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Contos-->A família do farol -- 09/09/2003 - 13:59 ( Andre Luis Aquino) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Chovia.
Chovia com em todo lugar chove, só que a chuva daqui é mais triste que todas as outras chuvas de qualquer lugar, aqui a chuva é que é normal e o sol uma novidade.
Moramos numa ilha, na verdade um recife de rochas duras e negras perdido no meio do oceano, bem no centro dessa ilha fica o farol que ilumina as noites de tempestades e orienta os navios que passam por aqui quase que diariamente.
Meu pai é o responsável pelo funcionamento do farol, faz isso desde antes de eu nascer, aliás, eu e minhas duas irmãs nascemos aqui, minha mãe sempre cuidou sozinha de nós três enquanto meu pai sempre manteve o farol acesso continuamente.
Nossa casa fica no alto de uma montanha rochosa da ilha pedregosa, a ilha é quase toda feita de pedras, só sobram duas praias onde a areia é fina e branca e é onde eu e minhas manas passamos a maior parte do tempo.
A ilha tem o nome de Fernão Guimarães, homenagem feita a um navegador português que descobriu a ilha da pior forma possível, naufragando nela e morrendo em suas rochas afiadas, meu nome é Mariana e o seu?
Venta.
Aqui venta com em todo lugar, só que o vento daqui é mais triste que qualquer outro vento, ele parece carregar consigo a solidão, parece soprar em meus ouvidos algumas vozes, eu brinco com as minhas irmãs Marina e Maristela que se a gente falar pro vento alguma coisa ele carrega consigo até chegar em outra pessoa a nossa voz, então mandamos mensagens pro vento levar.
Eu li num livro muitas coisas que eu nunca vi, aprendi sobre lugares que nunca visitei, mamãe é nossa professora e nos ensina as letras e os números, papai fala pouco, mas é um bom pai, faz brinquedos para gente, como uma pipa vermelha e um barquinho azul, houve um natal em que ganhamos bonecas trazidas do continente, mas elas não são tão divertidas quanto os brinquedos que papai faz.
Um dia mamãe nos ensinou a escrever mensagens numa folha de papel, colocar numa garrafa, fechar bem fechado e atirar no mar, podíamos escrever pedidos ou cartas para alguém e assim fizemos muitas vezes.
Hoje completo meus dezoito anos, não sou mais uma menina e quase já sou uma mulher, li romances e coisas belas sobre o amor, sinto uma vontade irresistível de me apaixonar igual aos personagens do livro, como Ceci e Peri, a bela e a fera, Romeu e Julieta, presa nessa ilha jamais conhecerei de verdade o que é o amor.
Por isso toda semana escrevo cartas para alguém e coloco numa garrafa atirada ao mar, escrevo poesias na areia fina e branca da praia que as ondas insistem em apagar, minhas manas ainda não se interessam por amor, só querem brincar com a pipa vermelha e o barco azul.
É setembro.
É setembro como em qualquer lugar, só que setembro aqui é o mês das tempestades bravas, passamos os dias trancadas dentro de casa, assando bolos, costurando roupas e fazendo colchas com retalhos, enquanto papai sempre mantém acesso o farol.
Quando setembro passou, continuei a escrever minhas cartas cada vez mais românticas para alguém quem sabe algum dia ler, mamãe descobriu e me disse que sou uma tola, que amor só vou conhecer quando pisar no continente, agora ela promete que quando eu fizer vinte anos ela me leva pra lá.
Só que não queria mais esperar e fui ficando a cada dia mais apaixonada por alguém que não tinha rosto e nem sequer um corpo, nem mesmo existia senão dentro da minha cabeça e já no meu coração, mas eu o amava como se fosse de verdade.
Era um dia vazio.
Era um dia vazio como todos os outros na ilha ou em qualquer outro lugar, só que os dias vazios aqui são mais vazios, deixam marcas na gente, mágoa, lágrima, tristeza mesmo.
