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Erótico-->AS AVENTURAS DO PADRE DEODORO EM CAMPOS ETÉREOS — XXI -- 06/08/2003 - 08:10 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Deodoro estava vivamente interessado:

— Recordo-me das informações passadas mediunicamente a Kardec, segundo as quais os espíritos assumem as feições que melhor correspondem à idéia que deles fazem os amigos. Muitos podem aparentar imagens terríveis, para repugnância, em defesa contra os inimigos perniciosos. Acredito que a degenerescência do perispírito não ultrapasse os limites da real contextura moral dos indivíduos, ou seja, deduzindo da idéia anterior de que os acréscimos são sempre positivos no sentido das qualidades e virtudes, o que ocorrer a cada um de nós apenas refletirá o nível evolutivo alcançado.

— O que significa, intrometeu-se Joaquim, que a idéia das penas eternas foi um exagero de interpretação das palavras de Jesus, o qual falava a linguagem que os contemporâneos entendiam. Daqui a tremenda pregação: “Infelizes de vocês, escribas e fariseus hipócritas.” “Serpentes! Raça de víboras! Como conseguirão escapar da condenação do inferno?” Não foram essas as expressões do Cristo, segundo São Mateus, capítulo 23, versículos, 27 e 33? E, no entanto, são bem conhecidas as passagens em que perdoa os pecadores e cura os doentes, com o coação pesaroso perante tantos sofrimentos. Penso que estamos num exagero de reflexões cediças, dando voltas, hesitando em reconhecer, definitivamente, que devemos pleitear do Senhor o entendimento existencial em continuidade desde a criação, para a glória final, quando, ao adentrarmos o Paraíso, já não diremos, como sugeriu Deodoro: “Eu sou um ser perfeito” ou “Eu não sou mais aquele”, uma vez que não teremos nenhuma importância enquanto indivíduos. Imersos na graça de Deus, o gozo da felicidade haverá de transcender todos os valores que atribuímos atualmente à nossa personalidade. Amar a Deus sobre todas as coisas inclui, necessariamente, o esquecimento de todas as coisas, ou seja, também de nós mesmos, porque a plenitude não estará em nossa alma mas na aura absoluta do Criador. Peço perdão, humildemente, pela fragilidade das palavras, incapazes de ilustrar o poder dos pensamentos.

Roberto queria deslustrar o tom doutoral do colega e interferiu, contrapondo uma citação diretamente extraída de “O Livro dos Espíritos”:

— Cuidado, amigo, que essas suas preocupações foram objeto de uma pergunta de Kardec respondida pelos orientadores espirituais. Eis a pergunta de número 83: “Têm os Espíritos um fim? A gente compreende que o princípio donde emanam seja eterno, mas o que nós perguntamos é se sua individualidade tem um término e se, em um tempo determinado, mais ou menos longo, o elemento de que são formados não se espalha e não retorna à massa, como sucede em relação aos corpos materiais. É difícil compreender que uma coisa que começou não finde.” Eis a respectiva resposta: “Existem muitas coisas que vocês não compreendem, porque sua inteligência é limitada, e isso não constitui uma razão para as repelirem. O filho não compreende tudo o que compreende seu pai, nem o ignorante, tudo o que compreende o sábio. Nós lhe afirmamos que a existência dos Espíritos não finda em absoluto.; eis tudo o que podemos dizer agora.”

