Eu sou um ser humano, sou uma pessoa, comum, reles, mortal, imperfeita, visceral, pecadora, má, suja, errada, animal. Eu sou e tenho todos os defeitos possíveis como humana que sou, sou egoísta, gananciosa, sou vaidosa, egocêntrica, pecaminosa.
Mas, faz de conta, uma fantasia, simples brincar de imaginar e de repente esse ser que sou eu ganha um poder, não um poder, todo poder! De repente sou eu o ser mais poderoso que se possa imaginar e, como tal, como todo poderoso ser que sou posso tudo, tudo tudo inclusive quebrar leis.
Posso quebrar a lei da gravidade e voar. Mais que isso, posso quebrar a lei da gravidade e sobrevoar! Posso sobrevoar o mundo e ver todas as pessoas, paisagens e animais da terra, posso sobrevoar o sistema solar e ver todos os planetas em suas órbitas e o sol soberano a iluminar, a irradiar energias que nem compreendo agora, sendo simples, sem poder, mas que na minha brincadeira, eu posso compreender! Posso sobrevoar o universo e ver todos os mundos, saber quais são habitados e por quem, saber se existem planetas habitados, se existiram, se existirão.
Sim porque posso me libertar do tempo e ver futuro e ver passado e sobrevoar o tempo da mesma forma e ao mesmo tempo que posso sobrevoar o espaço. Então eu vou olhando o passado, que curiosa sou eu! Vou conhecer a história, a verdadeira história e saber a verdade de todas as mentiras que contaram. Vou no tempo e vou mais, volto depressa, volto devagar, vejo acontecimentos, dores, alegrias, festas, horrores. Vejo tudo acontecer e vejo a terra, e vejo o sol, e vejo a vida nascer. Vejo o vazio e a decisão.
Mas, faz de conta de novo, pense de brincar com o que a imaginação deixar, e pense que sem saber eu vejo o nada e estou flanando no nada mas é o fim da viagem porque antes do nada nada não há. Eu cheguei ao antes de tudo e para que tudo exista novamente é preciso que novamente tudo seja criado. É preciso dizer “Faça-se a luz” para tudo começar.
Mas eu tenho todo poder, sei tudo, sei de tudo, conheço todos os tempos, conheço tudo o que há e o que não há para jamais conhecer. Sei que se criar o mundo, se disser “Faça-se a luz” tudo recomeçará e tudo será igual, nada, nada mudará, poderei olhar de novo o passado acontecendo, chegar ao presente onde na minha fantasia passei a ter e a ser todo poder, depois posso continuar olhando, e sobrevoando todo lugar, todo tempo, toda vida, toda física toda lei. Posso seguir viagem e passar pelo futuro até que tudo se acabe e volte tudo a ser nada e volte tudo a nada ser. Posso ver cada estrela nascer e se apagar, posso ver o choro, o primeiro choro, de cada recém nascido, posso ouvir cada oração de cada desespero, de cada desejo, posso sentir cada ai.
Só preciso dizer “Faça-se a luz” e a peça começará, e o palco estará pronto, e os atores caminharão e tudo acontecerá. Mas sei tudo, sei de cada dor, sei de cada morte, sei cada medo que tamanho tem, sei cada coração e de cada mente cada grama de mentira, de fraqueza, de pavor. Sei de amor e casamento, sei de aprender, de plantar e de colher, sei de todas as flores que vão nascer e de cada abelha, cada ferrão. Sei tanto que sou obrigada a escolher. E eu escolho me calar. Mas se me calar vou morrer. Se não deixo nada existir, não existo eu também, e o nada será completo, sem um antes, sem um depois, sem um incriado, sem eu.
Penso e penso que seria maldade, seria sadismo, seria muito vil e muito baixo da minha parte escolher deixar que a história role e que tudo aconteça da forma que aconteceu. Penso e não tenho coragem de fazer acontecer uma história tão terrível, tão cheia de dor e morte, tão difícil, tão cruel. Penso e sei que não posso, não é justo, não é certo, criar um palco de dor. Eu, que sou má, egoísta e imperfeita, mesmo à custa da própria vida, eu escolho me calar.
Por que deus, se há um deus, que é melhor, tão melhor, que é maior tão maior do que eu, por que deus escolheu falar?