O GRAVURISTA LIVIO ABRAMO POR ELE MESMO
L.C. Vinholes
04.03.2025
Enquanto o tempo passa, figuras importantes da cultura e das artes no Brasil, assim como sói ser em outros quadrantes do mundo, deixam de ser notícia e são preteridas e substituídas por quem, com facilidade, ganha apoio da mídia e das vazias redes sociais, com milhares de “visualizações” e milhares de “seguidores”. Não sou reformista, tenho posicionamento definido, quebrei tabus, aceito as pluralidades que enriquecem e aprecio o que diz o sábio ditado oriental, atribuído aos primórdios das civilizações que resultaram nas que temos na Ásia e, com destaque, na China: “o papel e o tecido têm 50% de direito e 50% de avesso”.
Guardado com carinho, tenho à minha frente o catálogo da exposição de Livio Abramo realizada na Missão Cultural Brasileira, em dezembro de 1967, sob os auspícios da Embaixada do Brasil em Assunção.
A exposição mostrou mais de cem xilogravuras, desenhos e aquarelas, produzidas entre 1930 e 1966, inclusive xilogravuras para ilustrar a edição especial, de 1948, do livro Pelo Sertão, de Afonso Arinos, originalmente publicado em 1898, com doze contos.
Dos textos que me chamaram a atenção, destaco o que está nas primeiras páginas do catálogo, assinado pelo autor das obras exibidas. É admirável como Livio, um homem simples e determinado, discorre o histórico do projeto da exposição, as relações que suas obras sempre tiveram com a realidade física e emotiva do país que ele começava a conhecer, as relações e a intimidade que ele ganhava a cada experiência de seus contatos com as cidades por onde passava e com o povo que lhes dava vida, com o qual as trocas que fazia enriqueciam seus saberes e davam mais razão de continuá-las a respeitar e seguir.
Não aceitando que o escrito por Livio continue a ser apenas um texto dentro de um catálogo guardado com carinho, decidi traduzi-lo para o português e publicá-lo neste site que abriga outros escritos meus, ter novos apreciadores, outra vez “ganhar o mundo”.
Vejamos o que ele deixou como legado, em dezembro de 1957:
“Desde 1956, quando realizei minha primeira exposição em Assunção, a convite do então chefe da Missão Cultural Brasileira, Dr. Albino Peixoto – esta é a segunda vez que exponho aqui – é a primeira vez que me é oferecida a oportunidade de apresentar ao público de Assunção uma retrospectiva de minhas obras, exposição cuja ideia devo à gentil iniciativa do Embaixador Mario Gibson Barbosa, sensível apreciador da arte e da cultura. Foi ele quem sugeriu combinar meu status atual como membro desta querida Missão com o de artista que eu conhecia há muito tempo. Dessa forma, não é só o artista que vem aqui: vários anos de trabalho conjunto com os paraguaios no campo da cultura fazem desta exposição mais uma manifestação do meu carinho por esta terra”.
“Nesta retrospectiva quis mostrar algumas obras de cada uma das fases da minha atividade artística, uma atividade que, aliás, não era regular e era muitas vezes interrompida, e durante muitos anos, pelas vicissitudes da minha vida”.
“O espectador encontrará, portanto, diferenças perceptíveis entre as diversas fases em que as obras aqui apresentadas são reunidas. Essas diferenças não chegam, espero, ao ponto de obscurecer certos traços essenciais que constituem, creio, ao longo da minha atividade artística, os determinantes do meu modo de expressão plástica. E aqui acredito que uma definição pessoal seja apropriada: acredito que a arte é um dos raros campos em que o homem pode se expandir com total liberdade. O fenômeno da criação artística vai do geológico ao social e ao humano, da realidade à pura abstração, sem limites de tempo ou espaço. Sem me deixar seduzir pelo anedótico, procurei o que me parecia essencial nos acontecimentos humanos e nas manifestações da natureza”.