— Se me permitem, Senhores, interferiu, risonho, Deodoro, dando certa ênfase tonal com declarado vezo irônico ao tratamento cerimonioso, devo fazer o papel de professor de lógica, na interpretação do texto que acaba de citar o amigo Roberto. É evidente que o maior engloba o menor e o menor não pode açambarcar o maior. Claro! Se Deus é a perfeição — e outra coisa não poderia ser — a criatura, apesar de possuir centelhas dessa perfeição, não está apta a competir com a suprema inteligência. (Abrindo um parêntese, preciso encarecer o fato de que Deus não é a suprema inteligência do Universo, porque este também foi criado. Deus é a suprema inteligência existencial. Fecho parêntese, bem rápido.) Então, quem veio declarar que não pode dizer, na expressão dele, “por enquanto”, nada além de que “a existência dos espíritos não tem fim”, pode ter chegado a tal conclusão por inferência filosófica ou religiosa, porque, se houvesse chegado bem próximo da Divindade, não teria como voltar para perto de seres tão ínfimos quanto nós. Sei que vão dizer que Jesus o fez. Se considerarmos Jesus a segunda pessoa da Santíssima Trindade, não podemos levantar hipóteses a respeito de sua divina deliberação. Cumpra-se a vontade do Pai, que é assim mesmo que ele nos ensinou a orar. Se o considerarmos um espírito da mais alta categoria, ainda assim estaria entre aqueles que não imergiram no reino de Deus. Não é verdade que ele prometeu diversas vezes que iria encontrar-se com os discípulos e os apóstolos (e até com o bom ladrão da cruz) no Reino de Deus? Ora, se tivermos em conta que a explicação não foi nem poderia ter sido comprovada, porque os que se integrassem no Paraíso de lá não mais sairiam, por força, pelo menos, da idéia que consagramos de que ninguém retrograda, ou seja, não volta atrás nos passos evolutivos, então havemos de respeitar a expressão por enquanto, atribuindo-lhe o sentido lógico e pragmático dado pelo Messias quando afirmava que o tempo não era chegado de fornecer aos homens todos os conhecimentos. Adão se viu impedido de saber e, quando intentou, foi expulso do Paraíso Terrestre. Era tão ignorante, coitado, que nem sabia os nomes das coisas e dos animais, que precisou batizar um a um, na sábia imagem do Gênesis. Mas os homens continuam dentro da mesma natureza corpórea, e, portanto, espiritual, dos primórdios, ainda que aceitemos as teses de Darwin, porque estas não ultrapassam os limites materialistas. Por conseguinte, embora mais adiantados no aspecto da apreensão da realidade e mais desenvoltos intelectualmente, longe estão de assimilar os conceitos absolutos inerentes aos conhecimentos do supremo apogeu espiritual. Se os espíritos vão um pouco adiante, como nós mesmos, que estamos despojando-nos de alguns preconceitos canônicos, também se encontram mui distantes daquela eterna bem-aventurança. Então, não poderiam dizer nada definitivo neste campo das conjecturas paradisíacas. Acredito que tenha comprovado que, ao dizerem, “por enquanto”, não tenham feito referência apenas aos leitores de “O Livro dos Espíritos”, mas também a si mesmos. E não seria outra a afirmativa em relação à permanência da individualidade e da caracterização de cada sujeito que avança naquela estrada a caminho da perfeição: “Logo, sejam vocês perfeitos, como seu Pai celeste é perfeito.” São Mateus, capítulo V, versículo 48. Porque eles, como nós, estavam íntegros dentro de suas personalidades, embora muito mais voltados para o próximo. Em suma, não acredito que tivessem autoridade para responder à observação filosófica de Kardec, segundo o objetivo maior de tornar os humanos mais compenetrados dos deveres evangélicos, como sugeri, do que em incensar a própria figura, o que se constitui em evidente fluxo egoístico. Um passo de cada vez, segundo o comprimento das pernas, eis o ponto. Para encerrar, vamos supor que aceitássemos expor estes pensamentos aos encarnados. Nós passaríamos a eles a idéia de que somos donos de alta sabedoria e domínio da realidade essencial dos seres perfeitos? Ou preferiríamos demonstrar que estamos interessados em produzir somente um texto de orientação, de estímulo e de excitamento, para que se dediquem às reflexões teológicas?

Calou-se, admirado por tão longo discurso.

Acho que tenho tido a ajuda de Eufrásio, porque me parece que reproduzo exatamente aqueles conceitos que tentou ministrar-me, assim que acordei no hospital. Ou será que a minha inteligência está adaptando-se à nova realidade?

A pergunta incentivou-o a formular uma questão ao grupo:

— Companheiros, à vista de nossas colocações mais ou menos paradigmáticas relativas à nova condição existencial, na hipótese de termos de volver à vida terrena, ou seja, de reencarnarmos, tendo possibilidade de escolha, iremos pleitear dos protetores que nos favoreçam outra realização na qualidade de sacerdotes?

