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Contos-->NAS TERRAS DA BODELÂNDIA -- 25/10/2003 - 20:42 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

NAS TERRAS DA BODELÂNDIA

João Ferreira
25 de outubro de 2003


Esta narrativa se baseia na reportagem feita por um ciberjornalista da Folha do Sudeste de Maricá, que faz cobertura periódica de viagens turísticas internacionais.
Para o leitor acompanhar bem a narrativa, poderá imaginar que está numa praça de um país do Oriente, praça bem estranha. No ambiente de uma comunidade promíscua, onde há todo o gênero de pessoas estendidas na calçada, pessoas dormindo ao relento, relembrando famosos e tristes espetáculos como em Mombai, na velha Índia. Uma praça destacada pela enorme mistura de personalidades e estilos de vida no meio de um descarado sistema de castas.
Foi o xadrez de uma praça deste tipo que proporcionou a interessante reportagem que deu base à narrativa desta história.
No coração da praça, havia, como nas cidades antigas ocidentais, um fontenário público. Era fácil encontrar lindas moças de vistosos brincos pingentes carregando argilosas jarras na cabeça. No canto da praça, as tendas e as mercadorias que atraíam visitantes. Azáfama intensa e vozeario acusando multidão em dias de festa.
Debaixo da Arcada, chamavam a atenção os filhos de Tragos. Este era o nome por que atendiam os membros do teatrinho local. Haviam montado uma tenda para mostrarem suas habilidades e tinham ganho muita evidência com os últimos espetáculos que produziram no pavilhão da Bodelândia.
Era fácil distingui-los. Como se fossem atores declarados, portavam túnica própria, colorida, cabeça raspada e língua solta, uau-au-au, uau-au-au!
A tenda deles situava-se num cantinho demarcado a cor, e agiam como atores num teatro que desejavam se tornasse popular através de um ibope que os notabilizasse pela fama e por seus méritos. Mas aconteceu um pouco o que não esperavam.
Tornaram-se descarados e agressivos, e foram se sentindo senhores do pedaço. Em vez de um diálogo generalizado com a população e de um bom relacionamento na praça, foram se julgando os melhores e os únicos. Mantinham um cochicho entre eles. Falavam algum idioma estranho tipo hindi, que os separava do resto da platéia. E o isolamento se tornou feroz.
No começo, quando descia o sol no horizonte, estendiam seus tapetes no chão, acendiam suas luminárias, punham uma música meio estridente e em altos anúncios de microfone tomavam conta da praça.
Aos poucos, grande parte da população foi achando isso um atrevimento e um desperdício e passou a se mostrar indiferente ao pregão. O ambiente mudou. Era como se estivessem em Mombai. As ruas tornaram-se aquela promiscuidade onde nem hindus nem muçulmanos passaram a ter direito a voz. Tomaram conta pela invasão e pelo barulho.
No fundo eram uma gentinha sem expressão, embora eles se achassem exatamente o contrário. Ultimamente estavam armando confusão pelas brigas e pela linguagem pesada mais própria de carroceiros do que de gente de teatro. E o povinho que sempre gostou de uma fofoca tinha hora em que parava perto da tenda para avaliar o teor das conversas e a discussão.
Os filhos de Tragos tinham todos os indícios de gente soberba e pretensiosa. Alguns deles tinham se esquecido no pedaço de alguns ensinamentos básicos de vida lembrados por Salomão no livro da Sabedoria. Eles se comportavam mais como os escribas e fariseus no tempo de Jesus do que como gentios, hindus ou muçulmanos. A sua postura fanática afastava os freqüentadores da praça. E como acontecia com tantas igrejinhas espalhadas pelo mundo, também eles rejeitavam acordo ecumênico de convivência preferindo o status de uma guerra insensata.
O pedaço precisava de paz e, se possível, precisava até da colaboração de seus próprios fanáticos. Mas o que resolveria ali era uma luz sobrenatural, vinda do céu, a única forma de se auto-legitimarem perante o povo. Mas essa luz não havia descido sobre eles. Como se apresentavam eram apenas a expressão do tradicional “soi-disant”. Vaidosos charlatães! E isso não convencia o povo da praça. Em seu estatuto social, não tinham status de agremiação legal nem de religião. Este era o ponto fraco dos Tragos. A doutrina que externavam era pífia e os evangelizadores mostravam-se muito profanos e superficiais. Os grandes pagodes e templos da Antiguidade clássica ocidental e oriental, uniam a tradição da mensagem à atuação dos ministros. Aqui, não. Os filhos de Tragos não tinham uma mensagem popular capaz de mobilizar os corações. Eram muito arrogantes e decadentes. Muito impopulares! Uau-au, uau, au-au!...
