Dessa forma, criou-se um estereótipo que os revolucionários eram pessoas pacíficas, que somente faziam protestos e que, simplesmente por isso, estavam sendo brutalmente perseguidas, torturadas e assassinadas pelas Forças Armadas brasileiras. Realmente nesse viés reina o arquétipo do mártir, daquele que numa luta pacífica morre pela causa.
Mas não foi bem assim que as coisas aconteceram. Nas palavras de Eduardo Jorge: “muitas vezes as pessoas pensam que não existiam coisas, no campo da esquerda, igual e até pior, em vários aspectos."
Os Sequestros
1 – Do Cônsul do Japão – 11/03/1970
Aproximadamente às 18 horas do dia 11 de março de 1970, após seu expediente de trabalho, Nobuo Okushi, Cônsul do Japão, voltava para sua casa quando o veículo oficial no qual estava foi interceptado por um Volkswagen. O cônsul japonês ao ver um dos ocupantes do outro veículo sacar uma metralhadora, pensou ser uma abordagem da polícia civil. Ledo engano. Estava sendo sequestrado.
Numa ação rápida e bem orquestrada o cônsul foi retirado de seu carro e levado ao lugar onde, pelos próximos quatro dias, seria seu cativeiro.
Por quê? Ao que tudo indica, aproximadamente um mês antes, alguns integrantes de um grupo revolucionário haviam sido presos por assassinar um policial militar. Como eles tinham informações vitais sobre os campos de treinamentos guerrilheiros do Araguaia, e sob interrogatório não tardariam muito a falar, foi necessário traçar uma estratégia para libertá-los. O sequestro do Cônsul do Japão foi o modo de pressionar as autoridades brasileiras perante a comunidade internacional.
Logrou êxito. Cinco guerrilheiros foram libertados da prisão em troca da vida do Cônsul. Depois de seu translado ao México, o cônsul do Japão foi libertado. Era 15 de março de 1970.
Meses depois todos os que participaram desse sequestro tinham sido presos ou mortos em confronto com a polícia.
2 – Do Embaixador da Alemanha 11/06/1970
Era Copa do Mundo e as pessoas estavam atentas ao jogo de Inglaterra e Tchoslováquia. Foi nesse clima que o diplomata alemão Ehrenfried Von Hollenben deixou a embaixada em direção a residência oficial. Entretanto, naquele dia seria diferente. Não chegaria em sua casa.
O embaixador estava escoltado. Nos bancos da frente de seu Mercedes, um motorista e um agente de polícia federal. E no carro que vinha logo atrás, mais dois, agentes da mesma polícia.
Em meio ao trajeto, o veículo no qual estava o embaixador foi atingido por uma pick-up. Nesse momento um dos sequestradores, que estava postado na rua, metralhou o veículo que escoltava o embaixador sem que houvesse tempo hábil para esboçar defesa. Nesse interim, outro guerrilheiro aproximou-se do veículo oficial e efetuou vários disparos no policial federal que estava no banco da frente. Matou-o instantaneamente. O embaixador foi retirado do carro e levado ao cativeiro.
Tudo muito bem planejado. Não levou mais de três ou quatro minutos. Deixando um saldo de um morto e dois feridos.
Cinco dias se passaram em negociações. Eles queriam a libertação de 40 guerrilheiros em troca da vida do embaixador. O governo brasileiro cedeu às exigências. Os presos foram soltos e banidos do país por meio do Decreto 66.716/70. O embaixador foi libertado.
3 – Do Embaixador dos Estados Unidos 04/09/1969
De todos os sequestros levados a cabo pela esquerda armada durante o regime militar, com certeza, esse foi o mais emblemático. O de maior repercussão e, de todos, o único que se tornou livro.
Primeiramente, houve um levantamento de dados sobre a vida e hábitos do diplomata. Tudo aponta a uma possível “infiltrada”, que se aproximou de um dos policiais que fazia a segurança do embaixador, iniciou um namoro com ele, e obteve todos as informações necessárias para realização do sequestro.
