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Erótico-->6. O DIA SEGUINTE -- 28/06/2003 - 09:41 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Como sempre, acordei bem cedo, mas com o sono atrasado, porque a noitada havia sido muito longa. É verdade que Ana quis conversar comigo quando chegamos, mas não agüentei o tranco e fui logo para a cama. Passava da meia-noite e o vinho estava me deixando com as sensações embotadas.

De manhã, Ana ficou dormindo e eu saí sem ruído, para não acordar os meninos.

No trânsito, que caminhava devagar, fui rememorando a noite, pondo em especial relevo o fato de haver prometido freqüentar as aulas sobre mediunidade. Arrependia-me já, porque não via nenhum proveito naquilo.

“Como foi que me empolguei com algo que nunca me passou pela cabeça? Acho que foi a tontura que me aborreceu durante toda a palestra. Mas, depois que saí, estava com tudo no lugar... No entanto, Ana não reclamou da minha decisão. Até parece que falei o que ela queria que eu falasse. Será que nos comunicamos por telepatia?”

Nessa altura, passava pelo “outdoor” da moça do sorvete mas, decepção, estava lá um caubói, com um maço de cigarros na mão, a acenar com o vício para os passantes. Em lugar de censurar a desconsideração pela saúde do povo e a ganância dos ricos empresários do fumo, me ative a aborrecer-me com a falta que me fez o quadro anterior.

“Sim, senhor, ‘Seu’ Cláudio! Muito bonito! Passava por aqui e botava a boca no mundo contra a pouca vergonha da mulher pelada. Hipócrita! Você nunca deixou de dar uma boa olhada na garota e em seus dotes pronunciados. Vai ter de contar tudo ao padre.”

O derradeiro pensamento deixou-me perplexo e foi ainda assim que cheguei ao depósito, para enfrentar o meu dia de trabalho. Foi quando acordei de vez para a realidade, considerando que a filosofia tem garras e que a religiosidade apresenta presas sempre prontas para despedaçar os incautos.

Mas os temas do Espiritismo iriam ocupar-me por mais algum tempo, porque, nem bem me acomodei no escritório, surgiu o Raimundo, muito sorridente:

— Com licença, patrãozinho?!...

— Bom-dia, Raimundo! Vá entrando!

— Bom-dia!

— Que o traz tão cedo?

— Ora, o senhor não me viu no centro, ontem?

— Juro que não. Onde é que você se escondeu?

— Claro que o senhor não ia me ver. Eu estava na sala de passes. O senhor se sentou na fileira da frente e eu estava logo atrás. Na escuridão, o negro não sobressai, não é mesmo?

— Desculpe, se fiquei sem notá-lo.

— Quando eu saí, conversei com o irmão Rodolfo, que me contou que hoje o senhor e a Dona Ana vão voltar.

— Não sei se vou conseguir. Afinal de contas, ontem não me senti muito bem. Aliás, eu queria saber de você se é natural que as pessoas sintam um certo mal-estar, uma tontura, enquanto estão ouvindo o orador.

— Eu não sei, não, mas acho que é possível que o senhor tenha dado passividade, sem saber, e que algum espírito tenha aproveitado pra desviar sua atenção.

— Será? Então, é melhor eu não ir mais lá.

— Ao contrário. Se for isso, é que o senhor tem de desenvolver sua mediunidade. Acho que a escolha da quarta-feira foi uma luz que o seu protetor acendeu pra sua vontade de conhecer.

— Diga outra coisa: até pouco tempo, eu nem sabia que existia essa seita ou religião. Agora, de uma hora pra outra, tudo está acontecendo. Você acha que existe uma hora certa pra gente se preocupar com esses fatos da vida após a morte?

— Eu acho que o senhor deve guardar as suas perguntas pra hoje à noite. Se eu digo isto ou aquilo, posso estar errado. É melhor perguntar a quem sabe.

— Mas você não disse que trabalha na saleta dos passes?

— É verdade. Eu pertenço à ala dos passistas do “Coração Amoroso de Jesus”, como a gente costuma brincar. Sendo assim, eu não posso me bandear pra nenhum carro alegórico, como destaque, nem vou desfilar na comissão de frente.

— Entendi. Você fica entre os silenciosos. Se fosse pra fazer barulho, estava tocando na bateria ou puxando o samba-enredo.

A alegria tomou conta de nossos corações e eu poderia ter-me dedicado ao trabalho, sem nenhuma preocupação com a hora do estudo, se não fosse o Raul aparecer, antes das oito, para me entregar um volume de “O Livro dos Médiuns”, com a recomendação:

— Não é para você ler. Se quiser dar umas folheadas, dê, mas é só para ir inteirando-se dos temas, segundo o índice. Agora, preciso sair correndo, que, sem mim, a imobiliária não anda.

Não era verdade. Os vendedores que ele havia selecionado eram excelentes. Imaginei que não quisesse voltar aos assuntos da noite, para não me cansar.

Assim que Raul saiu, dei uma olhada rápida no livro e deixei-o guardado junto à capanga dos documentos. Mas o que Raimundo tinha falado estava fermentando no cérebro.

“Será que os espíritos têm tanta força assim? Se a gente não quer que eles se aproximem, eles tomam lugar à revelia? Aristides é que previne os fiéis contra os demônios. Do jeito que Raimundo falou, é exatamente a mesma coisa. Bem analisando, não percebi nenhuma influência negativa na minha vontade de escutar. Estava interessado noutras coisas.; isso, sim. O tal de Rodolfo, que Raul elogiou tanto, não foi tão enérgico em chamar a atenção do público. Acho que Ana teve razão em dizer que eu estava com fome e cansado. Contudo, a verdade é que perdi boa parte do discurso, do monótono e pausado falatório, lengalenga que só pode despertar quem esteja inteirado dos assuntos. Bem que ouvi alguém naquela fila dizer que as pessoas vão ao centro pra sessão de passes, aproveitando pra repousar um pouco, enquanto alguém fica expondo o assunto da noite. Também, eu não posso julgar os outros por mim mesmo. Se não prestei atenção no que disse o expositor, como é que ia ver o que estava ocorrendo na mente de tantas pessoas presentes?”

