiser controlar o tempo do lado de fora, é possível?
— Basta me perguntar, porque eu tenho horários para entrar e sair. O senhor não irá ficar perdido em relação ao dia e à noite. Agora, por favor, atenda à programação efetuada pelo Dr. Adão, porque eu não quero ser repreendida quando ele vier para a visita daqui a meia hora.
— Passe-me, rapidamente, a rotina diária, por favor.
— Não estou autorizada, principalmente porque a medicação e os exames só nos são informados após a visita dos médicos.
— Entendi, minha querida Dona Alice. A senhora é uma fiel cumpridora das determinações e quer que este paciente aqui não...
Ia fazer o miserando trocadilho de todos os hospitais, mas segurou-se a tempo, estranhando que estava derivando o seu modo de ser para um trejeito afetuoso e gracioso que, ultimamente, só se permitia quando ao lado das irmãs.
Quando voltou de banho tomado, de pijama limpo, e cheiroso, porque encontrou no armarinho do banheiro uma lavanda suave de alfazema, foi recebido por Alice com um farto dejejum.
Após tomar os remédios, estando ainda a saborear um gostoso copo de sumo de laranja, após uns pãezinhos umedecidos com margarina acompanhados de uma boa chávena de café com leite, apareceu Adão, com seu indefectível jaleco de linho branco.
— Bom dia, Pastor Adonias!
Ao desusado cumprimento, respondeu o sacerdote:
— Bom dia, Reverendo Adão!
Ambos esboçaram um sorriso, percebendo que se abriu um campo novo em sua nascente amizade.
Aí, o médico deu a explicação que lhe competia:
— Chamei-o de pastor para provocar-lhe uma novíssima emoção, como a lhe atribuir nova...
— Não há que se desculpar, doutor. Entendi. Se estou assumindo uma nova personalidade social, devo acatar as transformações no mínimo formais que a posição acarretará.
— Não apenas isso, meu caro irmão. Trata-se também de configurar uma nova filosofia em termos bem latos, como se você se transferisse do planeta Terra para Netuno, Vênus ou Plutão.
— Verdadeiramente, para mim tudo está parecendo a mais completa novidade. Por exemplo, em que língua foram escritas essas instruções que você me pediu para estudar?
— Como assim?
— Tentei ler esta noite... Posso dizer noite e dia, conforme Alice me orientou?
— Faça como quiser: dia, para os momentos sociais; noite, para os de sossego e sonolência. Mas a leitura?...
— Saí da ordem. Peguei o último da lista e não entendi absolutamente nada. Que mágica é essa?
— Para saltar as etapas, você precisaria de um acompanhante que conhecesse muito bem todos os textos anteriores. São onze volumes. As explicações vão num crescendo, de modo que os conceitos se acumulam, não precisando quem conheça o primeiro, ao ler o segundo, voltar atrás. E assim por diante. Prefere que chame alguém para ajudá-lo ou vai começar do início? Não se esqueça de que você está para nós da Igreja como o escolar que se matricula no primeiro ano.
— Será que conseguirei vencer todos os ciclos antes de receber alta?
— Considero a sua pergunta muito séria, aliás, a mais séria que poderia ser feita nesta circunstância. Então, vou dizer-lhe que os seus estudos vão depender de um estado de euforia religiosa contagiante, ou seja, que você deve irradiar a mais completa felicidade, primeiro para concentrar todos os seus neurônios no setor da mente reservado à fé, aquele mesmo a que fiz referência no caso do despertar dos sentidos. Em segundo lugar, para provocar a presença de seu anjo da guarda, que deverá trazer-lhe as bênçãos dos santos em quem você mais deposita as suas esperanças de que venham a tornar-se seus padrinhos ou padroeiros, na caminhada da salvação de sua alma. Para tanto, solicito-lhe que se esqueça do que você possa considerar a maldição do ato que o excomungou, porque deve considerar que Deus abre dez portas quando uma se fecha. Não é isso mesmo?
— Quer dizer que devo apostatar de minha fé católica?
— Ao contrário, deve aperfeiçoá-la no sentido do perdão divino para todas as faltas. Não é a sua Igreja que possui no mais alto conceito a lei do perdão? Então, se Deus perdoa os homens arrependidos, por que não haveria de perdoar os que desejam unicamente praticar o bem?
— É verdade, mas...
— Perdão. Considere, por favor, o fato de que existe, estatisticamente, um número insignificante de cristãos e mais ainda de católicos na história deste globo. Será que toda essa gente está carregando diariamente o limbo de novas almas? Será que...
— Perdão, doutor. Entendi a mensagem, mesmo porque são questões que desde um certo tempo tenho colocado diante da minha consciência e para as quais não forneci todas as respostas. O senhor, você, desculpe-me, pode garantir-me que as noções religiosas básicas escritas nestes compêndios vão dar-me a oportunidade de compreender, como você falou, uma nova filosofia de vida?
— Com certeza, sim, desde que você medite bastante sem colocar obstáculos meramente emocionais, como se fosse perder tudo o que construiu na vida, porque haverá de realizar certa mudança de itinerário.
— Posso ser bastante sincero?
— Por favor!
— Eu não acho que exista outra verdade além das que Jesus expressou e que se contêm nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. Veja que não estou citando os textos sagrados dos pais da Igreja nem as bulas e encíclicas papais.
— Você acha que nós o traríamos para dentro de nossa casa e depositaríamos tanta confiança em sua inteligência e discernimento, sem tê-lo avaliado convenientemente, a ponto de lhe conferir previamente um cargo da mais alta responsabilidade? Acredite, meu amigo, você vencerá as próprias angústias e sairá desses livros um ser muito fiel a Jesus, como nunca foi antes, uma vez que as diretrizes do Mestre estão todas aí, todas absolutamente respeitadas, talvez com uma interpretação adequada a uma nova Igreja, que está mais para os primórdios do cristianismo do que para as concepções atuais do clero romano. Mas, conforme já lhe disse, estamos sempre dispostos a considerar todas as intuições e a ceder o nosso ponto de vista mediante uma argumentação cerrada e baseada na verdade dos fatos e nas conclusões da lógica mais rigorosa.
Adonias gostaria de prosseguir a perquirição, mas Adão fez-lhe um gesto indicativo de que estava na hora dos exames clínicos. A um sinal seu, os dois enfermeiros que estavam fora trouxeram um aparelho semelhante ao da tomografia computadorizada, mas de manejo mais rústico, tanto que se protegiam da radiação apenas com um avental mais grosso, como que recheado de chumbo ou outro tipo de metal. Ao acionarem o mecanismo, portavam na cabeça um capacete com visor, onde Adonias pôde perceber o reflexo de uma luz azulada durante o tempo de exposição de sua cabeça.
A resposta dos exames foi imediata e logo Adão colocou as chapas radiológicas contra a luz, para observar o resultado da investigação interna.
Adonias, por seu turno, estava preocupando-se com outro aspecto do exame e não receou atrapalhar o clínico, perguntando de afogadilho:
— Adão, você não acha que existe excessivo resguardo dos enfermeiros, quando eu mesmo me exponho diretamente aos raios emitidos por essa geringonça tecnológica?
— Desculpe-me, amigo. Foi falha minha. Eu deveria tê-lo advertido de que, ao mesmo tempo que os raios localizam e medem o tumor, efetuando o registro eletrônico dele, também mantêm um efeito propício ao processo de cura, uma vez que a concentração irradiada está perfeitamente amparada pelos resultados dos exames de ontem. Os enfermeiros se premunem, simplesmente, porque a descarga poderia afetá-los diversamente, causando prejuízos, uma vez que não necessitam do tratamento. Até simples aspirinas podem causar danos a organismos, por exemplo, afetados por certas...
— Já entendi. Peço-lhe que me desculpe. Então, eu lhe pergunto por que tantos cuidados em que eu vá compreendendo todas as ações relacionadas à minha moléstia. Não bastava o tratamento?
— Outra questão fundamental. No seu caso, é preciso muito cuidado com o fator neurológico dispersivo, ou seja, a medicação tem de atingir os centros do cérebro de preferência em momentos de expansão dos neurônios, para a euforia que anteriormente mencionei. Sendo assim, a sua colaboração é imprescindível, desde que você não nos vê, a nós da Igreja Cristã da Misericórdia Divina, como autoridades indiscutíveis. Imagine que você estivesse perante o próprio Mestre. Não é verdade que se entregaria a ele integralmente, de corpo e alma, porque saberia que a cura seria certa? Nós também almejamos declarar-lhe que foi a sua fé que o salvou. Mas é preciso, antes, que você tenha fé.
Agora Adonias resolveu calar-se. Avaliou que Adão não deixava jamais a peteca cair enquanto ele mesmo tinha necessidade de respirar um pouco para readquirir as condições ideais da absorção de novos conhecimentos.
Foi só um momento de reflexão, mas, quando volveu à consciência, viu que estava só no quarto, deitado ainda na cama, para onde o haviam levado ao abandonar o aparelho.
Lembrou-se da recomendação de só estudar após apoiar a mente na religião e, de imediato, concentrou o pensamento na Virgem, rogando-lhe que mediasse o seu pedido junto ao filho querido, para que sarasse o mais depressa possível, que tivesse tempo e disposição para empenhar-se no trabalho que lhe prometiam.
Foram alguns minutos só mas Adonias constatou que aguçara as sensações, porque a visão estava a revelar-lhe as ondulações mínimas da pintura da parede em frente. Sentia também o odor da lavanda a ponto de enjoar-se. Prestou atenção nos sons que lhe chegavam pela porta e distinguiu claramente alguns gemidos e alguns pedidos de socorro e de clemência. Impressionou-se a ponto de pôr a cara no corredor para sondar de onde poderiam estar vindo aquelas vozes misteriosas. Foi quando enxergou o fundo do corredor, divisando uma enfermeira sentada atrás de u’a mesa, junto à parede. Contou quantas portas havia, tendo distinguido nitidamente quinze portas, alternando-se de cada lado do corredor.
Pareceu-lhe que as vozes se atenuavam, mas sentia-as agora com menor agitação, porque a calma da enfermeira inspirou-lhe a confiança em que tudo deveria estar sob controle. Foi quando descobriu na memória a voz juvenil de seu cicerone, apontando, andar a andar, as alas do hospital. Era da ala psiquiátrica que, evidentemente, deveriam estar vindo as lamentações.
Entrou, sentou-se junto à mesa e apanhou o primeiro livro da coleção. Antes de abri-lo, reforçou o pedido de luz e discernimento, orando três ave-marias e um padre-nosso.
Desta feita, as letras se ordenaram às maravilhas e ele pôde, rapidamente, passar pelo título e pela introdução, absorvendo as recomendações iniciais que, mais ou menos, reproduziam as palavras de Adão a respeito da necessidade de uma atitude intelectual isenta de preconceitos.
“Tudo está me parecendo bem coerente, desde este título simplicíssimo de A Unidade da Criação. Se for o que estou pensando, vou reler o Gênesis de Moisés.”
Aí começou o primeiro capítulo: Deus. Sorriu contente porque percebera o intento dos autores de colocarem o leitor, desde logo, perante o Criador. Mas a primeira questão e respectiva resposta, esfriaram-lhe o ânimo. Parecia-lhe estar diante de um texto conhecido e que um dia havia rejeitado.
Rapidamente foi lendo, sem meditar no assunto, apenas curioso pela similitude da composição sabida até de cor, porque era capaz de reproduzir previamente as perguntas e respostas que compunham o corpo da obra.
“Isto aqui é a mais deslavada cópia de um livro antigo de Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, com uma diferença: não contém as observações do autor, conforme consigo ler na memória.”
De repente, o pensamento falhou, a vista descaiu em luminosidade e Adonias perdeu a capacidade de absorver com tamanha voracidade o texto. Notou, então, que as suas habilidades sensórias haviam diminuído completamente, a ponto de se sentir alheio à realidade, mal conseguindo chegar ao leito e apertar o botão que chamava Alice.
Quem chegou, porém, quase em seguida ao seu chamado, foi Adão, trazendo consigo os dois enfermeiros, mais Alice e até o ajudante-de-ordens mirim. Foi quando Adonias desmaiou.
Ao acordar, sem noção de quanto tempo decorrera, sentiu que o ambiente estava mergulhado em trevas. Sua primeira lembrança foi a de que não havia feito senão uma ligeira refeição matinal. Demorou um pouco na avaliação de sua fome, percebendo que comeria algo, talvez mais tangido psicológica do que fisicamente, porque não se afligia. Talvez tomasse um bom copo d’água, como aquele que Homero lhe havia oferecido no açougue.
“Que tolo que estou sendo! Se é tão fácil de superar todos os meus entraves mentais, concentrando-me no Salvador!”
Sem titubear, recitou um padre-nosso, vindo-lhe à memória os terços que repetira durante tantos anos junto ao altar, puxando o coro dos fiéis, nas rezas do começo da noite. Não teve a sensação de haver restaurado o poder aguçado dos sentidos, mas se sentiu transportado para aquela igreja onde exercera o começo de seu sacerdócio. Na sua frente, delineava-se por inteiro, como numa grande tela de projeção tridimensional, todo o aparato teatral da composição, não faltando os nichos, as imagens dos santos, os castiçais, cujas velas estavam acesas, e até as flores colhidas no dia pela mulher do...
Fez um esforço inaudito para se recordar do nome do seu mais direto auxiliar leigo, mas apresentou-se uma dificuldade inesperada. Nem como daria o nome à tarefa do capelão lhe veio à consciência.
“Devo ter feito algo errado para não ter conseguido concentrar os meus recursos neurológicos...”
A palavra lhe soou como sem sentido algum, vazia e inexpressiva. Vagamente a palavra neurônio deu o ar da graça e logo desapareceu, submersa num mar crescente de preocupações com seu estado de depauperação orgânica. Era como se estivesse tendo uma recaída completa. Dessa feita, não teve tempo de acionar o botão da pêra do alarme mas não perdeu os sentidos. Como se estivesse lúcido para enxergar mas desativado para qualquer ação, pior do que tetraplégico, observou que Adão chegava apressado, antes mesmo dos auxiliares paramédicos, buscando aplicar-lhe sobre o peito uma série de fortes apertões, evidentemente com o fito de restabelecer as batidas cardíacas.
Alguns segundos e entrava toda uma equipe:
— Doutor, o desfibrilador.
Adão colocou o estetoscópio no pescoço de Adonias e se manifestou, aliviado:
— Não tenham pressa. Acho que o problema do coração está superado. Estou escutando na carótida um leve fluxo sangüíneo. Vamos fazer o teste da respiração.
Imediatamente, apertou as asas das narinas do paciente, bloqueando a passagem de ar. Foram dois minutos de angustiante espera, até que Adonias abriu a boca, sorvendo o ar de maneira muito sutil.
Adão explicou aos demais:
— Ele está em estado de choque, com as atividades em suspensão quase total. Se nós medirmos as funções cerebrais, vamos ver que o tumor está obstando o livre trânsito dos neurônios responsáveis pelo sistema parassimpático, inibindo o funcionamento normal do organismo. Tenho certeza de que ele está nos vendo, talvez com muita dificuldade e nos ouvindo, sem poder ainda dar uma resposta positiva. Então, será bom dizer-lhe que medite a respeito do que possa tê-lo levado a uma situação tão precária. Pelo que posso imaginar, deve ter havido algum processo de refluxo eletromagnético dos centros da fé, como se tivessem sido desativados, por causa da descoberta de algo muito ruim para o equilíbrio mental que o sustentava em pleno domínio de si mesmo.
Só aí Adão pôde descansar da canseira da correria, sentando-se na única cadeira existente, vendo-se diante do livro aberto nas fatídicas páginas que provocaram o problema de Adonias.
— O meu amigo deve ter achado algo que o contrariou em algum ponto fundamental de suas crenças religiosas. Vejam aqui que as questões onde ele parou estão relacionadas à existência de Deus, dos espíritos, do princípio vital. Se tiver sido isto, é importante que ele pense bastante, revolvendo todas as noções que lhe estão nos arquivos mnemônicos.
Realmente, Adonias havia acompanhado tudo mal e mal, mas recebendo todas as informações como que provindas do fundo de uma caverna, tão deficitário estava o seu sentido auditivo.
Então, passou a meditar conforme o conselho do médico:
“É certo que o hospital está dotado de bons profissionais. Em outras mãos, talvez meu corpo estivesse sendo encaminhado para o necrotério. Essa de me tapar o nariz foi genial. Se conseguir acordar, tenho de dar-lhes os parabéns e agradecer-lhe por me haver salvo a vida. Se tiver de me encontrar com São Pedro, para que faça uso de sua balança das ações boas e más, irei solicitar-lhe que dê vida longa ao meu amigo Adão, para que empregue os seus conhecimentos na cura e salvação de muitas pessoas. E olha que ele cuida primacialmente do restauro dos defeitos faciais...”
Adonias ainda iria ficar nessa lengalenga durante um bom tempo, até se decidir a enfrentar o texto de Kardec que lhe aparecia íntegro na memória, texto que havia lido em tempos de seminarista como forma de se preparar para os argumentos dos espíritas, caso tivesse de discutir com alguém no confessionário ou se apresentasse alguma oportunidade pública de confronto religioso. Lembrou-se, então, de que o professor de teologia havia introduzido o livro, prenunciando uma sutileza difícil de ser percebida de imediato, mas que iria transparecer aos poucos, até se configurar uma insidiosa e pertinaz presença materialista na tese que, segundo ele, defeituosamente recebera o nome de espiritismo, palavra que mandava grifar porque absolutamente desnecessária à vista da existência do termo Espiritualismo, que o professor mandava escrever com maiúscula inicial.
“A minha reação mental com seqüelas físicas não posso compreender, porque, no fundo, bem que eu fiquei em dúvida com relação a ser o espiritismo verdadeiramente materialista, muito embora Kardec falasse que o corpo espiritual, como lemos em Paulo, era semimaterial, insistindo em dizer que os espíritos não definiam o que eram eles mesmos, caso se desvestissem daquele corpo intermediário, cujo nome, dado por eles, era perispírito. Mas eu não vejo como um conhecimento antigo possa, de repente, aflorar e causar um transtorno tão grande. Evidentemente, algum componente emocional desta hora foi que desencadeou a minha reação de desconfiança de que estava ao desamparo das forças angelicais.”
Nesse meio tempo, chegava um aparelho cheio de luzes pisca-piscantes e de números acesos, vermelhos e verdes.
Adão:
— Vamos instalar os eletrodos em vários pontos do crânio, para saber onde se concentra a atividade cerebral. Eu gostaria que avisassem o Doutor Anésio. Preciso de um especialista para me ajudar a interpretar os dados.
Enquanto se tomavam as providências requeridas, Adonias continuava:
“Acho que está ficando claro para mim que esta formulação mental, conforme venho reparando desde algum tempo, difere extraordinariamente dos meus tempos de sacerdote ordenado e respeitado. Naquele tempo, eu não conversava comigo mesmo. Se bem me lembro, as idéias ocorriam diretamente. Agora elas aparecem sob a forma de fala preparada para um diálogo, como se o tempo todo eu esteja esperando que alguém me responda. Mas não é sempre que acontece. Somente quando tenho de me decidir a respeito de algo importante. Em casa, automaticamente, tomava minhas refeições, sem conversar com a comida. No entanto, era ler uma linha e já entrar em considerações lingüisticamente estruturadas, onerando sobremaneira a velocidade das idéias, buscando, como agora, dar uma seqüência ao pensamento de forma lógica e racional. Se eu contrapuser esta maneira de pensar, de refletir, de meditar, como me pediu Adão, ao momento em que me tomei de pânico por me achar perante um texto adulterado de outra espécie de filosofia, sem conteúdo religioso...”
Foi nesse ponto que se recordou de que havia outros dez livros, onde, com toda a certeza, os primeiros tópicos mereceriam melhores desenvolvimentos.
“Creio que me precipitei emocionalmente. Se começar a sentir os fatos da vida moral tão intensamente, então podem me encomendar o caixão.”
Esse me encomendar desencadeou outra série de considerações paralelas, como se Adonias estivesse assustando-se deveras com o fato de se haver angustiado com a possibilidade de estar no seio de uma instituição de fundo materialista, onde a religião entraria como lenitivo ou paliativo para a cura, fé materializada de fato na concentração neuronial em certos lóbulos cerebrais. Se Adão havia dito que Jesus se utilizara desse recurso...
Chegando a Jesus, lembrou-se das preces que não haviam tido sucesso e foi capaz de distinguir o quanto de artificiosos eram os sentimentos religiosos do tempo das repetições enfadonhas da obrigação eclesiástica.
“Parece até que minha consciência sabe acusar-me por dentro, sem que eu mesmo perceba o bulício íntimo causado por uma atitude rigorosamente falsa perante as verdades que assumo desde sempre, diante do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”
Perpassou-lhe de relance pelas fímbrias da memória que o espiritismo de Kardec não aprovaria essa Santíssima Trindade, mas fechou as portas a novo desfalecimento, porque percebeu que o despertar para a falha que cometera em relação a querer imprimir um ritmo sem valor às preces lhe havia propiciado um alento novo, atmosfera haurida com mais força, oxigênio a regar mais intensamente o cérebro, movimento mais rápido da química através dos reagentes orgânicos que lhe davam, de novo, a habilidade de entrar em contato sensório com a realidade.
Para os circunstantes, Adonias simplesmente voltou do desmaio. Ouviram-se comentários de alegre reconhecimento do valor terapêutico das providências gerenciadas por Adão. Mas logo o quarto se viu ocupado apenas por dois médicos, por Alice e pelo paciente.
Antes que Adão tomasse qualquer iniciativa, Adonias, com uma vozinha sumida, conseguiu dizer:
— Muito prazer, Doutor Anésio. Seja bem-vindo ao quarto deste ressurrecto.
Estava dito tudo. Os médicos e a enfermeira souberam compreender que Adonias havia recebido todos os recados e que entendera o método de reaver os sentidos.
Mas Anésio não queria ter vindo inutilmente, por isso, após cumprimentar o sacerdote, fez questão de conluiar com Adão a respeito dos dados dos exames da caixa craniana e matéria encefálica correspondente.
Enquanto Alice providenciava alguns exames complementares, medindo a pressão, examinando a temperatura, retirando sangue do braço e da ponta de um dedo do paciente, os médicos se puseram de costas para o leito e conversaram baixinho. No entanto, Adonias era capaz de ouvir as mínimos sibilos da voz ciciada do novo facultativo presente. Não quis, entretanto, deixá-los alheios ao fato e, buscando as energias que lhe restavam, falou com voz pausada e rouca, mas audível e agradável:
— Doutores, por favor, se houver algum segredo que não possam revelar-me, procurem outro lugar, porque estou ouvindo perfeitamente o que os dois estão confabulando.
Os três sorriram felizes com a notícia da acuidade sensória e Adão logo dispensou Anésio, prometendo para a próxima hora ir ter com ele para conversarem. Enquanto isso, Alice ministrava os remédios acompanhados de sucos de várias frutas, asseverando que, conforme os resultados dos testes clínicos, o padre iria comer uma refeição mais substanciosa. Dito isto, saiu, deixando Adão e Adonias tête-à-tête.
Foi Adão quem iniciou o diálogo:
— Queira dizer-me, amigo, se foi, realmente, esta leitura que o perturbou.
— Sem dúvida. E digo mais, se não fosse a sua orientação quanto à necessidade de eu ceder às emoções descabidas (eu já explico o descabidas), talvez eu estivesse descendo para o morgue.
— Morgue quer dizer necrotério. Isso eu sei. O que você não sabe é que o nosso necrotério não está embaixo, mas cinco andares acima. Quer dizer que, se você tivesse morrido, estaria subindo, com certeza na direção do céu. Mas o que foi que o perturbou tanto?
— Eu descobri que vocês copiaram um livro conhecido em boa parte do mundo...
— Você se refere a Kardec?
— O Livro dos Espíritos, sim senhor.
— Há uma nota na introdução que, por certo, você não leu.
Adonias, se não estivesse tão exaurido, teria corado até à raiz dos cabelos. Mas se controlou e disse, como adendo:
— Eu não estava preocupado em ler; estava, sim, em dar uma passada d’olhos para me inteirar dos assuntos, pela rama. Deixei-me envolver por suspeitas tremendas e descabidas oriundas dos tempos de seminarista e caí. Acho que a experiência me valeu. Quer dizer, então, que as teses são espíritas?
— As teses começam sendo espíritas, até um ponto em que somos obrigados a concentrar a atenção nos interesses da clientela a que servimos. O enfoque inicial dá relevo aos aspectos mais comezinhos da caracterização da existência que temos possibilidade de investigar. Como temos comprovações que nos dão a certeza de que o plano mais elevado, lá onde se encontram os anjos ou espíritos superiores, consegue comunicar-se conosco, seguimos a sua orientação desde o princípio das noções mais elementares, sem fixar, entretanto, definitivamente, os conceitos. Os textos que nos pareceram mais eficazes para introduzir os leitores no mundo das idéias filosóficas comprometidas com certa linha religiosa do cristianismo foi aquele. Mas isso não quer significar que, neste nosso prédio, não existam capelas e salas para todos os cultos, segundo o pendor religioso das pessoas, pois o que nos interessa, de fato, é vê-las felizes e saudáveis, prontas para enfrentar o mundo lá de fora, com o desejo, digo mais, com a convicção de que saem daqui munidas dos ensinamentos básicos de Jesus, preparadas, portanto, para a prática do bem em escala bem maior do que quando para aqui vieram. Imagine, você, meu bom padre e amigo, saindo para as suas pregações de modo ainda mais efetivo, quantas almas não irá cativar para o evangelho!
Adonias, ou porque estivesse verdadeiramente fraco, ou porque estava acostumando-se com a idéia de não precipitar respostas e refutações, buscava no discurso do outro o ponto essencial de suas naturais reflexões, para não abrir em leque a exposição. Concentrou-se, portanto, em algo que julgou de interesse transcendental, sorrindo intimamente para o jogo sutil dos pensamentos:
— Podemos derivar o nosso tema para o que o amigo chamou de comunicação entre os planos?
— Perfeitamente.
— Quer dizer que a Igreja Cristã da Misericórdia Divina concebe a existência da mediunidade, ou seja, o contato entre os vivos com as almas dos mortos?
— Podemos discutir sobre isso. Mas agora, não, simplesmente porque a sua leitura está atrasada, muito embora você tenha deixado claro que conhece os textos de cor. Entretanto, como há de saber de antemão que não existem diferenças? Desculpe-me, mas estou prevendo que a sua leitura e a sua recuperação, superada esta última crise, irão acontecer muito rapidamente. Você não está notando que os remédios estão fazendo efeito? Pois eu lhe adianto que o resultado do eletroencefalograma foi muito positivo no sentido de demonstrar a quase regularidade completa do funcionamento de seu cérebro. Amanhã faremos uma radiografia e, se necessário, uma exploração tomográfica para delimitar a extensão do tumor. Fique com Deus!
— Deus o abençoe, meu benfeitor!
A frase de Adonias alcançou Adão já avançando pelo corredor.



