Foi em março de 2013 que Helena Maria Ferreira e eu decidimos viajar para Buenos Aires, não para visitar a Cristina Kirchner, mas, sim, para rever a um poeta e artista múltiplo, pai do Movimento MADI, naquela época residente à Calle Humauaca 4662, onde mantinha seu singular atelier-museu.
Gyula Kosiche e eu nos conhecemos quando frequentamos ao IV Curso Internacional de Férias, patrocinado pela Pró Arte e realizado na serrana Teresópolis. Naquela ocasião, um dos eventos mais eletrizantes foi o embate acalorado entre o argentino e o poeta Décio Pignatari e o pintor Waldemar Cordeiro, figuras de destaque no movimento concretista paulista da época.
Embora recorde detalhes de nossa visita e das obras de arte espalhadas por toda a casa - o museu era, nada mais nada menos, do que uma antiga residência -, o que lembro com curiosidade são os recortes de páginas de jornais coladas nas paredes com entrevistas, artigos e comentários a respeito de Kosiche, sua vida, suas influências, suas relações e suas obras.
Mesmo sem identificar o jornal e a data de edição, um dos recortes aguçou minha atenção por ter informações que me permitiram conhecer os primórdios de quem se tornou uma das figuras de maior destaque na Argentina das primeiras décadas do século XX. O título da entrevista era inesquecível: “Gyula Kosiche, la inquietud convertida em búsqueda”[i], e em letras maiores lê-se também:
No soy el mejor artista del mundo, pero sí el más original[ii]
Com tipos um pouco maiores, como que para chamar a atenção, lê-se:
Tudo começou com a proposta da Galeria A[iii] para premiar obras com temas vinculados à água, ao movimento e à luz; amanhã, o artista de 86[iv] anos, entregará prêmios a Christian Wloch, Matias Romero, Emiliano Causa e Martin Bonadeo.
Marcado por em um ângulo reto formado por linhas gráficas, tem começo o texto informativo:
Christian Wolch estará em primeiro lugar do Prêmio Bienal Kosiche, pela sua obra Frequência Orbital, uma escultura cinética, hidráulica, ótica e interativa, formada por vinte círculos transparentes, de acrílico suspensos sobre um recipiente de água. O artista áudio visual, de 38 anos, mostrará a obra premiada em tamanho reduzido. No seu projeto original, foi planejada com medidas que variavam de dois a quatro metros de comprimento, por um a dois metros de largura e por dois a três metros de altura, mas as dimensões são adaptáveis ao espaço da sala disponível.
E seguem-se as perguntas e suas respectivas respostas do premiado:
Por que participou? Tinha que ver que suas obras tenham pontos estéticos e temáticos comuns com as obras de Kosiche?
- Participei porque me pareceram muito interessantes seu anúncio, o júri e o espaço Objeto A e como venho trabalhando com a luz e o movimento como elementos compositivos e conceituais, a proposta do concurso me pareceu ideal. Há muito tempo conheço a obra de Kosiche que sempre foi uma referência pela sua imaginação, sua perseverança e o grande nível de inovação em toda sua obra.
Tema que mais aborda é a luz. Por que?
- Estamos muito acostumados a realidade cotidiana, mas ao nosso redor há muito mais do que vemos. Se analisarmos o espectro eletromagnético, nos daremos conta de que só percebemos uma pequena parte do que poderíamos ouvir e ver. Nossa percepção da realidade tem muitos caminhos, portas para diferentes dimensões. Utilizar a luz me permite chegar a essas realidades sutis com as que convivemos sem nos darmos conta. Minhas obras exploram esses caminhos sensoriais, são um convite à experiências etérea e luminosas.
- Poetizar ao mundo é a missão de sua arte?
- A arte não tem missão. Não é uma ideologia estética. É uma moeda do absoluto;
- E o que isso significa?
