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Roteiro_de_Filme_ou_Novela-->A CONFIRMAÇÃO -- 02/03/2005 - 07:49 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

WLADIMIR OLIVIER













A
CONFIRMAÇÃO











Grupo dos Cometimentos Insólitos


















Edição da CASA DO MÉDIUM

Rua Cinco de Julho, 1184
Indaiatuba — SP



ÍNDICE

Preparando o terreno .....................................
1. A notícia ................................................
2. Novidades domésticas .....................................
3. No centro espírita .......................................
4. Regozijo no etéreo .......................................
5. Os jornalistas entram em cena ............................
6. Por onde andaria Beatriz? ................................
7. Confabulação .............................................
8. Juvenal em campo .........................................
9. Oliveira .................................................
10. Nelma ....................................................
11. Encontro com Pai José ....................................
12. Graves mudanças profissionais ............................
13. Reações em cadeia ........................................
14. Acertando uns ponteiros ..................................
15. Uma página é virada ......................................
16. O encontro ...............................................
17. Repercussões .............................................
18. Antes do almoço ..........................................
19. Aquela manhã no etéreo ...................................
20. Durante o almoço .........................................
21. Naquela tarde ............................................
22. Norberto medita ..........................................
23. Um apelo e uma obrigação .................................
24. Considerações de Durvalina ...............................
25. A vida continua ..........................................



PREPARANDO O TERRENO

Voltam os membros do Grupo dos Cometimentos Insólitos, ainda sob a batuta do Professor Otávio, para dar prosseguimento ao enredo de A Transformação, obra modestíssima mas de que nos orgulhamos muito por representar um momento valioso de nosso aprendizado das técnicas narrativas.
Ainda uma vez, as personagens vêm movimentar-se no cenário do mundo de hoje, mas sem projeção universal, que o panorama que são capazes de descortinar se delimita à visão dos deveres cármicos, o que irá ampliar-se por força dos acontecimentos.
É evidente que, se interrogássemos as figuras que vão transitar perante a imaginação dos leitores, a maior parte seria capaz de definir conceitos e de expender opiniões sobre a existência como realização individual e como integração no contexto histórico. Mas essa postura deve incidir nos atos de cada instante como norma de procedimento e não como colocação meramente teórica. Sendo assim, vamos trabalhar com personagens de dentro e de fora do movimento espírita para executar uma espécie de demonstração de como repercutem nas personalidades, mais ainda, nos espíritos em evolução, as questões que vão perpassando pelos sentimentos e pela meditação das pessoas.
O mais é meramente episódico, pois o que importa, na verdade, é conhecer um pouco das humanas reações, para que nos identifiquemos com elas, quer no sentido de evitar o que reconhecermos flagrantemente em descompasso com os ensinamentos evangélicos, quer no sentido de integrar em nossos hábitos mais salutares as virtudes todas pregadas pelo cristianismo, como concepção pura e isenta do espírito de sistema, conforme nos ensinou Allan Kardec.
Estamos esperando que os leitores saiam dos textos transformados para melhor? Claro que sim, mas não por mérito nosso; por mérito de cada um, que a simples leitura, seja até dos livros mais sagrados e mais importantes, não consigna o dom de, por si mesma, efetuar as mudanças para melhor, senão que isso dependerá exclusivamente da atitude positiva que cada qual terá de ter em função de irem compreendendo, cada vez de modo mais perfeito, os desígnios do Senhor.
Poderíamos exemplificar por comparação, dizendo, por exemplo, que os pais indicam aos filhos, como norma para educá-los, o que devem ou o que não devem fazer; no entanto, isso não representa o acabamento da personalidade deles. Sem que os filhos executem as próprias experiências, jamais irão atinar com as razões que levaram seus pais a preveni-los a respeito dos acidentes da jornada. A partir daqui, teríamos uma série de corolários a demonstrar. Não passaremos disto, contudo, que o desenrolar das ações é que deverá esmiuçar os eventos como resultantes das leis gerais do universo, conforme foram estabelecidas desde o início dos tempos, especialmente o processo contínuo e entrelaçado das causas e dos efeitos.
Deixemo-nos estar nas mãos de Deus, mas saibamos que não é a melhor decisão aguardar que tudo nos caia do céu.
Valha-nos uma pequena prece:
Senhor, fazei que sejamos dignos de receber em graça as vossas sacratíssimas bênçãos. Assim seja.



1. A NOTÍCIA

Quando Norberto e Durvalina voltaram da lua-de-mel, encontraram o Centro Espírita do Amor Fraterno de Jesus em grande alvoroço.
Tendo os amigos e padrinhos Valdemar e Sofia ido ao aeroporto para recebê-los, no caminho de casa eles os puseram a par do acontecido.
Enquanto Valdemar dirigia, Sofia tomou a dianteira:
— Ainda bem que vocês resolveram ir à Argentina. Vocês não sabem o que aconteceu por aqui.
Durvalina demonstrava imensa felicidade e não acreditava que nada pudesse perturbar esse estado. Por isso, pôs um paradeiro ao clima de expectativa:
— Que é isso, menina? Até parece que passou um furacão. Calma lá! Seja o que for, a gente dá um jeito.
Mas Norberto sentiu que Valdemar compartilhava dos sentimentos da esposa e deu oportunidade para que as novidades fossem relatadas:
— Morreu alguém?
O outro respondeu:
— Não, não morreu ninguém. Mas o que aconteceu foi extremamente desagradável. Vamos deixar que Sofia conte tudo. Ela vem ensaiando o discurso há três dias.
Desta vez, a moça foi direto ao ponto:
— Por causa de uma reportagem sobre o casamento de vocês, o centro está em grandes apuros.
Agora Durvalina teve instigada a curiosidade:
— Que reportagem?
— Vocês se lembram de que havia muita gente tirando fotos? Pois bem, aquele mesmo repórter que registrou o apedrejamento da casa, fez a gentileza de relembrar ao público a figura do Norberto e elaborou uma pequena matéria na seção social...
Valdemar, impaciente, foi acrescentando:
— A matéria até que era aparentemente inocente, mas as duas fotos causaram o maior transtorno.
Norberto quis logo saber:
— Que fotos?
Sofia abriu a bolsa e tirou um recorte, trazendo a prova do que estavam dizendo.
Logo os recém-casados atinaram com a malícia da falsa denúncia. Uma foto era o flagrante de vários casais valsando, onde se lia, no quadro de avisos ao fundo, pela perspectiva em que se postou o fotógrafo, o aviso: “Ler Kardec para viver Jesus”. Na outra, uma visão panorâmica dos convidados brindando os nubentes.
Durvalina olhou para Norberto, boquiaberta. Este foi devorando o texto, para ver se encontrava alguma explicação para a inocência das poses, que ninguém havia deveras dançado no salão nobre do centro espírita, muito menos se dera o consumo de qualquer bebida alcoólica, preocupados que estiveram todos em servir um espumante estrangeiro absolutamente puro quanto a causar o mais leve estupor mental.
Mas a notícia era singela. Constava que Norberto e a Doutora Durvalina contraíram núpcias na presença do oficial da lei. Citava hora e local. Fazia-se uma rápida retrospectiva a respeito dos fenômenos que ocorreram na casa do noivo, cerca de um ano antes. Finalmente, indicava-se que a Argentina havia sido escolhida para a lua-de-mel. Sobre a festa, elogiava-se o bom gosto da decoração e a afluência dos parentes e amigos, citando-se, em especial, a figura importante do diretor do serviço de fiscalização, Doutor Agripino.
Norberto indignou-se:
— Parece que o sujeito quis atirar umas pedras em nós.
Valdemar concordou:
— Não é verdade?
Enquanto Durvalina lia o texto, Sofia ia desfiando as inferências que certas pessoas haviam tirado da reportagem:
— Se não tivessem publicado as fotos, não haveria muito que o povo comentar, porque as palavras não dizem nada, a não ser que a sede material do centro foi utilizada para uma reunião social. Mas, quando viram que as taças estavam cheias e que os pares rodopiavam pelo salão, houve quem instigasse os ânimos contra a diretoria do centro.
Norberto era quem estava mais intrigado:
— Mas por quê? Será que nosso casamento foi alguma bacanal? Não havia lá, pelo menos, mais três presidentes de outros centros? Ninguém, que me conste, manifestou nenhuma contrariedade. Ao contrário, estavam todos muito felizes, alegres e contentes.
Durvalina concordou, mas colocou uma ressalva:
— Até parece que o Doutor Agripino estava esperando alguma reação desagradável, tanto que mencionou as festas do tempo de Kardec.
Norberto e Valdemar se lembraram das palavras do chefe e exclamaram em conjunto:
— É verdade!
Mas Durvalina percebeu que havia muito mais:
— E como é que atingiram os diretores do centro?
Sofia estava esperando a deixa. Tirou outro recorte da bolsa e exibiu-o, desta feita fazendo questão de explicar os dizeres:
— Vejam que esta matéria não contém nenhuma fotografia. Mas o que aqui se diz é terrível. O jornal pertence à União das Sociedades Espíritas da Capital. A pessoa que escreveu declara que o que sabia a respeito da festa era o que vocês já leram. Mas os comentários são terríveis: “Os espíritas têm motivo para ficarem estarrecidos...”
Norberto interrompeu:
— Eu não quero saber mais nada. Vamos processar esse maroto que está difamando a nossa casa, o lugar em que tudo é feito em prol de atender as pessoas necessitadas e onde os estudos são os mais sérios...
Iria adiante, não houvesse Valdemar estacionado diante da residência dos pais de Norberto.



2. NOVIDADES DOMÉSTICAS

Tudo quedou esquecido de repente, porque Norberto o que mais queria era carregar o filho, o Júnior, que ficara aos cuidados dos pais, Dona Neusa e Raul, e da mocinha Beatriz, a empregada que residia na casa dos patrões.
Foi uma choradeira geral, porque o neto ia morar com os pais e Norberto trazia a saudade do pimpolho, lembrança que levara consigo por toda a parte.
Mas Titinho, como se acostumara a chamá-lo Beatriz, estranhou as festas do pai, demorando para entender quem era aquela figura que se fazia tão íntima. Finalmente, seja pela tonalidade da voz, seja pelo jeito de colocá-lo no colo, acabou a criança por corresponder aos carinhos do progenitor.
Assentados os ânimos, Durvalina se pôs a consolar a sogra, auxiliada por Sofia, assegurando-lhe que o menino iria ficar mais com a avó do que no apartamento dos recém-casados.
Raul é que chamou o filho e Valdemar para terem uma conversa longe das senhoras.
Foi quando Norberto quis deixar o garotinho aos cuidados da empregada adolescente que obteve a primeira novidade, através do pai:
— Você vai chamar Beatriz em vão. Ela se mandou de mala e cuia, como nós dizíamos nos bons tempos.
— Como assim?
— Ser empregada doméstica e ainda babá algumas horas por dia, ou seja, cuidar das coisas e do filho dos outros é bom quando a mulher já está estabilizada emocionalmente, já teve os próprios filhos e educou-os, havendo organizado e mantido seu próprio lar. Até que ela agüentou bastante, dos onze aos quatorze anos. Agora que arrumou um namorado que gosta dela...
— Aquele Cláudio que eu vi no casamento?
— Esse mesmo. Pois bem, que status lhe poderia dar essa condição de serviçal, morando de favor? Qualquer uma iria preferir trabalhar numa fábrica ou no comércio, em contato direto com pessoas de sua própria idade ou com muitas pessoas, a permanecer sempre olhando pra dois velhos e um bebê, e de fralda.
Norberto bem se lembrava de que a menina o tratava de maneira muito especial, mas calou a informação com medo de levar o tema para um campo por demais perigoso, principalmente agora que trazia a tiracolo a sua segunda esposa, pessoa formada médica, de cultura muito acima da usual, até mesmo entre os facultativos, e de belíssima aparência, além do fato de não ser de cor, conforme a reminiscência que deixou transitar rapidamente pela consciência.
— E como a mãe se virou sozinha?
— E o seu pai não serve pra nada? Você pensa que complicou a nossa vida? Facilitou, isso sim, que Beatriz, indo embora, foi uma preocupação a menos. Depois a sua mãe lhe explica tudo direitinho. O que eu queria dizer é que, nestas duas semanas, eu visitei com o meu amigo arquiteto, aquele dono de imobiliária que nos recomendou um dia que comprássemos outra casa, várias à venda e achei duas em perfeitas condições pra abrigar as duas famílias, com perfeita separação entre as áreas, uma pra vocês, outra pra nós. Isso se a Doutora Durvalina aprovar...
Valdemar limitava-se a olhar ora para um interlocutor, ora para outro, acompanhando atentamente a conversa. Nesse momento, fez menção de se retirar, mas Norberto segurou-o:
— Fique. Ajude a gente a decidir.
— Eu acho que o assunto é muito íntimo. Eu não quero nem vou dar palpite. Aliás, está na hora de pegar no batente.
Despediu-se e retirou-se o colega de repartição. Norberto estava emendando o período de gala com quinze dias de férias, de modo que ainda tinha alguns dias de folga.
Quando pai e filho voltaram a conversar, Titinho já estava no colo da avó.
— Pai, o que a mãe está achando disso tudo?
— Ela tem razão em pensar que é um desperdício vocês morarem num apartamento tão bom, que poderia ser alugado por uma boa quantia, quando os dois saem pra trabalhar o dia inteiro, precisando trazer a criança pra cá, caso vocês não tenham pensado em deixá-la numa creche ou, o que é muito pior, nas mãos de alguma babá desconhecida...
Raul deixava as frases meio no ar, como a fustigar o filho a tomar uma posição clara a respeito dos assuntos. Mas Norberto estava bastante pensativo para se entregar completamente às preocupações dos velhos. Sendo assim, ia concordando com sinais positivos do dedão ou com movimentos oscilatórios de cabeça.
Desta feita, porém, o sistema falhou e Raul exigiu uma resposta clara à sua observação:
— Diga o que você tem em mente a respeito. Você acha pouco ou bastante provável que ela concorde em morar conosco?
— A bem da verdade, Lininha se recusava peremptoriamente, mas isso quando Beatriz estava aqui. Agora eu não sei. Vamos perguntar a ela?
— Depois. Agora eu quero mostrar-lhe as fotos das casas e as plantas, que o meu corretor é altamente especializado. Benditos computadores!
De fato, havia várias folhas com reproduções coloridas, onde se viam a fachada e as laterais dos prédios, uma planta do trecho do bairro em que se localizava o imóvel e as plantas baixas das casas, com a descrição sumária de cada dependência e suas medidas.
— Estas duas são as que achei as melhores, mas você pode examinar todas.
Norberto gostava de observar fotografias e de interpretar dados e diagramas, por isso se interessou pelos retratos e figuras. Dez minutos depois, havia selecionado quatro folhas, além das separadas por Raul:
— Vamos ficar com estas seis. Uma coisa é a reprodução no papel, outra bem diferente é a realidade. É preciso ir ver como se encontram neste instante.
Raul desfiou algumas observações técnicas, tentando eliminar as escolhidas por Norberto, mas este se manteve decidido a ir ver também as que lhe haviam mais particularmente chamado a atenção. Fazia-o com o intento de complicar a procura, evidentemente, para que a hora da definição se postergasse o mais possível. Queria dar tempo ao tempo.
— Vamos conversar com a doutora, pai?
Reuniram-se os casais na sala de estar. O Júnior dormia no colo da avó. Mas foi Durvalina quem tomou a iniciativa:
— Dona Neusa estava me falando a respeito de morarmos juntos. Eu não me oponho, desde que a gente fique um tempo tentando ver se não dá certo do jeito que imaginamos.
Norberto, que havia sentado sobre o braço da poltrona em que estava a esposa, enquanto lhe alisava o cabelo carinhosamente, foi passando a ela os elementos que o pai colhera:
— O conforto destas residências é evidente. Inclusive três delas oferecem a possibilidade de um consultório destacado do corpo íntimo da casa, se você decidir trabalhar sem se deslocar...
— Mas, querido, foi atalhando Durvalina, essa idéia nem me passa pela cabeça. Do jeito que está é o ideal. Você sabe disso.
— Estou falando por hipótese. A gente não sabe do futuro que nos aguarda. Também existem os preços que podem...
Raul se antecipou à conclusão da frase:
— Os preços, eu lhe disse, são bons e acessíveis, principalmente se a gente puser esta casa no negócio. Aliás, eu vendendo agora vou facilitar a vida de vocês, porque a outra poderá já entrar para o seu patrimônio, não precisando de espólio nem de testamento. Não é uma boa idéia?
— O pai está falando umas coisas bem diferentes. Eu jamais pensei em herdar nada.
Dona Neusa interferiu:
— Mas certas coisas a gente tem de pensar já, antes que aconteça o que tem que acontecer.
A conversação iria derivar para o tema das fatalidades da vida, mas, com a desculpa de que precisava pôr o menino no berço, a avó deixou a sala, sendo seguida por Norberto.
Raul e Durvalina ficaram entregues ao assunto. Foi Raul quem instigou a posição filosófica do espiritismo:
— Quando a gente pensa nos valores materiais, parece que as coisas são bem simples. O ser humano nasce, vive e morre. Mais nada. Quando entram os elementos espirituais, aí a gente precisa ficar pensando no que trouxe para purgar na Terra e como é que vai sair daqui, para ser bem recebido do lado de lá.
— O senhor está colocando as coisas como um verdadeiro espírita.
De fato, Raul estava desejoso de fazer uma revelação:
— Depois que troquei tantas telhas quebradas pelos espíritos, conforme entendi das explicações que ouvi das pessoas que vieram reunir-se aquele dia aqui em casa...
— O senhor ouviu a fita gravada? Eu, quando ouvi, apesar de veterana nesse tipo de manifestação, fiquei arrepiada.
— Eu ouvi e discuti com minha mulher. Nós ficamos com a nossa convicção católica abalada. Nem o Tiago, o nosso padre amigo e conselheiro, o nosso confessor, foi capaz de nos dar uma explicação que nos convencesse. Tanto que li aquele livro do Kardec que Norberto me deixou para ler.
— O Livro dos Espíritos?
— Esse mesmo.
— O senhor gostou?
— É maravilhoso. Mas eu não acho que todas as pessoas têm condição de entender tudo, principalmente se achar que os diálogos foram inventados. Eu, que li algumas obras clássicas, sei que Platão, por exemplo, punha duas ou mais personagens conversando sobre o tema de seu interesse, parecendo até que o autor tinha ouvido os debates e os reproduziu integralmente. Em Kardec, existe um certo respeito evidente de quem pergunta, como se os espíritos que responderam fossem santos veneráveis, tanto que as respostas, muitas vezes, trataram quem perguntava até com certa rispidez, advertindo para as falhas de raciocínio ou para a malícia da intenção.
— Mas tudo dentro da cordialidade que a boa sociedade da época exigia das pessoas sérias.
— Certamente. Eu estou dizendo que o nível de intimidade que constatei se deu de cima para baixo, ou do sobrenatural para o terrestre, dos espíritos em relação ao encarnado. De Kardec para eles, sempre as palavras foram as mais cordatas, como quando um aluno vinha conversar comigo na faculdade a respeito da matéria.
Nesse ponto, Norberto voltava sozinho e se integrou na conversação, alegremente surpreso com a novidade do interesse do pai, mas muito mais curioso em saber qual tinha sido a reação da mãe.
Raul esclareceu:
— Sua mãe, positivamente, não quer abandonar a crença antiga. Ela me disse que vai continuar confessando, comungando e indo à missa todo domingo. E me obrigou a jurar-lhe que eu faria o mesmo. Nem eu estou querendo outra coisa. Mas que fiquei fascinado pela teoria espírita, não resta dúvida alguma. Não ao ponto de ir com vocês ao centro. Isso não. Mas estou disposto a ler outros livros que me trouxerem.
Durvalina levantou uma suspeita:
— O senhor vai precisar esconder isso de Dona Neusa?
— De jeito nenhum. Ela até me ouviu lendo alguns trechos daquele livro que eu achei que seriam do interesse dela.
— E ela, pai, como é que reagiu?
— Ela ouviu calada. Nem tugiu nem mugiu, como os velhos falavam no meu tempo de menino. Mas não me pediu pra parar. Eu acho que, no fundo, ela também se deixou envolver pelos apedrejamentos do outro mundo.
Nesse instante, Dona Neusa chamou de dentro, que o lanche estava servido, e os três deixaram a conversa morrer.



3. NO CENTRO ESPÍRITA

Naquela noite, havia palestra no auditório onde se dera a famigerada festa de casamento de Norberto.
O casal ansiava por sentir como iam as emoções provocadas pela reportagem e pelos comentários, de modo que, tendo deixado o petiz aos cuidados da avó, saíram cedo para o apartamento, onde as malas ficaram por desfazer e logo se aprontaram para sair.
Como queriam conversar com o padrinho e presidente da instituição, Claudiomiro, que sabiam chegar antes que os outros, calcularam que, indo com quarenta e cinco minutos de antecedência, alcançariam o seu objetivo.
De fato, ao lá chegarem só encontraram Claudiomiro, que os recebeu muitíssimo satisfeito, sem dar mostras de preocupação. Aliás, os primeiros minutos da conversação foram gastos com informações sobre a viagem de núpcias, as comodidades dos hotéis, a beleza da cidade de Buenos Aires, a limpidez da atmosfera de Mendoza, ao pé dos Andes, onde ficaram a maior parte do tempo, a estação de esqui, a neve, os turistas. Depois, Claudiomiro perguntou a respeito de como haviam encontrado o Júnior e os pais de Norberto, se não havia ocorrido mais nenhum fenômeno físico na residência, momento em que mencionou a saída de Beatriz, enfatizando o fato de que ela não aparecera desde o casamento às reuniões da mocidade do centro.
Quando Norberto fez referência ao desejo dos pais de tê-los morando juntos, Claudiomiro deu amplo apoio à idéia, desenvolvendo a tese de que os familiares, por razões cármicas, que ele fazia questão de explicar pela lei de ação e reação ou de causa e efeito, tinham de permanecer o mais que podiam debaixo do mesmo teto, para que as tendências e características de cada um pudessem acender as chamas da amizade ou as paixões das repulsas incrustadas no seio mesmo de suas personalidades espirituais.
Durvalina e Norberto ouviram até com certo espanto o desenvolvimento dos pensamentos doutrinários, certos de que o amigo estava desejando poupá-los das novidades desagradáveis. Por isso, Durvalina, que tinha convivência bem mais antiga com o presidente da casa espírita, foi quem se atreveu a levantar o assunto que os levara para lá mais cedo:
— Claudiomiro, por favor, conte-nos, melhor que Sofia e Valdemar, o que vocês têm enfrentado só porque foram abrir as portas deste salão pra nós darmos a nossa recepção festiva.
Teria notado o interpelado o cuidado com que a moça se referiu aos fatos? Provavelmente sim, entretanto, manteve o mesmo tom com que vinha discorrendo, e asseverou:
— A gente, neste mundo, está sujeito à opinião contrária à nossa. Quando nós lhes sugerimos que trouxessem pra cá seus convidados pro seu consórcio matrimonial, não estávamos pensando que pudesse repercutir de forma tão ruim. A idéia inicial era de trazermos os parentes e amigos mais chegados. Vocês se lembram de que, na última hora, até os refrigerantes faltaram e Clotilde precisou correr até a adega mais próxima pra conseguir mais. A comida terminou logo, inclusive aquele pouco que separamos pra vocês no intervalo em que deviam descansar do atropelo da cerimônia, dando tempo pra que as pessoas se acomodassem nas mesas. Não fosse o bolo de cinco camadas e muita gente ficaria sem provar nada. Os nossos cuidados e precauções esbarraram em seu prestígio na comunidade. Como deixar de fora as pessoas a que damos assistência médica e que lhe são gratas, doutora? Aí, um repórter achou a passagem livre e deu curso à sua maldade. Vocês devem ter lido a matéria no jornal.
Norberto aproveitou a deixa:
— Claudiomiro, o que mais me intriga é o rancor do comentarista da folha que saiu de nosso próprio movimento.
Mas o casal precisou ouvir uma palavra ponderada de advertência:
— Não fiquem escandalizados, por favor. Ninguém que habita este planeta é perfeito. Mesmo assim, vocês sabem muito bem, Jesus, que foi dado pelos espíritos a Kardec como modelo de perfeição, acabou desencarnando na cruz. Os problemas existem pra exigir de nós que tomemos posição perante as provações. Pra isso, temos de reflexionar muito a respeito dos acontecimentos, buscando conciliar as idéias contrárias em torno da verdade. Caso o coração da pessoa maldosa não se deixar envolver pelas razões doutrinárias, então, cabe à gente que tem consciência de que não cometeu crime algum, primeiro, não levar a mal a insegurança e a inferioridade alheia, segundo, perdoar os desafetos, caso tenhamos sido ofendidos, terceiro, não se engrandecer mostrando possuir a força da verdade, o que se alcançará através das orações em favor da compreensão por parte deles, ainda que isso signifique rogar aos espíritos protetores deles e nossos que ajam de forma a conjurar os perigos de desavenças, mesmo no íntimo de nossas almas.
Mas Norberto não estava para muita pregação moral nem religiosa. Ele queria saber qual era o clima entre os que se sentiram atingidos:
— Claudiomiro, se Deus quiser, todos nós, um dia, iremos agir de acordo com esses princípios evangélicos da mais pura concepção doutrinária. Mas eu estou querendo saber quais estão sendo os problemas internos, como os nossos companheiros estão reagindo, se existem focos de discórdia declarada, se há alguém desejando responder à altura pela imprensa, se já tomaram a iniciativa de procurar o irmão que escreveu louvando-se na reportagem, pra explicarem-lhe o que de fato ocorreu, solicitando uma retratação em regra...
Nesse instante, chegavam o soldado Juvenal e a médium Clotilde, que abriram os braços para o casal, festejando-lhes o regresso.
Desta feita, porém, o tema momentoso logo veio à tona, quando Clotilde manifestou estranheza pela presença dos recém-chegados:
— Eu jurava que vocês ainda iam demorar pra voltar ao centro.
Norberto aproveitou a deixa:
— Não era pra gente ficar uns dias curtindo o Júnior, agora que eu tenho mais alguma folga no serviço?! No entanto, viemos correndo, porque soubemos da reportagem e da crítica que caiu em cima da gente. Juvenal, você apurou alguma coisa interessante?
O soldado tinha propensão para a investigação e foi logo adiantando:
— A reportagem foi feita pelo mesmo que cobriu os apedrejamentos em sua casa, nem mais, nem menos. Conversando com o Ricardo, aquele que lhe furtou e depois devolveu a aliança, ele me explicou que quase jogou as pedras em seu telhado contratado pelo mesmo sujeito. Como a coisa deu em nada e você abafou tudo, no que fez muito bem, tendo em vista a regeneração do nosso antigo menino de rua, não levamos o caso em frente na delegacia. Também não acho que ele escreveu nada contra o centro.
Durvalina estava indignada:
— De qualquer modo, deixou claro que havia festa, que havia bebida e que havia baile num lugar de respeito, conforme a fotografia deixou muito claro, com os dizeres que se destacaram a respeito de Jesus e de Kardec.
Claudiomiro quis colocar água fria na fervura:
— Não sejam tão incompreensíveis. Vocês acabaram de citar um jovem que se converteu. Por que não vamos dar um crédito de confiança a esse outro?
Foi Norberto quem definiu a situação:
— Claudiomiro, meu padrinho, eu já esqueci o repórter. Aliás, se ele tiver de prestar contas, pode contar comigo pra testemunhar em favor dele no que respeita aos meus sentimentos, porque, por mais mal intencionado ele estivesse, jamais buscou enfronhar-se nos meus pontos mais frágeis, justamente aqueles que, como fiscal, eu me aproveitava dos maus contribuintes e lhes acobertava as manobras ilegais, recebendo propinas, algumas bem polpudas. Mas isso já é um passado longínquo, que não deixou seqüelas. O que me apoquenta é o fato de estar o centro sendo visado pelos comentários desairosos de um pessoal do próprio movimento espírita. Esse, sim, está merecendo um bom puxão de orelha, porque falou sem saber.
Clotilde se deixava embeber pela facilidade dos discursos, mas ela mesma não tinha nenhuma dificuldade e logo quis participar da conversação:
— Claudiomiro nos recomendou que tivéssemos paciência. Ele se limitou a esclarecer as pessoas que compareceram nas três últimas reuniões públicas, lendo o que se escreveu sobre a festa, insistindo em revelar a verdade pra quem não esteve no seu casamento, achando que, se deixarmos que tudo fique quieto, logo o fato vai cair no esquecimento.
O presidente, à vista de ter sido citado com tanta eloqüência, se viu forçado a dizer algo mais:
— E não é só isso. Eu tenho a certeza de que todos nós estamos sentindo-nos meio ultrajados porque, no fundo, no fundo, achamos que o comentarista tem razão. Talvez ele tenha exagerado um pouco, mas a verdade é que o centro espírita não deve ser utilizado pra reuniões sociais.
Norberto não se contentou com a observação. Queria maiores esclarecimentos:
— Quem organizou tudo fomos nós. Até a nossa Clotilde entrou de cabeça...
— E com o coração, juntou Durvalina.
Norberto estava engrenado:
— Isso mesmo. Quer dizer que nossa intenção foi a melhor possível, porque todos nós estávamos profundamente contentes e convencidos do amparo de nossos guias, de nossos amigos da espiritualidade. Agora, porque se infiltraram, ou melhor, porque se infiltrou um penetra com duas pedras em cada mão, pensando que a gente tinha telhado de vidro, não é motivo pra, definitivamente, abolirmos o uso das dependências pro regozijo saudável da vida e da comunhão entre os planos material e espiritual.
Claudiomiro percebeu que Norberto se situava bem próximo da responsabilidade de haver despertado a atenção dos outros para o que havia ocorrido, de modo que, com a desculpa de receber as pessoas que se iam acomodando no salão para a palestra, saiu, repetindo pela milésima vez uma prece aos protetores, para que não permitissem que os eventos se agravassem.
Clotilde notou a saída estratégica do companheiro de tantos anos de lides espíritas e arrastou consigo a doutora, querendo que ela visse como haviam deixado o consultório, que sofreu uma pequena reforma enquanto ela se ausentara. Mostraria também os medicamentos que haviam recebido e que precisavam passar por uma triagem profissional.
Ficaram, então, Norberto e Juvenal. Quando Norberto insistiu para que descobrissem como entrar em contato com o crítico, ouviu de Juvenal uma palavra que repercutia o ensinamento do presidente:
— Achar quem escreveu até que é fácil. Ir conversar com ele também. Mas eu acho que Claudiomiro não vai aprovar a idéia, com medo de sofrer novas críticas por escrito, já que essa pessoa possui um meio de influenciar a opinião das pessoas.
Ia Norberto opor algumas razões, quando chegou Valdemar, que logo foi dizendo:
— Se vocês estão tratando do caso da festa de casamento, eu estou trazendo mais lenha pra fogueira. Eis um novo artigo da mesma pessoa.
De fato, lá estava na manchete: Confrades que não respeitam a casa espírita precisam ler Kardec para viver Jesus.
Norberto rapidamente passou os olhos pelo texto e logo lhe pareceu que mal fariam se dessem dele notícia aos demais. Ponderou:
— Valdemar, Juvenal, vamos guardar o artigo. Não vamos mostrar pra mais ninguém, principalmente pro Claudiomiro. Você já deve ter lido, Valdemar?
O outro fez sinal que sim. Norberto prosseguiu:
— Pois eu levo e depois passo pra você, Juvenal, se é que não está mais interessado que eu...
— Por mim, tudo bem. Em se tratando de coisa errada, na qualidade de soldado, sou eu quem vê mais todo dia. Muito obrigado. Pode levar.
Quase não dava tempo de fazer desaparecer o jornal, quando Agripino foi entrando:
— Ué! Quem está aqui! O meu fiel escudeiro!
Valdemar brincou, levantando-se e indo apertar a mão ao chefe:
— Eu não sabia que era tão querido, patrão.
Agripino o abraçou, colaborando para o gracejo:
— Você não passa de um palafreneiro. Mas tudo bem; você também é fiel.
Aí foi a vez de Norberto receber o abraço do chefe. Longo abraço que demonstrava um afeto transbordante demais para tão curta ausência. Norberto logo desconfiou de que o carinho incluía uma consolação pela desfeita do artigo. Seria dos artigos? Cedo a pergunta teria resposta:
— Acredito que você esteja visitando a gente...
Norberto esclareceu:
— Eu nem sabia que o senhor ia comparecer hoje em nossa modesta casa.
— Não lhe disseram que a palestra de hoje é minha? Vou falar a respeito da necessidade que todos temos de ler Kardec para viver Jesus, conforme flagrou o repórter que estampou os dizeres no jornal. Não preciso perguntar por que você está aqui. Veio ver como é que estamos reagindo aos ataques que desferiram contra a gente. Caso vocês não saibam, porque Valdemar não deve ter dito nada, saiu outro artigo que vai merecer que eu me esforce para esclarecer ao nosso povo.
Norberto foi adiantando:
— Nós estávamos concordando em esconder do Claudiomiro.
Mas Agripino estava decidido:
— Ele é forte e, se não for, precisa aprender a ser, porque logo vai para o outro lado e lá as coisas são muito mais positivas do que aqui. Quem não tiver cabedal para aprender tão pouca coisa, como é que vai progredir no conhecimento de todas as virtudes, para superar todos os males, todos os vícios e defeitos?
Valdemar pôs um ponto final no entusiasmo do conferencista:
— Deixe um pouco pra depois, chefe. Vamos levar o nosso Norberto pra conversar com o resto dos amigos, caso contrário, é capaz que ele cause um tumulto, a considerar a sua reação.
De fato, quando o moço adentrou o salão nobre, as pessoas vieram festejá-lo, como se faz a um amigo que volta salvo de um naufrágio.