12. OS ESTUDOS

“Vamos ver se venço estes meus ranços preconceituosos. A bem da verdade, a minha atual estrutura religiosa vem sendo disposta de molde a facilitar o acesso a todo o modo de pensar a vida, o mundo, o universo, a existência, para dar agasalho natural a todas as criaturas, distinguindo-as entre si pela maior, menor ou nenhuma responsabilidade sobre os efeitos deletérios das leis, e das organizações alheias às leis, exercidos sobre a felicidade material e moral de cada um. Que importância tem o credo pessoal para quem está praticando o bem? E que importância terá para quem bate no peito, como tantos que conheci e conheço ainda, e que, fora do ambiente sacratíssimo do templo, prosseguem, sem nenhuma reforma íntima, a perpetrar os atos contrários às determinações lúcidas de Jesus? Que digo eu? Essa gente não é capaz sequer de cumprir as leis do judaísmo mais ortodoxo, mosaico, levítico e farisaico, aquele que determina o cumprimento das leis de Deus dentro dos muros...”
Tendo percebido que encaminhava os pensamentos perigosamente para a crítica mais acerba aos pecadores, tendendo a julgar todo um povo enfeixado numa única condição de pensamento e de vida, resolveu Adonias que era melhor começar os estudos antes que os seus sentidos começassem a definhar de novo.
Abriu o primeiro volume e foi direto à introdução, para ver se descobria a misteriosa nota esclarecedora. De fato, encontrou uma chamada na palavra final do texto que remetia ao rodapé. Ali se consignava o fato de estarem aproveitadas as perguntas e respostas do livro de Kardec, cujos comentários, explicava-se, foram supressos por razões que se compreenderiam quando da leitura do segundo tomo da coleção. No entanto, ressalvava-se que todos os textos pertencentes ao intelecto do Professor Rivail (ficava claro que Allan Kardec era pseudônimo dele), se encontravam reunidos no final do volume, para satisfação da curiosidade de quem quisesse saber quais houveram sido as preocupações do estudioso mestre francês relativamente a orientar seus leitores para a melhor compreensão possível das respostas dos espíritos.
Foi assim que se viu Adonias absolutamente íntegro perante a lisura e a honestidade daquela obra.
“Será que a precipitação de ontem...”
Só então atinou que estava absolutamente perdido no tempo.
“Em todo caso, Alice me prometeu uma boa refeição. Vamos ver quando virá, muito embora não esteja nem um pouco com fome.”
Recordou-se da primeira questão e confirmou no livro. Lá também se consignava a célebre pergunta: Que é Deus? A memória lhe demonstrou que a resposta coincidia perfeitamente com o que tinha diante dos olhos.
“Preciso afeiçoar-me à resposta atribuída aos espíritos ou posso manter a minha idéia de que Deus é um espírito perfeitíssimo etc.? Que diferença existe entre inteligência, como leio aqui, e a idéia contida na teologia católica?”
Aí lhe ocorreu que estava diante de conceitos.
“Tanto quanto sei, os conceitos se vinculam à inteligência que os concebe. Se foram gênios humanos que disseram espírito perfeitíssimo, se foram gênios espirituais que disseram inteligência suprema, que posso eu colocar como adendo significativo ao inteiro teor do texto? Quem sabe alguém poderia levantar a hipótese de que a palavra espírito remeta a um sentido mais de criatura do que de criador. Mas quem me diz que o termo inteligência não está prenhe das conotações mais entusiásticas pelo desempenho intelectual do homem, um artifício sutil para atribuir à Divindade uma qualidade da criatura? Acho que tenho de suspender as minhas considerações unilaterais, porque temo que não irei progredir muito em relação às idéias que me ocorrem e que não se deixam estruturar num sistema filosófico muito coerente, principalmente porque tantas foram as vezes que repeti a definição dogmática da religião que o simples enunciado de uma possível modificação me assusta. Por outro lado, sinto que o meu cérebro está abrindo-se deveras para um entendimento mais universal, como se a igreja onde me formei e para a qual trabalhei estivesse limitando-me o campo de visão. Não estou intuindo nada no sentido de atribuir ao sistema de Kardec uma performance mais universal ou mais abrangente, no entanto, só o fato de estar predispondo-me ao exame das noções filosóficas, sem o peso da consciência religiosa, já é um passo adiante na contenção que devo exercer dos eflúvios meramente emotivos, aqueles que me fizeram desandar. Ao contrário, sinto o meu poder mental em pleno desenvolvimento, como se me fizesse bem estar a considerar a pujança das concepções alheias em confronto direto com a pequenez de minha visão individual.”
Tão contente ficou o padre com o fato de estar dominando as suas reações que resolveu rezar uma velha e amada oração, buscando estar atento a todos os termos, para ver como repercutiam face à nova disposição mental:
“Creio em Deus-pai, todo-poderoso, criador do céu e da terra...”
Sem querer, obstou o desenvolvimento da prece e se concentrou na primeira palavra.
“Eis que se apresenta, de cara, a condição da fé. Como enfrentar esse conceito sem envolvimento emocional?”
Por mais que revirasse a memória para encontrar resposta adequada aos anseios hodiernos, Adonias não atinou com a explicação que lhe daria total domínio da idéia. Mas não se deixou deprimir. Sobre a mesa havia um caderno e uma caneta de ponta de cerâmica que deixava uma linha fina e cintilante de tinta azul.
Rapidamente escreveu a pergunta que não alcançara responder, refletindo que, se Adão fugisse das perguntas como fizera antes, iria consignar um questionário valioso para responder oportunamente, quando da leitura dos próximos volumes.
Foi quando Alice apareceu com uma bandeja fumegante:
— Eis aqui, reverendo, a sua prometida refeição. Ao invés de perguntarmos aos pacientes do que é que eles mais gostam, nós fornecemos uma variedade muito grande, com a obrigação de preenchimento de um questionário em que solicitamos uma nota de zero a dez para cada prato. Em noventa e cinco por cento das vezes, as próximas refeições correspondem exatamente ao paladar da pessoa. Vamos comer?
— Eu estive pensando que não estava com muita fome. No entanto, como estou com o paladar aguçado, vamos à degustação e às notas, o que não deve ser tão difícil assim...
Realmente, havia mais de cinqüenta pequeníssimas porções. Adonias considerou a batalha que tinha pela frente e resolveu fazer uma seleção prévia dos acepipes.
— Posso começar pela salada?
— Perfeitamente.
— Eu costumava plantar agrião no terreno encharcado do fundo do convento. Não era com o fito de agradar os outros nem de atender às ordens do meu superior: era porque eu gostava de verdade. Nos últimos tempos, venho comendo o que me oferecem, quase sempre uma fruta ou um prato feito. Faz tempo que não experimento esta crucífera. Marque aí: nota dez.
No vigésimo quinto bocado, Adonias pediu clemência pelo fato de estar desistindo:
— Acho que vinte e duas notas dez e três notas nove são suficientes para caracterizar as minhas preferências. Estou certo?
— Pela minha experiência, são poucos os que são capazes de acertar os pratos prediletos sem degustarem, pelo menos, quarenta ou cinqüenta. O senhor está entre os de melhor performance. Contudo, quanto ao teor nutricional de suas opções, opinará nosso orientador especializado, porque nós temos aqui um engenheiro de alimentos, sim, senhor! Agora vamos tomar o nosso remediozinho para ajudar na digestão, sabendo que dará um pouco de sono.
Não demorou dez minutos e Adonias dormia tranqüilamente.
Acordou novamente no escuro. Desta feita, porém, não se levantou. Limitou-se a rememorar tudo por que passara desde que saíra careca da casa dos pais. Era uma viagem curta, de sorte que rapidamente pôs perante a visão da mente, como em painel cheio de claros e escuros, cada minutinho dos últimos dias. Em pouco tempo, estava diante do último bocado que agüentou, ditando a nota para Alice.
Então, se ergueu do leito e fez um esforço supremo para não tentar acender as luzes. Contentou-se em ir ao banheiro munido do primeiro volume da série, onde mal conseguia divisar as linhas e buscou realizar um exercício especial de memória, havendo solicitado, para o intento inabitual, a ajuda de seu anjo da guarda: queria relembrar todos os dizeres do livro, sendo capaz de suprimir os comentários do autor, para ver se chegava a um resultado parecido, numa tentativa de descobrir os segredos das informações ali constantes.
De fato, a realização mental ultrapassava com muita folga o desempenho material da leitura, apesar de sua acuidade visual estar denotando que enxergava agora melhor naquela semi-obscuridade do que há poucos dias em plena luz do sol.
Mas não quis Adonias decifrar o mistério. Pôs tudo na conta de sua serenidade, agradeceu em breve oração os desvelos de que se via apaniguado e seguiu em frente, não suspendendo o exercício desafiador senão quando chegou à derradeira resposta dos espíritos, a de número mil e dezenove, relativa à pergunta: O reino do bem terá algum dia como situar-se neste planeta?
Só aí percebeu que ficara entretido com sua tarefa hercúlea de memória, sem prestar atenção ao teor dos textos.
“Não tem nenhuma importância que não haja discutido comigo mesmo, muito menos com o falecido autor, melhor dizendo, com os falecidos autores, já que, hoje em dia, nenhum desses que lidaram com esta obra se contam entre os vivos, porque agora posso dizer a Adão que não encontrei nenhuma diferença entre um e outro texto, o impresso e o de minha memória, a não ser alguns deslizes quanto às traduções, evidentemente...”
Surpreendeu-se a comentar um tema completamente alheio à verdade inserida na obra, estendendo-se suas recordações para a época da leitura original, quando se debruçara sobre o texto em francês, diretamente. Percebeu que sua mente fizera uma versão própria para a comparação que efetivou e que os defeitos de tradução estavam encerrados em sua mente.
“Sei muito bem o que está acontecendo. Naquele tempo, eu confrontei a minha leitura com uma versão em português, para fixar melhor os dizeres, de sorte que me deixei impregnar pelos defeitos do segundo texto. Como era mesmo essa pergunta no original? Le règne du bien pourra-t-il jamais avoir lieu sur la terre? Talvez tivesse sido melhor que o lugar fosse o sujeito da ação: A Terra, algum dia, conseguirá constituir-se no reino do bem?”
Não se espantou com a prontidão da língua estrangeira, no entanto, por mais que se esforçasse, não conseguia enxergar, ao lado do livro em francês, nenhum outro em português. No entanto, via-se a si mesmo com perfeição em seu minúsculo apartamento no seminário, absorto em decifrar os dizeres estrangeiros.
“Devo estar tendo algum tipo de bloqueio, porque deixei que avultasse o problema em meu cérebro. Eis que os cuidados que devo ter devem ser redobrados, porque, por muito pouco, já me vejo derivando neste mar encapelado de meus desígnios de perfeição.”
Antes que se desdobrasse a última observação, análise sobre análise, resolveu que era melhor assinalar no caderno a pergunta que se lembrara de fazer ao médico. Foi, portanto, até a mesa, acendeu a luz (surpresa: ela deveras se acendeu), iluminando o recinto de maneira indireta, porque os focos estavam escondidos em escaninhos ao longo de todas as paredes, dando a impressão de serem lâmpadas fluorescentes.
Perdia-se Adonias nas observações dos recursos de designer do arquiteto mas sem perder de vista o objetivo de assinalar a questão no caderno, onde, por fim, escreveu:
“Por que não consigo lembrar-me da época da leitura de um texto que apareceu em minha memória, sendo que dele eu me lembro perfeitamente?”
Não largou a caneta e escreveu em seguida:
“Qual a razão de você, doutor, me dizer que poderiam existir alterações nas transcrições do livro de Kardec, quando, na verdade, não achei nenhuma?”
Ainda uma vez, escreveu:
“Se trago todo o livro guardado na memória, por que devo preocupar-me em levantar problemas agora e não deixar para a oportunidade da aplicação prática e imediata de suas soluções? Melhor dizendo: a teoria, tida apenas na qualidade de estudo, ainda que desenvolva interesses intelectuais de monta, não estaria obstando a prática da caridade? Ainda melhor: não encontraríamos todos nós as respostas que lemos nestes livros, sem precisar efetuar as perguntas, só pelo fato de vivenciarmos as situações na realidade? Ou será que, para a pregação da superior moral do Cristo, não basta dar o exemplo de uma postura irrepreensível perante as tentações mundanas?”
Foi só então que percebeu que as perguntas caíam como cascata de dúvidas sobre a impávida folha, que se coloria de azul, pela letra magnífica de alguém que se dedicara um dia à cópia de longos textos, em função de aprender caligrafia, porque achava que era muito importante legar à posteridade, além de divulgar comercialmente, as maravilhosas páginas evangélicas e outras que o mestre do escritório determinava a ele e aos companheiros que escrevessem.
Todas essas recordações finais, provocadas pela admiração diante do próprio exercício caligráfico, não tiveram seqüência, porque se deu um instante antes de se acenderem as luzes dos corredores e o ar impregnar-se de suave melodia que bem podia ser de Bach, não fora uma linha melódica mais bem marcada no sentido do ritmo. Mas Adonias não teve tempo de criticar as adulterações, porque Alice chegava com a disposição habitual para a colheita dos elementos necessários para os exames clínicos.
— Bom dia, caro madrugador! Dormiu bem?
— Devo ter dormido um bocado, porque caí de sono em pleno dia. Só tinha de acordar cedo. Aliás, bom dia, minha querida protetora angelical! Deus a abençoe e a toda a sua família!
Adonias não se conteve e fez o gesto proibido, levando a mão direita a descrever no espaço o sinal da cruz.
Alice se persignou discretamente e se ajoelhou, no que foi imediatamente erguida por Adonias. Era como se ele houvesse recuperado a lucidez dos tempos de pregação na praia. Era como que a confirmação de que deveria respeitar a exoneração que sofrera da parte da Igreja.
Alice chorava em silêncio e as suas lágrimas colocavam em suas faces dois filetes de luz.
Adonias atribuiu toda aquela emoção à alma feminina, pelas doces recordações de tempos mais felizes, talvez mesmo no amplexo amoroso de algum ser que se perdeu nas brumas do passado. Mas teve medo, ele mesmo, de se deixar arrastar por algum tipo de sentimentalismo que viesse a arruinar de novo o equilíbrio precário de sua mente.
— Minha filha, disse ele, coragem! Sinta o poder de Deus e tenha fé em que os anseios de felicidade de toda a gente que trabalha por amor ao próximo, como você vem fazendo, merecem a recompensa sublime do reconhecimento de Jesus.
E mais não disse, percebendo que estremecia.
Então, sentou-se à beira da cama e deu a mão a picar e a veia a perfurar. Tomou os remédios diluídos nos sucos e estendeu-se no leito para nova análise eletrônica do coração e do cérebro por meio dos fios presos no aparelho que toda vez entrava e saía.
Quedou em silêncio, buscando caracterizar os sons e odores ambientes, num teste que estava fixando-se como permanente em seus hábitos de escoteiro sempre alerta. O exame íntimo pareceu-lhe ótimo pelo resultado surpreendente quanto ao domínio que começava a exercer sobre as sensações que vinham de longe ou que pairavam no ar ao derredor, porque estava tendo o ensejo de, numa espécie de triagem, dar atenção exclusiva a determinadas vozes longínquas, decifrando o código lingüístico que lhe chegava mesclado com outras vibrações sonoras, conseguindo entender o que se dizia. O mesmo com os odores, que selecionava a ponto de se agradar com os mais amenos, sabendo de onde partiam, separando, para não sentir, os que lhe eram desagradáveis.
Ao mesmo tempo, os pensamentos se desfechavam num entrecruzar-se de informações rapidíssimas, mas tão complexas quanto objetivas, no sentido de se perceber de posse de todas as intuições, sem definir as idéias, contrariando a observação da outra hora de que os pensamentos se formulavam como que em discurso a ser pronunciado de público.
Notou, olhando ao derredor, que haviam entrado, em silêncio, vários médicos, a ouvir as explicações técnicas a respeito do paciente pelo Doutor Anésio, concluindo que se tratava de residentes ou de alunos de algum hospital-escola. Não revelou interesse pelo teor da lição e se deixou ficar quieto até que lhe dirigissem a palavra.
De onde estava, com o rabinho dos olhos, porque evitava mexer com a cabeça, viu Adão a folhear o seu caderno de anotações. Ficou feliz, porque evitavam, assim, as formalidades e as informações circunstanciais.
Foi Anésio quem, rapidamente, examinou os resultados dos testes e declarou, enfático:
— Tenho a certeza de que o tumor foi extinto, definitivamente. Caso se queira levar o nosso Adonias ao tomógrafo, será bom para confirmar a cura. Estamos todos de parabéns, especialmente o paciente, porque soube acatar com muita inteligência e sabedoria as recomendações clínicas. Se todos os enfermos fossem capazes dessa mesma disciplina intelectual, por certo o nosso trabalho ficaria imensamente facilitado.
Antes de sair levando atrás de si o povo todo, Alice inclusive, ficando apenas Adão, fez questão de dar um caloroso abraço no padre, que se havia sentado no leito para se libertar dos fios.
— Agora, bom amigo, trate de fazer a barba, porque você vai ser despejado e deve se apresentar mais bonito ao responsável pelo setor onde irá exercer suas atribuições, sejam quais forem.
Não houve tempo para que Adonias sequer agradecesse, limitando-se a orar em silêncio e contritamente pela saúde e pela salvação daquelas generosas almas.
Adão deve ter percebido a concentração religiosa facilmente identificável, porque Adonias fechara os olhos e cruzara os braços diante do peito, aguardando até que lhe desse atenção.
Adonias entreteve-se tanto com a prece, alheando-se do momento, que, quando abriu os olhos, lhe pareceu que havia transcorrido um século, já que, principalmente, se dissiparam todas as sensações de seu aparato de relação material, como se estivesse num outro plano de realidade, numa espécie de campo energético protegido das influências externas, dentro do qual se situava apenas Adão, dentro dos limites impostos pelas paredes do cômodo.
O médico, então, ousou perturbá-lo:
— Parabéns, querido irmão! Você venceu a moléstia!
Aquela voz retumbava nos ouvidos de Adonias como provinda de dentro de um grosso tubo, desses que servem para canalizar as águas pluviais.
— Adão, perguntou de chofre, que está acontecendo comigo que pareço flutuar, sem, contudo, sentir nenhum receio, a não ser uma espécie de expectativa pelo fato de termos de conversar a respeito das questões que você leu nesse caderno?
— Há dois ou três anos atrás, eu não saberia definir o que ocorre. Agora posso dizer-lhe que o seu cérebro está concentrando algumas substâncias mais ou menos alucinatórias, um tipo de ácido lisérgico de efeito apenas benéfico, porque induzido e produzido por seu próprio organismo, uma forma de prêmio natural que o seu organismo lhe propicia como reação involuntária de sua vontade, mas cujo registro se encontra nos escaninhos mais sutis de sua estrutura primária. É um avanço considerável que apenas os sábios mais preeminentes tem conseguido. Eu mesmo só alcancei obter esse dom uma vez e, assim mesmo, por benemerência de nosso administrador geral, que gerenciou a síntese desse fluido e que me deu a experimentar para efeito de conhecer, para auxiliar a minha conduta médica. Se você saísse do prédio ou fosse até a praia, iria obter impressões totalmente novas do ambiente, como se captasse certas emanações invisíveis para o comum dos mortais.
— Sabe que já tive uma espécie de reação desse tipo quando vinha vindo para cá?! Eu senti as cores se desvanecerem, como a criar uma vida totalmente diferente; os próprios prédios adquiriam certa transparência mais ou menos opaca, como se projetassem as suas formas na minha direção, de modo que eu via através dessas imagens, sem ultrapassar as paredes propriamente ditas. Eu me assustei um pouco. Agora você me tranqüiliza. Mas nós precisamos conversar a respeito para que eu possa definir em que isso poderá servir-me como apoio em que basear os meus objetivos de vida, principalmente porque este distanciamento das criaturas comuns irá fazer de mim um ser especial e eu não vou aceitar regalia nenhuma. Eu sei que as pessoas sofrem e que devem ser ajudadas a superar todos os problemas. Afinal de contas, eu só resolvi atender ao seu convite por haver concluído que a minha atuação como orador de praça pública não estava repercutindo nas mentes, de molde a favorecer benéficas mudanças de pensamento e de correspondentes atitudes. Perdoe-me este tipo de reflexão, mas você poderá ver que está integralmente na linha das perguntas que deixei por escrito e que você já examinou. Principalmente, eu gostaria que me levasse em conta o desejo de não efetuar estudos teóricos mas que me permita realizá-los durante a prática de minhas funções evangélicas. Se for preciso obter conceitos nessas obras, não oferecerei nenhuma resistência.
Calou-se o orador, sem dar mostra de nenhum cansaço ou de nenhuma emoção. O próprio Adonias estranhava que, qualquer que fosse a resposta do médico, iria aceitar pacificamente, uma vez que se omitia em relação a qualquer hipótese.
Por seu turno, Adão tomou os onze volumes de uma vez, dizendo:
— Vamos colocar estas obras em seu lugar, na prateleira da biblioteca. Você vai aproveitar o passeio para conhecer o prédio e para efetuar aquele exame sugerido por Anésio. Quanto aos estudos, vou dá-los por concluídos, temporariamente, pois eu acredito piamente que você mesmo, com o desenvolver das tarefas, irá perceber que não sabe tudo, como ninguém pode se vangloriar disso, tantas são as especializações hodiernas. Mas, em termos de moralidade evangélica superior, creio que você domine o assunto como verdadeiro teólogo e mestre. No entanto, dado que o inteiro teor do texto do primeiro volume está memorizado, recomendo-lhe que reflita passo a passo sobre cada pergunta e cada resposta. Quanto às sua dificuldades relativas às lembranças que não lhe ocorreram da época do evento, embora tenha consciência do conteúdo e até da forma daquela obra de Kardec, não sei explicar, ou você, meu inteligente amigo, acredita em que eu esteja no domínio integral de sua mente? Se nem mesmo você está...
Adonias fez menção de sair, carregando alguns volumes, mas, lembrando-se da recomendação do outro médico, fez uma observação:
— Acho que devo raspar a barba.
Adão tomou a iniciativa de chamar Alice, apertando o botão, de modo que, em breves instantes, a moça se dedicava a escanhoar a face ainda esquálida do sacerdote.
Assim que terminaram, saíram pelos corredores, parecendo a Adonias estar envolto em nuvens tenuíssimas de vapor colorido, com várias tonalidades absolutamente pastéis.



13. TEMPLO E HOSPITAL

— Vou levá-lo, meu caro Adonias, diretamente à sala que preparamos para as suas conferências religiosas. Você vai ver que o seu público terá o conforto de uma sala de aula das mais modernas, ao contrário do sol a pino que você oferecia ao povo na praia ou nas praças, quando não era o enregelar do frio do inverno, ou quando você via a gente se dispersar pelo poder da chuva, que a sua pregação não tinha sequer a mesma força dos elementos naturais.
Adonias ia divertindo-se com as palavras do médico, que via como uma facécia mais do que uma recomendação de maior seriedade e aplicação. No fundo, sabia que repetir os ensinos de Jesus era mais do que desenvolver um sermão ou elaborar um texto paralelo à leitura dos evangelhos.
— Seu salão está situado no oitavo andar de baixo, isto é, a contar do primeiro subsolo, o oitavo. Você jamais irá perder-se nos elevadores, porque a indicação vai do primeiro ao vigésimo quinto de cima para baixo. Os andares acima do nível da cidade estão consignados de baixo para cima em ordem ascendente de numeração.
Adonias interrompeu o outro:
— Vamos falar sobre algo mais importante, porque andar de elevador eu sei. Como é que o meu tumor desapareceu tão depressa?
Adão não se apertou com a resposta, parecendo que esperava pela pergunta:
— Como é que você sabe que foi tão depressa? Como é que você obteve controle do tempo decorrido, se ficou encerrado numa espécie de cárcere subterrâneo, sem noção de dia e de noite e sem relógio que lhe propiciasse a medição do tempo?
— Quer dizer que...
— Quer dizer que já chegamos perante a porta que dá entrada ao seu local de trabalho evangélico. Eis aqui a chave. Tenha a honra de experimentar se abre a fechadura.
Adonias abriu a porta dupla e deparou com uma sala circular, cheia de material didático sobre as inúmeras carteiras. Havia um corredor que levava ao centro, onde se situava um estrado acima do nível três degraus. Caminharam ambos para lá e Adão se pôs no lugar destinado ao orador, elevando a voz um pouco, para demonstrar a acústica perfeita do ambiente:
— Meu caro Adonias, eis a sua nova arena religiosa. Aqui você não irá oficiar nenhuma cerimônia sagrada, no sentido de oferecer aos ouvintes os préstimos do sacerdócio comprometido com a salvação das almas. Absolutamente. Você, na verdade, irá ministrar aulas e cursos, porque você estará diante de alunos regularmente matriculados, segundo o interesse deles nos temas que você conhece melhor.
Adão fez um gesto para que Adonias caminhasse até a porta. Quando o padre lá chegou, Adão prosseguiu, com voz um pouco mais modulada que a sua natural entonação:
— Ouça a perfeição do som que se espalha harmonicamente, sem necessidade de nenhum esforço. Acredito que ultimamente você precisava quase gritar para ser ouvido a dez metros de distância. Aqui, você terá a possibilidade de reunir cem alunos sem utilizar nenhum recurso eletrônico. Mas não se assuste porque até chegar ao número de cem vai demorar. Isso quer dizer que é encargo seu atrair as pessoas para ouvi-lo. Nesse sentido, você irá preparar os temas e fornecer ao nosso sistema de divulgação, que afixará nos lugares de praxe e anunciará para o mundo exterior através de nossas ondas radiofônicas. Apenas os oradores mais prestigiados, os que reúnem mais de mil pessoas de cada vez, em aulas subseqüentes de hora em hora, é que são noticiados pela televisão, em nosso canal exclusivo.
Adonias fez menção de se aproximar, mas Adão pediu-lhe que falasse de onde estava para sentir o resultado de sua enunciação.
— Meu caro doutor...
A voz saiu-lhe forte demais, enchendo o auditório. Adonias não se perturbou e prosseguiu mais ameno:
— Meu caro doutor, vejo-me fortemente amparado pela instituição, sem haver dado nenhuma prova...
— Permita-me interrompê-lo. Mas a verdade é que o seu teste foi feito através dos seus estudos, os quais, embora deficitários, demonstraram sua capacidade de entendimento dos objetivos propostos por nós, quais sejam os de atender, com disciplina e boa vontade, as nossas recomendações. O mais virá com o tempo, conforme a sua estabilidade psicossomática determinar, sempre de acordo com sua vontade firmada em seu livre-arbítrio. Não se iluda: se os seus discursos, as suas exposições, as suas conferências, as suas aulas, os seus cursos não oferecerem nenhum interesse, você mesmo irá percebê-lo e propor as alterações de rumo mais adequadas para o melhor sucesso deste nosso empreendimento conjunto.
Adonias sentia muita firmeza em tudo quanto Adão propunha. Não sentia em si, contudo, a mesma confiança do outro, tanto que necessitava ainda de informações quanto aos objetivos mais gerais da Igreja Cristã da Misericórdia Divina, e perguntou:
— Caríssimo amigo, definitivamente, quem é que sustenta esta organização capaz de oferecer aos alunos de um professor desconhecido os recursos de toda esta aparelhagem de última geração, conforme estou notando em todas as carteiras. Ou muito me engano ou estou perante uma centena de terminais de computadores, o que não deve ter sido barato.
— Você está esquecido de que, antes de você, havia uma outra pessoa que ocupava este lugar. O que fizemos em função de sua pessoa, não sei se reparou, foi pintar nas paredes ao derredor uma cena marítima de um lado e o retrato de uma paisagem urbana do outro, para lhe oferecer a impressão de que está em plena praia. Mas isso foi tudo. O dinheiro que arrecadamos, todinho (e vem de inúmeras fontes), é aplicado na instituição. Não há um único profissional remunerado diretamente. O máximo que nos permitimos é sustentar com certo conforto, dando comida e leito. Quem, como eu, possui vínculos profissionais externos, vai lá fora adquirir honestamente o com que se manter e à família. No seu caso, pelo exame de sua vida desde que se viu solto no mundo, concluímos que as despesas que nos daria seriam altamente compensadas pelo fluxo de pessoas que a sua palavra irá fazer confluir para a benemerência desinteressada, de sorte que é bem possível que o nosso investimento seja altamente lucrativo. Pense em sua antiga igreja que, de um modo ou de outro, pratica este mesmo tipo de trabalho comunitário. Mas eu não vou permitir-lhe que volte ao assunto. Procure ler os nossos balancetes parciais e balanços gerais publicados e afixados nos lugares próprios. Sei que lhe parece muito estranho que esta Igreja seja mais do que um templo, porque a nossa ala médica é extensa. Mas pense antes de mais nada que a saúde mental, ou melhor, a saúde moral tem, obrigatoriamente, de se sedimentar num corpo saudável e hígido. Mas, por ora, vamos ficar por aqui. Qual setor da instituição lhe atiçou mais a curiosidade e você desejaria visitar em seguida?
Adonias estava louco para ir ver o necrotério mas considerou que esse pedido seria por demais estranho. Então, resolveu atenuar sua pretensão:
— Quero visitar a usina de força que gera energia para manter o ar permanentemente puro, embora tão distante da atmosfera lá de fora. Gostaria de avaliar todo o sistema de segurança dos condicionadores, porque desconfio de que existam vários processos de manutenção dos mecanismos em funcionamento quando ocorrem crises de fornecimento de energia elétrica do exterior.
Por essa Adão não tinha como esperar. No entanto, dirigiu-se ao padre e caminharam até a porta do elevador, enquanto Adão dizia:
— Vamos ter de descer ao último subsolo. Talvez você possa sentir-se zonzo, porque o nosso sistema de descompressão não prevê a descida de pessoas ainda convalescentes. Podemos, no caminho, efetuar o exame tomográfico requerido pelo Anésio?
— Perfeitamente. Aliás, se você acha que não vou sentir-me bem, eu não vou insistir no meu pedido.
— Agora é tarde. Seu pedido é uma ordem e será devidamente atendido.
Enquanto trocavam as últimas palavras, chegaram ao setor em que seria realizada a tomografia, mas houve uma dificuldade: havia uma dezenas de pessoas a serem atendidas.
Adão considerou o tempo de espera e fez uma proposta:
— Quer descer às oficinas ou prefere aguardar a sua vez. Aqui nós não estabelecemos o sistema de senhas. Quem sair perde o lugar na fila.
— Eu espero.
— Então vou dar as instruções aos paramédicos e vou deixá-lo na companhia dos outros pacientes.
Foi assim que Adonias pôde entrar em contato com seus colegas de internação.



14. NO AMBULATÓRIO

Resignou-se Adonias a esperar sentado na sala cheia. Olhares curiosos repousavam sobre ele, que correspondia com acenos e sorrisos, os melhores que sua figura cadavérica parecia emitir.
Na sala, havia exatamente doze pessoas, todas de certa idade, com exceção de uma criança de uns nove anos, acompanhada da mãe, chorosos e conformados, afagando a velha senhora os cabelos loiros da criança, que se aconchegava em seu colo.
Não se passaram cinco minutos e um dos velhos se levantou com alguma dificuldade e caminhou até ele:
— Padre Adonias, que faz o senhor aqui?
Puxou o sacerdote pela memória e alegrou-se por reconhecer o outro:
— Como está, Professor Antônio?
— Vejo que faz tempo que não nos vemos. O senhor está me confundindo com meu falecido pai. Eu sou o Vicente, o filho mais novo do professor, professor eu mesmo, de física, coroinha nos meus tempos de garoto e antigo freqüentador de seu confessionário.
Adonias fixou atentamente os olhos no velho diante de si. Homem que, pelos seus cálculos, não poderia ter agora mais do que quarenta, quarenta e cinco anos, mas que estava com o aspecto macilento de uma pessoa de quase setenta. O padre, no entanto, queria saber mais:
— Com que, então, sempre o Professor Antônio veio a falecer. E você, meu caro, como é que está tão acabado?
Vicente sorriu dando mostra de haver compreendido a surpresa do sacerdote, pediu e obteve um lugar ao lado dele, e se deixou esparramar por mais de quinze minutos de explicações. Havia sofrido muito com a esposa, que o abandonara com dois filhos menores. Mais tarde, em segundas núpcias (não oficiais, porque a Igreja não sacramentava o matrimônio de pessoas divorciadas), teve de abandonar ele mesmo as crianças às mãos dos avós maternos, precisando aturar os pestinhas da outra mulher, que o atormentaram por mais de dez anos. Sofreu um acidente (momento em que fez questão de lembrar aquele sofrido pelo padre e que lera nos jornais e vira na televisão, tremendo choque de dois carros, a propósito perguntando a respeito do pai de Adonias, o Seu Fernando, que se envolvera no mesmo acidente, recebendo a informação sucinta de que o pai estava bem mas que o evitava desde que fora expulso da Igreja). Fora excomungado? Pois Vicente não sabia. Mas passou ao largo dessa notícia, muito interessado em demonstrar que vivera no hospital por mais de cinco anos, debilitado a mais não poder, recuperando-se agora, muito embora estranhasse sobremodo a fantasmagoria que sua figura representava aos olhos de quem o conhecera forte e robusto. Contou que se encontrara com alguns alunos já adultos que tiveram a mesma estranheza perante a sua antecipada senectude. Quando ia começar a falar a respeito dos tratamentos que vinha recebendo, ouviram no alto-falante a voz suave que pedia para que Vicente comparecesse à sala de número oito, no fundo do corredor. E lá foi ele, não sem antes estreitar o sacerdote, que não teve como não pensar em que dois sacos de ossos estavam num amplexo que só duas figuras medonhas da morte com suas alfanjes poderiam proporcionar.
Assim que o outro desapareceu porta adentro, Adonias correu para o reservado masculino, com a indefectível cartola cruzada por uma bengala sobre umas luvas, a se ver no espelho.
“Raios! Que eu estou bem mais bem parecido que o pobre físico de físico pobre.”
Sorria perante a facécia vocabular e de satisfação de ver sua imagem escanhoada, refletindo uma idade pouco mais ou menos compatível com os seus cinqüenta e dois anos de idade. Reparou em que os cabelos também estavam aparados, já crescidinhos, com uma pequena escovinha à testa, e em que haviam recuado uns cinco centímetros dos lados. Em torno da cabeça, no entanto, notou que haviam passado a navalha ou a gilete, sem que, contudo, tivesse fresco na memória esse trabalho de barbeiro, desde que nenhuma atividade concernente a isso havia Alice desenvolvido naquele mesmo dia.
“Será que, quando desmaiei, entrei em coma, pensando estar observando tudo ao derredor, mas despertando muito tempo depois, quando os socorros de Adão e companhia estavam surtindo efeito?”
De qualquer modo, ficou melhor impressionado com a sua fisionomia do que com o arremedo de caveira do Vicente.
Quando voltou à sala de espera, todos os lugares estavam ocupados. Logo, porém, foram sendo chamadas as pessoas, notando Adonias que algumas que lá não estavam quando se ausentou, partiam para os exames antes dele.
“Bem feito. Você não sabia que iria perder a vez?...”
Nem bem fez a repreensão íntima e ouviu o seu nome:
— Padre Adonias, por favor, sala oito, no fundo do corredor.
No caminho, deu com Vicente voltando cabisbaixo. Ia deixá-lo passar, a ver se o notava, mas um passo antes de se cruzarem, ouviu do outro:
— Fique em paz, amigo confessor. A sua sina não pode ser pior que a minha. Vá com Deus!
— Deus o abençoe, meu filho! Vou rezar por você.
E cada um seguiu seu destino.
Na sala de número oito, o Doutor Anésio:
— Desculpe-me, Adonias, mas as regras são para atender os que chegam primeiro.
— Doutor, explique-me por que algumas pessoas passaram na minha frente, só porque fui ao banheiro.
— Você não se encontrou com um velhinho saindo desta sala?
— Sim.
— Quer dizer que ninguém passou na sua frente. É que neste corredor existem muitas salas com diferentes especialidades. Você entende, pois não?!
Adonias resguardou-se e mediu a intensidade de suas reações emocionais. Por tão pouco, estava dando-se ao trabalho de se perturbar, correndo um risco absurdo de perder aquele domínio que se via ainda exercendo sobre os sentidos. Na verdade, notou que as paredes não emitiam mais as vibrações sutis nem os sons vinham das profundezas. Os odores, no entanto, lhe indicavam a presença de alguns produtos hospitalares, tendendo para o éter, para o álcool ou para os anestésicos, que ele não soube caracterizar direito.
“Preciso concentrar-me em Jesus e em Nossa Senhora. Mas não vou pedir por mim. Vou pedir pelo Vicente, que precisa mais do que eu.”
Enquanto o preparavam para a tomografia, desligou-se do ambiente e situou-se mentalmente no meio de sua sala de conferências, lugar que deveria tornar sagrado com os convites que faria aos santos e aos anjos. Naquele ambiente ideal, repousou o olhar no horizonte, vendo o mar pintado na parede modular suas ondas e espreguiçar-se nas areias. Sentiu-se na praia, aspirando a maresia e agradeceu ao Pai a felicidade da vida e da existência, pedindo para o esquelético irmão professor um pouco daquela paz e daquela plenitude de felicidade.
Quando se deu conta, o exame já havia terminado e o enfermeiro fazia a limpeza do gel que ajudara a fixar os eletrodos.
Um instante depois, Anésio apareceu:
— Adonias, venha observar-se por dentro da cabeça.
Era um convite irrecusável.
Na sala ao lado, havia uma estranha aparelhagem eletrônica. Estava desligada, aguardando o comando do facultativo. Então, Anésio começou:
— Assim que eu ligar o aparelho, você vai ver uma espécie de crânio transparente em três dimensões, como se estivesse projetado dentro desta tela de computador. Através destes botões, eu posso fazer que gire para qualquer dos lados, como ainda que se volte para baixo ou para cima. Em suma, a máquina transfere uma imagem real. Mais ainda: uma imagem que permite vasculhar o interior de seu cérebro, setor por setor, de forma a definir as possíveis dificuldades de seu aparelho bioenergético um tanto usado e maltratado. Não se assuste com as mudanças de coloração dos filamentos nervosos e outros que irei solicitar que o computador identifique. Saiba, desde logo, que o seu tumor desapareceu completamente. Não há vestígio algum dele. No entanto, existem alguns pontos de estrangulamento que estão bloqueando o livre curso de seus neurônios. Você quer explicações mais técnicas?
— Gostaria muito, se eu tivesse como traduzi-las para o meu jargão eclesiástico. Mas, como não me dediquei ainda aos estudos de medicina...
— Muito bem. Uma vez caracterizados os problemas para o paciente, temos a certeza, nós desta equipe médica da Igreja Cristã, que receberemos integral apoio para a superação das dificuldades, principalmente porque estamos diante de um homem de fé e de Deus, que sabe louvar o Criador pelas criaturas. Diferentemente do professor de física que o antecedeu, que recebeu uma grave censura por desleixar os pensamentos positivos.
Lembrou-se Adonias do aspecto caído do ex-confessado e de suas palavras desalentadas no corredor. Mas Anésio acionava os botões e Adonias se maravilhou com a tecnologia de última geração. Espantava-se com as filigranas reveladas pela verdadeira cinematografia que lhe mostrava um mundo íntimo inteiramente eletrificado por pequenas explosões luminosas que percorriam os filamentos nervosos, indo depositar as informações eletrônicas ou bioquímicas nos reservatórios que percebia como um verdadeiro poço sem fundo, a captar tudo o que se passava do lado externo e que lhe era encaminhado por uns grossos feixes que se encontravam na base do crânio.
Quando precisou que prestasse atenção nos pontos críticos, Anésio percebeu que o padre estava simplesmente extasiado na contemplação de seu próprio organismo.
— Sabe no que estou pensando, doutor? Nesses infelizes que destroem essa maravilha da criação divina com o consumo de drogas, e nos criminosos que dão cabo dos irmãos, sem pensar em que estão, de certa forma, dando cabo da própria magnificência da inteligência suprema que deu origem a todas as coisas.
— É verdade, Adonias. Quanto mais eu estudo, menos me arrependo de haver nascido entre os mortais, muito embora eu sinta, pela profissão que abracei, que até este maravilhoso mecanismo biológico, fisiológico, com todas as suas estruturas...
Nesse ponto, Adonias se perdeu em conjeturas, imerso em sua mente, querendo perceber por dentro de si mesmo o que tinha diante dos olhos. Desejava criar a consciência de sua face interna, do mesmo modo que esquadrinhara a cabeça refletida no espelho. Sem perceber, interrompeu a série de ponderações do médico:
— Doutor, é possível, ao mesmo tempo, estar sendo examinado e vendo o que se passa nesta tela? Seria como as mães que vêem seu feto na barriga, nos aparelhos de ultra-sonografia.
— É possível e, em certos casos, recomendável, quando pretendemos demonstrar ao paciente que, sob certos impulsos, se apresentam determinados resultados. Não é o seu caso, porque a nossa necessidade se prende ao fator de anti-estresse, ou seja, queremos que sua mente esteja absolutamente descomprometida com os eventos depressivos que soem ocorrer quando o indivíduo se preocupa com fatos desconhecidos. Veja bem, eu não estou afirmando que você não irá jamais passar por um exame ao vivo. O que quero deixar claro é que nós mesmos ainda não diagnosticamos plenamente as causas que vêm provocando os distúrbios que ainda agora detectei. Você é capaz de caracterizar quais são os filamentos energéticos que apresentam defeitos no seu cérebro? Não, evidentemente, porque desconhece os mínimos atributos de cada órgão e quais as funções que se descrevem na tela, pela análise feita através do programa que estamos empregando para uma leitura mais inteligente e precisa...
De novo, Adonias perdeu o fio da meada. Mergulhou fundo na memória e buscou reavivar alguns textos que havia transcrito no convento, com sua letra magnificamente bem torneada. Deparou-se com um texto em latim medieval, São Jerônimo adaptado para uma leitura mais propícia aos modernos. No entanto, tal lembrança o encheu de sombras íntimas, pela desconfiança de que, de novo, não iria se recordar das circunstâncias em que fizera a cópia. Acordou para a hora e disparou contra o médico:
— Doutor Anésio, o senhor que sabe tanto a respeito da cabeça humana, poderia me esclarecer quanto a um processo de memória que me tem deixado um pouco confuso, porque sou capaz de me recordar de inteiros teores de textos sem, contudo, relacionar esse conhecimento com fatos de minha vida, principalmente no que respeita ao tempo que passei no seminário e, depois, no convento. Ainda há pouco, perpassou-me diante dos olhos da mente um texto integral em latim. Quando desejei refletir a respeito de como havia penetrado no âmbito de meu lóbulo cerebral das recordações, se assim posso expressar-me, me vi totalmente bloqueado, o que, eu bem que senti, me ocasionou um estremecimento que me fez temer até pela segurança de minha estabilidade intelectual ou de meu equilíbrio como ser humano dependente das reações desse centro cerebral irradiador de comandos nervosos, através das interpretações que está habilitado a fazer de todas as informações que recebe continuamente. Que me está acontecendo?
Anésio coçou a cabeça antes de responder, mas, de qualquer modo, pretendeu dar uma idéia o mais exata possível do funcionamento da memória, começando por definir melhor os termos, volvendo a caracterização dos órgãos para seus aspectos técnicos, no que inseriu a terminologia correspondente aos ganhos científicos no setor. Foi quanto bastou para Adonias, pela terceira vez, desligar-se do enfadonho orador.
Desta feita, porém, ficou a brincar com a Carta de São Jerônimo na mente, desejoso de ler as palavras sem entender o texto. Bastava-lhe a Vulgata, ou seja, a tradução para o latim dos Evangelhos providenciada pelo santo.
Anésio chegava ao fim:
— Necessariamente, existem vários planos de memória no cérebro humano. Posso dizer que um deles deve ter seu fulcro na alma, porque ninguém poderia compreender que, com a decomposição dos tecidos do cérebro, principalmente após a morte, a alma iria ascender ao céu totalmente esquecida de tudo quanto passou no mundo. Quem sabe a sua dificuldade não se situe justamente na transposição desse portal mnemônico entre o cérebro carnal e a alma imortal? Nesse caso, não será este nosso aparelho que irá propiciar um diagnóstico, porque foi ele projetado para decifrar os mistérios capazes de serem transladados, através de ondas sonoras e luminosas, para o bojo eletrônico do descodificador computadorizado. Penso que a minha resposta tenha sido suficientemente clara para remetê-lo aos estudos do nosso volume de número dois que, se você tivesse lido, não estaria fazendo esta cara da mais absoluta interrogação perplexa e inconformada.
Se dissermos que Adonias estava pensando em tudo o que ouvira, mentimos. Ele estava simplesmente desejoso de efetuar um teste de memória, crendo que, se apenas ouvisse, poderia, mais tarde, avaliar a sua capacidade de restauração da palestra do médico, momento em que juntaria aos sons os respectivos sentidos vocabulares e frásicos.
Mas Anésio desligou o aparelho, dizendo que o próximo paciente deveria estar ficando impaciente... Assim, dava o aviso definitivo de que o padre tinha que se retirar.
No corredor, Adão esperava por ele.
— Por que não entrou, doutor?
— Estou acabando de chegar. Carregue de novo alguns volumes e vamos levar a coleção à biblioteca.
— Acho que vou interessar-me pelo volume de número dois.
— Ótimo. Sendo assim, vamos passar antes pelo seu novo cubículo...
— Cubículo? Mas o quarto que eu ocupava era bem amplo...
— Quartos da ala de cura e tratamento exigem maiores dimensões. Agora você vai ficar agasalhado em uma espécie de cela de convento, talvez bem menor. Mas não vamos perder mais tempo, porque está quase na hora de sua refeição. Vamos seguindo por aqui que eu vou entrar em contato com Alice para saber se tudo já está providenciado.
Enquanto Adão falava no aparelho portátil, Adonias ia brincando com a visão distorcida que lhe chegava das paredes, espécie de neblina colorida que lhe dava a certeza de que emanações partiam de todos os objetos, uma aura, um perispírito ou algo semelhante. Deteve-se no conceito de perispírito, abrindo mentalmente o livro de Kardec: corpo físico, corpo espiritual e espírito propriamente dito. Achou tudo até certo ponto coerente, mas preferiu desviar as suas observações para as irradiações meramente térmicas, que era capaz de perceber desprendendo-se das paredes.
Ao entrarem no elevador, o interesse pelo futuro imediato apagou as impressões subjetivas de sua psique alterada.



15. TOMANDO PÉ NA REALIDADE

Em breve, os dois se encontravam com Alice, num amplo salão, espécie de refeitório, naquele momento apinhado de gente. O vozerio era bem forte, mas Adão fazia-se ouvir e compreender perfeitamente:
— As suas horas de você se alimentar serão passadas aqui. Não mais será servido no quarto. No entanto, basta dirigir-se a qualquer terminal de computador, registrar seu nome ou usar este cartão (passou o cartão ao padre, que não teve tempo de examinar) e, dentro de, no máximo, cinco minutos, você será chamado ao balcão para apanhar sua bandeja. Não se preocupe que o seu cardápio está preservado, de modo que somente pratos de sua preferência é que lhe serão servidos. Quer tentar agora ou vamos deixar para depois de você ser medicado, dispensando a nossa querida enfermeira?
Adonias era um feixe de pontos de interrogação, mas limitou-se a perguntar se Adão estava a par dos resultados dos últimos exames.
— Claro que sim. Num local totalmente informatizado, quem sabe lidar com as teclas e com os botões nunca se perde. O meu interesse por sua saúde mental me obriga a acompanhar tudo quanto se registra em seu nome. Por isso, estou perfeitamente apto a compreender por que Anésio determinou certas modificações nas doses que vinham sendo ministradas, substituindo dois ingredientes por outros mais específicos. Quer uma descrição técnica?
Adonias refletiu que era preferível ir adiante, porque as palavras iriam soar ocas e a sua mente iria pairar nas nuvens de sua quimérica ilusão de poder intelectual definido no sentido moral. Não se deixou envolver pelas reflexões que se iniciavam e respondeu:
— Deixo a minha saúde em mãos profissionais do mais alto valor. Cumpro, de resto, as obrigações que me impõem, porque sei que são de meu interesse. Agradeço, além do mais, e rezo por todos vocês, rogando ao Pai que os mantenha ainda por muito tempo cuidando dos sofredores, porque essa é missão divina. Vamos aos medicamentos e, depois, quero conhecer o meu novo reduto pessoal.
Dessa feita, Alice aplicou duas injeções, uma na veia, outra no músculo, e passou-lhe três comprimidos para beber com um suco com sabor de goiaba verde que fora buscar no balcão.
Em seguida, a enfermeira se retirou, deixando crescer o burburinho nos ouvidos do sacerdote, que se aplicava em entender como é que deveria utilizar o cartão magnético que Adão lhe dera para pedir a refeição, observando que havia bem quinze máquinas iguais às que conhecia dos saguões das casas bancárias.
Adão acrescentava:
— Esse cartão contém registrados magneticamente todos os dados descritivos de sua pessoa. Serve aqui para as refeições. No seu terminal de computador, que se encontra no dormitório (o pessoal fala em apartamento, mas você vai ver que essa palavra é puro eufemismo), o cartão vai servir para você entrar em contato com a biblioteca e com o serviço de informações, ao qual deve recorrer toda vez que alguma dúvida, seja qual for, passar-lhe pela mente, ainda que de inteiro teor teológico, religioso, filosófico, matemático, geofísico, esportivo e assim por diante. Não quer dizer que lhe darão uma resposta convincente ou satisfatória, mas deixarão anotada a questão para ser levada ao colendo corpo administrativo da entidade, que encaminhará ao sábio de plantão, conforme o tema aventado. Não se espante se lhe chegarem consultas justamente a respeito dos assuntos de seu domínio, nem receie não responder a contento, porque todos nós temos definidas as nossas limitações, mesmo dentro de nossas especialidades.
Desta feita, Adonias prestou atenção e como que sugou todas as informações que recebeu. No entanto, alegrou-se quando saíram daquele ambiente barulhento e caminharam pelos corredores, cruzando com muita gente, que o horário devia ser de fim de expediente. Foi o que perguntou a Adão:
— Este povo todo, aliás muito simpático e alegre, bem diferente das pessoas com quem tive contato nas alas hospitalares, está se aprestando para entrar ou sair da rotina de trabalho?
— Muitos estão indo para suas casas, outros estão indo descansar em seus apartamentos, a maioria está assumindo os postos que vão vagando à medida que cumprem seus horários os que estão saindo. O que faço questão de ressaltar é que você não foi capaz de distinguir quem trabalhou de quem descansou. Sabe por quê? Porque ninguém aqui desempenha função alguma para a qual sinta qualquer aversão. Aliás, aquela rotina que você mencionou é logo detectada em relação aos que se cansam das tarefas repetitivas, de sorte que são transferidos para outros setores, passando por um ciclo de treinamento com o fito de avaliar as condições de elevado interesse pela função desconhecida, para que não ocorram deslizes vocacionais. Aposto que você nunca esteve numa organização tão responsável quanto ao conforto e ao bem-estar físico e mental dos trabalhadores. Ponto para a instituição, porque somente participam de nossas atividades pessoas que doam de si voluntariamente.
Aí se calaram, até que Adão passou outra chave a Adonias:
— Com esta você abre a porta do seu cubículo.
Mas Adonias, antes de usar o pequeno objeto de metal, foi categórico:
— Eu acho que o sistema melhoraria muito se eu pudesse utilizar o mesmo cartão magnético para abrir a porta.
— Bem observado, companheiro, mas, se você reparar direito, a chave não serve para abrir, porque não há fechadura propriamente dita. Serve para informar aos responsáveis pelo corredor e pelo andar que o Padre Adonias está entrando ou saindo do dormitório. Aí as atividades de gerenciamento do silêncio, da luminosidade, de água e esgoto, de eletricidade são acionados para ligar ou desligar, neste caso avisando o setor de limpeza de que está na hora da faxina. De resto, jamais alguém virá procurá-lo aqui, porque, como você verá, só cabe um aí dentro e conversar no corredor irá atrapalhar o descanso dos que se recolheram.
De fato, Adonias se espantou que Adão devesse ficar do lado de fora, apontando simplesmente para onde estavam os petrechos à disposição do habitante do, como ele disse, apertamento. Havia uma cama encostada na parede, de pé, embaixo da qual se situavam uma mesa e uma cadeira que mal acomodavam uma pessoa. Mas a cadeira era acolchoada. Adão pediu para que Adonias abaixasse a cama e este pôde ver que a mesa e a cadeira se encolhiam automaticamente, quedando embaixo do colchão. Por isso, as roupas de cama estavam presas através de um material parecido com velcro, sem, contudo, a aspereza daquele produto.
Havia uma abertura na parede, sem porta, dando para o banheiro, onde Adonias encontrou a bacia, uma pia e o chuveiro atrás de um biombo de plástico. Na parede, quatro torneirinhas, que Adão descreveu como fontes de sabonete, de perfume, de creme dental e de ar aquecido para enxugar o corpo.
— E a escova de dentes, o aparelho de barbear, o pente etc. etc.?
— Aperte esse botão do seu lado direito.
Imediatamente, abriu-se um pequeno escaninho com vários utensílios, inclusive um espelho com lente, escondendo-se a portinhola lateralmente.
— Isto aqui não vai criar bolor?
— Criaria, se todo o ambiente não recebesse o influxo energético de um poderoso bactericida elétrico. Se não fosse assim, como é que você acha que os japoneses poderiam fabricar hotéis para hóspedes que apenas pernoitam em verdadeiras gavetas funerárias?...
Adonias sorriu com a lembrança da tecnologia oriental e se conformou com a situação. Mas não teve como não perguntar:
— Por que tanta economia de espaço?
— Porque são cem mil quartos deste tipo.
O número estarreceu o sacerdote:
— Cem mil? E estão todos ocupados?
— Foi difícil liberar este aqui para você. Mas o principal, no seu caso, porque não é em todos os apartamentos que existe, é esse computador embutido na parede, tela plana de cristal líquido, cujo teclado se encontra logo abaixo, podendo você desprendê-lo para trabalhar sobre a mesa. É um terminal exatamente igual ao que você tem na sua sala de palestras, de modo que, daqui, você poderá comandar o outro, o que vai facilitar enormemente a preparação de suas aulas, de suas conferências, de seus sermões etc. Para você ter acesso pessoal ao arquivo que lhe está sendo destinado, passe o cartão debaixo da tela, onde existe uma flecha direcionada como um vetor para a esquerda. Você irá ligar o aparelho e se ver diante dos programas que lhe podem ser úteis profissionalmente. Acho que isso é tudo. Vamos à biblioteca?
Antes de se retirar, Adonias examinou a chave que tinha em mãos, onde se registravam os dados relativos ao quarto, ao corredor, ao andar, com uma definição impossível de desviar o usuário de seu destino. Assim mesmo, até chegar ao elevador, foi memorizando as cores e os símbolos do caminho.



