Ouvi de alguns professores o argumento de que para alcançar o objetivo de despertar nos alunos o gosto pela leitura, não podemos continuar pedindo a eles que leiam os clássicos da literatura brasileira que, em sua maioria, foram escritos no século XIX. Precisamos pedir livros que sejam do interesse desses alunos – disseram – e como Paulo Coelho vende horrores e todo o mundo adora, devemos começar por aí. Eu concordei, com ressalvas, até chegar ao nome Paulo Coelho. Nesse momento não me contive e quase gritei: Não, Paulo Coelho não!
Muitos professores defendem que para conquistar o aluno para o mundo da palavra escrita, temos que descer até o nível dele e fazer com que depois ele suba junto com a gente.
Não quero, não preciso e não vou descer até o aluno. Quero que o aluno suba até mim e, de preferência, suba além e acima de mim. Ele é de uma geração bem à frente da minha e tem obrigação de ir mais longe, ou melhor, eu tenho obrigação de fazer com que ele vá mais longe.
Antes que alguém reclame dessa conversa de “descer até o nível do aluno”, deixe-me explicar que falo só do nível da competência de leitor que, todos sabemos, nosso aluno em geral não tem (com raras e felizes exceções é claro) e que nós temos como uma das nossas funções de educadores a obrigação de dar a eles.
Não acredito de maneira nenhuma em começar oferecendo porcaria para depois convencer o aluno a consumir algo que seja realmente bom, porcaria a mídia já oferece a ele o tempo todo. Temos que mostrar coisas boas: textos bons, música boa, bons quadros e bons filmes. Dizer que o que gostam pode ser legal, mas tem outras coisas mais legais ainda para conhecerem.
Concordo que não se pode despertar o gosto pela leitura pedindo que o aluno leia O Cortiço na sexta série, mas existem ótimos livros que podemos apresentar para que ele goste de ler a ponto de apreciar a leitura d’O Cortiço quando chegar ao ensino médio. E se não podemos conseguir que nosso aluno goste de ler O Cortiço no ensino médio, existem ótimos livros que podem fazer com que ele goste de ler a ponto de apreciar a leitura d’O Cortiço na faculdade. Por que nos satisfazer com Paulo Coelho quando temos Arnaldo Antunes, Ana Maria Machado, Ignácio de Loyola Brandão e tantos outros escritores e poetas de primeira linha que podem ser lidos por alunos do ensino fundamental e médio?
E para que ninguém pense que tudo isso é pura inveja, puro veneno de uma professora que não tem e nunca terá nem mesmo uma pálida sombra da importância que ele conquistou e muito menos (muito menos mesmo!) do dinheiro que ele ganhou, aviso que li Paulo Coelho, não falo sem conhecimento, li e posso afirmar com toda segurança: Não presta!