4. REGOZIJO NO ETÉREO

Etelvino e Glauco, espíritos protetores de Norberto e de Valdemar, respectivamente, quais perversos anjos do mal, riam de alegria pelo fato de se depararem os seus assistidos com alguns problemas mais sutis do que simples fenômenos físicos ou graves projetos de abuso da profissão de fiscais que exerciam sob a supervisão de Agripino.
Glauco puxava o tom de contentamento:
— Graças a Deus, Etelvino, conseguimos transformar aquele mar de rosas sentimental de seu amigo Norberto em uma preocupação meramente doutrinária, coisa para porem em ação o que aprenderam teoricamente nos livros de Kardec.
Etelvino, contudo, pedia-lhe prudência:
— Cuidado, meu amigo, que as nossas paredes, apesar de inexistentes, possuem bons ouvidos. Essa sua transmissão de pensamento captada por antenas despreparadas para a percepção das tarefas que devem exercer os guias em relação a seus protegidos pode gerar uma confusão lamentável na mente de quem deveria estar trabalhando para entender-nos.
Glauco concordou:
— É verdade, considerando que estou manifestando-me no sentido de me entusiasmar com o resultado de nossas providências, alguém, sabendo que houve quem atuasse de forma errada para que tal sucedesse, haverá de imaginar que fomos nós que implantamos na vontade dessas pessoas o desejo de prejudicar não só as pessoas de quem tomamos conta, mas todo um imenso grupo reunido no Amor Fraterno de Jesus.
— Então, apenas como exercício de contenção de impulsos não muito corretos, vamos repetir, para emendar o tema anterior, que o repórter e o comentarista agiram por conta própria, seguindo os reflexos intelectuais e sentimentais de sua conformação psíquica, talvez incentivados por seus anjos guardiães que precisavam concretizar na realidade um desempenho integral no plano da mente, como conseqüência de um ato de livre-arbítrio, irrepreensível quanto ao valor do despertar para a consciência de si mesmo.
— Então, vamos esclarecer também, Etelvino, que se entrelaçam de modo muito sutil as nossas vibrações de guias em conjugação de esforços para o empuxo que se requer dos protegidos, para que vão compreendendo como se dá a lei de ação e reação no âmbito superior da formação dos intentos que visem à pragmática dos recursos teóricos, ou seja, dos preceitos da doutrina espírita em função de que se realize um ato positivo dentro da lei de progresso, neste vastíssimo campo da evolução espiritual.
— Posto desta maneira, é justo que nos rejubilemos pois agora podemos justificar a nossa atuação no sentido de advertir os nossos amigos para os perigos de suas manifestações e até de suas intuições indesejáveis, quando produzidas no intuito de causar um desconforto moral a quem quer que seja, sem o competente anteparo do desejo de praticar o bem.
— Cuidando no momento presente, que tal se nós tentarmos apaziguar os ânimos, introduzindo na mente deles a idéia de que devem aguardar um pouco mais o desenvolvimento das conseqüências dos acontecimentos, sem que pesquisem diretamente a origem dos mal-estares, ou seja, as pessoas que estão por detrás dos artigos recriminatórios?
— Tanto faz, meu bom Glauco. Tanto faz.
— Explique-me esse tanto faz, por favor.
— É que, trabalhando no íntimo das consciências ou no campo de atuação, sempre haveremos de cuidar de esclarecê-los, quanto aos entreveros que certamente terão de enfrentar no que respeita às acusações que hão de sofrer de suas próprias consciências, ao se depararem com seus intuitos não muito de acordo com o ensino de Jesus.
— É isso mesmo, ainda mais se considerarmos que agora já é um pouco tarde para impregnar em seus cérebros o pensamento de que Claudiomiro possa estar certo quanto a não mexerem no vespeiro, tendo em vista que Agripino está realizando a denúncia das críticas em tom de profundo respeito ao direito que as pessoas têm de se expressarem através da imprensa, incentivando o revide através do mesmo meio de comunicação.
— Vamos convir, Glauco, que dizer que até o nome do centro espírita contém uma falha conceitual e doutrinária, que o amor de Jesus está impregnado de fraternidade e, portanto, que incide em repetição inócua a consignação da nomenclatura Amor Fraterno de Jesus, pleonasmo de uso vitando, já é um exagero de zelo espírita.
— Isso sem considerar que todos os princípios aplicados na tese que defende o articulista foram extraídos de informações truncadas e mal orientadas, porque sedimentadas numa única reportagem. Se, ao menos, o nosso amigo comentarista ouvisse as próprias palavras, se aplicasse a si mesmo os dizeres que vem repetindo por escrito, quer dizer, se buscasse caracterizar em seu trabalho o princípio fundamental do espiritismo, qual seja, o de que tudo decorre nesta doutrina por interferência e manifestação direta do plano da espiritualidade, para o que deveria entrar em contato mediúnico com as forças espirituais encarregadas de dar assistência aos centros que ele freqüenta e que se filiam a essa União das Sociedades Espíritas, quem sabe ele se inspiraria de forma a comparecer em pessoa diante dos que geraram o episódio em pauta em sua coluna, para definir com maior precisão o objeto de suas observações.
— Então eu diria, Glauco, que se ele tratasse do tema de modo menos pessoal, menos específico, talvez pudesse ampliar as críticas de forma a abranger o que verdadeiramente existe contrário às normas estabelecidas pelos espíritos a Kardec dentro das instituições que trombeteiam o cumprimento integral das disposições encontradiças nas obras do Codificador.
— Um exemplo, por favor.
— Um exemplo, sim. Quando ele afirma que, a partir da idéia de ceder o salão das reuniões públicas para festas de caráter particular, isso poderá transformar a casa espírita em antro de cupidez de pessoas intencionadas apenas em ganhar dinheiro com o aluguel, ele deveria estender o conceito para todo tipo de arrecadação que se dá sob a bênção dos dirigentes, como festas da pizza, da salada, da macarronada, como os bazares da pechincha, a venda de livros...
— Mas você está encaminhando-se para o perigoso terreno das fórmulas mais plausíveis de extrair dinheiro de quem tem, para as realizações nem sempre de caráter espiritualista das entidades.
— É sobre isso mesmo que eu quero, Glauco, que ele medite e que ofereça soluções em completo acordo com os ensinos de Jesus, cujos apóstolos e discípulos nada podiam realizar sem terem a contrapartida, ao menos, de seu sustento diário.
— Mas aí, Etelvino, seria converter uma simples discussão doutrinária num veículo de pregação espírita em um tema de caráter universal, ou seja, o tema de como a humanidade deverá fazer para exterminar a miséria, a dor, a fome, a criminalidade etc.
— Concordo em que talvez o fôlego do comentarista não alcance acompanhar tal maratona de idéias, contudo, restringir-se a agoniar meia dúzia de companheiros da mesma seara talvez venha a ser muitíssimo oneroso para sua percepção da existência como criação divina.
— Pois eu digo francamente que não gostei de seu exemplo, embora tenha de aceitar a sua argumentação quanto ao fato de que ele precisaria mirar mais acima. No entanto, quem sabe capacitemos os nossos protegidos a dirigirem suas atenções para estes planos mais vastos, alertando os leitores para certos problemas reais que passam despercebidos para quem se abandona com tanta integridade à prática do bem.
A conversa ainda se estenderia mais um pouco no campo das exemplificações, de sorte que terminariam por analisar completamente o segundo artigo da confrontação do povo do Amor Fraterno de Jesus. Era o tempo em que Agripino encerrava o seu arrazoado na tribuna da casa espírita.



5. OS JORNALISTAS ENTRAM EM CENA

Oliveira, como era conhecido na redação o jovem que estipulara um preço para que se arremessassem pedras no telhado de Norberto, fato que acabou não dando certo pelo flagrante dos policiais nos meliantes e que redundou na prisão daquele que havia furtado a aliança e o relógio de Norberto, o Ricardo, o qual, como sabemos, devolveu a aliança e aparentemente se regenerara, freqüentando o centro espírita em que sua avó recebia auxílio espiritual e material, Oliveira, como dizíamos, materialista convicto, também alvo dos projéteis orientados mediunicamente sobre a casa de Norberto, se apegou ao mistério, seguindo as personagens de nossa história, terminando por publicar a sucinta reportagem que deu azo às repreensões doutrinárias do articulista espírita.
Vamos fazer justiça a ele, declarando que as fotos incriminadoras foram escolhidas por outrem no meio de muitas, para composição da matéria, ao que tudo indica, através do critério de se acentuar a fé religiosa dos nubentes e a localização do evento.
Mas Oliveira era amigo de uma centena de pessoas de seu métier, dentre as quais destacou duas para que lhe dessem explicações a respeito do fenômeno que ocorrera junto à família Dias. Foi como obteve noções de parapsicologia, reduzindo os fatos ao plano físico, dando-lhes causas desconhecidas da ciência oficial, mas reconhecidas pelos estudiosos desse novo ramo do saber humano.
Tudo isso antes de receber duas ou três pedradas debaixo da derradeira chuva que atingiu a casa e os arredores de onde se encontrava adrede preparado para registrar o ato de vandalismo dos três frustrados comparsas, havendo, isso sim, apanhado no ar os pedaços de telha e de tijolos com sua câmara, fotos que ilustraram a reportagem definitiva a respeito do que acontecia naquela residência.
Mas Ricardo fora apenas uma coincidência na escolha dos que iriam ajudá-lo a “desmascarar” os espíritas. Quando viu os três nas mãos dos policiais, esfriou-lhe o entusiasmo pela criação dos fatos, que o medo de vir a ser apontado como organizador intelectual do apedrejamento deixou-lhe o ânimo em frangalhos.
Aprontou-se para desmentir a versão dos jovens que o enredaria, mas surpreendeu-se quando foi deixado esquecido. Pesquisou a razão disso e logo obteve a resposta desejada: os rapazes tinham muitas outras contas a acertar, principalmente pelos assaltos a mão armada nos cruzamentos aos motoristas obrigados a parar pelos semáforos.
Sem querer, pelo que pensou na hora, foi Juvenal quem lhe informou que um dos três portava o relógio furtado de Norberto e que este havia resolvido não apontá-lo como autor do assalto.
Oliveira juntou os fatos e concluiu que era um modo muito estranho de agir, segundo os padrões sociais em voga, o fato de se perdoar um agressor, estando ele subjugado e preso. Isso o levou a avançar em sua pesquisa a respeito das pedras que despencaram sem autoria conhecida, espreitando a convicção religiosa dos envolvidos, concluindo que em algum centro espírita encontraria alguém capaz de lhe dar outra explicação menos mecanicista do fenômeno.
Assim foi que despertou em Aristeu, atuante membro da comunidade espírita, uma simpatia por sua pesquisa, ainda mais porque se afinavam quanto ao emprego de seus tempos aos labores jornalísticos.
Eis as voltas que a vida dá para a confecção da tela existencial em que se retratam as existências humanas.
— Com que, então, meu jovem, você se viu alvo da ação dos espíritos zombeteiros, que é como chamamos os infelizes que atuam no âmbito das agressões físicas aos seres humanos.
Oliveira não estava disposto a confessar que nutria certo sentimento de culpa e omitiu sua participação no acontecimento, mesmo porque o que pretendera fazer não dera certo. Limitou-se a confirmar:
— De fato, estive no descampado com minha máquina fotográfica, mas precisei correr pra um lugar seguro, que havia vidro arrebentando e latarias de carros amassando. Foi uma zoeira tremenda.
— Pois eu lhe digo que eu mesmo nunca estive numa situação dessas. Você está me dizendo que é materialista e que ouviu dizer que se tratava de um fenômeno paranormal. Agora quer saber como é que o espiritismo encara tudo isso. Muito bem. Não é fácil convencer alguém com o seu perfil psicológico, porque nós partimos da presciência de que existem forças ocultas mas de caráter espiritual, ou seja, um mundo ao derredor do nosso a que chamamos de esfera fluídica. Faça as perguntas que achar convenientes, para eu não desgarrar em comentários que lhe pareceriam fora do contexto.
A conversação duraria mais de duas horas, esforçando-se Aristeu por caracterizar os aspectos espirituais plausíveis para suplantar as concepções dos paranormais. Por isso, insistiu no ponto essencial de que o conhecimento das forças mentais ou magnéticas admitidas pela parapsicologia equivalia ao conhecimento dos atributos dos seres de além-túmulo, com a desvantagem de que os espíritos vinham denunciando a sua presença de forma regular, sistemática e diversificada, através de vários tipos de fenômenos mediúnicos.
Oliveira ouviu tudo com muita atenção, selecionando os pontos que lhe pareceram os mais importantes, como se habituara a raciocinar tendo em vista a redação jornalística, com suas regras de economia textual para a fixação do interesse dos leitores nos elementos concretos e indiscutíveis. Foi assim que gravou indelevelmente a última manifestação do articulista, aquele mesmo que apontaria as mazelas no Amor Fraterno de Jesus:
— Dada a natureza malévola dos espíritos que promovem tais algazarras, é correto concluir que as pessoas visadas estejam a merecer o castigo que sofrem, através dos prejuízos materiais e os sofrimentos morais. Você irá perdoar-me o atrevimento de revelar-lhe que, em função do pensamento dos perversos, você mesmo era um alvo perfeitamente viável no sentido que dei ao meu arrazoado. Veja a conseqüência admirável do fato: você acabou vindo esclarecer-se pela doutrina espírita, como também eu acho que está acontecendo com todos os habitantes daquela casa.
Ainda Aristeu recomendou que o moço o mantivesse informado a respeito de qualquer evento daquela natureza, despedindo-se com a promessa de estar à disposição dele quando quisesse aparecer. Sobretudo, pediu-lhe que as reportagens lhe fossem enviadas pelo correio eletrônico de seu computador, antes mesmo de saírem a público. Trocaram os seus endereços virtuais e ficaram sem se corresponder até a festa das núpcias de Norberto.



6. POR ONDE ANDARIA BEATRIZ?

Desde que Norberto partira para sua lua-de-mel, Beatriz deixou o emprego de secretária do lar de Dona Neusa, com profunda mágoa por deixar o Júnior, a quem se apegara carinhosamente.
Cláudio é que a estimulara a enfrentar outros desafios, ele mesmo interessado em comparecer a uma agência de modelos, dado que tinha altura e beleza, com seus traços de negro aquilino, mulato que à primeira vista passava por branco amorenado, bastando alisar os cabelos.
Beatriz, com seus pouco mais de quatorze anos, tinha o corpo quase formado de mulher, espigada, esbelta, de feições irrepreensíveis, negra como as princesas africanas envoltas em cores e rebrilhos de olhos e de dentes.
Ambos, sem nenhum traquejo social, arriscavam-se a perder-se nas misteriosas vielas do dinheiro farto.
Entretanto, Beatriz tinha a mãe, não mais que outra empregada doméstica, mas muito vivida e versada em patroas e patrões, ladina com os espíritos e encarnados que vinham para tentar embromá-la no terreiro da Umbanda, que freqüentava desde muito nova.
Quando a filha apareceu com a novidade, Dona Isaltina aprovou sem restrições, porém, estabeleceu uma condição importante:
— Enquanto você for de menor, eu vou acompanhar você pra tudo quanto é lugar que você for.
Cláudio percebeu que não adiantava retrucar, de modo que aceitou a condição incontinênti:
— Isso vai ser muito bom, pois a gente corre o risco de ser engabelado.
Beatriz também achou maravilhosa a idéia, mas logo foi concluindo que a mãe não tinha tanto tempo assim, no que se enganou completamente. No dia seguinte, Isaltina pediu as contas e, no outro, acompanhou o casalzinho até o estúdio fotográfico, onde seriam tiradas as primeiras fotos para o chamado book, o álbum de apresentação dos novatos na carreira. Ali conversou com o responsável, que desejava o imponente título de empresário, mas que se viu tratado como senhor gerente, instando Isaltina num ponto para ela essencial:
— O que eu quero saber é se a sua proposta de trabalho é pra já ou depende disto e daquilo. O senhor sabe o que estou querendo dizer.
— Eles receberão um cachê de amadores, por participação na campanha publicitária.
— E depois disso?
— A senhora está querendo saber se eles têm futuro garantido no estúdio?
— Eu quero saber se eles vão receber instrução ou se a gente é quem vai ter de arcar com as despesas de tudo.
— Eu acho que é um pouco cedo pra afirmar qualquer coisa. Tudo vai depender de como eles fotografam. A fotogenia é uma qualidade que só se revela depois de estar pronta a fotografia. Às vezes, a gente tem algumas surpresas muito desagradáveis, pois a pessoa é atraente e simpática, é até muito bonita, maravilhosa, mas as fotos ficam um desastre. Existe um meio de evitar essas surpresas, mas nós não temos os recursos pra isso. Eu vou explicar. Existe um programa de computador que analisa o equilíbrio facial, medindo com rigor as distâncias entre os olhos, o nariz, o tamanho da boca, o destaque ou não dos ossos da face etc. Mas, mesmo quando tudo dá certinho, de acordo com as dimensões tidas como as ideais, algumas pessoas não conseguem impor a personalidade atraente na imagem captada pela câmara. A senhora me entende?
Isaltina, que não estava muito afeita àquele vocabulário, não quis dar de bandeja a sua fraqueza e ia responder que estava tudo bem, quando Cláudio interveio:
— Em suma, se a gente for aprovado, vocês pagam um curso de treinamento. É isso?
O empresário estava um pouco incomodado com os rumos da conversa, mas os jovens eram por demais interessantes para que ele abrisse mão de aproveitá-los. No íntimo, até se congratulou por serem tão desconfiados, porque não cairiam facilmente em algum engodo da concorrência. Então, foi taxativo:
— Vamos lavrar um contrato inicial de dois anos. Eu me comprometo a manter vocês numa escola de manequins e modelos, mas vocês têm de participar de, pelo menos, uma campanha por mês, os dois juntos ou separados, porque cada um vai assinar um contrato. E, antes que vocês levantem a questão, eu digo que podem levar a minuta do contrato pra ser examinada por um advogado. Se precisarem, eu dou o endereço do sindicato.
Não precisavam porque Cláudio tinha tudo na cabeça. Dona Isaltina, todavia, ainda queria saber mais uma coisa:
— E a minha filha, vai poder continuar na escola?
— É claro que vai. Aliás, é interessante que ela só perca as aulas dos dias que for chamada pra trabalhar.
Cláudio, por sua vez, desejava outro tipo de garantia:
— Eu sou espírita e freqüento um centro, onde estudo a doutrina de Kardec. Ela também. Nós sabemos que os espíritas têm certas convicções a respeito da moral e das leis de Deus. O que o senhor pensa disso?
— Você está querendo saber qual é a minha fé religiosa. Então, eu vou dizer que sou agnóstico, ou seja, que eu acho que a gente é impotente pra conhecer os mistérios do ser que nos criou e outros relativos à vida do homem na Terra. Quanto à moral, a minha idade já me permite dizer, sem me zangar, que tenho um histórico que pode ser investigado. Mas eu perdôo a sua indagação e até felicito, porque eu acho que os cuidados que você está tomando irão preservar o seu direito a uma vida independente e livre de pressões financeiras, porque, no nosso ambiente de trabalho, quando a pessoa começa a se destacar, logo recebe muitas propostas indecentes, se é que você está me entendendo.
— Drogas e sexo?
— Isso mesmo.
— Estamos prevenidos quanto a isso.
— Se não tiverem mais nada pra perguntar, eu vou apresentar vocês ao nosso fotógrafo. Se Dona Isaltina me permitir a sugestão, deixe que a gente tire da senhora algumas poses. Quem sabe em lugar de dois, vamos ter três contratos pra lavrar.
Na verdade, foram necessárias mais cinco sessões no estúdio até que o álbum ficasse a contento do empresário. Entrementes, Beatriz e Cláudio fizeram as fotos para a publicidade e foram aprovados, recebendo seu primeiro salário com imensa alegria, mais ainda Beatriz que ganhou o triplo que receberia em um mês na casa de Dona Neusa.
Quanto a Isaltina, mandou reproduzir uma de suas fotos, transformando-a em um pôster, que colocou em sua sala, princípio, meio e fim de uma carreira relâmpago como modelo.
Por coincidência, bateram os horários com os do centro espírita, de modo que a sua ausência lá estava sendo interpretada como de abandono da entidade. Mas tudo se iria esclarecer quando os jovens resolvessem ir visitar o Júnior e contar as novidades aos amigos da família Dias.



7. CONFABULAÇÃO

Apesar do cansaço de Norberto e Durvalina, tiveram eles ainda disposição para uma hora de conferência com os amigos do centro Amor Fraterno de Jesus, em que se definiram algumas estratégias para que o centro não se visse mais alvo dos ataques gratuitos pelo articulista.
Estavam presentes à reunião informal Claudiomiro e Agripino, que representavam a parte, vamos dizer assim, dirigente da entidade, muito embora Agripino não passasse de convidado para ministrar algumas lições através de exposições públicas, as chamadas palestras evangélicas. Lá se achavam também Juvenal e Clotilde, auxiliares valiosos para todos os serviços e que não gostariam de ficar de fora em crise de tamanha importância. Para dar retaguarda moral a Norberto, Valdemar, com a esposa Sofia, esta interessadíssima no desenrolar dos acontecimentos sob o prisma da aplicação prática dos preceitos doutrinários.
Claudiomiro, na qualidade de presidente da instituição, se viu forçado a atender à solicitação de Agripino para as deliberações e conseqüentes providências que o caso estava a exigir. Sendo assim, quis reiterar seu ponto de vista mais contido e prudente, apesar de haver lamentado muito o fato de que o comentarista havia reiterado as críticas em nova publicação:
— Não sei qual a razão específica dessas manifestações que não são lá muito caridosas para conosco. Eu acreditava que, se a gente não desse confiança, não demonstrasse nenhuma reação desagradável, o confrade iria buscar outros assuntos mais importantes pra discorrer. Sou obrigado a reconhecer que, pela nossa inocente abertura das dependências pras bodas de nossos companheiros, estamos pagando todos os pecados. Sugiro que a gente, antes de tomar uma atitude definitiva, precisa saber de quem se trata, em que centros tem ele atuação, se não está sendo insuflado por algum inimigo de alguém desta casa...
Agripino se viu na contingência de intervir:
— Meu amigo Claudiomiro, sem querer cortar-lhe a palavra, devo dizer que não resta nenhuma dúvida quanto a haver alguém por detrás dessa pessoa. Sugeriu ele que os espíritos que nos têm guiado, por causa dos apedrejamentos na casa do Norberto, são de baixa categoria. Se nós caracterizarmos as invectivas de que estamos sendo alvo como de pura maldade, também podemos suspeitar que ele está recebendo incentivos de irmãos infelizes da espiritualidade.
Aproveitou-se Valdemar para manifestar uma idéia que vinha formando-se em sua mente:
— Pois é bem possível que esse sujeito esteja recebendo incentivos bem mais materiais, mais físicos, mais corpóreos, mais terra-a-terra, ou seja, é bem possível que seja amigo de alguém que não gostou de receber a visita da fiscalização e que acabou sendo multado ou até processado.
Norberto logo concordou:
— Essa conjectura também passou pela minha cabeça. Mas eu não posso aceitar que, sendo o jornalista espírita, possa descer tanto.
Valdemar acrescentou:
— Pois nenhuma hipótese pode ser descartada.
Juvenal, o mais modesto e humilde dos presentes, simples soldado mas atento coadjuvante, também trouxe a sua idéia, desejoso de contribuir para o bom sucesso da reunião:
— Eu acho, se os senhores me permitirem a opinião, que não é difícil de investigar a pessoa que nos tem atacado. O nome está registrado e não é nem um pouco comum: Aristeu. Eu me encarrego de rastrear esse sujeito, no sentido de levantar um pouco de sua história, onde desempenha sua profissão e até ficar sabendo se ele não está combinado com o outro das fotos, que sei até onde mora.
Durvalina queria pôr um fim logo e se aproveitou da deixa de Juvenal:
— É verdade. Eu concordo com o nosso presidente e acho que Juvenal é a pessoa indicada para as primeiras providências no sentido de a gente conhecer melhor a personalidade desse nosso acusador.
Incentivada pela voz feminina, Sofia deu o seu parecer:
— A doutora tem razão. Eu apóio totalmente. Mas é preciso preparar a nossa defesa, relacionando cada item em que fomos atacados, provando da melhor maneira possível que esta casa espírita tem atuação destacada no campo social, inclusive reforçando, com os vídeos da cerimônia, que não houve baile, que não houve bebida alcoólica, que não houve aluguel, que os convidados eram apenas pessoas de nossas famílias e que as pessoas que encheram as dependências eram todas pessoas reconhecidas pela ajuda espiritual e material que recebem e que, por isso mesmo, gostam do casal nosso afilhado...
Extinguiram-se as citações dado que Clotilde também fez menção de participar:
— Eu posso ser testemunha de tudo isso. Eu tenho as notas fiscais das bebidas e o dono da cantina pode comprovar que foram pagas pelo Professor Raul, o pai do noivo. Além disso, eu posso dar o nome de todas as pessoas que aparecem nas fotos do jornal. Se ele quiser, que vá conversar com as pessoas. Eu dou também os endereços.
Norberto, que já não estava tão empenhado em deslindar o caso à vista das preocupações reinantes, propôs que Juvenal fizesse o que prometera, recordando-se de que fora sua a idéia de esconder o segundo artigo de Claudiomiro e desejou encerrar a reunião:
— Assim sendo, como nós todos estamos muito cansados, é bom ir pra casa, dormir com os anjos, esquecer tudo quanto é coisa desagradável em relação ao nosso desempenho e solicitar dos nossos protetores que nos iluminem o pensamento e nos façam menos...
Não encontrou a palavra que buscava, mas concluiu antes que alguém lhe tomasse a vez:
— É isso aí. A gente vê tanta coisa errada no mundo todo, tanta desgraça, tanta tragédia e, só porque alguém falou mal de nós, parece que o mundo vai desabar sobre nossas cabeças. Pedradas já recebi eu, no meu telhado. Santas pedradas, devo dizer. Quem sabe estas outras possam também ser convertidas em algo valioso para o nosso progresso? Eu proponho que Claudiomiro feche este nosso encontro com uma prece que só ele é capaz de fazer, rogando aos nossos guias que nos ajudem.
Como todos dessem mostras de concordar, Claudiomiro atendeu à solicitação do amigo e efetuou uma prece singela, concentrando seus rogos na área do entendimento do que poderia estar movendo as ações do litigante, pedindo que também este fosse iluminado, sem necessidade de nenhuma providência de caráter pessoal da parte de nenhum dos que foram atingidos. Lembrou Claudiomiro a possibilidade de um encontro no campo espiritual durante o sono e se pôs à disposição como voluntário para ir conversar, se assim fosse decidido pelos amigos da espiritualidade, com o espírito daquele que os estava incomodando.
A prece teve o condão de apaziguar os ânimos, de sorte que cada qual voltou para casa pensando seriamente em se pôr em contato espiritual com a figura em evidência.