A pergunta pegou a turma de surpresa. Não haviam pensado a respeito.

Foi Joaquim quem interpelou o professor:

— Se estou bem compreendendo onde você quer levar-nos, devo esperar que cada qual conclua que não deseja mais continuar no papel de representante do Cristo na Terra. Suspeito, por exemplo, que Roberto queira exercer algum papel significativo dentro do que ele chama de seara espírita, quer como médium, quer como doutrinador das sessões de desobsessão. Eu mesmo não me sentiria bem pregando de novo a impossibilidade do contato com os mortos, ameaçando com a destituição dos direitos aos sacramentos, chamando sobre os infiéis as chamas dos infernos. Quanto a você mesmo, filósofo e amigo, acho que se sentiria muito bem como simples operário, pai de família, esposo amorável, sangue do sangue dos populares, para esquecer que uma vez esteve a gozar as delícias do trabalho alheio, apesar de não ter passado um só dia da pregressa existência carnal em claro desfrute dos bens materiais, preocupado que sempre esteve com os sermões, com as aulas, com os relatórios, com a redação dos textos a serem divulgados pelos superiores.

Deodoro, curiosamente, não se espantava com a precisão do relato a respeito de sua vida. Por isso, completou:

— Mas eu não deixei de comer e de beber do bom e do melhor, nem de escolher muito bem aquelas com quem me houve, nem de dormir em leitos macios, na segurança das construções comunitárias mais sólidas, nem de recorrer ao auxílio das melhores cabeças para as produções intelectuais. Mas você tem razão em imaginar que eu possa requerer uma vida mais obscura, principalmente porque, ao examinar o insucesso doutrinal da pregação religiosa, estabeleço um prisma mais sentimental, mais emotivo. Não é verdade que, dentre todos aqui reunidos, sou o que menos vibrações emito no sentido da evidenciação dos dramas da alma? Não é verdade que tudo quanto denuncio eu o faço por meio de rigorosos silogismos, para a apreensão dos conhecimentos, em descompasso com as emoções a que dão causa o amor, o companheirismo, a solidariedade, o espírito da fraternidade da família? Tenho notado que os vínculos de parentesco são muito mais expressivos nas auras de vocês. Quanto a mim, mal me lembrei de meus pais, de minha irmã, de meu cunhado e de meus sobrinhos. Quanto aos tios e aos primos, não lhes vi nem as sombras, tão apagados estão em minhas lembranças. Enquanto isso, até mesmo alguns amores traiçoeiros, daqueles impossíveis, vão sendo substituídos pelo êxtase dos desenvolvimentos cerebrinos.

Everaldo desejou dar uma contribuição, aproveitando certo ar nostálgico que se imprimia nas feições do orador:

— Vejo que você está, talvez sem que tenha se apercebido disso, lendo em nossos perispíritos, observando as reações sentimentais para além da configuração dos pensamentos técnicos. Acho que esta observação mereceria comentários mais precisos, a nos levar a todos ao mesmo poder. Quanto a mim, sei quais os pensamentos que cada um deseja transmitir, mas não me inteiro do conteúdo emocional senão com a ajuda das conotações oriundas da entonação, da gesticulação ou do próprio significado das palavras. Preciso dessas informações mais do que de quaisquer outras, porque se constituirão no instrumental que utilizarei para conhecer as pessoas com quem deverei tratar ao sair daqui, naquele impulso de comunhão fraterna propugnado pelo Cristo.

Deodoro demonstrou boa memória:

— Você tem demonstrado ser o mais inquieto. Terá isso relação com aquelas trinta e duas mulheres?

— E mais vinte e cinco pimpolhos que ajudei a pôr no mundo.

A revelação pegou a maioria desatenta. Estavam quase todos envolvidos com as meditações que se produziram a partir das confissões do Monsenhor. Foi Joaquim quem chamou o grupo aos debates:

— Estamos perante algo insólito. Tinha para comigo que o sacerdócio gerava problemas sérios de isolamento e de constrangimento perante a sociedade dos espíritos, porque nos recusamos a procriar. Agora Everaldo surge com um novo panorama moral. Que pensar a respeito?

