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Trumpismo pela manhã, tarde e noite
Vitor Pinto
Sucedem-se na imprensa internacional os textos que procuram compreender o
que se passa em torno dos tempos de Donald Trump, tentando explicar a tragedia que
tem sido sua administração para o mundo e mesmo para os Estados Unidos. Na
verdade, para a imprensa de qualquer país não há outro assunto. O artigo
“Trumplândia”, do escritor e articulista argentino Sergio Olguín, publicado em 17 de
janeiro de 2026 em ‘Página 12’ de Buenos Aires, cuja essência consta a seguir,
fornece-nos um excelente e preciso resumo de como o atual presidente norte-
americano é encarado sob o ponto de vista de analistas independentes. Olguín,
nascido em 1967, é escritor com livros publicados e traduzidos em vários idiomas (The
fragility of bodies – Oscura monótona sangre – entre outros) e contribui regularmente
para jornais e revistas de seu país.
“Trumplândia
O crime organizado, sob o disfarce de política exterior, evolui. Os Estados
Unidos nunca foram um jardim de rosas, mas faziam um esforço enorme para parecer
um exemplo de democracia. Varriam para baixo do tapete, com a ajuda de Hollywood,
suas atitudes autoritárias e violentas. Pelo menos seus super-heróis lutavam por
justiça, seus soldados por liberdade e Guantánamo ficava em Cuba, longe dos olhos
de Washington.
Hoje este mundo idílico rompeu-se. Donald Trump veio dizer-nos o que já
suspeitávamos: o homem mau do filme é o personagem mais importante da história.
O discurso motivador que nos falava de liberdade e justiça converteu-se no que
sempre foi: um ato extorsivo para facilitar negócios das empresas norte-americanas e
saquear os recursos naturais de um país, como disse Trump, reafirmou Marcos Rubio
e o aceitou Corina Machado, que não quer ser presidente da Venezuela e sim vice-
rainha do governo de Trump.
Isso parece ter sido transportado para o próprio território norte-americano onde
os níveis de respeito pelos direitos civis estão em seus dias mais baixos.
Historicamente os Estados Unidos têm perseguido seus habitantes pela cor da pele ou
por sua origem. Nunca foi tranquilo ser negro, indígena, latino, muçulmano ou
indocumentado, mas havia certos limites que o Estado não ultrapassava. Hoje já não é
assim, o sonho americano tornou-se um pesadelo trumpista e o que parecia ser uma
perseguição a latinos ilegais passou a ser uma caça indiscriminada de latinos, muitos
com os papeis em dia, inclusive os nascidos nos EUA, um país que se converteu em
Trumplândia, onde Donald Trump faz o que quer sem prestar contas.
Para tanto dispõe de seu exército privado, sua tropa de choque: o Serviço de
Controle de Imigração e Aduanas, o já tristemente célebre ICE com seus robocops
sem lei produzidos em Detroit e que se escondem atrás de seus uniformes para
produzir violência. As estatísticas de detenções do ICE mostram números aterradores:
só nos primeiros nove meses do seu segundo mandato a Administração Trump deteve
200.000 pessoas, das quais 75 mil sem antecedentes criminais.
O inimigo interno é sempre o cavalo de batalha dos governos autoritários e não
deixa de ser paradoxal que as premissas inculcadas em West Point aos militares
norte-americanos agora se ponham em prática na Trumplândia: os sequestros
indiscriminados, a acusação de terroristas aos que se animam a protestar, o medo de
não saber se serei o próximo a ser detido. Bem-vindo, povo norte-americano às
políticas previstas pelos Estados Unidos para o resto do mundo.”
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