Ó venturoso companheiro, que teria eu a dizer-lhe senão isto: “tua angústia é a minha”.
Sinto como vós este insustentável peso da existência, este fardo que custa-me tanto carregar. E o que mais nos amofina senão a facilidade, que nos é facultativa, de dar cabo a tal suplício? Por que viramos as costas a esta questão? É-nos tão fácil pôr fim a este tormento, mas por que recusamo-nos? Por que esta absurda e comovente necessidade de esperança, quando a única esperança necessária é a morte?
Concordo com sua belíssima e esclarecedora ilustração de nossa absurda realidade. Quem contestará nossa posição de meros bonecos deste sonho? Sinto-me uma marionete, um brinquedinho nas mãos de uma menina, que brinca dentro de um quadro, que neste momento é visto por certo número de pessoas, que por sua vez estão sendo assistidas numa imensa tela de cinema por outros personagens, de um outro filme.
Penso a existência da seguinte maneira: Estou só, dentro de um quarto escuro. À minha frente, diversas telas, onde são transmitidas todas as cenas do meu quotidiano. O mais absurdo é que vejo-me desempenhando meus costumeiros papéis nestas telas. O fato é que, desligando, uma a uma, estas telas, continuo só, no quarto escuro. Percebe, caro amigo? Estou na realidade, sem nunca ter estado. Todo este quotidiano, esta realidade, que parece ser tão real, não passa de imagens à minha frente. E não fará qualquer diferença que estas imagens estejam ou não onde estão...
Como são complicadas estas questões! E agora, é minha vez de interpelá-lo: o que devemos fazer? Aguardar o despertar da Rã, para que, finalmente saibamos a verdade? Ou, simplesmente abrir a porta do escuro quarto em que estamos encerrados?