Escrever sobre mentiras sentimentais, poderia ser um instigante capítulo da literatura amorosa em qualquer tempo. E isso, tanto a nível psicológico e social, como ético ou moral. Cronistas, jornalistas, ensaístas e autores de ficção têm à mão largos depoimentos que poderiam transformar-se em rico pábulo para capítulos romanescos e interessantes crônicas. Todavia, nosso intuito é apenas literário. Queremos apresentar e comentar um texto com esse título, da autoria de Gomes Leal (1848-1921), poeta português do final do século XIX e princípios do século XX.
GOMES LEAL E MAX NORDAU
Gomes Leal é um dos mais importantes poetas portugueses, conhecido por sua postura crítica, apocalípticoa e satânica. Vitorino Nemésio, em comentário escrito para o Diuconário de Literatura de Jacinto do Prado Coelho disse que Gomes Leal "foi, a poesia portuguesa, o mais estranho génio poético e vital depois de Camões". Esta informação pode ser tomada em consideração e melhor entendida quando, ainda pela pena do mesmo crítico e professor Vitorinmo Nemésio, encontramos uma síntese do que foi o Poeta na panorâmica da Literatura Portuguesa: "Na confluência literária do Ultra-Romantismo, do satanismo byrónico, do Parnaso e do Simbolismo, Gomes Leal deixou uma obra formidável, em que a versificação torrencial e de circunstância esconde, como uma selva, preciosas composições de grande surto, quer puramente líricas, quer satíricas, quer fundindo harmoniosamente os dois filões de seu génio. A sua ambição poemática construtiva, embora desfaleça nas epopeias e poemas dramáticos que tentou, dá à sua mensagem poética um lugar de relevo e uma força de significação singulares na Literatura Portuguesa"(NEMÉSIO, Vitorino. "Leal, Antonio Duarte Gomes". In: Dicionário de Literatrua. II, Porto: Livraria Figueirinhas, 1976, pp.521).
Em "autópsia final", que é o posfácio de "Fim de um mundo", Gomes Leal, da mesma forma que Nordau fez em "Degenerescência", flagela o egoísmo e fala da degenerescência das sociedades, defendendo que a solução está na educação e que na educação da criança está o cimento do mundo novo. A tônica geral de Gomes Leal é a de que o fim do século XIX terminaria no meio de um apocalipse social. De outro, lado denunciava a bancarrota moral e da corrupção da socieadde de então.
O TEOR DO TEXTO MENTIRAS SENTIMENTAIS
Max Nordau que foi dos autores mais lidos e mais polêmicos do período finissecular de cem anios atrás, escreveu o livro famoso "As mentiras convencionais de nossa civilização!". Claramente decalcando o título de Max Nordau, Gomes Leal publica em 1899 um texto menor que apelidou de "Mentiras sentimentais", onde, com manifesta mordacidade e ironia, passa em revista alguns valores mais salientes da sociedade burguesa: os valores sociais do matrimônio, da liberdade, da fraternidade, da igualdade, da justiça,, da família, da virtude, do egoísmo e do próprio sentimento, mostrando com ironia, o tom epocal desses conceitos.
UMA DEDICATÓRIA A MAX NORDAU
Gomes Leal dedica "Mentiras sentimentais" a Max Nordau, médico e jornalista judeo-húngaro, autor dos famosos livros "A Degenerescência" (Die Entartung: 1892-1893) e "As Mentiras convencionais da nossa civilização" (Die konventionelle Luegen des Menshenheit: 1883), entre outras. Autor apocalíptico, Gomes Leal via a sociedade, tal como Max Nordau, em estado de putrefação e decadência... Neste sentido o que para um soava como mentira de uma civilização, para o outro soava como mentira social e como mentira do próprio indivíduo inserido nos atos simbolicos da própria sociedade. Mentiras sentimentais são, por isso, uma réplica da decadência a que aludia Nordau em seus livros.
O POEMA MENTIRAS SENTIMENTAIS
O terceto inicial dá o tom do objetivo e da natureza do poema:
"O século vai findar na orgia e na demência
Reina o luxo e o cancan. Caem bancos aos pares.
Façamos tua autópsia ó louca decadência"...