8. JUVENAL EM CAMPO

O soldado era diligente. Efetuava um serviço dos mais eficientes para a corporação, de modo que, incorruptível, era destacado para as tarefas que exigiam moral ilibada e alto senso de justiça e comiseração. Era ele quem ia atrás das famílias dos criminosos, por exemplo, para sensibilizá-las quanto a oferecer pistas para a localização deles, sem fazer que temessem represálias e vinganças pessoais. Onde imperava a lei do silêncio, não poucas vezes convenceu os moradores a delatar facínoras, com vistas a dar a estes a oportunidade de se redimirem socialmente.
Mas também não foram raras as oportunidades em que as circunstâncias se tornavam tão desfavoráveis a ponto de Juvenal julgar melhor não espicaçar a vizinhança diretamente, jamais desistindo completamente de pesquisar a respeito dos eventos que fora encarregado de esclarecer.
Por essas condições especiais, o seu superior o aconselhou diversas vezes a que estudasse para tornar-se investigador da polícia civil, mesmo porque as tarefas que cumpria o punham em posição de destaque em relação à tropa. No entanto, era tão bem disposto em se interessar deveras pelos problemas de todos, que ninguém se antipatizava com ele. Por isso, em diversas ocasiões, ouviu confidências desagradáveis de colegas de farda que caíram nas malhas do crime e que lhe pediam sugestões para superar a crise, o que quase nunca era alcançado, tendo em vista que havia verdadeiras quadrilhas de malfeitores dentro da corporação, voltadas para todo tipo de ação contrária à cidadania. Mas esses extraviados do caminho do bem mantinham Juvenal à parte, porque sabiam que sempre haveriam de precisar de alguém impoluto para colocar à testa da corporação como exemplo para as honras oficiais.
Essa condição particular não era, em absoluto, uma exceção. Havia muitos como o nosso amigo, gente dedicada aos cultos evangélicos, chamando Jesus de Senhor, outros católicos a ponto de acompanhar procissão, vários espíritas freqüentadores dos centros e ainda os que, sem os distintivos das seitas e dos cultos, reverenciavam o bem e a solidariedade por índole e por formação familiar.
O fato de estar diretamente às ordens de um amigo, dava a Juvenal o privilégio de horário sem muito rigor de relógio mas cumprido integralmente, possibilitando-lhe certa autonomia quanto a se dedicar mais a uma que a outra diligência. Quando viu que precisava tomar a iniciativa da elucidação de quem era o articulista Aristeu, expôs o problema ao chefe e saiu, com a anuência deste, a campo.
Não demorou para localizar os locais das reuniões doutrinárias freqüentados pelo jornalista e logo estava inteirando-se de seus movimentos semanais de casa para a redação e desta para um leque de casas de benemerência espírita que se espraiavam por vários bairros a partir do centro da cidade.
Em trajes civis, buscou diretamente o distribuidor do jornal da União das Sociedades Espíritas e logo pôde avaliar que a tiragem era alta, sendo espalhada, através de assinantes, por todo o território nacional. Descobriu ali que Aristeu tinha dois títulos recentemente publicados, porém, o soldado tinha todo o salário distribuído, de sorte que se limitou a apanhar os folhetos com a propaganda para levar aos amigos.
O que o deixou um tanto admirado foram os títulos das obras: Os Centros Espíritas: Casas de Jesus e Sem Kardec haveria Espiritismo? Logo estava ele raciocinando:
“Como pode um autor de obras destinadas aos confrades espíritas abrir uma frente de combate contra irmãos que, no mínimo, poderiam adquirir seus livros? Preciso ver esse sujeito em ação dentro de um centro espírita, onde, com certeza, deve vender seus livros, desdizendo na prática o que escreveu contra a gente.”
Mas Juvenal não quis ir mais longe nas conclusões em que desabonava a conduta do outro. Informou-se sobre as palestras e noites de autógrafos junto à sede da União e verificou que Aristeu iria apresentar-se em uma das casas, para falar a respeito do tema: A verdadeira natureza dos seres humanos.
Na noite da conferência, compareceu, levando o velho médium Tomás, que se aposentara há poucos dias do emprego público que exercia sob as ordens de Agripino e que se interessara pelo caso, tão amigo era de Norberto e de Valdemar.
Chegados ao centro, foram recepcionados à entrada por uma jovem que lhes ofereceu o programa das realizações da semana, onde constava também o horário das atividades rotineiras da casa.
Afluía uma boa concorrência de sorte que o amplo salão se viu quase inteiramente lotado. Na hora determinada, deu-se início à reunião, assumindo a palavra um senhor, cujo nome declinou, dizendo-se autorizado pelo presidente da entidade para a recepção dos vivos e dos mortos, solicitando de todos o máximo de silêncio e de concentração para a prece com que abriria os trabalhos.
De fato, o povo calou-se, a suave melodia de fundo se extinguiu e a oração rogativa das bênçãos do Pai e do auxílio dos espíritos protetores se estendeu por alguns minutos, encerrando-se, como é comum nos centros espíritas, através da oração dominical, o pai-nosso.
Em seguida, o mesmo senhor fez a apresentação do palestrante, não se esquecendo de mencionar que, ao término da exposição, haveria um debate, no decorrer do qual seriam respondidas as perguntas do público ao orador. Estipulava-se um tempo para cada coisa, de modo que deveria Aristeu levar sessenta minutos para expor o seu tema, enquanto as explicações posteriores mereceriam mais trinta. Lembrou o anunciante que, ao saírem da sessão de passes, as pessoas poderiam adquirir as obras recentemente publicadas por Aristeu, que estaria à disposição para autografá-las. Sério, concluiu:
— Aristeu conhece as nossas necessidades pecuniárias, pois está a par dos gastos crescentes que estamos tendo com o atendimento às pessoas carentes. Por isso, a gente gostaria que os amigos presentes esgotassem as sessenta obras que ele doou para o nosso fundo, pequena contribuição de cada um para que possamos minorar os sofrimentos alheios. O precinho é muito camarada para um conteúdo doutrinário dos mais rigorosos e efetivos, no sentido de nos proporcionar momentos de leitura da mais alta categoria. Com vocês, o nosso confrade Aristeu e a verdadeira natureza dos seres humanos.
Ocultava-se o palestrante aos olhos de Juvenal e de Tomás, sentado que se achava na primeira fileira de cadeiras. Por isso, foi com grande curiosidade que ambos acompanharam um rosto vincado de rugas, cabelos escassos e alvos, erguer-se, trazendo consigo um corpo esguio e lépido apesar dos anos, a subir os três degraus sem dificuldade. Diante do microfone sobre o pedestal, parou. A sisudez do olhar impunha inquietante expectativa quanto à aridez da exposição.
Realmente, Aristeu não abriu sorriso algum, fazendo questão de iniciar com um esclarecimento pertinente à sua doação ao centro:
— Quero agradecer a referência do nosso amigo às obras que autografarei à saída. Quanto a ser minha a dádiva, aí existe uma falha de informação, visto que meramente eu trouxe alguns volumes diretamente da editora, que destina à propaganda dez por cento do montante da tiragem. No que toca ao autor, consagrei os meus direitos às obras mantidas pela U.S.E., ou seja, à União das Sociedades Espíritas. Não precisava fazê-lo, porque não se trata de livros de caráter mediúnico, os quais, como sabem os que estudaram as obras de Kardec, o codificador do espiritismo, tendo autores desencarnados, não devem gerar lucro para as pessoas que apanharam os ditados. No máximo, devem ser remunerados os empregados da gráfica, porque agem na qualidade de profissionais. Aliás, os editores dessas obras têm que se compenetrar de que sua tarefa é somente de divulgação da doutrina dos espíritos, devendo fazer originar os seus ganhos da prestação de serviços gerais de impressão à sociedade civil. Desde que venho em campanha de moralização dos dirigentes dos centros espíritas, para que bem orientem as pessoas que vão ingressando nas fileiras do espiritismo, estou sendo impelido a este tipo de manifestação, porque defendo a idéia de que, o mais possível, devem ser evitadas as atividades com fins lucrativos dentro do ambiente sagrado em que se reúnem os espíritos amoráveis que só desejam o nosso bem, afastando qualquer tentação dos corações abnegados dos encarnados envolvidos nas tarefas sublimes do atendimento aos necessitados que constituem o extenso grupo dos menos abonados física e intelectualmente. Que tem que ver este preâmbulo, ou seja, esta introdução com a verdadeira natureza dos seres humanos, conforme o tema que me dispus a expor? Tem tudo que ver.
Com extremos de rigor, Aristeu cumpriu o horário destinado à sua fala, sem uma brincadeira, sem um sorriso, sem um chiste sequer que amainasse a atmosfera de extrema seriedade com que desenvolveu, um após outro, todos os argumentos que incidiam para a conclusão de que o homem encarnado era a expressão atual de um ser que vinha formando-se pelos milênios, para o que era imprescindível a encarnação com a finalidade de expiação de sua faltas pregressas ou com a de auxiliar as pessoas a progredirem, eliminando os vícios e defeitos através das provações que naturalmente recairiam sobre suas frágeis constituições físicas.
O tempo destinado às perguntas e respostas foi ocupado todo ele por Aristeu, à vista da primeira questão proposta exatamente pelo apresentador, que desejava maiores explicações a respeito de como deveriam proceder os centros espíritas para cumprirem as suas metas de atendimento material.
Insistiu Aristeu no ponto crucial de sua manifestação anterior, ou seja, em que, dentro dos centros, se deveriam realizar tão-só atividades de caráter espiritual. Nesse aspecto, fez referência a Kardec, cuja Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas executava diversas arrecadações através da venda de livros e revistas, folhetos avulsos e até fotografias de seu presidente, fundo que se destinava aos gastos obrigatórios com aluguel, mas cuja atenção submergia perante a importância das atividades no campo do contato com os espíritos de luz, que se comunicavam de maneira elevadíssima, trazendo os preceitos doutrinários que iriam constituir o feixe de normas e diretrizes que, uma vez organizados, se divulgavam para o restante da humanidade. Nada que se assemelhasse com as preocupações quase sempre pessoais dos trabalhos mediúnicos hodiernos. Não teriam tido problemas os que ajudavam Kardec a manter a sua Sociedade funcionando? Claro que sim, respondia Aristeu, mas aí os próprios mentores da espiritualidade davam conselhos sábios para se evitarem os mesmos quiproquós no futuro. Antecipando uma observação do senhor que o havia questionado, encerrou Aristeu desenvolvendo a tese de que era um bom teste a ser levado a efeito, dentro dos padrões da legitimidade do interesse doutrinário, a consulta aos guias e protetores, para que se desse a eles a oportunidade de elucidar as mentes ou de censurar as intenções, conforme as necessidades de cada grupo de confrades dirigentes dos centros. Nesse ponto, citou de passagem um recente artigo em que criticava uma casa de evangelização que declarava que, para viver Jesus, era preciso estudar Kardec, mas que oferecia o sagrado recinto para festas particulares em que corriam à solta as bebidas alcoólicas e as pessoas se davam fesceninamente às danças mundanas.
Juvenal e Tomás não entendiam por que uma pessoa com tantos dotes intelectuais e com tanta facilidade de verbalização dos pensamentos incorria numa falha tão expressiva na apreciação das atitudes de um grupo grande de pessoas, como bem poderia ter imaginado a partir das próprias fotografias estampadas no jornal. Enquanto se formava uma fila para se entrar na saleta dos passes, trocavam eles algumas idéias a respeito, entremeadas de observações quanto às semelhanças entre o que observavam naquele ambiente destinado ao culto da doutrina espírita e os que ajudaram a criar, cada qual em seu centro espírita.
Não havendo passado nem dez minutos e não tendo encontrado nenhum conhecido, chegou a vez deles receberem o influxo magnético do passista aliado a seu protetor espiritual, o que fizeram com o máximo de desenvoltura, habituados que estavam a esse tipo de auxílio.
Ao saírem, notaram que se formava uma outra fila, a dos autógrafos, de modo que se viram impedidos de se aproximarem de mãos vazias para a conversa que sentiam necessária.
Rapidamente, Juvenal considerou:
— Vamos embora, que a turma talvez não gostasse de que a gente tomasse a iniciativa.
Tomás concordou e a investigação terminaria aí, se Juvenal não tivesse visto Oliveira afastar-se, dirigindo o seu carro, onde se lia a palavra reportagem na porta.



9. OLIVEIRA

Juvenal não se dispôs a seguir o repórter, mas, se tivesse conseguido conversar com ele, teria feito outra idéia do rapaz.
Na verdade, Oliveira não havia tomado conhecimento dos comentários gerados a partir de sua matéria por Aristeu. Aquela noite fora à conferência no intuito de apertar a mão do orientador, satisfeito por poder contar-lhe que fora admitido, na qualidade de médium, junto à mesa de reuniões do centro que vinha freqüentando.
Sentara-se ao lado do palestrante e dali ouviu boquiaberto ainda o encerramento da sessão, em virtude da rude acusação levantada contra os da outra casa espírita. De imediato concluiu que a sua reportagem havia sido transformada em libelo e decidiu que tinha de desfazer o equívoco. Contudo, havia a sessão de autógrafos, de modo que mal conseguiu adquirir um exemplar de cada, passando diante do autor, que lhe fez duas belíssimas dedicatórias, em que rogava ao Pai que o abençoasse em sua nova função e que lhe tornasse leve a provação mediúnica.
No caminho da redação, onde iria trabalhar até de madrugada, estabeleceu que precisava ler os artigos mencionados por Aristeu, para conhecer a extensão dos estragos morais provocados no meio da gente que o recebera com alegria tão espontânea na festa de casamento.
O trabalho na redação absorveu-lhe completamente a atenção, de modo que só voltou a pensar no assunto quando entrou no carro e viu os dois livros ali onde os largara.
Antes de se deitar, abriu um e outro e deu uma vista-d’olhos nos índices, julgando que a preocupação de Aristeu com a vida interna dos centros espíritas se sedimentava numa visão rigorosa da doutrina de Kardec, que amiúde reproduzia ipsis litteris entre parênteses. Os Centros Espíritas: Casas de Jesus e Sem Kardec haveria Espiritismo?, pelo que pôde perceber, ofereciam em maior o desenvolvimento das idéias da exposição.
Como não eram obras muito extensas, determinou-se a lê-las antes de efetivar a denúncia de precipitação que via como de sua responsabilidade. Mas encontrou um texto que o deixou temeroso de enfrentar seu orientador. Foi um trecho que leu três vezes:
“Se Kardec fosse vivo e percorresse as entidades que recomendam a leitura e o estudo de suas obras, talvez se obrigasse a inquirir dos espíritos que lhe davam as instruções doutrinárias se valia a pena trazer à humanidade a Terceira Revelação, uma vez que a ignorância está grassando entre o povo mais miúdo, aquele cuja escolaridade mal permite soletrar as palavras, cujo sentido acaba ficando um mistério para as mentes obtusas, incapazes de reconhecer a necessidade de ver no Espiritismo uma ciência.”
Em seguida, Aristeu apontava para a boa vontade de muitos dirigentes preocupados em reunir os de suas congregações em torno das obras fundamentais, mas, com conhecimento de causa, insistia em que esses cursos ou essas sessões mal conseguiam três ou quatro adeptos interessados, quase sempre leitores e autodidatas, público específico e restrito, para quem a iniciativa não repercutia quanto ao objetivo essencial de transformá-los em multiplicadores dos ensinos.
Oliveira, antes de dormir, ainda conseguiu organizar mentalmente um ponto de vista plausível a respeito de Aristeu:
“Sem dúvida nenhuma, o meu amigo não se importa com fazer figura perante os responsáveis pelos centros, caso contrário não seria tão cáustico em suas críticas. Se eu for falar a ele a respeito da injustiça que está praticando, muito provavelmente manterá seu ponto de vista, principalmente se tiver omitido o nome da instituição no seu artigo, como omitiu ao falar a respeito. Mais que nunca preciso ler o que escreveu pela imprensa.”
Olhou as horas, quatro e meia, aproximadamente; estipulou que acordaria oito horas depois e invocou Morfeu, para que o inspirasse durante o sono através de um sonho em que se encontrasse em espírito com Aristeu. Quando intentava aproveitar-se da rima em -eu para uma quadrinha, adormeceu.
Adormeceu e logo, sem transição, se viu perante o orador da noite, que o abraçou e lhe disse claramente:
— Você quer contar-me uma história de injustiças, não é verdade? Pois, antes disso, vamos visitar o templo dos eméritos espíritas, onde os maiores vultos da doutrina fazem as suas pregações.
De repente, Oliveira se postava diante dum amplo prédio envidraçado, de onde partiam reflexos de luzes em feixes de todas as cores. Lá dentro imperava o mais absoluto silêncio e, no entanto, havia um número incontável de tribunas, em cada uma das quais se situava um orador em plena atuação.
Aristeu, servindo de cicerone, ia levando o discípulo para diante de cada uma delas, onde podia ouvir o que dizia o palestrante, sem entender quase nada, no máximo podendo reconhecer a língua em que falava. Vários discursavam em francês, alguns em inglês, dois deles em italiano; havia muitos expressando-se em português com diferentes sotaques brasileiros, seja de caipira, seja de nordestino, seja de carioca, seja de paulistano da gema e outros.
Súbito, Aristeu estancou Oliveira diante de um alto estrado, sobre o qual havia uma espécie de trono de madeira trabalhada com enfeites metálicos imitando ouro e prata. No dossel, a inscrição: Allan Kardec, o Codificador do Espiritismo. Descendo três degraus, havia um pedestal com microfone, mas, como o trono, estava desocupado.
Em toda a volta, muitas pilhas de livros e revistas e algumas fotografias de um senhor meio calvo, de suíças e bigodes, ar absolutamente sério, todas com molduras pesadas e de finíssimo lavor.
Aristeu alertou:
— Observe o que acontece a quem intente subir nesse estrado.
De fato, enquanto o expositor amigo se afastava, houve um sujeitinho engravatado, de terno impecável e sapatos lustrosos, que se aproximou da escada, fazendo menção de subir. Foi repelido como se levasse uma descarga elétrica.
Oliveira percebeu que havia ali uma espécie de campo de força.
Não demorou e apareceu outro vestido com uma beca de magistrado. Esse foi mais longe, pois conseguiu postar-se perante o microfone. Mas gesticulou durante uns minutos e desceu como se escorregasse por uma rampa, sendo arremessado longe.
Um terceiro, envergando uniforme militar, carregado de livros, já velhinho, subiu com dificuldade até o trono onde tentou sentar-se. Como os anteriores, foi repelido, sendo que os livros se desfizeram no ar como bolhas de sabão, enquanto a figura adquiria ares de juventude, sendo apanhado por um gancho aéreo que o levou, como pôde Oliveira acompanhar, até a porta de fora, onde caiu esborrachando-se todo.
Nesse meio tempo, voltou Aristeu absolutamente indignado:
— Não é possível! Eles me haviam prometido uma tribuna bem no meio do auditório e só me concederam um caixote vagabundo e um cone de papelão para ampliar a minha voz. E quando me submeti e tentei expor as minhas idéias, tive a voz abafada pelos que estavam mais perto, que aumentaram o volume de seus alto-falantes. Ninguém me ouviu, ou melhor, ninguém sequer tentou ouvir-me, que logo os que estavam ali à minha frente foram procurar outros oradores, deixando-me sozinho.
Oliveira tentou confortar o desconsolado companheiro:
— Tudo que o senhor acaba de dizer eu sou capaz de repetir...
— Você não passa de um reles puxa-saco miserável. E ainda quer me fazer censuras e me chamar a atenção. Pois tome pra aprender.
Juntando à palavra uma ação cheia de energia, Aristeu começou a atirar sobre o repórter, que se encolhia todo, as obras de Kardec que apanhava das pilhas. E dizia:
— Para o alto de seu cocuruto, em plena região coronária, O Livro dos Espíritos, obra que deve espatifar os seus miolos. Para o meio da testa, no terceiro olho, O Livro dos Médiuns, para que enxergue e transmita as notícias das entidades do etéreo. Para a garganta, que fale somente o que presta e o que é de direito dos ouvintes, O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo. No coração, para que mude os seus sentimentos e a sua moral, lá vai O Evangelho segundo o Espiritismo.
Esse volume acertou o peito do pupilo, sem que sofresse nenhum impacto dolorido. Contudo, ao ser atingido no plexo solar, na altura do estômago, por A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, Oliveira baqueou, enquanto choviam exemplares de O que é o Espiritismo? e da Revista Espírita, encadernada ano a ano, machucando braços e pernas do pobre coitado, que não sabia mais como se defender. Nisso, Aristeu pegou uma fotografia pela moldura e deu com a tela na cabeça do repórter, encravando o quadro até a altura dos braços, imobilizando-lhe a parte superior.
Oliveira saiu correndo às cegas indo bater de frente numa muralha de Obras Completas, cada uma um verdadeiro paralelepípedo monolítico, muralha que desmoronou sobre ele, soterrando-o completamente, mal dando tempo a um pedido de socorro, em nome de Jesus.
O pobre acordou transido de frio e coberto de suor. Precisou trocar de roupa, envolvendo-se em dois cobertores, esperando fazer efeito o chá quente que a mãe, solícita e assustada, providenciou.
Eram cinco e quinze. Somente às seis e pouco conciliou de novo o sono, sem Morfeu e sem Aristeu que rimassem, prometendo a si mesmo que não se deixaria levar para mais nenhum auditório, nem que ali estivesse o próprio Kardec a perorar.
Acordou ao meio-dia, ainda sob a impressão do pesadelo, cuja simbologia psicanalítica ou espírita não conseguiu decifrar, e se dispôs a ir atrás das revistas para as quais Aristeu havia contribuído.
Às duas da tarde, já havia lido os dois comentários, escandalizando-se com a interpretação que o autor deu às suas reportagens.



10. NELMA

A falecida esposa de Norberto recobrara a consciência de si mesma e se dispunha a cuidar do filho encarnado na qualidade de protetora. Era dada aos estudos, de modo que, durante sua permanência no hospital do etéreo, eliminou os preconceitos católicos da última peregrinação carnal, mantendo, contudo, bem acesas, as palavras de Jesus, que guardara no coração e que deixara indelevelmente impressas na mente, porque as aplicara com boa vontade, tanto que sua resignação após a morte precoce fora exemplar.
Entendendo os desígnios do Senhor relativamente às necessidades de expurgo dos vícios e defeitos, incrustou no ser que, na verdade, havia sido apaniguada com uma deferência muito especial, qual seja, a de retornar tão lúcida à espiritualidade, a ponto de compreender que o filho teria de sua parte todo o cuidado, como se viva fosse, com a só diferença de que, nessa circunstância, sua visão tinha os horizontes bastante mais ampliados.
Regozijava-se, portanto, com o fato de que o Júnior iria receber o carinho de outra mãe e não de madrasta, reconhecendo que os dotes intelectuais unidos à benquerença ao marido faziam de Durvalina a substituta ideal, ainda mais porque, estudiosa do espiritismo e praticante do bem, ganhava os subsídios morais que cobririam os ausentes efeitos físicos da maternidade.
Lembrava-se com ternura de todos os dias de seu relacionamento com Norberto, mas as lembranças recuavam também para épocas mais distantes, quando havia ainda dificuldades a serem vencidas. Isso a obrigava a considerar um universo afetivo mais extenso, englobando saudades de relacionamentos íntimos e satisfatórios com outras criaturas, fazendo de sua existência atual um continuum evolutivo que lhe abria a perspectiva de união fraternal de espírito a espírito, sem considerações de caráter morfológico terreno.
Era assim que ela considerava seu desenvolvimento:
“É de todo maravilhoso que eu esteja vendo Norberto dedicando-se a Durvalina, sem a contrapartida do ciúme. Disseram-me que, um dia ou outro, eu notaria certo afrouxamento nas presilhas do egoísmo e que veria as entidades a quem amo como filhas de Deus, minhas irmãs, portanto, igualando-as no mesmo plano sentimental das criaturas semelhantes a mim, em desenvolvimento integral rumo à perfeição. Noto, também, que ultrapassei o rigor crítico das personalidades, caracterizando as deficiências de cada um como problemas objetivos a serem equacionados, sem interferência dos sentimentos degenerativos dos raciocínios fundamentados nos elementos de cura. O que me deixa satisfeitíssima, sou obrigada a orgulhar-me disso, no bom sentido, é que, enquanto não defino com precisão qual o melhor roteiro para o atendimento evangélico, sou capaz de orar, crente de que serei ouvida e auxiliada pelos irmãos maiores, meus queridos mentores, que dão azo a que eu crie a necessária experiência sem frustrações ou o sentimento delas.”
Aproximando-se de Etelvino, pôde Nelma perceber o quanto tinha para aprender no aspecto técnico, que a utilização do campo energético em que se movimentava guardava segredos para quem avançara mais no setor da moralidade superior. Mas, telepaticamente, recebeu um influxo de informações concernentes à sua percepção da realidade íntima que lhe assegurava que, se tivesse adquirido primeiro as qualidades do intelecto, poderia enfrentar alguns distúrbios específicos quando da luta que se travaria para ganhar os dotes morais. Ficou sabendo intuitivamente que, em geral, os povos que se civilizam têm de enfrentar tais percalços, enquanto a maioria dos indivíduos segue pela estrada da experimentação por meio de provações e de expiações.
Desejou Nelma confirmar, através de sua própria biografia espiritual a veracidade dos dados que estava cristalizando na memória e executou regressão ao passado orientada para a decifração das atividades que lhe propiciaram a condição do progresso sentimental. Ao final da imersão nos meandros das reminiscências, considerou que a coluna mestra de sua personalidade se havia fundamentado sobre a aceitação da lei do amor tal qual fora formulada por Jesus e reproduzida pelos evangelistas.
Mas Nelma se deparou com um problema objetivo, pela falta que sentiu o filho da mocinha Beatriz.
Imediatamente se reuniu a Etelvino, porque não desejava tomar nenhuma iniciativa sem consultar quem vinha desempenhando o mesmo papel relativamente a uma figura de seu relacionamento sentimental.
Exposto o problema, veio a primeira questão:
— Diga-me, meu amigo, se posso considerar esse fato uma provação dentre tantas que, tenho a certeza, meu filho haverá de enfrentar, já que se trata de um ser para quem estou em débito desde há muito tempo?
— Em primeiro lugar, não existem relacionamentos perfeitos nesta nossa faixa vibratória. Sempre haverá algum estremecimento mais ou menos antigo a ser resgatado. Em segundo lugar, é preciso firmar o conceito de que os protetores, ao mesmo tempo que agem por impulso de amor em relação ao pupilo, também estão empenhados na realização de algo de bom nível no âmbito da benemerência, visando a carrear para a própria personalidade não só os conhecimentos inerentes às ações em que vierem a se envolver, como também algum mérito de caráter moral, para aperfeiçoamento do espírito.
— Entendi que não devo esperar de mim mesma uma atitude aflitiva, dado que, para atingir a dupla finalidade que você apontou, a qualidade a ser posta em jogo, a qual eu julgo primordial, é a paciência, porque o nosso desempenho inteligente supera de muito o lento crescimento emotivo de uma criança de ano e meio de idade. Mas, se eu conseguir atrair a pessoa em questão, ou seja, Beatriz, fazendo-a matar a saudade que o menino sente de seus desvelos e carinhos...
— Não vá muito longe em sua presunção. Você está preocupada com o seu protegido. Isso é natural. Mas não se esqueça de que existem outros seres envolvidos nessa trama, vamos dizer assim, todas interessadas em algo específico à vista das próprias necessidades cármicas.
— Deixa ver se entendi. Você está sugerindo que é preciso respeitar o livre-arbítrio de cada ser...
— Eu estou dizendo claramente, e vou repetir, que os seres podem ser aproximados por influência de terceiros, seja no interesse de todos, seja no de um só, quando a intenção é firmar a convicção de que se fez o melhor possível, largando os resultados à conta das decisões dos demais. Contudo, devo frisar que todos nós estamos sob a guarda de nossos preceptores, que velam por nosso melhor desempenho. Você já firmou o princípio da inspiração, reconhecendo que tais amigos de nível superior estão atentos e nos ajudam sempre que necessário. Então, de certo modo, tudo o que planejamos executar em função de atender a quem esteja sob nossa supervisão fica na dependência de sabermos entender o que nos está sendo sugerido de mais alto.
— Posso inferir, apenas para especular, que, se você não me dissesse nada disto, eu iria receber as mesmas informações dos meus superiores?
— As mesmas, exatamente, não, porque eles são bem mais objetivos e não lhe iriam responder em tese. Eles aguardariam que você tomasse a iniciativa do auxílio espontâneo e iriam guiando-a em cada fase de seu projeto. É diferente desta nossa conversação, porque aqui eu lhe passo os meus conhecimentos no limite de minha experiência, enquanto eles lhe ministram parte de seu saber, porque nem você nem eu iríamos entender tudo o que eles teriam para nos informar, tão mais adiantados são que nós. Mas eu não quero que você conclua pela inutilidade desta nossa discussão. Sempre que dois seres conjugam esforços no sentido de se melhorarem, ainda mais quando estão visando a uma conseqüência que irá afetar de maneira positiva a um terceiro, auxiliando-o a vencer alguma dificuldade, estaremos sob o manto protetor de Jesus, muito embora não se mencione o nome dele explicitamente. É que a prática do bem entre espíritos evangelizados ou que estão dedicando-se à aplicação das diretrizes evangélicas do Nazareno merece dele a confirmação de sua promessa.
— Etelvino, o que você sugere que eu faça para atenuar o sofrimento ainda indefinido do Júnior, uma vez que, em sua vivência concreta, não sabe ainda caracterizar o que se passa no íntimo? O meu medo é que fique sua fisionomia espiritual vincada com uma ruga precoce, que irá ficar demarcada mais fortemente quando se estabelecerem os processos psíquicos da fase adulta. Ou seja, sem me aprofundar muito nos aspectos psíquicos, eu acho que todas as mínimas frustrações da época infantil terminam por desenvolver-se em fórmulas inconscientes de ajustamentos, incrementando hábitos de maior ou menor agressividade social.
— Muito piores que esses são os problemas impressos na alma das pessoas carreados para a encarnação como dificuldades de outras eras, dificuldades essas incrustadas mais profundamente e exteriorizadas de modo mais dramático, quero dizer, na definição da personalidade dos indivíduos. Se o Júnior tem de aprender a trabalhar a mente para superar a frustração da ausência da babá, o que não ocorrerá mais tarde, quando tomar consciência de que a mãe o abandonou sem possibilidade de reencontros balsâmicos, como o que você quer providenciar em relação a Beatriz?
Nelma não se intimidou com a exposição dos percalços. À medida que Etelvino ia desenvolvendo as idéias, conseguia acompanhar os raciocínios, de modo que, quando ele fez referência à ausência definitiva da progenitora, já sabia que esse seria um problema a ser enfrentado mais tarde, quando a resolução de casos mais simples lhe tivesse proporcionado mais habilidade no trato teórico das questões, para formulação mais adequada dos projetos de assistência.
Numa tentativa de voltar ao início, perguntou:
— E se eu me dirigisse diretamente ao protetor de Beatriz para conhecer os planos dele e verificar se incluem uma visita ao meu filho?
— Eu acho, querida amiga, que você deve fazê-lo o quanto antes, porque o entrosamento dos protetores, haja vista o que está sucedendo conosco, é imprescindível para uma ação mais eficaz em prol das criaturas sob o nosso amparo. Com certeza, direta ou indiretamente, você irá aprender muito com isso. Se quiser, eu a acompanho, porque Norberto, apesar de metido em alguns episódios que lhe estão a exigir decisões que afetarão seu futuro, não está me causando maiores cuidados, uma vez que vem respeitando os conselhos dos mais experientes dos dois planos da realidade.
— Eu quero. Aliás, eu insisto. E, se você chamar o Glauco para nos acompanhar, eu me sentirei ainda mais segura.
— Boa lembrança, mesmo porque eu desejo saber quais são as novidades que ele vai trazer em relação a Valdemar, que está impregnando na mente a suspeita de que Aristeu tem algum tipo de contato com o comerciante que ele tentou extorquir e que lhe causou graves problemas, até que tudo se resolveu com a retirada da queixa, mas que se precipitou depois com a denúncia formal de Agripino, apoiado por outra equipe de fiscais. Você está a par desses acontecimentos?
— Perfeitamente. Não se esqueça de que eu era amiga de Sofia desde os tempos de solteira.



11. ENCONTRO COM PAI JOSÉ

Assim que Glauco se uniu ao pequeno grupo, foi logo tomando conhecimento do projeto de irem em busca do protetor de Beatriz, para efeito de saberem quais os próximos passos concernentes à ajuda ao Júnior.
No caminho, desejou Etelvino interrogar Glauco a respeito das novidades a respeito de Valdemar, mas apenas conseguiu que ele lhe pedisse para esperar um pouco mais.
Lograram localizar Beatriz em seu terreiro de umbanda, ainda nos preparativos para os trabalhos da noite.
Evocado o espírito encarregado de resguardá-la de tropeços que a pudessem colocar em perigo quanto ao cumprimento das obrigações terrenas, logo se apresentou um preto velho, empertigado, vestido em trajes africanos coloridos, ampla capa a envolver-lhe todo o corpo. Pelo menos foi como Nelma o reconheceu. Para Glauco e Etelvino, no entanto, mais acostumados aos eflúvios sutis das auras, apareceu-lhe a entidade em meio a luzentes feixes multicoloridos, característica indelével dos seres superiores.
Antes que Nelma se apresentasse, já a nova personagem absorveu da mente de Etelvino todos os informes relativos a quem eram e o que pretendiam.
Então a ilustre figura falou:
— Irmã Nelma e irmãos Glauco e Etelvino, que a paz do Senhor os envolva e lhes assegure um desempenho magnífico de suas atribuições de anjos benfeitores. Quanto a Beatriz, cuja presença está sendo requerida junto ao petiz em apreço no coração da jovem progenitora aqui presente, devo avisar que mocinha também está saudosa dele, bem como de todos os membros da família, conforme lhe demonstra sua leitura das vibrações em prece que ela lhe tem enviado com freqüência. Deseja você que eu lhe defina os próximos passos da saga que o projeto de vida dela e de seus familiares consigna. O que lhe posso adiantar é que consta uma imersão muito profunda nos valores puramente materiais, para o que tem ela recebido influxo bastante ponderável de influências espíritas do mais variado teor, para que se firme moralmente, que a prova a que irá submeter-se vai exigir denodo e coragem, e para que possam triunfar as lições dos orixás e de Jesus.
Nelma não sabia como, mas o nome da criatura estava impresso em seu cérebro, de sorte que assim se expressou:
— Pai José, eu muito lhe agradeço a deferência das explicações. Percebo que, sem abrirmos a boca, o senhor apreendeu toda a nossa intenção. No entanto, à medida que o senhor desenvolvia os pensamentos, ia crescendo em mim a dúvida quanto a um nunca mais acabar de formulações meramente intelectuais, com respostas conseqüentes e consolidadas dentro do meu nível primário de dificuldades. Por isso, eu lhe peço para me esclarecer quanto à necessidade que têm Beatriz, os familiares e afins de se submeterem ao rigor de um teste tão difícil.
Sem demonstrar enfado ou qualquer outro tipo de sentimento negativo, mas não abrindo o sorriso, sisudo e severo, o interlocutor satisfez a solicitação, resumindo tudo o que pensava em pouquíssimas expressões:
— Você me pede para descerrar os véus que ocultam a vida pregressa de minha tutelada. Isso eu não vou fazer-lhe, por razões que você irá aprender, à medida que se desenvolve no mister que ora abraça. Mas não é difícil de conceber que os espíritos se encarnam com o fito de enfrentar provações, tanto maiores quanto mais estejam seguros de si e de seus guias. Existem também os que se encarnam com o duplo objetivo de servirem de apoio ou de elemento de incitação para os desafios. Vá com Deus!
Nelma bem que gostaria de insistir, mas fora o Pai José peremptório, conforme se lhe inscrevia na mente. Nesse instante, acendia-lhe a curiosidade de assistir aos trabalhos prestes a se desenrolarem na casa de atendimento espiritual do candomblé.
Etelvino e Glauco, no entanto, convidaram-na a deixar o ambiente, prescrevendo-lhe que estudasse mais antes de se expor a tão intensas emanações fluídicas, que as entidades que se concentravam ali pertenciam a muitas das faixas evolutivas, podendo ela não saber defender-se a contento, caso se visse assaltada por elementos de mais baixa condição moral. Por outro lado, Nelma recebia uma série de apelos íntimos para que ouvisse os amigos, sem imposições. Dentre as idéias que lhe afloraram à consciência, estava a de que ela bem poderia causar um transtorno para os que cuidavam da ordem geral no plano etéreo, que precisariam desviar-se de suas obrigações para atender aos chiliques de uma noviça.
Quando se afastavam, Nelma recebeu telepaticamente uma palavra reconhecida de Pai José:
— Minha filha, vejo que você tem muitos merecimentos, conforme demonstra o seu alto senso de disciplina e seu respeito pelos mais experientes. Então, vou adiantar-lhe que, no que depender de mim, Beatriz irá decidir-se por ir amanhã mesmo visitar o pequerrucho. Graças a Deus!
No imo de seu ser, Nelma agradeceu a deferência de que se viu alvo, orando com todo o fervor a Jesus, para que enchesse ainda mais de amor o coração do anjo de guarda de sua amiguinha.



