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AQUELE CAMINHO
Renato Ferraz
Era madrugada!
Saí muito cedo de casa, na pontinha dos pés, para não acordar o Sol, que a essa altura, já devia estar prestes a se levantar.
Eu e o Sol, como hoje, há dias que sequer nos vemos, saio muito cedo e só volto à noite para casa.
Eu saí de casa a pé. Esse foi um dos propósitos!
Sugeriram-me conhecer uma reserva ecológica, o que despertou minha curiosidade.
Tomei banho, tomei café e saí para realizar o passeio programado.
Assim que me afastei da área urbana, encontrei um idoso, à beira da estrada embaixo de uma árvore, sentado.
Sua aparência era a de um mendigo.
Sua roupa estava estraçalhada e ele, descalço.
Passei pelo Senhor, apenas o olhei, mas ele sorriu para mim. Tinha um sorriso triste.
Percorridos cerca de 5km, desconfiei que havia pego o caminho errado.
Pensei em voltar e pedir informações àquele Senhor, que já era para ter feito isto quando passei, pois ali eu já não tinha tanta certeza sobre aquela trilha.
Porém, esbarrei em minha consciência que me exigiu uma autocrítica sobre o porquê de não ter falado com aquele pobre homem, já que pareceu que eu o havia ignorado pela sua condição e aparência...
Havia, ao lado da estrada, uma vereda, parei para descansar embaixo de uma árvore, que era um umbuzeiro.
Sentei-me sobre um tronco e comecei a sentir o cheiro do mato úmido e dos frutos maduros caídos, beliscados pelos pássaros.
Inclusive vários deles pulavam de galho em galho, cantando inquietos.
Havia algumas borboletas que sobrevoavam e sentiam minha presença, faziam acrobacias, vinham em minha direção, parecia um bumerangue, de repente desviavam meio desequilibradas e seguiam seu rumo. Vi vários calangos e lagartixas que espichavam a cabeça com aquele pescoço duro levantado, me olhavam e saiam em disparada. Aqueles pequenos animais parecia brincarem, mas se sentiam incomodados com a minha presença ali em seu habitat.
Relaxei e quando abri os olhos, havia passado uma hora. Levantei e voltei ao caminho principal, de onde eu vim.
Logo à frente um homem caminhava lentamente.
Eu, mais rápido, passei por ele e o cumprimentei.
Ao sentir minha presença, parou, se virou, olhou em meus olhos, sorriu e deu bom dia.
Senti sinceridade naquele sorriso.
Eu continuei andando, enquanto pensava em várias coisas,
foi quando me deu um estalo, percebi alguma semelhança
entre este senhor e o anterior; a forma de sorrir de ambos era igual.
Indaguei sobre o caminho, se ele conhecia.
Ele foi contido e respondeu apenas o que eu perguntei.
Continuei a caminhar, passados alguns minutos encontrei uma bifurcação. Não havia nenhuma placa ou sinalização. Segui minha intuição. Havia três estradas, uma bem curta...
Eu fui pelo caminho à direita, dpois percebi que esse ia se curvando
até encontrar a estrada onde havia visto o idoso sentado.
Voltei ao ponto de origem.
Era o local onde estava aquele senhor embaixo da árvore.
Estava em dúvida se era o mesmo que depois passei por ele e nos falamos.
Bem, o sorriso era igual!
Ele poderia ter se levantado logo que passei e embora caminhasse devagar, enquanto eu repousei uma hora, ele passou por mim, durante aquele tempo que eu estava descansando...
por isso o havia encontrado à minha frente
De volta ao ponto de origem vi o local onde se encontrava o idoso
a primeira vez; sentei-me embaixo daquela mesma árvore e fiquei
tentando entender aquele momento. Estava indeciso se recomeçaria tudo ou se voltaria para casa e outro dia faria o percurso, com mais informações.
Cada coisa tem sua razão de ser!
Quando eu passei pelo homem, já havia dúvida sobre a estrada,
era para ter lhe pedido informação, mas sequer o cumprimentei...
Será que se ele estivesse bem aparentado, eu não teria me dirigido a ele?
Mas há um corpo por trás de uma roupa, dentro dele há um pessoa que não pode ser valorizada, apenas em função do traje ou da aparência.
Renato Ferraz
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