“SIM, que é o próprio homem senão um cego inseto inane a zumbir (?) contra uma janela fechada; instintivamente sente para além do vidro uma grande luz e calor. Mas é cego e não pode vê-la; nem pode ver que algo se interpõe entre ele e a luz. De modo que preguiçosamente (?) se esforça por se aproximar dela. Pode afastar-se da luz, mas não pode ir além do vidro. Como o ajudará a Ciência? Pode descobrir a aspereza e a nodosidade próprias do vidro, pode chegar a conhecer que aqui é mais espesso, ali mais fino, aqui mais grosseiro, ali mais delicado: com tudo isto, amável filósofo, quão mais perto está da luz? Quão mais perto alcança ver? E contudo, acredito que o homem de gênio, o poeta, de algum modo consegue atravessar o vidro para a luz do outro lado; sente calor e alegria por estar tão mais além de todos os homens (?), mas mesmo assim não continuará ele cego? Está ele um pouco mais perto de conhecer a Verdade eterna?”
Faça o exercício. Ver, sentir, transpor um vidro, um muro, uma parede. O poeta tem a sensibilidade e a criatividade que transcende barreiras físicas. Isto, concordo, o diferencia dentre os homens.
Fernando Pessoa nomeia o poeta como o “homem de gênio”, não quer, porém, restringir aos poetas. Fernando Pessoa generaliza o artista escritor como poeta.
Neste texto ele responde a um filósofo. Para muitos, e particularmente pra mim, Fernando Pessoa foi, e é, imortalizado pela sua obra, um grande “homem de gênio”, poeta, cronista, contista, escritor e, filósofo. Discutiu a arte, a sociedade, a religião, o homem, até a física quântica. Um lusitano do século do século XVIII com pensamentos de filósofo grego da antiguidade aplicados na modernidade de sua época.