16. FORTE DESEJO DE SAIR

A biblioteca foi a maior decepção para Adonias. Esperava visitar corredores e corredores ladeados por estantes cheias de livros, no entanto, ficou diante de um guichê, recebido por um atendente amabilíssimo, que recebeu os livros de volta, prestativo, dispondo-se a enviar os volumes requeridos diretamente para o minúsculo tugúrio do frade, quando se visse enclausurado. Abria a perspectiva de encaminhar as obras para a sala de conferências, mas fechava em seguida, dizendo que isso teria de ser em horário antecipado de, pelo menos, quarenta e oito horas.
Adão explicava:
— Não se sinta frustrado, amigo. Vejo pelas suas expressões de desagrado que a nossa biblioteca não era o que você esperava. No entanto, é preciso saber que é a maior e mais bem equipada de toda a região. Você imagina quantos títulos possuímos? Diga um número absurdo.
Adonias imaginou logo que as obras tivessem sido microfilmadas ou constassem de arquivos dos computadores, ou que tivessem sido condensadas em CDs., que ele pronunciava compacte disques, jamais afeito aos anglicismos que se enovelavam ao vernáculo. Então, arriscou:
— Por baixo, dois milhões de títulos.
— Duzentos milhões.
— Espere aí. São cem mil celas e agora você vem com essa história de duzentos milhões de títulos?!...
— Duzentos milhões de títulos mais quantas cópias você quiser obter, neste caso em fitas cassetes para cegos ou em papel com caracteres em braile, em vídeos com representação teatral ou cinematográfica, adaptadas ou não para as crianças, em qualquer língua estrangeira e assim por diante.
— Qual é o tamanho do computador?
— Estamos ligados a uma rede internacional e tudo nos chega de toda a parte do mundo. O que fazemos, na realidade, é manter um rigoroso e moderno sistema de acesso, de forma que, basta você desejar qualquer obra, vai até um dos terminais e solicita. Quer experimentar?
— Quero.
Aproximaram-se de um dos três terminais ali instalados e Adão pediu que Adonias utilizasse o próprio cartão magnético.
Imediatamente, surgiu na tela um roteiro de três índices. Adonias foi acionando e enfronhando-se no programa, de modo que, após quatro toques direcionados, surgiu um questionário de quinze perguntas a respeito da obra pretendida. Pedia nome do autor, título, idioma, tipo de reprodução etc., inclusive a indicação de uma possível edição.
Nesse ponto, Adonias, lembrando-se da carta em latim de São Jerônimo, solicitou uma edição manuscrita. Logo surgiram na tela cinco referências, para escolha do consulente. O padre percebeu que não havia o nome dos copistas e, aleatoriamente, pediu uma delas. Em três segundos, lá estava na tela o pergaminho, o qual podia ser compulsado página a página, com a indicação clara de onde se encontrava a carta requerida.
Adonias estremeceu. Parecia reconhecer a sua própria letra. De fato, aqueles contornos arredondados com perfeição e as puxadas para baixo de determinadas letras só podiam ser dele mesmo, marca registrada de sua maneira de escrever. No entanto, estava reservada uma surpresa desagradabilíssima: a data que se registrava no documento era do ano de 1332...
Como Adonias fizera todo o trajeto eletrônico em silêncio, não deu a perceber ao médico de que havia um problema a ser solucionado. De qualquer modo, comentou:
— Sabe que eu podia jurar que esse trabalho fui eu mesmo que fiz no convento?
— É possível, respondeu Adão, aguardando que o outro se interessasse pela explicação.
— Então?!...
— Ora, o seu serviço não podia nascer do nada. Então, você devia estar copiando de outro documento. Portanto, nada mais justo do que reproduzir o inteiro teor do texto, inclusive a data antiga. Quem sabe, essa cópia mesma seja aquela que você produziu e que agora foi tida como original quanto à época da reprodução? Não é possível?
— É lógico, pelo menos. Como é que obtenho uma cópia no formato original, reprodução em papiro, em pele ou em papel mesmo?
— Está tudo isso na sua frente. Faça a requisição. Basta assinalar os campos próprios.
Logo Adonias percebeu onde acionar o cursor da tela, conseguindo o que desejava. A resposta eletrônica indicava que o consulente receberia a cópia solicitada dentro de três horas, no seu quarto, número tal etc.
Adonias, diante daquele mistério, sentiu-se zonzo. Apoiou-se em Adão, que recomendou:
— Vamos voltar para o refeitório. Isso é fraqueza. Quando você fez a última refeição?
Adonias gesticulou, mostrando-se perdido no tempo.
— Então, sente-se um pouco e ponha a cabeça entre as pernas. Vamos fazer que o sangue irrigue...
O restante das palavras se perdeu porque Adonias simplesmente desmaiou.
Ao acordar, estava ali mesmo, mas a primeira pessoa que lhe apareceu no campo de visão foi Alice, que lhe massageava os pulsos. Havia um forte cheiro químico que provinha de um pequeno frasco que Adão lhe passava diante do nariz.
Em dez minutos, contados no relógio da biblioteca, Adonias estava restabelecido. Então, apoiado no médico e na enfermeira, caminhou devagar até o elevador. Depois, já mais revigorado, adentrou o refeitório. Passou o cartão no terminal e sentou-se, porque Alice se prontificou a ir buscar a bandeja.
Adão mantinha-se silencioso. Auscultara o coração e medira a pressão do enfermo, com aparelhos portáteis que trazia no bolso. Disse-lhe que estava tudo em ordem e reafirmou que o mal-estar era simples sinal de fraqueza.
Mas a refeição que chegou não era muito farta. Havia uma pequena tigela de sopa, um caldo ralo com umas folhas de couve rasgada. Havia um pouco de purê de batatas e um cozido de beringelas coberto com molho de tomate e queijo parmesão ralado e gratinado por cima. Havia também uma espécie de arroz à grega, com fartura de cenouras, mas era apenas um pires. Como sobremesa, um naco de queijo branco com marmelada, esta embrulhada em papel celofane, a indicar sua origem industrial.
O tempero correspondia ao seu paladar, mas Adonias não sentiu prazer em se alimentar. Enquanto o fazia na presença de Alice, pois Adão se retirara, manteve-se em silêncio, lembrando-se dos pastéis assados que comia em casa. Esse pensamento gerou uma reação de absoluto desconforto. Teve saudade dos tempos em que caminhava à solta pelos calçadões da praia. Foi quando perguntou a Alice se o relógio marcava um horário interno ou se era o mesmo da cidade.
— Agora são cinco horas da tarde. Se o senhor estiver pensando em sair, eu o conduzo até o térreo.
— Não, não. Eu quero mesmo é começar a preparar a minha primeira palestra...
Palestra foi um termo que saiu sem querer, por influência, talvez, do vocabulário que ouvira de Adão. O que ocorreu, então, foi uma transformação radical no humor do sacerdote. Num fulminante cruzar de idéias mais ou menos desconexas, sentiu-se arrastado num redemoinho de situações novas, tremendo estado insólito de quem se vê, de repente, num país estranho, sem domínio algum das ruas e caminhos a seguir.
Adonias, no entanto, soube guardar para si suas íntimas perspectivas de revolta e solicitou a Alice que o deixasse sozinho, pois pretendia ir ao quarto levado pelas informações da chave.
Logo que percebeu que Alice desaparecia na outra ponta do corredor, dirigiu-se ao elevador, no meio de uma multidão, esperou chegar um que estivesse subindo, entrou e acionou o botão correspondente ao andar de saída.
No ponto exato, viu-se fora do edifício, através de uma porta lateral, onde foi recebido por uma pessoa uniformizada, porteiro ou guarda de segurança, que o chamou pelo nome:
— Padre Adonias, o senhor aceita ser conduzido por uma viatura da Igreja?
Dentro do coração, pareceu-lhe que precisava livrar-se de tudo quanto correspondesse àquela instituição, mas um transporte talvez viesse a calhar. Por isso, respondeu, ainda que com um nó na garganta de desconhecida procedência:
— Quero ir para casa de minha mãe.
— Sem problema, senhor.
Com um gesto, o porteiro chamou um carro em cuja porta se lia Igreja Cristã da Misericórdia de Deus. Adonias entrou e, surpresa, o motorista era o mesmo do táxi do outro dia.
— Boa tarde, Monsenhor. Vamos realizar a viagem de volta?
— Valério, você não disse que era dono de seu próprio veículo?
— Estou dando a minha contribuição voluntária. Faço isso todo dia, durante algumas horas. Eu acho que é o que me dá o equilíbrio necessário para agüentar tantas horas neste trânsito louco. Então?!...
— Toca de volta, por favor. Ainda bem que o serviço é gratuito porque deixei os meus pobres trocados na Igreja.
Suas palavras, porém, não obtiveram nenhum comentário de troco, de sorte que o veículo seguiu toda a estrada cada qual envolvido pelos próprios pensamentos. Os de Adonias eram a rememoração exata e particular de todos os termos da fala de Anésio que deixara para decifrar depois. Mas havia uma dificuldade: precisava, e não tinha, de um bom dicionário enciclopédico para os termos técnicos, de sorte que foi obrigado a ficar perante uma forma quase sem conteúdo.
“Esse Anésio continua enfadonho até como reconstituição de memória!...”



17. ERGUE-SE UMA PONTA DO VÉU

Adonias chegou quando estava escurecendo. Mas o céu ainda oferecia certo rebrilhar do sol, luz vespertina que punha tristeza em tudo. Via a ameaça das sombras, não percebia as promessas do repouso e da restauração das energias.
Encontrou a mãe atarefada na cozinha, preparando o jantar. Ela nem percebeu que ele chegou, de modo que o seu abraço apanhou-a de surpresa. Nesse instante, irrompeu porta adentro uma criança de uns oito anos de idade:
— Vó, vó, o vô vai demorar?
— O que você está querendo dele?
— Ele me prometeu um brinquedo. Disse que era surpresa.
— Então, vá lá no jardim, que ele costuma entrar pelos fundos.
O menino saiu numa disparada, não dando a Adonias sequer a impressão de tê-lo visto.
— Quem é esse?
Dona Genoveva não deu mostras de se comover com o interesse do filho e respondeu, arrastando as palavras:
— Esse é o seu sobrinho, o Fernandinho, o filho de sua irmã, que estava grávida da última vez que você nos visitou.
— Mas eu saí daqui há uns dois ou três dias, no máximo.
— Saiu daqui há quase nove anos.
Adonias não se deixou abater pela informação. Apenas não podia acreditar em que a mãe estivesse falando a verdade. Então, insistiu:
— E Marta? E Maria? Onde estão?
Pensava que elas lhe diriam a verdade, que a mãe estava insana.
— Que Marta? Que Maria?
Adonias percebeu que algo se passava de muito estranho na mente de Dona Genoveva. Resolveu que não deveria ir mais longe. Então, percorreu a casa e não encontrou vestígio das irmãs. Saiu, foi até o seu quarto de fora, encontrou a porta encostada, entrou, mas não se deparou com a costumeira arrumação da cama, do armário, da mesa, nem nenhum de seus livros.
Voltou à cozinha. Queria saber mais:
— Que fim levaram os meus pertences?
— As roupas, o que prestava eu dei; o que não prestava, transformei em pano de chão ou pus no lixo.
— Os livros, os meus livros: onde estão?
— Depois de uns tempos que você tinha desaparecido, vieram uns homens de uma tal de Igreja da Misericórdia, disseram que você precisava deles e levaram todos embora. Aliás, levaram também o crucifixo, as medalhas, os terços e alguns objetos que você guardava num pequeno baú, onde eu nunca mexi.
— Mas você deixou que fizessem isso?
— Por que não? Você escreveu uma cartinha pedindo cada coisa.
— Quero ler.
— Seu pai botou fogo nela.
— Por que ele fez isso?
— Eu acho que está na hora de você saber a verdade. Seu pai morreu.
— Mas até outro dia ele estava bem...
— É o que posso dizer...
— Mas, esse Fernandinho perguntou pelo avô...
— Quantos são os avós de cada um de nós? Quatro: dois homens e duas mulheres...
— Mas o que estaria fazendo o sogro de minha irmã nesta casa?
— Ele mora aqui.
— E ela?
— Ela mora sozinha. Deixou o filho pra gente cuidar. O homem é muito bom, trabalhador, apesar da idade, e tem uma boa aposentadoria. Não é como seu pai que vivia de bar em bar...
— Do jeito que a senhora está falando...
— Nós estamos casados, sim: na Igreja e no Cartório.
— Eu não acredito. A senhora está querendo me enganar...
Na verdade, Dona Genoveva estava deveras diferente. Olhou para o filho uma única vez e, assim mesmo, quando o neto entrou espavorido. Depois passou o tempo todo de costas para ele, encostada na pia, indo às vezes até a geladeira ou até a despensa, sempre como se ele nem estivesse ali.
As coisas estavam muito complicadas para o entendimento do padre. Resolveu insistir quanto às irmãs:
— Por que a senhora diz que nem Marta nem Maria estão mais aqui?
— Eu estou dizendo que elas nunca foram daqui. Elas vinham com você, ajudavam a cuidar de sua roupa e de seu alimento, cortavam as suas unhas, penteavam os seus cabelos, chamavam você de Rabi...
— De Rabi? Como assim?
— Você não se lembra que seus cabelos e a sua barba eram compridos e que você saía a fazer sermões pela cidade?... Um dia você falou que o lago de Tiberíades estava na maior ressaca. Eu bem que achava que sua cabeça não estava boa, mas a Dona Genoveva aqui muitas vezes foi chamada de Maria, seu pai, de José, o da terra, que o do céu era seu outro Pai e Criador. Não me diga que você não gostava que o chamassem de Jesus, de Nazareno, de Cristo?...
— É mentira!
— Eu acho bom você sair um pouco, dar uma volta no bairro, ver se encontra os seus apóstolos e discípulos, conforme apregoava que tinha tantos e que estava na hora de ser crucificado, só que a sua idade, fazia tempo, tinha passado dos trinta e três...
— Mãe, me diga uma coisa: quanto tempo eu fiquei internado em estado de coma?
— Três dias. Depois você fugiu do hospital. Se você não se lembra de nada disso é que sua memória está mesmo muito ruim.
— O que é incrível é que eu me lembro de livros e mais livros inteiros, até em línguas estrangeiras, em francês e latim, e essas coisas não se tornam claras na minha cabeça.
Passou pela mente de Adonias que tinha feito um tratamento justamente do cérebro e lhe ocorreu que aquela gente bem podia ter feito uma trepanação para retirada de algum lóbulo da memória, já que aparato técnico e científico eles tinham até de sobra.
“Por que é que me deu aquela gana de sair de lá correndo? De repente, sem mais aquela, eu me vi na rua, na viatura...”
O raciocínio não caminhava pela direção que ele desejava imprimir às idéias. Notou, no entanto, que as emoções não lhe estavam causando os transtornos psíquicos das outras vezes. Pôs atenção aos sentidos, a ver se estava ouvindo, vendo, cheirando direito. Tudo normal. Melhor ainda, pois era capaz de perceber até a vozinha da criança falando sozinha no quintal, ao mesmo tempo que percebia que ela deveria estar amassando a grama, pelo odor que se relacionava ao som, como se as vibrações sonoras se mesclassem às odoríferas. Houve até um momento em que pensou ter vislumbrado a figura do rapazote através das paredes, mas fixando a visão naquela direção, somente percebeu uma névoa que se desprendia, colorida, dos muros. Desejou, então, tocar nas panelas, mas afastou as mãos rapidamente, que o calor era forte e ele teve medo de queimar-se.
— Quem a senhora acha que eram aquelas moças que vinham comigo? É uma ilusão essa muito forte.
— Eram duas sirigaitas atrás da sotaina...
— Mãe, a senhora está fazendo mau juízo das moças. Eu lhe posso jurar que jamais toquei num só fio de cabelo de qualquer uma delas.
— Eu não disse que você fizesse nada de imoral. Elas é que estavam interessadas ou foram convencidas pelo seu palavrório cheio de virtudes e de promessas de estar, logo mais, do lado direito do Pai etc. Não me cabe ficar a relembrar certas coisas, se você perdeu a memória delas. Isso só vai causar maior preocupação e você até pode ter uma recaída. Por exemplo: por que é que você não me conta onde é que esteve nestes últimos anos?
Adonias não teve ânimo de convencer Dona Genoveva de que estivera internado, em tratamento mental, onde vira tanta modernidade tecnológica. Achou que a mãe não iria compreender nada daquilo e, tendo ouvido a criança rir muito, fazendo graça ao avô que chegava, resolveu que estava na hora de sair. Antes, porém, quis conhecer o padrasto mas este com o sobrinho entraram em festas, trazendo um cachorrinho novo no colo, o presente da surpresa. Tão entretidos estavam que nem notaram a presença daquele vulto esquelético que se esgueirou pela parede, buscando sair sem causar problema maior àquela família totalmente esquisita em que os pais eram avós e o filho, neto. Concluiu que eram coisas dos tempos hodiernos, em que as famílias estão em plena degenerescência e desejou visitar a irmã. Mas só então percebeu que não apanhara o endereço. Fez menção de voltar mas perdeu o impulso pela imposição de sua figura inoportuna naquele ambiente de alegria.
“Que faço, agora? Se, ao menos, o Valério estivesse por perto!...”
Aí se lembrou de que o motorista havia dito que iria jantar no bar da esquina. Correu para lá e, deveras, o carro da Igreja Cristã estava estacionado do outro lado da rua.
Adonias resolveu, então, esperar mas não demorou e o motorista chegou, palitando os dentes:
— Ora, ora, Monsenhor, o senhor de novo?!...
— Dá pra você me levar de volta?
— Claro! Para onde o senhor quiser.
— Você sabe onde minha irmã está morando?
Adonias manteve a esperança de que o outro lhe perguntasse por Marta ou por Maria, mas teve uma decepção:
— Clarice está morando no centro. Muitas vezes eu a levo para o apartamento dela, quando ela vem ver o filho. Menino bonzinho, aquele.
— Então, eu quero ir visitá-la.
— Faz tempo que o senhor não a vê. Desde que eu o levei à Igreja nunca mais eu soube que o senhor saiu de lá. Olha que já vai para nove anos ou mais...
Era a primeira confirmação do fato narrado pela mãe. Mas não arredou pé do intento de ir ver a irmã. Achava que ela teria alguma informação melhor para ele. Deixou para depois uma conversa franca com Adão e, principalmente, com Alice, que havia dito que o manteria informado do tempo que estava passando do lado de fora.
Foi quando começou a prestar atenção no movimento das ruas. Observou os carros que passavam a ver se reconhecia os modelos novos, destacando-os daqueles que vira nos derradeiros tempos de sua primeira viagem à Igreja. De fato, os carros e até mesmo os coletivos estavam bastante modificados, em suas linhas gerais.
Olhava para os letreiros luminosos multicoloridos e via neles uma tecnologia desconhecida. Observou as roupas das pessoas e percebeu que havia enfeites e modelos que nunca vira antes. Principalmente, as moças se vestiam muito mais com cortes masculinos e os rapazes se adornavam com brincos e, pelo que pôde entrever, muitos cortavam e coloriam os cabelos de maneira estranhíssima.
Mas calou os pensamentos e Valério ficou sem saber o que lhe passava perante os olhos da consciência.
Mas essas circunstâncias começaram a perder a importância quando Adonias viu algumas crianças de rua cheirando cola, debaixo de um viaduto. Duas grossas lágrimas percorreram rapidamente o espaço de suas faces e se projetaram sobre o colo, umedecendo-lhe as calças negras. Compreendera que ficara muito tempo alheio ao propósito essencial de sua vida, o auxílio fraterno aos pobres, aos necessitados, aos miseráveis do vício.
Bateu no ombro do motorista:
— Valério, toca para a Igreja, por favor. Desisti de ir ver minha irmã. Acho que tenho uma necessidade bem maior de ser esclarecido quanto à moléstia mental que me fez perder preciosos anos de minha existência carnal.
— O senhor manda, Monsenhor. Estamos indo na mesma direção, bastando pegar a avenida de baixo para seguir direto pra lá.
— Tudo bem!