Fui para a praia da areias brancas e finas, só que desta vez fui para a outra praia, a lá de trás da ilha aonde íamos menos porque ela ficava mais longe e era menor, sentei numa pedra cinza e fiquei olhando o mar e as ondas que quebravam desiguais, dessa vez não queria escrever poesia nenhuma na areia, só queria preencher o vazio daquele dia com o meu pensar constante coma as luzes do farol.
Quando estava quase levantando para ir embora meus olhos viram algo boiando próximo a arrebentação das ondas, parecia uma garrafa e fiquei a pensar se era uma das minhas que estava voltando, fiquei a acompanhar até que encalhasse.
De longe percebi que não era uma das minhas nem uma das nossas garrafas, pois as nossas garrafas eram mais finas e longas, eram garrafas de vinho que meu pai gostava de beber, essa outra, era mais “gorda” e bojuda.
Apanhei a garrafa e percebi que tinha algo dentro dela, era uma mensagem!
Não quis contar para ninguém sobre a garrafa e corri para dentro de uma caverna que existia nas encostas de uma enorme e imensa rocha, foi só quebrando a garrafa que consegui ler a mensagem.
Quase desmaiei quando descobri que na verdade aquela mensagem era uma resposta de uma das cartas que escrevi e atirei ao mar numa garrafa, alguém respondia a minha carta, dizia que queria me conhecer e que sempre recolhia as minhas mensagens no continente.
A carta datava de alguns meses atrás, fiquei maravilhada com essa forma de correspondência, sempre escrevi sabendo que talvez jamais alguém leria o que havia escrito.
Tudo isso parecia um sonho e guardei esse segredo dentro de mim, fiquei esperando que algum dia ele viria me buscar e me levar para conhecer o continente, viver um grande amor e morar bem longe daqui.
Os dias passaram e as mensagens nas garrafas iam e vinham, a cada dia eu ficava mais ansiosa e apaixonada pelo meu correspondente, embora soubesse que seria quase impossível encontrá-lo um dia.
Então quando já não acreditava meu amor viria me buscar sentei numa rocha marrom para olhar o mar, o mar que sempre me fascinou é que era uma espécie de Carteiro, o mar que me encerrava naquela ilha, o mar que era imenso e bravio, olhando para o horizonte que se perdia de vista avistei algo navegando lentamente, primeiro era só um ponto quase invisível, mas depois foi aumentando bem devagar.
Pensei comigo mesma que deveria ser mais um navio e logo em seguida percebi que era uma embarcação muito menor que um navio, era um barco que se aproximava da ilha Rochedo.
Um veleiro branco com duas velas alvas e claras e um homem ao leme atracou no pequeno caís da ilha, primeiro pensei ser o navio de suprimentos que sempre chegava de dois em dois meses, mas logo percebi que não se parecia nem um pouco com ele que além do mais não tinha velas.
Era verdade!
Era o meu amado que veio me buscar, corri em direção ao caís e pude ver de longe o seu sorriso, não precisamos mais de palavras para nos abraçar, meu conto de fadas começava a ser realizado de verdade.
Quer um final triste?
Meus pais jamais me deixariam partir com um desconhecido e ele iria embora para o continente me deixando aqui para sempre sem saber o que é o amor de um homem por uma mulher.
Do alto do 59 metros do farol papai podia me ver e não demoraria muito tempo para nos encontrar no caís, de forma alguma entenderia a situação e expulsaria meu amado da ilha, minha mãe me trancaria em casa e cuidaria da minha dor no coração até esquecer o incidente, provavelmente nunca me recuperaria de tal decepção.
Quer um final feliz?
Eu fugi com ele e navegamos pelos sete mares apaixonados um pelo outro, moramos em muitos portos do mundo até um dia criar raízes em um lugar e fundar uma família linda, meus pais entenderam o meu amor e depois de alguns anos abandonaram o farol e voltaram para o continente.


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