“Com o tempo, meu interesse artístico pelo espetáculo se cristalizou – por um processo que levaria muito tempo para explicar e não cabe aqui – sempre oferecido pela estrutura grandiosa das formações geológicas, pela arquitetura da cidade, pelo sentido íntimo de cada país, cada cidade, cada terra, que continha um significado digno de ser descoberto e extraído do presente ou do passado. Acredito que esse meu interesse é tão legítimo – pois é atemporal – quanto qualquer outra interpretação da realidade artística. Por isso, permaneci fiel a esses sentimentos, que podem ser classificados de uma forma ou de outra, mas que considero tão atuais e válidos quanto qualquer outra forma de criação artística. Acredito ter contribuído o máximo que pude para a afirmação da arte moderna no Brasil e, da mesma forma que aprecio e aceito toda nova manifestação criativa no campo da arte, estou convicto da legitimidade da minha atitude artística. Deixo o julgamento crítico para outros”.
“Considero-me, ao contrário do que parece já estabelecido, muito mais afortunado como desenhista do que como gravador, embora seja mais considerado nesta última definição. Muitos dos designs em exposição são, ou podem parecer, simples esboços: considero o esboço a expressão mais imanente do momento criativo e, portanto, sua validade. Dentro deste critério estão incluídos quase todos os desenhos das fases “Macumba”, “Rio de Janeiro”, “Retratos” e alguns da fase “Paraguai””.
“Geralmente persisto em um único motivo por muito tempo: trabalho nele até sentir que esgotei todas as possibilidades que ele oferece. Nunca pensei em fazer “Paisagens”. O que procuro fazer é interpretar o significado da problemática de uma terra, a força dos sentimentos que ela provoca em mim e assim, quanto mais de acordo com minha própria natureza, mais imediata seja a interpretação plástica, como aconteceu por exemplo com meu “encontro” com as arquiteturas da realidade íntima da terra paraguaia. Esta realidade para mim assume um caráter verdadeiramente mágico, sobrenatural e metafísico, e é por isso que me senti capturado, arrebatado por esta “realidade””.
“À medida que meus olhos começaram a descobrir os tesouros que a solidão e o esquecimento quase apagaram da memória dos homens, fiquei cada vez mais encantado pelo fascínio dos segredos dessas terras. Aqui senti profundamente os tempos e os espaços”.
“Aqui encontrei o horizontal e o vertical, o ponto, a linha simples e sensível: minha busca constante pelo essencial.
Ritmos verticais severos e musicais.
O profundo mistério das horizontais inacabadas.
O calor metafísico das horas paraguaias.
A surpresa mágica do reencontro do tempo passado.
A alienação encantada de espaços infinitos.
A sensação indefinível de reviver visões ancestrais diante de terras desconhecidas.
A sensação de saciar um pouco da sede por aventuras solitárias que sempre encherão meu espírito com essas ressonâncias inesquecíveis...
Encontrei muitas coisas aqui.
O que mais eu poderia dizer?
“Talvez meu esforço para interpretar o significado desta terra não tenha sido tão conclusivo quanto eu esperava. Mas fui sincero e, nessa atitude de fidelidade aos meus sentimentos e à minha consciência artística, desejo reafirmar a coerência comigo mesmo”.
“Gostaria de agradecer mais uma vez ao Embaixador do Brasil em Assunção por tornar possível esta exposição, à Missão Cultural Brasileira na pessoa de seu líder, Dr. José Neistein, aos amigos que tanto colaboraram na realização e montagem desta exposição, e ao público paraguaio em geral, cuja estima e apreço têm sido, nestes anos de convivência com eles, uma valiosa e constante fonte de alento no trabalho por um conhecimento cada vez maior nos campos da arte e da cultura, entre os povos e artistas paraguaios e brasileiros”.
Observação
O conceituado jornal paraguaio ABC Color, de Assunção, de 3 de março de 1974, publicou comentários de José Neistein, então diretor do Instituto Brasileiro-Americano, em Washington, sobre a exposição de Livio Abramo na galeria daquele instituto. Por considera-los indispensáveis para se ter uma ampla visão sobre um dos criadores da gravura no Brasil, em um outro artigo, compartilharei seus dados com os leitores.
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