- Que não representa nada da realidade, não a cópia. Para isso existe a fotografia. Não se interessa por acreditar que está dentro de um expressionismo barato que não caminha ou é arte banal. Muitos pegam e vendem um animal submerso em formol. Existe uma pintora que vende a gordura do seu corpo para fazer sabão. Isso é uma estupides completa! Em vez de representação, a arte deve ser apresentação.
- Não deve haver representação referencial, a não ser sempre inédita.
- O restante não é arte.
Em outros trechos do jornal estão valiosos dados biográficos de Kosiche:
Kosiche era um adolescente inquieto quando descobriu a Leonardo Da Vinci a quem desde então achava uma relação com a sua curiosidade inventiva. Em 1953, realizou na Galeria Bonino uma exposição de sua produção artística - que na ocasião tinha resultado rentável permitindo-lhe abandonar definitivamente o ofício de guasqueiro[v] -, do qual um grupo de senhoras saiu murmurando: “Que atual está Leonardo”. “Ao lado na Galeria Velázquez expunham maquetes e desenhos de Da Vinci. Equivocaram-se de galeria”, riam com um desejo de orgulho.
Claro que não se conheceu ao polímata florentino[vi], mas sim a muitos outros intelectuais dos anos 60, com quem entrevistou-se especialmente na Europa. O plano era apresentar sua doutrina e enfrentar a crítica. Ali, para sobreviver sem gastar muito, comia uma maça por dia. Le Corbusier, Andre Malraux, Tristan Tzara e Julio Cortázar (com quem ia fazer compras em Paris) foram alguns dos seus interlocutores. Com Jean Paul Sartre teve algum atrito. Briguei nesse momento porque pendia muito à esquerda e ele abandonava. Se separou do Partido Comunista e eu seguia no socialismo. A discussão não foi sobre suas ideias nem sobre sua obra. Seus livros estão maravilhosamente escritos e tem uma grande claridade e clarividência, mas a mim afetou a parte política”, crítica triste.
- A desilusão...
- Sim. Quando fui vê-lo ele morava com a mãe em Paris. No quinto andar, sem elevador. No corredor um piano me recebeu. A mãe não estava, convidou-me a entrar. Fumava como uma besta. Fumava cigarros pretos. E cheirava um pouco mal. Eu fumava um pouco porque estava na moda. E com isso me divertia.
- No final dos 90 conheceu a Ray Bradbury que elogiou sua obra. O que lembra dele?
- Disse-me: “Nunca mais vou viajar de avião”. Eu estava morrendo de medo! Em vez de falar-me de cousas extraterrestres, me falava do avião, uma tecnologia que lhe permitia estar aqui em oito horas! E falava mal disso. As contradições do ser humano.
- Você costuma lembrar a muitos novelistas e poetas (Boudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Balzac) que foram decisivos em suas vidas, mas poucas vezes mencionados com referência à ficção cientifica...
- Eu lia Júlio Verne quando tinha 11 anos, a Salgari[vii] aos 12... [viii]
A coluna da esquerda da página do jornal continua registrando outros interessantes comentários de Gyula Kosiche.
Por este pequeno buraco que abre a imaginação nesta clausura que é a cruz do tempo e espaço, pode ver o que por acaso virá. “Sou um visionário e existem poucos artistas que o são”, conclui o escultor e pintor que, amanhã às 19h, na Galeria Objeto A (Niceto Veja 5181) entregará o Prêmio Bienal Kosiche ao pódio composto por Christian Wloch, Matias Romero, e Emilio Causa e Marytin Bonadeo, por sua vez, formalizará com a apresentação do seu Planetóide e uma retrospectiva de sua vida e obra, a terceira edição do ciclo de exposições sobre arte e tecnologia, que abre suas portas hoje e fica em cartaz até sábado, dia 18. Por isso, embora o encontro do escultor de 86 anos e Pàgina|12 aconteceu há três dias, segundo o calendário terrestre; tem um lugar no futuro da vanguarda que ele espiona.
