Revendo anotações de 1958, encontrei as que um jovem compositor escreveu sobre uma das suas primeiras, mais simples e pretenciosas composições da época em que as novidades, o entusiasmo e os resultados eram, de fato, gratificantes.
Leio o que encontrei e tenho momentos em que o texto parece dizer que não foi escrito por mim, mas por alguém que sentia e pensava de maneira diferente da que sou hoje.
Transcrevo o achado, sem interferir no que foi registrado há décadas, para não desfazer a história que foram passagens de um tempo que se estende aos dias de hoje.
Vejamos, lembrando 1958:
As circunstâncias em que escrevi Existencialismo merecem registro especial. Fazia menos de um ano que havia chegado ao Japão para aproveitar a bolsa de estudos do Ministério da Educação daquele país e, nos finais de semana, costumava ir a Kinutamachi visitar a casa e o estúdio de Masami Kuni, um dos criadores da chamada “creative dance”[i].
Lá conheci não só todo o corpo discente que frequentava o Kuni Buyo Kenkyodyu (Instituto de Pesquisas de Dança Kuni) mas, também figuras de destaque na sociedade e nas artes japonesas, a maioria deles ex-colegas de Kuni da Universidade de Tokyo[ii], na qual fizera seus estudos de filosofia. Dentre eles destaco o senhor Morita[iii], fundador da Sony e um dos mais prestigiados empresários e industriais do Japão que doou todo o equipamento de som instalado no citado estúdio.
Mary Macknney a direita de Vinholes
e alunas do Instituto de Pesquisas de Dança Kuni
Ali estava também Mary Mackinney, jovem estadunidense aluna e companheira de Kuni que, aperfeiçoando seus conhecimentos, preparava o repertório para o recital solo que pretendia realizar no Nippon Seinenkan Hall, no prestigioso Bairro Akasaka.
Conversa vai conversa vem, Mary e eu, como desafio, enfrentamos uma nova experiência e trabalhamos de parceria na confecção de uma obra que seria resultado de economia de elementos, a mais enxuta possível, desprovida de qualquer excesso.
Mary Mackinney em 07.03.1958
Mary, na medida em que desenvolvia suas ideias, aproveitava os movimentos retilíneos de seus braços brancos, encompridados por seus longos e delicados dedos, combinados com outros de caráter circular, acentuados pelo rodopiar de uma saia negra, presa à cintura, que lhe chegava aos pés. Como toque especial, eram dosados os movimentos da cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, permitindo que seus longos cabelos loiros, presos na forma de rabo-de-cavalo, fossem jogados de um lado para outro, dando um toque de rebeldia à toda uma concepção matemática e geométrica do uso dos movimentos e dos espaços do salão do estúdio.
Sentado no chão, tendo como horizonte as longas janelas no alto das paredes pelas quais entrava a luz natural, via Mary como uma silhueta negra e, mentalmente, medindo os desenhos e as figuras por ela criadas, transformava estes valores, aparentemente empíricos, em medidas de tempo e superposição de espaços sonoros que norteavam à concepção musical.
O resultado foi uma obra de valores geminados, qual simbiose de movimentos e sons, unidos em um corpo só, sem dissociar espaço, tempo e som.
Foi sempre difícil imaginar Existencialismo executada sem alguém realizando a coreografia criada por Mary. Mas creio que nestas ocasiões, de alguma forma, a obra que criamos como resultado de nossa parceria é complementada em algum universo livre das medidas e dos valores transitórios do nosso tempo.
Duas décadas depois
Amadurecido pelas experiências vividas, com as pesquisas e estudos realizados e com as decisões tomadas no decorrer de anos, meu pensamento já não é o de um jovem no início de sua jornada, mas de alguém com algo mais para contar.
No final de 1977, logo após minha mudança do Japão para o Canadá, recebi exemplar do International Who´s Who in Music, publicado na Inglaterra, com milhares de verbetes sobre compositores, intérpretes e regentes de todos os tempos e de todos os quadrantes do globo.
