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Artigos-->TENDÊNCIA NACIONALISTA NA ARTE E NA CULTURA DO CANADÁ -- 31/07/2022 - 16:11 (LUIZ CARLOS LESSA VINHOLES) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

TENDÊNCIA NACIONALISTA NA ARTE E NA CULTURA

DO CANADÁ[i]

L. C. Vinholes

 

Nota: Registre-se que este artigo foi escrito em 14 de março de 1978, durante o período inicial da minha longa estada em Ottawa, quando procurei conhecer e adaptar-me à realidade de um país diferente daquele no qual vivi por quatorze anos. O Japão que na sua segunda fase de tendência à ocidentalização, com a influência de professores europeus que orientavam ao governo instalado em 1867, aproveitou o que achava por bem aproveitar, mas conservou seus princípios e parâmetros culturais e sociais.

O presente clima psicoemocional que o povo canadense parece estar vivendo, em face de uma certa dúvida quanto a decisões históricas proclamadas em 1876 e das mais recentes e constantes insinuações de um separatismo latente por parte da Província de Quenéc, refletem-se de maneira insofismável em todo o pensamento e processo criativo de artistas canadenses que, a seu modo e com seus meios e recursos, procuram desfraldar a bandeira nacionalista.

Estas buscas por uma afirmação nacionalista são manifestas em termos individuais, de classes e, até mesmo, institucionais. Elas não são novidade na história cultural canadense, mas, agora, como em outras ocasiões, parece que ganham, outra vez, significado e destaque.

O número de março corrente da revista mensal The Canadian Forum, traz como um dos seus artigos de destaque, o de autoria de Roseary Sullivan sobre Literatura e anacionalismo, também intitulado Beyong Survival, referência à obra Survival, de Margaret Atwood. Sillivan que é professora de inglês na Universidade de Toronto, afirma logo no início do seu trabalho que “it is clear to anyone that Canadian Literature is in a period of national articulation” e que “we can see that we are making the transition from colonial to national literature, and the dilema of the colonial inferiority complex that plagued the literarture is a dead issue”.

Ela recorda os movimentos nacionalistas de escritores e pintores canadenses nos primeiros anos da década de 1920; os de logo depois de 1940, como resultado da grande Depressão econômica, quando a influência da literatura americana minimizou o esforço dos escritores nativos; e em 1965 novamente emergindo o movimento com a tomada de consciência pela obra de George Grant publicada sob o título “lamente for a Nation: defeat of Canadian nationalism”. O pessimismo de Grant é logo rebatido por Dennis Lee com o seu Civil Elegies.

Depois de lembrar os nomes de Margaret Laurence, Rudy Wiebe e Sheyla Watson, a articulista conclui que no movimento atual, o Canadá “as a culture rejecting spiritual colonialismo and exploring the meaning of indigenous identity in its physical, cultural and spiritual dimentions in a modern contexto, may be responding to one of the most pressing questions of contemporary culture”.

Também com uma orientação tipicamente nacionalista, de proteção incondicional ao ator canadense, independentemente de seu valor literário, foi instituído este ano o programa Half Back. Este programa iniciado em 19 de janeiro último e com prazo de vigência até 12 de abril vindouro, consiste no aproveitamento de bilhetes não premiados da loteria Wintario promovida pela Província de Ontario, para a compra de livros e para a subscrição de revistas canadense, cujo valor unitário ou de subscrição anual seja superior a Can$ 3,00. Cada bilhete de loteria não premiado tem um valor simbólico de Can$ 0,50 e podem ser utilizados até quatro deles para a compra de livros ou para assinatura de revistas.

O programa Half Back, criado pelo Ministério da Cultura e Recreação da Província de Ontário, parece não estar satisfazendo a heterogênea população dessa Província que não se interessa por significativa parcela das obras escritas por canadenses dando preferência às obras estrangeiras impressas nos estados Unidos ou na Inglaterra, por serem mais atuais, escritas com base numa mentalidade mais aberta e, além disto, custam mais barato. Outro problema enfrentado pela companha está no fato de que a maior parte das livrarias na Província não tem em suas estantes as obras procuradas. Por exemplo, nas oito principais livrarias de Ottawa, inclusive a Books Canada, não são encontradas as obras de Susan Musgrave, um dos nomes que desperta grande interesse na poesia canadense contemporânea de vanguarda. A literatura mais à mão está ligada à natureza, à tradição e à história sócio-política do país.

Os artistas plásticos por sua vez não deixam, de alguma forma, de manifestar a sua posição nacionalista que consideram já ter uma tradição e estar afirmada pelo menos nestas últimas décadas. No editorial da revista Art Magazine 36, correspondente aos meses de dezembro/77 e janeiro-fevereiro/78, a editora Pat Fleisher afirma que o Canadá “is a awfully self-conscious country and has reacted against outside domination by turning inward”.