Depois desta clara demonstração de intuito poético, vem a referência e o canto da ironia sobre uma enorme lista de atributos morais que a sociedade muito preza:
1. Honra
2. Caridade
3. Desinteresse
4. Justiça
5. Religião
6. Civilização
7. Amor
8. Altruísmo
9. Humanidade
10.Paz
11.Moral
12.Probidade
13.Sentimento
14.Família
15.Dedicação
16.Esmola
17.Virtude
18.Castidade
19.Ouro
20.Luxo
21.Luxúria
22.Alcoolismo
23.Egoísmo
"Mentiras sentimentais" estão escritas em forma de poema, disposto em tercetos rimados. Trata-se de um poema crítico e satírico. Tenta visar a hipocrisia social.
"A honra que floriu numa época pré-histórica
É a arte de iludir o Código Penal
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Matrimônio exprime hoje uma farsa legal
A operação sutil, comercial, econômica
Que eliminando o amor, triplica o Capital.
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Liberdade és ainda uma lírica imagem
Equivales a cada um poder morrer de fome
No enxurdeiro, a um bom sol, sob uma carruagem!...
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Civilização...Ah que ridentes miragens
Desenrola ante nós a palavra cantante
Que mascara bordéis, sabgueiras, tavolagens....
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Amor, volata azul, sonata extasianmte
Que se volve mais tarde em cutelo ou baraço
Reduzes a mulher a mártir ou bacante!....
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Altruísmo, expressão sonora com que engraço
Tem um contra porém...ser o anzol traiçoeiro
Que ao senhor dá a uva e ao escravo o bagaço.
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Humanidade, som de flautim feiticeiro
Que tanto tangem Nero e Judas de Karioth
Como o rei, o histrião, o dentista, o coveiro!...
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Moral, código vão feito por impotentes
Convencional conforme as zonas ou os mundos
Que só cumpre o mortal quando já não tem dentes!...
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Probidade, calão que oculta atos imundos
Quer dizer o horror às palhas da enxovia...
O politico anzol com que se pescam fundos....
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Sentimento, tenor cheio de melodia
Canta árias passionais...e tem sempre a lembrança
De enviar aos jornais retrato e biografia.
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Família lembra o pai, lembra a esposa, a criança
Causa terna emoção...sobretudo quando há
Um tio excepcional que nos lega uma herança....
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Virtude, moça ideal que morreu de anemia
Fica bem na oração de um tribuno violento
E lê-se em folhetins dos jornais, dia a dia...
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Ouro, mola real desta cômica peça
Vertigem que persegue o mortal desde o berço
-té que esverdeia enfim numa soberba eça!,...
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Luxúria de olhar verde, uivo choroso e agudo
Cheia de andrajos és a rameira...a galdéria
- mas rojando setins causas espasmo mudo!...
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Alcoolismo, cevado a grunhir na matéria
Com teu vidrado olhar sobre o tonel bojudo
Envenenas, vampiro! os bairros da Miséria...
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Egoísmmo, expressão que é a chave de tudo
Cancro que mina e róí assim como o alcoolismo
Alfa e omega enfim deste imoral entrudo...
AUTÓPSIA DO MUNDO
Em seus versos de sátira, Gomes Leal pratica também não apenas uma crítica social, mas uma certa moral social. Estes versos têm como característica mover um combate ao convencionalismo, à formalidade, ao viver conformado,à morte da alma. A literatura destas mentiras é uma literatura de luta e insatisfação. Por isso mesmo ela está filiada não só ao surto de crítica realista iniciado por Antero, Teófilo e Eça, e pela geração 70, em geral, mas ainda no clima da poesia como voz da revolução.
Parece que o Poeta olhava a sua sociedade como uma sociedade cínica, cheia de mentira:
"Eis tua autópsia, ó mundo atual, teu cinismo!...
Tudo é mentira em ti - Por isso hás-de rolar
Cadáver falso e vil, aos ervaçais do abismo...- diz bem no final de "Mentiras"...
No poema "Dístico", inserido também em "Fim de um MUndo", Leal continua fazendo a crítica radical do mundo:
"Como um cirurgião que retalha a escalpelo
Um ventre escultural, lácteo, gentil e belo,
como quem fura um odre...
Assim o mundo também -peito imoral e amada -
Corpo todo de axul e de lama estrelado
Eu te hei-de retalhar nos teus milhões deitado
Carcassa linda e podre...."
Na "Carta a um elegante bandalho", completa esta sátira ao cinismo social e à maladragem...
Um poema que pode ser alvo de uma boa pesquisa literária em sua forma e em sua ligação com as grandes temáticas da decadência do final do século XIX e também com a técnica do verso em si.
Para já, "Mentiras sentimentais" pode dar até, além de uma interessante leitura e estudo, uma bela meditação para muitos homens e para muitas mulheres envolvidos em amores...