Usina de Letras
Usina de Letras
26 usuários online

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 63086 )
Cartas ( 21348)
Contos (13299)
Cordel (10354)
Crônicas (22575)
Discursos (3247)
Ensaios - (10629)
Erótico (13586)
Frases (51528)
Humor (20163)
Infantil (5580)
Infanto Juvenil (4924)
Letras de Música (5465)
Peça de Teatro (1386)
Poesias (141235)
Redação (3356)
Roteiro de Filme ou Novela (1065)
Teses / Monologos (2441)
Textos Jurídicos (1965)
Textos Religiosos/Sermões (6341)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Aguarde carregando ...
Artigos-->Os Sarneys e o charme da Miséria - 2 -- 25/01/2002 - 10:58 (Roberto Cursino de Moura) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos


Esta mensagem está circulando pelos e-mails da Internet. Achei que merecia ser publicada aqui na USINA.



Muitos podem estar se perguntando, com certa perplexidade: se, de todos os estados brasileiros, o Maranhão é o que apresenta a situação social mais calamitosa, mantendo (desde 1985) o pior PIB per capita do Pais; se o Maranhão tem hoje a maior parcela da população (62,37%) vivendo abaixo

da linha de miséria (menos de R$ 80 por pessoa, por mês), de acordo com o Mapa da Fome da Fundação Getúlio Vargas (FGV); se, nas duas gestões da Governadora Roseana Sarney, a pobreza só cresceu no Maranhão, pois, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de

famílias que lá vivem com até meio salário mínimo aumentou 37% -

enquanto no resto do País diminuiu 22%; se, nas duas gestões da governadora Roseana Sarney, cresceram tanto a mortalidade infantil quanto a evasão escolar - segundo dados da mesma respeitada instituição, contidos no Censo 2000; se, segundo a última medição do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, o Maranhão está no mesmo patamar de miséria de nações africanas como Gana e Congo - e basta lembrar que 39,8% das casas maranhenses não têm sequer banheiro ou sanitário; como se explica, então, o fato de a governadora Roseana Sarney alcançar um bom índice de aprovação em seu Estado?



E como se explica o fato de, nos últimos 36 anos - isto é, desde 1965,

quando José Sarney se elegeu governador do Maranhão -, o eleitorado

maranhense ter escolhido, para o governo do Estado, uma seqüência

ininterrupta de correligionários e amigos diletos de José Sarney (João

Castelo Ribeiro Gonçalves, Oswaldo Nunes Freyre, Luiz Rocha, Epitácio

Cafeteira, João Alberto, Édison Lobão e a filha Roseana Sarney), se

nesse tempo todo o Maranhão, que no passado fora um marco cultural e histórico do País, entrou em franca decadência econômica, social e cultural?



Decifremos o enigma. Antes de mais nada, a família Sarney exerce domínio

absoluto sobre todo o sistema de comunicação do Maranhão. É dona do

principal jornal - O Estado do Maranhão - e do principal sistema de

rádio e televisão - o Sistema Mirante e o Mirante Sat, que recebem o sinal da

Rede Globo. Os outros dois sistemas de TV mais importantes do Estado

pertencem a correligionários e/ou diletíssimos aliados da família, como é o caso do dono da Difusora (que recebe o sinal do SBT), senador Édison Lobão, e do dono da TV Praia Grande (que recebe o sinal da Bandeirantes), deputado estadua Manuel Ribeiro, há oito anos presidente da Assembléia Legislativa do

Maranhão (onde a governadora tem 36 dos 42 membros).



Interagindo com o governo, num processo de publicidade institucional

massificada, intensa e constante, os sistemas de comunicação social

maranhense exercem, com perfeição, um duplo papel. Primeiro é o de

manter um clima permanentemente festivo, com a divulgação diuturna das promoções governamentais, dentro da estratégia de programação político-espetacular denominada "Viva". Trata-se do seguinte: o governo maranhense organiza, permanentemente, festejos públicos em diferentes locais, com ampla concentração popular, tendo como pólo de atração artistas famosos, danças, farta venda de bebidas, etc. Batiza-se a grande festa de acordo com o nome do bairro ou da região escolhida: por exemplo, "Viva Renascença!", ou "Viva Maiobão!", ou "Viva Liberdade", ou "Viva Bairro de Fátima", ou "Viva Madre Deus", ou "Viva Anjo da Guarda". Certamente é uma iniciativa inspirada na velha prática dos imperadores romanos, denominada panem et circenses (embora sem panem, pelo que talvez mais apropriado fosse denominar cachaçorum et circenses).



O segundo papel fundamental do integradíssimo sistema de comunicação

controlado pela família Sarney consiste em abafar tanto fracassos

administrativos quanto irregularidades apontadas ou investigadas - seja

pelos Tribunais de Contas, pela Polícia Federal ou pelo Ministério

Público -, que acabam deixando de se tornar, pela absoluta desinformação

popular, objeto de pressão por parte da opinião pública maranhense.



Dentre os inúmeros exemplos de atuação dessa mordaça comunicológica,

poderiamos mencionar o caso do Pólo de Confecções de Rosário, um

ambicioso projeto de U$ 20 milhões - a cerca de 100 km de São Luís -, inaugurado pomposamente (com a presença de FHC), para gerar 4 mil empregos. Na verdade, tratava-se do conto-do-vigário de um chinês de Taiwan interessado em vender máquinas de costura - e que acabou preso em Manaus, por estelionato. E o que era para ser uma moderna cooperativa, alardeada pela governadora, se tornou uma minguada produção artesanal, que só emprega cerca de 400 pessoas, ganhando em torno de R$ 100 por mês (por falta de coisa melhor). Ou o caso da Usimar, projeto orçado em R$ 1,3 bilhão, que teve aprovação recorde (com o empenho total da governadora e de seu marido) na Sudam, levantou com rapidez inédita R$ 44 milhões e evaporou (pelo que o Ministério Público entrou com ação civil contra Roseana e Jorge Murad). Ou o caso Salangô, projeto de irrigação destinado à produção de arroz e cítricos, que

recebeu cerca de R$ 60 milhões há anos, não produz nada e está eivado de graves irregularidades (inclusive superfaturamento), segundo o TCU. Ou o caso

do projeto de despoluição da Lagoa de Jansen (centro de São Luís), que

também gastou R$ 60 milhões (federais) para não despoluir nada, além das graves irregularidades (inclusive superfaturamento) apontadas pelo TCU. Ou o

caso da "estrada fantasma" Paulo Ramos-Arame, onde foram gastos U$ 33 milhões em obras inexistentes. Ou o caso da duplicação do Projeto Italuis - R$300 milhões -, obra de saneamento também com graves irregularidades

(inclusive superfaturamento) apontadas pelo TCU.



Nada disso é trazido à discussão pública pelos veículos de comunicação

maranhenses. E, convenhamos, uma população em que 39,8% de seus

integrantes não podem nem dispor de chuveiros e privadas na própria residência, e para a qual não foram construídas novas salas de aula nos últimos sete anos, que tipo de espiríto crítico poderá ter desenvolvido - nas últimas três décadas e nos últimos sete anos - dentro da anestesiante festividade com que tem sido embromada a sua sensação de real (mesmo que charmosa) miséria?



Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor e produtor cultural E-

mail: mauro.chaves@attglobal.net









Comentarios
O que você achou deste texto?     Nome:     Mail:    
Comente: 
Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui