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Artigos-->UMA VIAGEM SAUDOSISTA -- 06/01/2003 - 23:15 (José de Jesus Sousa Lemos) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
No último final de semana estive em Belém para as comemorações de 30 anos da formatura da minha turma de Engenheiros Agrônomos. Parece que foi ontem que 63 jovens, ainda com cara de meninos e meninas, recebiam naquela quinta-feira de intenso calor, aferido no sentido lato do termo, no longínquo 2 de dezembro de 1972, o sonhado título que abriria os caminhos para uma vida.

Naqueles três dias de mergulho no passado, em que tive a oportunidade de rever 22 dos 55 colegas remanescentes, passei pelo bairro de Canudos, minha primeira moradia em Belém. Saído de casa no dia 25 de fevereiro de 1969, dia do meu aniversário, também numa quinta-feira, consegui embarcar num vôo de carreira num Viscount da VASP. Foi um ato de bravura e uma atitude ousada da Dona Amélia, minha mãe, pois fizemos três tentativas frustradas, por três dias seguidos de embarcar nos aviões da Força Aérea Brasileira, que sempre estavam lotados de pessoas bem mais importantes do que eu e o colega José Francisco, companheiro daquela aventura.

Chegando em Belém, já tinha o destino certo da república que me acolheria no bairro de Canudos. Foi uma recepção, digamos "calourosa", literalmente, pois como calouro, tinha que aturar todos os tipos de "trotes" dos veteranos que lá já haviam chegado. Tudo "tirado de letra". Na sexta-feira fomos, eu e o João de Deus, conhecer o prédio e as instalações da escola que nos deslumbraria ao primeiro contato. João de Deus era um colega que comigo e o José Francisco completava os 7 candidatos maranhenses que haviam logrado a aprovação no Vestibular que a então Escola de Agronomia da Amazônia realizava no Maranhão. Vale ressaltar que naqueles dias 5,6 e 7 de janeiro de 1969, cerca de 200 maranhenses haviam concorrido naquele vestibular.

Chegamos no complexo de prédios do então IPEAN, hoje EMBRAPA, por coincidência encontramos o Professor Moreira de Zoologia (viríamos saber depois), que na sua Rural Willys, nos ofereceu carona para ir conhecer a agora nossa nova Escola. Ali começaram os deslumbramentos daqueles dois garotos. Aquele caminho repleto de seringais, pimentais, palmeiras de dendê, pés de guaraná... Tudo nos ia sendo descrito e apresentado pelo professor Moreira. Haja novidade! E eu ali com a cabeça nas nuvens, pensando na minha querida São Luís que agora estava distante, pela primeira, em tantas vezes a partir de então, na minha vida. Eram emoções demais para aquele garoto que havia escolhido aquele curso apenas pela necessidade de conquistar uma bolsa da SUDAM, tendo em vistas que era a única chance que tinha para a aventura de um curso superior.

Lá fora, as portas de Belém estavam abertas para mim. A Praça da República, com as suas mangueiras, com a sua diversidade, com os seus parques... A Avenida Presidente Vargas, logo ali, o prédio Manoel Pinto da Silva, que com a sua fachada branca exercia fascínio naquela retina que apenas tinha visto antes o Edifício João Goulart, único existente na então pequena, calorosa e já naqueles dias, saudosa São Luís.

Onde hoje está encravado o Terminal Rodoviário de Belém, existia uma feira fixa, que durante o dia vendia desde o alimento até calças, camisas e cuecas. Naquela feira eu comprei a minha primeira calça jeans, um modelo Farwest, fruto da minha primeira bolsa, recebida com o atraso de 3 meses. Ali também, à noite, funcionava como ponto de encontro das moças que ganhavam a vida com o corpo. Quando recebíamos o pagamento, era parada certa dos garotos "endinheirados" com a bolsa da SUDAM, mas que também estavam saturados de "se possuírem" (como diria o nosso Martinho da Vila) na intenção, talvez de algum joelho de uma moça mais ousada que se destacava naquela época de efusão da mini saia.

