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Contos-->IDIOTA BRILHANTE -- 27/09/2003 - 03:07 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
IDIOTA BRILHANTE
Conto


João Ferreira
26 de setembro de 2003


O grupo sentou.
Mostrava-se bem disposto e o Marco já foi começando a contar uma história. Todos puxaram suas cadeiras e, acomodados, prestavam muita atenção.
Em poucos minutos, o garçon colocara na mesa quatro choppes bem gelados. Era um momento agradável para quem acabava de terminar uma trabalhosa tarde de pesquisa na Biblioteca da Universidade.
Achavam todos que era imprescindível esta forma de descontrair. Escolheram o Posto Ecológico porque lá havia sombra e ambiente civilizado, com ares de tranquilidade.
Todos partilhavam da idéia de que quem trabalha deve praticar no final do dia um ritual para aliviar as próprias tensões. É simplesmente uma higiene básica que muitos ainda não descobriram mas que é religiosamente praticada por este grupo de estudantes.
Fazem este encontro três vezes por semana. Sempre, na melhor camaradagem e boa disposição. Buscando um exercício mental de pensamento zero. Uma simulada caminhada para o zen.
Mas não só o Marcos gostava de contar histórias. Estava ali também o Tiba, o Tomaz e o Serelepe. Era um grupo diferenciado que se completava.
O Tomaz servia de termômetro para avaliar a temperatura ambiental do grupo. Sereno, tranquilo, gostava de ouvir. Ele coordenava os trabalhos de grupo na Biblioteca, dava sempre orientações para as monografias e tinha uma liderança natural. Possuía mestrado e uma vida universitária mais avançada.
O Marcos , além de histórias, trazia para a mesa picantes anedotas, que contava com muita graça e galhardia.
O Tiba era um brincalhão assumido. Estava sempre tirando uma casquinha por fora. Fazia de comentarista e de crítico do comportamento dos outros. Adorava brincar e ironizar.
Mas o que dava mais nas vistas era o Serelepe. Caracterizava-se principalmente pela sua vaidade afiada. Era muito ambicioso, e nem sempre era ético e sempre que podia, passava a perna nos demais. Um candidato perfeito a idiota brilhante.
Naquele dia, Serelepe esteve muito atento na aula de História. O Professor levara um amigo seu para dar aula. Para ilustrar a temática escolhida, esse professor colocou um pensamento de António Lobo Antunes, um renomado escritor português, candidato ao Prêmio Nobel e autor de “Exortação aos crocodilos”. Esse pensamento, que Lobo Antunes colocou um dia para um repórter espanhol que o entrevistou era fundamentalmente um alerta social e tinha basicamente estes dizeres: “A sociedade não quer homens inteligentes. Ela quer idiotas brilhantes”. Era um pensamento bem à maneira de Millor Fernandes. Taxativo e axiomático. Que valia uma longa discussão.
Por A mais B, o professor tentou demonstrar o conteúdo possível dessa frase de Lobo Antunes. Inclinava-se a admitir que há na sociedade uma atitude freqüente que leva a sacrificar os homens inteligentes para abrir caminho e promover os idiotas brilhantes.
Os alunos gostaram de ouvir esse passo da entrevista do escritor e continuaram o debate fora, nos corredores. Quem eram, afinal, os idiotas brilhantes, que fazem a vida atual dos condomínios políticos da república brasileira? Era, certamente, uma boa pergunta.
Este pensamento veio pousar fácil na mesa do grupo que bebia cerveja no Posto Ecológico e descontraía suas tensões antes de ir para casa.
Serelepe, que ia mais adiantado no chopp, mostrava-se o mais entusiasmado com o pensamento de Lobo Antunes. Havia nele uma alegria íntima e um olhar malandro como se tivesse encontrado a fórmula de um caminho ideal que procurava na sociedade. Ele assumia diretamente que sua vocação e sua vontade de ser era mais a de um idiota brilhante do que a de um homem inteligente.
Os amigos estavam estranhando esta reação de Serelepe embora não se admirassem tanto assim pois o conheciam como pessoa superficial, aventureiro e inteligente trapaceiro. Mas aproveitaram para marcar um posição inteiramente diferente. O Marcos, o Tomás e o Tiba argumentavam que ele não podia assumir assim logo de entrada o ser idiota brilhante como se isso fosse uma “profissão apetecida”.
O Tomaz ponderava:
-Olha, Serelepe. Nós, os humanos, não podemos simplesmente renunciar ao esforço de sermos gente honesta e ética. O caminho seguro para chegarmos lá é o de sermos homens inteligentes. É certo que ao fim de uma luta prolongada, há os resultados. Que nem sempre são animadores. Mas repara. Na nossa idade, a coisa mais excitante e ideal é nos convencermos sermos candidatos a homens sérios de tal maneira que possamos levantar esta sociedade, dar-lhe ambições, idealizá-la, dar-lhe condições superiores de ela própria superar seus conflitos e as contradições em que se debate.
-Tem mais, disse Marcos. Como frequentadores de um curso superior, nossa inteligência não nos permite simplesmente aceitar imposições de hábitos sociais depravados ou corrompidos. Ao contrário, nosso indicativo é o de abraçarmos um programa novo que tente reerguer a sociedade brasileira.
-Acredito plenamente que sejam os homens inteligentes que podem oferecer ao Brasil novas estratégias de desenvolvimento, de seriedade ética, de construção social e humana. Parece um caminho indiscutível.
-Tudo bem, Tomaz, respondeu Serelepe.Mas vamos supor que vocês estejam cheios de razão. O que eu sei é que na sociedade em que eu vivo, todo o mundo tenta passar o outro para trás, todos querem se aproveitar. E eu não vou ficar aí feito bobo, feito otário, sem tirar meu proveito.
-Errado, meu amigo. Não se pode escolher o erro como escola de comportamento. Pelo menos para quem se acha um operário de construção nacional.É agora, respondeu Tomaz, que os estudos superiores nos dão uma visão clara do ideal das sociedades. Nossa vista ainda está limpa. É agora ou nunca.
Para não engrossarmos a turma dos idiotas brilhantes, questionamos isto. Eu acredito que o Lobo Antunes tinha razão. No fim de contas, a sociedade representada pelo que ela tem de mais baixo aplaude e promove os idiotas brilhantes. Aqueles que sabem fingir, aqueles que pensam uma coisa e dizem outra, os traidores, os aproveitadores, os corruptos. Sim, esses são os grandes candidatos a idiotas brilhantes. Os políticos mentirosos e corruptos têm a habilidade de dizerem meias verdades, de fingirem e conquistarem o poder através do disfarce. Mas há ainda possibilidade de levarmos nesta guerra da inteligência sincera contra a inteligência corrupta uma grande vitória sobre o idiota brilhante.
A névoa seca atacara, de vez, neste clima cáustico do Planalto Central. Os índices de umidade do ar estão desesperadamente baixos na cidade.
Sob a abóbada deste céu de chumbo, um grupo de jovens tenta dissuadir Serelepe para que não se torne automaticamente um idiota brilhante...
João Ferreira
26 de setembro de 2003
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