18. DE VOLTA À IGREJA

Ao chegar, Adonias foi recebido pelo mesmo rapazelho que o guiara das outras vezes. Só então quis saber:
— Mocinho, como é mesmo o seu nome?
O rapaz apenas exibiu o crachá que estava meio escondido debaixo da larga lapela de seu vistoso paletó azul claro. Lia-se ali Renato.
— Pois bem, Renato, em que dia, mês e ano estamos?
— O senhor deseja a contagem interna ou externa?
— Por quê? Existem duas modalidades de contar o tempo?
— É que, aqui dentro, estamos acostumados ao que chamamos de desenvolvimento temporal absoluto, ou seja, marcamos os minutos, as horas, os dias pelos momentos que passamos trabalhando. Quando estamos bem dispostos, nem notamos que lá fora os dias e as noites se alternaram, de modo que, ao sairmos, muitas vezes ficamos surpresos por termos estado tanto tempo interessados em nossas rotinas que nem demos conta de que as pessoas estão mais velhas. O interessante, se o senhor me permite dizer, é que, na Igreja, sucede como que uma suspensão orgânica, de tal forma complexa que o senhor, se puser reparo em mim, estará me vendo no máximo uns dois anos mais velho, quando já se passaram nove anos desde que nos encontramos pela primeira vez.
Adonias seguiu com muita seriedade cada palavra que o rapazote havia pronunciado, reparando que todo o enunciado dos pensamentos não correspondia à idade cronológica aparente do jovem. Era mistério a acrescentar ao rol das questões a fazer a Adão, de sorte que não insistiu na pergunta a respeito da data atual. Do mesmo modo pareceu haver compreendido o cicerone, tanto que não se estendeu na direção do ponto levantado.
Diante do elevador, Renato se despediu, deixando o sacerdote às voltas com o itinerário a realizar. Pegou a chave do quarto e decidiu emendar a entrada à saída, desfazendo o desejo de abandonar o recinto, agora parecendo imantado à idéia anterior de volver sozinho até o diminuto apartamento.
De fato, seguindo as indicações, dois ou três minutos após (ele não se arriscava a consignar o tempo), estava dando uma volta na chave dentro da fechadura, para avisar que havia regressado.
Ao entrar, encontrou diversos objetos pessoais, seu antigo baú, os livros de antigamente e um rolo de tecido, como se fosse um pergaminho, em cuja parte externa estava escrito: Cartas de São Jerônimo. Mas tudo estava sobre a mesinha, de sorte que precisava urgentemente encontrar espaço para depositar as coisas, pois desejava descer a cama para repousar.
Pôs tudo no chão, ao lado da mesa, e fez que a cama se movimentasse para baixo. Para sua surpresa, um molejo especial deu-lhe segurança para ficar um pouco mais elevada do solo, o suficiente para não pressionar os objetos. Outra surpresa, sobre o leito: roupa limpa, duas toalhas, uma de rosto e outra de banho, e um lembrete impresso para colocar o que precisasse ser lavado do lado de fora, no escaninho próprio.
Adonias estava muito cansado. Mesmo assim, acionou o computador para ver se se registrara algum recado para ele. Realmente, lá estava o aviso de que precisava dirigir-se ao refeitório, que estava quase na hora dos remédios.
Daria tempo para um banho rápido? Não pensou duas vezes, tirou a roupa e entrou no minúsculo espaço para um banho. Acionou o botão e a água jorrou do alto, quente e agradável. Assim que se banhou, apertou o botão do jato de ar para se secar e em breves instantes se viu completamente apto a vestir-se. Foi quando lhe surgiu, imperativa, a pergunta a respeito da utilidade das toalhas. Mas não foi capaz de atinar com a resposta.
Então se vestiu, se penteou, ou melhor, ajeitou os fios da escovinha que insistiam em se projetar para a frente, viu no espelho que o seu rosto estava um pouquinho menos cadavérico, o que lhe dava um ar de maior juventude. Achou-se até com certos resquícios da bonita fisionomia que tinha na idade dos trinta anos, homem maduro, cuja barba lhe punha na figura a imagem de Jesus, a ressaltar os profundos olhos castanhos, quase negros.
As regalias de uma vida dedicada ao conforto pessoal logo desapareceram quando a memória fez que se deparasse de novo com as criaturinhas debaixo do viaduto. Foi quando deliberou sair imediatamente, porque a conversa que estava preparando-se em seu inconsciente já transparecia como rude e impertinente.
“Dessa vez, não vou permitir respostas evasivas. Até o tal do Renatinho está contaminado com essa forma de fugir espetacularmente das questões. Acho melhor ir visitar primeiro o necrotério.”
A idéia de ir ao necrotério surgiu em sua mente como provinda do nada. Foi como um despertar para uma situação criada muito antigamente e que só a custo volta, depois de muito esforço. No entanto, aquela idéia era de um dia antes. Não entendeu a sugestão de sua fonte de reminiscências e foi diretamente ao refeitório, onde se achou diante de Alice, que o esperava à porta, para que ele não se perdesse no meio da multidão.
Apanhou-o pela mão e tal gesto como que desarmou o seu intento de ser rude com a moça por tão pouco, só porque se esqueceu de fazer referência ao transcurso do tempo do lado de fora. Além do mais, foi obrigado a dar razão à consciência quando lhe lembrou de que não se preocupara em perguntar-lhe uma única vez a respeito.
— Padre Adonias, como é que foi sua viagem até a casa de sua mãe? Soube que o senhor foi e logo voltou. Aconteceu algo?
— Como correm as notícias por aqui. Quem foi que lhe contou?
— Está arquivado no seu registro pessoal. Eu sou obrigada a digitar o seu nome para cumprir as minhas obrigações e, por isso, preciso localizá-lo. Mas não vamos perder tempo. Arregace a manga para as duas injeções de praxe, por favor.
Depois das duas picadas, o gosto meio azedo da carambola em suco para a ingestão dos medicamentos.
— O senhor vai querer jantar agora?
— Mas eu comi há tão pouco tempo. Ou as coisas se passaram de tal modo que eu perdi a noção até da minha digestão?
— Se não estiver com fome, é bom não comer, porque logo o Doutor Adão virá para completarem o passeio que o desmaio interrompeu. Aonde é que os dois iam mesmo?
— Eu queria ir visitar o necrotério mas disse ao médico que desejava ir ver a maquinaria dos porões.
— Não me peça para acompanhá-lo porque há outros pacientes à minha espera. Aliás, devo retirar-me agora.
Adonias não pôde deixar de reparar em que os olhos da enfermeira, de novo, demonstravam que se emocionava. Desta feita, prendeu-a pelo braço e a interrogou:
— Por que você tem chorado em minha presença? Até parece que você sabe de alguma coisa muito grave acontecendo comigo. Estou prestes do fim? Você se penaliza com a minha situação? Recorda-se de que nem fiquei sabendo que estive preso neste hospital por nove anos inteiros e você não me disse nada a respeito? Por que essas lágrimas? Saiba que o meu interesse é sincero.
Alice se limitou a afagar o rosto do paciente, olhando-o demoradamente dentro dos olhos e saiu sem dizer nada.
Adonias é que se intrigou com aquela expressão dulcíssima do mais profundo respeito e consideração. Se algo havia em sua saúde, não seria através de Alice que ficaria sabendo. No entanto, aquele olhar continha mistérios a serem decifrados, porque lhe pareceram a mais pura reprodução de um outro olhar antigo, armazenado nas profundezas da memória.
“São reminiscências femininas. Seria eu capaz de fazer desfilar, como fiz com todos os itens de O Livro dos Espíritos, como...”
De novo perdeu a linha lingüística da exposição íntima, contudo, desta feita, os pensamentos se ordenaram conforme se havia proposto a executar o ato da recordação, passando-lhe pelo quadro que se formou no fundo de sua consciência, quadro colorido e luminoso, todos os olhos femininos de sua vida. Estava adentrando o convento das irmãs beneditinas, quando cruzou com aqueles olhos verdes, inesquecíveis:
“Irmã Alice. Nem mais nem menos. E me disseram que havia morrido. Deixou o hábito, isso sim, e veio para um lugar em que não deve se entregar tanto às orações, interessada em ajudar a quem precisa. Eu bem queria estar no lugar dela, porque o que produz é real, é concreto, enquanto a minha atuação é impossível de medir-se, a não ser pelo testemunho esparso de alguns fiéis a quem minhas palavras repercutiu e que terminaram por gostar de mim, o Homero, o Valério, o Vicente...”
Nesse ponto, pôs reparo em que voltara a pautar os pensamentos através de construções lingüísticas bem definidas. Mas fez a observação na velocidade com que desfilou os olhares. Então tornou estática a imagem antiga, pondo ao lado dela, como vira ocorrer na tela do computador, a foto atual, de forma que pôde cotejar as lembranças, definindo as transformações ocorridas no semblante da moça. Mas a sua curiosidade redundou num grave problema, porque lhe estava parecendo o retrato atual muito mais antigo que o outro, no cotejo das idades da pessoa representada:
“Nem parece que o tempo teve algum transcurso para ela. Ao contrário, a impressão que me passa é de que tenha rejuvenescido. Renato, ao menos, cresceu. Ela regrediu para melhor, se é que eu posso dizer assim. Então, eu devo concluir que as suas lágrimas possam estar relacionadas ao fato de eu não na haver reconhecido, quando, naqueles dias felizes em que estava de bem com a Santa Madre Igreja, tínhamos longas tertúlias, conversando sobre a vida de Jesus, evitando falar das coisas tristes, cada um de nós dando relevo à pureza e à castidade do moço judeu, numa eloqüente demonstração de que nós dois tínhamos de preservar os nossos votos de castidade, por amor ao Filho de Deus feito homem.”
Ocorreu-lhe que Alice poderia ter-se apaixonado por ele e que, em vista desse pecado da carne, não tendo vencido a tentação, após muito purgar os sofrimentos de uma vontade que não se deixava subjugar pelo espírito de religiosidade, tendo deixado seu corpo definhar em miseranda doença, conseguiu forças para se internar na Igreja Cristã, onde se recuperou para nunca mais voltar à sua congregação.
Quando olhou para o relógio do salão foi que percebeu que ficara ali mais de três horas a meditar sozinho, sem se dar conta de que as pessoas entravam e saíam ruidosamente e de que estava ficando com fome.
Dirigiu-se à máquina eletrônica, passou o seu cartão magnético e foi até o balcão para receber a bandeja. De fato, mecanicamente, as bandejas vinham saindo de uma espécie de corredor apoiadas em uma esteira sem fim, até que se depositavam ao longo do balcão por um processo de braços mecânicos que empurravam uma a uma para a frente, liberando-as da esteira.
Em pouco tempo, estava de volta a uma das mesas desocupadas, para efetuar sua refeição balanceada. Havia alguns copos hermeticamente lacrados com sucos frios. Havia uma tigela de sopa quente, mais caldo do que creme, feito de vários legumes. Havia também um pequeno prato de macarrão tipo espaguete, com molho branco, coberto de queijo ralado gratinado, como o prato da berinjela anterior. Mas a refeição era bastante frugal. Foi quando se recordou da comida que a mãe estava preparando e de uma das razões de se ver impelido a fugir dali.
Estava nesse vaivém rememorativo, quando apontou a figura de Adão à porta em frente.
Adonias se sentiu um tanto incomodado. Do mesmo modo que se conteve diante de Alice, fez perante o médico, acrescentando um item ao seu arrazoado para aquietar-se: sensibilizou-o o interesse do outro por tratar dele com tanto desvelo e consideração, pondo toda sua ciência a serviço de sua cura, dando-lhe, inclusive, uma esperança de consignar seus ideais de vida bem de acordo com o que ele mesmo teria sido capaz de imaginar como a melhor das posturas intelectuais, ou seja, fazendo-o prosseguir em sua pregação religiosa, abrindo-lhe uma perspectiva de resultados mais categóricos, pela possibilidade de acompanhamento dos alunos, avaliando-os no sentido de perceber se estavam recebendo todo o influxo de seu amor, em nome de Jesus.
Foi um átimo de segundo, mas Adonias soube examinar com absoluta clareza todos os sentimentos e todas as idéias que aquelas rapidíssimas reflexões lhe proporcionaram.
Antes que Adão chegasse, já Adonias se levantara e fora abraçar o médico.



19. NO NECROTÉRIO

Separados do longo amplexo, pôde Adão manifestar-se:
— Alice me contou o seu desejo de ir ao necrotério. É passeio que nós só recomendamos às pessoas capazes de se manterem isentas de chiliques, que a visão ali gera imensas tristezas.
— Não sei por que uns cadáveres...
— Não são os cadáveres, meras carcaças materiais em decomposição. São as pessoas que entram para reconhecerem os corpos e que não se contêm diante da morte. O sofrimento, muitas vezes, contamina e se espalha em ondas que eu só não diria físicas porque são também emocionais.
— Nos meus dias efetivos de sacerdote, tive oportunidade de encomendar muitos corpos e de amenizar as dores morais de muitos parentes aflitíssimos. Acho que não perdi a minha fleuma; antes, nestes últimos tempos, tenho criado uma certa crosta sentimental, tanto que vou passando adiante ao ver pessoas...
— Conte um caso específico.
— Hoje mesmo me condoí ao ver uns rapazelhos a fumar craque debaixo de uma ponte e o máximo que fiz por eles foi orar em silêncio, solicitando dos anjos de plantão que cuidassem dos petizes.
— Acho que foi um bom exemplo, mas, para mim, apenas significou que você tomou consciência de que nem todas as soluções estão nas mãos da gente, ainda mais porque existem seres vigilantes encarregados, mais ou menos, da segurança vital de cada um. Esse mais ou menos corre por conta da necessidade de se respeitar o livre-arbítrio de cada um e o espectro de seus débitos. Se Jesus julgasse que seria um benefício para a humanidade, não se esforçaria por sofrear todos os atos indignos que as pessoas praticam umas contra as outras?
— Segundo Kardec ou os espíritos que lhe ditaram as famosas respostas...
— Muito bem!
— ...ninguém volta atrás no caminho evolutivo que percorreu, ou seja, sempre se tem uma nova oportunidade de se aprenderem os fatos da vida. Lastimável é quando o organismo perece sem que a mente tenha adquirido as mínimas noções do amor, da solidariedade, das virtudes em geral. Neste caso, é uma pena que caiam nas profundezas do báratro.
— Mas, como você mesmo disse, de onde podem voltar...
— Reencarnação? Eis algo difícil de engolir e muito mais de digerir. No entanto...
— Se você quiser ir visitar o necrotério, eu preciso prepará-lo para não ocorrer de novo o que aconteceu na biblioteca. Vamos prevenir para não ter de remediar.
— Vou tomar algum tranqüilizante?
— Vamos providenciar um sedativo bem leve, que não cause sonolência. Um paliativo para algum desfalecimento natural em quem não está habituado ao espetáculo da descoberta capital da morte e do morto. Para isso, vou convocar Alice e Anésio, que se encontrarão conosco lá.
Enquanto caminhavam até o elevador, Adão conversava pelo telefone celular, de modo que, quando se depararam no andar em que se situava o necrotério, lá já estavam o médico e a enfermeira.
Adonias formalizou um cumprimento ao médico do cérebro e sorriu o mais meigamente que lhe foi possível para a enfermeira, que lhe correspondeu ao gesto afetuoso.
Então, coube a Adão fazer as honras da casa:
— Nós vamos entrar por um longo corredor e você irá reparar que há muitas salas de espera onde se encontram pessoas convocadas para o reconhecimento dos corpos. Existem alguns cadáveres que estão conosco há muito tempo, refrigerados para não se deteriorarem, à espera de identificação, porque já passou o tempo em que os desconhecidos eram enterrados como indigentes. Hoje em dia, os exames do D.N.A. propiciam cem por cento de segurança quanto à identidade, caso tenhamos possibilidade de cotejo com algum vestígio somático resguardado, um fio de cabelo, um pedaço de unha, u’a mancha de sangue etc.
Enquanto Adão explanava, Anésio corria os olhos na relação das pessoas à espera de serem chamadas. Foi assim que chamou a atenção dos demais:
— Temos aqui um exemplo que poderá elucidar o interesse do nosso sacerdote. Trata-se de um acidentado na linha férrea. Espetáculo horroroso para qualquer um, que dizer para o pobre que irá deparar-se com o defunto!...
Adão quis sentir até que ponto ia a curiosidade do padre:
— Quer arriscar esse caso?
— Qualquer um.
— Então tome esses comprimidos que Alice lhe trouxe.
Eram duas cápsulas transparentes, uma com conteúdo vermelho; outra, com conteúdo azul. Ao apanhar os medicamentos na palma da mão, Adonias sentiu um certo frêmito a partir do contato, como se estivessem carregadas de eletricidade. Mas calou a impressão que teve, com medo de que pudessem considerar indício de transgressão do princípio da fleuma que havia anunciado.
Tendo tomado o medicamento, aguardou algum efeito sedativo. No entanto, o que lhe ocorreu foi exatamente o contrário: ele como que despertou para a realidade circunstante, como se todos os seus sentidos se aguçassem.
Não resistiu e confessou aos médicos:
— Estou sentindo-me muito mais plenamente, como se tivesse recebido uma alta dose de estimulante.
Anésio foi quem esclareceu:
— É essa a reação desejada, pois queremos vê-lo mais cônscio de suas reações, para poder subjugar o que poderia constituir-se em fonte de excessivo estresse. Estimulando os centros de capacitação da vontade, caracterizamos melhor a entrada das informações que devem ser bloqueadas antes de causarem prejuízos. Não é verdade que o estado de melancolia, por exemplo, gera certa apatia e, portanto, uma abertura para as más influências? Não é verdade que o efeito das drogas em geral é alienante, de sorte que se liberam de vez as más tendências, tanto que muitos criminosos precisam dopar-se para praticarem seus crimes e, quando não no fazem, é porque a reação orgânica libera determinados produtos químicos que exercem o mesmo efeito?
Adonias se surpreendia com a facilidade com que ia absorvendo as explicações de Anésio, muito diferentemente do que lhe ocorrera durante o último exame. Chegou mesmo a se arrepender de tê-lo chamado de enfadonho, mas não teve tempo para outras considerações, pois ia sendo encaminhado para o saguão em que havia um número inimaginável de gavetas hermeticamente fechadas, onde, concluiu ele, deviam estar guardados os cadáveres.
Realmente, foram logo introduzidos naquele ambiente silencioso três pessoas, um médico, uma jovem médica com a pessoa indicada para efetuar o reconhecimento. Não havia nenhum funcionário encarregado de abrir e fechar a gaveta, de modo que coube ao médico acionar o botão que efetivou a extração mecânica do corpo desnudo para a frente do infeliz interessado.
Adonias se concentrou na observação do cadáver, querendo avaliar se a visão do desastre ferroviário lhe causaria algum transtorno psíquico. De fato, não era nada agradável o que via: uma pasta de carne e de ossos que só não estava esvaindo em sangue porque congelada. Foi quando ouviu um grito lancinante que se voltou para a pessoa amparada pela doutora. O desgraçado reconheceu o defunto, evidentemente, embora a Adonias não representasse ser possível que alguém pudesse dizer quem é que estava ali embalsamado.
Mas tudo se passou muito rapidamente. A pessoa que se desesperava de início, encostou o rosto no ombro da médica, enquanto se recolhia o cadáver ao sepulcro provisório. Depois saíram, restando a Adonias uma pergunta que considerou sublime, no sentido de perceber a razão que levara os companheiros a tomar a atitude que tomaram:
— Por favor, Adão, ou o senhor, Doutor Anésio, digam-me por que é que permaneceram os dois extáticos, deixando todo o problema do atendimento do coitado para os outros?
— Porque, disse Adão, a nossa preocupação é com você. Nós não nos habilitamos em relação ao espectro das possíveis reações daquela pessoa, mas os médicos que atendiam, sim. Desse modo, somente sob solicitação deles é que atuaríamos. Isso responde à sua pergunta?
— Responde. Mas eu gostaria de saber como é que foi aquele defunto reconhecido. Não vi nada que pudesse levar o outro a identificá-lo.
Anésio se adiantou:
— Existem traços pessoais que se fixam na mente de tal forma que uma unha mais ou menos abaulada é suficiente. No caso em tela, o sujeito reconheceu previamente as roupas, de sorte que se concentrou em alguma característica muito própria, como formato das pernas e dos pés, dos dedos das mãos, da cor dos cabelos, algo que só ele mesmo poderia conhecer.
Adonias insistiu:
— Sei que vocês não estão preparados para isto, mas, se meu pai estivesse aqui, me seria dado reconhecê-lo?
Adão:
— Perfeitamente. Vamos sair até o terminal do computador que podemos pedir a informação correspondente.
Adonias sentiu uma espécie de calafrio que disfarçou. Teve receio de que pudesse estar na pele do infeliz.
Enquanto Adão pesquisava no aparelho eletrônico, Anésio, ajudado por Alice, media a pressão e fazia a contagem dos batimentos cardíacos do padre.
— Meu amigo, disse Anésio, você se deixou alterar um pouco. Não seria o caso de sairmos?
— É que eu mesmo me deixei surpreender por uma possibilidade funérea. Mas acho que vai passar logo.
Adão acrescentou:
— Vai passar quanto ao fato de saber que o corpo de seu pai está no jazigo perpétuo de sua família. Eis aqui a data do falecimento dele, que, se não me engano, se deu alguns dias após a sua internação aqui na Igreja Cristã.
Adonias aproximou-se dos dados da tela, percebendo que, exatamente três dias depois de haver saído de casa, o pai morrera. A causa da morte não estava assinalada, mas também não havia lugar para esse registro. Foi quando resolveu perguntar a Adão:
— Podemos saber de que morreu meu velho?
— Podemos e não podemos. Tal informação somente é liberada em caráter sigiloso, por determinação judicial. Você não quis perguntar para sua mãe?
— A notícia me deixou meio estupidificado. Agora mesmo, se não fosse o remédio que tomei, poderia dizer que essa data deveria contristar-me deveras, ainda mais porque, algumas noites antes, eu havia sonhado com meu pai, que me recomendava para tomar cuidado com esta instituição. Mas, como foi apenas um sonho, não dei importância ao fato.
Foi Anésio quem fez o próximo convite:
— Está disposto a ver um rapazote de dez anos em um reconhecimento?
— Não existe nenhum parente maior de idade para isso? Por que deixar uma criança em possível estado de choque?
Anésio:
— Somente são admitidos neste setor pessoas com inteiro domínio de si mesmas. Antes do efeito emocional mais forte, como estamos fazendo com você, por solicitação imperativa de sua vontade, demonstramos a dor de outras pessoas e analisamos as reações de cada qual. Esse garoto passou por uma preparação eficaz, com certeza. Quer comprovar?
De volta ao saguão, já lá se encontravam um rapazinho e seu acompanhante, senhor de certa idade, muito bem vestido, com o indefectível crachá na lapela.
Os médicos acenaram respeitosamente, mas o distinto senhor se aproximou deles, fazendo questão de abraçá-los, sem esquecer de estalar nas faces de Alice os três beijos da praxe.
Adão fez as apresentações:
— Doutor Félix, este é o nosso amigo, Padre Adonias, que está em vias de se integrar ao corpo docente da casa, na qualidade de superior do Departamento de Teologia Cristã, emérito que é nas Escrituras Sagradas.
O outro estendeu a mão e desejou-lhe boa sorte nas próximas iniciativas. Desculpou-se dizendo que estava atarefado, elogiou a coragem de Adonias em enfrentar a dura passagem do reconhecimento, pediu a todos que orassem pelo rapaz, não que precisasse mas que um reforço de assistência etérea sempre haveria de ser muito bom.
Estranhamente, Adonias quase não ouviu as palavras ditas pelo outro mas as compreendeu muitíssimo bem. Considerou que seus sentidos estavam afiadíssimos e pôs-se em oração, juntando-se ao coro de seus três acompanhantes, num suave padre-nosso.
Nesse instante, ouviu um longínquo cantar de muitas vozes, harmonioso coro que fazia o ar fremir em paz, dando-lhe ao coração um bem-estar que há tempos não sentia. Tentou decifrar o sentido dos versos, mas pareceu-lhe que não havia letra inteligível, ao menos para o seu conhecimento lingüístico. Também não se deu conta de que se tratasse de latim nem de qualquer das neolatinas.
Nesse meio tempo, Félix abraçou o menino e acionou a gaveta que trouxe para fora o corpo de uma criança de, no máximo, seis anos, quatro ou cinco anos mais nova que o jovenzinho ali presente. Este, não dando demonstração de tristeza, apenas afagou os cabelinhos do corpo sem vida e beijou as mãos de seu protetor, num gesto do mais profundo agradecimento.
Adonias aproximou-se do cadáver e pôde observar os mesmos traços familiares da criança ali presente cheia de vida. Foi quando lhe perpassou pela memória uma figura absolutamente insólita para aquele momento, talvez trazida ao consciente pelo fato de também ele, o Renato, ser um rapaz bastante novo.
Enquanto o velho e o mocinho saíam, Adonias como que se refez de um pensamento mórbido que fazia questão de apadrinhar. Passava-lhe pela mente a possibilidade de estar ali para um reconhecimento definitivo. Então, desejou estimular uma resposta dos presentes:
— Eu bem poderia supor que um irmão mais velho tivesse vindo comprovar que aquele defuntinho era de um querido membro de sua família. Mas, em se sabendo que o tempo aqui marcha para fornecer aos jovens um crescimento adequado ao seu cabedal bioenergético, segundo a programação física de seu organismo... Em suma, juntando as coisas, eu acho que não se tratou, nos dois casos que presenciei, de um reconhecimento mas de uma confirmação. O mais velho se viu diante de um desastre; o mais novo, se contentou com as informações que recebeu, conforme aquele plano de assistência a que vocês se referiram. Eu mesmo não tenho como duvidar de que o atendimento que se presta aqui para qualquer dos internados é de superior qualidade. Sendo assim, os fatos, sabendo que o tempo passa para todos, pondo em relevo a própria organização corpórea de forma até mais lenta, às vezes, trazendo, ao contrário, mais mocidade aos que são mais velhos, me levam a concluir que esta instituição é uma daquelas que agasalham os seres que se despedem da vida e que têm boas perspectivas de um crescimento condigno, porque não se abrem as portas do inferno para ninguém, como permanecem fechadas as do céu, porque nem pensar em se permitir que seres imperfeitos freqüentem o paraíso. Esta música divina que estamos ouvindo me põe em êxtase para orar agradecido ao Pai por tanta misericórdia, ao me trazer o mais suavemente possível à compreensão de que passei pelos portais da morte, em um passado que não estou apto a dimensionar. Se vocês quiserem aceitar a minha manifestação de intenso agradecimento, apogeu que me é possível neste feito da mais pura concepção da verdade, atendam o meu pedido de perdão por tanto trabalho que lhes dei, pois estou entendendo agora qual era o bloqueio que me impedia de vasculhar os arcanos de minha memória, durante uma temporada em que não me interessava saber que estava atuando em outro campo vibratório. Sei que vão abrir uma portinhola e expor o meu cadáver. Tudo bem. Não terei para com ele mais do que comiseração por ter deixado a vida tão cedo.
De repente, pareceu a Adonias que, se continuasse, colocaria para fora todas as dúvidas em que se transformavam as passagens existenciais longe do corpo denso. Percebeu que sozinho não daria conta de responder a todas. Achou inexpressiva sua manifestação de agradecimento e sentiu que corria o risco de desfalecer. Mas se recordou de que estava sob efeito de um poderoso elemento magnético ou energético, que não sabia definir de que se tratava, de modo que acabou por compreender que a supremacia do intelecto estava sendo induzida para seu próprio benefício.
Quase insensível para os eventos de caráter fundamental para seu destino dali para a frente, simplesmente abraçou demoradamente cada um dos três companheiros, terminando por acionar ele mesmo um botão qualquer na parede, crente de que, qualquer que fosse, revelaria o seu próprio cadáver.
De fato, abriu-se a portinhola e de lá do fundo saiu um corpo vestido com batina. Era ele mesmo, ou melhor, o que fora no momento do desastre, porque falecera vitimado por acidente automobilístico, recordação que lhe veio por inteiro naquele instante, sem dor alguma, a não ser um forte desconforto quando lhe ocorreu que o motorista não era ele.
Imediatamente, Adonias se desinteressou pelo cadáver, apertando de novo o botão para que se recolhesse o mecanismo e ameaçou encher de questões os parceiros. Mas, seja porque houvesse terminado o efeito dos comprimidos, seja porque lhe surgia na mente uma presença querida a seu lado na cena final da vida, a verdade é que mal teve tempo de ser amparado, sem consciência de que eram outros os fatores que o mantinham no círculo existencial em que se encontrava.
Iria acordar em uma daquelas salas em que se recolhiam as pessoas antes e depois da identificação. E sua primeira expressão foi:
— Pai, meu pai no mundo, que dor você deve ter suportado por ter provocado a morte do filho de seu coração!