12. GRAVES MUDANÇAS PROFISSIONAIS

Deixando Nelma entretida com as meditações que lhe foram provocadas pelos últimos acontecimentos, Etelvino quis pôr-se a par do resultado das pesquisas levadas a cabo por Glauco relativamente a Valdemar.
— Meu caro, o que vou narrar-lhe vai afetar também Norberto.
— Em lugar de contar-me através de palavras, que tal fazê-lo por meio de imagens, uma vez que você esteve presente na hora em que os fatos se precipitaram?
— Bem lembrado. Para mim é importante treinar essa forma de transmissão do que se fixou em minha memória. Você quer penetrar em meu cérebro ou prefere que eu projete numa tela de ectoplasma as personagens, cinematicamente?
— Creio que devamos optar pela segunda maneira. A descoberta por meio da telepatia não estabelece inteiro controle pelo emissor. Projetando na tela, este, no caso você, irá observar as imagens, assegurando-se de que os quadros vão sucedendo-se pelo prisma cronológico da realidade, sem interferências de caráter pessoal, como reflexões, reminiscências estranhas ao evento, estremecimentos emotivos e outras maneiras de perturbar a captação das cenas objetivas.
— Você vai ter de me ajudar na parte física da construção do aparelho, a menos que nos habilitemos junto ao Departamento de Recuperação dos Dados de Memória da nossa Escolinha de Evangelização.
— Eu ajudo mas lembro que tal exercício poderá aproveitar a companheiros nossos em fase mais atrasada de desenvolvimento técnico. Sendo assim, sugiro que vibremos para atrair esses nossos parceiros, que muito terão que aprender conosco, ainda que falhemos, ou melhor, que não concretizemos tudo de modo ideal.
Concentraram-se ambos, emitiram sinais cujo comprimento de ondas permitisse descodificação no Centro de Comunicações da instituição supra-referida e logo se viram cercados de amigos e estudantes de outras turmas, interessados todos naquela exposição de caráter fenomênico.
Etelvino rapidamente expôs aos recém-chegados o processo que utilizariam, instando para que não se preocupassem com o tema em si, mas com a possibilidade de se integrarem nas feições das personagens, como se fossem emanações do íntimo, as reações emotivas e intelectuais mais profundas, de sorte que presenciariam uma ocorrência distorcida, no sentido de melhor caracterizar as conseqüências das informações no âmago de suas personalidades. Fez questão de frisar o expositor que tal procedimento, quando plenamente desenvolvido, faculta aos do plano espiritual um conhecimento perfeito do que se passa no âmago dos seres encarnados, ressalvando o fato de que isso não ocorre sempre, mas quando não onera ou prejudica as criaturas sob observação.
Glauco, por seu turno, solicitou o máximo de comprometimento fluídico de todos, para que criassem as melhores condições para seu desempenho e, principalmente, para que ele pudesse sustentar a rememoração até o final.
Dadas as explicações, ficou bastante claro aos do círculo de fora que não poderiam solicitar nenhum informe adicional, para não se extraviarem as atenções do fulcro primordial dos objetivos em pauta.
Etelvino esforçou-se para construir uma tela translúcida, no que foi ajudado pelos demais, enquanto Glauco imergia nas lembranças de um passado recente.
Logo se delineou uma figura que tomou forma precisa e que Etelvino reconheceu como Agripino. A cena se ampliou e o chefe dos fiscais e espírita valoroso foi situado em seu escritório, sentado junto à mesa. Quando começou a falar, apareceu o protegido de Glauco, o próprio Valdemar, adentrando o recinto.
— Temos novidade das grossas. Sente-se e ouça com atenção antes de perguntar qualquer coisa.
A introdução do assunto não poderia despertar maior interesse. Valdemar sentou-se, apoiou os braços sobre a escrivaninha e dispôs-se a ouvir pacientemente as revelações do chefe e amigo.
Nesse ponto, Glauco introduziu uma vibração sonora em forma idiomática, para traduzir o pensamento de Valdemar. O quadro sofreu uma espécie de suspensão do tempo da realidade, ouvindo-se em background os pensamentos do pupilo interpretados pelo protetor:
“Será que estarei sendo processado novamente por algum antigo comerciante achacado por mim e incitado pelo homem que se viu nas malhas da justiça?”
Agripino se agitou intelectualmente e suas palavras se reproduziram tais quais:
— Fui chamado pelo manda-chuva. Ele me ofereceu um cargo de confiança numa comissão a serviço do próprio governador.
Isso desencadeou um rebuliço na mente do subalterno, nuanças diversas, interrogativas, suspicazes, depressivas, que logo causaram um derrame de adrenalina no organismo, preparando o rapaz para enfrentar algum perigo físico de monta. Ficou evidente a todos que a expressão passara a demonstrar um medo terrífico do desconhecido.
Agripino prosseguia:
— Deram-me a chance de levar comigo quem eu quisesse, por certo sabendo que eu gostaria de proteger alguém do novo superintendente que irá ocupar o meu cargo. Estou com medo que a corrupção esteja instalando-se em nosso departamento de maneira irrefragável.
Valdemar manifestou pela expressão que desconhecia o termo irrefragável, mas não pediu explicação, envolvido, isso sim, como reproduziu Glauco interpretando-o, pela perspectiva de ir trabalhar noutro setor. Continuou calado, enquanto o chefe ia em frente:
— Evidentemente, como eu tenho a certeza de que estou sendo colocado para escanteio, já que andei mexendo com interesses escusos de muita gente, e como tenho buscado bloquear as intromissões dos políticos para a sustação do processo de fiscalização e conseqüente aplicação de multas e outras penalidades que vão terminar no tesouro e não nos bolsos das pessoas, esse novo posto, apesar de muito melhor remunerado, irá constituir-se em mera sinecura. Eu já fiz um levantamento dos novos parceiros de trabalho e pude verificar que se trata de um grupo inócuo, que fica a examinar propostas de alterações legais que redundam em anteprojetos de leis e que morrem nos escaninhos da burocracia inoperante da administração comprometida com interesses particulares.
Valdemar fez um gesto que concordava mas pediu também que Agripino se apressasse. Este não se fez de rogado:
— Pois bem! Eu pedi e me concederam o direito de levar você e o Norberto comigo. Eu não quero vê-los sob a mira de gente desqualificada moralmente...
Valdemar colocou o dedo indicador da mão direita sob a palma aberta da esquerda, pedindo um tempo e permissão para falar. Agripino fez que sim com a cabeça.
— O senhor não acha que existe por trás de tudo alguma manobra do sujeitinho que teve que se haver com a justiça?
— Ele não deve estar agindo sozinho. Com certeza, existe um grupo bem amplo de comerciantes muito satisfeitos em pagar propinas para os nossos maus companheiros, porque, assim, sonegam o que podem, economizando muito em relação ao que gastariam com o cumprimento puro e simples dos deveres legais.
— O senhor não está me dizendo nenhuma novidade. Todo o mundo sabe disso. Mas eu acho que o senhor não está sendo visado diretamente senão iriam maquinar algo maquiavélico para envolvê-lo em algum crime. Talvez alguém mais importante, que goste do senhor ou que tenha em consideração seus atos baseados na honestidade e no decoro, esteja querendo poupá-lo de algo mais grave.
— Hoje eu estou muito azedo, Valdemar. Se eu pudesse, iria ao centro, evocaria meu protetor e pediria a ele para me fornecer todos os nomes e a responsabilidade de cada um.
— Isso me dá arrepios.
— Se eu tivesse tratos com o diabo...
— Acho que nem assim, porque a conseqüência seria um aumento de sua raiva e, portanto, uma recaída moral de resultados imprevisíveis.
Nesta altura, Glauco fez menção de suspender a projeção, mas Etelvino solicitou-lhe um último retrato psicológico de Valdemar. Então, a tela foi toda ocupada pelo semblante do encarnado que caracterizava a fisionomia conforme seus pensamentos eram reproduzidos de viva voz:
“Eu gostaria também dessas informações. Mas não devo deixar-me agasalhar por emoções ruins. A melhor maneira de superar os meus arrepios é elevando o pensamento a Deus, como dizem lá no centro, fazendo uma prece em agradecimento às providências do Agripino e de quem mais esteja velando por nós no orbe e fora dele. Eu não tenho idéia de como Norberto irá reagir, mas eu acho que vai ficar aliviado por se ver livre de todo tipo de falcatrua em que toda a gente quer meter-nos. Sofia é quem vai gostar muito, já que o susto que ela levou quando eu tentei extorquir e fui repelido... Preciso livrar-me desse sentimento de culpa. Já jurei que nunca mais vou repetir aquela proeza; já me entreguei nas mãos de meus guias e protetores que me dessem não uma mas várias oportunidades de resgatar o meu débito; já requeri que me evitassem esta dor moral originada em meu amor-próprio ferido, fazendo-me consciente de minha inferioridade e da necessidade de melhorar...”
Nesse instante, a imagem adquiria uma feição quase trágica, como se todo o peso do mundo estivesse sobre os ombros do coitado. Mas Glauco fez entender que uma oração perpassava pela mente e pelo coração do pupilo, o que levava aquela face a uma serenidade que só não era completa porque se mantinha um vinco de preocupação pela necessidade de noticiar os acontecimentos aos familiares.
Refeito do esforço vibratório, Glauco foi logo assaltado por inúmeras questões dos amigos presentes. Queriam, principalmente, saber se o diálogo ocorrera exatamente com aquelas expressões ou se teria havido interferência, no sentido de tornar mais adequada a formulação das idéias e sentimentos.
— Posso afiançar-lhes que o vocabulário apenas é que sofreu algumas correções quanto à melhor palavra correspondente a cada idéia. O sentido geral foi mantido, de modo que a desconfiança de vocês quanto ao nível intelectual dos encarnados ter recebido um tratamento superior deve quedar esquecida. Claro está que suprimi algumas fórmulas que desagradariam os ouvidos mais castos e que não acrescentariam nada ao inteiro teor dos pensamentos e dos sentimentos, conforme a tradução fisionômica interpretou, no entanto, se déssemos oportunidade a que os dois indivíduos focalizados se manifestassem na condição de puros espíritos, não se afastariam muito dos dizeres reproduzidos e, mesmo que se afastassem, seria no sentido de se comunicarem ainda com maior propriedade. Peço-lhes que estudem e que respondam por si mesmos às demais questões, debatendo e aplicando a novas experiências. Um abraço a todos e vão em paz, compreendendo que Etelvino e eu vamos ter o que fazer. Obrigado.



13. REAÇÕES EM CADEIA

Valdemar obteve de Agripino permissão para comunicar ele mesmo a Norberto a novidade, dado que este ainda iria ficar mais uns dias em casa.
Antes, porém, teve o seguinte diálogo com a esposa:
— Visto que estou sendo transferido sem levar o meu cargo, apenas em comissão, não posso lamentar a perda de nenhum posto. Em meu lugar vão pôr um substituto, que sairá quando eu manifestar a vontade de retornar às minhas funções.
— Não tem perigo, então, de que você perca nada?...
— Ao contrário, receberei uma gratificação e ainda terei um regime bem mais folgado.
— E os valores que você recebe como verba de transporte?
— Agripino me explicou que tudo está sob controle, porque teremos de nos deslocar pra todas as secretarias e repartições, aumentando ainda o círculo de atuação para o Estado todo, em lugar de ficarmos só na Capital.
— É o mel na sopa!
— E você acha que eles iriam criar cargos em comissão sem as regalias e as mordomias dos escalões mais altos do funcionalismo?! Agripino disse que ali estão alguns membros dos staffs dos governos anteriores que não podem ser mandados embora por se terem efetivado. É como costuma dizer meu pai: uma mamata.
— E a sua consciência?
A pergunta era incisiva e não deixava margem a tergiversações. Mas Valdemar não se apertou:
— Quem me diz que não esteja entre as minhas provações escolhidas antes da encarnação mais esta tentação?! Não é verdade que se trata de um teste para ver se eu sei aplicar os valores doutrinários? Quanto mais dificultoso, maior, eu vejo, a confiança de meus guias em que eu tenha a possibilidade de vencer.
— As palavras vêm muito fáceis quando se trata de tirar vantagem.
— Sofia, você é minha amiga ou da onça? Se eu estou em vias de sofrer o assédio do mal, como já sofri antes, quero ver se me saio bem. Não é esse um direito meu? Se não fosse assim, não haveria riqueza no mundo pra ninguém.
— Querido esposo, você está querendo enriquecer no serviço público? Então, prepare-se pra roubar, pra falcatruar, pra extorquir, pra desviar, pra locupletar-se...
— As palavras vêm muito fáceis quando se trata de criticar. Na verdade, você também, querida esposa, está tendo de remar no mesmo barco contra a correnteza. Não pense que eu vou lhe dar a moleza de uma vela panda ao vento.
— Panda?
— Tirei da cartola: quer dizer inflada, inchada, cheia.
— Preferia que você colocasse um motor de popa nesse barco que ameaça fazer água.
Mal disfarçavam uma alegria sobre que não abriram o bico, ou seja, pelo fato de que Valdemar iria livrar-se do contato dos colegas e negociantes desonestos que os agentes fiscais têm de suportar o tempo todo.
Sofia propôs e o marido aceitou que fossem os dois ao apartamento de Durvalina e Norberto para contarem o que sabiam. Estabelecido o compromisso por um telefonema, esconderam o principal mas enfatizaram a premência da necessidade, de sorte que, uma hora depois, aportavam com seu barquinho junto ao atracadouro do prédio do casal amigo.
Foram recebidos à porta por Norberto, que carregava o filho desnudo da cintura para baixo:
— Vocês chegaram na hora que eu ia colocar a roupa no menino. Hoje ele conseguiu usar a bacia do banheiro pela primeira vez. Ficou todo contente porque me ajudou a puxar a descarga, vendo tudo desaparecer. Eu fiquei pensando se essa não é a causa das sensações de alívio que a gente sente quando as coisas ruins vão por água abaixo.
Valdemar olhou para Sofia, que correspondeu com o mesmo ar de perplexidade. Saberia Norberto a verdade ou estaria havendo só uma coincidência?
Nisso chegou Durvalina, recendendo um aroma suave de perfume francês, banho recém-tomado, com os cabelos ainda úmidos, sem maquilagem, exuberante em sua beleza natural. Trazia os cabelos mais claros que o habitual, dando a impressão de uma sílfide germânica. E foi logo dizendo:
— Vocês não calculam quanto bem me faz, depois de um dia inteiro mexendo com as moléstias dos irmãos infelizes, um banho na jacuzzi. Como relaxa uma hidromassagem de meia hora! Eu me sinto como devem sentir-se os espíritos quando voltam pras colônias após as surtidas pelo umbral pra recolher os desgraçados arrependidos.
Valdemar ia admirando a colocação dos termos espíritas à linguagem do dia-a-dia, quando Sofia se saiu com esta:
— É uma bênção de Deus poder a gente fazer as coisas de acordo com o que mandam os preceitos e as leis da natureza. Reconforta a consciência o dever cumprido. Eu digo isso porque é bem pouca gente que pode ter a contrapartida de um conforto material recheado de bem-estar. Eu sei que os trabalhadores comuns têm chuveiros, muitas vezes, precários. Mas acredito que aqueles que não têm, ainda assim conseguem dormir sossegados, quando praticaram o bem, trabalharam e lograram trazer pra casa o pão dos filhos.
Durvalina superou o desejo de falar a respeito de uma gosma crítica que poderia extrair das observações da amiga e obtemperou:
— Por isso é que Norberto e eu marcamos pra ler o Evangelho de Kardec uma vez por semana. A gente nunca vai se esquecer de agradecer ao Senhor e aos protetores o privilégio de uma vida abastada o suficiente pra que o nosso ânimo se mantenha o mais possível alerta para a prática do bem que, segundo o que está registrado em O Livro dos Espíritos, é o objetivo maior desta existência carnal.
Valdemar aproveitou a deixa:
— Então, vamos falar a respeito do que a amizade pode produzir em benefício da pessoa querida. Nós dissemos que tínhamos uma notícia importante. Pois o bem quem se preocupou em praticar foi Agripino. Ele recebeu um convite pra servir ao governador numa assessoria técnica e se lembrou de levar a gente, você e eu, pra trabalhar com ele.
Norberto ouvia com muita atenção, enquanto fazia agrados no filho que estava no colo de Sofia, já trocado e perfumado. Não se inquietou com a informação, mas fazia lá consigo algumas ponderações. Enquanto isso, Valdemar colocou-os a par das regalias da função e repetiu as suspeitas de Agripino, dando bastante ênfase à necessidade de não se exporem à sanha dos maus contribuintes e dos maus colegas.
Durvalina foi quem fez o primeiro questionamento:
— Quer dizer que estão tirando vocês da linha de frente da moralização do departamento?!
Sofia foi quem respondeu:
— Isso não padece dúvida, especialmente porque, nos últimos tempos, muitas autuações de ambos acabaram ficando sem efeito, mediante recursos interpostos e sempre deferidos.
Valdemar interpretou:
— Pois eu acho que até que muita gente ficou contente, porque nem pagou a multa nem teve o processo indo pra frente, ficando quase todos até sem pagar nem uma parcela dos impostos devidos. Agripino tem feito o possível pra nos resguardar das retaliações, tanto que não se cansa de reescalonar os fiscais pelos setores, sempre atribuindo a nós dois serviços muito bem escolhidos de comerciantes filiados ao movimento espírita, conforme pude avaliar acrescentando uma conversinha alheia ao trabalho.
Norberto manifestou-se, finalmente:
— Está certa a pessoa que irá ficar no lugar do chefe?
— Deve estar, só que a gente não sabe de quem se trata. Conforme eu disse, deve ser alguém que já responde por outra divisão e que vem para padronizar o serviço pela fórmula do toma-lá-dá-cá.
— Eu não sei se devo aceitar a transferência. Onde eu estou, a minha atuação pode ser medíocre, mas quem sabe, mais tarde, possa surtir algum efeito positivo.
Sofia saiu em defesa dessa decisão:
— Eu acho que Norberto está certo. Falando bem claro, eu não gostei de ver Valdemar todo contente por sair da repartição onde vem trabalhando há tanto tempo. Agora que vocês dois venceram seus problemas funcionais, as coisas devem ficar mais, não digo fáceis, mas mais favoráveis para a implantação de algumas normas morais evangélicas.
Durvalina, que se preocupava com o jantar, juntou:
— Eu vejo as coisas de um modo mais prático, quase diria profilático: vocês dois devem dar um tempo e aceitar ficar ao lado de Agripino, pelo menos pra poderem avaliar se a nova situação vai permitir que vocês desempenhem algum papel mais importante, sejam quais forem as diretrizes a que terão de se submeter. Como foram lembrados com tanto desvelo pelo seu protetor profissional, devem dar a ele, à vista de sua experiência mais larga, não só no serviço público, como em todos os ângulos da existência terrena, um voto de confiança em que sua visão seja mais aguda e perfeita e que ele estará também examinando o transcorrer dos acontecimentos através de um prisma ou de uma perspectiva mais adequada pra uma conclusão definitiva a respeito da corrupção que se instalou pra beneficiar alguns em detrimento de muitos, pra dizer o mínimo.
Norberto esperou até que ela aguardasse uma resposta e considerou:
— Continuo, apesar de tão belas palavras, disposto a me manter no meu posto. Mas não quero com isso dizer que Valdemar esteja errado, nem que Agripino se precipitou em indicar o nosso nome. É só uma questão de opinião. Em todo caso, eu ainda tenho quatro dias...
Valdemar esclareceu:
— Você tem quatro dias de férias mas, se não tornar sem efeito a sua indicação, o seu nome vai sair no Diário Oficial.
— Eu não assinei nada.
— E quem disse que precisa assinar? Pra voltar é que vai precisar entrar com um requerimento. Aliás, vai ficar muito esquisito recusar uma situação privilegiada. Vai pegar muito mal entre os nossos colegas, que já estão achando que nós fomos muito favorecidos...
— Mais uma razão pra eu não aceitar.
— Então, meu distinto colega, você vai me arrastar com você, porque nessa fria eu não vou deixar você sozinho.
Sofia vibrou:
— Boa, meu querido marido. Era isso que eu queria que você dissesse.
Durvalina, vendo que seu parecer estava sendo vencido, não fez força para revalidar seus argumentos. Então, propôs:
— Vamos comer. Vocês sabem que foi Norberto quem preparou a comida? Pois se espantem: ele ligou de casa e pediu pro restaurante que formulasse um cardápio. Está tudo acondicionado e pronto para o microondas. Eu nem sei o que foi que ele pediu.
Então as duas jovens senhoras foram aprestar a refeição, enquanto Valdemar fazia uma tentativa heróica para dissuadir Norberto:
— Sabe o que eu estava querendo fazer? Enquanto a gente passa uma temporada num dolce far niente, eu vou preparando o livro a respeito dos desenhos mediúnicos da Beatriz, juntando as notícias sobre os apedrejamentos em sua residência, ou melhor, a respeito dos fenômenos físicos ou de poltergeister que vivenciamos juntos, vou preenchendo tudo com citações as mais variadas retiradas de Kardec e de outros autores mais modernos. Quanto a você, pode aproveitar pra preparar suas palestras, quem sabe até escrever uma obra sobre as injustiças de que estamos sendo alvo pela imprensa espírita...
Norberto começou a rir, divertido:
— Você está me saindo pior que a encomenda.
— Melhor que a encomenda, por favor.
— Digamos que nós façamos tudo o que você planejou no horário do expediente. Não existe aí um forte ranço de imoralidade, de desonestidade? Será que não é o mesmo que fazem os que achacam os comerciantes e industriais raposas velhas e sonegadores? Eu não acho que a desculpa... Quer saber de uma coisa? Você me lembrou o nosso Chico Xavier, que, durante mais de trinta anos como servidor público, jamais se deixou levar pelos impulsos fortíssimos de sua mediunidade complexa, não deixando um minuto sequer de cumprir as obrigações funcionais. Que você me diz disso?
— Eu posso dizer que seria muito pior ficar inutilmente batendo papo com as moscas. Em todo caso, sem estar lá, a gente não pode antecipar o que vai ou o que não vai ser. Eu ainda acho que devemos atender o conselho tácito de Agripino. Não dando certo, voltamos atrás. O que é certo é que vou manter minha decisão: o que você fizer eu também faço. Você não viu a alegria de minha mulher?
Mais teriam conversado em particular se não tivessem sido convocados para comer.
A manducação foi prazerosa e o tema momentoso se deixou ficar para trás, quando Durvalina trouxe à baila a necessidade de tomarem conhecimento dos resultados das investigações de Juvenal quanto ao autor das diatribes.



14. ACERTANDO UNS PONTEIROS

Juvenal, como vimos, queria muito saber de Oliveira qual era sua participação nos acontecimentos que estavam envolvendo o pessoal do Amor Fraterno de Jesus. Por isso, não fez rodeios e se apresentou na redação, tarde da noite, no horário de trabalho do jornalista.
— Que deseja o diligente soldado Juvenal, por quem seja?
— Como você sabe, Oliveira, nós, meganhas, usamos a palavra positivo pra confirmar tudo o que se diz de correto. Eu vim pra dizer um positivo pra você.
— Você está me deixando assustado.
— Primeiro, eu não sei se alguém já lhe agradeceu a reportagem que você publicou a respeito do casamento do meu amigo Norberto.
— Nosso amigo, que eu me agarrei àquela família quando levei umas pedradas por conta de minha intenção de registrar uma falcatrua que era só minha.
— Então, você confessa que armou...
— Ora, eu, por acaso, não vi o Ricardo na festa e você juntinho com ele? Só se eu fosse muito estúpido. Aliás, eu posso até adivinhar o que você veio fazer aqui. Você quer saber qual é a minha responsabilidade na onda de difamação que o meu padrinho espírita...
— Só pode ser o malfadado Aristeu.
— Aí está. Adivinhei.
— Você leu os dois artigos que ele publicou?
— Li e me espantei, se é que você acredita em mim.
— Não sei por que não acreditar.
— É que você pode pensar que eu dei a ele todas as informações. No entanto, tudo o que ele sabe colheu na leitura de minha, essa sim, malfadada reportagem.
— Qual é o interesse dele?
— Eu pensei que fosse vender os livros que publicou. Você já viu?
— Vi mas não tenho dinheiro pra comprar.
— Depois que terminar a leitura, eu levo pra você no centro.
— E então?
— Bem, eu acho que ele está querendo ser mais realista que o rei.
— Ou seja...
— Ele está preocupado com o movimento espírita, com os desvios da doutrina de Kardec. Se você me perdoar, eu vou deixar as explicações desse tipo pra outra hora, porque agora estou em meu horário...
— Só mais uma coisa: você teve oportunidade de conversar com o seu padrinho a respeito?
— Estou ensaiando, porque eu não quero ofendê-lo tantas gentilezas eu devo a ele. Eu estive outro dia numa conferência que ele fez...
— Eu vi você quando estava saindo.
— Pois então você sabe que ele mencionou o que considera um sério desvio de conduta da parte dos dirigentes dos centros espíritas. De qualquer modo, eu estive pensando que ele teria razão, se estivesse estribado na verdade. Ocorre que a escolha das fotos é que foi muito infeliz. Era uma festa de felicidade pura. Eu estava lá e vi.
— Então, melhor do que a ninguém, cabe a você desfazer os equívocos. Nós temos os vídeos da festa e podemos comprovar que não houve baile, só as fotografias. Depois, é só ouvir as testemunhas. Quem é que vai dizer que correu champanha, quando você mesmo deve ter experimentado o espumante sem álcool e deve até ter visto os rótulos.
— Quanto a isto, pode ficar tranqüilo. Eu vou ter uma conversa com Aristeu e vou colocar tudo em pratos limpos. É pena que eu não tenha visto na hora o primeiro artigo dele, porque assim eu teria impedido o segundo.
— Então, impeça o terceiro, por favor, que o povo lá no centro ficou muito triste, muito aborrecido, achando que todo o mundo que não esteve no casamento vai abandonar a casa, porque as coisas boas vão com passos de lesma, mas as ruins pulam feito gafanhotos.
— Ouvindo você falar, crescem, na minha consciência, os fantasmas da culpa e da responsabilidade. Agora que estou me compenetrando dos fundamentos espíritas...
— Eu me lembro que você disse que os fenômenos que aconteceram na casa do Norberto eram apenas o resultado... Como é mesmo?
— Eu fui me orientar com um sujeito que conhece parapsicologia e que me disse que tais coisas ocorrem através de forças desconhecidas, vibrações energéticas que emanam das pessoas sem que elas mesmas saibam.
— E agora?
— Agora eu acho duas coisas: a primeira é que é muito mais compreensível se a pessoa admitir a existência de um meio de manifestação das entidades do plano espiritual; a segunda é que tudo o que eu disser você já sabe e não adianta a nossa conversa pro serviço que eu ainda tenho que realizar.
— Então, eu posso dizer o que estava achando antes que seria muito difícil: Positivo!
— Fique sossegado e diga aos seus amigos que, no que depender de mim, o Aristeu irá se retratar.
— E se ele não quiser?
— Vai ter que dizer o porquê disso.
Quando Juvenal relatou o resultado de suas investigações ao grupo reunido no centro, sentiu que o tema que três dias antes dera tanto pano para mangas agora perdera muito do interesse.
No entanto, uma observação de Claudiomiro calou fundo na mente de todos:
— Às vezes, nuvens negras no horizonte nos assustam e nos deixam com muito medo. No entanto, elas apenas nos dão um aviso seguro de que o tempo vai piorar. Mas, depois da tempestade, vindo a bonança, a gente fica até mais sereno, porque sabe que a terra foi umedecida e agora está melhor preparada pro plantio. O duro é quando o dia está claro e, de repente, um vento forte causa um tufão ou uma ressaca e nos pega desprevenidos. O que estou querendo dizer é que vocês queriam tomar providências e eu pedi pra esperarem. Pois agora, sabendo onde está o problema, o melhor a fazer é ajudar o repórter a convencer o palestrante, jornalista e autor de que ele estaria plenamente certo em suas conclusões, caso fossem verdadeiras as informações que basearam os seus raciocínios. Eu pensei muito a respeito e estou querendo dizer que não vai ser fácil a missão de quem se atrever a ir conversar com ele, porque eu também fiquei sabendo que é muito respeitado entre os dirigentes das uniões das sociedades espíritas e até na federação. Eu acho que ele não pode ser afrontado, porque vai se melindrar e aí é capaz de achar outros motivos pra nos recriminar.
Como todo o grupo estivesse cansado, trazendo para a reunião outras preocupações, Norberto resumiu o sentimento dos demais:
— O senhor está certo. O que nós não podemos é chuchar o leão com vara curta. Aliás, nem com vara longa, que esse, se ficar zangado, acaba derrubando a porta da jaula. Em todo o caso, eu vou, com quem queira me acompanhar, atrás do Oliveira, se é que ele já não fez o que prometeu. Eu pensei que Agripino viria hoje aqui, mas ele não veio. Sendo assim, preciso ir conversar com ele, onde ele marcar. Pra isso serve o telefone. Aliás, serve também pra falar com o repórter. Deixem comigo que eu ainda tenho um dia livre, ao contrário de todos vocês.
Fez uma pausa para ver se alguém se propunha a acompanhá-lo mas ninguém se manifestou. Então, concluiu:
— Hoje é quinta. Segunda-feira, eu trago uma resposta definitiva.



