Não é suficiente dizer, mas é indispensável provar, tanto na vida pública quanto na privada. Isso é como se fosse uma verdade pétrea que vai ser objeto desse artigo e que me acompanhou por décadas.
Depois que nos mudamos da Avenida Bento Gonçalves, onde minha irmã Zaira nasceu em 1934, para a casa da Rua Argolo nº 563, comecei a acompanhar com interesse e curiosidade o que acontecia na nossa vizinhança. Chamava minha atenção a música que vinha de uma das três janelas da casa que ficava na calçada em frente da nossa. A música era o “passa tempo” de Caetano Maia, pai de duas meninas, Ligia e Inez, e um menino, meu xará. Caetano, descendente de italianos, um dos proprietários da fundição localizada no nosso bairro, era fiel apreciador de áreas de óperas e canções italianas tradicionais. Com o tempo, comecei a selecionar o que ouvia e a anotar a letra das canções. Memorizei os nomes dos intérpretes tenores Erico Caruso, Plácido Domingo, Luciano Pavarotti e as letras das melodias de minha preferência. Gostei muito da canção que começava com uma rápida introdução e logo vinha seu primeiro verso com a declaração “Mama”, de Cesare Andrea Bixio que, em 1940, ganhara letra em italiano de Bixio Cherubini. Anos depois, já rapazola, a Rádio Pelotense, em programa com patrocinadores, abriu espaço que começava com os acordes da canção de Cherubini e continuava com minha interpretação, acompanhado ao piano por Alcebíades Lino de Souza. Para não esquecer e para evitar dissabores, as letras das canções italianas do seu Caetano e dos boleros que escutava na rádio argentina eram caprichosamente anotadas em uma caderneta, daquelas usadas para anotar as compras feitas no armazém da esquina e pagas no final do mês.
Além de “Mama so tanto felice” a outra canção que sempre me fascinou foi “O sole mio”.
Vejamos a letra da primeira, no original e na versão livre em português:
Original em italiano
Versão em português
Mamma, son tanto felice
Perche retorno da te
La mia canzone ti dice
Ch'é il più bel giorno per me
Mamma, son' tanto felice
Vivere lontano perche?
Mamma, solo per te la mia canzone vola
Mamma, sarai con me, tu non sarai più sola
Quanto ti voglio bene
Queste parole d'amore
Che ti sospira il miocuore
Forse non s'usano più
Mamma, ma la canzone mia più bela sei tu
Sei tu la vita e per la vita non ti lascio mai più
Mãe, eu estou tão feliz
Porque estou voltando para você
Minha canção te diz
Que é o dia mais lindo para mim
Mãe, eu estou tão feliz
Morar longe por que?
Mãe, só por você minha canção voa
Mãe, você estará comigo, você nunca mais estará sozinha
O quanto eu te quero bem
Estas palavras de amor
Que meu coração suspira por você
Talvez elas não sejam mais usadas
Mãe, mas minha canção mais linda é você
Você é vida, e por amor à vida nunca mais te deixarei
Confesso que durante minha vida no Brasil e nos períodos que vivi no exterior e que comentei ter sido, na minha mocidade, intérprete de canções italianas, notei nos semblantes dos interlocutores uma certa desconfiança sobre a veracidade no que dizia.
Conforme está na primeira linha desse artigo: Não é suficiente dizer, mas é indispensável provar. Foi isso que aconteceu quando lembrei ter guardado o detalhado cartaz anunciando as “Grandes Quermesses pró pintura da Catedral” de Pelotas, com diversos eventos entre os dias 10 e 13 de setembro de 1949. Na papelada que guardo, achei o providencial cartaz.
Cartaz das Grandes Qermesses pró-pintura da Catedral de Pelotas
Nesse cartaz, no dia do encerramento da quermesse, lá está o que eu buscava há muito tempo. Em letras miúdas, mas em uma só linha, lê-se: Dia 13 – Luiz Carlos Lessa Vinholes com canções italianas. Cantei a capella[i], isto é: sem acompanhamento. Naquela tarde, naquela festa, mais uma vez, o povo ocupando a Praça José Bonifácio, na frente da Catedral de São Francisco de Paula, ouviu as duas canções italianas acima mencionadas.
Se com este cartaz ganhei credibilidade, não vejo porque não reiterar que, em programa na Rádio Pelotense, depois de uma rápida introdução com os primeiros acordes da canção aqui reproduzida, eu era anunciado como o “cantor de Mama”, cantando acompanhado pelo exímio e experiente pianista Alcebíades Lino de Souza[ii].
Recorte do cartaz da Quermesse pró-pintura da Catedral de Pelotas
Vejo que, nas informações sobre o último dia da quermesse também são dados os nomes dos maestros Tagnini e Bandeira, os primeiros regentes titulares da Orquestra da Sociedade Orquestral de Pelotas que teve como dedicado administrador ao dr. Paulo Duval, conhecido e prestigiado otorrinolaringologista.