20. A REBELDIA ESQUECIDA

Adonias olhou em torno de si como a confirmar sua própria existência, tendo em vista, pensava ele, que emergia do nada, a partir do fato de que se ausentara de si mesmo e fora para um local de onde não trouxera recordação. No entanto, sabia que algum tempo decorrera, porque não mais se encontrava no salão dos reconhecimentos. Foi quando se emendaram as lembranças e a figura de seu pai Fernando lhe surgiu mais veneranda do que nunca.
Adonias se viu deitado num banco tosco, com a cabeça apoiada no colo da enfermeira Alice. Adão, de cócoras à sua frente, segurava uma seringa vazia, como se terminasse de lhe aplicar alguma substância revigorante. Foi quando tentou apanhar o braço do amigo que percebeu uma estranha sensação de impotência. Fez um esforço muito grande para se sentar mas não conseguiu mexer um único músculo.
De onde estava, seu campo de visão incluía o sorriso generosíssimo da bondosa freira, cujas feições, mais que nunca, recuperavam as da mocinha com quem praticara tantas vezes. Não tinha mais dúvida quanto a ser Alice, a enfermeira, a mesma pessoa.
Tentou acariciar os cabelos que pendiam até tocarem o seu rosto mas foi impedido pelo total impossibilidade de estender o braço na direção desejada. Volveu o olhar para o restante de seu corpo e não foi capaz de perceber nada além de um vulto que se estendia sobre o banco. Num esforço sobre-humano, olhou para o fundo dos olhos da amiga, transformando-os em espelhos, para identificar a imagem que ali se refletia. Notou apenas um ponto de luz, não distinguindo nada parecido a um rosto, a uma cabeça, a uma pessoa.
Fechou imaginários olhos e refletiu numa só frase fundamental de seus conceitos religiosos:
“O homem foi criado à imagem e à semelhança de Deus, mas essa criatura não corresponde àquilo que resulta da união da alma com o corpo. Essa imagem do Senhor, eu deveria ter acreditado sempre, era apenas um foco de esplendor luminoso, cuja pálida concepção estou podendo efetuar a partir deste ser que sou hoje, despojado do invólucro carnal, sem forma definida, puro pensamento ou inteligência, segundo o que os espíritos disseram a Kardec, cuja teoria sou forçado agora a reconhecer como correta. Se me deram O Livro dos Espíritos para responder às minhas perguntas, sabiam o que estavam fazendo, de sorte que, se me concentrar nele, terei muito em breve superado esta ilusão da mais completa imaterialidade, porque me revestirei, ou melhor, porque dominarei o envoltório fluido denominado de perispírito que me serve de trajo neste ambiente ainda muito denso próximo ao círculo terrestre. Vou manter-me quieto, sem desejos estruturados segundo as premissas existenciais corpóreas dos encarnados, para volver a minha recordação aos tempos anteriores à minha vida de padre, porque, a crer no espiritismo, eu devo ter vagado por estas paragens através de milênios, muito embora tudo deva levar-me a crer em que jamais meu nível evolutivo haja contemplado nada tão adiantado quanto este meu espírito de agora. Eu sei que os meus sentidos deverão estar bem mais aguçados do que justamente nos instantes em que me sentia em pleno domínio deles e isto ultimamente, quando estava morto e não sabia. Tenho de compreender que o fato de assumir a consciência da morte, ou melhor, da existência em uma vida muito diferente, haverá de representar um passo adiante no sentido de me propor uma figura semimaterial adaptada ainda melhor ao viver em contato com os seres que me são semelhantes. Ora, se tenho o poder da visão, esse poder não deve ser único nem estar localizado no meu ser num ponto equivalente ao sistema orgânico constituído de esferas oculares, de retinas, de aparato orgânico transformado em filamentos elétricos cujos impulsos iam imprimir as informações, recebidas através dos fótons, ao centro nervoso do cérebro capaz de decifrar as mensagens de imediato, como o fiz vendo Adão e Alice. Acho que sinto também o hálito delicioso que a jovem expira sobre mim, mistura sagrada de seu perfume de donzela e de seu tépido e sutil toque de ar atmosférico. Preciso sentir na boca, ou em algo que a configure, o gosto de minha saliva, se possível impregnada do gosto do medicamento que se espalha por todo o meu sistema sangüíneo ou linfático, que agora não estou em condições de examinar com propriedade científica seja o que for. No entanto, prestando atenção, sou capaz de perceber que tenho uma língua a investigar a textura dos dentes e do palato ou céu-da-boca, conforme a maneira popular de dizê-lo. E esta música suavíssima...”
Foi quando reparou que o suspirar de Alice e até as suas batidas cardíacas estavam ficando distintas para seus ouvidos. Abriu os olhos e avaliou que sua visão se localizava como se possuísse ainda uma cabeça recostada no colo da enfermeira. Desejou esfregar os olhos e fê-lo sem dificuldade, verificando que as mãos mantinham o mesmo molde de quando era vivo e de quando pensava estar vivo.
Nesse momento, desejou sentar-se, conseguindo realizar todos os movimentos sem nenhum esforço físico penoso. Sua sensação foi de que só agora estava acordando do desmaio, mas refugou essa idéia, consciente de que passara por um fenômeno de recuperação de identidade espiritual ou espírita, conforme lhe ocorreu que Kardec lhe teria sugerido a palavra se estivesse ali presente.
Apanhou a mão da enfermeira e beijou ternamente, umedecendo-a de lágrimas, fazendo o mesmo com a mão do médico. Ajoelhou-se, suspendendo a batina branca que estava vestindo, sem surpreender-se por estar trajando-a, porque fora a imagem de sacerdote que se fixara mais arraigadamente no pensamento, crente de que poderia trocar de roupa por um ato de sua vontade, e agradeceu ao Pai o benefício de uma transformação tão isenta de sacrifícios e de problemas. Assumira o controle de suas emoções, sabendo que havia subido um degrau na longa escadaria evolutiva.
E disse a prece que deveria considerar a mais estremecida de toda a sua existência:
— Senhor, eu não sei direito como é que devo saudá-lo neste meu agradecimento pelas luzes que tenho recebido de sua Providência Infinita. Muito obrigado, Pai, por me haver cumulado de tantos bens e de tantas prendas pessoais, sobretudo, por me haver concedido a bênção de tantas amizades e de tanta gente bondosa que me estima e que me ouve. Mas não desejo pedir por mim mesmo, porque, aquinhoado de tanta misericórdia, eu bem vejo que pouco tenho trabalhado pelos seres deveras infelizes que me têm estimulado à prece por eles e por quantas pessoas estejam favorecendo a sua condição de extrema miséria moral e física. Entendo, Senhor, que cada pessoa é responsável por si mesma, mas não posso deixar de observar que são muitos os que coagem os irmãos à prática dos crimes mais nefandos não só contra os outros, mas também contra seus próprios organismos, condenando-se a mais e mais existências de profundos sofrimentos, em todas as esferas. Constitua-me, Pai, meu Deus e Criador, numa pessoa esquecida de mim e dê à minha constituição intelectual os recursos supernos de compreensão dos deveres morais que toda criatura deve conhecer para ser o esteio de seus irmãos. Faça-me uma entidade integrada no serviço de benemerência desta Igreja Cristã de sua sacratíssima misericórdia e me possibilite atender, desde logo, as pessoas a quem amo e que precisam de algumas palavras de conforto e de incentivo. Peço-lhe perdão por me dirigir diretamente ao meu Pai que está nos céus, quando deveria pedir a intervenção dos espíritos de luz, dos espíritos mais perfeitos, de meus anjos da guarda e de meus protetores, que devem ter o direito, bem mais que eu, de se dirigirem à Suprema Inteligência, causa primária de todas as coisas.
Adonias desejava estender-se mais em sua prece mas esbarrou com uma dificuldade invencível, qual seja, a de que, para efetuar um pedido digno de ser atendido, tinha de obter mais recursos dentro dos parâmetros que a sua nova condição existencial lhe pudesse fornecer. Foi por isso que olhou com a mais profunda solicitação de apoio e de comiseração para o amigo médico e lhe requereu uma prestação de serviço cuja magnitude colocava no céu, entre as estrelas:
— Adão, por favor, explique-me por que, em sendo eu lúcido e até certo ponto inteligente, não consegui atinar sozinho com o fato de estar morto há tanto tempo. Não há aí uma situação existencial orientada por algum espírito que vem evitando que eu me degenere, no sentido da percepção muito maior dos males do que dos benefícios oferecidos aos seres que progridem?
Adão e Alice se entreolharam e sorriram com uma alegria incomum. Coube a Alice responder:
— Se o nosso bondoso Padre Adonias nos permitir, iremos deixar para depois as respostas a um interrogatório que vai demorar muito tempo para concluir. Atrevo-me a responder porque preciso que me ouça um pouquinho, já que reconheceu em mim a mesma pessoa de sua convivência em vida. Apesar de nossos liames afetivos, soubemos respeitar as diretrizes eclesiásticas que nos obrigavam à castidade, de sorte que, em nossas reflexões eivadas de sentimentos religiosos, púnhamos o amor ao Pai acima de todas as coisas, conforme sabíamos que Jesus nos havia insistentemente recomendado. Antes, porém, de responder a respeito do véu que lhe ocultava a própria consciência da natureza da existência que levava no etéreo, é preciso considerar que muitas das respostas facilmente são encontradas nas obras básicas que você deixou para depois. Sendo assim, como já está chegando o momento de sua primeira palestra, é de todo recomendável que se dedique a uma leitura organizada e séria dos livros fundamentais que lhe denunciarão as estruturas que mantêm o nosso sistema em pleno funcionamento. Faça do mesmo modo que em relação às informações colhidas em O Livro dos Espíritos, deixando para mais tarde as questões que se originarem desses estudos. Quanto a mim, devo dizer que preciso despertar-lhe algumas emoções esmaecidas sob os escombros dos últimos insucessos vitais, porque não demorará para que você pergunte quem fomos nós anteriormente à pregressa existência corpórea. Aí, os mistérios tenderão a crescer, porque a sua memória deve desbloquear-se à medida que for resolvendo os problemas advenientes dos postulados incompletos de cada circunstância vivida antes e depois do fato da morte, Mas existe um termo importante na sua questão, qual seja, o da inteligência. Acho que é bom que medite a respeito do que representa para o despertar da consciência o fator intelectual, bem como o sentimental, propugnando-se, como questão, o seguinte dilema: se o que vem antes é a expansão dos conhecimentos, ou se é a aquisição intuitiva do mundo em que o indivíduo se insere e que se vê na necessidade de dominar, para viver em harmonia com os preceitos e leis que o regem. Sei que o meu paciente talvez venha a se surpreender que tenha sido esta modesta coadjuvante de sua reintegração ao plano existencial de além-túmulo quem lhe proponha uma diretriz de metodologia tão complexa, para a absorção das primeiras verdades ao seu alcance, neste ambiente diferençado, contudo, faço-o por expressa recomendação dos mentores desta colônia espiritual para que demonstrado fique, definitivamente, que os problemas devem ser circunscritos e resolvidos um a um, sem atropelo, na confiança de que o Pai nos irá assegurar a felicidade de encontrar as melhores respostas, correspondente ao desenvolvimento espiritual que formos aperfeiçoando. Está confuso? Pois saiba, meu amigo, que a sua capacidade de retenção está desobstruída, de forma que, ao se vir só, vai encontrar todas as minhas palavras reproduzidas de forma absolutamente clara, segundo a ordenação que sua própria feição mental preferir dar-lhe. Desculpe-me a precariedade das informações e o fato de não lhe responder diretamente à questão que nos propôs, entretanto, posso solicitar-lhe que atente para a própria indagação, porque a resposta você já tem armazenada na memória, desde que sabe tanta coisa de cor. O que é indispensável neste instante é sair deste edifício, para percorrer os locais por onde você tem andado desde que deixou o corpo denso da matéria, a fim de caracterizar, de modo claro e insofismável, o que você via, dando-lhe a definição de suas substâncias quanto a pertencerem à crosta do planeta ou à faixa do etéreo em que nos situamos.
O jorro de informações não teve o condão de alhear a mente de Adonias. Ao contrário, sorveu com muita ganância tudo o que lhe disse a enfermeira (ou seria a irmã de caridade?) e se propôs a, obedientemente, atender a todas as indicações de atividades, a começar pelas andanças do lado externo daquele templo (ou seria toda uma instituição espírita, nos moldes das cidades descritas em algumas obras mediúnicas que lhe vinham claramente à memória?)
Com muito receio de estar sendo, ainda, um peso para seres de tanta luminosidade e conhecimento, perguntou:
— Será que merecerei que me acompanhe alguém esclarecido quanto à realidade que deverei desvendar?
Foi Adão quem lhe respondeu:
— Faz tempo que você não tem andado por aí sozinho. Caso esteja temeroso de nos dar trabalho, esqueça. É essa a nossa obrigação primacial, porque, antes de sermos guias ou guardiães, temos de nos diplomar socorristas. Sendo assim, mesmo que você saia aparentemente desacompanhado, sempre que precisar de esclarecimentos oportunos, será suficiente pensar em quem poderá responder e logo obterá o que julgar necessário para prosseguir esquadrinhando o mundo aí fora. Responderemos por um processo mais ou menos parecido com a idéia que você faz da telepatia e que nós preferimos aproximar dos procedimentos das telecomunicações, porque nos utilizamos das ondas...
Adão sentiu que Adonias iria despertar o velho hábito das rejeições no âmbito dos conhecimentos físicos e, portanto, resolveu que deveria suspender a fala. Considerou que era melhor deixar o outro intrigado e não imerso desde logo num problema específico de sua personalidade e pôs um ponto final em sua atuação junto ao assistido:
— Vou entregá-lo às boas mãos de Alice que hoje está liberada para acompanhá-lo numa turnê a que não faltará o ingrediente indispensável da simpatia mútua, através da rememoração dos acontecimentos que ocorreram em dias felizes...
Novamente achou que era melhor não prosseguir, porque sentia que Adonias tinha a predisposição aos questionários. Por isso, encerrou, definitivamente:
— Fiquem nas mãos de Deus, porque haverão de colher algumas imarcescíveis flores de amor.
De fato, Adonias e Alice buscaram sair do prédio de mãos dadas, como se estivessem restabelecendo algo que parecia sentimentalmente poderoso.