15. UMA PÁGINA É VIRADA

Na manhã seguinte, logo cedo, Beatriz ligou para marcar um horário com Durvalina e Norberto, que estava morrendo de saudade do pequerrucho. Combinaram que iriam almoçar na casa de Dona Neusa, no sábado, todos prometendo muitas novidades.
Norberto também ligou e conseguiu um encontro com Agripino para aquela mesma manhã. Oliveira não foi possível contatar, deixando um recado com a mãe dele, para que retornasse a ligação. Foi quando soube que só iria acordar lá pelo meio-dia.
Durvalina saiu cedo para atender no consultório e Norberto foi com o Júnior para a casa do pai, onde deixou tudo ajeitado para o dia seguinte. Os avós festejaram o neto e logo estava Raul explicando ao filho que naqueles últimos três dias ampliara o número de imóveis possíveis.
— Pai, eu lhe prometo que esta tarde mesmo nós iremos dar uma olhada em um ou dois prédios. Você deve saber que sem a doutora, não é possível fazer negócio.
— Nem eu quero precipitar as coisas. A verdade é que na segunda você reassume...
Nesse ponto, Norberto teve de pôr o pai ao corrente de sua transferência funcional, abreviando o assunto, mas aproveitando a oportunidade para dar ênfase à sua necessidade de ir falar com Agripino.
Assim, uma hora mais tarde, tendo cruzado praticamente a cidade, via-se frente a frente com o amigo, com quem levaria mais uma boa hora conversando, a sós, a respeito da repartição. Não precisou muito o chefe para convencer o subalterno a ir com ele freqüentar a comissão de assessoria ao governador:
— Fique sabendo, Norberto, que eu me sinto responsável por sua transformação e a do Valdemar, no campo filosófico. Mais do que vocês, eu sei que a luta de um espírita nunca deve esmorecer, porque é preciso manter acesa a chama da confiança na misericórdia divina, que nos sustenta de pé diante de todas as vicissitudes. Mas saiba que eu serei o primeiro a denunciar a ociosidade à autoridade e a exigir que nos dêem um serviço digno e conseqüente. Hoje à tarde, Valdemar e eu iremos tomar posse do novo encargo. Tudo bem. Você vai segunda-feira. Combine com o Valdemar e vão juntos. Você vai ver que teremos o que fazer e que a nossa atuação irá atingir uma parcela de público bem maior, já que, pelo que me informaram, iremos elaborar anteprojetos de leis que serão submetidos aos departamentos jurídicos e depois enviados à Assembléia Legislativa para a tramitação que redundará em lei. Eles me disseram que estão pretendendo modificar o sistema de fiscalização, inclusive quanto à corregedoria, para moralização.
— O senhor acredita nisso?
— Eu não posso duvidar. De resto, todo esforço no sentido de melhorar, seja o que for, deve merecer o apoio dos espíritos de luz que guiam os destinos dos homens em cuja responsabilidade repousa o bem da comunidade. Praticar o bem não se resume a dar esmolas aos pobres. Garantir a todos uma equiparação legal, pelo menos, já é um passo para uma divisão mais igualitária das riquezas, uma divisão dos bens e propriedades em consonância com a lei de justiça, de amor e de caridade. Eu penso assim e não estou pensando sozinho, pois é como se encontra registrado em O Livro dos Espíritos.
— De qualquer modo, se tudo isso for verdadeiro, vai abrir pra nós uma perspectiva bem mais ampla do que se ficássemos somente fiscalizando os livros e aplicando multas.
Em seguida, Agripino praticamente despediu o outro, porque precisava ir investir-se nas novas funções.
No caminho de volta, recebeu pelo celular uma chamada de Oliveira. Eram onze e meia e o repórter se colocava à disposição a qualquer hora até às dezoito para conversarem a respeito dos artigos de Aristeu.
Vinte minutos depois, estavam ambos reunidos numa lanchonete próxima da casa de Oliveira, onde poderiam ficar à vontade.
— O Juvenal me contou a conversa que vocês tiveram. Você já esteve com Aristeu?
— Estou terminando de ler os livrinhos dele que prometi ao Juvenal. Eu não quero ser surpreendido por nenhum argumento do tipo: Se as minhas críticas não servem para o centro do Norberto, vão servir para quem quiser colocar a carapuça.
— Você esteve em contato com ele neste último ano...
— Não é verdade. Eu estive com ele algumas vezes há mais ou menos um ano atrás. Depois nós ficamos sem nos ver até que eu fui contar que estava me desenvolvendo como médium e foi aí que recebi o impacto dos artigos.
— Juvenal contou que ele, durante a palestra...
— É verdade. Ele mencionou os problemas que foram alvo de suas críticas.
— Eu acho que todo mundo está com muito receio de ir expor a ele que errou. Eu mesmo tenho medo de que se torne mais agressivo, especialmente porque está cada vez mais exposto pelas suas próprias opiniões aos olhos de seus colegas dirigentes do movimento espírita no Estado.
— Eu não sei, não. Quando ele fala, coloca cada idéia no lugar e tira as conseqüências logicamente. É por isso que não quero ir falar com ele sem me preparar muito bem, caso contrário ele vai me apontar como autor intelectual das acusações.
— Mas isso eu mesmo posso fazer. A sua reportagem, que eu li umas vinte vezes, está muito bem feita. Você não pode ser acusado das conclusões erradas que ele extraiu das fotos publicadas. De quem foi a idéia de ilustrar com aquelas cenas que davam uma falsa idéia da nossa festa?
— Eu devia ter feito uma seleção prévia, mas entreguei o filme sem revelar e coube ao pessoal que fecha a matéria escolher os flagrantes. Foi tudo muito inocente, porque eu não acredito que ninguém do jornal iria ter a malícia de aprontar uma para escandalizar os espíritas.
— Pois essa série de conseqüências, já que você está se tornando espírita...
— Em um ano eu li muita coisa e posso assegurar-lhe que me convenci de que a doutrina de Kardec foi a melhor que tive oportunidade de conhecer na vida.
— Pois esse foi o tempo que eu levei pra chegar onde estou. Por isso é que me sinto inseguro quanto a me colocar diante de alguém que até livros publicou a respeito da doutrina. Como são mesmo os títulos?
— Os Centros Espíritas: Casas de Jesus e Sem Kardec haveria Espiritismo?
— Eis o que nos assusta. O homem vai fundo na problemática que ele conhece bem e nós estamos apenas arranhando. Que é que você está achando dos textos?
— Estão muito bem redigidos e disso eu entendo um pouco. Os assuntos estão bem divididos e os exemplos são extraídos, no caso dos centros, de inúmeros relatos que ouviu, não faltando os que sua própria experiência lhe ensinou. Quanto ao outro livro...
— Espere um pouco. Quando ele conta as histórias verdadeiras, em alguma ele volta atrás quanto a algo que tenha feito e precisasse corrigir?
— Não posso afirmar com certeza, mas não me lembro de nada assim. Em todo caso, ainda estou mais ou menos na metade. Quem sabe mais pra frente?...
— Oliveira, eu gostaria de ir logo pôr as coisas a limpo. Se possível, hoje mesmo. É fácil de encontrar o homem?
— Você indo comigo, eu perco bastante de meus cuidados. Vamos fazer o seguinte: eu ligo pra ele, a gente combina e depois eu aviso você do que ficar resolvido.
— Ótimo! Apenas pra lembrar, o Ricardo que você contratou...
— Preciso me desculpar...
— Se não fosse por você, que o levou para perto de casa, onde Juvenal o deteve, eu jamais teria tido oportunidade de recuperar minha aliança.
— Juvenal me contou essa história.
— Você vê como o destino tem armada uma teia extremamente complexa para nos obrigar a tomar decisões perante as pessoas? Quem me diz que ele não esteja atuando agora mesmo em relação aos nossos problemas com Aristeu?
— O que você chamou de destino não pode estar no desígnio de nossos guias, que tudo preparam pra que a gente possa evoluir, à medida que vamos enfrentando problemas e achando soluções?
— Você acha que seria capaz de conversar dessa forma quando foi cobrir os fenômenos físicos que estavam acontecendo em minha casa?
— Eu iria sair de fininho, deixando você falando com as paredes.
— Isso resume tudo.
Já em casa, uma hora depois, Norberto foi convocado por Oliveira para uma reunião com Aristeu à noite, antes de uma palestra que ele iria pronunciar na sede da federação espírita.



16. O ENCONTRO

Norberto passou a tarde na companhia do pai, visitando algumas casas com o fito mais de justificar o interesse do velho do que, propriamente, de se estimular a uma nova mudança em tão pouco tempo. De resto, refletia ele, o apartamento em que estava residindo, muito bem mobiliado e decorado, tinha tudo o que um casal moderno poderia querer, inclusive duas garagens para guardar os carros. O que faltava era mais um dormitório para acomodar seus pais e algo que o preocupava muito, ou seja, um terreno como o da casa de solteiro, onde eram cultivadas hortaliças e onde havia um caramanchão excelente para um bate-papo nos domingos de verão.
No entanto, o filho não colocou defeito em nenhum dos prédios, procurando, aliás, ressaltar o que de melhor apresentavam, enquanto Raul ponderava as vantagens de localização, de construção ou de comodidades, sempre cotejando com a propriedade em que morava.
Voltaram lá pelas dezoito horas. Norberto deixou Raul em casa e seguiu direto para o apartamento. Precisava aprontar-se para o encontro que seria às dezenove e trinta, meia hora antes da palestra de Aristeu.
Durvalina, consultada a respeito de fazer companhia ao marido, fez questão de acompanhá-lo, de modo que evitou atrasar-se, mesmo porque, nas sextas-feiras, era de praxe largar o consultório meia hora mais cedo para ir ao centro espírita, para a sessão mediúnica de desobsessão, da qual participava na qualidade de médium.
— Norberto, você pretende levar o quê?
— Não pretendo levar nada. Você está querendo sugerir alguma coisa?
— Só pra prevenir, eu acho que era bom levar o álbum de fotos, quem sabe o homem possa querer ver outras cenas.
— Eu não sei, mas eu estou achando que o problema da festa é secundário. O mais importante não é provar a ele que nós não demos baile nem servimos bebidas alcoólicas. Isso o Oliveira confirma. Eu acho que ele vai se convencer quando a gente demonstrar que trabalha sério, tanto você, consultando de graça há tantos anos, quanto eu, que já estou até realizando umas palestras.
— Nesse caso, leve a sua lista de assuntos, datas e locais. Você já esteve perante o público umas quinze vezes...
— Dezessete, para ser exato.
— Então?!
— É uma boa idéia.
O casal ainda imaginou se não daria tempo para, deixando de ouvir a exposição de Aristeu, voltarem para a reunião no Amor Fraterno de Jesus. O resultado das contas, porém, desaconselhou a correria, ainda porque Dona Neusa ligou perguntando se Sofia e o marido iriam almoçar também no dia seguinte.
Como Norberto não tivesse certeza disso, ligou para o amigo e, da conversa que tiveram, resultou que Valdemar e esposa não só iriam almoçar como também se encontrariam com eles para o acerto de contas com Aristeu.
— Querida, o Valdemar vai reforçar a gente e vai levar a Sofia.
— Vamos ver se ele não fica nervosinho e põe as coisas a perder.
— E não vai estar a mulher pra colocar tudo no lugar?
— É verdade, a Sofia é positiva pra essas coisas.
Na hora combinada, no saguão de entrada da federação espírita, encontraram-se os dois casais amigos. Demonstravam certa insegurança devido a não terem sido recebidos por Oliveira. Mas este chegou em cima da hora e os convidou para entrarem por um corredor ao lado do auditório central.
— Eu combinei que Aristeu nos esperaria dentro do salão de conferências. Eu acho bom que vocês comprem os livros dele e peçam seu autógrafo, antes de qualquer outra coisa.
De fato, no próprio corredor, havia uma pequena mesa com várias pilhas de livros, que um atendente preparava para oferecer ao povo que começava a chegar.
Valdemar e Norberto fizeram questão de comprar os dois títulos de Aristeu, ficando Durvalina interessada por outra obra da própria federação: A Medicina Oficial e a Prática da Mediunidade de Cura. Quando leu o nome do autor, a surpresa:
— É do José Carlos!
— Ele não nos disse nada, notou Norberto.
O atendente foi pressuroso:
— Esse livro está sendo lançado hoje. Saiu do forno agorinha mesmo.
Durvalina queria saber se o antigo professor viria para os autógrafos. O atendente não soube informar, mas avisou:
— Eu acho que nem o doutor sabe que estamos fazendo esta prévia de venda. Foi o próprio presidente do departamento editorial quem me mandou pôr o livro à disposição do público.
— Se o nosso amigo e autor viesse, iria reforçar muito os nossos argumentos, observou Valdemar.
Mas era preciso aproveitar o tempo e logo adentraram no recinto das palestras por uma porta lateral. Aristeu não se encontrava, nem José Carlos.
— Está atrasado, o que nunca aconteceu antes. Vocês querem ficar aqui enquanto eu vou atrás dele, a ver se já se encontra no prédio?
Foi Norberto quem respondeu:
— E se ele chegar enquanto você ficar perdido em tantos andares do edifício?
— É fácil de reconhecê-lo pelas fotos nas orelhas dos livros.
Realmente, retirados os plásticos e abertas as capas, lá se depararam eles com o sorriso austero e protocolar do autor. Valdemar logo observou um certo ar de malícia ou de superioridade, mas calou a impressão para não precipitar um julgamento, principalmente porque logo imaginou que estaria transferindo certos sentimentos de repulsa que viera criando pelo articulista desde a primeira publicação.
— Sendo assim, disse Norberto, você pode ir atrás da notícia, que é o que os repórteres mais gostam de fazer.
Lépido, o rapaz se dirigiu à porta por onde haviam entrado, onde quase abalroou o palestrante, que entrava acompanhado de vários senhores de terno e gravata.
Vinham conversando animadamente, parecendo Aristeu o centro das atenções. Quando Oliveira deu com eles, logo o articulista foi falando:
— Eis o meu pupilo. Vocês sabem que está tornando-se um médium poderoso? Pois é, ele me contou que está escrevendo até poesias ditadas por alguns nomes ilustres de nossa literatura.
Oliveira logo reconheceu ali parte da diretoria da federação, de modo que precisou dizer algo que atenuasse a força persuasória dos termos enfáticos do mestre:
— Nem tanto, Doutor Aristeu. Os nomes ilustres, como o senhor diz, são os que parece que recebo intuitivamente. Contudo, quando comparo com as obras deles durante a vida, são pálidas lembranças, como se voltassem a escrever em linguagem infantil.
— Onde está o pessoal que você prometeu apresentar-me?
Enquanto a turma dos engravatados assumia seus lugares no palco, atrás de uma longa mesa, Aristeu foi levado ao pequeno grupo dos amigos do Amor Fraterno de Jesus.
Foi de Aristeu a iniciativa dos cumprimentos:
— Muito prazer, Norberto. Doutora Durvalina, meus respeitos. Valdemar querido, como está essa força? A madrinha Sofia também me honra com sua presença. Muito prazer. Não veio mais ninguém?
Todos iam espantando-se com o grau de intimidade que demonstrava tão importante personagem, nomeando cada um como se conhecidos fossem de há muito.
Mas Aristeu ainda estava com a iniciativa, de modo que não esperou que lhe respondessem e logo foi apanhando os livros e autografando-os, tendo sentado nos degraus da escadinha do palco.
Antes que Oliveira introduzisse o assunto, Aristeu foi dando as explicações:
— Eu sei muito bem o que vocês vieram fazer hoje aqui. Querem que eu desfaça a má impressão que tive do centro em que vocês atuam, porque os meus artigos incomodaram toda a comunidade que se reuniu para recepcioná-los em seu matrimônio. Vocês não sabem, mas eu tenho recebido muitas cartas, telefonemas e até e-mails reclamando contra as minhas apreciações. Até o Doutor José Carlos, nosso amigo comum, veio procurar-me, contando-me a respeito do mal-estar que meus pobres comentários provocaram no seio de sua congregação. Aliás, foi minha a lembrança de colocar o novo livro dele entre os que estamos oferecendo ao público hoje. Vocês estão de parabéns pela estima que lograram, principalmente a Doutora Durvalina, que, todos disseram, não merecia uma única expressão que ofendesse a sua impoluta concepção de espírita verdadeira, além de todos os créditos por uma dedicação exemplar no tratamento dos doentes que se apresentam para as consultas gratuitas. Sendo assim, dou-lhes de viva voz o meu conselho mais sério: continuem trabalhando em prol da doutrina de Kardec, sempre visando a uma vida regrada pelos preceitos evangélicos de Jesus. Por outro lado, marquem com minha secretária uma data, eu creio que daqui a três meses haverá alguma disponível, para que eu vá realizar uma palestra em seu Amor Fraterno de Jesus, quando poderei falar a respeito da necessidade de se respeitarem os recintos sagrados desses verdadeiros templos que são as casas de atendimento espiritual dos enfermos deste e do outro mundo.
Antes que qualquer deles houvesse tido ensejo de manifestar a mínima idéia, Aristeu foi dando a mão a cada um, sem parar de falar:
— Vocês vão me entender melhor quando tiverem lido estes livrinhos. Vão ver que eu tenho razão em propugnar um respeito quase religioso pela fé das pessoas que comparecem para receber as diretrizes doutrinárias extraídas diretamente da pregação kardequiana. Quanto a me retratar no que concerne às palavras que enderecei diretamente aos que apareceram nas fotos dançando e bebendo, pretendo fazê-lo num próximo artigo, ressalvando, se me permitirem, que fui levado a essas considerações pelas cenas estampadas no pasquim do nosso Oliveira. Vocês vão ficar, naturalmente, para me ouvirem a respeito do tópico do Evangelho de João em que Jesus anuncia o Consolador, o Espírito de Verdade.
Cada um dos amigos permanecia completamente embasbacado, Oliveira junto. Nenhum deles sequer poderia imaginar que o autor daqueles desavisados argumentos estivesse tão a par de toda a problemática. Espantaram-se com a tal avalanche de reclamações e ainda repercutia no fundo de suas almas a intervenção de José Carlos, que estivera na festa e que avultava dentro do movimento espírita agora que via uma obra sua publicada pela própria federação.
Ainda não tinham ousado formular nenhuma observação e já o presidente da instituição assumia a coordenação das atividades da noite, começando por recepcionar os que começavam a encher o auditório, dando as informações concernentes às atividades da casa. Ressaltou a necessidade que tinham de angariar fundos e fez menção jocosa à opinião do orador da noite, que não admitia que se fizessem rifas para aquela finalidade. Justificou-se dizendo da urgência da compra de medicamentos e de alimentos, a que a obra de benemerência, pela situação de pobreza e de desemprego do país, obrigava.
Nesse meio tempo, Oliveira, desculpando-se por precisar ir trabalhar, retirou-se.
Na peroração inicial gastaram-se os dez minutos que faltavam para a hora prevista para o início da sessão. Com a palavra, o diretor do departamento de cursos e palestras deu seqüência à programação.
Foi assim que todos se concentraram numa prece de abertura em que se rogava pela assistência dos espíritos de luz da entidade, encerrando-se com o indefectível pai-nosso da tradição cristã.
Nesse momento, o auditório estava lotado.



17. REPERCUSSÕES

Praticamente, os dois casais não prestaram muita atenção à palestra de Aristeu, todos tentando colocar em ordem as emoções decorrentes das informações que receberam do orador.
Quando se viram fora do auditório, foram refugiar-se numa cantina, para matarem a fome mais de conhecer o que os outros estavam pensando do que do apelo do estômago, que também rugia.
Entre um pedaço e outro de pizza, discutiram as mais diferentes e desencontradas idéias.
Dizia Norberto:
— Eu acreditava que esse homem iria nos causar os maiores problemas. No entanto, está tão consciente de tudo que é muito difícil para mim a compreensão de qual vai ser seu próximo passo.
Sofia interveio:
— Eu acho que tanto ele pode se desculpar como ainda arrumar outros assuntos com que desancar em cima da gente. É um mistério essa forma de agir.
Durvalina foi mais conciliadora:
— Mesmo que ele ache outros aspectos pra criticar, só o fato de o Doutor José Carlos, um médico e professor na universidade, além de estudioso e autor de obra espírita, ter apelado por nós vai impedir que ele desenvolva outros comentários desairosos.
Valdemar concordou com essa proposição:
— De fato, ele bem pode levantar outros temas para pespegar um bom pontapé, mas só que não vai ser mais na gente. Ele vai contornar o problema e vai falar em sentido bastante geral. Vocês vão ver.
Norberto sopesou o que os demais disseram e resumiu:
— Estou vendo que ninguém põe fé verdadeiramente em que Aristeu assuma que errou. Quando muito, pelo que ele disse, vai demonstrar que todo dirigente de centro espírita não deve dar chance ao azar, proporcionando motivos pra que o povo tome conhecimento de aparentes deslizes, como foi o nosso caso, uma vez que não contávamos com a reportagem do Oliveira, muito menos com as fotos.
Durvalina complementou:
— Eu achei Aristeu uma pessoa muito inteligente e íntegra. É bom dar um voto de confiança a ele. Vocês notaram que até o presidente da federação demonstrou um certo medo de sua língua ferina, quando lembrou que ele não gostava das rifas e das campanhas de arrecadação de dinheiro que dessem margem à manutenção do vício do jogo, da comilança ou das vantagens pessoais, como no caso que ele não citou mas que eu lembro dos bazares em que vendemos a preço simbólico os objetos que coletamos? Pois é isso aí: esse homem não é um vigilante do peso, magro e seco de carnes e de músculos, mas é um puritano da doutrina espírita, um cão farejador dos defeitos alheios e um papagaio a palrear, apregoando aos ventos o que se fez de errado...
Sofia não se conteve:
— A nossa doutora está examinando muito bem o fígado, o intestino, o sistema nervoso e os miolos do nosso Catão...
Valdemar, que começara rindo com as observações da esposa, interrompeu-a:
— Catão?
— Pois foi o próprio Aristeu quem disse que era preciso que houvesse um Catão pra censurar o luxo e os desmandos dos maus espíritas com responsabilidade perante o povo.
Durvalina acrescentou:
— Catão era um político romano. É tudo o que sei, mas qualquer enciclopédia pode esclarecer-nos a respeito. A verdade é que o espiritismo nos ensina a sermos estudiosos, a começar do fato de que Kardec escreveu vários livros que precisam ser conhecidos justamente por quem se atreve a abrir casas de atendimento espiritual.
Norberto fez questão de assinalar:
— Então Aristeu está absolutamente certo. Vocês prestaram atenção quando ele disse que ouviu criticarem Kardec porque não seguiu o próprio postulado de que as informações devam vir de várias fontes, quando admitiu que apenas João Evangelista bastava para falar que Jesus prometeu o Consolador, o Espírito de Verdade? O argumento que ele usou foi fulminante: a lembrança de que os espíritos que assistiam a Kardec confirmaram o texto do Evangelho de João, referendando a concepção de que o espiritismo constitui a terceira revelação, espíritos que se manifestaram por vários médiuns diferentes, em diversos locais, essa lembrança pôs um basta perante qualquer um que deseje dizer que Kardec estava errado. Se isso não é ser estudioso, então eu devo reconhecer que não entendo nada a respeito de espiritismo e de seus preceitos.
Nessa altura, os outros três haviam parado para admirar o jeito desenvolto do amigo e seu poder de evocação da palestra que eles mal ouviram. Cada um de per si ficou imaginando que, por mais que aprofundassem sua análise, ainda assim careciam de conhecimentos até para perceber os mecanismos intelectuais que iriam ser postos para funcionar pelo intrigante articulista.
Por isso, suspenderam as considerações centradas no palestrante e passaram a avaliar questões menores, como a afluência do público sem o atrativo da sessão de passes magnéticos, a fila que se formou para os autógrafos, a austeridade e a sisudez do pessoal do palco, a presença de apenas três representantes do sexo feminino, o entusiasmo dos aplausos ao orador, apesar de não ter proferido um único chiste, a magnificência dos vários andares de um prédio novinho em folha, a extensa lista de atividades semanais, cujo programa receberam ao sair, bem como de campanhas em andamento etc.
Ao se despedirem, confirmaram o almoço do dia seguinte e Durvalina, que iria dar consultas gratuitas no centro, se encarregou de levar aos demais as notícias quentíssimas da noite.