Ora, por isso mesmo, dizia-se na praça que uma religião sem doutrina nobre, sem humildade e sem moral, tende ao fracasso.Parecia pertinente essa crítica do povo.
A tenda de Tragos, que representava a Bodelândia da praça, agia com representantes do baixo clero, perfeitos símbolos da decadência. Ignorantes por um lado, e pífios por outro, nada garantiam ao grupo que agora se organizava e se sentia orgulhosamente só como seita de iluminados.
Analisada de fora, a seita mostrava que o culto mais saliente era o que se exibia em torno do próprio umbigo. Eram literalmente umbigais estes senhores e estas senhoras. Esta era a mensagem mais evidente que passavam para os freqüentadores da praça. E era talvez por isso que o templo que mantinham na arcada da praça sempre estava vazio. Os últimos acontecimentos mostraram ao público figuras grosseiras e boçais nos termos em que expressavam sua presença na praça. Chegaram a ser eleitos pelo Ibest o pior grupo entre as castas que giravam em torno do Teatro da Bodelândia.
Na opinião do repórter que fez a cobertura dos fatos que esta crônica está relatando, faltava a essas figuras a elegância, a firmeza e a moral da cavalaria antiga, de mouros e cristãos, ainda rememorada nas cavalhadas brasileiras em praças gloriosas de cidades tradicionais com seus famosos cordões vermelhos e azuis como distintivo de honra e glória.
A Bodelândia era agora um local comum, bastante banal e por vezes até boçal.
Faltava ali, na decorrência do quotidiano da vila, um Buda ou um Sócrates e uma roda de humildes e interessados discípulos dispostos a aprender a debater e a se enriquecerem com outros conhecimentos. Um Platão, um Cristo, um Maomé, um Zaratustra ou um outro luminar da história do homem na terra... Havia necessidade de gente que desse outro tom à praça. Que pudesse marcar história além da presença insignificante dos filhos de Tragos.
Importava sumamente para esta comunidade uma doutrina e uma moral. Uma doutrina social, séria, e que servisse a gregos e a troianos. Uma doutrina e uma moral social abrangente capaz de orientar adolescentes e crianças e com capacidade para criar espaços para adultos.
Haviam-se esquecido dolorosamente na praça os princípios modernos da Revolução Francesa: a igualdade, a liberdade e a fraternidade. Mais do que isso: tinham-se apagado na mente dos filhos de Tragos alguns princípios pacifistas de Mahatma Gandhi, esse grande espírito da Humanidade, assassinado por ter querido encontrar uma fórmula de convivência entre hindus e muçulmanos.
O pessoal de Tragos estava longe das grandes emoções de solidariedade social do mundo. Não sabia nem comentava o sacrifício das crianças nos bombardeamentos das cidades na guerra do Iraque. Não conhecia o código da moral social nem do respeito pelos valores no Brasil. Era por isso que as crianças passavam pela praça e quando se aproximavam da tenda da Arcada, corriam acusando o cheiro estranho e o bodum que exalava daquele antro.
Uau-au-au!Uau-au-au!!!
Não demoravam sequer um pouco e aceleravam o passo, rindo e correndo diretamente para o Tabogã do clube ao lado, alegres e felizes.
Era assim o comportamento dos filhos de Tragos naquela praça. O público os marcara. Só eles não viam o que toda a gente via.
Dominados por uma vaidade e por um ódio visceral, passavam ao lado das preocupações do mundo. Eram tão alienados do que se passava na praça e nas grandes artérias da cidade e do país que nem sabiam que o mundo civilizado estava dividido e sendo julgado pelos índices do IDH.
A tendência era que estes umbigais, inteiramente dominados pelo narcisismo dos umbigos, tivessem um dia um toque de auto-crítica e se enxergassem pra valer.
-Como sempre acontece, esses bodelunas ficarão isolados e um dia definharão, disse Friedrich.
Nos primeiros dias, quando o carro de som passava pela praça, lembrou ainda Friedrich, os raros ouvintes se interessavam. Paravam para ouvir. Agora, não mais.
Para eles, esse negócio da Bodelândia é puro teatro. Teatro só de fingimento. As pessoas são esquisitas. Sua linguagem é esquisita. Grosseira. Linguagem que saturou a praça.
No momento, já ninguém pára sequer para ver o que está acontecendo lá na tenda.

João Ferreira
25 de outubro de 2003


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