Repetindo parte do que escrevi no artigo Fragmentos 68 de RomuloAugustulo, de 18 de setembro de 2012, quando cheguei a Assunção em 1968, por curiosidade, uma das primeiras instituições que visitei foi Missão Cultural Brasileira, vistoso prédio do outro lado da rua em frente à Embaixada do Brasil no Paraguai, onde, entre brasileiros e paraguaios, conheci o diretor José Neistein, paulista, bacharel em filosofia pela Universidade de São Paulo e PhD em filosofia com tese sobre estética, defendida na Universidade de Viena, que se desempenhava com singular habilidade e pragmatismo, embora as dificuldades decorrentes do ambiente político da perversa ditadura de Alfredo Stroessner. Na mesma ocasião, conheci o gravador Lívio Abramo, fugido do insuportável regime que se instalara no Brasil em 1964, diretor do setor de Artes Plásticas do Centro de Estudos Brasileiros que engloba um Curso de Arte, para adolescentes; um Curso de Gravura; um Curso de Pintura; um Curso de História e Análise da Arte; e a Escolinha de Arte, para crianças, aos cuidados, da professora Dora Abramo.
Graças ao ambiente sério e acolhedor reinante na Missão Cultural Brasileira em terras guarani, não demorei muito para me entrosar com aqueles que davam vida e prestígio àquele polo de difusão da cultura e da arte brasileiras, e, para aproveitar, conhecer e sentir-me em casa em um país que, embora vizinho do Brasil, tem peculiaridades singulares e é muito diferente do Japão, onde eu acabara de passar meus primeiros dez anos de exterior.
Nos últimos dias de 1969, em “missão provisória”, fui transferido do Consulado-Geral em Assunção, onde estava lotado, para o Consulado-Privativo em Pedro Juan Caballero, Departamento de Amambai, fronteira seca com Ponta Porã, MT.
Acontece que a missão provisória durou mais do que seu nome diz e do esperado e lá fiquei até setembro de 1973, quando fui novamente transferido para a Embaixada do Brasil no Japão. Durante a curta permanência de 29 meses, para não ficar limitado a tratar da pluralidade de problemas típicos de uma fronteira seca e ocupado com o atendimento burocrático de paraguaios interessados em visitar o Brasil, tratei de providenciar uma série de eventos para ali difundir nossa cultura e nossa arte. Aproveitando material disponível e graças a meus contatos pessoais, anunciei dois eventos: um curso de xilogravura e uma exposição de fotos e informações sobre pequenas aeronaves.
Exposições da Embraer na garagem do Consulado
Como não tinha carro, mas sim um espaço ocioso na garagem do Consulado, minha primeira providência foi aproveitá-la reparando o piso, trocando vidros quebrados da janela, pintando as paredes de branco gelo e lubrificando as dobradiças das duas folhas da porta de entrada.
Aproveitando quatro cartazes de turismo e com o calendário para 1969 que havia ganho, preparei paneis de cartolina com excelentes fotografias coloridas de modelos de pequenos aviões que estavam sendo fabricados pela Embraer e que estariam disponíveis no mercado a partir de meados de 1970, “modelos econômicos de alta rentabilidade, para uso privado, viagens curtas ou para pulverizar extensas propriedades e plantações”, conforme anunciados. Da noite para o dia, estava com o material pronto para divulgar a exposição entre as dezenas de conhecidos que havia feito e aproveitar o oferecimento de cooperação da Rádio Comunitária local. A inauguração da mostra foi programada para coincidir com a viagem que o adido militar, coronel Rosa, faria ao 11º Regimento de Cavalaria do Exército brasileiro em Ponta Porã, viagem na qual contava com a companhia do diplomata ministro conselheiro Paulo da Costa Franco, cônsul-geral do Brasil em Assunção, em visita à Região Norte de sua jurisdição consular.
Em 2 de agosto de 1971, na concorrida abertura do evento, além das autoridades acima mencionadas e de numeroso público, estiveram presentes amigos da Associação de Caça e Pesca, a qual pertenci; o coronel Theófilo Gaspar de Oliveira, comandante do 11o Regimento citado; bem como o coronel Theófilo Miranda e o capitão Inacio Aguilera G. respectivamente, governador e vice-governador-chefe-de-polícia do Departamento de Amambai, e Ramon Gil Sanches, cônsul do Paraguai, em Ponta Porã.
Aguilera, Rosa, Miranda, Franco, Oliveira e Vinholes
Em 1974 deixei o Paraguay, transferido para o Japão, e nunca tive notícias sobre alguma venda de aviões, daquelas divulgados na exposição da garagem do Consulado-Privativo. Só fiquei sabendo que as plantações de soja no Amambai ocuparam áreas extensas e que, diariamente, pequenos aviões decolavam e aterrizava nos aeroportos de Pedro Juan Caballero e Ponta Porã.