Chego em casa e atiro-me na poltrona preferida.
Dia exaustivo, física e emocionalmente.
Um banho demorado, sob a água corrente, para me livrar de todas as energias pesadas, é exatamente do que preciso nesse momento.
Dispo-me, ligo o chuveiro, regulo a temperatura e sento-me de olhos fechados, sob a água que jorra abundante, bem quentinha.
Adoro ficar assim, envolvida por essa cascata, como se novamente estivesse flutuando dentro do útero materno, em meus primórdios, bem pequenina.
É uma sensação intensa de segurança, aconchego e acolhimento.
Muitas vezes é durante esses momentos que tomo decisões importantes, que choro as lágrimas que não permito serem vistas, e que sonho os meus sonhos mais ousados.
Assim estava eu, meditativa, já sentindo a tensão se esvair, quando, de repente...Plim!
Choque!
Um pingo de água, absolutamente gelado, atingiu as minhas costas.
Olho para cima procurando o local de onde ele veio.
Missão quase impossível no meio de tanta água que jorra.
Desisto e volto à minha posição.
Plim!
Coisa irritante! Procuro novamente e não encontro o local de origem.
Plim!
Tento me posicionar de maneira que ele não me atinja. Em vão....Plim! Ele vem bem do centro.
Como pode? Não tem lógica! E coisas sem lógica me intrigam.
Percebo que tenho que tomar uma decisão: ou desisto de minha meditação e tomo um banho rápido, ou convivo com "ele".
Opto pelo desafio. E penso: vou descobrir em que ritmo ele cai, e assim não me pegará de surpresa.
Começo a contar lentamente:
Olho enfurecida para o alto e...Plim...direto na pontinha do meu nariz.
O que é isso? Um representante do Caos dentro do meu chuveiro?
Como pode ele cair sem um ritmo constante?
Fecho os olhos, impaciente, e de repente, uma figura surge girando no ar, em minha tela mental: o símbolo do TAO, com a representação das duas energias complementares, Yin e Yang. No centro do negro Yin, um ponto branco que representa o germe do Yang e vice-versa, mostrando que toda energia se transforma, pois tem dentro de si, a potencialidade para o oposto.
Então, me acalmo, e volto a relaxar, deleitando-me com a morna água Yang e agradecendo ao gélido pingo Yin, que em seu descompasso, me relembra que o ilógico existe, e que no Universo nada é absoluto nem estático.