Instintivamente, procurei verificar se meu nome figurava daquela publicação e se ali estavam também os dos compositores brasileiros mais conhecidos: Villa-Lobos, Guarnieri, Mignone, Koellreutter, Gilberto Mendes, etc., o que se confirmava a cada página por mim folhada.
Nos meu verbete, além de informações referentes à minha formação, inclusive a passagem pelo Departamento de Música[iv] do Palácio Imperial de Tokyo e da minha participação em alguns eventos internacionais patrocinados pela Unesco e AICA[v], é citada também minha relação com a poesia concreta e o fato de ser autor de uma apostila sobre acústica[vi], em parceria com Brasil Eugênio da Rocha Brito e Antônio Novaes. Desatualizado estava meu endereço postal, figurando o da Embaixada do Brasil em Tokyo[vii], da qual desliguei-me em agosto de 1977.
Por curiosidade, interessou-me verificar quantos seriam os compositores flautistas que tinham seus nomes incluídos naquela publicação. Pacientemente, fui checando página por página e anotando nomes e endereços em uma lista que, ao alcançar os últimos verbetes, tinha compilados mais de 15 nomes.
Em 20 de junho de 2005, preparei uma carta-circular em inglês e com ela enviei, para todos os que figuravam da relação recém-feita, exemplar da minha peça para flauta solo intitulada Existencialismo. Esta obra é dodecafônica e foi escrita em 1958 para coreografia do mesmo nome de autoria da “creative-dancer” estadounidense Mary Mackinney e publicada em Tokyo, em 1960, pela Editora Shin Nippaku[viii]. Incluí também cópia dos dados biográficos do catálogo de minhas obras publicado pela Universidade de Brasília, de parceria com o Departamento Cultural do Itamaraty e a Seção Brasileira da Sociedade Internacional de Música Contemporânea, bem como de três programas de recitais no Brasil e no exterior dos quais consta minha Existencialismo.
A carta-circular aos flautistas do
International Who´s Who in Music
Dear friend .......,
It is a long time since our names were included in the International Who´s Who in Music and we exchange letters in the period 1977/1978. I return from Canada to Brazil on November 87, work in Milano for three years (1996 to 1999) and came back to Brasília were I am going to be from now on.
I am trying to contact old friends just to have news from them and to know how they are doing. I will be please to know how are you doing now.
Also, I would like to know if my work Existencialismo, for flute solo, was played by you or other flutist you know. I so, please let me know the date, the place and the name of the flutist, in order to include this information in the chronology of this little piece.
I am dedicating myself to composition and writing poems.
Hoping to have news from you.
With my best wishes,
Da correspondência de retorno, acusando recebimento de minha missiva e do material enviado, duas tiveram significado especial.
Resultado da colaboração com a flautista de Montana
Da cidade de Missoula, no Estado de Montana, nos Estados Unidos, em 9 de janeiro de 1978 chegou correspondência de Mary Jean Simpson, agradecendo o contato por mim iniciado e informando estar realizando pesquisa valendo-se de uma bolsa da universidade do seu Estado natal e que encontrava dificuldade em localizar três livros considerados essenciais para subsidiar ao trabalho pretendido. Esperando poder contar com minha colaboração, relacionou as obras de Ysia Tchen “La Musique Chinoise en France au XVIIIme Siecle” (Paris, 1948), de Bliss Wiant; “The music of China” (Hong Kong, 1965), da Chung Chi Publications, e de Joseph-Marie Amiot “Memoire sur la musique Chinoise” (Paris, 1779).
Valendo-me dos préstimos da bibliotecária Janete McGregor, funcionária do Setor Comercial da Embaixada do Brasil em Ottawa, que também, em muito, me ajudou nos contatos com poetas e escritores canadenses e, com relativa facilidade, foram localizadas na Biblioteca da Universidade de Toronto as duas obras em francês. Delas foram tiradas cópias e pagos os direitos pertinentes e feita a remessa que chegou às mãos de Mary Jean na segunda quinzena de fevereiro de 1978. Providenciei, ainda cópia da publicação “La musique Chinoise”, de Louis Laloy, que, na década de 1960, havia adquirido em sebo do Bairro Roppongi, em Tokyo.