Seu museu oficina no Bairro Almagro está às escuras ao meio dia, mas basta que peça a um dos seus assistentes - que, como ele, usam guarda-pó azul -, que seu universo começa a ranger para que as luzes dos neóns se acendam, os espelhos se abanem e as águas borbulhem. Luz, movimento e água são em sua obra uma tríade dentro da outra: ciência, tecnologia e arte. Rodeado de esculturas futuristas e planetas luminosos, as vezes o visitante se sente um pouco Jodie Foster em sua viagem interestrelar do filme Contacto. Ao atravessar este parque hidrocinético se chega ao ambiente de céu aberto que antecede a oficina e, no retângulo das plantas que murcham, acentua o caráter orgânico do imóvel da Humahuaka 4662 onde convivem harmonicamente mais de 100 obras em exposição permanente e grátis. Entre elas o maestro posa à frente dos flaches de luz. “Whisky!” contra-ataca com um comentário astuto e sarcástico quando a fotógrafa o "metralha", diz ele. Thomás Oulton, diretor da Objeto a, veio me procurar porque estava interessado em montar uma exposição sobre ciência, tecnologia e arte. A ideia era que jovens artistas que quisessem participar do Prêmio Bienal Kosiche pudessem fazê-lo, desde que seus trabalhos apresentassem temas relacionados à água, ao movimento e à luz, não necessariamente em interação”, explica. O uso do líquido e a recorrência de constelações nas obras deste argentino por vocação se baseiam em uma experiência de sua infância. Mais um piscar de olhos: 1928, a meio da viagem marítima entre a sua Checoslováquia natal e a Argentina. Aos quatro anos de idade, Kosiche encontra-se "suspenso entre uma viagem entre o céu e o mar", relata na sua autobiografia, publicada em janeiro passado. "A revelação de um mar infinito sob o céu estrelado se instala em mim de uma forma que só compreenderei muito mais tarde." Cerca 1965. Kosiche é um mentor da Arte Madi, um movimento já "muito disperso". A origem do nome é bem conhecida: em 1963, os republicanos espanhóis gritavam: "Madri, Madri! Eles não passarão!", uma expressão que o artista adotou para identificar o grupo (que também incluía os uruguaios Carmelo Arden Quin, com quem discutiu durante muitos anos sobre a idealização do movimento, e Rhod Rothfuss, criador da moldura recortada). "Acreditávamos em uma arte que fosse uma expressão pura e objetiva da mente humana como sujeito criativo", afirma ele. Uma precursora desse movimento artístico foi a publicação da lendária revista e manifesto histórico Arturo, a primeira publicação impressa de arte abstrata na América Latina. Na contracapa de uma única edição, Kosiche escreve:
Sem expressão. Sem representação. Sem significado. O homem conquistará o
Novamente a foto do recorte colado na parede do museu não mostra o que Kosiche continua a declarar. Lastimavelmente não a tenho.
[i] Gyula Kosice, a inquietação transformada em uma busca.
[ii] Não sou o melhor artista do mundo, mas sou o mais original.
[iii] Galeria A que em outros momentos deste artigo é citada como “espaço Objeto A”, “Galeria Objeto A” ou, simplesmente, “Objeto a”.
[iv] Se Gyula Kosiche nasceu em 1924, conforme informam diferentes fontes, em 2013 ao da visita de Helena e Vinholes ele teria 89 e não 86 anos como informa o recorte exibido m seu atelier.
[v] Guasqueio, na tradição gaúcha é o artesão que trabalha com couro.
[vi] Polímata, grande conhecedor em matérias cientificas e humanísticas.
[vii] Emilio Carlo Guiseppe Maria Salgari (1862-1911) foi prolifero escritor italiano com ficção histórica e científica.
[viii] Infelizmente a foto que tirei não mostra o restante do recorte do jornal que estamos examinando.