Descobri a beleza de La Habana num livro que só mostra detalhes, ou seja, tudo aquilo que eu, por ausência de treinamento ou ignorância mesmo, não consigo enxergar.
Porque quem anda pelo Vedado vê uma costa maravilhosa, sim, e prédios outrora suntuosos, também, mas vê também casas em ruínas, monumentos de relativo mau gosto, ginásios sugerindo modernidade e poderio (mais mau gosto), e em meio a tudo isso triciclos movidos a vespa com formato de côco carregando turistas com máquinas a tiracolo (como em todo e qualquer lugar). O que faz esquecer, por instantes, a beleza sugerida em quase qualquer esquina da cidade.
Onde mais, por exemplo, as nove horas da noite são marcadas por tiros de canhão, numa cerimônia que remonta a centenas de anos, quando a cidade velha era murada e às nove da noite os portões eram fechados? Isso quando não tem festa depois. Maravilhoso. E olha que não estive lá.
Pode parecer exagero curtir o que não se curtiu. Mas acontece o mesmo com os maravilhosos vitrais que a cidade esconde em meio a museus, bares, prédios públicos. E com as estátuas, que não são todas do Fidel, do Che, e dos revolucionários, como alguns devem ainda imaginar.
Pegue-se a estátua do Quixote. Não entendo de estátuas, confesso. Mas ela emociona de tão exagerada, como ele, como eu (às vezes), como Cuba, afinal. O Quixote na Espanha é um sonhador. Em Cuba, ele é apenas um resistente. Como todos.
Tem também a figura do John Lennon, por exemplo. Confesso que não gosto do sujeito. Mas em La Habana ele faz até certo sentido. Assim como José Martí. Ou Abraham Lincoln (sim, ele está lá). Ou o tal do Cavaleiro de Paris (falarei dele mais tarde). E o Cristo Redentor! E Colombo! E Bolívar!
Comecei falando de beleza e acabei caindo em estátuas. Porque, qualquer que seja o motivo, o mote, a desculpa, a beleza em La Habana não está no fato, mas na imaginação. E por isso, só por isso, é inesgotável - e pessoal, presente em cada um.