O inquirido olha para o fruto ao qual foi sabatinado, retém o olhar durante alguns segundos - tempo não tão curto a ponto de não possibilitar a análise, e nem tão longo a ponto de dar a impressão ao inquisidor de seu desconhecimento sobre o objeto da dúvida -, e certo, convicto, responde firmemente: Coraçãozinho do Cerrado.
Yvan, apesar de sua certeza teatral, pois como sabia que o nome não era esse e desconhecia o verdadeiro, utilizou-se sabiamente da astúcia ao identificar o formato de um coração (estilo romanceado) do fruto conhecido por Xixá. O que pode ter parecido uma “malandragem” do inquirido, também pode ser entendido como um ato fundador da mesma forma que o ato daquele que denominou o tal fruto de Xixá. Yvan encontrava-se sozinho em sua interpretação, contudo se arrumarmos alguns amigos dispostos a propagar que o Xixá também se chama Coraçãozinho do Cerrado, certamente que por meio de um efeito multiplicador o fruto teria mais um nome a ser conhecido, talvez o nome Yvan desaparecesse no processo do conhecimento popular, tal qual daquele que batizou o Xixá, mas o Coraçãozinho do Cerrado permaneceria.
O que o nosso bom Yvan fez não foi nada diferente do que outros fizeram ao nomear as variadas espécies da flora brasileira, é bastante comum plantas terem mais de um nome e a mesma espécie mudar de nome conforme a região, o cenário é bastante mutável, não está “engessado” no tempo contemporâneo, a modernidade não é o ápice da sociedade e tudo não está definido, pronto e acabado. O Xixá talvez tivesse outro nome e a quantidade de nomes que não podemos imaginar que não foram adotados pelo conhecimento popular, talvez não saibamos os nomes das plantas e nunca saberemos, pois elas não têm nomes e sim interpretações (como a que deu o Yvan), os “nomes” são representações que damos motivadas por sentimentos e objetivos particulares, alguns complexos outros mais simples, mas sempre interpretamos o formato, a cor, o uso e etc, que transformados em símbolos os transportamos para “nomear”, dar classificação.
O astuto Yvan estava certo, só não teve a sorte de encontrar adeptos para sua “tese”, mas ele agiu reunindo todos os elementos – representação, significado e discurso – que em seu pensamento, unidos, possibilitou estabelecer uma relação que deu sentido e coerência de forma a denominar o fruto semelhante à um coração, e fez mais, ele reinterpretou e remontou como coraçãozinho e deu sua localização, o cerrado.