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Contos-->A VELHA SENHORA. -- 25/01/2004 - 10:12 (Maria Hilda de J. Alão) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
A VELHA SENHORA.



Maria Hilda de J. Alão.


Recolheu o friorento pássaro pousado no beiral da janela. A forte chuva molhou suas penas, impossibilitando-o de voar. Levou-o para dentro. Foi sentar-se na tosca cadeira da área. Enrolou a ave num pano para secar-lhe as penas. Feito isso, colocou o pássaro na palma da mão com um punhado de alpiste que ele começou a comer avidamente.
Olhando a voracidade da ave, seu pensamento retornou ao passado, quando na velha Europa ela também fora um pássaro friorento e faminto. Começou a conversar com a ave, contando-lhe os dias e os anos de sofrimento e de muita tristeza.
Falou da casa espaçosa, onde morava, dos móveis no estilo renascença, do artístico jardim com gatos e cavalos esculpidos com plantas pelo velho jardineiro. De como ela corria entre os verdes animais para escolher um, o que mais gostasse, sob o olhar da mãe que, da janela, observava os seus movimentos. Muitas vezes a mãe gritava: - Menina, está na hora do chá! Feliz, corria para comer os biscoitos feitos especialmente para ela. Tinha sempre biscoitos no bolso do avental, bordado com flores coloridas, para dar aos pássaros que povoavam o jardim. Esmagava os biscoitos na mão e ia espalhando na grama só para ver o bando devorar tudo em questão de segundos. Era feliz.
Um dia ouviu, ao longe, um forte estrondo. Perguntou à mãe que barulho era aquele e ela lhe disse que era a guerra. Ficou imaginando o quê seria guerra. Seria um folguedo novo? Só mais tarde descobriu quando homens estranhos invadiram a casa, levando o pai e a mãe. Ela, tremendo de medo, escondera-se no armário da cozinha, onde ficou até ter certeza que não havia ninguém na casa. Então, sentou-se no degrau da escada e chorou. Chorou muito. O velho jardineiro sabendo do acontecido foi até a casa. Quando ela o avistou, correu para ele em desespero. Ele a acolheu. Levou-a para sua casa pobre.
Os anos foram passando. Ela cresceu. O velho jardineiro morreu num dos bombardeios e ela ficou totalmente só. Nas noites de inverno dormia em montes de lixo para se aquecer com papéis velhos e trapos. De dia caminhava desnorteada em busca de alimento. Comia tudo que encontrasse. Disputava com os cães. E a guerra continuava. Seu país estava arrasado. Dos pais, nunca mais ouvira falar.
Vagou entre os escombros. Encontrou outras crianças e todos juntos formaram um bando que saqueava os mortos depois das escaramuças.
Já estava mocinha quando foi parar numa cidade grande e lá, conheceu aquele que seria seu grande amor. Vagaram juntos. Amaram-se e desse amor nasceu o primeiro fruto. Mas os amores, nascidos sob a égide da guerra, têm sempre um final dramático. Um dia seu amor saiu para conseguir leite para o menino e não mais voltou. Ela o procurou por toda parte, não o encontrou. Mais tarde soube que fora preso e enviando para um campo de concentração. Sofreu como nunca. Pensou em morrer junto com o filho, mas lembrou-se dos ensinamentos da mãe que sempre dizia: - “A vida é o maior tesouro que Deus oferta ao ser humano”. E ela tinha lutado tanto para conservar a sua, por que extingui-la agora? E o menino? Que culpa lhe cabia pelos acontecimentos? Nenhuma! Orou silenciosamente e adormeceu ao lado do pequeno. Sonhou. Sonhou que a população, eufórica, gritava:
- A guerra acabou! – Sentiu um alívio. Agora precisava encontrar os pais. Saiu com esse propósito pelo país afora, até que um dia, por força da sorte, foi parar numa plantação maçã. Perguntou, disse os nomes dos pais. Ninguém os conhecia. Ali, naquela plantação, ninguém tinha nome ou origem. Todos tinham o primeiro nome que lhes vinha à cabeça quando da entrada no campo. Cabisbaixa, partiu para outro povoado. Chegou a uma plantação de castanhas. Dessa vez não perguntou, limitou-se a andar entre as pessoas olhando os rostos. Foi aí que ela reparou num velho que carpia entre as árvores. Aproximou-se. O homem parecia não vê-la e por uns bons minutos continuou seu lento trabalho, até que ela lhe tocou no ombro. Ficou surpresa e penalizada ao mesmo tempo. Era seu pai. Do homem nobre de porte elegante, sobrara aquela criatura esquelética e curvada. Falou com ele. Não a reconheceu. Começou a cantar uma canção infantil, baixinho, olhando fixamente para o homem. O velho parou de carpir e tremendo disse: - É a minha menina!
Abraçaram-se chorando muito. A mãe, Deus a tinha levado, disse ele, pois ela não suportara, não o campo de concentração, mas a dor de perder a filha. Acordou chorando copiosamente. Abraçou o pequeno filho procurando conforto no seu sorriso inocente. O conflito terminou e ela nunca encontrou os pais.
A velha senhora parou de falar. Olhos fixos no espaço, a mão direita acariciando na esquerda a ave que pôs seu passado na palma da sua mão.

24/01/04.
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