18. ANTES DO ALMOÇO

Quando Durvalina passou as informações para Claudiomiro, não pôde fazê-lo com muitas minudências, por isso, tendo consultado a sogra por telefone, convidou-o a comparecer ao almoço programado para a recepção de Beatriz. Mas Dona Neusa impôs uma condição, que fosse alguma mulher do centro, podia ser Dona Clotilde, auxiliá-la a preparar a comida que ela e a empregada não dariam conta de tudo.
Foi assim que Norberto, que pretendia passar a manhã brincando com o filho e lendo os livros de Aristeu, se viu forçado a sair de casa cedo, ir apanhar a cozinheira no centro e levá-la à casa da mãe. Imaginou que Beatriz já lá estaria, de modo que haveria mais um par de braços para cuidar do almoço ou, ao menos, para cuidar do Júnior. Mas foi ele quem atendeu a uma chamada de Beatriz, avisando que chegaria atrasada, que não esperassem por ela e pelo namorado para comer.
No entanto, para surpresa sua, lá encontrou Valdemar, Sofia, e Agripino, os homens a conversarem com Raul, Sofia prestando ajuda à dona da casa.
A conversa girava em torno das novas atribuições dos três fiscais, já que Valdemar havia permanecido na sexta-feira na repartição, despachando os últimos processos que dependiam de seu parecer.
Quando Norberto chegou, foi logo perguntando:
— Então, o Valdemar já contou o que aconteceu ontem à noite?
Agripino adiantou-se:
— Contou até as dúvidas e receios que vocês levantaram.
— E o que o senhor acha?
— Eu acho que Aristeu foi muito correto em relatar que recebeu reclamações, ainda mais do José Carlos, que, aliás, prometeu vir para o almoço...
Nesse momento, entrou Dona Neusa, reclamando que o neto havia ficado na sala.
Raul pilheriou:
— Ficou com os homens, que é o lugar dele.
— Pois vai comigo pra cozinha. Quem sabe ele aprenda a ajudar a mulher quando receberem muitos convidados.
Valdemar prontificou-se:
— Dona Neusa, a senhora bem sabe que pode contar comigo. Se precisar, é só avisar.
— Deixa estar que, se aparecer mais gente, você vai ser útil.
— Ao menos eu posso ir comprar comida a quilo no restaurante.
— Isso o Raul já está encarregado de fazer, que ele vai buscar uns frangos assados que eu já encomendei.
Norberto quis saber por que tanta necessidade de trazer a ajudante do centro.
— Você sabe para quantas pessoas estamos cozinhando? Dezoito.
Rapidamente Norberto fez as contas e chegou a quatorze:
— Eu só me lembro de quatorze. Faltam quatro.
Foi Raul quem completou, enquanto Dona Neusa escapulia com o neto no colo:
— Eu acho que você não computou as duas devotas que ela trouxe da igreja, nem o Padre Tiago, nem o Padre Frederico.
Foi como se jogassem um balde de água fria no ânimo dos espíritas. Eles não estavam psicologicamente preparados para uma tão séria restrição à sua liberdade de falar sobre a doutrina.
Valdemar foi quem logo reclamou:
— Eu vou brigar com Dona Neusa. Ela sabia que a gente estava toda aqui e quis que nós tivéssemos de nos explicar com os padres. Eu tenho a certeza de que o Frederico vai querer saber por que a Sofia e eu não vamos mais à missa.
Agripino desejou atenuar o efeito da surpresa:
— Pois cabe a eles a fiscalização das leis canônicas, como a nós, a fiscalização das leis civis. Pense nesses termos e aja como os maus comerciantes que sonegam impostos.
Raul entendeu o espírito e complementou:
— Então, umas boas espórtulas vão impedir que eles lavrem os termos de multas.
Todos riram e a conversa derivou para o tema posto de início por Norberto. Coube a Agripino concluir sua opinião a respeito de Aristeu:
— Eu acho que, se Aristeu se propôs a fazer uma palestra no centro de vocês, é que ele confia em que o trabalho ali seja sério. Se não fosse assim, ele não se atreveria a desafiar a mágoa de um grupo tão grande e que ele sabe operoso. Com certeza, vai pedir desculpas e reafirmar os postulados de Kardec, recomendando que se viva sob o domínio dos ensinamentos de Jesus. Aliás, não seria ele um bom cristão se não corresse a se entender com os inimigos, reconciliando-se antes de comparecer perante o tribunal da consciência.
Valdemar fez-lhe uma provocação:
— Mas, se ele não deve nada, conforme nos pareceu pela forma com que tratou o assunto, um mero quiproquó não o jogaria nas profundezas das trevas.
Foi Norberto quem respondeu:
— Permita-me, chefe, mas eu acho que Valdemar está brincando. No entanto, se tivesse falado sério, poderia ouvir o seguinte: quando Kardec recebeu a notícia de que os livros que enviara a Barcelona haviam sido queimados em praça pública, em um auto-de-fé extemporâneo presidido pelo bispo, teve como reação uma expressão da mais pura confiança no poder da misericórdia divina, afirmando que, toda vez que os padres condenavam o espiritismo, acendiam a curiosidade do povo, que comprava muito mais as obras e revistas referentes à doutrina.
Valdemar observou:
— O meu caro colega e ilustre palestrante me perdoe, mas não atinei com a relação.
— Teoricamente, meu amigo, nós, sem saber, pusemos fogo nas obras do Aristeu, agindo de modo contrário ao que ele ali recomenda, conforme você deve ter lido por cima, de ontem pra hoje. Em verdade, em verdade, eu lhe digo: nós adquirimos as obras dele...
Valdemar sorriu e respondeu:
— Pois eu confesso que jamais iria perceber tanta finura de inteligência. Pelo amor de Deus!
Raul, que não queria ficar de fora, deu outro rumo à conversa:
— Chega de espiritismo, por favor! Eu quero saber o que a tal comissão de assessoria ao governador faz.
Agripino foi o máximo que pôde sintético:
— Existem interesses em jogo, como por toda a parte, evidentemente. Várias secretarias e departamentos enviam consultas ao setor jurídico, que vai arquivando no computador todos os itens, para o que possui um pessoal especializado, organizando-os por assuntos gerais e em tópicos cujo acesso distribui os elementos de interesse por classes e categorias. Vocês não estão entendendo nada. Pois, enquanto eu mesmo não acionei o meu terminal, também estava completamente no ar. Mas o uso do arquivo é fácil, já que basta escrever um termo para que a pesquisa eletrônica assinale todas as ocorrências. Assim, eu escrevi, por exemplo, sonegação e obtive trezentas e quinze citações. Uma palavra como lei se torna impossível abranger pelo volume das informações. Ao nosso grupo foi dada a função de estabelecer prioridades a partir desses interesses. Começamos, pois, por uma espécie de trabalho estatístico e analisamos os aspectos mais importantes levantados pelos consulentes. A partir daí, temos de investigar todo o aparato de leis e decretos e demais enunciados oficiais para verificar se as respostas já não se encontram devidamente codificadas na legislação. Vocês devem estar ficando assustados com o volume do serviço, mas devo preveni-los que esse é o panorama genérico do trabalho. Existem vários advogados e juristas, principalmente especializados em administração pública, que realizam a tarefa de joeirar os temas. Devo ressaltar que fui chamado e vocês foram bem acolhidos porque está existindo um clamor geral contra a corrupção na área da fiscalização como um todo. Então, vai caber a nós receber um volume já definido resultante da pesquisa inicial, para efetuarmos uma espécie de triagem conduzida pelas acusações mais pertinentes contra o fisco, até a definição de medidas de curto, médio e longo alcance, todas de caráter administrativo, até a elaboração, se for o caso, de anteprojetos de leis. Pelo que senti, respondendo a um temor do Norberto, serviço não há de faltar para quem tenha necessidade de registrar seu empenho em favor da humanidade. Mas também não vou afirmar que todos os que lá se encontram estão esforçando-se nos limites de suas capacidades. Quanto ao ambiente de trabalho, é o mais cordato possível, mas é possível verificar que existem pessoas que foram encostadas na comissão porque estavam causando problemas, enquanto outras para lá foram encaminhadas por seu profundo conhecimento técnico em diversos setores. Ao todo, há trinta e cinco membros designados para darem plantão ali. Quanto à remuneração, as gratificações praticamente quadruplicam os vencimentos relativos às carreiras dos cargos primitivos.
Nem Norberto nem Valdemar quiseram efetuar nenhuma pergunta. Foi Raul quem se interessou por um ponto específico:
— Quem é que se faz de porta-voz da comissão junto aos poderes constituídos, à imprensa e ao público em geral?
Agripino esclareceu:
— Existe um presidente, um relator, um secretário e uma sessão de pessoal, esta vinculada à Casa Civil. Cabe ao presidente ou a quem designado por ele responder às perquirições específicas a respeito da atuação da equipe. Quanto ao fluxo normal de fora para dentro e de dentro para fora, os encarregados da informática recebem e despacham os comunicados. Aliás, é bom dizer que a digitação corre por conta de um grupo especial de moças e rapazes, uns oito ou nove, que, tive a impressão, precisam ser bem capazes para darem conta de tudo o que lhes chega.
Valdemar levantou-se, agradeceu a Agripino e se propôs a ajudar nos preparativos do almoço. No entanto, ao chegar à cozinha, abordou a esposa e pediu-lhe que o acompanhasse até o quiosque, vazio naquele momento.
Sofia foi logo perguntando:
— O que você tem pra dizer deve ser importante, porque me tirou da frente de uma panelada de purê de batata.
— Eu quero ir embora.
— Por quê?
— Porque não vou me sentir bem com o Padre Frederico na minha cola.
— Pois isso não me afeta nem um pouco.
— Você é você e eu sou eu, ora, bolas!
— Explique-se.
— Esse cara é um boçal. Com certeza, vai se unir com o Tiago e os dois vão querer encher a gente de perguntas. Até parece que estou vendo a cara dele, séria, a mão revirando a cruz no peito, olhando fixamente pra mim, querendo saber qual foi a última vez que me confessei.
— Aí você faz as contas e diz que faz um ano e meio, mais ou menos.
— Então, ele vai...
— Ele não vai nada porque eu ou outro qualquer vai intervir e dizer que faz muito mais tempo que não se confessa. Por exemplo, Claudiomiro deve fazer uns trinta anos ou mais.
— Eu acho que Claudiomiro nunca se confessou. Não me consta que tenha sido católico. O que eu sei é que a família dele... Espere aí. Eu tive uma intuição. Eu acho que sei por que a Dona Neusa chamou os padres: é porque o Titinho não foi batizado e a avó deve estar se sentindo mal com isso.
— Se for isso, você fica?
— Você dá um jeito de saber se é isso mesmo?
— Faça você mesmo. Eu tenho de cuidar do purê.
Enquanto Valdemar mergulhava em suas preocupações, a esposa voltou às tarefas culinárias.
Não demorou, chegou Norberto, que andara à procura do amigo. Chegou e foi logo dizendo:
— Que maçada, Valdemar. Minha mãe, desta vez, aprontou pra gente.
— Pois eu acho que vai aprontar ainda mais.
— Como assim?
— Ela não lhe disse nada por que convidou os padres?
— Não disse e eu não perguntei, mas imagino que ela deseja, no mínimo, fazer com que eu me case na igreja.
— Eu não tinha pensado nisso. Mas a minha suspeita é parecida: eu acho que ela quer batizar o seu filho.
— Nada mais justo. Se ela tem tratado tanto dele, não deve sair de sua cabeça a idéia de que está carregando um pagãozinho de um lado pro outro.
— Você acha graça, mas o assunto é sério. Se você concordar com isso, o Tiago vai fazer você declarar que é católico, vai mandá-lo fazer um curso, vai casá-lo, como você anunciou, e vai querer dar-lhe a comunhão, após você se confessar.
Norberto ficou um tempo pensativo, até que perguntou:
— Do que é que você está com medo?
Valdemar, que conhecia o raciocínio atilado do companheiro, não tergiversou:
— Eu estou com medo de que a gente tenha de fazer uma profissão de fé espírita, porque eu acho que seremos provados pelos dois, e isso vai arruinar o nosso almoço de confraternização, principalmente porque a convidada de honra, a nossa Beatriz, freqüenta também os terreiros.
— Ela ligou que vai se atrasar. Talvez nem venha. Se não vier, até que vai ser bom.
— Eu não acho. Todo mundo está querendo saber como ela está, já que desapareceu desde uns tempos. Bem pensando, é bom que ela venha, porque eu trouxe os desenhos dela escaneados e quase prontos para a gráfica.
Nesse momento, ouviram-se vozes que vinham da rua. Então, os dois foram recepcionar os recém-chegados.
Eram eles, nada mais, nada menos, que Dona Glória e o Senhor Adroaldo, pais de Nelma, portanto, os outros avós de Titinho. Norberto e Valdemar receberam-nos trocando olhares significativos, como a confirmarem as suspeitas de há pouco.
— Aposto que foi minha mãe quem os convidou.
Adroaldo foi quem respondeu:
— Ela nos ligou ontem e nos acendeu o desejo de virmos ver o nosso netinho. Agora que você voltou a ser um homem sério, nós vamos esperar que a doutora o convença a levar o menino, pelo menos uma vez por mês, lá em casa.
Dona Glória complementou:
— É só ligar esse celular aí, um dia antes, é nós vamos ficar felizes em preparar o almoço ou o jantar, seja sábado, seja domingo. Onde está o meu queridinho?
Norberto entregou o ex-sogro ao pai e foi fazer sala a Agripino. Valdemar foi ver se convencia a esposa a desertarem, no que não obteve sucesso:
— Você pode ir ajudar a arrumar a mesa no quintal, porque hoje não chove. Com toda essa gente, o Frederico não vai querer criar caso. Quanto muito, agora que chegaram os outros avós, vão reforçar a idéia do batizado.
— E do casamento, como lembrou Norberto. Mas você tem razão. Vamos enfrentar as batinas.
— Que batinas, homem?! Faz tempo que eles não usam mais.
— Força de expressão. Linguagem figurada.
Quando Valdemar procurou os homens, já os encontrou carregando as mesas da sala e da copa para uni-las do lado de fora. Raul puxou uma lona e o local se viu ao resguardo do sol.
Nesse meio tempo, Frederico e Tiago apareceram e logo se juntaram ao grupo atarefado. No entanto, Dona Neusa foi buscá-los para pô-los à vontade na sala de estar, onde lhes serviu uns canapés e uns aperitivos leves com base de cidra. Convenientemente, havia uma lâmpada vermelha acesa ao pé do quadro do Sagrado Coração de Jesus, ao lado de um vaso de rosas naturais.
Dona Glória e o marido foram convocados para conversar com os sacerdotes, de modo que o grupo de espíritas não se sentiu sob pressão, respirando Valdemar mais aliviado.
Na cozinha, Sofia, Clotilde, as duas senhoras católicas e Dona Neusa ultimavam os pratos, encarregando-se Norberto de ir buscar os frangos assados, para o que arrastou consigo o amigo Valdemar. Agripino preferiu ficar e logo procurou os padres, a ver se vinham preparados para os suspeitados debates religiosos.
Frederico, o mais velho dos dois, senhor de cinqüenta e poucos, logo entabulou conversação:
— Com que, então, Senhor Agripino, o senhor é o chefe dos nossos meninos. Segundo informações que vieram de fonte fidedigna, foi o senhor quem levou os dois para as hostes do espiritismo.
Agripino sentiu que a provocação não tinha um claro sentido de mágoa mas denotava que algo havia preocupado o padre. Imaginou logo que a perda dos fiéis, que sabia de confessionário e comunhão, podia representar, no mínimo, uma derrota. Sendo assim, contornou o assunto:
— Foram as pedradas que acertaram a cabeça dos dois.
Antes que recebesse uma resposta, prosseguiu:
— Norberto não aceitou a tese paranormal ou parapsicológica, buscando uma explicação espírita. Eu estava à mão e indiquei os livros de Kardec. Os senhores já leram essas obras?
Tiago, como antigo confessor de Norberto, viu-se coagido a responder:
— Quanto a mim, eu li O Livro dos Espíritos, que achei bastante interessante. No entanto, se o senhor me permitir, as teses ali apresentadas, apesar de toda a boa vontade dos espíritos, são muito elementares, direi mesmo que ingênuas, como nós ensinamos nos catecismos a quem conhece pouco dos princípios canônicos da Igreja. Ainda bem que o autor manteve a forma de diálogo, de sorte que a gente pode entender que as informações que ele recebeu não constituíram uma doutrina pessoal. Mas, por outro lado, a se acreditar que foram entidades do mundo espiritual que trouxeram as instruções, sente-se a falta de muitos teólogos categorizados que poderiam aprofundar muito mais os temas, uma vez que, estando do lado de lá, teriam condições de se manifestar e bem livremente. Eu sei que Santo Agostinho está lá com duas ou três comunicações, mas são apenas recomendações morais de caráter geral, que qualquer assinatura podia abonar. Eu não estou condenando a sua seita ou o seu culto; apenas eu acho que, sendo o resultado tão positivo e as obras tão profundas e categóricas, não haveria mais necessidade de esses espíritos virem apedrejar os telhados dos católicos para convencê-los a se tornarem espíritas.
Agripino logo percebeu que Tiago viera preparado para enfrentar os representantes do espiritismo no terreno mesmo em que exerciam sua filosofia. Contudo, não abriu fogo contra o adversário, preferindo uma atitude mais cordata:
— Vejo que o senhor se encheu de argumentos. Mas, para espanto meu, reproduziu o que eu mesmo diria, ou melhor, tenho dito em minhas palestras, que a obra de Kardec apenas estabelece os parâmetros de uma filosofia religiosa e que os filiados ao movimento espírita devem estudar Kardec, mas sem ficar exclusivamente nas obras da codificação, porque muitas outras mensagens provieram da espiritualidade nestes quase dois séculos de espiritismo, nas quais todos os pontos abordados com essa ingenuidade que o senhor menciona se acham desenvolvidos, inclusive sob o aspecto científico, como no caso de certas obras de André Luís psicografadas por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira. De resto, o ponto crucial que o senhor citou de passagem, isto é, a possibilidade do contato entre espíritos desencarnados e encarnados, que tem sido motivo de divergências e até de desavenças entre católicos e espíritas, vem tornando-se, nestes últimos tempos, bem melhor aceito por muitos sacerdotes, principalmente porque a velha teoria de que só os demônios podiam entrar em contato com os humanos se constituiria numa forte injustiça do nosso Pai celestial, porque exporia as pessoas ao mal sem o contrapeso das preciosas refutações das inteligências do outro mundo. Do jeito que estava, somente as vozes dos anjos da guarda, seres puríssimos que orientariam para o bem de forma apenas inocente, não teriam como conseqüência uma real tomada de consciência das perigosas formulações inoculadas na mente pelas entidades provindas dos báratros infernais.
Raul torcia as mãos a cada nova colocação teórica, ansioso por ver o tema recair sobre pontos mais amenos. Então interveio, lembrando-se de seus tempos de professor universitário e também na qualidade de dono da casa:
— Nós não vamos resolver os problemas da humanidade em uma conversa de meia hora. Eu acho que o papel das religiões é favorecer a compreensão dos desígnios do Senhor, acomodando as almas dos homens para a prática do bem. O que eu nunca compreendi é a necessidade que as pessoas sentem de defender princípios e preceitos do jeito que estou fazendo eu agora, ou seja, construindo um prédio de argumentos, quando a miséria grassa e muita gente passa fome, sem ter recursos sequer para enfrentar o frio e as intempéries. Isso para não falar das guerras que servem apenas para justificar a fabricação e o comércio das armas.
Mais diria o aposentado com seus pés no chão, não houvessem chegado Durvalina, Claudiomiro, José Carlos e Tomás, acompanhados (quem diria?) do articulista Aristeu e do repórter Oliveira.
Feitas as apresentações, criou-se um clima de ligeiro constrangimento na roda masculina, uma vez que a doutora foi logo à procura das mulheres, trazendo Dona Neusa para apresentar a Aristeu, declarando desde logo que ela prometera cuidar pessoalmente de sua comida, uma vez que ele não comia carne.
— O senhor aceita um aperitivo?
— Aceito, desde que não contenha bebida alcoólica. Pode ser um suco qualquer.
Dona Neusa providenciou-lhe um copo de suco de acerola com água gaseificada e um pouco de adoçante.
Quando sogra e nora voltaram para o que a médica chamava de centro de alimentação, esta não deixou que Dona Neusa se afligisse, colocando-a a par das providências que já havia tomado quanto ao almoço:
— Eu encarreguei o Juvenal de trazer do restaurante vegetariano vários pratos frios e quentes. A senhora não precisa preocupar-se com nada. Inclusive, eu já liguei para a adega e eles vão mandar duas caixas de espumante de pêssego igual ao do casamento, sem álcool. Na confeitaria, encomendei várias sobremesas, que vou pedir pro Norberto ir buscar.
— Ele foi atrás dos frangos assados.
— Eu ligo pro celular e me entendo com ele.
Enquanto isso, Raul pelejava por cuidar das acomodações no quintal, arrumando lugares para todos.
Na sala, os padres e os espíritas estavam ainda nos salamaleques preliminares para entabularem uma conversação mais inteligente.
Aristeu tomou a iniciativa, dirigindo-se aos sacerdotes:
— Eu vou confessar-lhes algo que bem pouca gente sabe: eu freqüentei o seminário maior e só não professei os votos porque fiquei seriamente doente e precisei passar uns meses no hospital. Foi ali que meu gosto pelas leituras, entre uma febre e outra, me levou a conhecer os textos espíritas. Encantei-me com a simplicidade da doutrina, mas não apostatei da religião católica de imediato. Foi o falecido Monsenhor Domênico, à vista de meu interesse ter-se desvirtuado, que me recomendou que não ingressasse nas hostes religiosas, não sem antes configurar minha vocação, abjurando as teses kardequianas. Como vêem, eu estava mais do lado de fora da Igreja, tanto que bastou um interesse diferente para abalar as minhas convicções. Se quiserem saber mesmo, eu me assustei com o aparato exterior dos cânticos, das vestes, das cerimônias litúrgicas, das procissões, do paraíso e, principalmente, do inferno. Para mim, no entanto, desde que se respeitem os direitos sacratíssimos dos indivíduos decidirem a respeito de como devam praticar o bem, qualquer culto, igreja ou religião merece o crédito de que está abençoada do Senhor. Infelizmente, este meu ponto de vista não é compartilhado por muitos sacerdotes católicos e até por dirigentes espíritas, para não falar da arrogância dos pastores protestantes que vêm a público, através das emissoras de rádio e de televisão que possuem, para atacar, principalmente, os nossos irmãos da umbanda e do candomblé. Se Deus quiser, no entanto, eu creio que as próximas gerações verão crescer o espírito da fraternidade cristã e não demorará um século para que todas as fés se unam em torno do ideal do amor de Jesus, não importando se umas dão comunhão e outras invoquem os mortos. O que vai demorar muito mais vai ser a congregação universal de todas as tendências religiosas, especialmente porque muitas delas se filiam a movimentos declaradamente políticos e econômicos, o que inibe aquela liberdade que, de início, eu pedia para ser respeitada. Vejam só, eu estou declarando-me um cara aberto à livre manifestação dos sentimentos ecumênicos e absorvo a palavra, impedindo, inclusive, que todos se divirtam. Sendo assim, vou deixá-los à vontade, pois quero ser apresentado ao Titinho, que estou observando lá fora no colo de Dona Sofia.
Dito e feito. Aristeu ergueu-se e foi na direção aludida, justamente no momento em que Norberto e Valdemar voltavam das encomendas.
Norberto vinha compenetrado, na expectativa do que poderia acontecer relativamente aos fatos registrados nos periódicos. Valdemar vinha vibrando com a possibilidade de um autoridade espírita anular a ascendência religiosa dos representantes da Igreja.
Logo se formou uma roda debaixo do caramanchão em torno do Júnior, que se abriu em sorrisos, estendendo os braços para o pai. Sofia fez um muxoxo pela preferência da criança, mas deixou os homens para reunir-se às atarefadas senhoras.
Quando Aristeu quis fazer uma gracinha para o garoto, este não gostou e se agarrou fortemente ao pescoço de Norberto, estranhando sobremodo aquela criatura macérrima, de grossos óculos de fundo de garrafa, com seu terno preto sem gravata, mas cuja camisa alvíssima se abotoava no colarinho.
Não se apurou o orador:
— Eu tenho três netos dessa idade. Eles, com cerca de um ano e meio, passam por uma fase arredia, como poderá explicar a doutora, sua esposa. Mas, Norberto, permita-me o tratamento coloquial, soube que você tem palestrado a respeito de temas espíritas e que já freqüentou a tribuna de várias casas de atendimento espiritual. Soube também que faz pouco mais de um ano que vem dedicando-se à causa e que tem atuado com muito mérito no campo da assistência aos carentes. Posso dizer-lhe que esse é o ideal cristão mais importante, aquele que Jesus estabeleceu, não para os seus discípulos, mas para os verdadeiros apóstolos, os herdeiros de sua pregação. Espero que não se deixe desestimular pelas palavras que publiquei referentes às minhas deduções infelizes e, ao mesmo tempo, oportunas, extraídas das reportagens do Oliveira, quer a respeito do fenômeno de efeitos físicos, que depois você me mostra in loco como ocorreu, quer sobre o seu casamento no ambiente respeitável do centro espírita.
Norberto gostou do infelizes mas estranhou o oportunas. Mas não teve que esperar muito pelas explicações, pois Aristeu prosseguia:
— Eu digo infelizes deduções porque me deixei envolver pela sugestão dos nomes impressos, esquecido de perguntar aos interessados se não tinham outra versão que não a minha, que se dera a distância. Mas não posso deixar de dizer que foram deduções oportunas, porque, tratando-se de um jornal de grande circulação, iria passar a idéia errônea de que os centros espíritas estariam abrindo suas sedes para cerimônias de cunho meramente social, com claras conotações econômicas, caso se colhessem daí lucros através de um aluguel possível de ser estabelecido. Reconheço, entretanto, que a minha resposta ficou restrita ao âmbito do movimento espírita, sem atingir a sociedade em geral, já que os meus artigos se registraram em um hebdomadário, ou seja, em uma publicação meramente semanal, de pequeníssima tiragem. Isso acresceu de vários pontos a minha responsabilidade, porque me expus aos revides mais que compreensíveis dos confrades cônscios, mais que eu, da lisura do procedimento dos dirigentes do Amor Fraterno de Jesus, conforme já declarei a seu presidente, o Senhor Claudiomiro, com quem me entendi antes de vir para cá trazido pelo Doutor José Carlos e pela sua amabilíssima esposa, cujo trabalho humanitário tive a oportunidade de conhecer em pleno desenvolvimento, já que, desde à dez horas, lá me encontrava. Agora, vou confirmar-lhe o que ontem à noite lhe asseverei: eu vou escrever um artigo retificando os anteriores, porque tenho consciência de um fato que se dá no âmbito psíquico das pessoas. Quando se ofende, se faz a altos brados para todo o mundo ouvir; quando se desculpa, a voz some na garganta e mal acaricia o ouvido do oponente. Então, irei ocupar o mesmo espaço anterior, como se dá quando, processo julgado e sentença pronunciada, o juiz determina o direito de resposta na mesma proporção em que se deu a ofensa, como vocês devem ter visto nos programas gratuitos da propaganda política pelo rádio e pela televisão.
Aristeu foi interrompido por um toque curto de sirene. Logo Norberto concluiu:
— Eis que chega o nosso Juvenal e vem no carro da patrulha.
Carregando o filho e seguido do Valdemar e de Aristeu, foi abrir o portão ao soldado. De fato, era ele, que pedia ajuda para descarregar os pacotes. Todos ajudaram e logo Juvenal pôde dispensar os companheiros da ronda.
Nem bem haviam fechado a porta da sala, tocaram a campainha. Estando Aristeu com uma das mãos livres, foi quem abriu a porta, dando de cara com o casalzinho tão aguardado.
Beatriz surpreendeu-se com o ar enigmático da pessoa que a encarava, medindo-lhe as feições, como querendo penetrar-lhe a alma.
Neusa, que havia acorrido na esperança de ser quem estava esperando, foi quem a recebeu carinhosamente, com um longo abraço. Em seguida, deu a mão ao Cláudio, que carregava vários pacotes, trazendo uma mochila às costas, exclamando:
— Mas como vocês estão lindos!
Beatriz explicou:
— Viemos diretamente do estúdio fotográfico. Estamos ainda com as roupas das fotos. Nem tive tempo de retirar a maquiagem. Está todo o mundo aí?
— A casa está cheia. Mas eu quero lhe apresentar o nosso novo amigo, o Doutor Aristeu, da federação espírita. Esta aqui, doutor, é a nossa Beatriz, que está começando uma carreira de modelo. Não é verdade que ela é uma mocinha muito bonita?
Aristeu, que normalmente, deixava escorrer o verbo, agora mal tartamudeou:
— Muito prazer, senhorita. Você é aquela dos desenhos?
Neusa se antecipou:
— É ela mesma, mas já faz tempo que parou de desenhar.
Mas Aristeu não a deixou prosseguir, cumprimentando o moço:
— Você é o namorado e também o incentivador nos estudos espíritas.
— E companheiro de profissão, pois eu fiz questão de levá-la comigo para os testes. Agora já estamos nos preparando para enfrentar as campanhas publicitárias. Graças a Deus, este início tem sido muito gratificante e estamos recebendo vários convites.
Nesse meio tempo, Beatriz desapareceu dentro da casa, conduzida pela ex-patroa. Ela queria ver o Titinho.
Fez uma festa a ele, entregando-lhe três pacotes com presentes. O menino se deixou agradar pela antiga babá, demonstrando uma alegria insuspeita.
Foi quando Sofia vasculhava os vários cômodos, convocando o povo para a mesa do almoço.



19. AQUELA MANHÃ NO ETÉREO

Etelvino e Glauco estavam tranqüilos; mais que isso: estavam eufóricos.
Assim que Norberto chegou à casa do pai, os dois protetores se encontraram, cheios de novidades.
Foi Glauco quem anunciou:
— Etelvino, meu caro, você sabe que o nosso Valdemar vai ter de enfrentar o seu confessor?
— E o Norberto, o seu. Mas eu acho, pela movimentação geral dos nossos companheiros, guias dos familiares e amigos, pelas vibrações que estou recebendo desde bem cedo, que vamos ver reunidos hoje todos os personagens que mais diretamente estão contribuindo para que nossos protegidos meditem a respeito da existência.
— Aristeu também virá?
— Parece que sim.
— Quem vai conseguir a proeza?
— Parece que passou a noite refletindo ou encontrando-se durante o sono com seu guardião. Deve ter chegado a uma conclusão óbvia: que quanto antes resolver o problema em que se meteu, mais cedo irá poder volver sua atenção para temas teóricos, os quais lhe parecem muito mais sérios, já que tem como prisma para o sucesso espiritual uma atuação mais abrangente, que vise às pessoas de um ponto de vista mais elevado, descendo à intimidade através de um interesse meramente intelectual, ouvindo os dramas para se solidarizar tão-somente em caráter cognitivo, chegando a praticar as orações com muita devoção em prol dos que percebe em dificuldades, mas sem se deixar sensibilizar.
Glauco não respondeu de pronto, mas, quando o fez, admitiu uma preocupação:
— Meu irmão, nós mesmos estamos sempre sendo censurados pelos mentores por nos deixarmos envolver pelos dramas alheios. Não terá Aristeu sobrepujado esse aspecto pueril do ponto de vista mais universal quanto ao cumprimento das leis da natureza, auxiliando as pessoas de maneira a mais prática possível, confiando em que a misericórdia divina é que irá completar a obra, através dos mecanismos incrustados nas personalidades, como o livre-arbítrio, a consciência, a inteligência, o poder de apaixonar-se pelos encantos da criação? Eu acho que, se não sentisse afeto algum pelo Valdemar, teria muito menos prazer em auxiliá-lo. No entanto, reconheço que, se me deixar influenciar diretamente pelas convulsões emotivas, pelos receios, pelas hesitações e até pela malícia de contornar os problemas para não ter de enfrentar a voz da consciência, irei, simplesmente, apoiá-lo nas resoluções menos felizes. Por isso, vou ter de não me entusiasmar muito e enfrentar o medo que irá sentir perante o Frederico.
— O seu caso é fácil de resolver. Basta que Sofia mantenha firme o seu caráter e Valdemar se verá obrigado a permanecer na linha. Quanto a Norberto, haverá tanto que fazer, tanto será solicitado, que Aristeu poderá expor tudo o que estiver pensando livremente que ele não terá suficiente estado de concentração para opor um argumento sequer que possa alterar o plano de reconciliação do articulista.
Durante a manhã toda, porém, viu-se a conversa interrompida, porque ambos tiveram de seguir de perto as reações psíquicas dos amigos encarnados. Quando tinham necessidade de compreender os contatos entre os humanos, passavam a questionar os demais guias quando não eram por eles questionados. Mas o conjunto dos espíritos encarregados daquele grupo se achava sob a proteção de entidades mais adiantadas, que providenciaram para que as visitas de espíritos menos felizes se constituíssem em meras observações de caráter didático, espreitados de perto pelos responsáveis pela boa ordem da convivência.
As pessoas de credo católico foram estimuladas à prática do amor segundo Jesus, principalmente os sacerdotes, que se viram quase acuados pela crescente importância dos espíritas que iam chegando, culminando pela figura esquisita e absolutamente intrigante de um autor preocupado em aperfeiçoar os procedimentos doutrinários no âmbito dos centros espíritas. Mas também foram obrigados a reconhecer que havia gente muito sincera e muito inteligente entre os discípulos de Kardec, como puderam verificar através das manifestações lúcidas de Agripino e, depois, de Claudiomiro.
Quem não ficou muito à vontade foram os que davam assistência aos padres, que se viram inibidos quanto a espicaçá-los para um entrevero religioso de aspecto canônico. Contavam que pudessem ser favorecidos pelo consumo de bebidas alcoólicas, que fariam que abaixassem a guarda, mas nem Dona Neusa se deixou influenciar pelos hábitos domingueiros das pessoas, temerosa de que um excesso de vinho poderia entorpecer as mentes para o fim a que visava ao trazer tão ilustres representantes da diocese.
Quando Beatriz e Cláudio chegaram, já haviam sido precedidos por Pai José e Nelma, que trabalharam no sentido de liberar a ambos o mais cedo possível do serviço daquela manhã, para que se desse o almejado encontro do Júnior com a antiga babá.
Pai José entrou acompanhado de um grande número de companheiros que o coadjuvavam na assistência aos desencarnados que os obsedados conduziam às reuniões de vários centros de umbanda. Vinham com as coordenadas de suas tarefas determinadas, de molde que logo passaram a assimilar, em conjunto com os protetores de cada pessoa presente na residência, como é que se refletiam nos procedimentos mentais as noções doutrinárias do kardecismo.
Vieram para aprender, portanto, conforme o próprio Pai José explicou a Etelvino e Glauco:
— Estamos notando que, de uns tempos para cá, muitos encarnados têm transitado livremente entre os nossos terreiros e os centros espíritas, uns porque desejam uma base teórica mais condizente com os valores europeus inseridos na sociedade brasileira, outros para ver se conquistam informações mais palpáveis ou concretas, que assim se vão tornando, para seu volume de conhecimentos e para seu nível de inteligência, através do cumprimento de determinadas obrigações de caráter material, uma vez que se sentem premidos por vicissitudes ou sofrimentos pungentes.
Glauco, que admirava sobremodo a clareza da exposição, num vernáculo que reputava de primeira linha, adaptou as informações dadas pelo interlocutor, para perguntar algo que há muito desejava saber:
— Tenho a certeza, Pai José, que suas manifestações através dos médiuns que atuam na umbanda ou no candomblé, quando traduzidas por eles, adquirem os trejeitos lingüísticos que caracterizam os chamados pretos velhos. Como se dá que um espírito de tanta evolução não corrija essa interpretação, a qual instiga para conclusões relativas a um plano cultural, social e econômico que estaria sendo mantido na mente e nos corações dos freqüentadores dessas casas tão importantes no atendimento dos carentes mais miseráveis, em todos os sentidos?
— Posso resumir?
— Por favor.
— À medida que as pessoas forem ganhando em escolaridade, irão verificando que as origens terrenas tão-só afetam a compreensão dos encarnados e que os espíritos procedem com extremo cuidado para não serem mal interpretados, uma vez que, se déssemos instruções apenas no sentido mais filosófico abrangido pelas leis gerais que valem para todos, estaríamos não somente fazendo o que fazem os centros espíritas, como também insinuando que tais pessoas com dificuldades meramente culturais teriam também o estigma da inferioridade espiritual. Já muito se falou a respeito de haver raças inferiores. O que existe, na realidade, é um direcionamento que visa a manter o status quo em cada sociedade, de modo que, no âmbito religioso, as tradições são o mais possível respeitadas. Se você, que vem estudando o espiritismo, souber avaliar as dificuldades, geração a geração, para a conquista de um número constantemente crescente de adeptos para a doutrina de Kardec, comparando com a facilidade com que crescem as igrejas ditas evangélicas de filiação bíblica, irá dar-me razão em que vai demorar muito tempo ainda para que se espraie o espiritismo, que recomenda sejam estudadas as obras do Codificador, para que se possam viver os preceitos cristãos em plenitude. Em suma, toda vez que aumenta o número de analfabetos, como se dá quando os dirigentes têm como preocupação primária a segurança física da população, a história registra uma queda muito forte no interesse dos estudos a que me referi. É conhecimento dos antigos que o pensamento só floresce quando o estômago se mantém tranqüilo. Finalmente, respondendo a uma intuição que lhe perpassou pelo cérebro, devo dizer que os sacerdotes em geral, lembrando Frederico e Tiago aqui presentes, só conseguem manter seus fiéis enquanto não destrinçarem estes que o reino de Deus se conquista, porque nem Jesus, com todo o respeito, conforme velha figura utilizada pelos católicos, não se constitui em pastor a conduzir ovelhas para o redil do Pai que está nos céus. É preciso que os humanos respeitem as entidades que se santificaram ou que descem dos páramos da perfeição (falo de modo a que você compreenda que existe uma relação entre os níveis evolutivos, ou seja, de modo relativo e não absoluto), para que se estabeleça uma hierarquia natural na mentalidade dos que têm de almejar um progresso contínuo.
Foi a vez de Etelvino perguntar:
— Vocês admitiriam, nas colônias de atendimento específico dos que advêm das seitas afro-brasileiras, irmãos que se dispusessem a estudar toda essa cultura não especificamente cristã, apesar dos evidentes pontos de contato?
— Temos muitos lá estagiando, outros que se preparam para se encarnarem nas comunidades de nossa fé, como ainda recebemos inúmeros que estão regressando de encarnações expiatórias ou missionárias nessas mesmas condições. Vejo que você já teve três vidas vestido de pele negra, mas se bandeou para a civilização ocidental tangido pelos valores que buscou incorporar, com o fito de pôr um termo à escravatura de maneira o menos traumática possível, transformando a mentalidade dos homens através de uma luta no campo das idéias. Por que seria diferente entre nós na espiritualidade? De qualquer modo, temos um grupo heterogêneo aqui reunido, alguns negros e muitos brancos. Seria interessante observar como interagem.
Tanto Glauco quanto Etelvino aceitaram a diretriz e se puseram atentos a esse prisma dos relacionamentos em foco. Para isso, prestaram atenção em como Titinho e Beatriz se estimavam, concluindo desde logo que isso poderia favorecer uma suavização dos preconceitos da parte do menino. Etelvino, mais experiente, declarou a Glauco que Norberto não estranhava as chamadas pessoas de cor, por ter convivido com a mãe de Beatriz desde bebê.
Aristeu, contudo, catalisou o interesse de ambos, ao se aproximar de Beatriz com claras vibrações de que estava absolutamente fascinado pela menina.