Confesso que a famosa canção italiana que me deu muita alegria, depois que deixei o Brasil em julho de 1957, passou a ser também motivo de preocupações e tristeza. Eu não mais a cantava não por faltar-me voz, mas por não querer repetir certas promessas que nela estão implícitas e que me faziam sentir em condições de não poder cumpri-las. O alvo sempre lembrado era minha mãe, no batismo Joaquina e por familiares e amiga(o)s carinhosamente tratada por Caquína.
Expressão sentimental
Às vésperas de meu embarque para Japão, embora sabendo do apoio que sempre recebi de minha mãe, senti a distância que passaria a nos separar e, em 4 de julho, a ela dediquei o mini poema a seguir:
só
sim
sem
tu
tu
só
sem
mim
Este poema chegou a ser publicado, mas sem ninguém saber quem era o “tu”. Aproveitando informações recebidas de amigos, tracei o seu pequeno histórico. Figurou da mostra de cartazes e poemas da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, de 14 a 20 de agosto de 1963, promovida pela Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais, na Pampulha, Belo Horizonte; e ocupou a página 91 da revista Reenbou nº 1, de dezembro de 1979, editada e publica pelo poeta Basil Mogridge, professor do Departamento de Língua Germânica da Universidade Carleton, em Ottawa, Canadá. Hoje ela pode ser encontrada na antologia Retrato de Corpo Inteiro, edição artesanal que preparei reunindo o que poetei de 1947 a 2007, exemplar que doei ao acervo da Discoteca L. C. Vinholes, do Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas.
Passeios e encontros
Recordo com imensa alegria que em uma das minhas visitas-relâmpago ao Brasil, minha mãe, aproveitando a viagem a São Paulo, esteve comigo em Santos, Rio de Janeiro, Assunção e Foz do Iguaçu. Na capital paulista conheceu ao seu neto Daniel que nascera dia 16 de junho de 1969; em Santos conheceu a família de Rita e Brasil Eugênio da Rocha Brito, padrinhos de minha primogênita Irani e, apesar do dia nublado, aproveitou para passear descalço pelas areias da Praia do Gonzaga; no Rio de Janeiro, em 20 de junho de 1969,
Joaquina, à direita, e Brasil da Rocha Brito (de mãos dadas com Irani) e família, à esquerda
O Cristo Redentor e Joaquina
Joaquina contemplando a Baia de Guanabara
tomou o trenzinho para o Corcovado, contemplou a paisagem da Bahia da Guanabara e a imponente imagem do Cristo Redentor, recordando que, em 12 de outubro de 1931, seu pai, meu avô Antonio Fernandes Lessa, assistira a primeira vez que, desde Roma, a estátua fora iluminada por um sinal de rádio acionado pelo físico e cientista Guglielmo Marconi; e na Capital paraguaia, demorou-se por algum tempo, provou tereré, bebida de origem guarani preparada com água gelada e erva-mate, como o chimarrão, tomada com uma bamba para filtrar o pó, bebida que desde 2020 é considerada Patrimônio Imaterial da Humanidade, símbolo da cultura Pohã Ñana do Paraguai e do Centro-Oeste brasileiro; na Praça do Hotel Guarani, tirou uma foto com o cacique dos Maka que tem sua modesta morada a 10 km de Assunção, aldeia por mim visitada duas vezes. Os Maka de origem guarani, vivem em situação precária, andam pelas ruas de Assunção vendendo seus produtos e, na aldeia, nos finais de semana, exibem seus bailados e cobram pelas fotos que tiram com turistas e curiosos
Joaquina e o cacique dos Maka
No programa do retorno ao Brasil, de Assunção a Porto Stroessner, hoje Ciudad del Este, viajamos de ônibus passando por Caaguazú, onde, aproveitando os quinze minutos da parada, atendendo sua curiosidade, compramos pequenas galletas[iii], espécie de pãozinhos típicos da cultura paraguaia, bastante secos para nosso paladar. Atravessamos a Ponte da Amizade, pegamos um taxi até o aeroporto e ali nos despedimos: dona Joaquina foi para Porto Alegre, onde, conforme previamente combinado, seu sobrinho Paulo Lessa[iv] a esperava para leva-la de carro até Pelotas, e eu só, novamente de ônibus, retornei em uma longa e sofrida viagem à Assunção.
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Muitos anos se passaram, até 1986 tivemos outros encontros e, agora, aguardo apenas o da eternidade.
[i]A capella, canto sem acompanhamento de instrumento.
[ii] No artigo “Meus cantares, a obra do pianista Alcibiades Lino de Souza”, publicado em 29 de novembro de 2025, no site conto como conheci este festejado pianista.
[iii] Galleta, termo genérico em espanhol para diferentes tipos de biscoitos ou bolachas que, no Paraguai, significa um pão de “crosta dura”, crocante.
[iv] Paulo Barbosa Lessa, futuro desembargador, irmão mais velho do regionalista cofundador dos Centros de Tradição Gaúcha (CTG) Luiz Carlos Barbosa Lessa, filhos do médico Luiz Lessa, irmão de Joaquina.