Novamente, Roberto quis deixar assinalado o prisma do espiritismo:

— Eis o que se encontra registrado no capítulo da poligamia, em “O Livro dos Espíritos”, questão de número 701. Perguntou Kardec: “Qual das duas, a poligamia ou a monogamia, é mais conforme à lei da natureza?” Responderam os espíritos: “A poligamia é uma lei humana, cuja abolição assinala um progresso social. O casamento, conforme os desígnios de Deus, deve fundamentar-se na afeição dos seres que se unem. Com a poligamia, não existe afeição real: só existe sensualidade.”

Deodoro completou, citando São Mateus, capítulo XIX, versículo 9:

— Com a palavra Jesus: “Por isso, eu lhes declaro que qualquer um que repudia sua mulher, se não se trata de um caso de adultério, e casa com outra, comete um adultério.”

Everaldo se viu acuado pela vibração dos parceiros. Havia despertado neles aquela curiosidade que Roberto, de comum acordo com os outros, havia condenado. Dispôs-se, então, a esclarecer o roteiro de sua vida:

— É evidente que vocês estão perguntando-se como é que o cantor do coro e o pasteleiro do convento teve tempo para as aventuras sexuais. Parece totalmente inverossímil e ainda vai continuar assim para quem não viveu aqueles dias tumultuados no sertão nordestino, sem nenhum freio moral a segurar os anseios pecaminosos dos homens e mulheres. A fome era o esteio da malversação das vidas. Vocês já ouviram falar ou leram a respeito das pestes. Nas cidades atingidas pelas epidemias, as transgressões morais são o costume, porque a vida não apresenta nenhuma perspectiva de realização. O amor se perde no ventre dos cemitérios e a epiderme exige gozo imediato, porque a dor que se sente em quem se contagia contamina os espíritos ainda mais que os germes a própria carne. Pois a fome, a miséria, a ignorância e os distúrbios das crendices fomentados pela ganância de se salvar da maldade material correm soltos na fixação dos objetivos imediatistas. A palavra do Cristo passa a não valer, porque promete o Mestre paz, justiça, compreensão e perdão e as pessoas não podem compreender como é que seus filhos inocentes vão sendo tragados pela terra seca, depois de serem gerados com enormes sacrifícios. Então, a minha formação religiosa se deu tardia, após haver, porque mais esclarecido e mais poderoso, abusado da fraqueza da população, para quem uns trocados representava a manutenção da vida por mais um dia e a pureza das meninas, apenas o desperdício das oportunidades de sobrevivência. Quem está pensando em mim em meio ao sertão, deve lembrar-se dos marinheiros e dos turistas nas cidades banhadas pelo mar. Enfim, não venho perante a sua paciência para, sem critério e sem estudo, oferecer a denúncia dos descalabros sociais, pela ausência dos valores do cristianismo, porque os padres se interessam muito mais pelo crescimento de suas paróquias e pela repercussão de seus púlpitos...

Deodoro interpôs-se:

— Não generalize, querido amigo. Poderemos, mais tarde, vistoriar essas regiões e determinar as causas da perdição das almas para o Cristo. É claro que entendemos o seu desiderato de justificar os erros através das condições históricas, climáticas e do meio. Contudo, o que ficamos devendo não foi a Deus, nem a Jesus, nem à Igreja. Como se está configurando em nossas mentes, somos devedores das pessoas que agredimos e que exploramos, que desorientamos e que traímos. Você foi cantar no convento, cozer pães e coalhar leite.; e servir aos companheiros, porque acreditava que seria a penitência para os males que provocou.

— O pior, queridos irmãos, devo confessar-lhes, é que providenciava, mesmo ali, algumas sortidas, na confiança que depositavam em mim para as compras e vendas dos produtos comercializados pela instituição.