20. DURANTE O ALMOÇO

De repente, a todos pareceu que aquela refeição representaria um marco em sua vida. Tiveram eles a intuição de que tão ampla sociedade de gente provinda das mais diferentes origens deveria fixar diretrizes novas. De todos, era Norberto quem melhor caracterizava a perspectiva dos acontecimentos da manhã, sentindo, mediunicamente, a presença do grupo de orientadores e preceptores da espiritualidade.
Mas havia outros médiuns até melhor instrumentalizados, como Clotilde, Durvalina, Tomás, Claudiomiro, Agripino, Juvenal e a própria Beatriz, que, concentrando-se, receberiam vibrações específicas quanto ao que pensar e ao que dizer. Mas a hora era de plenitude de alegria, de modo que, compenetrado mesmo, apenas Norberto.
Ao chamado de Sofia, apressaram-se todos, que a hora avançara em relação ao horário habitual de almoço de cada um, exceção feita para Oliveira, que tomara o seu café da manhã às onze, que vinha gastando três rolos de filme e que nessa atividade se manteria por mais um bom tempo.
Acomodando-se os homens em torno da longa mesa, as senhoras começaram a servir, começando por um caldo de legumes espessado com creme de leite.
Raul sentou-se numa das cabeceiras, tendo de cada lado um presidente de centro espírita, ficando a outra ponta reservada para Dona Neusa, que destinou os seus lados para os dois padres.
Logo Durvalina se preocupou com Aristeu, bem no centro, indo ela mesma oferecer-lhe o creme:
— Este creme, doutor, leva caldo de galinha. Pelo que entendi, o senhor irá dispensá-lo. Certo?
Aristeu fez questão de dizer uma palavra de esclarecimento:
— Sabe o que acontece, doutora, eu não sou um vegetariano típico. Sou o que o dicionário define como vegetarista.
Tanto bastou para que a mesa toda se calasse, a prestar atenção.
Aristeu prosseguiu:
— Vegetariano é quem não come nenhum produto de origem animal, nem carne branca, nem peixe, nem ovos, nem qualquer derivado do leite. Vegetarista é quem dispensa o consumo do que exige a morte dos animais; sendo assim, não se importa em comer queijos e ovos, nem em beber leite. Mas o que existe de notável, seja para um, seja para outro, é o fato de que, ao rejeitar a comida com que os outros se deliciam, a pessoa se vê rejeitada ela mesma, como se o seu procedimento representasse uma espécie de agressão moral, dado que os outros sempre pensam que se quer demonstrar superioridade mental ou espiritual. Não é nada disso. Em geral, quem não ingere produtos animais que causaram a morte do bicho, apenas cumprem um ritual de solidariedade com os seres inferiores da criação. Eu, por exemplo, não me sentiria bem perante a minha consciência se deixasse que a Doutora Durvalina me servisse sem comentar que esta sopa foi feita com caldo de galinha. Sorvê-la, então, me causaria um grande mal-estar psicológico, como se tivesse agido de forma a romper com os preceitos que admiti como sagrados. No entanto, eu conheço bem as respostas dos espíritos a Kardec, os quais disseram que não haverá nenhuma punição para os carnívoros, desde que o organismo necessite alimentar-se para manter-se hígido para agasalhar o espírito, facultando-lhe desenvolver os seus programas pré-encarnatórios. Mas isso enquanto não se adquirir uma consciência de que os animais também têm direito à vida. Quando o bife está diante da gente, a alma do boi ou da vaca já está bem longe, de modo que é apenas matéria o que as pessoas consomem. Por tudo isso, eu peço que me perdoem e não vejam em minha restrição a determinados tipos de alimento senão um resquício, talvez, dos tempos em que a minha carne, em sendo uma alimária, deu repasto aos homens, em épocas imemoriais. Mas saibam, meus queridos, que vocês também passaram por isso e que a sua sopa está esfriando nos pratos. Os senhores sacerdotes não reparem em minha verborrágica manifestação. É que, advogado e conferencista, reservo-me o privilégio de ser ouvido, o que me leva a tão longos discursos. Se quiserem perguntar-me por que tiro a vida aos vegetais. Eu direi que essa foi uma forma que eles acharam de dominar, porque se oferecem em sacrifício com o intuito de serem cultivados. Se eles não têm consciência disso, existem espíritos que pensam por eles. É como as frutas que dão a polpa em troca de seus caroços e sementes receberem a carinhosa atenção dos pomares. Se me perguntarem por que os meus sapatos são de couro, aí serei obrigado a reconhecer que a perfeição paira muito longe de minha resposta, porque se situa também muitíssimo acima de minha personalidade.
Durvalina, que havia voltado à cozinha, retornou com um creme já no prato, explicando:
— Este aqui foi feito com o purê de batatas e o creme de leite. Pode a sua consciência ficar tranqüila.
Ela falou e se arrependeu pela provocação que mereceria uma longa preleção. Mas Aristeu engoliu a observação com o cremezinho, enquanto cresciam as conversas por toda a mesa. Quando os pratos fundos foram recolhidos, quase todos estavam completamente limpos, havendo até quem tivesse sugado as sobras com miolo de pão.
Nesse momento, Raul se levantou, estando todas as mulheres ocupando suas cadeiras. Pôs o guardanapo sobre a mesa e pediu silêncio:
— Vamos, agora que amenizamos os nossos impulsos primitivos, que nos teriam levado a devorar a caça ainda viva, agradecer ao Senhor a dádiva desta refeição e pedir a ele, em sua misericórdia, que não deixe faltar alimento em nenhum lar do mundo. Eu sei que esta minha palavra, para muitos, bastaria como prece, mas vou pedir ao Padre Frederico que faça uma oração por todos nós.
Levantou-se o sacerdote, pousou a mão no peito sobre o crucifixo com que se adornara ao sair para a casa que fora apedrejada um dia por forças desconhecidas, olhou demoradamente para o céu, que conseguia divisar dali onde estava, e principiou, fazendo com que Valdemar se encolhesse todo, na expectativa que criara de que iria ter o seu nome citado. Aliás, perpassou-lhe claramente pela imaginação que Raul só havia dado a palavra a Frederico por artimanhas de Dona Neusa:
— Meus irmãos em Deus, quero crer que todos aqui comunguemos de fé cristã e que todos respeitamos o princípio da fraternidade e do amor ao Pai, em primeiro lugar, e ao próximo, como extensão daquele que dedicamos a nós mesmos.
Em seguida, ergueu um pãozinho com uma das mãos e um copo de vinho (concessão especial de Dona Neusa) com a outra, prosseguindo:
— Senhor, abençoai estes alimentos como o fizestes na ceia em que vosso amado filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, ofereceu seu corpo e seu sangue pela salvação da humanidade. Que a nossa reunião se torne tão festiva a ponto de representar um hino de felicidade pela vida tão bela e tão próspera que todos gozamos nesta hora. Antes, Senhor, de recitar a oração que o Nazareno nos ditou, permiti-me rogar à Virgem Santíssima que estenda seu manto de mãe imaculada, para nele agasalhar a todas as mulheres aqui reunidas e para torná-las as prendas de sua pureza.
Em seguida, pediu que todos se levantassem e orou um pai-nosso pela metade, esperando que todos reproduzissem a segunda parte. Quando todos voltaram a sentar-se, ele permaneceu de pé, desejoso de prosseguir com a palavra.
Valdemar, que admirara a oração de seu antigo orientador espiritual, pôs-se de prontidão, antevendo que era a hora que mais temia. Mas Frederico foi bastante ameno:
— Quando Paulo, na estrada de Damasco, recebeu a graça de se encontrar com Jesus, embora, por um certo tempo, ofuscado por aquela luz divina, no sentido moral, evidentemente, se não soubesse tratar-se do filho de Deus, bem poderia pensar que estaria recebendo, por incorporação, ou por visão, ou por audição, uma mensagem do plano espiritual, na qualidade de médium. Nós da Igreja Católica achamos que os contatos entre os mortos e os vivos, apesar das respeitáveis teses em contrário, são inúteis, isto porque nenhum espírito imperfeito, porque os perfeitos privam do convívio do Pai no reino celeste, poderia trazer qualquer informação preciosa, no sentido da salvação de nossas almas, que já não se contenham nos evangelhos, na palavra do Senhor. Vão dizer que existem fenômenos que as religiões, de maneira geral, não explicam. Pois nós afirmamos que existem, sim, e que até as ciências não explicam, ainda. Nesta residência ocorreram várias chuvas de pedras e logo se concluiu que era para advertir os da casa de que existiriam espíritos desejosos de manifestar-se ou ainda necessitados de preces. Sei que Norberto havia solicitado um sinal que lhe evidenciasse esse plano da realidade de possível contato com os terrícolas, porque estava ele querendo uma palavra da esposa recém-falecida. Seria um conforto, uma consolação, em correspondência com os preceitos de Kardec, os quais não desconheço. Todavia, bastava ter no coração um pouquinho mais de fé na misericórdia divina, para que ele adquirisse a certeza de que Nelma repousava no seio do Senhor, porque era uma criatura boníssima, conforme atestaram-me a família dela e do viúvo, somando-se ao testemunho do Padre Tiago, seu confessor e muitíssimo amigo. Então, eu posso afirmar que ela está na eterna bem-aventurança, porque era boa e piedosa. Dentro do lema de que “fora da Igreja não existe salvação”, podemos afirmar que ela faleceu com a alma limpa de pecados, mesmo os mais veniais, além de haver recebido a extrema-unção em momento oportuno e o apoio de várias missas em prol de sua elevação para as hostes do Pai. Dentro do lema espírita de que “fora da caridade não existe salvação”, também temos de conceber que Jesus veio buscá-la em festa, trazendo consigo anjos e arcanjos, em cortejo de excelsa glória. Vamos, porém, imaginar que ela não fosse o que o espiritismo denomina de espírito de luz, um ser de maior magnitude moral, quase completamente virtuoso, mas apenas uma entidade que estivesse a merecer acompanhamento de guias mais categorizados, que iriam tranqüilizá-la quanto ao futuro da criança que deu à luz e que mal conseguiu agasalhar uns minutos em seu colo. Aí, bastaria que eles revelassem a ela a mesma necessidade que dispus quanto à aceitação da morte pelo viúvo, ou seja, que confiasse na sublimidade da justiça de Deus e em seu boníssimo desígnio de recolher, para o perene gozo do paraíso celeste, todas as almas dos bons e dos justos. Ela alçaria o eterno vôo da paz e do amor, em plenitude de felicidade. Pediu-me Dona Neusa que falasse em seu nome, para que o meu ilustre amigo Norberto se deixasse abençoar pelo sacramento do matrimônio, porque está preocupada com seu estado de pecado, dada a convivência marital com a esposa pela lei civil, a benemérita Doutora Durvalina, que tanta caridade tem feito em relação aos necessitados sem recursos. Bem compreendo que se trata, agora, de situação esquerda, de manobra insidiosa, quase maliciosa, o buscar uma deliberação qualquer estimulada de forma puramente emotiva. Preparei-me cuidadosamente para esta missão espinhosa e cuidei de não provocar nenhuma reação de que pudessem as mui dignas pessoas nomeadas arrepender-se depois. Estou sendo testemunha de que Deus plantou sementes de amor e de compreensão nos corações de todos os presentes, interessados em concretizar, em suas vidas, as diretrizes evangélicas mais lídimas. Sendo assim, peço que meditem, não a respeito de minhas palavras ou de minhas convicções, mas da aflição do coração de u’a mãe amorosa e de uma avó que jamais sentiu qualquer resquício de que seu ânimo arrefecesse nos cuidados que sempre prestou a todos os membros de sua família. Se vocês quiserem prosseguir com as suas crenças espíritas, sua filosofia, sua doutrina e seus preceitos científicos, lembrem-se de que Kardec almejava reunir todas as religiões numa só e que ele jamais, eu repito, jamais, pediu a quem quer que fosse que abjurasse de sua fé original. Cumprindo a palavra de Jesus, ele aspirava a ver todos os homens praticando o bem e elevando seus pensamentos, de maneira ordenada e metódica, para uma concepção da existência fundamentada nos valores eternos das leis de Deus. Disse-nos o nosso novel amigo Doutor Aristeu que lhe repugnam as exterioridades dos cultos e que tem receio de que sejam hipócritas as manifestações públicas de fé. Isto está conforme à palavra do Cristo, quando determinava que as orações se dessem em secreto. Mas também estão registradas nos evangelhos e nos atos dos apóstolos algumas passagens em que Jesus compareceu e até colaborou para as festas, como no caso do casamento em Caná, quando até a água transformou em vinho, o que Kardec não nega. Devo agradecer a confiança que o Padre Tiago depositou em mim para estas palavras de advertência e de muita compaixão, porque deveria ter sido ele a propor a cerimônia a que aludi. Talvez ele fale a respeito do batizado do nosso Titinho, mas acho que se trata de mera inferência do assunto principal. Quanto a mim, caberia reclamar a volta de Sofia e de Valdemar à minha paróquia. Mas não vou fazê-lo, porque sei que, do modo tão honesto e leal quanto abandonaram a religião que os agasalhou desde que nasceram, também terão a coragem de decidir voltar. Eis o meu sermão, para o qual pedimos, Tiago e eu, a compreensão de todos, porque todos aqui presentes sabem que não se pode sufocar uma consciência que nos acusaria caso decidíssemos fazer que se calasse. Dissemos o que dissemos e pedimos que nos respeitem o ponto de vista sem levantar polêmicas, da mesma forma que ouvimos tantas colocações dentro dos postulados espíritas, sem desejar cerrar contra elas um fogo cruzado. Falou Aristeu em ecumenismo. Adotamos essa bandeira e rogamos a Jesus que nos dê força para atendermos aos reclamos às nossas virtudes. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Ouviram-se vários que disseram amém, ao mesmo tempo que se persignavam. Mas nenhum dos espíritas presentes teve ímpeto para responder aos pensamentos tão elaborados do sacerdote. Nem Norberto se sentiu coagido a dar nenhuma explicação, limitando-se a levantar e a ir apertar a mão a Frederico e a Tiago, reconhecendo que tiveram muita coragem em expor de forma tão conveniente o que pensavam a respeito da doutrina e, principalmente, do procedimento das pessoas ali reunidas. Se Tiago ou Frederico tivessem exposto o crucifixo para que ele beijasse, era possível até que, num reflexo espontâneo, ele o fizesse. Mas tal não se deu, nem Norberto fez nenhuma promessa, a não ser um tímido “vou pensar no assunto”, sussurrado ao ouvido de Tiago.
Durvalina e Sofia, assim que se encerrou o palavrório, desapareceram prédio adentro. Valdemar ficou chapado na cadeira, literalmente, sem saber o que pensar. Dona Neusa enxugava suas lágrimas, consolada pelas lágrimas de Dona Glória, ambas refugiadas no quartinho que fora o de Beatriz. Os dirigentes espíritas, mais os autores, recompunham os argumentos do padre, a ver onde poderiam encaixar alguma idéia em sentido contrário, mas sem êxito quanto à oportunidade de uma discussão aberta. Cláudio e Beatriz, esta com o Júnior no colo, pareciam viver um momento sem passado, como se o futuro escancarasse suas portas para as realizações de suas vidas. As outras mulheres saíram atrás dos pratos a serem servidos, enquanto Oliveira, finalmente se sentava para saborear umas conchas do creme do Aristeu, que ele fora buscar na cozinha.
Mas, seja pelas impressões que ficaram das observações do padre, seja porque cada qual se entretinha com o que poderia significar a recomendação de que não se opusessem argumentos aos dizeres, o fato é que, no restante do tempo do almoço, as conversas foram apenas sussurradas, entrecortadas com a alegria espontânea de Beatriz e de Titinho, que se divertiam com os brinquedos novos.



21. NAQUELA TARDE

Após o café, quando apenas a ala masculina estava à mesa, logo Frederico e Tiago manifestaram a vontade de ir embora, conforme haviam prevenido os donos da casa, de sorte que, deixando Dona Glória ajudando na arrumação da cozinha, Adroaldo os conduziu em seu carro, havendo sido muito cerimoniosa a despedida. Aliás, não se encontraram nem Norberto nem Valdemar, muito embora Durvalina e Sofia tivessem feito questão de acompanhá-los até a porta.
Na verdade, Norberto e colega haviam saído para dar uma volta no quarteirão, a trocar idéias a respeito da pressão que haviam sofrido dos sacerdotes, culpando o filho à mãe:
— Eu acho, Valdemar, que minha mãe deve ter imaginado que os padres iriam colocar a gente na linha. O que ela não sabia é que haveria uma enxurrada de espíritas, e de tão alto gabarito.
— Talvez Dona Neusa tenha falado alguma coisa, mas, na minha opinião, foram aqueles dois que devem ter forçado a barra.
— Não sei, não. O quadro do Sagrado Coração de Jesus estava muito enfeitado e iluminado pra que não fosse pra dar a idéia de que os padres ainda mandam em casa.
As reflexões eram de molde a provocar outras cogitações, de sorte que os companheiros caminhavam calados, cada qual ampliando, de seu lado, as razões com que enfrentariam os argumentos que não eram para ser contestados.
Quando estavam apontando na esquina, perceberam que os sacerdotes estavam de partida, de modo que, num gesto automático, deram meia volta e retornaram pelo caminho que haviam percorrido antes.
Nesse meio tempo, Aristeu estava ficando muitíssimo preocupado com o horário, porque havia agendado para aquela tarde uma rodada de autógrafos, mas não queria ir embora sem fazer umas perguntas a Beatriz. Ora, sem o apoio de Norberto, não via como se aproximar da mocinha que se dedicava ao Júnior, vigiada de perto por Dona Neusa, que se deixara enciumar pelas festas que o menino estava fazendo à antiga babá.
Juvenal foi o próximo a sair, alegando que precisava voltar às tarefas no centro espírita, arrastando consigo Claudiomiro, que era quem estava motorizado.
Assim, quando Norberto e Valdemar regressaram, só encontraram o Doutor José Carlos e Agripino dispostos a ajudarem-nos a repensar os conselhos de Frederico. Mas o médico logo referiu à preocupação de Aristeu com os autógrafos, de modo que Norberto precisou ir em busca do palestrante, que, numa das cabeceiras da mesa, trocava idéias com o repórter.
Foi ver o jovem senhor que chegava e Aristeu foi logo solicitando:
— Norberto, meu caro, eu gostaria de ter uma conversa com Beatriz a respeito de sua mediunidade. Você me ajudaria?
— O senhor quer ver os desenhos que ela fez?
— Tudo o que me mostrarem, porque eu acho que foi ela quem desencadeou os fenômenos físicos dos apedrejamentos.
— Faz tempo que não acontece mais nada. Aliás, que eu saiba, ela nunca mais voltou até a desenhar.
— Não faz mal. O que eu gostaria de saber é se ela está freqüentando as aulas da mocidade espírita, que eu vi funcionando no Amor Fraterno de Jesus.
— Claudiomiro me contou que ela tem faltado. Mas vamos falar com ela.
Beatriz carregava o menino adormecido e conversava com o namorado. Ao ver o ex-patrão aproximar-se levando a tiracolo a estranha figura, foi logo levantando-se, para levar a criança ao berço. Norberto fez-lhe um sinal para que voltasse logo e ela desapareceu no interior da casa.
Mas Aristeu ficou com o jovem modelo, indo diretamente ao ponto:
— Você e a sua namorada têm ido ao centro?
Cláudio foi explícito:
— Nós não temos tido muito tempo, mas vamos reservar uma noite da semana para o centro e outro para o terreiro.
— Vocês vão à umbanda?
— Eu acompanho a filha e a mãe. Quando elas estiverem mais firmes nos estudos de Kardec, eu vou propor pra gente ir só ao centro.
— Você estuda?
— Faço o segundo grau.
— Muito bem!
Norberto, que admirava a desenvoltura do rapaz, saiu com a desculpa de trazer de volta a mocinha.
De fato, não demorou para que voltasse com ela e com Valdemar, que trazia as provas do livro que estava montando com os desenhos da jovem.
Logo Aristeu desejou analisar as reproduções, admirando-se muitíssimo com a leveza dos traços e o significado oculto dos objetos retratados. Mas não escondeu o que sentia:
— Eu imaginava que estes desenhos fossem meros rabiscos com a intenção de representar isso ou aquilo. Na verdade, cada desenho possui contextura própria e nenhum faz pensar em que a falta de traquejo do médium tenha guiado os traços. Ao contrário, parece bem claro que se trata de mediunidade mecânica, como quando o espírito se assenhoreia da mente e do braço de seu instrumento. Beatriz, você tem desenhado ultimamente?
— Parei, ou melhor, pararam. Eu me assustava muito quando as pedras caíam na cabeça da gente. Nos dias em que não caíam, eu desenhava lá no quartinho do fundo, onde eu dormia.
Nesse momento, Dona Neusa, aflita por ver a menina cercada de marmanjos, foi buscá-la com a desculpa de que nem haviam conversado direito.
Ex-abrupto, Aristeu declinou o desejo de partir, praticamente arrastando Oliveira, José Carlos, Agripino e Tomás consigo. Mas não deixou de despedir-se das senhoras, também agradecendo muito a hospitalidade ao professor aposentado e dono da casa.
Norberto, no entanto, não deixou que Aristeu partisse sem lhe dar uma cópia do vídeo da cerimônia e da festa do casamento, recomendando-lhe bastante que visse e analisasse, no sentido de constatar que houve muita ingenuidade e até inocência na utilização das dependências do centro espírita.
— Caríssimo e novel palestrante, não serei eu quem irá efetuar nenhum julgamento, nem quem irá prestar um desserviço à causa espírita. Esteja certo de que levo deste lar as mais vivas impressões de fé na força do espiritismo. Leia os meus livrinhos e você terá mais certeza do que lhe estou afirmando.
Quando Norberto e Valdemar voltavam do jardim, já estavam sendo convocados para desfazerem a arrumação das mesas e do toldo. Em pouco tempo, Raul lhes indicou como deveriam deixar tudo, enquanto, na cozinha, a empregada dava o último retoque no piso, havendo todas as sobras de alimentos sido distribuídas: um tanto para casa, outro para o apartamento, uma boa marmita para a empregada, a maior parte acondicionada para as famílias carentes do centro. Até as auxiliares católicas portavam seus embrulhos, de modo que D. Glória e o marido Adroaldo se viram na obrigação de conduzirem também as fiéis, despedindo-se da família.
Durvalina precisava dar plantão na casa espírita, de modo que pôs os pacotes no carro, fez entrar a importante auxiliar, que fora fundamental naquele almoço, Clotilde, e lá se foi, não sem antes recomendar ao marido que não decidisse nada sem discutirem, que ela tinha algumas considerações a fazer a respeito das colocações de Frederico.
Restavam Beatriz e Cláudio, Sofia e Valdemar, mas o casalzinho havia levantado muito cedo, de modo que ambos estavam bastante esfalfados pela intensidade dos quefazeres de todo aquele dia. Estando o Júnior dormindo, despediram-se de Dona Neusa e do Professor Raul, e lá foram no carro do Valdemar para casa, não sem haverem recusado um convite para passarem pelo centro.
Enfim, Norberto acabou frente a frente com a mãe, porque o pai foi puxar um cochilo.
— Quer que eu faça um cafezinho fresco, filho?
— Que história foi aquela de eu ter de me casar na Igreja?
Dona Neusa havia falado pela boca do padre. Não desejava, portanto, um enfrentamento direto. Contudo, não tinha como escapar, porque o filho a acompanhou até a cozinha, sentando-se à mesa, acompanhando-lhe a rotina do café.
— Eu pedi aos dois padres que viessem almoçar. Eu não contava com tanta gente. Eu acho que o Padre Frederico se aproveitou pra mostrar que a religião católica não é pra ser...
— Mãe, quer dizer que o padre é que assumiu o controle de tudo?
— Eu acho que ele tem de exercer seu papel de sacerdote. Não é porque você saiu da Igreja que ela deixou de existir. Pra mim ela sempre foi e sempre será muito importante.
Pela mente da senhora passavam, céleres, muitas recordações dos tempos em que Nelma estava viva e que levava o marido ao confessionário e à comunhão. Também, vinham as reminiscências da infância do filho, da primeira comunhão, da batina de coroinha, da faixa de cruzado e do botãozinho na lapela de congregado mariano.
Então, com os olhos cheios de lágrimas, concluiu:
— Eu sei que o seu casamento na Igreja depende de minha nora. Mas eu acho que batizar o Titinho não seria nenhum ato criminoso. Você foi batizado e nem por isso está se sentindo preso à religião.
Norberto sorveu o derradeiro gole de café, levantou-se, beijou a mãe na face e, sem dizer palavra, foi ver se o filho estava acordado.
A mãe o seguiu:
— Filho, Deus é o nosso pai do céu. Ele ama a todos nós, em qualquer religião a gente esteja. Nós é que devemos ser fiéis ao amor dele. Se você não acredita mais nos santos e nos anjos, pelo menos deixe a sua mãe contente. Você não sabe o quanto eu tenho rezado pra que tudo dê certo na sua vida. Deus vai ouvir as minhas preces.
Norberto deu um longo abraço na mãe, mas não foi além de uma vaga promessa:
— Vou precisar pensar muito a respeito. Por que a senhora não conversa com o pai, pra saber como é que ele está pensando a respeito disso tudo. Quanto a mim, tenho de conversar com a doutora, porque eu acho que os padres não foram muito honestos com a gente.
Dona Neusa quase colocou Aristeu na conversa, mas se resguardou, pois o que ela não queria era provocar uma negativa do filho. Todavia, Aristeu não deixou de freqüentar a mente do jovem senhor, fantasma invectivando uma atitude de afronta ao movimento espírita. Como duas sombras, passou de braços dados com Frederico, ambos com os dedos em riste. Mas Norberto manteve o espírito alerta, solicitando à mãe:
— A senhora fica com o Júnior? Eu vou pro apartamento. À noite, eu venho buscá-lo.
Ia falar em deixar o pagãozinho para passar a noite com a avó, mas o termo lhe pareceu de extremo mau gosto.
Meia hora depois, Norberto examinava todas as palavras de que se recordava daquele dia.



22. NORBERTO MEDITA

Quando chegou ao apartamento, Norberto vinha decidido a decifrar, sob a luz do espiritismo, todos os mistérios que o estavam envolvendo.
Entrou, deixou o agasalho em cima do sofá e foi diretamente à estante em que guardava os livros de Kardec. Pegou-os todos e foi empilhá-los na mesa da sala de jantar.
Separou o Evangelho Segundo o Espiritismo, mas deixou-o fechado:
“Eu passei a manhã toda com a impressão de estar na companhia de Nelma. Será que ela esteve presente, já que as pessoas que lhe foram mais importantes na vida lá estavam?”
O jovem senhor evitava pensar na falecida esposa. Sentia que todos os seus problemas não existiriam, se ela não houvesse morrido:
“Eu não posso culpá-la de nada. Mas a verdade é que Titinho estaria sendo bem cuidado e não jogado de um lado pro outro, até pelo amor de empréstimo da minha querida empregadinha.”
Beatriz vinha ocupar seu pensamento mesmo antes de se lembrar de Durvalina. A rapariga estava muito bem. Quando ele a viu totalmente transformada por um trabalho perfeito de maquiagem, notou que a menina havia cedido completamente à adolescente:
“Ela vai muito longe na carreira de modelo. Já era alta e magra, agora parece uma princesa africana. O futuro lhe abre os horizontes para uma vida cheia de realizações. Queira Deus que o Cláudio saiba respeitá-la e tenha inteligência pra guiá-la no meio do materialismo que os cuidados com o corpo, de preferência aos da alma, certamente representará, como aquela tentação que o Cristo nos ensinou a evitar.”
Lembrou-se da antiga amizade da juventude e deu asas à imaginação, vendo-a entrar pela nave central da igreja, de branco, sozinha, correndo para abraçá-lo junto ao altar, enquanto Tiago erguia a mão direita, abençoando-lhe a união matrimonial.
Aí se assustou com os seis ou sete filhos com que povoou a casa, todos escurinhos, de cabelos ruins, a exigir dele um amor sem preconceitos.
Norberto se levantou da cadeira e foi postar-se junto à janela, a ver o trânsito passar de um lado a outro na avenida. Mas não fugiu de enfrentar os sentimentos subalternos:
“A gente se assusta muito com a cor da pele, porque pensa que as pessoas geradas com essa mescla possam ser infelizes. Eu acho estranho este desvio de meu afeto pela menina, quando muitos dos que comigo convivem, Tomás, Juvenal, Clotilde e tantos outros, no centro e no fisco, são até retintos. Claudiomiro e Agripino, com certeza, não são morenos por acaso. Eles devem ter ascendentes negros...”
De repente, surgiu-lhe uma reminiscência muito antiga, dos tempos de criança, quando a mãe de Beatriz era a criada da família:
“Quantas vezes Isaltina, a boa mulher, me contou histórias que eu ouvia tão interessado, ela mesma falando em princesas loiras e príncipes montados em corcéis brancos.”
Lembrou-se de outras narrações de cunho verídico, em que negras amamentavam crianças brancas, enquanto muito sangue africano se filtrava para veias de enfermos de todas as cores, no mundo todo. A idéia das transfusões acabou levando o pensamento do moço para a esposa:
“Durvalina não vai aceitar a bênção do sacerdote. Ela nem queria a cerimônia civil.”
Norberto entrou no olho do furacão:
“Por que foi que me meti nesta esparrela? Não estava muito bem quando vinha a este apartamento três vezes por semana, pra nossos deliciosos momentos de amor e paixão? Bem que o Valdemar me preveniu, quando me chamou de viuvinho apetitoso, sugerindo que eu caísse na gandaia. Mas não, eu queria porque queria uma mensagem da Nelma. Aí veio a idéia de que a morte não separa, mas apenas afasta momentaneamente.”
As reflexões agitaram as emoções e Norberto voltou para a mesa disposto a abrir o Evangelho, aleatoriamente, para encontrar uma sugestão dos espíritos, conforme era costume no centro, quando terminavam as sessões de estudos. Mas se conteve a tempo de uma outra manobra psíquica:
“Por que é que eu tenho de me manter sob o comando dos espíritos, por mais elevados possam ser? Nesse ponto, é muito mais admirável a convicção dos padres e até de minha mãe, que se conservam numa linha religiosa, como se sua fé fosse de ferro, cinzelada no coração e forjada nos arcanos dos milagres, das curas e dos ensinos de Jesus.”
Recordou-se das chuvas de pedras e de todas as preocupações em afastar aqueles que lhe estavam respondendo ao pedido de um sinal do plano extrafísico. Rememorou rapidamente os argumentos de Kardec que o haviam levado a conceber a possibilidade das manifestações espíritas e criou uma força vigorosa na mente ao perpassar os desenhos mediúnicos de Beatriz.
Mas os pensamentos cruzavam, como se subsistisse uma acusação que lhe crescia desde o âmago da consciência:
“Por mais que eu ache que minha mãe esteja errada querendo forçar casamento e batismo, quem é que tem de ceder em matéria de sentimentos e de conforto? Se ela traz a fé tão arraigada, deverá sofrer muito mais do que eu no episódio de abaixar a cerviz. Não se trata, para ela, de um jogo de vontade e amor-próprio: ela não tem nada a perder, porque a decisão tem de ser minha. Como reagirá minha consciência, se eu der Titinho a batizar?”
De passagem, Norberto se lembrou de ter ouvido dizer que Kardec foi batizado e que só teria deixado a religião católica quando criou segurança em seu raciocinar metafísico. Mas Kardec não teve prole nem mãe que lhe exigisse um casamento católico...
Nesse ponto, feneciam-lhe os conhecimentos históricos. Ficou a cismar se Kardec, realmente, não recebera as bênçãos matrimoniais da Igreja. Bem fizera Jesus que não se casara. Insensivelmente, voltara ao tema inicial do que o havia constrangido àquela situação. E Nelma compareceu de novo à mente infeliz do pobre assediado por espíritos obsessores revestidos de carne e osso.
“Dizem que a mediunidade a gente desenvolve. Será que poderei tornar-me vidente? Sei que corro o risco de ser atendido, mas eu acho que, se eu não estiver preparado, não vão me atribuir um dom com o qual eu não saberia o que fazer.”
Pendeu-lhe a cabeça como se um peso enorme lhe tivesse sido colocado em cima. Levantou-se de junto à mesa e se dirigiu ao quarto. Deitou-se na cama e fechou os olhos. Antes de adormecer, viu que havia duas horas ainda até que Durvalina chegasse.



