A palavra alegoria vem do grego allegoria. Significa “falar de outro modo” e é tida como uma transposição de linguagem. Significa a figura artística na qual, para além do sentido literal do que se lê, se pode ver outro sentido parecido e como que paralelo ao primeiro. A alegoria representa dois planos ligados entre si por uma série de analogias. Já desde Aristóteles e depois com Cícero e outros retóricos romanos, a alegoria é chamada de “metáfora continuada”. Esta comparação tem uma certa razão porque também a metáfora consiste numa transposição de sentido, com base na semelhança. Quando desenvolvida, provoca duas linhas paralelas. A alegoria aparenta-se e até se confunde, muitas vezes, com símbolo, parábola, apólogo, fábula, exemplo, emblema e enigma, havendo uma necessidade dialética de pesquisar rigorosamente cada um dos conceitos para colocarmos de vez a alegoria no seu devido ligar. Em rigor, a alegoria consiste no desenvolvimento de um fato ou de uma idéia que constitui um todo independente, cujos elementos são correlativos ao objeto, a que se referem. Seria portanto um processo mental que consiste em simbolizar uma qualidade num ser humano ou animal. Podemos entender melhor, e concretamente, mostrando um exemplo de alegoria literária num soneto do poeta Antero de Quental que se chama “Anima mea”:
Eis o texto:“Estava a Morte, ali, em pé diante,/Sim, diante de mim, como serpente/Que dormisse na estrada e de repente/ se erguesse sob os pés do caminhante./ Era de ver a fúnebre bacante!/Que torvo olhar!Que gesto de demente!/ E eu disse-lhe: -Que buscas, impudente/Loba faminta, pelo mundo errante?”-Não temas, respondeu (e uma ironia/sinistramente estranha, atroz e calma/Lhe torceu cruelmente a boca fria)/Eu não busco o teu corpo...Era um troféu.../Glorioso de mais...Busco a tua alma”-/ Respondi-lhe: “A minha alma já morreu!”....
Este soneto de Antero, dá-nos ao vivo, uma idéia literariamente correta de alegoria, enquanto nos narra poeticamente uma entidade abstrata, literariamente personalizada, aparecendo-nos como aquilo que realmente é (como Morte) e também como alguma coisa diferente(como pessoa, antropomorfizada, dotada de voz, idéias, ideologia e sentimentos)...É realmente um tipo de metáfora desenvolvida. Antero pretende, em seu poema, que a personagem Morte seja entendida em termos diferentes daqueles que à primeira vista parecem ...Isto é, partindo de uma alegoria apresenta a Morte como algo que toque as pessoas, tomando-a como representação abstrata de significação existencial que a todos interessa...