JOSÉ NEISTEIN COMENTA A OBRA DE LIVIO ABRAMO
L C. Vinholes
03.03.2025
Para esse artigo, valho-me de recorte de cinquenta anos, do dia 3 de março de 1974, do jornal diário ABC Color, um dos jornais mais importantes da imprensa paraguaia.
Convido ao leitor para observar com atenção a linguagem fraterna e calorosa usada por quem redigiu os cinco primeiros parágrafos introduzindo as palavras do diretor do Instituto Cultural Brasileiro-Americano de Whashington que fora chefe de Livio Abramo quando ele cuidava da Oficina de Gravura do mesmo instituto em Assunção. Vê-se que o valor do artista era reconhecido e se impunha até mesmo no país onde se refugiara.
Vejamos:
“Uma importante exposição de desenhos e gravuras de Livio Abramo foi realizada em Washington, na galeria de arte do Instituto Cultural Brasileiro-Americano.
Lívio Abramo, uma das principais figuras do advento da gravura moderna no Brasil, foi chefe do setor de artes visuais da Missão Cultural Brasileira aqui em Assunção, por muitos anos.
Ligado ao nosso país por muitos laços, toda a última etapa de sua obra criativa está ligada ao Paraguai, sua arquitetura e sua paisagem.
A exposição foi organizada por José Neistein, hoje diretor do Instituto Cultural Brasileiro-Americano e que ocupou cargo semelhante aqui em Assunção por dois anos”.
Palavras de apresentação por José Neistein
"Livio Abramo não é apenas, como Oswaldo Goeldi, um dos mestres clássicos da gravura moderna no Brasil, com sua qualidade incansável, ativa e contínua de inovação, mas também um verdadeiro clássico no melhor sentido da palavra: uma influência vital permanente, uma criatura de seu tempo, mas atemporal, sempre moderno, meticuloso na forma e cheio de vitalidade no conteúdo."
“A história de sua carreira guarda um paralelo próximo com a dos grandes nomes do nosso tempo, assim como do passado. Uma vida cheia de lutas, movida por uma visão humanística do mundo e uma consciência aguçada dos problemas sociais. Uma consciência vital das exigências técnicas de sua arte, autodidata no aprendizado do essencial e, ao mesmo tempo, um grande mestre no ensino, transmitindo aos outros os segredos de como manusear goivas, em uma palavra: um criador de arte e de artistas.”
“Ninguém na gravura brasileira moderna demonstrou tamanha maestria, tamanha técnica, tamanha exploração das possibilidades da xilogravura, tamanha demonstração virtuosa de expressão artística, tamanho refinamento artesanal de texturas. E tudo isso a serviço do que é fundamental em sua arte: o retrato do homem em seu ambiente, com seus problemas, suas aspirações, suas misérias e suas grandezas. As forças da natureza também estão presentes, a violência da tempestade, a delicadeza de uma flor, o vigor de um cavalo, a beleza e a sensualidade de uma mulher. Há também as luzes da cidade, o fascínio da arquitetura, a volúpia da dança.”
“O panorama de sua obra abrange desde os temas populares austeros, dos ofendidos e humilhados até a maravilha cósmica das chuvas tropicais, do sentido trágico da vida até o lirismo caloroso da silhueta de uma palmeira, como uma frase em escala musical contra o fundo do horizonte. Do poderoso expressionismo dos anos trinta, ao simbolismo sofisticado e à geometria caleidoscópica das décadas seguintes, das segundas linhas de seus retratos ao traço sutil que ele usa para pintar a arquitetura e a natureza que o cerca."
“Entre o preto e o branco, os tons de cinza nas composições simples, os padrões intrincados nas mais complexas, a clareza, em todas elas, o mistério supremo do seu manejo da luz e também em todas um casamento de vigor e delicadeza, os dois polos entre os quais o artista se move.”
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