23. UM APELO E UMA OBRIGAÇÃO

Foi difícil para Norberto entender que era o chamado de seu telefone celular que o estava acordando.
— Pronto!
— Querido, desculpe incomodá-lo, mas nós precisamos que você venha já pro centro.
— Que foi?
— Temos um problema com o Ricardo. Parece que ele estava passando droga aqui dentro.
— Quem está aí, agora?
— Todo o mundo está aqui, mas eu me lembrei de você, porque ele parece que tem um respeito muito grande por você.
— Entendi. Onde ele está agora?
— Ele está conversando com Claudiomiro e com Valdemar.
— Eu estava dormindo. Deixa lavar o rosto e já estou seguindo pra aí. Tchau!
— Tchau!
Norberto estava ainda zonzo. Percebeu que dormira menos de meia hora e que havia sonhado com uma porção de gente desconhecida, onde havia uma longa mesa posta, mas sem que ninguém estivesse comendo nada. Lembrou-se de ver uma pessoa erguer um brinde com um copo cheio de sangue, ao mesmo tempo que seu braço se perdia no alto, desaparecendo entre as nuvens. Via-se sentado ao lado de Durvalina mas com as mãos dadas a uma senhora que carregava o Titinho. Ele não olhava, mas achava que era a mão de Beatriz. Então, fez o gesto de quem vai beijar o dorso da mão alheia, mas a cor da pele o confundiu: era clara e não negra. Quando ele ia ver quem estava de seu outro lado, começou uma algazarra tremenda, parecendo-lhe que Titinho apertava uma buzina estridente. Foi quando acordou.
Levantou-se o moço, pegou a carteira que havia deixado no criado-mudo, e retirou uma foto bem antiga de Nelma. Tinha a certeza de que a mão que prendia a sua no sonho era a dela.
Mecanicamente, tocou na aliança no anular esquerdo, aliança que simbolizava sua união com Durvalina, mas que lhe recordou a outra que lhe fora furtada e depois devolvida. Foi assim que se concentrou na figura macilenta do pobre coitado que ele havia perdoado um dia, aquele mesmo Ricardo que estava agora às voltas com um sério problema.
Quando chegou ao centro, Norberto já havia preparado um longo discurso sentimentalóide, adequado, pelo que entendia, para chamar a si aquele que ele achava que estava esforçando-se por trilhar o caminho da moralidade, não se importando com envolver o coração da avó do rapaz, que mantinha marcação cerrada sobre o neto, acompanhando-o toda vez ao centro, como se estivesse prevendo uma possível recaída.
Encontrou o rapaz cabisbaixo, sentado diante da mesa do presidente da instituição, enquanto Claudiomiro e Valdemar pareciam ter dito tudo sem receber uma resposta que considerassem adequada. Sobre a mesa, três papelotes fechados e um aberto contendo um pouco de erva, o suficiente para dois ou três baseados.
Valdemar ia logo precipitando uma observação, mas Norberto fez-lhe um gesto incisivo para que não falasse nada.
— Claudiomiro e Valdemar, por favor, deixem-me conversar a sós com o Ricardinho.
Sacudindo a cabeça com evidente desagrado, Valdemar logo foi saindo, enquanto Claudiomiro explicava:
— Nós achamos que o rapaz vem fornecendo drogas aqui dentro. Mas ele nega tudo. Diz que é pra consumo próprio. Veja se você consegue que ele diga a verdade.
Para evitar qualquer problema com a curiosidade alheia, que o povo todo ali estava alvoroçado, Norberto fez questão de fechar a porta.
Aí, apesar da vontade que tinha de afagar os cabelos ruins do antigo marginal, Norberto puxou uma cadeira e sentou-se ao rés dele, de modo que pudesse falar o mais baixo possível. Teve uma inspiração:
— Ricardo, um dia eu lhe fiz uma proposta. Você está lembrado do que eu lhe disse?
— O senhor me disse que, se eu garantisse o seu, você garantia o meu.
— Isso mesmo. Vamos ver se dá certo de novo? Você me conta a verdade e eu tiro o Juvenal de seu pé.
— Pra começo de conversa, eu não tenho medo de nenhum Juvenal nem de nenhum fiscal do governo.
— Desculpe-me. Eu não me fiz entender. Eu não estou fazendo nenhuma ameaça. Mas você deve saber que o soldado não está pra brincadeira. Esta casa é onde a gente trabalha em favor de quem precisa. Ele não vai querer que você atrapalhe a recuperação de nenhum jovem que está procurando deixar a droga. Mas eu acho que o Valdemar já deve ter feito um longo sermão. Nem você é tão imbecil que não tenha percebido que entrou em fria. Se você me disser que essa maconha é pro seu vício e não pro dos outros, eu acredito.
— Eu já disse, Seu Norberto, mas não querem acreditar. É a primeira vez que eu trago pro centro.
— Eu acredito. Eu acho mesmo que você deve estar lutando pra acabar com o vício. Tem alguém obrigando você a traficar?
A conversa iria bem longe, até que saíram os dois abraçados, deixando a prova do crime sobre a mesa. Ambos traziam os olhos vermelhos. Espontaneamente, Ricardo procurou Claudiomiro e pediu-lhe que o perdoasse em nome de Deus.
Restava fazer o rescaldo do incêndio que atingira toda a comunidade, trabalho insano que Norberto prometera executar imediatamente, indo de grupo em grupo, afiançando que Jesus estava pedindo pelo amor de todos que deixassem o jovem obter uma segunda oportunidade de regeneração. Desarmava os espíritos e propunha a responder pelo amiguinho, instando para que o caso fosse arquivado, apelando para os sentimentos e as experiências de cada um. Desafiou que alguém contasse algum caso recente de desvio de Ricardo do bom caminho e requereu ao indigitado que se responsabilizasse por uma palestra aos jovens que freqüentavam as aulas de evangelização na qual ele contaria os problemas que estava enfrentando e como pretendia vencer. Dispôs-se a ajudá-lo e dispensou-o, garantindo-lhe que esclareceria tudo à avó, que lá não se encontrava, caso fosse necessário.
Mas não houve jeito: Norberto não conseguiu que Juvenal deixasse de acompanhar o rapaz, quando este se retirou.



24. CONSIDERAÇÕES DE DURVALINA

Norberto quase entra em parafuso com a perspectiva de estar sendo enganado por Ricardo. Depois de passada a fase dos sentimentos à flor da pele, caiu em si, ponderando que, talvez, a solução para o rapaz não se pudesse achar a curto prazo. Relembrou todo o longo percurso que ele mesmo percorrera desde que se libertara da tentação das extorsões, através do sofrimento da perda da esposa querida, até a compreensão de que cada um tem um carma para cumprir. Imaginou que Kardec não usaria a palavra alienígena, mas nem por um instante intentou uma discussão de caráter filosófico ou religioso.
Ao contrário, pareceu-lhe que seu compromisso em ajudar o moço viciado ou traficante (ele punha em dúvida as palavras que ouvira) tinha de passar por uma séria enquête junto à rapaziada que freqüentava o centro e que mantinha contato com o portador da marijuana, do bagulho. Novamente as palavras estranhas ao seu cotidiano lhe chamaram a atenção e novamente não buscou decifrar o mistério dessas reminiscências.
Sentia o coração deprimido, tanto que, ao ver Juvenal se afastar a pé à ilharga do rapaz, logo lhe veio o desejo de ir para casa, que as conversas redundariam demasiado onerosas para aquele fim de dia extremamente cansativo, principalmente no aspecto emocional.
Combinou com a esposa que se encontrariam em casa, mesmo porque estavam com os dois carros, e partiu, obrigando-se a pensar nas sobras do almoço, que a fome lhe estava começando a apertar, porque havia comido muito pouco, limitando-se a um prato raso de sopa e um pedaço de torta de palmito compartilhada com Aristeu.
Achou sumamente nutritiva a confabulação íntima a respeito do vegetarismo do articulista, tanto que se recordou quase inteiramente do discurso que este fizera a respeito. Aí lhe veio muita água à boca ao lhe perpassar pela imaginação e pelos sentidos os frangos assados, que navegaram ao largo de seu prato, em travessas que se esvaziavam e que se enchiam de novo, pelas mãos solícitas das senhoras.
Recordou-se da atenção que Durvalina dera a Aristeu, servindo-o seguidamente com porções das comidas que ela encomendara ao restaurante vegetariano. Norberto se enterneceu com o desvelo da moça que o aceitara em sua vida, com o apego tão forte à caridade, pela compreensão profunda das teses espíritas.
Chegou o jovem senhor a criticar-se quanto a haver tido pensamentos elogiosos à convicção da mãe e dos sacerdotes, acusando-se de tibieza pela insipiente adoção da doutrina de Kardec. Remeteu de volta o pensamento à necessidade premente de decidir-se a respeito do casamento religioso e ao batizado do Júnior e ficou extremamente infeliz com a lembrança.
Diante da pilha de livros que deixara sobre a mesa, Norberto percebeu que, no último ano, realizara a leitura de todas as obras e que era capaz de, com algum esforço, situar todos os assuntos, seguindo visualmente os índices, que reproduzia na memória.
“Que está faltando para mim? Mais pedradas no telhado? Mais visões em sonho da presença de Nelma? Mais problemas a serem equacionados pelo prisma das virtudes cristãs incentivadas pela Igreja e pelo Movimento Espírita?”
Suspendeu as perguntas, crente de que o tempo lhe traria as respostas, argumentando, dentro do coração, com a necessidade de que teria de compensar os erros do passado, amargando provações meramente intelectuais, que sua vida material não estava merecendo reproches. Finalmente, avaliou que a sua memória lingüística estava a provocá-lo para uma imersão nos estímulos do inconsciente e começou a relacionar aleatoriamente uma série infindável de termos de toda origem, mergulhando fundo num mar lexical infestado de cardumes de palavras em famílias de cognatos, em divisões semânticas, que se misturavam pela evocação das formas e dos sons.
Gostou do exercício que o fazia olvidar a premência das decisões, tendo como pano de fundo do palco em que se representava essa comédia de equívocos a perspectiva de uma conversa lúcida que pretendia ter com a esposa.
De fato, nem havia transcorrido meia hora de sua chegada e já estava Durvalina presente, demonstrando profunda preocupação:
— Norberto, você acha que o Ricardo falou a verdade?
Não era o que o marido imaginara que estaria no campo mental da mulher. Em todo caso, expôs a ela as suas dúvidas e pediu-lhe um parecer a respeito das experiências dela com recuperação de drogados e de marginais.
— Se você quiser saber minha opinião, não haverá de ser no centro que nós freqüentamos que os jovens irão encontrar uma fórmula capaz de livrá-los dos males que a sociedade incrustou em suas mentes e em seus corações. Quando eu trato dos doentes e de suas doenças, procuro dar-lhes um atendimento profissional. Nós não estamos equipados com pessoal especializado para fortalecer as deliberações de melhoria no âmbito dos desvios de comportamento social, nem mesmo no que respeita aos males que as drogas causam ao organismo. Eu acho, se for isto que você está querendo saber, que você vai malhar em ferro frio e que o moço, que teve uma intuição ou um desejo de fugir do meio em que cresceu, deve ter tido uma recaída provocada pela facilidade de introduzir-se e a seu comércio junto aos meninos e meninas menos experientes que agasalhamos. Eu acho também que Juvenal irá conseguir muito mais que você...
— Mas não foi você quem me pediu pra ir lá ver o que estava acontecendo e o que eu podia fazer?
— Eu estou analisando o fato depois de sua atuação, que eu achei desastrosa. No mínimo, você devia tê-lo obrigado a entregar os nomes e os endereços das pessoas que lhe forneceram a maconha. Era um voto de confiança que ele lhe daria.
— E quem lhe disse que ele não me deu todas as dicas? Só que ele me pediu pra não contar pro Juvenal.
— E com isso você ficou amarrado, sem poder levar avante uma investigação mais séria, mesmo que fosse apenas no sentido de fazer uma denúncia anônima, tantos são os telefones à disposição pra isso. Eu acho que o seu espiritismo está a ponto de se saturar de dores de consciência. Pensa que eu não notei a sua preocupação com a sensibilidade de Dona Neusa, que está forçando uma solução bem do agrado dela e dos padres pros seus problemas familiares de caráter religioso?
Agora que Durvalina abria o jogo para os temas de maior interesse do marido, este sentiu que havia por detrás do que ouvira uma solene negativa para uma possível sugestão conciliatória.
Tartamudeou, então:
— Eu achei que minha mãe fez muito mal em convidar os padres e estes mais ainda em nos passarem aquele sabão.
Mas Durvalina não estava para brincadeiras:
— Pois eu acho que todos fizeram muito bem em falar com toda sinceridade o que estavam pensando, demonstrando o que estavam sentindo. Agora a gente sabe tudo o que está se passando pela mente deles. Nós é que temos de definir uma resposta e apresentá-la sem rebuscamento. Por exemplo, eu penso que tenha ficado bem claro que sua mãe está preocupada e, por isso, não hesitou em se utilizar de uma espécie de chantagem emocional pra nos envolver. Ela achou que não iria ser ouvida se falasse ela mesma e, então, clamou pela ajuda das autoridades eclesiásticas, pessoas que pra ela têm o dom da santidade, ainda que de empréstimo, porque representam Deus na Terra. Da minha parte, eu não concordo que eles ajam assim, mas eu sei que eles sabem que a decisão que nos cabe irá afetar a nossa maneira de situar os problemas morais e religiosos em relação às demais pessoas de nosso círculo familiar e de amizades. Nós ficamos muito preocupados com a nossa responsabilidade perante os companheiros do centro que se viram achincalhados pela imprensa, mas fomos atrás e avaliamos toda a extensão do problema, equacionando-o da melhor maneira, faltando bem pouco pra se fechar esse episódio de mal-entendidos. Você está a pique de assumir uma nova função, a qual me parece bem mais confortável que a de fiscalizar, principalmente quando se está num meio totalmente corrupto. Mas não foi você quem não queria fugir da raia, indo pra comissão com Agripino e Valdemar? Pois agora temos de enfrentar mais essa questão de ferir ou não ferir as susceptibilidades religiosas de Dona Neusa.
Norberto interrompeu para uma confirmação:
— Você está dizendo tudo isso pra me informar que não vai se submeter ao sacramento do matrimônio?
Durvalina apanhou ambas as mãos do marido, beijou-o na face e murmurou-lhe ao ouvido:
— Eu tenho, meu amor, a certeza de que a nossa união está abençoada por Deus e que não precisa da intervenção dos homens. Nós declaramos a nossa vontade de ficarmos juntos um ao outro e todos os nossos guias e protetores estavam presentes. Se a gente não acreditar nisso, o melhor que faríamos era abandonar a fé espírita. A Dona Neusa vai ficar triste? Paciência. Ela tem de compreender que na nossa vida mandamos nós. No entanto, se você quiser saber, tudo estava caminhando pra isso mesmo, porque ela está cuidando do Titinho na qualidade de mãe e não de avó, e nós temos culpa no cartório, porque não demos outra solução pra criação do menino. Eu acho que seu pai está forçando a compra de uma casa maior pra que a gente dependa ainda mais deles. Precisamos repensar com quem vai ficar seu filho, se com ela, se com alguma babá aqui em casa, se com os pais de Nelma, porque nós não temos como cuidar dele o tempo todo.
— Eu estava preocupado justamente com isso. Além do mais, tem o caso do batizado.
— Quanto a isso, eu tenho algo a acrescentar. Vamos supor que você aceite que ela leve o menino à pia batismal, concordando Tiago, ou seja que padre for, que você não precise fazer o curso correspondente, porque sempre haverá a família de assegurar que o pequeno cristão vá receber orientação religiosa compatível com o sacramento. Eu não entendo muito disso. Mas vamos supor que se realize a cerimônia. Ora, nós estamos planejando uma família pra nós também. Aí, quando chegar a vez de a gente ter de passar pelo drama de novo em relação aos nossos filhos, a coisa vai ficar muito mais complicada, porque eu vou negar-me a dar meus filhos pra que o padre exerça sua autoridade sobre eles e sua mãe, a avó, irá, no mínimo, estabelecer uma diferença entre os nossos e o seu. É algo que está no campo das hipóteses, mas que vai acontecer, se depender de nossos desejos. Eu estou dizendo que a sensibilidade de sua mãe, veja bem, é um percalço pra ela e que não deve se transformar em problema pra nós. Se não for assim, o espiritismo se verá solapado enquanto existirem padres católicos.
Norberto acompanhava os raciocínios com extremo interesse e admiração e só encontrou uma palavrinha para acrescentar:
— Eu acho que seria ainda pior se minha mãe fosse protestante.
— Protestante ou católica, nem parece que são cristãos os que não nos permitem o exercício do nosso livre-arbítrio. Eu acho que você não se deve deixar envolver por esses problemas de sua mãe, a menos que você se decidir pela volta à fé católica. Você chegou a pensar nisso?
— Não cheguei a pensar seriamente, mas refleti a respeito de como entrei pro movimento espírita e vi que tudo teve origem na morte da mãe do Júnior.
— Você acha que estava escrito que seria assim a sua vida ou esses acontecimentos se deram de modo fortuito?
— Eu acho que quando a gente discute nas reuniões do nosso grupo de estudos, tudo parece mais fácil de explicar. Quando se trata de pôr em ação as idéias, as coisas se complicam, porque afetam as pessoas de nosso relacionamento que não têm o mesmo entendimento.
— Então, vamos dar a sua mãe alguns livros. Quem sabe ela se interesse pela leitura.
— Eu acho que a primeira coisa que ela vai fazer será levar os livros pro Tiago. Meu pai, não. Talvez ele receba bem as obras, se é que já não leu algumas, e possa convencer minha mãe...
— São soluções a longo prazo. O que eu quero saber é o que vamos dizer a eles daqui a pouco, quando formos buscar o Júnior.
Norberto não estava preparado para uma resposta definitiva. Por ele, levava as coisas em banho-maria, como estava fazendo em relação à compra da casa. Mas refletiu que Durvalina tinha razão. Era preciso tomar uma decisão definitiva, de preferência que não magoasse a mãe. Recordou-se da conversa truncada que mantiveram à tarde e sentiu que a mãe até poderia repelir o neto. Mas essa intuição não lhe pareceu de boa origem, de modo que, antes de dar uma resposta à esposa, resolveu que deveria orar solicitando ajuda do etéreo.
Durvalina, que mantinha presas as mãos do marido, sentia-lhe um leve, um sutil tremor, algo como que um nervosismo crescente que lhe umedecia as palmas. Foi quando ela também resolveu rogar pela ajuda dos preceptores espirituais.
Enfim, após alguns minutos, Norberto declarou:
— Se a nossa felicidade depende de uma concepção filosófico-religiosa, não haverá de ser nesta encarnação que obteremos a perfeição. Vamos deixar um pouco mais as coisas nas mãos de Deus. Quem sabe a minha mãe atine com toda a extensão dos problemas que nos está causando e resolva atenuar a pressão, com medo de que vamos levar o neto embora de sua companhia. Eu acho bom dar um pouco mais de tempo ao tempo pra sentirmos até onde vai a ousadia dela. Veja, querida amiga, que não estou fugindo do problema: na verdade, eu gostaria é de saber previamente quais seriam os reflexos na alma de minha mãe de uma decisão irrevogável de nossa parte, negando-lhe tudo o que ela pede. Afinal de contas, ela tem muito mais experiência de vida, mais velha vinte anos que nós.
Desta feita foi a vez de Durvalina achar que o marido estava inspirado e disse-lhe, taxativa:
— Eu orei uma prece ao meu protetor pedindo por mais luz. Eu acho que fui atendida e que você está falando com o coração na mão, corajosamente enfrentando os reclamos de sua consciência, porque não gostaria de ofender ninguém, muito embora tenhamos a convicção de que nós também estamos sendo vítimas de uma circunstância em que fomos colocados à prova. Se a gente pudesse fazer com que Dona Neusa entenda isso, talvez ela percebesse o quanto nós a amamos e respeitamos, apesar de sua fé religiosa ser diferente da nossa. Vamos confiar em que ela não bata mais o pé.
Ambos se abraçaram, enquanto Norberto extravasava as suas emoções, deixando que algumas lágrimas escorressem livres e desimpedidas, numa antevisão das lutas cármicas que teria de enfrentar até dominar completamente todas as áreas do conhecimento espírita, projetando seu pensamento para a perfeição que indicara Jesus como o objetivo de todas as criaturas. O mais se perdeu em nuvens de intensas sensações pessoais.



25. A VIDA CONTINUA

Três meses se passaram desde que Norberto e Durvalina tiveram aquela conversa em que concordaram deixar um pouco mais as coisas nas mãos de Deus.
Muita coisa ocorreu nesse meio tempo, conforme Norberto se recordava, sentado num dos bancos da frente da nave principal da paróquia do bairro. Haviam ele e a esposa preferido ocupar aquele lugar, enquanto Tiago ministrava o batismo ao Titinho, nos braços do avô Adroaldo, cercado pelos demais avós e alguns tios.
Ali o nosso jovem pai sentia a presença de alguns espíritos amigos, fechando ele os olhos para ver se vislumbrava o que poderiam estar fazendo, imaginando que se congratulavam com outros que possivelmente dessem assistência aos trabalhos da catequese que se exercia naquele recinto. Mas o máximo que pôde descortinar foi uma rápida visão de Nelma, sorridente e amiga, como a agradecer-lhe o sossego que as preces que se elevavam em favor do filho punham nas mentes e nos corações de todos que acreditavam na validade daquele ato religioso.
Em paz consigo mesmo, solicitou com veemência pelo espírito de Ricardo, ao mesmo tempo que instintivamente segurava o relógio que trazia no pulso, recordando-se do dia em que Juvenal viera trazer-lhe, juntamente com a notícia da chacina dos quatro jovens, conjeturando que se tratava de algum ajuste contas, dado que a polícia havia prendido três chefetes de uma quadrilha de narcotraficantes.
No plano espiritual, Ricardo ainda não despertara para sua situação etérea, mas estava sob os cuidados diretos de Pai José, pela intervenção emocionada de Beatriz, que muito se comoveu com a tragédia do rapaz, muito mais por haver testemunhado a dor da avó do que pela visão rápida dos corpos, na reportagem do jornal televisionado.
Para afastar as nuvens negras que cresceram em sua mente, pela desconfiança de que seu telefonema anônimo pudera haver desencadeado o morticínio, recordou-se dos comentários de Aristeu, quinze dias depois do célebre almoço, publicados com destaque no mesmo jornal em que antes havia dado a público as notícias das falhas ocorridas em sua festa de casamento no Amor Fraterno de Jesus. Gostara particularmente do título: Eu, pecador, me confesso, porquanto o inteiro teor do texto não primava por uma integral isenção de responsabilidade dos diretores do centro. Em todo o caso, Aristeu fizera um completo mea culpa, deixando claríssimo que se precipitara nos julgamentos, mas não invalidando suas razões no que concernia às críticas pelo uso indevido da casa espírita.
Não contente com a avalanche de censuras que se alinhavam diante de seus raciocínios, passou de imediato a um tema mais ameno, recordando-se de como se solucionara a questão da nova residência para congregar as duas famílias debaixo de um mesmo teto. Saiu dali em pensamento, transportando-se para aquela bendita noite em que os condôminos de seu edifício se reuniam em assembléia geral. Havia tido o descortino de perguntar se todos estavam satisfeitos em morar naquele prédio e se não havia alguém que desse preferência para uma casa térrea. Logo após a reunião, estava tratando uma permuta com um dos vizinhos, três andares abaixo, interessado no negócio. Viu a cara de espanto do amigo arquiteto e corretor de imóveis quando o foi procurar para uma avaliação das duas propriedades, concordando as partes nos preços e efetuando a troca, até com um pouco de vantagem para o pai. Em dois meses se fez a reforma no apartamento e Dona Neusa pôde transferir-se para bem pertinho do neto, acomodando-se o problema da entrega da criança. Raul até que manifestou um certo alívio, dizendo-se cansado de varrer pátio e quintal e de cuidar de uma horta que se tornara obsoleta pelos produtos hidropônicos que adquiria no supermercado, com garantia de pureza rigorosamente científica.
Se pudesse observar o que estava ocorrendo no etéreo, teria visto Etelvino e Glauco congratulando-se efusivamente, porque sentiam que tanto Norberto quanto Valdemar não iriam sossegar por um bom tempo, que novos planos estavam elaborando para lhes causar situações em que seriam testados quanto à fé e quanto ao desempenho moral.
Então Norberto se sentiu obrigado a refletir a respeito daqueles três meses passados na companhia de Agripino e de Valdemar no seio da comissão de assessoria ao Governador. Viu-se a requisitar as listas dos contribuintes multados, especificando setor e período. Queria avaliar como é que se assinalavam os montantes recolhidos ao tesouro, desconfiado porque havia muitas vezes um excesso de gentileza da parte dos comerciantes desonestos, que não reclamavam das imensas quantias registradas nos autos de infração nem tentavam sequer insinuar a possibilidade de uma soma para os bolsos dos fiscais. Para sua desagradável surpresa, foram colocados muitos óbices de caráter burocrático-administrativo, de sorte que precisou recorrer ao setor jurídico da comissão para conseguir algumas informações truncadas e desatualizadas. Após as pesquisas, pôde concluir que muitas multas lavradas eram passadas para os arquivos informatizados com um valor alterado para menos, muitas vezes em mais de noventa por cento. Outras vinham com anotações relativas a recursos impetrados, constando que estavam suspensas até que o poder judiciário se manifestasse. Inúmeras simplesmente não se encontravam, desaparecendo os registros eletrônicos em confronto com a papelada arquivada. Voltando alguns anos, pôde verificar que o Estado fora freqüentemente responsabilizado pelos juízes, tendo de arcar com os precatórios. A extensão e a profundidade da corrupção pareceu aos três amigos um poço sem fundo; mais ainda, que, se mexessem com o vespeiro, os guardiães do enxame poderiam querer escorraçá-los definitivamente, como fizeram ao pobre do Ricardinho. Em todo o caso, estava adiantada a minuta de um anteprojeto de lei que regulamentava a divulgação imediata de todos os autos de infração, notificando-se os interessados e a sociedade em geral através do Diário Oficial.
De qualquer forma, Norberto não se sentiu confortável recordando-se de tudo isso e estabeleceu que deveria compartilhar da alegria dos católicos, imaginando a surpresa de todos quando Durvalina e Sofia anunciassem para todas as famílias reunidas no salão de festas do prédio que ambas se achavam grávidas.
Norberto, na realidade, não estava muito seguro de sua felicidade quanto à vinda de mais um filho. Sentia um certo receio imponderável, atribuindo a causa dele ao fato de haver perdido Nelma na mesma circunstância. Comparou os dias em que recebera as notícias de que iria ser pai e avaliou que, da primeira vez, a emoção tinha sido muito mais profunda.
Mas a igreja estava recebendo muito público, que o primeiro matrimônio estava marcado para dentro de meia hora. Foi o que desencadeou outra série de recordações em nosso amigo, que passou a rememorar o dia em que o próprio Padre Tiago, diante daquele mesmo altar, declarara que ele e Nelma estavam unidos até que a morte os separasse.
Tentou remover a lembrança que, de certa forma, fazia que se afastasse de Durvalina, imaginando que esta se vestisse de branco e entrasse por aquele mesmo corredor. Foi quando intimamente sorriu, que logo lhe ocorreu o dia em que, cheios de cuidados, foram ambos dizer a Dona Neusa que não iriam satisfazê-la quanto ao casamento perante o padre. Estava clara em sua memória a observação inesperada dela:
“Meus filhos, eu jamais iria pedir a vocês que se casassem só pra me fazer gosto. O sacramento é sério e exige dos noivos o compromisso de cumprirem o que mandam as leis da Igreja. Se vocês não aceitarem Jesus no coração como eu mesma aceito, eu acho que o pecado iria ser bem maior do que essa situação em que vocês se encontram.”
Norberto recordou-se do forte abraço que deu na mãe, prometendo-lhe naquela mesma hora que ela iria batizar o Júnior. Mais tarde, Durvalina lembrou-lhe que haveria a primeira comunhão, a missa todo domingo e outros compromissos que ele conhecia tão bem. Mas respondeu-lhe ele que, apesar de ter feito tudo aquilo, ele estava dando palestras em diversos centros espíritas, tendo sido agendada uma participação em um congresso espírita organizado pela federação.
Quando começava a adentrar os temas que costumava desenvolver em suas exposições doutrinárias, ouviu a vozinha do Titinho:
— Papai! Papai! Papai!
Vinha ele correndo na frente de Dona Glória.
Norberto saiu para o corredor e abraçou o filho:
— Que foi, querido?
— Salgado.
— Puseram sal na sua boca?
— Puseram.
— E o gosto está ruim?
— Está ruim.
— Quer um biscoito?
— Quer.
— Diga quero.
— Quero.
O pai, que prevenira aquele momento, tirou do bolso um pacotinho de bolachas salgadas em formato de animaizinhos, que o filho pegou com vontade.
Enquanto Raul e Dona Neusa foram ultimar as providências na sacristia, o cortejo dos convidados saiu para o pátio, todo o mundo desejando fazer um agrado ao petiz. Destacaram-se entre os presentes Beatriz e Cláudio, que, muito felizes, exibiam suas fotos em uma campanha publicitária veiculada em revista de grande circulação nacional. Coincidentemente, eles se fotografaram vestidos como noivos perante um padre, trajes belíssimos e maquiagem perfeita a ressaltar a jovialidade virginal da noiva. Mas o casalzinho precisava ir embora logo, prometendo outras surpresas profissionais para breve.
Dessa feita, a reunião familiar iria dar-se no salão de festas do prédio, com os serviços de bufê contratados a um excelente restaurante, que cuidaria do almoço para as trinta pessoas convidadas. Havia apenas familiares da criança e Valdemar e Sofia, de sorte que se preservava a intimidade.
Norberto havia sugerido que Oliveira viesse fotografar, mas Raul fez questão de trazer um fotógrafo especializado em festas, já que desejava guardar uma recordação perene em retratos profissionais. Veio, então, um daqueles que cobriam as cerimônias na igreja e que eram recomendados pelo padre.
Naquele sábado, Durvalina havia transferido todas as consultas no centro para a parte da tarde, limitando-as a três horas, porque pretendia sair às cinco para acompanhar o marido à sede da federação espírita, onde assistiriam a uma palestra do Doutor José Carlos.
Entretanto, seu planejamento se viu um pouco prejudicado, porque precisou atender a dois amigos especiais: Clotilde e Tomás, ela reclamando de dores nas costas, ele dando mostras de afecção pulmonar. Particularmente, Claudiomiro se mostrava muito preocupado com sua médium principal, insistindo em que Durvalina lhe solicitasse exames clínicos, afirmando que ele arcaria com as despesas, que suas economias era para isso que estava guardando.
Naquela noite, cansados, Norberto e esposa se dirigiram à conferência quase levados por uma obrigação meramente social e de amizade, que o tema doutrinário não estava fazendo nenhuma diferença em sua disposição mental. Mas se reanimaram quando se reuniram a Valdemar e Sofia, Agripino, Aristeu, que logo foi convidado para subir ao palco, Oliveira e mais o conferencista da noite, que lhes veio fazer sala enquanto não começava a sessão.
Assim que José Carlos começou a exposição, Durvalina se sentiu enjoada, arrastando consigo Sofia, ambas indo parar no toalete feminino, os maridos do lado de fora meio aflitos.
Mais tarde, José Carlos brincaria:
— Será que o meu tema revirou as suas tripas?
Mas Durvalina não se apertou:
— Os temas espíritas não reviram tripas, mas que dão nós no cérebro, não tenha dúvida.
E a alegria tomou conta de todos os corações espíritas, como havia dominado os dos católicos.
No etéreo, Etelvino perguntava a Glauco:
— Você concorda comigo que existem plenitudes de felicidade, momentos de completa satisfação espiritual, mesmo quando se está encarnado?
— Concordo, mas devo acrescentar que isso se dá quando as preocupações se restringem a um círculo diminuto de seres humanos, porque, se as pessoas fossem se deixar sensibilizar pelos grandes sofrimentos da humanidade, não teriam um só instante de tranqüilidade.
— Então, meu caro Glauco, concorde de novo comigo que isso só estará definitivamente superado, quando adquirirmos a convicção de que Deus é pai de infinita misericórdia e que não abandonará nenhum de seus filhos jamais.
— Graças a Deus que assim seja, senão a gente teria de carregar o mundo nas costas.
Indaiatuba, de 06.05 a 15.07.99.
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