Joaquim queria esclarecimentos:

— Você se encontrou deste lado com alguém que o acusasse? Na Terra, ofereceu recursos para superar as crises que você mesmo citou? Houve algum marido ciumento, filho incompreensivo ou amante desesperada que corresse atrás de você lá ou aqui?

— As acusações sempre eu as ouvi, mas não fazem mais do que reproduzir em coro a voz da consciência. De início, cheguei pimpão, pronto para receber os óleos bentos da sagração de alma perfeita. Afinal de contas, confessei e comunguei e, sinceramente, me arrependi, prometendo e cumprindo que não mais iria pecar contra as minhas irmãs. Estava com mais de setenta anos e uma doença na próstata, com perdão do trocadilho, me prostrou. Dei ao fato a interpretação do castigo de Deus e, beatificamente, me preparei para a morte. Agora, os fatos parecem evoluir em sentido inverso, de sorte que me vejo atropelado pela insistência mental de volver para junto de cada pessoa para reconhecer nelas a necessidade da prestação de serviços regeneradores, em resgate dos malfeitos. É uma compunção terrível, como a que ocorre aos viciados. Se, para vocês, isto aqui parece o Purgatório.; para mim, é o próprio Inferno.

— Mas você (era Hermógenes) está conosco e, portanto, sofre as mesmas punições, nem mais nem menos.

— Eu acho que sofro mais, porque estou mais compenetrado dos defeitos. Pensam que não lhes ouvi os números que forneceram das mulheres (e rapazes) com quem conviveram em situação irregular? Se os textos citados se aplicarem somente em mim, deverei conceber que vocês estão escondendo algo, não do grupo, mas de si mesmos. E se vierem a se debater em choro convulso, haverão de se manifestar muito mais pungentes do que naquelas lágrimas de saudade e de inconformismo de há pouco.

— Sabe o que penso de suas declarações, Everaldo? — Perguntou Deodoro. E respondeu: — Penso que deveriam ter sido pronunciadas no início de nossas divagações filosóficas. A minha mania de pôr ordem nas coisas teria tido justificação e não precisaríamos agora rememorar todos os trechos bíblicos citados, principalmente quanto ao perdão e às promessas de Jesus de nos receber no Reino do Pai.

A intervenção do Monsenhor calou o grupo, para refazimento das análises e para a meditação a respeito dos temas levantados. Ninguém se preocupou em observar os ponteiros do relógio nem de onde eram as bandeiras. Também não foram em busca dos verbetes da enciclopédia. Folhavam as páginas da memória e caracterizavam os momentos que se haviam fixado mais indelevelmente, quando da síntese a que seus cérebros procederam logo após o desfalecimento vital.

Um a um, foram apartando-se da mesa em busca de um canto isolado, como se estivessem ansiosos para se libertarem das pressões morais que as acusações da presteza religiosa de todos favorecia. Se pudessem, desfariam a congregação unida sentimentalmente, como se as forças de repulsão vencessem as similitudes das personalidades. Conheciam-se uns aos outros, porque sabiam ver nas próprias almas e o que ali enxergavam não era agradável. O conforto daquela sala protegida dos impropérios dos inimigos, gratuitos ou não, já não mais oferecia resguardo contra as invectivas íntimas. Aplicavam-se as palavras de Jesus contra os escribas e fariseus e acrescentavam outras muito mais pesadas. Queriam sair, mesmo que em estado de deplorável fragilidade vibratória. Foi quando uma porta se desenhou ao lado do relógio e automaticamente se abriu. Estavam sendo expulsos para o mundo exterior, para as lutas que sabiam necessárias, porque estavam armados intelectualmente para os embates contra a maldade. Restava saber se teriam coragem para enfrentar as trevas conscienciais.

Houve um refluxo no temor do sofrimento que se apresentara segundo as expressões de Everaldo e todos se aproximaram para o centro da sala, onde já não mais se encontravam nem a mesa nem as cadeiras. À sua vista, atenuou-se a luminosidade das lâmpadas, a estante, com tudo dentro, foi esvanecendo-se até desaparecer, não se viam mais as bandeiras, nem o relógio, até que a porta também sumiu, uma vez que não existiam mais paredes. Estavam livres.

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