Quando nasce a poesia? A gênese do pensamento poético, o instante mesmo em que a força da imaginação suplanta os limites da humanidade, seria quando o medo do que não temos, ou melhor, aquilo do que temos muito medo: a solidão, o fim, a ida, a morte, nos empurram com força irresistível em direção aos nossos mais íntimos anseios?
No meio da noite, assombrados pelo silêncio que faz fugir do mundo as melodias, os sorrisos das crianças, o som de um “te amo” sincero (se faz amor na noite, mas não é a essa categoria de amor que me refiro), os poetas se refugiam onde?
Quando o mundo entra num turbilhão de mortes sem explicações racionais, atentados, sonhos ceifados sem chances de defesa; quando até as estrelas parecem lamentar o rumo que estamos dando ao mundo, quando a junção de todas as esperanças dão em um minúsculo sussurro, onde estão os poetas?
Precisamos de poesia, a vida está ficando velha e feia. Se há os que desprezam a criação poética, possivelmente estes seres, por isso somente desprezíveis, esquecem que o mundo só nos pertence à medida em que, inconformados com a feiúra nele existente, o queremos moldar à nossa imagem e semelhança, e, nisso creio firmemente, não há imagens melhores, mais desejáveis, do que as que se forjam no coração dos poetas.