Com a carta de 9 fevereiro de 1978 vieram outras informações que complementaram aquelas que eu havia lido no Who´s Who dizendo que ela: “fez seus estudos com Shirley Justus, John Hicks e Julius Baker, é a principal flautista da Sinfônica de Missoula, como solista apresentou-se com a Orquestra Sinfônica Americana regida por Leopoldo Stokowski, com a Sinfônica da Carolina do Norte, a Sinfônica de Shereveport, nos Estados Unidos, e a Sinfônica da Província de Quebec, no Canadá. Como flautista do Quinteto de Sopros de Montana, percorreu o Nordeste do seu país e o Canadá. Foi professora do Colégio Centenário e, na época da nossa correspondência, atuava como Professora Assistente da Universidade de Montana, lecionando flauta e supervisionando o quinteto de sopros dos estudantes bolsistas daquela instituição.
A última notícia que recebi de Mary Jean veio em um cartão postal de janeiro de 1980 quando ela estava às voltas com o preparo da revisão da tese de doutorado a ser defendida no College Park da Universidade de Maryland. Dela não tive mais notícias e fiquei sem saber o resultado de suas pesquisas.
A ditadura de Praga e o músico flautista
A outra correspondência veio da Checoslováquia, do flautista Stanislav Hrubý[ix]. É datada de janeiro de 1978 e nela esclarece que, embora tendo capacidade para tocar até mesmo “more exciting compositions”, não podia tocar em público, por ser apenas um flautista de orquestra e que, para desenvolver a atividade como solista, ainda não tinha credenciamento, significando licença política de seus superiores.
Em junho de 1978, respondendo minha carta de maio daquele ano, Stanislav faz uma declaração que me deixou extremamente chocado, apesar de não ignorar o regime vigente no seu país, onde o estafeta controlava até mesmo a vida particular dos seus nacionais. Escreveu que “infelizmente, já não devo corresponder-me com estrangeiros sem conhecimento dos nossos superiores”, mas, manifestando esperança, mostrou acreditar que “talvez esta medida seja temporária”. Concluiu pedindo ser desculpado e afirmando: “não devo escrever pelo momento”. O silêncio que, em música, eu prezava tanto, foi desta vez uma tortura indescritível.
Nossa troca de correspondência nos anos subsequentes limitou-se a alguns cartões postais alimentando o desejo de não cancelar nossos contatos. Foi assim que fiquei sabendo que, em maio de 1979, ele, como membro da Orquestra Sinfônica Checa, havia participado de turnê em alguns países europeus, inclusive a Áustria. O colorido cartão de Viena mostra o monumento a Mozart no Parque Público, os monumentos a Johann Strauss e Robert Shubert no Parque do Estado e vistas das cúpulas da catedral de Santo Estevão e da Opera Nacional.
Em setembro de 1980, voltei a contatar Stanislav enviando-lhe recorte do diário The Citizen, de Ottawa, de 6 de setembro daquele ano, noticiando os principais eventos musicais da temporada 1980-1981, inclusive os concertos da Orquestra Filarmônica de Praga, previstos para 14 e 15 de março de 1981. Na mesma correspondência, contei ter assistido, em 4 de janeiro, a inauguração da exposição de fotografias Checoslováquia hoje, patrocinada pela Embaixada Checa, no Centro Nacional das Artes de Ottawa. Da exposição, destacando monumentos e prédios, constavam três fotos da referida orquestra no palco do Teatro de Praga, mas, infelizmente pelos ângulos que foram tiradas, não era possível ver os seus flautistas, cobertos por magníficas colunas. O que não registrei nesta carta foi que, representando o Embaixador do Brasil Geraldo de Carvalho Silos e como Encarregado do Setor Cultural da Embaixada, tive oportunidade de cumprimentar ao Embaixador Stefan Murin e de contar minha relação com o músico do seu país. Contei sim ter viajado ao Brasil, nos meses de julho e agosto, para proferir conferências e para assinar contrato com a Editora Novas Metas[x], em São Paulo, interessada em publicar algumas das minhas composições.