Tudo planejado, à execução. Por volta das 14h do dia 4 de setembro de 1969, o Cadilac de Charles Elbrick, embaixador dos Estados Unidos, ia em direção a embaixada, o conduzindo a mais uma tarde de trabalho. Sem seguranças, somente acompanhado com o motorista, era presa fácil. Foi no que deu. No meio de uma das travessas daquela região o veículo do embaixador foi obrigado a parar porque um carro à sua frente estava manobrando. Aparentemente, nada de demais. Não, era uma emboscada.
No momento em que o carro de Elbrick parou, quatro indivíduos entraram. Diante da surpresa e indecisão do embaixador em obedecer as ordens dos sequestradores, restou-lhe uma coronhada na cabeça. Foi arrastado em sangue. Esse seria o primeiro de uma série de sequestros a diplomatas.
Dessa vez, cometeram um erro. Ao liberar o motorista não se precaveram, ele viu o veículo no qual o embaixador foi levado, anotou a placa. Algo que nem havia começado já estava prestes a terminar. Em poucas horas, de posse das informações de placa do veículo, os investigadores descobriram quem eram e onde estavam os que haviam participado do sequestro. Já estavam sendo monitorados.
Por uma questão de cautela, o governo brasileiro preferiu ceder às exigências dos sequestradores, libertando e enviando ao México 15 guerrilheiros, para depois agir contra os criminosos. A vida do embaixador precisava ser preservada. No dia 7 de setembro, anoitecendo, os sequestradores, aproveitando-se de um congestionamento causado por um jogo no Maracanã, libertaram o embaixador nas imediações e conseguiram fugir.
Não tardou muito para o primeiro sequestrador ser preso. Após o primeiro, todos foram caindo como que efeito dominó. Embaixador libertado, sequestradores presos e quinze guerrilheiros no México.
4 – Do Embaixador da Suíça 07/12/ 1970
Como a Suíça sempre foi um país que manteve neutralidade, Giovanni Enrico Bucher, seu embaixador, descartava os avisos da Polícia Federal para que se provesse de equipe de segurança ou pelo menos mudasse seu itinerário. Sua atitude mostrou-se um erro.
Os sequestradores sabiam que o diplomata tinha o costume de sair de sua residência, aproximadamente às 09h, em seu Buick azul, acompanhdado, somente, por um segurança e um motorista, em sentido aos escritórios da embaixada. Presa fácil.
Um “olheiro” ficou de prontidão. Quando avistou o carro do embaixador, sinalizou. Nesse momento, dois carros fecharam o veículo do diplomata, um na frente e outro atrás. Para garantir o sucesso da ação, um outro carro, no qual estava um dos membros da quadrilha, simulou uma pane mecânica na esquina, impedindo que qualquer outro veículo entrasse naquela rua.
Quando a armadilha estava fechada, um dos sequestradores aproximou-se e desferiu vários tiros no segurança, matando-o na hora. Quem era esse sequestrador? Carlos Lamarca, aquele que é chamado de herói... O embaixador foi colocado em uma Kombi e levado ao cativeiro.
A Suíça se expressou no sentido de o sequestro ser um atentado aos direitos humanos e uma violência contra pessoas inocentes.
Esse foi o sequestro mais longo e dramático de uma autoridade estrangeira em nosso território. Foi mais de mês marcado pela tensão. Os sequestradores ofereciam um lista de guerrilheiros a serem libertados e o governo brasileiro mostrava a impossibilidade (já estavam em liberdade) ou sua discordância (tinham cometido crimes muito graves). Ao que tudo indica, por muitas vezes os sequestradores consideraram seriamente a morte do diplomata suíço.
No dia 13 de janeiro de 1971 a vida do embaixador suíço foi trocada pela liberdade de 70 guerrilheiros, que foram enviados para o Chile.
No dia 16, do mesmo mês, o diplomata suíço foi libertado nas imediações da igreja da Penha. Chegava ao fim mais um sequestro de autoridade estrangeira.
5 – De José Armando Rodrigues 29/08/1970
Os sequestros realizados pela esquerda armada durante o regime militar tinham, basicamente, só um motivo: a libertação de “presos políticos”. Cabe salientar que, por vezes, esse crime foi usado como meio para fuga de território brasileiro.
Contudo, dessa vez o modus operandi mudou.
