Nasci - nascemos todos - como nasce um rio: filete prateado surgindo em uma fresta de rocha, pequeno, batendo contra as pedras à procura de um leito, para depois seguir borbulhante.
Cresci - crescemos todos - recebendo afluentes-influências, mesclando dentro de mim águas heterogêneas, seres-idéias de variadas formas.
A alguns, acolhi amorosamente; a outros eu rejeitei, por não se me assemelharem.
Continuei seguindo, ora com pouco fluxo, ora avolumando-me.
Hoje sigo veloz, ainda chocando-me contra pedras, mas sem que consigam me barrar.
Antes me fazem ganhar forças, respingar aos ares minha essência.
Ajudam-me a reter o que tenho de pior, meus resíduos e detritos, e assim sigo, cada vez mais límpida e cristalina.
Hoje já não há em mim rejeição.
Deixo ir por vontade própria os que preferem fogo à água.
E permito que em mim se banhem ou saciem sua sede, aqueles que em mim descobrem dádivas.
Mas, acima de tudo, eu sigo para algo muito maior que qualquer rio; sigo para a confluência de todos os rios.
Onde todos se tornam um.
Ou lá já estou?
Assim como o tempo é uma ilusão e já somos passado, presente e futuro neste instante, assim Eu Sou: filete prateado, rio caudaloso, mar imenso.