Só em 1997, quando trabalhei em Milão para criar o Instituto Brasil-Itália (IBRIT) é que telefonei para Stanislav. Nosso diálogo foi efêmero, o suficiente para saber que estava aposentado, sem recursos, com a saúde abalada e sem ânimo para viver.
Apresentações de Existencialismo
No final deste artigo, não seria junto deixar de fazer referência às primeiras apresentações da peça que conquistou sua liberdade e tornou-se independente do seu criador. Apenas os dados que chegaram ao meu conhecimento.
Vejamos:
07.03.1958 - Primeira audição mundial. Nihon Seinenkan Hall, Tokyo. Usada na dança homônima da estadounidense Mary Mackinney, do Estúdio Kuni Buyo Kenkyudyo, Tokyo. L. C. Vinholes (flauta).
24.10.1970 - Primeira apresentação no Brasil. Società Italiana di Beneficenza, Santos. VI Festival de Música Nova. Festival da Primavera. Música Ontem e Hoje. Prefeitura Municipal de Santos. Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes. Grance Handerson Busch (flauta).
26.09.1971 - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo. Semana Musicanova. Patrocínio: Departamento Municipal de Cultura de Santos. Grance Henderson Busch (flauta).
30.04.1975 - Foyer Internationel d’Acueil, Paris, França (30, Rue Cabanis, Paris 14e. Metro Glaciere). “Concert organise per le Crous - Service de L’accueil des Etudiants Etrangères Boursieres du Government Français”. Antonio Carlos Carrasqueira (flauta).
16.06.1976 - Auditório do Instituto de Artes do Departamento de Artes, UnB. Brasília. Música de Câmara do Século XX. Norberto S. Rocha (flauta).
10.09.1976 - Centro de Cultura de Santos. XII Festival Música Nova de Santos. Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Santos. Marco Antônio Cancello (flauta).
23.09.1977 - Sala de concertos da Escola de Música de Brasília. III Encontro Nacional de Compositores de Brasília. Fundação Cultural do Distrito Federal. MEC/Funart/INM/CEF. Norberto Santos Rocha (flauta).
18.08.2003 - Auditório Tasso Corrêa UFRGS. Porto Alegre. XIV Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (Anppom). Ayres Potthoff (flauta).
xxxx - Auditório da Casa Thomas Jefferson. Brasília. Wendy Rolfe (flauta) e Maria José Carrasqueira (piano).
[i] Estilo de dança moderna criada pela coreógrafa alemã Mary Wigman (1886-1973) da qual Masami Kuni foi aluno.
[ii] Com o Acordo Ortográfico de 1990, as letras “k”, “y” e “x” foram oficializadas no alfabeto da língua portuguesa entrando em vigor em 2009, razão pela qual, hoje, escrevo Tokyo com “k” e não como antes, Tóquio.
[iv]Kunaicho gakubu = Departamento de Música do Palácio Imperial, no qual estudei 笙 = shõ = órgão de boca e 篳篥 = hichiriki = espécie de oboé de palheta dupla, instrumentos do 雅楽 = gagaku = música da corte japonesa, respectivamente com Sueyoshi Abe, considerado “tesouro vivo” e Hiroharu Sono.
[vi] A Apostila sobre acústica, também conhecida por Acústica para os que fazem e gostam de música, é de 1957.
[vii] Para livrar-me do encarecimento da vida no Japão, solicitei ao embaixador Dário Castro Alves transferência para outro posto e, atendido, fui lotado na Embaixada do Brasil, em Ottawa.
[viii] Shin Nippaku, a editora Novo Brasil-Japão que criei em Tokyo para financiar a divulgação de música e poesia brasileiras.
[ix] Em 07.08.2012, no site <www.usinadeletras.com.br> publiquei o artigo intitulado Um flautista chamado Stanislav Harubý.
[x] A Editora Novas Metas publicou a partitura de Um e/ou outro, para piano, de 1954 (1983); em 1980 as obras Tempo-Espaço I e II, de 1956, XV, de 1978 e XVa, de 1978; e XVI, de 1980 (1982). Entre parentes datas de edição.