No data em questão, após ter seu estabelecimento comercial roubado num valor de, aproximadamente, 30 mil cruzeiros, José Armando Rodrigues foi sequestrado. Em seu cativeiro foi torturado e executado. Após, os guerrilheiros desfizeram-se de seu corpo jogando-o em precipício na Serra de Itabira.
O caso chocou a opinião pública.
A pergunta que fica é por quê? Não pediram a libertação de ninguém e não usaram o sequestro como forma de evadir-se. Então por que torturar e matar um simples comerciante? Não havia motivos, tratou-se de crime gratuito. A única explicação que vislumbro encontra suas raízes no pensamento da esquerda: os comerciantes, até hoje, são vistos como pequenos burgueses, conceito profundamente negativo segundo a dialética marxista-leninista.
Em pouco tempo todos os envolvidos estariam presos.
6 – De Aviões Comerciais
É interessante notar como o povo brasileiro desconhece sua própria história. Se perguntarmos as pessoas se houve um sequestro de avião em nosso país, a maioria delas dirá que não.
Contudo, de 1969 a 1975 ocorreram 15 sequestros de aviões comercias no Brasil, todos realizados pela esquerda revolucionária armada. Era algo muito bem planejado. Para conseguir passar pela segurança aeroviária, meses antes os sequestradores assaltavam um posto de identificação civil do qual roubavam dezenas de espelhos de identidade, visando prover identidades falsas aqueles que participariam dos sequestros aeronáuticos.
A maioria dos casos se deu da mesma forma: os aviões sequestrados tinham como destino Cuba, onde os guerrilheiros pediam asilo político a Fidel Castro, que de regra, concedia. Algumas fontes dizem que esses sequestros era uma forma de esses guerrilheiros chegarem aos campos de treinamento cubanos, no qual eram adestrados na luta armada revolucionária.
Também ocorreram tentativas de sequestros de aeronaves, ao menos três, na qual sequestradores saíram mortos. Não há notícias que em nenhum desses eventos algum civil tenha se ferido ou perdido a vida.
Conclusão
É importante perceber que, todas as vezes que uma autoridade é atacada em território estrangeiro, há muita pressão da parte dos governos de seus respectivos países para que as autoridades locais tomem providências imediatas e enérgicas para a solução do impasse.
Pois bem, não foi diferente nessa época. Todas as vezes que os grupos revolucionários sequestravam autoridades estrangeiras ou voos com pessoas de diversas nacionalidades, havia clamor internacional para que as autoridades brasileiras dessem uma resposta à altura. Foi nesse contexto que muitos revolucionários da esquerda armada foram mortos. Mortos em resistência à prisão ou em confronto direto com as autoridades que visavam reestabelecer o “status quo ante bellum”.
Resistir até a morte, nunca se entregar, morrer atirando. Esse era o lema desses revolucionários.
Sempre, após suas ações armadas, esses grupos faziam propaganda panfletária, ou seja, por meio de panfletos, espalhados nos locais dos eventos, se gabavam de seus crimes (perpetrados contra pessoas inocentes – como no caso do comerciante José Armando) como feitos revolucionários. Isso despertou a ojeriza da população e das autoridades. A resposta foi dura.
O sequestro é um dos crimes mais perversos que se pode cometer contra um ser humano. Sei o que alguns irão argumentar: “mas eles faziam isso para a libertação de presos políticos.” Presos políticos?! Pessoas que estavam presas em virtude de terem cometido os mesmos crimes que eles. Não, isso não é justificável.
Não há motivo ideológico possível que possa justificar o assassinato de um empresário que não tinha ligação alguma com o regime militar. E mesmo que tivesse, isso não seria motivo para sequestra-lo, após roubar sua empresa, torturá-lo e executá-lo.
Não é demais chamar a atenção a que algumas das pessoas que participaram desses sequestros estão vivas e ocuparam altos cargos da República. Outros deles, receberam indenizações milionárias por terem sido perseguidos durante a ditadura militar... Perseguidos? Engraçado, dizem que o crime não compensa...
Não, a verdade precisa ser dita em alto e bom tom: “eles não eram os 'mocinhos' ”. Eles eram sequestradores! Uma quadrilha de...
Fonte: https://www.jusbrasil.com.br/artigos/eles-nao-eram-os-mocinhos-2/402313686