Cansado fiquei naquela hora, que as idéias não progrediam e eu não conseguia definir um foco valioso para concluir algo de positivo. Sendo assim, resumi com uma frase de efeito e fui ver o que acontecia no interior do depósito, fugindo de ficar pensando inutilmente sobre coisas que desconhecia:

“O futuro a Deus pertence!”

Contrariando o costume, liguei para casa e avisei que ia almoçar. Normalmente, comia num restaurante macrobiótico, com a intenção de impedir o crescimento do peso na balança do desconforto físico. Ainda jogava bola com certo desembaraço, mas precisava cuidar da dieta, porque, dois anos antes, engordara mais de cinco quilos. Como foi muito difícil perdê-los, julguei que a melhor política era manter-me em forma, indo três vezes por semana à academia, justamente no horário do almoço. Matava dois coelhos com uma paulada, porque também não me empanturrava. Dentre todas as decisões que tomei depois de completar vinte e cinco anos, essa foi das mais sábias. Ainda hoje me congratulo comigo mesmo e me orgulho de haver dado a receita aos meus irmãos, mais uma razão para convivermos, porque...

Ia por aí nas reflexões que enfeixei acima de forma compreensível, quando me ocorreu que o meu galeto tinha sido bem mais saudável que a “pizza” dos outros. Até o filé do Luís tinha sido uma ótima escolha. Aí derivei os pensamentos para os físicos das mulheres e, com desagrado, percebi que Ana era a mais rechonchuda das três. Ao comparar com as duas arquitetas, então, ela perdia de dez a zero.

Liguei de novo para casa e recomendei o cardápio:

— Querida, pra mim, prepare só uma salada de folhas verdes e um suco de cenoura. Deixe que o tempero eu faço na hora, com limão e algumas gotas de azeite.

— Se for pra comer só isso, o restaurante da esquina também prepara. Que é que você está planejando? Será que tem a ver com o centro de hoje à noite?

— Matou a charada. Temos de conversar um pouco a respeito.

Desligamos e, de novo, achei que estava sendo precipitado. Não sabia o que iria dizer a ela, mas precisava olhá-la no fundo dos olhos, para saber se estava verdadeiramente a fim de ir.

Antes do almoço, ainda tive a coragem de ligar para o Luís:

— Você está sabendo que nós decidimos ir ao centro esta noite? É claro que Maria deve ter falado a respeito.

— Ela falou hoje cedo. Estou pensando seriamente em ir. Como é que vou derrubar o adversário, se não agarrar “ele” pela gola?

— Ótimo, era desse tipo de reação que eu estava precisando. O Raul é todo elogios. A Ana só pensa em tirar proveito das teorias. Odete é a marreta a cair sobre o pobre preguinho...

— Que é você, claro!

— Mas acontece que a madeira é dura e seca e eu posso fender a cabeça e entortar-me todo.

— Pendores de poeta.

— Que nada: preocupações de quem está com medo de perder a liberdade da igreja. Lá, o padre oficia, prega o evangelho, escuta as confissões, batiza, casa, dá a extrema-unção e a gente fica rezando um pouco menos, um pouco mais, dependendo das penitências. Agora, no centro, quando a gente nem se dispôs a dizer que aceita, que acredita, que vai seguir em frente, sem que tenha rezado ainda o “Credo na Santa Madre Doutrina Espírita”, lá vem um grosso volume de mais de quatrocentas páginas pra estudar.

— Eu quero, Claudinho, que você não se esqueça de que eu nem abri a boca.

— Sabe o que estava escrito num quadro de avisos, junto à porta de entrada do salão? Estava escrito, com letras bem grandes: “Estudar Kardec para viver Jesus”. Sabe que mais? Ouvi dizer que a gente tem de estudar os Evangelhos em casa, o que eles chamam de “Evangelho no Lar”, com toda a família, pelo menos uma vez por semana. Isto está ficando muito comprido.

Não sei se por causa de que os meus receios tendiam a se alastrar, a verdade é que Luís deu uma desculpa, disse que ia direto com Maria e desligou.

Eu fiquei a imaginar de onde tinham surgido tantas idéias contrárias à simples deliberação de ir uma noite a mais ao centro, sem compromisso e sem sentimento de culpa.

Em casa, Ana ouviu tudo, porque repeti tintim por tintim, agora ainda mais empenhado, com os raciocínios mais bem fundamentados e com os sentimentos mais à flor da pele.

— Você tem de tomar cuidado pra não exagerar — ponderou ela. — Se a gente achar que não é o que estamos querendo, voltamos depressa pros braços abertos de Jesus, que, no Catolicismo, as imagens nos dão a impressão de que estamos sendo agasalhados pelos santos e pelo Pai.

Para não dar demonstração de fraqueza, passei a contar as conversas com Raimundo, com Raul e com Luís e deixei o livro que tinha ganho com ela. Ana, todavia, não se estendeu em considerações outras, limitando-se a ouvir-me.

O turno da tarde foi mais rápido, porque tive de contornar alguns problemas com os fornecedores.

Às sete e meia, Ana e eu estávamos sendo recebidos por Rodolfo, que fez questão de nos encaminhar para a entrevista da triagem.

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