É certamente por isso que na quase totalidade das galerias dos principais centros urbanos do país são exibidas obras de pintores canadenses na maioria das vezes de tendências ultrapassadas, de um figurativismo piegas que muito bem se enquadra na afirmação de Roseary Sullivan de que “escritores e pintores fazem esforço para estabelecer uma dialética entre indivíduo e natureza que pode vir a ser a base para uma resposta nova”, o que Laeren Harris em outras palavras diz: a arte “must flower in the land before the country will be a real home for the people”.

Só uma tendência nacionalista pode justificar o interesse pela escultura e, principalmente, pela gravura praticada pelos inuit, os esquimós canadenses. Esta, há vinte anos inexistente, é, agora, um dos principais trunfos culturais do Canadá para consumo interno e para exibições no exterior. Recentes exposições itinerantes de arte dos inuit foram enviadas ao exterior, uma delas Linke to a Tradition, ao Brasil em 1977; e em Toronto acaba de ser inaugurada uma mostra retrospectiva de obras de inuit que percorrerá, até 1981, as principais salas oficiais de exposição do Canadá, terminando com uma apresentação ao público de Ottawa.

Em nível de instituição a manifestação de providências em prol do nacionalismo canadense acaba de ser anunciada pelo Canadian Council. No final de fevereiro último esta organização, a FUNARTE local, informou que passará a fundamentar as suas decisões em uma nova “working regulations” e que as suas ajudas serão para aqueles que são cidadãos canadenses. Entretanto, continuará a valer-se da experiência e da colaboração de estrangeiros para os juris e para o assessoramento indispensável, sempre que não haja canadenses à disposição.

Os estrangeiros que se fixarem em caráter definitivo no Canadá estarão habilitados a se candidatar à ajuda do Council para suas pesquisas, estudos e atividades artísticas apenas uma vez durante os primeiros três anos de residência ininterrupta neste país, depois dos quais, pela legislação vigente, poderão solicitar e adquirir a nacionalidade canadense. No caso de estrangeiro que preste “excepcional contribuição às Artes no Canadá” não será aplicado o critério acima.

Segundo a referida regulamentação, o Council “will encoraje the  organizations which its funds to make use of qualified Canadians to the maximum extent possible under federal and provincial law” e, ainda, “will be no general rule covering citizenship status of the creators of work performed by organizatioms applying for grants”.

Isto significa que as obras dos grandes compositores e autores teatrais do passado continuarão a ser apresentadas, sem restrição. É feita restrição para as orquestras sinfônicas que deverão incluir em seus programas pelo menos uma obra de canadense em cada dez obras apresentadas e um solista canadense em cada cinco que convidem a participar de seus concertos. Aos corais a exigência é mais amena: uma obra de autor canadense por temporada.

Chama a atenção o fato de que os redatores da nova “working regulations” chegaram ao ponto de definir quem, para os fins propostos, é compositor ou solista canadense: “a Canadian citizen or a person who has held landed imigrant status for at least 12 months”.

O “banco de arte” canadense que anualmente gasta cerca de um milhão de dólares com a aquisição de obras para aluguel aos escritórios governamentais ou para exposições em logradouros e edifícios públicos, só adquirirá obras de canadenses.

A presente regulamentação do Canadian Council certamente agradará a quase totalidade dos artistas e intelectuais canadenses, principalmente aqueles de menos projeção e menor gabarito. Estes, desde o ano passado, vem sofrendo as consequências da situação econômica pela qual atravessa o país, encontrando dificuldades para obter trabalho, remuneração suficiente e manter suas atividades, não concordando que vultuosas somas passem às mãos de artistas e intelectuais estrangeiros que aqui vem para fazer e apresentar o que eles também são capazes ou para falar e promover ideias que nada tem a ver com a tradição do país.

Recentemente a Actors Equity, união dos atores canadenses, criticou severamente o grupo teatral Citadel Theatre, de Edmonton, pelo fato de contratar para seu diretor na próxima temporada o inglês Peter Coe em substituição a John Neville, também inglês, enquanto jovens diretores canadenses aguardam oportunidade de trabalho para mostrar suas habilidades. Convém acrescentar que John Neville deixou Edmonton por Halifax onde irá dirigir o grupo ‘Neptune Theatre” que também foi reprimido pelo Actors Equity.

O mais significativo de tudo é que sendo o Canadá um país bilíngue e com multiculturalismo lembrado a cada instante, todos os que atualmente tratam de temas relacionados ao nacionalismo canadense nas artes e na cultura, mesmo Rosemary Sullivan no seu extenso artigo para a revista The Canadian  Forum, fazem referências e análises que englobam apenas a arte e a cultura dos que tem no idioma inglês o seu veículo de comunicação verbal. Esquecem todos, e a coincidência é curiosa, a maioria canadense dos francofones, na sua maioria concentrados na Província e Quebec, no presente, graças a liderança política que ganharam, os que, tanto no campo político e social quanto no artístico, cultural e intelectual, mais dão a entender estarem imbuídos de um espírito que visa a bem caracterizar o nacionalismo que desejam definir, implantar e defender.

 

Por mim redigido e datilografado, foi encaminhado ao Itamaraty pelo Ofício nº 231, de 14/03/1978, assinado pelo Encarregado de Negócios a. i. J. M. VILAR DE QUEIROZ

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