Estas emoções, digamos fugazes, eram também buscadas na Condor, e no Shangrilá, famoso local de encontros situados no bairro da Pedreira. No Pagode Chinês e na Maloca, haviam divertimentos, mais bem comportados, em que cabia levar as namoradas, devidamente acompanhadas das irmãs ou dos irmãos, para não haver qualquer tipo de comprometimento do nome daquelas moças que, via de regra, sonhavam em colar os nossos sobrenomes aos delas. Afinal éramos "bons partidos", e eu só viria descobrir isso, quando cheguei a Belém, e quando ia a cada semestre a São Luís gozar as minhas merecidas férias.

No Bosque Rodrigues Alves, haviam tertúlias aos domingos à tarde. Os preços populares se constituíam num excelente atrativo para quem vivia com o dinheiro contado e minguado, e estava ali com a missão de estudar e construir um futuro. Afinal, ninguém era de ferro!

O cinema Olimpia, o Cine Palácio e o Cine Nazaré, eram reservados para aqueles raros períodos de maior "abundância" de dinheiro, justamente quando a bolsa era paga. Nos demais períodos, sempre sobravam uns "trocados" para ir ao Cine Independência, no começo da Avenida Independência ainda no Bairro de São Braz. Naquele cinema, vi filmes memoráveis. Mas um deles, contudo, marcou-me por muito tempo, pois ele era protagonizada por uma atriz que lembrava muito uma colega de turma, do curso de Agronomia, que nos primeiros anos de escola era a minha paixão secreta. Imagina, eu naquela época conseguir chegar junto àquela garota, que de quebra, sabia-se, era noiva, ou tinha namorado firme, sei lá... Ela jamais iria me notar, pensava eu. A atriz chamava-se Adriana Prieto, que morreria precocemente, e o filme era "Os Paqueras". No auge da Embrafilmes e da Censura no Brasil, o filme que era uma comédia irreverente, mostrava as aventuras de Cecil Tirrê, Reginaldo Farias, Valter Foster, e a nossa eterna musa, Leila Diniz, em aparição rápida, mas definitiva. A música de "Os Mutantes" já mostrava o potencial do talento da nossa Rita Lee. Aquele filme de estória banal, que tinha como única mensagem o entretenimento pelo entretenimento, e buscava driblar a censura forte daqueles anos draconianos, deixou-me boas e inesquecíveis lembranças de Belém e daquela paixão inicial do "eu sozinho".

Os cobradores dos ônibus "cantando" todo o itinerário, também se constituiu em cena que ficou no caleidoscópio da minha memória. O mercado Ver-o-Peso com a sua arquitetura colonial, agora revigorada, mas mantendo o seu traço, complementa o quadro de relembranças daquele garoto que o tempo consumiu externamente, mas que mantém internamente todo aquele espírito de molecagem, que não foi recolhido pelos caminhos da ciência que optaria mais tarde.

Restam ainda muitas lembranças, mas na impossibilidade de listar todas, rememoro a nossa República na rua Dr. Assis na Cidade Velha, as "peladas" nos campos do IPEAN e da Escola, as idas ao Baenão torcer para o Remo, time que conquistaria o meu coração ainda em São Luís, quando o vi jogar com o Sampaio Correa, time da minha paixão no Maranhão. Naquele domingo remoto em São Luís, em que eu sequer imaginava morar um dia em Belém, o Remo jogou com aquele uniforme azul marinho, que proporcionou um colorido e um contraste belíssimo com o verde-vermelho-amarelo do meu Sampaio. O jogo terminaria empatado, e eu definitivamente fascinado com aquele time paraense.

Tenho por Belém um grande carinho. Talvez ali esteja a minha terra de opção. Nessa cidade passei dificuldades de toda ordem. Mas fui feliz, muito feliz! Os três dias que passei agora nessa terra, serviram para reforçar-me a convicção de que a conquista de sonhos é possível, e que pode-se viver um presente promissor, não desgarrando-se de um passado agora já um pouco remoto, mas que ficou definitivamente nas nossas vidas.

Gostaria de concluir agradecendo a essa cidade e à sua gente que acolheram-me anonimamente num momento de definições da minha vida. Felizmente as marcas deixadas por Belém na minha vida, são todas rigorosamente positivas e merecedoras das minhas melhores referências. Talvez eu ainda venha a passar mais tempo nessa cidade. Quem sabe?!

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