EPÍLOGO

Adonias saiu com Alice num crescendo de felicidade, porque se ajustavam suas vibrações, segundo antigas promessas de amor e de companheirismo. Enquanto caminhavam, impulsionados já pelo poder do pensamento, a moça orientando o jovem senhor no sentido de controlar a precária volitação que ia alcançando produzir, conversavam a respeito dos derradeiros sucessos dentro e fora da Igreja Cristã.
— Quer dizer, perguntava Adonias, que eu me fantasiei de Jesus Cristo, nem mais nem menos, após o decesso? Por que faria isso, se jamais tive qualquer impulso de me tornar grande dentro da Igreja Católica? De qualquer modo, poderia agora considerar-me curado dessa loucura ou, antes, deverei caracterizar que espécie de ambição me fez um messias? Quem eram, na verdade, Marta e Maria, que transformei em irmãs que jamais tive?
— Quanto a mim, querido amigo, o que posso afiançar-lhe é que você foi surpreendido pela morte num momento muito ruim de sua vida. Eu já estava do lado de cá e apresentava condições de pleitear por você, de sorte que a sua exoneração eclesiástica se transformou em algo muito mais grandioso. Quando vivo, se você for capaz de se recordar, a sua rebeldia não foi tão grave, embora estivesse sofrendo um processo por desobediência. Mas você se recolheu ao convento e se submeteu à penitência relativa à humildade. Está lembrado disso?
De fato, à medida que os eventos eram narrados, os acontecimentos como que perpassavam pela mente, fluindo da memória. Era como se Adonias vivesse tudo outra vez. Chegou a se lembrar do dia em que solicitou para sair, pois desejava visitar a família, uma vez que a irmã iria casar-se. Na volta, tendo o pai ao volante, é que sofreram o acidente fatídico.
O acidente nem tanto mas a lembrança da discussão que estabelecera com o pai durante o percurso é que lhe oprimia o coração. Na verdade, bem pouco redargüiu às censuras do velho, mas o suficiente para deixá-lo transtornado porque via que, apesar de haver grande possibilidade de ser perdoado e reintegrado ao clero, deveria ser transferido para algum local distante como penalidade de exílio, para que se desfizessem as relações perigosas que o haviam instigado à rebeldia.
Foi num acesso de raiva que o pai conduziu o carro ribanceira abaixo, Adonias batendo a cabeça e entrando em coma, o pai, bastante ferido mas sem correr risco de vida.
Esse desenvolvimento levou o sacerdote a raciocinar que, estando o pai morto, deveria ser fácil encontrar-se com ele. Saberia Alice informá-lo a respeito da morte do Senhor Fernando?
— Não tenho idéia, apesar de desconfiar de que houve alguma tragédia, porque Adão não foi capaz de trazê-lo para a Igreja. É bom saber que somos discretíssimos quanto a vasculhar os segredos alheios, inteirando-nos dos problemas íntimos apenas quando demonstramos estar verdadeiramente interessados em melhorar as condições das pessoas a quem nos propomos auxiliar. Mas eis que estamos em sua casa e Dona Genoveva poderá nos informar, já que se trata de um legítimo direito de assistência de filho para com seu pai, mesmo havendo um possível descompasso moral entre os dois.
De fato, telepaticamente, como sempre, Adonias conseguiu entrar em contato com a mãe, que, não fosse a profunda convicção católica de sua formação religiosa, bem poderia sentar-se à mesa mediúnica de qualquer centro espírita.
Foi como Adonias ficou sabendo, pesarosíssimo, que o pai se suicidara.
— Por que é que não fui capaz de atinar com o fato de meu pai estar tentando comunicar-me sua decisão dramática quanto a acabar com a própria vida, naquele dia em que o encontrei durante o sono dele, pensando que era eu mesmo quem dormia? Pelo pouco que conheço dos processos espíritas no mundo dos desencarnados, acho que mereci uma digna proteção naquele momento, porque meu pai estava bem fundo nas trevas. Então, como é que não me dei conta da real situação de nosso relacionamento?
Alice balançou a cabeça, surpreendida por uma questão cujas circunstâncias não dominava:
— Posso aventar uma hipótese, mas apenas isso. Mais tarde, todas as respostas lhe serão fornecidas, de um modo ou de outro, quer você se dedique ao estudo das questões nas obras, ou seja, de forma teórica, quer vá estudar casos semelhantes, durante campanhas de ajuda a pessoas encarnadas com os mesmos problemas. Eu acho que Adão devia estar por detrás disso tudo, ele que foi designado para atendê-lo mais de perto.
— Por que não foi você?
— Porque as pessoas envolvidas nas mesmas faixas sentimentais, como ocorrerá com você se intentar levar avante o plano de cuidar do espírito errante de seu pai, podem apenas dar uma parcela de contribuição, como sustentação fluídica, por exemplo, através de preces e de providências secundárias, como levar e trazer mensagens, interessar especialistas (no seu caso, o Doutor Anésio), arrumar outros colaboradores, como o motorista Valério, e assim por diante. Mas a minha hipótese...
— Adão apareceu no sonho, mas agiu de modo muito estranho.
— Não deve ter agido, não. Você é quem deve ter dado esse papel a ele, para manter seu estado de alheamento existencial. Também é possível que ele não desejasse despertá-lo para a sua realidade naquela hora, preferindo esperar momento mais oportuno, quando, como se viu, você poderia reagir bem melhor.
— Que vamos fazer quanto à compreensão desses episódios?
— Vamos propor a Adão que nos elucide. O que nos importa considerar neste instante é o fato de você estar ou não sabendo reconhecer...
Adonias, ao ver o sobrinho, despertou para outra indicação de que poderia ter descoberto que estava morto:
— Você sabe, Alice, que, antes de meu pai morrer, minha mãe me informou que o meu sobrinho iria ser meu xará? Mas, quando voltei para casa, ele trazia o nome do avô. Não era indício para eu concluir que se passava algo estranho? No entanto, não dei atenção a isso, muito mais intrigado com o fato de minha mãe haver contraído novas núpcias. Isso realmente aconteceu ou é outra ilusão minha?
— Vejo que você voltou ao ponto que eu ia referir, isto é, quanto a reconhecer quem pertence a um e a outro mundo. Vamos tentar?
— Qual seria a dificuldade?
— Várias dificuldades. A primeira é perceber se o vivo está em vigília ou se está visitando esta esfera durante o sono.
— Essa eu sei resolver. Quem está dormindo e, ainda assim, se mete entre os espíritos, traz consigo uma faixa luminosa pertencente ao seu perispírito, a qual o prende ao corpo. Os vivos não são capazes, em sua quase totalidade, de ver os espíritos, logo, se me apresentar a eles e tentar conversar com eles, vão ignorar-me. As exceções são os médiuns videntes, mas esses logo vão identificando a gente e denunciando o fato, de sorte que suas vibrações são fáceis de perceber.
— Agora você disse a palavra mágica. É através das vibrações que somos capazes de distinguir uns dos outros. Quando estamos perante perispíritos somente, ou seja, perante irmãos desencarnados, os sentidos de nossas percepções se ajustam mais plenamente. Diante dos corpos animados por espíritos, a vibração que percebemos é muito mais densa.
Adonias deu a entender que assimilara a lição e eles saíram para o passeio público, para o exercício correspondente.
— Você acha que minha mãe está bem? Está mais feliz com o novo marido do que quando vivia com meu pai? Quando voltar para cá, irá ficar ao lado de quem? Ou haverá outros seres com quem se tenha ligado maritalmente em existências anteriores? Por que é que nós, você e eu, estamos juntos, sabendo que, provavelmente, tenhamos tido outros relacionamentos íntimos, com juras de amor etc., inclusive com vasta prole existência afora, e agora estamos caminhando tão sós? Algum dia, terei a possibilidade de descobrir resposta para todas as minhas perguntas, sem o risco de me perturbar com possíveis falhas de procedimento em relação a estas ou aquelas pessoas, dado que o ritmo evolutivo é crescente, mas os débitos devem ser resgatados? Ou a minha existência me redimiu de algumas falhas, enquanto devo ainda esperar a cobrança de outras dívidas, talvez até mais terríveis? Não é verdade que o meu crescimento é certo e que devo esperar o mesmo de todas as criaturas, de sorte que, em desenvolvendo o meu poder de perdoar, os outros seres também irão fazê-lo, quem sabe com maior desenvoltura, de modo que, ao suspeitar eu mesmo de estar devendo isto ou aquilo, não haverá cobrador para determinados compromissos cármicos?
Ia prosseguir nesse despejar inquisitorial de dúvidas e suspeitas, tudo mesclado, quando ambos se depararam com Marta e Maria, aquelas mesmas entidades que desempenharam os papéis de irmãs do sacerdote.
Tentou Adonias aproximar-se delas para abraçá-las mas sentiu um forte aperto na mão que Alice segurava. Estranhou mas não reagiu, porque as duas se puseram a rir convulsivamente, apontando-o com o dedo, como a figurá-lo ridículo sem as barbas e os cabelos de Jesus, naquela batina novinha, engomada, passada a ferro e lustrosa. Antes que se desse conta do que ocorria, ambas desapareceram, rindo ainda.
Perplexo, Adonias, agora carente de qualquer impulso verbal para a pergunta que todo o seu ser realizava, simplesmente olhou para Alice, que explicou:
— Eu não sabia de que nível evolutivo tais seres poderiam ser, no entanto, para mantê-lo na ilusão ou na quimera de uma fantasia, fazendo-o estacionar até mesmo numa condição de superior conhecimento evangélico, só poderiam pertencer a alguma falange de baixa categoria. Contudo, a convivência com a sua, entre aspas, santidade, deve ter-lhes sido útil, tanto que se limitaram a escarnecê-lo, quando viram que não poderiam subjugá-lo.
— Mas sempre foram tão amáveis para comigo... Tratavam de minhas vestes, cortavam minha barba, perfumavam os meus cabelos, tinham cuidados de irmãs. Acredito até que minha mãe, às vezes, deve tê-las confundido com filhas suas...
— Não se esqueça de que elas só apareciam a Dona Genoveva no plano da espiritualidade, plano que, se é de difícil descoberta para você, na qualidade de desencarnado, imagine para uma encarnada. Assim, tudo pode estar na sua mente, mesmo as considerações de sua mãe ao adotá-las como filhas e, depois, ao rejeitá-las. E se, por outro lado, elas, verdadeiramente, numa outra existência, foram do mesmo sangue dela e do seu, suas irmãs, portanto?
— Pelo menos, existem pistas para, qualquer hora, a gente ir atrás delas em serviço de atendimento perispiritual ou mesmo espiritual, para trazê-las à realidade da superior benemerência, como propugnava Jesus. O que me ficou muitíssimo evidente é que eram entidades incorpóreas.
Calaram-se ambos por bom tempo, perpassando, cada qual de seu lado, as intuições para as respostas à enxurrada de questões anteriores. Enquanto isso, sem errar, Adonias identificou a natureza material ou semimaterial de todos os seres com quem cruzaram, muitos deles cumprimentando o casal, dando evidentes sinais de respeito. Em nenhum caso, se sentiram na obrigação de um respeito acima das conveniências etéreas, porque não lhes pareceu que ninguém estivesse a merecer transferir-se de imediato para uma esfera mais adiantada.
Por fim, Alice comentou:
— Quanto ao seu interrogatório, posso resumir tudo com uma única expressão de respeito e de admiração, porque, pelo que pude sentir, houve apenas um ligeiro hiato entre a pergunta e a subseqüente resposta que a sua inteligência ia apondo a cada pergunta. Estou enganada?
— Pensando bem, eu me sinto agora em condições, ao menos, de não repetir nenhuma das questões dentro do panorama em que as elaborei. Talvez, num contexto diferente, elas reapareçam, especificamente, quando eu me deparar diante de problemas de fato, criaturas reais a se postarem à minha frente para o confronto inevitável ou para a definitiva reconciliação, hipótese esta que rogo a Deus seja a mais corriqueira. Não, eu posso dizer que você não está enganada. Todavia, a sua observação leva-me a desconfiar de que você vem lendo os meus pensamentos, ao passo que eu, simplesmente, fico na expectativa de ouvir a sua fala para saber o que vai pela sua mente. Estou enganado?
— Está e não está. Nem tudo você deixa perpassar em forma de vibrações para a minha condição particular de leitura do pensamento. Se fosse assim, seria muito fácil para nós. Eu ia falando e você só ouvindo. No entanto, se você não elabora as frases logicamente, o cruzar das idéias e das intuições, muitas vezes não disposto organizadamente através dos raciocínios lógicos, não tenho como interpretar. Por exemplo, sei que você está fazendo-me um teste, perguntando-me telepaticamente se Adão teria condições de ler-lhe todos os pensamentos. Respondo afirmativamente, mas devo adverti-lo de que os bloqueios emocionais, mas nem todos, são bem capazes de impedir uma leitura de Adão. Afirmo-lhe, também, que Anésio não teria a mínima dificuldade em conhecer tudo quanto se passa no seu íntimo. Ele só não o faz porque não haveria nenhum ganho real para você nem para ele, nesse tipo de atividade surrealista e metafísica, para dizer o menos figuradamente o que sei que você irá saber interpretar. Finalmente, peço-lhe para me poupar um pouquinho deste exercício de leitura paradigmática de sua mente, porque isto cansa e impede que eu mesma lhe proponha problemas que considero mais importantes para seu desenvolvimento, dentro do campo dos conhecimentos deste setor do Umbral.
A palavra Umbral foi o acicate com o qual Alice fez que Adonias buscasse outro tipo de interesse. Em vão, ele tentou decifrar o inteiro teor da palavra naquela circunstância existencial em que estavam mergulhados, de modo que precisou fazer uma pergunta:
— Umbral não é uma região de trevas, espécie de inferno ou purgatório, onde as almas, ou melhor, os espíritos padecem por terem sido desobedientes ou infratores quanto aos artigos das leis de Deus?
— Que tal deixarmos em suspenso alguns temas, dedicando-nos às sugestões da hora e do lugar?
— Haveremos de encontrar algo mais que nos interesse observar nesta minha peregrinação pelo mundo em que se confundem duas esferas?
— Com certeza muitos mistérios se escondem, meu caro, sem que tenhamos sequer levantado a fímbria de sua suspeita. Por acaso, você não está interessado em caracterizar aquelas criaturas pequeninas que viu a se intoxicarem debaixo do viaduto?
— Vamos até lá.
Assim que se aproximavam, logo divisaram algumas crianças naquelas atividades tão denegridoras para a sociedade humana, alguns cheirando cola, outros injetando-se cocaína, a maioria queimando fumo ou com seus cachimbos de craque. Todos absolutamente alheios à presença dos dois ex-religiosos convertidos em observadores um pouco além de curiosos, a ver se havia um meio de auxiliar os infelizes.
Foi Adonias quem incitou a amiga a lhe dar um parecer a respeito:
— Será que essas crianças estão exercendo seu direito ao livre-arbítrio ou estão estigmatizadas desde tempos remotos, condenadas a passarem através desse tipo de sofrimento, porque o resultado disso haverá de ser a dor, a morte e o arrependimento?
— Existem ali somente gente viva ou há também espíritos errantes?
— Reconheço uns e outros.
— Então, a resposta que lhe posso oferecer é a de que, após terem vivido tão mal, irão prosseguir existindo no etéreo buscando manter seus vícios. É que as personalidades se estruturam segundo paradigmas em mutação para o todo, mas que se fixam em função dos que se alheiam do conjunto e se dedicam ao dia-a-dia de seus prazeres e vantagens transitórias. E se eu lhe disser que esse agrupamento é mera representação de sua mente ouriçada para a composição de uma realidade em que você pudesse atuar de acordo com seus prismas filosóficos, sem levar em conta a verdade como um todo harmonioso?
— Querida, será que me iludo? Não se esqueça de que era bem mais fácil que Marta e Maria fossem criações minhas do que esse quadro tão triste, tão desolador.
— Pense em que seria bem melhor que esses fatos não se dessem e você conseguirá eliminá-los como preocupação. Se persistirem, é que você não está ainda preparado para enfrentar os embates socorristas, ou seja, aqueles que convocam os especialistas para o tratamento das doenças psíquicas, ou melhor, espirituais.
Adonias percebeu que havia um certo resquício de repreensão na fala da amiga e concordou em fechar os olhos, esforçando-se por debelar da mente a necessidade que ali criara de salvar, ele mesmo, a alma de cada criatura, porque, pensou bem nisso, sua formação religiosa predispunha os sacerdotes com a habilitação de perdoar e encomendar as almas para seu ingresso no paraíso. Lembrou-se de que tal poder somente teria sentido se ele mesmo estivesse apto a adentrar os portais do reino de Deus, o que, de fato, não era o que estava ocorrendo.
Quando abriu os olhos, debaixo do viaduto não havia mais ninguém. Então, orou em silêncio, apertando as mãos de Alice, como a agradecer-lhe as lições.
A companheira aguardou com paciência que Adonias terminasse, pondo-se de bem consigo mesmo, porque as acusações iam transformando-se em promessa de trabalho e de estudo. Após uns minutos, disse-lhe:
— Agora eu acho que você está preparado para enfrentar uma conversa bem mais séria com Adão, que lhe irá resolver alguns outros problemas, sempre de acordo com a sua possibilidade de compreensão. Vamos regressar ao nosso tugúrio espiritual?
Em breves instantes, adentravam o templo, que não se transformara nem um pouco, contrariando as expectativas de Adonias que julgava que, tendo consciência de seu novo estado, iria ver tudo na espiritualidade com nova acuidade visual. Lá estava o saguão de entrada e lá estavam os corredores, por onde caminharam até o elevador que subia, como da primeira vez.
Subiram ambos e logo se viram junto ao letreiro que indicava a sala do Doutor Adão, onde ainda se lia: Correção cirúrgica facial.
Entraram e se sentaram, mas não se passaram nem dez segundos e o médico entrou sorridente e afetuoso, solicitando um rápido histórico dos acontecimentos.
Quando Adonias ia começar a falar, Adão foi dizendo:
— Obrigado, Alice. A sua narrativa, como sempre, é lúcida e colorida. Quanto ao meu paciente, deve saber que o meio de comunicação mais eficaz para os espíritos é, propriamente dito, a troca de idéias, ou melhor, propriamente pensado, com perdão do gracejo fora de propósito. Mas, em breve, nós três estaremos permutando informações e demonstrando nossos sentimentos uns aos outros de maneira bem mais tranqüila. Vamos, porém, às questões finais do nosso bom amigo, antes de sua preparação para o enfrentar dos alunos. Sinto-lhe o desejo de confirmar as intuições relativas ao que seja inteligência em confronto com os ideais de conscientização. Na verdade, a partir do princípio de que Deus é a suprema inteligência, temos de admitir que também é uma consciência absoluta. Isto é elementar. Mas os homens, que participam da natureza de Deus, porque são criaturas suas, também têm uma inteligência em expansão, de modo que sua consciência vai globalizando-se aos poucos. Sendo assim, se o sujeito se recusa a ampliar qualquer dos aspectos que dariam curso a novos conhecimentos que permitiriam elaborar novos pensamentos, atingindo a descoberta de verdades cada vez mais sutis e mais extensas, estaria sustando o desenvolvimento gradual de sua consciência, limitando-se a marcar passo indefinidamente, até que, veja bem, tome consciência de que sua inteligência está prejudicando-o. Uma coisa vai imbricando na outra, de tal modo que, no seu caso, a rejeição quanto a se compenetrar da importância das ciências implica na suspensão, inclusive, dos elementos já sabidos e arquivados, porque se desestruturam as vias de acesso à memória, como ocorre quando a gente deseja recordar-se de fatos ocorridos em outras vidas e acaba totalmente bloqueado, porque não tem como entender os princípios que geraram tais ou quais procedimentos, o que só será vencido quando ousar dedicar-se com seriedade à compreensão das leis gerais que regem o comportamento espiritual. Um exemplo: o meu amigo não soube entender o flash de suas reminiscências quanto aos textos latinos ou franceses. Se tivesse a janela da memória totalmente franqueada para o seu vasculhar, iria perceber que, em uma encarnação, foi um monge copista e, em outra, um usuário do idioma francês. Como abrir todas as janelas? Com o tempo, à vista do interesse de se pôr diante de situações mais penosas que as da derradeira encarnação, onde você conseguiu praticar o bem, ajudando as pessoas, até com certos sacrifícios pessoais. Haverá necessidade de caraterizar corretamente esses sacrifícios (coloque aspas) para definir-lhes o que havia de puro e o que havia de impuro. O mais são quireras e melindres que se deixam exterminar por um bom plano de atividades voltadas para a prática do bem, até que desapareçam todos os focos de egoísmo, para que você e todos nós adquiramos condições de freqüentar um mundo melhor. Deixei para trás alguma coisa?
— Certamente, mas tenho de me sujeitar ao trabalho das descobertas íntimas, como ainda de conhecer os meandros desta instituição, aquelas diretrizes maiores que irão pôr-me à vontade perante as responsabilidades que pretendo assumir. E tenho o dever da leitura das obras que deixei para depois. Sendo assim, meu bom amigo, peço-lhe que me perdoe a ousadia de aliviá-lo de maiores preocupações relativamente a mim, porque sei que existem, sob seu encargo, criaturas bem mais necessitadas de ajuda do que eu.

Três meses depois, contados rigorosamente pelo tempo do mundo dos encarnados, Adonias fez anunciar nos quadros de avisos da Igreja Cristã da Misericórdia Divina a sua primeira conferência, sob o título: Os meus dias de Messias. E gracejava: Pelo Pastor Adonias.


Fim


Indaiatuba de 16.10 a 11.12.98.
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